Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

2º Domingo da Quaresma

Segundo domingo da Quaresma

A capacidade de olhar além

 

Frei Gustavo Medella

O amor mais profundo que Deus inspira ao ser humano nada tem a ver com um sentimento de dominação ou de posse. Ao preparar Abraão para ser o “Pai da Fé”, o Senhor lhe mostra a face de um amor livre, confiante e corajoso. Sem entender os desígnios divinos, o patriarca é instado a sacrificar de morte o filho a quem tanto amava. É chamado a um gesto absurdo de incondicional desapego: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o aí em holocausto sobre um monte que eu te indicar” (Gn 22,2).

Humanamente é muito difícil de se calcular o grau do sofrimento, da hesitação e do medo que habitaram o íntimo de Abraão enquanto fazia o percurso de subida ao monte Moriá para cumprir a exigente tarefa que o Senhor lhe confiara. No entanto, o extremo desapego manifesto por este homem de Deus o ensinaram a enxergar além das aparências. Tornara-se, a partir daquela “prova de fogo”, apto e sensível para perceber a ação amorosa de Deus em sua vida e na vida do seu povo.

Num outro monte, o Tabor, Deus novamente se manifesta, desta vez não a Abraão, mas a Pedro, Tiago e João. Num momento de intimidade com o Pai, Jesus se apresenta no brilho de sua glória divina, visão que impressiona e enche de encanto os discípulos que o acompanhavam. Era bom estar ali. Ainda que por instante, começavam a aprender a arte de “olhar além”. Esta habilidade, tão fundamental a quem deseja ser discípulo do Senhor, foi visceralmente deles exigida novamente diante do máximo de violência, injustiça e humilhação que Cristo sofreu na cruz. O mesmo medo, hesitação e sofrimento que tomaram o coração de Abraão certamente trouxeram pavor aos discípulos que testemunharam a lacerante execução de seu Mestre. Precisaram se fortes, unidos e destemidos para enxergar também ali a ação da Mão do Pai que, para além das aparências, agiu no Filho, pela Força do Espírito manifestando a glória da Ressurreição.

Nesta pandemia devastadora, o que significa para nós, os discípulos da atualidade, esta capacidade de “olhar além”? Significa nutrir um coração sensível à graça do alto, comprometido generosamente com o cuidado de si e dos outros. Passa também pela humildade de reconhecer o potencial de morte e sofrimento presente num vírus que nossos olhos são incapazes de enxergar. Negar a realidade, negligenciar os cuidados básicos, desdenhar da ciência e da vacina definitivamente não são atitudes que se esperam de um seguidor de Jesus Cristo. Saber olhar além e antecipar-se no cuidado solidário pela vida é compromisso do qual o cristão jamais pode abrir mão.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18

Naqueles dias, 1Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!” E ele respondeu: “Aqui estou”. 2E Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o aí em holocausto sobre um monte que eu te indicar”. 9aChegados ao lugar indicado por Deus, Abraão ergueu um altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha em cima do altar. 10Depois, estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho. 11E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: “Abraão! Abraão!” Ele respondeu: “Aqui estou”. 12E o anjo lhe disse: “Não estendas a mão contra teu filho e não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”. 13Abraão, erguendo os olhos, viu um carneiro preso num espinheiro pelos chifres; foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho.

15O anjo do Senhor chamou Abraão, pela segunda vez, do céu, 16e lhe disse: “Juro por mim mesmo – oráculo do Senhor –, uma vez que agiste deste modo e não me recusaste teu filho único, 17eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. 18Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste”.
– Palavra do Senhor.


Salmo Responsorial (Sl 115)

— Andarei na presença de Deus,/ junto a ele na terra dos vivos.

— Andarei na presença de Deus,/ junto a ele na terra dos vivos.

— Guardei a minha fé, mesmo dizendo:/ “É demais o sofrimento em minha vida!”/ É sentida por demais pelo Senhor/ a morte de seus santos, seus amigos.

— Eis que sou o vosso servo, ó Senhor,/ vosso servo que nasceu de vossa serva;/ mas me quebrastes os grilhões da escravidão!/ Por isso oferto um sacrifício de louvor,/ invocando o nome santo do Senhor.

— Vou cumprir minhas promessas ao Senhor/ na presença de seu povo reunido;/ nos átrios da casa do Senhor,/ em teu meio, ó cidade de Sião!


Segunda Leitura: Rm 8,31b-34

Irmãos: 31bSe Deus é por nós, quem será contra nós? 32Deus, que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele?
33Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que os declara justos? 34Quem condenará? Jesus Cristo, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, e está à direita de Deus, intercedendo por nós?
– Palavra do Senhor.


O Sinal da vitória
Evangelho: Mc 9,2-10

Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha.

E se transfigurou diante deles. 3 Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira no mundo as poderia alvejar. 4 Apareceram-lhes Elias e Moisés, que conversavam com Jesus.

5 Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.» 6 Pedro não sabia o que dizer, pois eles estavam com muito medo. 7 Então desceu uma nuvem e os cobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: «Este é o meu Filho amado. Escutem o que ele diz!» 8 E, de repente, eles olharam em volta e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles.

9 Ao descerem da montanha, Jesus recomendou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10 Eles observaram a recomendação e se perguntavam o que queria dizer «ressuscitar dos mortos».

* 9,1-13: A vida e ação de Jesus não terminam na sua morte. A transfiguração é sinal da Ressurreição: a sociedade não conseguirá deter a pessoa e a atividade de Jesus, que irão continuar através de seus discípulos. A voz de Deus mostra que, daqui por diante, Jesus é a única autoridade. Todos os que ouvem o convite de Deus e seguem a Jesus até o fim, começam desde já a participar da sua vitória final, quando ressuscitarão com ele.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

2º Domingo da Quaresma

 Oração: “Ó Deus, que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificados pelo olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória”.

  1. Primeira leitura: Gn 22,2-9a.10-13.15-18

O sacrifício de nosso pai Abraão.

Abraão nos é apresentado não apenas como o antepassado do povo judeu, mas como exemplo de fé confiante e inabalável em Deus. Deixa uma terra em que morava, porque acreditou na promessa que Deus lhe daria uma nova terra e uma numerosa descendência. Abraão morreu antes de ganhar esta terra prometida. Apenas no fim de sua vida conseguiu comprar um pedacinho de chão, a fim de sepultar sua esposa Sara. Sara era estéril; por isso cedeu a Abraão a escrava Agar para adotar ao menos adotar Ismael, o filho de sua escrava Agar. Mas não era esse o herdeiro prometido. Finalmente, cumpre-se a promessa divina e nasce Isaac, filho de Sara.

Tudo corria bem e Isaac crescia saudável e feliz. Isaac era o único herdeiro que Abraão tinha. Podemos imaginar o conflito que explode na alma de Abraão quando Deus exige que ele ofereça seu filho único em sacrifício (a palavra “filho” ocorre sete vezes no texto!). O dramático silêncio durante a viagem até o monte Moriá é rompido apenas pela pergunta de Isaac: “Pai, temos o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto”? E Abraão responde: “Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu filho”. No momento, porém, que Abraão ia sacrificar seu filho o anjo do Senhor grita do céu: “Abraão! Abraão! Não estendas a mão contra teu filho… Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”.

Deus aboliu o costume cananeu de sacrificar o filho primogênito, que em Israel era substituído por um cordeiro. Deus, porém, “não poupou seu próprio Filho” (2ª leitura), porque pela morte de Jesus quis nos ganhar com seu amor. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Salmo responsorial: Sl 115

  Andarei na presença de Deus,

Junto a ele na terra dos vivos.

  1. Segunda leitura: Rm 8,31b-34

Deus não poupou seu próprio Filho.

Paulo se espanta com o insondável amor de Deus para conosco, uma âncora segura de nossa salvação. Por isso exclama: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Em Deus podemos confiar, porque “não poupou se próprio filho, mas o entregou por todos nós”. Entregou à morte seu Filho Jesus Cristo, que morreu por nós, ressuscitou, está junto do Pai. Cristo está junto do Pai não como juiz para condenar, e sim, como nosso intercessor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Quem crê no mistério da morte e ressurreição do Filho de Deus, nada tem a temer.

Aclamação ao Evangelho

Louvor a vós, ó Cristo, rei da eterna glória.

Numa nuvem resplendente fez-se ouvir a voz do Pai:

Eis meu Filho muito amado, escutai-o, todos vós.

  1. Evangelho: Mc 9,2-10

Este é o meu Filho amado.

Pouco antes da transfiguração Jesus dizia aos discípulos: “O Filho do homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, devia ser morto e ressuscitar depois de três dias” (Mc 8,31). E convidava os discípulos a seguir o mesmo caminho: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (8,34). Jesus estava em viagem para celebrar a Páscoa e anunciava que, em Jerusalém, os anciãos, os sumos sacerdotes e os escribas o rejeitariam e condenariam à morte (Mc 8,31-33). No caminho, subiu a uma alta montanha, levando consigo como testemunhas Pedro, Tiago e João. Enquanto Jesus orava, transfigurou-se diante deles e suas roupas ficaram brilhantes. Também Moisés e Elias, testemunhas da Lei e dos Profetas, apareceram ao lado de Jesus e com ele conversavam. Diante desta visão, Pedro esqueceu a viagem a Jerusalém, onde Jesus previa sua morte, e disse: “Mestre! É bom ficarmos aqui! Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. Mas uma nuvem encobriu a visão e uma voz do céu se fez ouvir: “Este é o meu Filho amado, escutai-o”.

O mistério do Filho do Homem, o Servo Sofredor, aos poucos vai se revelando. Mas era uma revelação apenas para os três privilegiados, que foram proibidos de falar disso antes que Jesus ressuscitasse dos mortos. Os discípulos, já antes da Transfiguração, não entendiam por que o Mestre devia morrer e ressuscitar. Também depois da sublime visão, na descida do monte continuavam a se perguntar o que significaria “ressuscitar dos mortos”. Os discípulos, porém, descartavam a morte do Mestre. Tinham o plano de proclamá-lo como Messias-Rei, durante a celebração da Páscoa. Os discípulos entenderam qual era a missão de Jesus aqui na terra somente após sua ressurreição, com as experiências pascais. O apóstolo Paulo, convertido e iluminado pelo Espírito Santo, entendeu muito bem o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo (2ª leitura).

E nós, qual é o Jesus que abraçamos e queremos seguir? Se quisermos abraçar o Cristo da glória precisamos antes abraçar o Cristo da cruz.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Apesar de morrer, Ele é vida imortal

Frei Clarêncio Neotti

Nas teofanias do Antigo Testamento, havia sempre um recado ao povo e uma solene promessa de fidelidade da parte do povo. Assim no Monte Sinai, o povo prometeu: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse!” (Êx 24,3). Hoje Deus apresenta o próprio Filho, a nova Arca da Aliança (Êx 40), o novo templo de Deus (Jo 2,19-22) e recomenda: ‘Escutei-o!’ (v. 7). Este era o dever dos Apóstolos: escutar Jesus com mais ouvidos do que os israelitas escutaram Moisés, que lhes transmitia a vontade de Deus. Apesar da morte, ele tem palavras de vida eterna (Jo 6,69).

Moisés mandara o povo ouvir os profetas (Dt 18,15) como o haviam escutado a ele na saída do Egito e na travessia do deserto. O novo Moisés, o novo profeta, agora é Jesus de Nazaré. O próprio Deus manda escutá-lo, porque ele tem palavras de vida mesmo quando fala em paixão e morte, como fizera pouco antes da Transfiguração, escandalizando Pedro (Mc 8,31-33), e como voltará a acentuar pouco depois (Mc 9,30-32). Os caminhos mais simples de Deus ultrapassam as razões da inteligência humana. Quanto mais, quando se trata da morte de quem, por definição, é imortal! Jesus não se transfigura para deslumbrar seus amigos e mostrar-se superior a eles. Tratou-se de um gesto para inspirar, criar e fundamentar a confiança de quem tinha razão para ter medo.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Quanta claridade naquele rosto!

Deus que se manifesta nas montanhas

Frei Almir Guimarães

Segundo domingo do tempo da Quaresma. Continuamos nosso retiro espiritual. Neste domingo somos levados a contemplar dois montes: Abraão e Isaque subindo o Monte Moriá e Jesus e seus discípulos mais próximos no alto da montanha da transfiguração. De um lado, a fé arrojada de Abraão e, do outro, a beleza do rosto de Cristo.

As coisas pareciam ir bem para Abraão, o pai de nossa fé. Ganhara um filho e alegremente continuava a testemunhar sua fé. A liturgia de hoje, porém, nos convida a acompanhar um delicado episódio que sempre nos interpela e questiona. O Deus que o havia visitado, que havia dado a ele e à mulher a alegria de um filho tão desejado, Isaque, coloca uma terrível prova diante do patriarca. Pede o sacrifício do filho. Ao chamado do Senhor, Abraão responde com presteza: “Aqui estou”. A eterna ladainha da prontidão: “Aqui estou”. Parece-lhe que esse Deus que enchera de luz a sua vida agora vai arrancar-lhe do peito o próprio coração. A ordem é esta: suba à montanha e ofereça como sacrifício seu filho, seu Isaque.

Ele entende mas sem querer entender. Há silêncios pesados da parte de Deus e de Abraão. Filho e pai caminham. Lenha, fogo… tudo preparado. Faltava o carneiro para a oferenda. “Vai oferecer o teu filho em holocausto…”. “Meu pai, está tudo…mas onde fica o animal para o sacrifício?”. “Deus providenciará, meu Filho.” Frase de peso que nós também pronunciamos em certas bifurcações delicadas da vida. “Deus providenciará”. Abraão deve renunciar à sua paternidade para apoiar-se unicamente na Palavra de Deus. Somente a fé. Nada mais do que a fé. A prova consiste em acenar a Abraão a destruição de sua paternidade. No final do episódio, o menino de Abraão é poupado. É o filho da promessa. Nosso Pai Abraão. O homem da fé pura. Apareceu um carneiro no meio dos espinheiros e oferecido o sacrifício os dois desceram a montanha.

Depois, muito depois, Jesus tomou três de seus apóstolos e levou-os até uma outra montanha. O filho de Maria, o “filho do carpinteiro”, como era conhecido, colocou-se em íntima oração. Sempre esteve em união com o Pai. Aquele momento, no entanto, parece ter se revestido de maior intensidade. Brilho, roupas como nenhuma lavandeira da terra consegue alvejar. Luz, claridade, beleza. Diante dos apóstolos uma claridade nova para compreenderem a verdade de seu Mestre. O passado se fazia presença. Elias, aquele que fora arrebatado num carro de fogo. Moisés, o fulgurante, que ao ter falado com o Senhor tinha um rosto todo iluminado. Tudo é claridade.

Todos estão envolvidos na “nuvem”, símbolo veterotestamentário da Presença. Tudo está no devido lugar. Respira-se uma atmosfera de coisas definitivas. O além no aquém. Pedro tem vontade de eternizar aquele momento. Quer fazer três tendas. “É bom estarmos aqui”. E uma voz, uma comunicação, aquele que se comunica sem palavras mas atravessa tudo o que é opaco: “Este é o meu Filho Amado! Escutai o que ele diz”.

Parar, fazer silêncio, escutar com mais intensidade esse Deus que fala por Jesus. Escuta interior que nos leva a viver a verdade, saborear a vida em suas raízes, não passar superficialmente pelas coisas da vida. Não perder o essencial. “Este é o meu Filho amado. Escutai-o”. No coração da quaresma, no alto da montanha, num clima de busca de silêncio somos convidados a abrir nossos ouvidos à audição do Filho Amado. Dar hospitalidade ao Mistério de Deus que se avizinha.

Há ainda uma outra montanha a ser levada em consideração. Trata-se do Calvário, da colina do Gólgota. Lá está o homem. Agora todo feiura: suor, sangue, catarro, poeira, um traste, um condenado qualquer que precisa morrer logo para não comprometer o cumprimento religioso do sábado. O mais belo dos filhos dos homens completamente desfigurado. Os torturados, famintos, migrantes, drogados, sofredores nos hospitais, prisioneiros acossados, negros seviciados. Todos lembram o rosto retorcido do mais belo dos filhos do homens, o luminoso Jesus da morte transfigurada.

Abraão creu. Desceu da montanha iluminado com a coragem de caminhar vida afora à luz da fé. Os apóstolos descerão da outra montanha. Fizeram a experiência da beleza divina de seu Mestre. Nunca mais esquecerão este momento. As montanhas são misteriosas. Elas nos levam para as alturas. Convidam à interiorização.


Texto de reflexão

Eis a beleza que salva o mundo

Naquele Crucificado, diz o evangelista João, é a própria glória que se revela. Naquele Crucificado supera-se a fratura entre beleza e ser. Ali, a arte como arte divina de amar, oferece-se à contemplação cósmica.
A verdade do ser resplandece naquela imagem, imagem de um Crucificado, não tão bela para atrair o nosso olhar, mas representação da arte de amar de Deus, capacidade de amar até se tornar feio.
A beleza que transparece naquele Crucificado revela que bela e a pessoa que ama até o fim. A beleza apensa àquela imagem, fulge e insinua-se a cada coração atento. Beleza como irradiação e manifestação do ser, da sua verdade última e íntima, identificada com a ágape. A arte não é, pois, a representação bela de uma coisa, mas a interpretação com pathos e logos de uma coisa bela. A arte é uma hermenêutica da realidade, não uma representação. A arte decorativa não repropõe a forma das coisas, mas interpreta o logos e o nomos nela contidos, o projeto e o estatuto daquilo que é.
Naquele corpo tornado feio pelo espasmo, naquele corpo que é reflexo do coração, reflexo de um amor louco e escandaloso até dele morrer, reside a beleza, a verdadeira porta do conhecimento. Eis a beleza que salva o mundo.

Ermes Ronchi, Tu és Beleza Paulinas, Portugal, p. 134-135


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Não confundir Jesus com ninguém

José Antonio Pagola

De acordo com o evangelista, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, leva-os para um monte à parte e ali “se transfigura diante deles”. São os três discípulos que oferecem talvez maior resistência a Jesus quando lhes fala de seu destino doloroso de crucificação.

Pedro tentou, inclusive, tirar-lhe da cabeça essas ideias absurdas. Os irmãos Tiago e João andam pedindo-lhe os primeiros lugares no reino do Messias. Diante deles precisamente Jesus se transfigurará. Eles precisam disso mais do que ninguém.

A cena, recriada com diversos recursos simbólicos, é grandiosa. Jesus apresenta-se diante deles “transfigurado”. Ao mesmo tempo, Elias e Moisés, que segundo a tradição foram arrebatados à morte e vivem junto a Deus, aparecem conversando com ele. Tudo convida a intuir a condição divina de Jesus, crucificado por seus adversários, mas ressuscitado por Deus.

Pedro reage com espontaneidade: “Mestre, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não entendeu nada. Por um lado, coloca Jesus no mesmo plano e no mesmo nível de Elias e Moisés: a cada um sua tenda. Por outro lado, continua resistindo à dureza do caminho de Jesus; quer retê-lo na glória do Tabor, longe da paixão e da cruz do Calvário.

O próprio Deus vai corrigi-lo de maneira solene: “Este é meu Filho amado”. Não se deve confundi-lo com ninguém. “Escutai-o”, inclusive quando vos fala de um caminho de cruz, que termina em ressurreição.

Só Jesus irradia luz. Todos os outros, profetas e mestres, teólogos e hierarcas, doutores e pregadores, temos o rosto apagado. Não devemos confundir ninguém com Jesus. Só ele é o Filho amado. Sua Palavra é a única que devemos escutar. As demais devem levar-nos a ele.

E devemos escutá-Ia também hoje, quando nos fala de “carregar a cruz” destes tempos. O êxito nos causa dano a nós cristãos. Levou-nos, inclusive, a pensar que era possível uma Igreja fiel a Jesus e ao seu projeto do reino sem conflitos, sem rejeição e sem cruz. Hoje se nos oferecem mais possibilidades de viver como cristãos “crucificados”. Isso nos fará bem. Ajudar-nos-á a recuperar nossa identidade cristã.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Deus dá seu filho por nós

Pe. Johan Konings

No domingo passado vimos como Jesus, tendo assumido no batismo ser Filho e Servo de Deus, se preparou por sua “quaresma” para iniciar sua missão. Hoje, no 2º domingo da Quaresma, o mesmo Filho é mostrado diante da fase final de sua missão, prestes a subir a Jerusalém, onde enfrentará inimizade mortal (cf. Mc 10,1.32). Já tinha

anunciado seu sofrimento aos discípulos, equivocados a seu respeito (Mc 8,31-33). No evangelho de hoje, Pedro, Tiago e João são testemunhas de uma revelação em que vêem Jesus, antecipadamente, envolto na glória de Deus: a Transfiguração. E ouvem a Voz: “Este é meu Filho amado: escutai-o” (Mc 9,2-10). Antes de acompanhar Jesus no sofrimento, os discípulos recebem um sinal da glória de Jesus, para que saibam que o Pai está com ele quando ele vai dar sua vida por todos. Pois não é só Jesus dando a própria vida, é o Pai que dá seu Filho por nós, como diz Paulo na 2ª leitura.

É isso também que prefigura a 1ª leitura, que mostra Abraão disposto a sacrificar o próprio filho. Texto “escandaloso”: como pode Deus mandar sacrificar um filho? Expliquemos bem. Naquele tempo havia povos que pensavam que o primogênito, não só do rebanho, mas dos próprios filhos – sobretudo do chefe – devia ser dedicado a Deus mediante um sacrifício humano (assim acreditavam também, na América, os índios astecas etc). Ora, Isaac era o herdeiro legítimo (filho de mulher legítima), que Abraão em sua velhice recebera de Deus. Tinha poucas chances de ter outro herdeiro. Mesmo assim, estava disposto a dar ouvido à voz da crença que ditava sacrificar o primogênito. Mas Deus não quis – e não quer – sacrifícios humanos. Por isso, mandou um animal para substituí-lo.

O gesto magnânimo de Abraão tornou-se imagem da incompreensível magnanimidade de Deus, que dá seu “Filho unigênito” para nós (Jô 3,16). Magnanimidade, de fato, muito mal compreendida. Há quem pense que Deus é um carrasco, que quer que seu Filho pague com seu sangue os pecados dos demais. Mas muitos séculos antes de Cristo, os profetas negaram tal idéia: cada um é responsável por seu próprio pecado (Ez 18; Jr 31, 29 etc). Deus não é vingativo nem sanguinário, mas antes de tudo rico em misericórdia e fidelidade (Ex 34,6, Sl 115,1 etc). E é por isso que dispõe de seu Filho, para que este nos mostre a misericórdia e fidelidade de Deus por sua própria prática de vida. Jesus é Filho de Deus na medida em que sua atitude representa o amor fiel de Deus. É precisamente no momento de subir a Jerusalém para enfrentar a inimizade mortal das autoridades que isso se verifica. Jesus poderia ter virado o casaco, desistido de suas bonitas lições sobre o amor fraterno, poderia ter salvo a sua pele. Não quis. Quis ser a imagem do amor fiel de Deus. Por isso, quando Jesus dá sua vida por nós, é o Pai que a dá.

Nossa mentalidade egocêntrica, alimentada pela ideologia da competição e do consumo, dificilmente admite que Deus possa ser imaginado como um superlativo de Abraão, como alguém tão generoso que aceita a fidelidade de Jesus até o fim como se fosse o dom de seu único filho e herdeiro. “Este é meu Filho amado”. Nele, Deus se reconhece a si mesmo, reconhece seu próprio modo de agir.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella