Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

18º Domingo do Tempo Comum

18º Domingo do Tempo Comum

Por uma inteligência a serviço do “tudo”

 

Frei Gustavo Medella

Na segunda leitura deste domingo (Ef 4,17.20-24), São Paulo alerta para o risco de “uma inteligência que leva ao nada”. Um trabalho exaustivo e nada produtivo à semelhança daquele que o cão realiza quando corre atrás do próprio rabo. É a inteligência a serviço da autorreferencialidade, risco presente na vida da Igreja para o qual o Papa Francisco chama a atenção com frequência.

É também movimento de autodestruição da Casa Comum, o nosso planeta, num capitalismo predatório, em guerras fratricidas e no investimento de armas sofisticadas e caras capazes de instalar o nada onde quer que sejam lançadas. Onde havia um povo, uma história, famílias, gerações, passa a haver nada (Vide Sobradinho, Hiroshima, Canudos…)

Jesus, por sua vez, promove a inteligência da ternura e do amor que produz, em vez do “nada”, “tudo para todos” com muita vida, vida em abundância. Alimentar-se com o pão do céu significa acreditar nessa inteligência construtiva e promovê-la o tanto quanto se possa. É a inteligência que sacia a fome, aquece o frio, que se entrega generosamente a fim de que ninguém se sinta abandonado. É nesta inteligência que o cristão deve apostar.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Êx 16,2-4.12-15

Naqueles dias, 2a Comunidade dos filhos de Israel pôs-se a murmurar contra Moisés e Aarão, no deserto, dizendo: 3“Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor no Egito, quando nos sentávamos junto às panelas de carne e comíamos pão com fartura! Por que nos trouxestes a este deserto para matar de fome a toda esta gente?”

4O Senhor disse a Moisés: “Eis que farei chover para vós o pão do céu. O povo sairá diariamente e só recolherá a porção de cada dia a fim de que eu o ponha à prova, para ver se anda ou não na minha lei. 12Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Dize-lhes, pois: ‘Ao anoitecer, comereis carne, e pela manhã vos fartareis de pão. Assim sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus’”.

13Com efeito, à tarde, veio um bando de codornizes e cobriu o acampamento; e, pela manhã, formou-se uma camada de orvalho ao redor do acampamento.

14Quando se evaporou o orvalho que caíra, apareceu na superfície do deserto uma coisa miúda, em forma de grãos, fina como a geada sobre a terra.

15Vendo aquilo, os filhos de Israel disseram entre si: “Que é isto?” Porque não sabiam o que era. Moisés respondeu-lhes: “Isto é o pão que o Senhor vos deu como alimento”.

– Palavra do Senhor.


Responsório (Sl 77)

— O Senhor deu a comer o pão do céu.

— O Senhor deu a comer o pão do céu.

— Tudo aquilo que ouvimos e aprendemos,/ e transmitiram para nós os nossos pais,/ não haveremos de ocultar a nossos filhos,/ mas à nova geração nós contaremos:/ as grandezas do Senhor e seu poder.

— Ordenou, então, às nuvens lá dos céus,/ e as comportas das alturas fez abrir;/ fez chover-lhes o maná e alimentou-os,/ e lhes deu para comer o pão do céu.

— O homem se nutriu do pão dos anjos,/ e mandou-lhes alimento em abundância;/ conduziu-os para a Terra Prometida, para o Monte que seu braço conquistou.


Segunda Leitura: Ef 4,17.20-24)

Irmãos: 17 Eis, pois, o que eu digo e atesto no Senhor: não continueis a viver como vivem os pagãos, cuja inteligência os leva para o nada.

20 Quanto a vós, não é assim que aprendestes de Cristo, 21se ao menos foi bem ele que ouvistes falar, e se é ele que vos foi ensinado, em conformidade com a verdade que está em Jesus.

22 Renunciando à vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, que se corrompe sob o efeito das paixões enganadoras, 23e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade.

24 Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade.

– Palavra do Senhor.


Evangelho: Jo 6,24-35

24 Quando a multidão viu que nem Jesus nem os discípulos estavam aí, as pessoas subiram nas barcas e foram procurar Jesus em Cafarnaum.

25 Quando encontraram Jesus no outro lado do lago, perguntaram: «Rabi, quando chegaste aqui?» 26 Jesus respondeu: «Eu garanto a vocês: vocês estão me procurando, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos. 27 Não trabalhem pelo alimento que se estraga; trabalhem pelo alimento que dura para a vida eterna. É este alimento que o Filho do Homem dará a vocês, porque foi ele quem Deus Pai marcou com seu selo.»

28 Então eles perguntaram: «O que é que devemos fazer para realizar as obras de Deus?» 29 Jesus respondeu: «A obra de Deus é que vocês acreditem naquele que ele enviou.» 30 Eles perguntaram: «Que sinal realizas para que possamos ver e acreditar em ti? Qual é a tua obra? 31 Nossos pais comeram o maná no deserto, como diz a Escritura: ‘Ele deu-lhes um pão que veio do céu’”.

32 Jesus respondeu: «Eu garanto a vocês: Moisés não deu para vocês o pão que veio do céu. É o meu Pai quem dá para vocês o verdadeiro pão que vem do céu, 33 porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo.» 34 Então eles pediram: «Senhor, dá-nos sempre desse pão».

Jesus é o pão da vida -* 35 Jesus disse: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem acredita em mim nunca mais terá sede”.

* 22-34: A multidão procura Jesus, desejando continuar na situação de abundância, isto é, governada por um líder político que decide e providencia tudo, sem exigir esforço. Jesus mostra que essa não é a solução; é preciso buscar a vida plena, mas isso exige o empenho do homem. Além do alimento que sustenta a vida material, é necessária a adesão pessoal a Jesus para que essa vida se torne definitiva. Pedindo um milagre como o do maná do deserto, a multidão impõe condições para aceitar Jesus. Mas o desejo da multidão fica sem efeito, se ela não se compromete com Jesus, o pão da vida que dura para sempre.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

18º Domingo do Tempo Comum 

Oração: “Manifestai, ó Deus, vossa inesgotável bondade para com os vossos filhos e filhas que vos imploram e se gloriam de vos ter como criador e guia, restaurando para eles a vossa criação, e conservando-a renovada”.

  1. Primeira leitura: Ex 16,2-4.12-15

Eu farei chover para vós o pão do céu.

O livro do Êxodo ocupa-se da libertação dos hebreus do Egito (Ez 1–15), descreve as dificuldades da caminhada do povo no deserto (Ex 15,24–18,27); por fim, aos pés do monte Sinai, fala como Deus escolhe Israel como seu povo, faz aliança com ele e estipula as leis que deve observar (Ex 19–40). Na caminhada pelo deserto Deus testa a fidelidade de seu povo eleito. O deserto, por um lado, é visto como o tempo ideal das relações de Deus com Israel (cf. Os 11,1-4; 2,16-17; Jr 2,1-3). Por outro lado, o deserto é o lugar das tentações e murmurações onde a fé é provada.

No texto que ouvimos a reclamação se dirige contra Moisés e Aarão, no entanto põe em dúvida a bondade do projeto divino de libertação. O povo acusa Moisés e Aarão de os terem enganado. Em vez da “terra onde corre leite e mel” (Ex 3,8) encontraram apenas um deserto inóspito, “um lugar terrível, cheio de escorpiões e de serpentes venenosas” (Dt 8,15). Moisés e Aarão se defendem dizendo que o projeto de libertação não é deles, é de Deus. Quando Deus atender às reclamações do povo, providenciando carne e pão, todos saberão que foi o Senhor que os libertou do Egito. E assim aconteceu: De tarde um bando de codornas pousou em torno do acampamento e pela manhã o povo encontrou “uma coisa miúda”, provavelmente resina de tamareira, de alto valor nutritivo. “Este é pão que o Senhor vos deu como alimento” – explica Moisés. A tradição posterior refere-se ao maná como o pão descido do céu (Sl 105,40). No evangelho de hoje Jesus se apresenta como o verdadeiro pão do céu, enviado pelo Pai para dar vida ao mundo. Os hebreus no deserto duvidaram do plano divino de libertação. Jesus, porém, vence as tentações porque confia no Pai: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).

Salmo responsorial: Sl 72

O Senhor deu a comer o pão do céu.

  1. Segunda leitura: Ef 4,17.20-24

Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus.

A comunidade de Éfeso era formada, sobretudo, por pagãos convertidos. Paulo lhes lembra a necessidade de uma mudança radical no estilo de vida: precisavam despir o homem velho (pagão) para vestir o homem novo (cristão). Deviam converter-se dos ídolos “para servir ao Deus vivo e verdadeiro” (cf. 1Ts 1,9). O cristão deve aprender de Cristo, que morreu por nós e ressuscitou. Deve ouvir o que dele falam os pregadores, acolher o que lhe é ensinado “porque a verdade está em Jesus”. O cristão deve identificar-se com Cristo, vestindo “o homem novo, criado à imagem de Deus”. Assim o cristão poderá dizer como Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Aclamação ao Evangelho

O homem não vive somente de pão, mas vive de toda palavra

que sai da boca de Deus, e não só de pão.

  1. Evangelho: Jo 6,24-35

Quem vem a mim não terá mais fome

e quem crê em mim nunca mais terá sede.

O evangelho de hoje explica o significado do “sinal do pão” (domingo passado). Após o milagre da divisão dos pães e peixes Jesus, o povo queria proclamá-lo rei. Jesus, porém, retirou-se para estar a sós na montanha e os discípulos se dirigiram de barco para Cafarnaum. A noite já ia adiantada quando Jesus, para o espanto dos discípulos, alcançou-os, caminhando sobre as águas agitadas.

Ao encontrá-lo na cidade, os judeus se admiram que tenha partido sem que o percebessem. Jesus responde que eles o procuram apenas porque comeram pão e ficaram satisfeitos e não porque entenderam o sinal da divisão do pão. Não deveriam procurá-lo por causa de um alimento perecível, mas “pelo alimento que permanece até a vida eterna” e que Ele, o Filho do Homem, lhes poderia dar. A obra que eles deveriam fazer não é apenas observar a Lei, mas crer em Cristo: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou”. Não é Moisés que dá o pão que vem do céu. O maná e a Lei apontam apenas para o verdadeiro pão que vem do Pai; Jesus é o pão que “desce do céu e dá a vida ao mundo”. A samaritana havia pedido a Jesus água viva (Jo 4,15); os judeus pedem o pão que dá vida. E Jesus se apresenta: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.

Na celebração da missa, Cristo nos alimenta pela Eucaristia e pela sua Palavra: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (cf. Dt 8,3: Mt 4,4).


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Deus deixa-se encontrar

Frei Clarêncio Neotti

o Sermão Messiânico está repleto de decisões de fé. Logo no início (vv. 24-25) há dois verbos bastante ligados ao tema da fé: procurar e encontrar. Ocorrem em muitas passagens do Antigo Testamento (por exemplo: Is 55,6; Jr 29,13). Devemos sair à procura de Deus até encontrá-Lo. O encontrar Deus é graça, por isso lembra que não é o homem que encontra Deus, mas é Deus que se deixa encontrar pelo homem (Jr 29,14; Is 65,1).

O procurar e o encontrar são momentos insubstituíveis da fé. O povo procurou Jesus. Um passo de fé, se tivesse ao menos uma admiração pelo milagre realizado. Sobre essa admiração poder-se-ia caminhar até a aceitação da divindade de Jesus. O povo encontrou Jesus, mas o capítulo todo vai mostrar que, de fato, não o encontrou, porque não reconheceu nele o Enviado do Pai (v. 29), o Filho do Homem, o Salvador (v. 27), o pão da vida (v. 35), e retira-se dele (v. 66). Se não o encontrou, foi porque as razões da procura não eram razões de fé.

Não estranha, então, que Jesus exigisse dos ouvintes, como condição de compreensão do que iria dizer, que “cressem naquele que Deus enviara” (v. 29). Essa crença é obra de Deus, é graça do Pai (Jo 14,6). Estamos num aparente círculo vicioso, que só se rompe quando nós, com toda a confiança, atiramo-nos para dentro do abismo de Deus, onde a razão deixa de responder às questões fundamentais do ser humano e ele, ultrapassando-se, encontra em Deus a resposta a todas as angústias existenciais.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Não deixar cair o pão por terra

Frei Almir Guimarães

Continuamos nossa leitura e meditação do inesgotável evangelho do Pão da Vida. Cristo é o Pão da vida com a totalidade de sua pessoa. De modo especial, temo-lo como alimento de nossa vida no Pão da Eucaristia. Tomo a liberdade de transcrever algumas reflexões de Ermes Ronchi, religioso italiano, que pregou um retiro quaresmal para a Cúria Romana e abordou, num momento, o tema-pergunta: “Quantos pães tendes?” (As inquietantes perguntas do Evangelho, Ed. Paulus de Lisboa)

♦ “A Igreja é uma mãe que protege a vida em todas as suas consequências: que dá pão a quem tem fome e estimula a fome por coisas altas em quem está saciado somente de pão”(p.81).

♦ “Espero viver a Igreja da mesma forma como olhava para a minha mãe, como quando dela aprendia o meu nome e como havia de estar com os outros. Espero viver a Igreja e gostaria de ver como a minha mãe com as mãos cheias de pão, gostaria de aprender de novo o grande sinal do pão. Quando chegava um pobre à porta de nossa casa, a minha mãe mandava-me a mim, criancinha, e ao meu irmãozinho mas pequenino a pegar numa medida de farinha e a metê-la no saco do pobre, que na soleira, entretanto, rezava pelos vivos e pelos defuntos da casa. O sinal do pão não precisa de palavras” (p.81).

♦ “Quantos pães tendes? Não respondais de imediato, ide ver. Jesus era muito concreto muito prático, ao pedir aos seus para observarem bem, controlarem, fazerem as contas. Foram e informaram-se, diz o Evangelho. Praticaram aquela operação de contabilidade e de controle, e referiram a quantidade precisa. A operação de contabilidade é exigida todos os discípulos, até mesmo hoje: quanto tens? Quanto dinheiro há no cofre, quantas casas, quantos empregados? Qual é o teu teor de vida? Vai ver e controla. Quantos carros ou quantas joias em forma de cruzes peitorais, anéis e cálices? (p.82).

♦ “Têm pouca coisa, os Doze, apenas cinco pães e dois peixes, que nem sequer chegam para assegurar a ceia do pequeno grupo: o que são dois peixes de anzol, ressequidos e partilhados para treze pessoas? Não são nada mais é tudo colocado á disposição. Tudo que temos e possuímos, deve transformar-se em sacramento de partilha. O homem é assim, foi feito para dar. Fomos feitos para dar com alegria, dar o coração. E quando não damos, ficamos tristes, entramos em depressão. Amar no Evangelho, sempre se traduz, por outro verbo, tão breve, seco, concreto, o verbo dar: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único” (Jo 3,16); não existe maior amor do que dar a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13) (p. 83).

♦ “Que posso eu fazer? Só tenho cinco pães. E, contudo, Jesus não liga à quantidade, o menos é que lhe serve, o muito pouco. Jesus pede ao discípulo para partilhar, pede o coração. São poucos bocados, mas o cristão é chamado a fornecer fermento ao mundo mais do que pão (Miguel de Unamuno). Fermento de partilha, sal que dissolve e dá sabor… Um fermento de Evangelho, fome de Deus e de um outro mundo possível, mãos que levam pão, que lutam contra outras sementes que procuram invadir o coração” (p.88).

♦ O milagre é o pão que passa de mão em mão. E está entre as mãos de um e de outro a multiplicar-se. Se um o tivesse guardado para si o pão diminuía, o sonho (da fraternidade) teria acabado (p.89-90).


Para reflexão

É impressionante constatar, num mundo hipertecnológico e sofisticado como o nosso a força simbólica que continuam a ter as coisas simples. Pensemos no pão. O seu apelo e significado atravessam culturas e gerações. O pão tornou-se um símbolo extraordinário e universal… Foi assim para os nossos avós, é assim para nós… Lembro-me de que quanto criança, se um pão caía da mesa, apanhávamo-lo e dávamos um beijo, mesmo se já não o pudéssemos comer. Para lá cara simbólica, o pão revestia-se de um sentido sagrado. Penso que é assim porque o pão é uma expressão concreta da nossa própria humanidade. O pão não é só farinha, fermento, água e sal. É muito mais do que isso. O pão é sinal ao que é essencial à vida, de tudo aquilo de que a nossa sobrevivência depende e sem a qual não poderíamos subsistir. Representa os fios que nos atam à vida e que nos mantém à flor da terra. Por isso, descobrimos que o seu significado se alarga continuamente.
José Tolentino Mendonça, “Pai nosso que estais na terra”, Paulinas, p. 89-90


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Sugestões para encontrar-nos com Deus

José Antonio Pagola

Há pessoas que desejam sinceramente encontrar a Deus, mas não sabem que caminho seguir. Sem dúvida, cada um deve fazer seu percurso pessoal, e ninguém pode assinalar-nos de fora os passos concretos que devemos dar, mas há sugestões que podem ajudar a todos nós. Eis a seguir algumas.

Se buscas a Deus, antes de tudo deixa de temê-lo. Há pessoas que, quando ouvem falar de Deus, começam a pensar em suas misérias e pecados. Este tipo de medo de Deus está te afastando dele. Deus te conhece e te ama. Ele saberá encontrar o caminho para entrar em tua vida, por medíocre que sejas.

Não tenhas pressa. Atua com calma. Há pessoas que, durante uns dias, fazem muitas coisas: rezam, leem livros, buscam métodos para fazer oração. Mas aos poucos abandonam tudo e voltam à sua vida de sempre. Tu deves caminhar devagar. Descobre humildemente tua pobreza e necessidade de Deus. Ele não está no final de não sei que esforços. Já está junto de ti, desejando fazer-te viver.

Desce ao teu coração e chega até as raízes mais secretas de tua vida. Tira as máscaras. Como vais caminhar disfarçado ao encontro com Deus? Não tens necessidade de ocultar tuas feridas nem tua desordem. Pergunta-te sinceramente: O que ando buscando na vida? Por que não há paz em meu coração? O que preciso para viver com mais alegria? Por aí encontrarás um caminho para chegar a Deus.

Aprende a rezar. Pode fazer-te bem buscar um lugar tranquilo e reservar um tempo apropriado. No começo não saberás o que fazer, e podes sentir-te até incômodo. Faz tanto tempo que não paraste diante de Deus. Busca na Bíblia o livro dos Salmos e começa a recitar bem devagar algum deles. Para só naquelas frases que te dizem algo. Sem tardar descobrirás que os salmos refletem teus sofrimentos e tuas alegrias, teus anseios e tua busca de Deus. Quando tiveres aprendido a saboreá-los, já não os deixarás.

Toma o Evangelho em tuas mãos. Não é um livro a mais. Nele encontrarás Jesus. Ele é o verdadeiro caminho que te levará a Deus. Toma tempo para lê-lo e saboreá-lo. Costuma-se dizer que o Evangelho é uma “regra de vida”. É verdade. Mas antes de tudo é uma “Boa Notícia”. Medita as palavras de Jesus e seus gestos. Sentirás que algo começa a mover-se em teu coração. Jesus te irá sanando. Ele te ensinará a viver.

Se és constante e segues alimentando tua vida nesses evangelhos que te conduzem a Jesus, um dia descobrirás quanta verdade encerram suas palavras. “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não passará fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

As coisas que passam e as que não passam

Pe. Johan Konings

O evangelho de hoje é o início do “sermão do Pão da Vida”, com o qual o evangelista João dá continuidade ao “sinal” da multiplicação dos pães narrado domingo passado. Nos próximos domingos, o tema continua.

Depois da multiplicação dos pães, Jesus volta a Cafarnaum (Jo 6, 24). Os conterrâneos querem saber como de repente ele está de volta, se não embarcou com os discípulos na noite anterior. Jesus lhes faz sentir que, apesar de terem presenciado o milagre do pão, não enxergaram aí um sinal daquilo que ele significa: a realidade de Deus oferecida ao mundo. Apenas se saciaram de pão. Não entenderam que a refeição era um sinal. Eram como um motorista que pensa que sinal vermelho é apenas enfeite…

Os judeus de Cafarnaum então perguntaram que esforço Deus espera deles – pois querem se esforçar para que Deus se veja obrigado a dar-lhes a salvação! Mas Jesus diz que o esforço que Deus espera deles é que acreditem naquele que ele enviou (6,29).

Percebem que Jesus está falando de si mesmo. Para acreditarem nele querem ver suas credenciais. No tempo de Moisés, seus antepassados comeram o maná, no deserto, como está escrito: “Deu-lhes pão do céu a comer” (6,31; cf. Sl 78 [77], 24). Responde Jesus que não foi Moisés quem deu o pão do céu, no passado, mas que agora o Pai está dando o verdadeiro pão do céu: aquele que desce do céu e que dá vida ao mundo. Ininteligentes como o motorista que pensa que sinal vermelho é enfeite, ficam raciocinando no trilho do pão material, pensando no problema do sustento: “Dá-nos sempre esse pão”. Então Jesus diz abertamente o que significa a sua palavra ambígua e o sinal que ele realizou no dia anterior: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim não terá mais sede”(6,35).

Quem conhece as Escrituras reconhece nestas palavras a proclamação registrada em Isaías, no tempo do exílio babilônico. Em meio à idolatria da Babilônia, o profeta orienta o coração dos exilados para o único Senhor, muito mais valioso que o sistema babilônico com seus deuses e ilusões. O que se consegue com os babilônios não vale nada, é mero engodo comercial, pão que não alimenta! Mas quem escuta a voz do Senhor recebe a sabedoria da vida, a Aliança duradoura com Deus, o cumprimento de suas promessas (Is 55,1-3). Assim, quem se alimenta com a palavra de Jesus recebe o “pão da vida”, quem se dirige a ele sofre nem fome nem sede.

Mas não interpretemos isso com falso materialismo, dizendo que as coisas materiais passam e as espirituais, permanecem. Depende do que se entende por esses termos! Se “espiritual” significa apenas erudição e brilho intelectual ou divagação etérea em doutrinas sublimes, então isso é o que passa! E se “material” significa dedicar-se ao pão dos pobres, isto é o que permanece! Pois é a vontade do Pai.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella