Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Festa do Batismo do Senhor

Festa do Batismo do Senhor

A salvação silenciosa e artesanal

 

Frei Gustavo Medella

É hora de voltar! Da praia, das férias, do descanso. Na Liturgia, fecha-se o Tempo do Natal com a Solenidade do Batismo do Senhor. O Menino Jesus, que veio para a salvação de todos e foi adorado e reverenciado pelos pastores, pelos magos, pelos anjos, agora é batizado – já adulto – por seu primo, João Batista, às margens do Rio Jordão. Ele é o Emanuel – Deus Conosco – no qual se confirmam e se concretizam as profecias do Antigo Testamento.

A Salvação por Ele proposta é espetacular, mas nada tem de espetaculosa. É discreta, silenciosa e serena, tal qual descreve o Profeta Isaías: “Ele [o Servo, o Salvador] não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas” (Is 42,2). É artesanal: “Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega” (Is 42,3). Silenciosa e artesanal: duas lições urgentes e necessárias para os tempos atuais.

O mundo está carente de silêncio, interior e exterior. Em tempos em que as questões se ganham no grito e na bala, em que o medo e a autodefesa erguem muros que distanciam e separam pessoas, no silêncio é que os diferentes conseguem se escutar, passam a se compreender e começam a se amar. Enquanto cada um estiver entorpecido pelo seu próprio barulho, imerso em seu “samba de uma nota só” (nada contra a música com este título, aliás, bem bonita), a Salvação estará distante e enfraquecida, pois ela só pode ocorrer no diálogo e no encontro.

O fio do silêncio é capaz de tecer uma disposição de escuta fundamental para que possam ser ouvidas as vozes daqueles que clamam silenciosamente pela salvação: moradores de rua, desempregados, pessoas em situação trabalhista precária e insuficiente, idosos e crianças abandonadas, expatriados, aqueles que vivem em zonas de conflito e guerra e tantos outros que anseiam por mudanças urgentes e necessárias.

A outra característica da Salvação é o fato de ela ser artesanal. Apesar das tentativas de apresentá-la de maneira “industrializada” e caricatural, ao modo da teologia da prosperidade ou de alguns modelos pautados no clericalismo e na exclusão, Deus quis que fosse algo construído a muitas mãos, com sensibilidade e perseverança. Numa sociedade onde o perecível e o descartável se apresentam como regra aplicada aos bens de consumo e, infelizmente, às pessoas, a pedagogia divina escolhe “não quebrar a cana rachada nem apagar o pavio que ainda fumega”.

Trabalhar nesta perspectiva significa apostar todas as fichas na bondade e no amor que Deus plantou em cada coração humano. Diante da lógica artesanal da salvação, caem por terra máximas simplistas e excludentes que são forjadas por uma mentalidade pautada num punitivismo violento e nada empático que apregoa a multiplicação de armas e de guerras como forma de se construir uma sociedade pacífica formada apenas por “pessoas de bem”. O verdadeiro projeto salvífico de Jesus não deseja promover apenas as “pessoas de bem”, mas entrega-se totalmente num esforço divino-humano de despertar e fazer florescer o “bem das pessoas”, de todas, sem exceção.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011

Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Isaías 42,1-4.6-7

Assim fala o Senhor: 1“Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minha alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações. 2Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. 3Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega, mas promoverá o julgamento para obter a verdade. 4Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos. 6Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, 7para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”.


Salmo Responsorial: 28(29)

Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!

1. Filhos de Deus, tributai ao Senhor, / tributai-lhe a glória e o poder! / Dai-lhe a glória devida ao seu nome, / adorai-o com santo ornamento! – R.

2. Eis a voz do Senhor sobre as águas, / sua voz sobre as águas imensas! / Eis a voz do Senhor com poder! / Eis a voz do Senhor majestosa. – R.

3. Sua voz no trovão reboando! / No seu templo, os fiéis bradam: “Glória!” / É o Senhor que domina os dilúvios, / o Senhor reinará para sempre! – R.


Segunda Leitura: Atos 10,34-38

Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. 35Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença. 36Deus enviou sua palavra aos israelitas e lhes anunciou a boa-nova da paz por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. 37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio, porque Deus estava com ele”.


A justiça vai ser realizada
São Mateus 3,13-17

* 13 Jesus foi da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João, e ser batizado por ele. 14 Mas João procurava impedi-lo, dizendo: «Sou eu que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?» 15 Jesus, porém, lhe respondeu: «Por enquanto deixe como está! Porque devemos cumprir toda a justiça.» E João concordou.

16 Depois de ser batizado, Jesus logo saiu da água. Então o céu se abriu, e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e pousando sobre ele. 17 E do céu veio uma voz, dizendo: «Este é o meu Filho amado, que muito me agrada.»


* 13-17: Neste Evangelho, as primeiras palavras de Jesus apresentam o programa de toda a sua vida e ação: cumprir toda a justiça, isto é, realizar plenamente a vontade de Deus e seu projeto salvador.
Cf. também nota em Mc 1,9-11.

Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Batismo do Senhor

 

Oração: Deus eterno e todo-poderoso, que, sendo o Cristo batizado no Jordão, e pairando sobre ele o Espírito Santo, o declarastes solenemente vosso Filho, concedei aos vossos filhos adotivos, renascidos da água e do Espírito Santo, perseverar

Constantemente em vosso amor.

 

  1. Primeira leitura: Is 42,1-4.6-7

Eis o meu servo: nele se compraz minha alma.

 

A segunda parte do livro de Isaías (Is 40–55), inclui quatro poemas, chamados Cânticos do Servo Sofredor. Para a primeira leitura da festa do Batismo do Senhor foi escolhido o primeiro Cântico, escolha bem apropriada para iluminar o sentido do batismo de Jesus. Os primeiros cristãos começaram a ler o texto grego do Antigo Testamento à luz da fé em Cristo morto e ressuscitado. Em grego, a mesma palavra pais significa servo e filho. Assim, o servo é identificado com o Filho de Deus. Reliam os Cânticos do Servo Sofredor para interpretar a vida e a missão de Jesus (ver At 8,26-40).

Na primeira leitura é Deus quem fala em primeira pessoa: “Eis meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito. Nele se compraz a minha alma”. A figura misteriosa do servo recebe o espírito de Deus para cumprir uma missão universal, “o julgamento das nações”. O termo “julgamento” ocorre duas vezes e o mesmo acontece com a palavra “Juiz”. O juiz é o servo, mas não anunciará um julgamento punitivo, pois os exilados pagaram em dobro pelos seus crimes (Is 40,2). O julgamento das nações é para salvar o povo eleito. O Servo virá com a mansidão de um pastor que cuida de suas ovelhas, sobretudo, das mais fracas: Não quebrará a cana rachada, nem apagará o pavio que ainda fumega. Nem descansará enquanto não estabelecer os seus ensinamentos e a justiça na terra. O Servo é escolhido a dedo – “eu te tomei pela mão”. Por fim, o Servo recebe uma missão: abrir os olhos aos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar os que vivem na escuridão do cárcere. O Servo Sofredor é alguém que se compadece e sofre com os injustiçados. Mateus usa o texto hoje lido para descrever a missão de Jesus (Mt 12,15-20).

 

Salmo responsorial: Sl 28 (29

Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!

 

  1. Segunda leitura: At 10,34-38

Foi ungido por Deus com o Espírito Santo.

 

Na segunda leitura ouvimos um trecho do discurso de Pedro na casa de Cornélio, comandante de um batalhão romano. O comandante ouvira falar muito de Jesus, o grande profeta de Nazaré, condenado à morte de cruz por Pilatos. Desejoso de conhecer melhor a Jesus mandou chamar Pedro que estava em Jope para que viesse até em Cesareia, onde residia. O Apóstolo, conduzido pelo Espírito do Senhor, atendeu ao convite apesar de sua relutância em falar para os pagãos. Enquanto falava, o Espírito Santo se manifestou sobre Cornélio e seus familiares, como havia acontecido no dia de Pentecostes com os apóstolos e discípulos. Então, Pedro começa a entender que Deus não faz distinção entre judeus e pagãos, mas acolhe “quem o teme e pratica a justiça”, não importa de que nação ele seja. Em seu discurso Pedro não descreve os acontecimentos em torno da pessoa de Jesus, já conhecidos de muita gente, inclusive de Cornélio. Por isso diz: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo de João”. Invertendo a frase, temos o resumo e a estrutura dos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas: Batismo de Jesus, atividades de Jesus na Galileia e paixão morte e ressurreição na Judeia (Jerusalém). O que importa na primeira pregação (querigma) é o testemunho da fé: a) Jesus foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder; b) com esse poder “Ele andou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio”; c) “porque Deus estava com Ele”.

 

Aclamação ao Evangelho

Abriram-se os céus e fez-se ouvir a voz do Pai:

Eis meu filho muito amado; escutai-o, todos vós!

 

  1. Evangelho: Mt 3,13-17

Depois de ser batizado,

Jesus viu o Espírito de Deus pousando sobre ele.

 

Celebramos domingo passado a festa da Epifania, encerrando as narrativas da história da infância de Jesus em Mateus e Lucas. Depois de ser batizado por João, Jesus é ungido pelo Espírito Santo e constituído como o Messias esperado por Israel, pronto para iniciar sua missão na vida pública. Naquele tempo havia uma grande expectativa da vinda iminente do Messias. João Batista, “ a voz que clama no deserto”, começa a convocar todo o povo da Judeia e da Galileia para a conversão e um batismo para o perdão dos pecados. No clima da esperança da vinda do messias, animada pela pregação do Batista, Jesus vem da Galileia até o rio Jordão para encontrar-se com João e ser por ele batizado. Jesus não precisava de conversão nem de perdão dos pecados. “Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Mesmo assim, Jesus entre na fila com o povo para ser batizado. João parece perceber isso e protesta: “Eu é que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim”? E Jesus responde: “… nós devemos cumprir toda a justiça”. Com estas palavras Jesus se solidariza com os pecadores que haveria de salvar por sua morte na cruz. Diante do povo João reconhece a superioridade de Jesus e do batismo cristão. João batizava apenas com água, “em sinal de conversão”; Jesus, porém, haveria de batizar “no Espírito e no fogo” (3,11). Logo que foi batizado por João, Jesus saiu da água e o céu se abriu – literalmente, “rasgou-se” – e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre si; era um sinal visível de uma escolha divina, confirmado pela voz do céu, que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual pus o meu agrado”. Assim Deus apresenta seu Filho Jesus, ungindo-o como o Messias esperado e qualificando-o para missão salvadora de toda a humanidade. Essa missão se encerra quando Jesus morre na cruz, a cortina do Templo “se rasga” e o oficial romano exclama: “Na verdade, este era Filho de Deus” (Mt 27,34).

O batismo de Jesus o prepara para a missão e nos convida a assumirmos a nossa missão (2ª leitura).


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Batismo: rito velho com sentido novo

Frei Clarêncio Neotti

O Batismo de Jesus é contado pelos quatro evangelistas. Isso significa que os primeiros cristãos davam uma importância muito grande ao fato. A palavra ‘batizar’, ‘batismo’ vem do grego e era usada na linguagem de todo dia, significando ‘mergulhar’, ‘imergir’. Mas o costume de lavar-se ou de mergulhar podia ter também um sentido religioso, tanto no Antigo Testamento quanto em regiões da Grécia, do Egito e da Índia.

Três sentidos aparecem sempre, ora acentuando mais um, ora acentuando mais outro: a purificação externa e interna da pessoa (o Catecismo nos ensina que ele nos liberta do pecado original e tem força de perdoar outros pecados); a procura de um acréscimo de forças vitais e o dom da imortalidade (o Catecismo nos ensina que o mergulho na água do batismo significa o mergulho na morte de Cristo para poder com ele ressuscitar e levar uma vida nova); e um rito de iniciação, de introdução na comunidade, de assunção das obrigações e vantagens religiosas.

João Batista não inventou, portanto, o batismo. Sem omitir os três sentidos tradicionais (que a Igreja adotou), João acentua um quarto: a conversão. E nisso coincide com a pregação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15). João prepara o sentido profundo da doutrina de Jesus sobre a pertença ao Reino de Deus, cuja primeira condição é a conversão do coração. Os evangelhos mostram que João tinha consciência de estar apenas preparando o caminho de Jesus (Mt 3,11; Mc 1,7; Lc 3,15-16;Jo 1,19-27).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Nas águas do Rio Jordão

Frei Almir Guimarães

Assim fala Jesus a João, o Batista, no momento em que queria ser batizado, momento em que o precursor hesitava em acolher seu pedido: “Pelo meu batismo é que as águas serão santificadas recebendo de mim o fogo e o Espírito. Se eu não receber o batismo, elas não poderão ter o poder de gerar filhos imortais. É absolutamente necessário que tu me batizes, sem discussão, como te ordenei. Eu te batizei no seio materno; batiza-me agora no Jordão”
Santo Efrém, diácono

♦ Estamos ainda no tempo das manifestações do Senhor. No Natal os anjos o anunciam como salvador na criança de Belém e falam da paz que então passa a existir no coração dos homens amados pelo Senhor. Na Epifania, magos que vieram de longe acolhem a manifestação do Menino das Palhas. Agora o Espírito desce sobre Jesus nas águas do Jordão. Ungido para missão, ele havia santificado as águas com sua presença e a voz do Pai coroou a tudo. “Este é o meu Filho bem-amado, escutai-o”. Um novo nascimento? Certamente que não. Os três eventos, no entanto, se entrelaçam: a manjedoura do menino das palhas, a manifestação ao magos e a imersão nas águas do Jordão e a atestação do Pai e do Espírito. Jesus é, literalmente o ungido.

Batismo de água: eis um movimento de renovação interior inaugurado pelo Batista, que viera do deserto pedindo a transformação interior do homem. É dentro do coração do homem e de todos os homens que começa a se operar a renovação do mundo. Jesus insistirá no tema da conversão. João havia experimentado sucesso com sua pregação e muitos entravam no Jordão para receber este batismo de água. Jesus se associa ao cortejo dos pecadores. “Quero estar perto daqueles que começam a mudar o coração. João, vem aí alguma coisa nova. Vamos construir um mundo diferente. Vou purificar as águas do Jordão, santificá-las”, assim poderia dizer Jesus. Joao é o precursor, o preparador dos caminhos do Senhor. Não seria essa a missão da Igreja, de cada cristão, ou seja, de preparar os caminhos do Senhor? Depois do batismo no Jordão Jesus se sente autorizado a começar sua missão. Esse é o verdadeiro batismo: na água e no Espírito.

♦ “Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba, vindo pousar sobre ele. E do céu vinha uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (cf.ev. do dia). Solene confirmação da filiação divina de Jesus, o Filho amado no qual são colocadas todas as complacências do alto.

♦ “Hoje é, portanto, como que um novo natal do Salvador. Vemo-lo, de fato, gerado com os mesmos sinais e milagres, porém com maior mistério. Pois o Espírito Santo, que o assistiu no seio materno, agora o ilumina em meio ao rio; aquele que preservou Maria para ele, agora santifica-lhe as águas. O Pai que antes estendeu sua sobra poderosa, agora faz ouvir a sua voz. E Deus, que outrora envolveu em sombra o nascimento, dá agora, como por uma deliberação mais perfeita, testemunho da verdade, dizendo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o” (São Máximo de Turim).

♦ O mesmo São Máximo de Turim, continua a nos esclarecer: “Que batismo é este, o do Salvador, no qual as águas em vez de purificar, são purificadas? Num novo gênero de santificação, a água não lava, mas é lavada. Desde o momento em que em emergiu da água, o Salvador consagrou todas as fontes no mistério do batismo, para que todo aquele que quiser ser batizado em nome do Senhor seja lavado não pela água do mundo, mas purificado pela água do Cristo. Assim, o Salvador quis ser batizado não visando adquirir pureza para si, mas afim de purificar as águas para nós”.

♦ Dá que pensar esta reflexão. No momento do Batismo de Jesus, uma voz do céu pede que esse Jesus, o Filho amado, seja ouvido. O apelo nos é dirigido. Passar a vida atentos ao que Jesus nos diz, nos mostra com sua vida, com suas palavras e com sua morte e ressurreição. Passar a vida à escuta do Filho amado. Carinhosamente unidos a ele.

♦ A celebração do Batismo do Senhor deve ser ocasião que pensemos em nosso próprio batismo, perdido nas brumas do tempo. “Os fiéis que nasceram e viveram na fé da Igreja têm necessidade de redescobrir a grandeza e as exigências da vocação batismal. É paradoxal que o batismo, fazendo o homem um membro vivo do Corpo de Cristo, não esteja bem presente na consciência explícita do cristão e que a maior parte deles não considere o seu ingresso na Igreja através da iniciação batismal, como momento decisivo de sua vida. O batismo nos foi dado em nome de Cristo, põe-nos em comunhão com Deus; é um novo nascimento; uma passagem da solidariedade no pecado à solidariedade no amor, das trevas e solidão ao mundo novo da fraternidade” (Missal da Paulus). O que fizemos de nosso batismo? Temos o cuidado de renová-lo, de modo especial durante o tempo catecumenal da quaresma e de modo especial na Vigília Pascal?


Para refletir

Nos primeiros séculos do cristianismo, o batismo era normalmente a culminação de todo processo de conversão e vinha expressar, de maneira viva, a aceitação consciente e responsável da fé cristã. Hoje não é mais assim. Nós somos batizados uns poucos dias depois de nosso nascimento, sem possibilidade alguma de que o batismo fosse um gesto pessoal nascido de nossa própria decisão. Esta prática de batizar as criancinhas foi introduzida bem cedo nas comunidades cristãs e, sem dúvida, tem um significado profundo na família que deseja ver seu filho integrado na comunidade cristã. Não obstante e por legítimo que seja o costume multissecular, é evidente que implica em graves riscos, se não adotamos uma postura responsável. O batismo das criancinhas não pode ser entendido como culminância de um processo de conversão. Só terá sentido se o considerarmos o inicio de uma vida que deverá ser ratificada mais tarde. O batismo que recebemos como crianças está exigindo de nós, adultos, uma confirmação na fé, uma ratificação pessoal. Sem ela, nosso batismo continua incompleto, como sinal vazio de conteúdo responsável, como chamado sem eco nem resposta verdadeira.

José Antonio Pagola, O caminho aberto por Jesus, Mateus, p. 43-44


Oração

Espírito de Deus, Espírito de Jesus,
Espírito da sinagoga de Nazaré,
Tu que és o Espírito dos pobres
e dos que foram ungidos para lutar com eles.
Vem.
Vem se tardar.
Unge-nos com teu óleo santo.
Inunda nossos corações com seu amor.
Depois, envia-nos os pobres,
para levar-lhes alegria e a dignidade de Jesus,
para dar-lhes o que devemos por justiça,
a fim de fazer um mundo novo à tua medida,
o mundo do Espírito
P.Loidi


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

O Espírito bom de Deus

José Antonio Pagola

Jesus não é um homem vazio nem disperso interiormente. Não age por aquelas aldeias da Galileia de maneira arbitrária, nem movido por qualquer interesse. Os evangelhos deixam claro desde o início que Jesus vive e atua movido pelo “Espírito de Deus”.

Não querem que Ele seja confundido com qualquer “mestre da lei”, preocupado em introduzir mais ordem no comportamento de Israel. Não querem que Ele seja identificado com um falso profeta, disposto a buscar um equilíbrio entre a religião do templo e o poder de Roma.

Além disso, os evangelistas querem que ninguém o equipare ao Batista. Que ninguém o veja como simples discípulo e colaborador daquele grande profeta do deserto. Jesus é “o Filho amado” de Deus. Sobre Ele “desce” o Espírito de Deus. Só Ele pode “batizar” com Espírito Santo”.

Segundo toda a tradição bíblica, o “Espírito de Deus” é o alento de Deus que cria e sustenta toda a vida. É a força que Deus possui para renovar e transformar os viventes. Sua energia amorosa que busca sempre o melhor para seus filhos e filhas.

Por isso Jesus se sente enviado não para condenar, destruir ou maldizer, mas para curar, construir e abençoar. O Espírito de Deus o conduz a potenciar e melhorar a vida. Cheio desse “Espírito” bom de Deus, Ele se dedica a libertar as pessoas de “espíritos malignos”, que não fazem senão danar, escravizar e desumanizar.

As primeiras gerações cristãs tinham bem claro na memória o que Jesus havia sido. Resumem assim a lembrança que Ele deixou gravada em seus seguidores: “Ungido por Deus com o Espírito Santo … passou pela vida fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele” (At 10,38).

Que “espírito” nos anima hoje como seguidores de Jesus? Qual é a “paixão” que move sua Igreja? Qual é a “mística” que faz nossas comunidades viver e atuar? O que estamos incutindo no mundo? Se o Espírito de Jesus está em nós, vamos viver “curando” os oprimidos, deprimidos ou reprimidos pelo mal.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Solidariedade e salvação

Pe. Johan Konings

Nesta festa, celebrada no domingo depois da Epifania, a liturgia recorda o batismo de Jesus por João Batista nas águas do Jordão. É mais uma “epifania: Jesus é manifestado como Filho de Deus.”

A 1ª Leitura apresenta o 1º cântico do Servo (Is 42), que recebe o Espírito de Deus para ser a luz das nações e o libertador dos oprimidos. Assim, ao ser Jesus batizado por João, Deus o proclama “seu filho”, e o Espírito de Deus desce sobre ele de modo visível, em forma de pomba – o pássaro mensageiro. Recebendo o Espírito de Deus, Jesus assume sua atividade como enviado de Deus. Por isso, conforme a 2ª leitura, a pregação dos apóstolos a respeito de Jesus iniciava com a menção do batismo de Jesus por João.

Jesus é, portanto, o Servo do Senhor por excelência, o Filho de Deus. Sobre ele repousa o Espírito Santo, o dinamismo de Deus Santo, fazendo com que tudo o que o Filho faz seja obra que Deus deseja (evangelho). Neste sentido devemos compreender a objeção do Batista, que achava que ele devia ser batizado por Jesus e não o contrário. Se Jesus é maior que o Batista, por que deixou-se batizar por ele? Se João Batista batizava para pedir o perdão dos pecados, Jesus não devia estar no meio dos batizados… Ou sim? Pois Jesus é o realizador do desígnio (projeto) de Deus. Jesus quer ser solidário com o povo que ele vem libertar; embora ele mesmo não tenha pecado, pede a João para ser batizado em meio aos pecadores. Assim, ele quer “cumprir toda a justiça”, isto é, o plano de salvação de Deus.

Jesus não se comporta como um privilegiado. Se queremos salvar alguém, tirar alguém do poço, devemos descer até onde ele está… Por isso, Jesus se deixa batizar no meio dos pecadores, cumprindo assim a justiça, o plano do Pai. O batismo de Jesus é despojarmos de sua grandeza divina, e, ao mesmo tempo, manifestação do Espírito. Isso contém um significado para nosso próprio batismo. Para comunicar o Espírito no qual fomos batizados devemos mergulhar no mundo em que vivem os nossos irmãos e irmãs, mundo marcado pela presença do pecado. Jesus participou do batismo do perdão dos pecados porque participava da comunidade humana curvada sob o pecado.

O batismo cristão não significa meramente o perdão dos pecados, como o de João (muito menos mera bênção de saúde ou coisa semelhante). É a participação no batismo de Cristo e na sua missão como Servo de Deus, no Espírito. Nosso batismo deve levar-nos ao serviço de nossos irmãos. Ser batizado é tornar-se Servo do Senhor com Cristo, o Servo por excelência. A preparação do batismo deve ensinar isso aos candidatos, ou aos pais e padrinhos.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo com Frei Gustavo Medella