Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

5º Domingo da Quaresma

Quinto domingo da Quaresma

Os grãos de trigo da pandemia

 

Frei Gustavo Medella

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (Jo 12,24).

287.799 grãos de trigo até o dia 19 de março de 2021. São as tristes estatísticas da pandemia, assunto sobre o qual ninguém aguenta mais tratar. As pessoas anseiam por encontrar uma porta aberta, um caminho por onde seguir, um facho de luz, um lampejo de esperança. Jesus morreu para que a vida fosse mais vida, para que seu exemplo tocasse o coração humano, para que as prioridades fossem reconsideradas.

Infelizmente, a lição do Mestre não tem sido bem aprendida. O egoísmo, a alienação, o negacionismo e a luta, não pela vida e pela justiça, mas pela manutenção de privilégios, têm sido verdadeiras ervas daninhas que sufocam e matam a vida que o grão de trigo entregue e morto poderia gerar. Nem pela via da perda e do sofrimento a sociedade tem aprendido a ser diferente para melhor. Parece uma grande anestesia que confunde, desmobiliza, destrói e mata.

Deus, por sua vez, como Pai que jamais desiste dos seus, insiste na força da Aliança, não se cansa de perdoar a maldade e sempre aposta na possibilidade do recomeço. Acreditar nesta Força maior nos ajuda a recuperar nossa vontade de seguir adiante, fazendo a nossa parte, seguros por um ínfimo fio de esperança que não perece porque sustentado por um Amor infinito da parte de Deus.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011..


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Jeremias 31,31-34

31“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança; 32não como a aliança que fiz com seus pais, quando os tomei pela mão para retirá-los da terra do Egito, e que eles a violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles, diz o Senhor. 33Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, diz o Senhor: imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo. 34Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’ Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado.”
Palavra do Senhor.


Sl 50(51)
Criai em mim um coração que seja puro.
Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! / Na imensidão de vosso amor, purificai-me! / Lavai-me todo inteiro do pecado / e apagai completamente a minha culpa! – R.
Criai em mim um coração que seja puro, / dai-me de novo um espírito decidido. / Ó Senhor, não me afasteis de vossa face / nem retireis de mim o vosso Santo Espírito! – R.
Dai-me de novo a alegria de ser salvo / e confirmai-me com espírito generoso! / Ensinarei vosso caminho aos pecadores, / e para vós se voltarão os transviados. – R.


Segunda Leitura:Hebreus 5,7-9

Leitura da carta aos Hebreus – 7Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus. 8Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. 9Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem.
Palavra do Senhor.


A missão do verdadeiro Messias
Evangelho: Jo 12,20-33

– 20 Entre os que tinham ido à festa para adorar a Deus, havia alguns gregos. 21 Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: «Senhor, queremos ver Jesus.» 22 Filipe falou com André; e os dois foram falar com Jesus.

23 Jesus respondeu para eles, dizendo: «Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. 24 Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto. 25 Quem tem apego à sua vida, vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, vai conservá-la para a vida eterna. 26 Se alguém quer servir a mim, que me siga. E onde eu estiver, aí também estará o meu servo. Se alguém serve a mim, o Pai o honrará. 27 Agora estou muito perturbado. E o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. 28 Pai, manifesta a glória do teu nome!»

Então veio uma voz do céu: «Eu manifestei a glória do meu nome, e vou manifestá-la de novo.» 29 A multidão que aí estava ouviu a voz, e dizia que tinha sido um trovão. Outros diziam: «Foi um anjo que falou com ele.» 30 Jesus disse: «Essa voz não falou por causa de mim, mas por causa de vocês. 31 Agora é o julgamento deste mundo. Agora o príncipe deste mundo vai ser expulso 32 e, quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim.» 33 Jesus assim falava para indicar com que morte ia morrer.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

5º Domingo da Quaresma

Oração: “Senhor nosso Deus, dai-nos por vossa graça caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo”.

  1. Primeira leitura: Jr 31,31-34

Concluirei uma nova aliança,

e não mais lembrarei o seu pecado.

Jeremias já era profeta quando, em 622, o rei Josias, apoiado pelos sacerdotes e os anciãos, renovou a aliança com Deus, centralizou o culto no templo de Jerusalém e proibiu o culto a outros deuses. Mas esta aliança logo foi rompida pelos patrões que haviam se comprometido a libertar seus escravos, mas tornaram a escravizá-los quando os babilônios levantaram temporariamente o cerco de Jerusalém. Pouco depois, porém, os babilônios voltaram e conquistaram Jerusalém, levando milhares de judeus para o exílio de Babilônia.

Em nosso texto, Jeremias promete que Deus fará uma nova aliança, diferente da antiga aliança do Sinai, tantas vezes violada. A nova aliança incluirá os sobreviventes do reino de Israel, destruído pelos assírios, e do reino de Judá, pelos babilônios. Os termos da aliança não serão mais escritos em pedra, como a aliança do Sinai, mas gravados no coração de cada pessoa. Vai arrancar o coração de pedra e substituí-lo por um coração de carne, humano e sensível, capaz de receber o Espírito do Senhor (cf. Ez 36,26-27). A Lei não precisará mais ser ensinada, mas será vivida porque todos “conhecerão” a Deus, terão a experiência de seu amor misericordioso, que tudo perdoa.

Salmo responsorial: Sl 50

Criai em mim um coração que seja puro.

  1. Segunda leitura: Hb 5,7-9

Aprendeu a obediência e tornou-se causa de salvação eterna.

 O texto da presente leitura é uma interpretação da cena da agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, descrita pelos evangelistas. O autor não esconde a angústia de Jesus frente à morte, parte integrante da vida humana, nem as preces, súplicas e lágrimas para que o Pai o livrasse desta hora (evangelho: “Pai, livra-me desta hora”). Destaca, porém, que Jesus aprendeu a ser obediente, tornando-se assim causa de salvação para os que o imitam na obediência. É o que confirma a Carta aos Hebreus: “Ao entrar no mundo, Cristo diz: Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas preparaste-me um corpo…Eis-me aqui, ó Deus, venho para fazer a tua vontade” (Hb 10,5-7). Afirma que a oração de Jesus foi atendida pelo Pai, sem livrá-lo da morte (5,7), mas glorificando-o pela ressurreição (cf. Fl 2,5-11; Is 52,13–53,12).

Aclamação ao Evangelho:

Glória a vós, ó Cristo, verbo de Deus.

Se alguém me quer servir, que venha atrás de mim;

e onde eu estiver, ali estará meu servo.

  1. Evangelho: Jo 12,20-33

Se o grão de trigo cair na terra e morrer, produzirá muito fruto.

Alguns judeus de origem grega se dirigiram a Filipe e André porque “queriam ver a Jesus”. Ambos eram de Betsaida, a região mais helenizada da Galileia. André fazia parte dos seguidores de João Batista e, encaminhado pelo Batista, é o primeiro a seguir a Jesus. Por outro lado, segundo João, Filipe é o primeiro e único discípulo que Jesus chama diretamente para segui-lo. André já havia chamado seu irmão Simão Pedro para conhecer a Jesus (Jo 1,40-42). Filipe, por sua vez, foi chamar Natanael para conhecer Jesus de Nazaré (Jo 1,45-51). Filipe e André vão até Jesus e expõem o pedido dos gregos. Jesus, porém, lhes dá uma resposta que inicia uma virada no Evangelho de João. Conclui a primeira parte do Evangelho (Jo 1,19–12,50: o “Livro dos Sinais”) e dá início ao “Livro da Exaltação (13–20): “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado”. Várias vezes Jesus havia falado desta sua “hora” (Jo 2,4; 4,21.23; 5.25.28; 7,30; 8,20). É a hora da glorificação do Filho do Homem. Esta glorificação coincide com sua exaltação e morte na cruz, e culmina com a ressurreição. A chegada desta “hora” é comunicada por Filipe e André, em primeiro lugar, aos gregos que desejavam ver Jesus. No “Livro dos Sinais” Jesus se dirigia, sobretudo, aos judeus. Chegando a “hora” de sua exaltação dirige-se a todos, especialmente, aos gregos: “É necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”, também os pagãos (evangelho do 4º Domingo). O Filho do Homem entrega sua vida por todos, morre como o grão de trigo, para produzir fruto.

Para estar com Jesus, o discípulo deve ter a mesma disposição do Mestre: “Quem se apega à sua vida, perde-a, mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conserva-a para a vida eterna”. Estar com Jesus é estar com Ele em sua agonia (cf. Mt 26,36-46).

O Evangelho de João vê Jesus através de sua glorificação, mas não esconde o drama humano de sua existência (cf. 2ª leitura).


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

São precisos os olhos da fé

Frei Clarêncio Neotti

Na primeira vez que Jesus, em sua vida pública, subiu a Jerusalém, recebeu a visita de Nicodemos (Jo 2,23; 3,1-21). O velho mestre representava, de certa forma, todos os judeus a quem Jesus anunciava, em primeiro lugar, a nova doutrina e as condições exigidas para recebê-la. Agora, é um grupo de gregos pagãos que o foram ver.

No encontro com Nicodemos, Jesus falou de sua ‘exaltação. quando fosse levado à cruz (Jo 3,14). Agora anuncia que é chegada a hora de sua glorificação na morte (12,23).

Os gregos “queriam ver Jesus” (v. 21). ‘Ver’, no Evangelho de João, está na linha do ‘crer’. Não basta ver Jesus com os olhos do corpo. Muitos dos que o viam, nele não acreditavam. Eram precisos os olhos da fé. E para tanto se fazia necessário entrar no destino de Jesus.

Ele fala por parábolas. Compara-se a um grão de trigo, que morre para poder dar fruto (v. 24). Ver Jesus é compreender, o quanto for possível, esse caminho de morte e vida, de humilhação e glória. Vê, de fato, Jesus quem for também capaz de ser grão de trigo e fazer morrer seu egoísmo e seus interesses (v. 25), para que repontem frutos de salvação.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

O fim da trajetória se avizinha

Há gregos querendo ver Jesus

Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salva-lo da morte. E foi atendido por causa de sua entrega a Deus.
Hebreus 5,7

♦ Na próxima semana estaremos cantando loas ao Filho de Davi com ramos nas mãos, seguindo Jesus em sua solene entrada em Jerusalém. Solene, é verdade, mas em toda sua singeleza. O evangelista João nos oferece alguns pontos de meditação para que vivamos mais intensamente os dias da semana das semanas na proclamação do evangelho deste domingo.

♦ Gregos queriam ver Jesus: O mundo em que Jesus circulava era a Palestina. Alguns gregos que professavam a fé judaica estavam em Jerusalém por ocasião das trevas e se interessaram por Jesus. Disseram a Filipe que queriam ver Jesus.

♦ Vê-lo fisicamente. Mas, sobretudo compreender suas intenções e seus projetos. Aos gregos parecia que Jesus trazia algo de cativante. Filipe combinou com André e os levaram a Jesus. Talvez nós também necessitemos “ver Jesus com os olhos da fé”. Não nos contentamos com noções históricas nem com as marcas de seu corpo no Sudário de Turim. Precisamos vê-lo como o esplendor do Pai, a sabedoria feita carne, um ser todo tecido de amor, alguém que à luz da fé vive entre nós. Talvez nesses dias da Quaresma precisemos responder quem tu és, tu que vemos com os olhos da fé? Vejamos, segundo João, o que Jesus teria dito aos gregos.

♦ Chegada a hora – Jesus fizera o que tinha que fazer. Palavras, encontros, jeito de se encontrar as pessoas, sermões esplendorosos como o das bem-aventuranças, carinho com as crianças e o pobres, tentativa de criar um mundo de irmãos, de lavadores dos pés, nesse tempo de vida sempre numa carinhosa audição do Pai. Chegara a hora da sua glorificação. Para João a elevação no cruz já era a glorificação do Filho de Deus.

A imagem do grão que morre. Os gregos e nós precisamos saber que ele, Jesus, é um grão lançado à terra. O lavrador lança sementes, grãos secos à terra, irriga o terreno, deixa um grão de arrebentar, estourar dentro da terra e morrer. De repente um talinho verde emerge da terra cheio de viço empurrando a terra sem pedir licença. Da morte do grão vem a vida. Jesus é o grão lançado à terra e que produz vida para a vida do mundo. Morto fica sendo plenitude de vida.

O que ama-se a si mesmo: Os gregos e nós continuamos a ouvir a resposta de Jesus. Há pessoas que se amam demais. Claro que temos que amarmo-nos a nós mesmos. Uma pessoa que não se preza, em todos os sentidos, não é gente. Quem, no entanto, se agarra a si mesmo, evita tudo que não lhe agrada, que não é capaz de lavar os pés dos outros. Quem se olha demais no espelho, fixa seu olhar nos músculos dos braços ou na beleza e sua arcada dentária, quando apenas viver sua vida, perde-a. Gastou-a para si mesmo Precisamos entender corretamente estas palavras de Jesus: “Aquele que ama sua alma, perde-a; mas o que odeia sua alma neste mundo haverá de guarda-la para a avida eterna. Em poucas palavras: as pessoas por demais centradas em si mesmas se tornam detestáveis egoístas, da verdade, mas organismos mortos. Há perdas que são ganhos.

♦ “Quem se agarra egoisticamente à sua vida a põe a perder. Quem sabe entregá-la com mais generosidade gera mais vida. Não é difícil comprová-lo. Quem vive exclusivamente para seu bem estar, seu dinheiro, seu êxito, sua segurança, acaba vivendo uma vida medíocre e estéril. Sua passagem por se mundo não faz a vida mais humana. Quem se arrisca em viver sua vida aberta e generosa, difunde vida, irradia alegria, ajuda a viver. Não há maneira mais apaixonante de viver do que fazer a vida dos outros mais humana e mais suportável. Como podemos seguir a Jesus nem nos sentirmos atraídos por seu modo de viver e de morrer? (Pagola, João, p. 174-175)

Se alguém me serve, siga-me – Novamente o tema do seguimento. Servir e seguir. Estar à disposição. Servir em casa e os de casa, servir os outros nos transportes públicos, nos hospitais, na limpeza dos logradouros públicos. Servir à preservação e conservação de todo o criado. “Ver Jesus” pode ser adotar uma postura de serviço como foi a dele

Minha alma se sente conturbada – Ficamos sabendo que Jesus tem seu interior completamente abalado. Jesus faz interiormente a leitura dos acontecimentos. Um bom tempo de vida com o povo. Um oposição ferrenha e fechada de alguns grupos. Avizinha-se uma condenação. Jesus exprime uma certa desorientação interior. Um abalo? Uma tentação? Mas afinal de contas o desfecho precisa ter coerência com toda sua vida. Um profeta não falta ao último testemunho. Jesus pede que Pai glorifique seu nome de Pai.

Visita o Pai, na trovoada? Um intervenção sensível do PAI. A voz se fez ouvir para os que estavam presentes, para os gregos e para nós. “E se eu for levantado da terra, atrairei todos a mim”. Elevação física de Jesus na cruz. Os olhos de todos se elavam para quem morre de amor. Nessa irrestrita doação, morte e vida, sangue e luz, dor e profunda alegria. A morte de Jesus atrai os olhares de todos. Mais tarde um centurião romano poderá exclamar junto da cruz: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus” (Mt 27,54). Cruz: morte exaltação. Trevas e luzes. Morte e ressurreição.


Texto para reflexão

Dizer sim a um amor autêntico

A cruz é o momento em que os homens, cujos olhos mergulham continuamente na vaidade e na banalidade, podem, ultrapassando todas as defesas deste mundo, contemplar o verdadeiro salvador. É desconcertante o meio que Deus escolheu para trazer a salvação ao homem: jamais os homens se habituarão com o sofrimento e a morte de um inocente. Jesus é o grão de trigo que foi sepultado nesta terra, para que de seu lado aberto brotasse uma vida nova, vida diferente. Diante de Jesus, que cura os doentes, que pronuncia palavras sublimes ou faz prodígios há quem se escandalize e quem se comova. Há os que se convertem e os que ironizam. Diante de Jesus na cruz só há silêncio: ele me amou até morrer por mim. Cada um se encontra sozinho diante do mistério de Cristo: “Deus morreu e nos o transpassamos. Nós o matamos encerrando-o no invólucro deteriorado das ideias rotineiras, exilando-o em formas de piedade sem conteúdo ou em preciosismos arqueológicos; matamo-lo pela ambiguidade de nossa vida que lançou um véu obscuro sobre ele” (J.Ratzinger). A fé cristã recebe da cruz de Jesus sua forma característica: dizer sim à aventura de perder a vida, dizer sim a um amor autentico” (Missal Dominical da Paulus, p. 211)


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Uma lei paradoxal

José Antonio Pagola

Encontramos no Evangelho poucas frases tão desafiantes como estas palavras que resumem uma convicção bem própria de Jesus: “Na verdade eu vos digo: se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá infecundo; mas se morrer, produzirá muito fruto”.

A ideia de Jesus é clara. Com a vida acontece o mesmo que acontece com o grão de trigo, que deve morrer para libertar toda sua energia e produzir fruto. Se “não morrer” permanecerá estéril. Ao contrário, se “morrer” torna a germinar trazendo consigo novos grãos e nova vida.

Com esta linguagem tão clara e cheia de força, Jesus deixa entrever que sua morte, longe de ser um fracasso, será precisamente o que dará fecundidade à sua vida. Mas, ao mesmo tempo, convida seus seguidores a viver segundo esta mesma lei paradoxal: para dar vida é necessário “morrer”.

Não se pode gerar vida sem dar a própria vida. Não é possível ajudar a viver, se a pessoa não está disposta a “desviver” pelos outros. Ninguém contribui para um mundo mais justo e humano vivendo apegado a seu próprio bem-estar. Ninguém trabalha seriamente pelo reino de Deus e sua justiça, se não está disposto a assumir os riscos e rejeições, a conflitividade e a perseguição que Jesus sofreu.

Passamos a vida tentando evitar sofrimentos e problemas. A cultura do bem-estar nos empurra para organizar-nos da maneira mais cômoda e prazerosa possível. É este o ideal supremo. Mas há sofrimentos e renúncias que precisamos assumir, se quisermos que nossa vida seja fecunda e criativa. O hedonismo não é uma força mobilizadora; a obsessão pelo próprio bem-estar empequenece as pessoas.

Estamos nos acostumando a viver fechando os olhos ao sofrimento dos outros. Parece que isto é o mais inteligente e sensato para sermos felizes. É um erro. Conseguiremos certamente evitar alguns problemas e dissabores, mas nosso bem-estar será cada vez mais vazio e estéril, nossa religião cada vez mais triste e egoísta. Neste ínterim, os oprimidos e aflitos querem saber se sua dor importa a alguém.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

A hora da nova aliança

Pe. Johan Konings

A 1ª leitura deste domingo contém uma das promessas mais carinhosas do Antigo Testamento: a promessa de uma “nova aliança”. A antiga tinha sido rompida demasiada vezes. Ficou gasta. Deus vai recorrer ao último recurso: uma nova aliança, diferente da anterior. A Lei não estará mais escrita em tábuas de pedra ou em rolos de papel, como os dos escribas. Estará inscrita no coração de cada um. Ninguém precisará ainda de mestre! Todos conhecerão Deus, e Deus os acolherá, esquecendo seus pecados.

O evangelho nos propõe Jesus Cristo como cumprimento dessa promessa. Chegou a “hora” – hora da glorificação de Cristo pelo Pai e do Pai por Cristo (Jo 12,23.28; cf. 13,31; 17,1…). A “glória” é o mais próprio ser de Deus. Sem a vontade de Deus, não há glória para Jesus. E esta vontade manifesta-se, de modo dramático, numa antecipação da agonia de Jesus: “Salva-me desta hora”.

A 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus, fala no mesmo sentido. Anteriormente, a carta expôs que Jesus substitui as grandes instituições de Israel: ele é o sumo sacerdote no lugar de Aarão, o mediador no lugar de Moisés. Para tanto, ele participa em tudo de nossa condição humana, exceto o pecado. Participa da agonia. Grita a Deus entre lágrimas, e é ouvido pelo Pai. Este o tira, não da morte, mas da angústia. Jesus sabe que Deus está com ele, ele o “aprendeu” (Hb 5,8). Assim, no evangelho, na hora da angústia (12,27: “Pai, salva-me desta hora”), Jesus reconhece a vontade de Deus não como algo terrível, mas como glória, ou seja, como o íntimo de Deus, revelando-se no amor de seu Filho para todos: “Pai, glorifica teu nome” (12,28). Também nossa vocação na “nova Aliança” é: conhecer Deus de perto, do modo como Jesus o aprendeu.

”Se o grão de trigo não morrer na terra, fica só, mas se morre, produz muito fruto” (Jô 12,24). É a “lei do grão do trigo”, o modo de agir de Deus, a instrução da Aliança definitivamente renovada. Deus sabe que o endurecimento só é vencido pela vítima. Quando o adversário a quer abafar, a verdade do amor se afirma. É a força da flor sem defesa. A justiça se vê afirmada e vencedora na hora em que a violência a quer suprimir. Os exemplos da “lei do grão de trigo” são muitos em nosso mundo e na América Latina, terra de justos martirizados pelos que se dizem cristãos. Pois essa lei vale não só para Jesus, mas também para seus seguidores: “Quem quer servir-me, siga-me, e onde estiver eu, estará também aquele que me serve, e meu Pai o honrará”(12,16).

Eis a aprendizagem da nova Aliança, da “lei”, da instrução inscrita em nosso coração. Não é extrínseca, imposta de fora. Faz parte de nosso ser cristão, de nosso ser participante da vida de Cristo. Essa instrução, como a ação escondida do grão na terra, frutificará em nossas atitudes políticas, culturais, humanitárias. Seremos capazes de “morrer” em relação aos nossos proveitos imediatos, a fim de que brote aquilo que, profundamente, sabemos ser verdadeiro e justo?


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella