Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

10º Domingo do Tempo Comum

Décimo domingo do Tempo Comum

Sem medo ou vergonha diante de Deus

 

Frei Gustavo Medella

“Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi” (Gn 3,10b). A nudez de Adão, que até então não era motivo nem de medo nem de vergonha para ele, passa a ser a partir do momento em que o primeiro homem experimenta do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Foi Eva, a primeira mulher, estimulada pela serpente, que o fez provar o referido fruto, tendo ela também experimentado.

O primitivo casal foi, na verdade, arrastado pelo “efeito cascata” de uma semente maliciosa lançada pela serpente no coração de Eva. A semente da ambição, da ilusão e da desconfiança, justamente de quem eles não deveriam desconfiar: o Criador que, com amor, os convidara à aventura da vida.

Estimulados na ambição, foram convidados a buscar uma grandeza ilusória que não lhes pertencia (“Sereis como deuses”), e instados à desconfiança em relação Àquele que tudo havia lhes confiado. No entanto, muito rapidamente caíram em si e se recobriram do medo e da vergonha que até hoje nos dão imenso trabalho na lida com nossos limites e pecados.

Atitude semelhante assumem os mestres da lei que, incomodados pela face misericordiosa e acolhedora de Deus apresentada por Jesus Cristo, acusam-lhe de praticar o bem pela força do mal (Mc 3,22). Ora, o caminho percorrido pelo Filho de Deus é justamente o oposto daquele que Adão tentou empreender sob a tentação da serpente. Se no primitivo ser humano a ambição era a de se tornar como Deus, em Cristo, o novo Adão, é Deus quem toma a iniciativa de abraçar de cheio a fragilidade humana.

Participar da família de Deus reunida em Jesus Cristo é uma graça capaz de reconciliar o ser humano inclusive com as próprias misérias e contradições. O abraço misericordioso de Deus àquilo que temos de tenebroso e frágil é nossa grande possibilidade de redenção conosco e com os nossos irmãos e irmãs. Ninguém precisa ter medo ou vergonha dos próprios limites. O necessário mesmo é ter a coragem e a humildade de apresentá-los a Deus colocando-nos a serviço do Reino, apesar de nossas encrencas.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

1ª Leitura – Gn 3,9-15

Depois que o homem comeu da fruta da árvore, 9o Senhor Deus chamou Adão, dizendo: ‘Onde estás?’ 10 E ele respondeu: ‘Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi’. 11 Disse-lhe o Senhor Deus: ‘E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer?’ 12 Adão disse: ‘A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi’. 13 Disse o Senhor Deus à mulher: ‘Por que fizeste isso?’ E a mulher respondeu: ‘A serpente enganou-me e eu comi’. 14 Então o Senhor Deus disse à serpente: ‘Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre
e comerás pó todos os dias da tua vida! 15Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar’.

Palavra do Senhor.


Salmo – Sl 129,1-2.3-4ab.4c-6.7-8 (R. 7)

R.No Senhor toda graça e redenção!

1 Das profundezas eu clamo a vós, Senhor,* 2 escutai a minha voz! Vossos ouvidos estejam bem atentos* ao clamor da minha prece!R.
3 Se levardes em conta nossas faltas,* quem haverá de subsistir? 4Mas em vós se encontra o perdão,* eu vos temo e em vós espero.R.
5 No Senhor ponho a minha esperança,* espero em sua palavra. 6 A minh’alma espera no Senhor* mais que o vigia pela aurora.R.
7 Espere Israel pelo Senhor,* pois no Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção. 8 Ele vem libertar a Israel* de toda a sua culpa.R.


2ª Leitura – 2Cor 4,13-18- 5,1
Irmãos: 13 Sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: ‘Eu creio e, por isso, falei’, nós também cremos e, por isso, falamos, 14 certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco. 15 E tudo isso é por causa de vós, para que a abundância da graça em um número maior de pessoas faça crescer a ação de graças para a glória de Deus.
16 Por isso, não desanimamos. Mesmo se o nosso homem exterior se vai arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando, dia a dia. 17 Com efeito, o volume insignificante de uma tribulação momentânea acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável. 18 E isso acontece, porque voltamos os nossos olhares para as coisas invisíveis e não para as coisas visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno.
5,1 De fato, sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna.

Palavra do Senhor.


O pecado sem perdão
Evangelho: Mc 3,20-35

* 20 Jesus foi para casa, e de novo se reuniu tanta gente que eles não podiam comer nem sequer um pedaço de pão. 21 Quando souberam disso, os parentes de Jesus foram segurá-lo, porque eles mesmos estavam dizendo que Jesus tinha ficado louco. 22 Alguns doutores da Lei, que tinham ido de Jerusalém, diziam: «Ele está possuído por Belzebu»; e também: «É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios.»

23 Então Jesus chamou as pessoas e falou com parábolas: «Como é que Satanás pode expulsar Satanás? 24 Se um reino se divide em grupos que lutam entre si, esse reino acabará se destruindo; 25 se uma família se divide em grupos que brigam entre si, essa família não poderá durar. 26 Portanto, se Satanás se levanta e se divide em grupos que lutam entre si, ele não poderá sobreviver, mas também será destruído. 27 Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar suas coisas, se antes não amarrar o homem forte. Só depois poderá roubar a sua casa. 28 Eu garanto a vocês: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados como as blasfêmias que tiverem dito. 29 Mas, quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, pois a culpa desse pecado dura para sempre.» 30 Jesus falou isso porque estavam dizendo: «Ele está possuído por um espírito mau.»

A verdadeira família de Jesus -* 31 Nisso chegaram a mãe e os irmãos de Jesus; ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo: 32 Havia uma multidão sentada ao redor de Jesus. Então lhe disseram: «Olha, tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram.» 33 Jesus perguntou: «Quem é minha mãe e meus irmãos?» 34 Então Jesus olhou para as pessoas que estavam sentadas ao seu redor e disse: «Aqui estão minha mãe e meus irmãos. 35 Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»

* 20-30: Em Jesus está presente o Espírito Santo, que o leva à missão de libertar e desalienar os homens. Por isso ele é acusado de estar «possuído por um espírito mau.» Tal acusação é pecado sem perdão. Para os acusadores, o bem é mal, e o mal é bem. Eles, na verdade, estão comprometidos e tiram proveito do mal; por isso, não reconhecem e não aceitam Jesus.

* 31-35: Enquanto a família segundo a carne está «fora», a família segundo o compromisso da fé está «dentro», ao redor de Jesus. Sua verdadeira família é formada por aqueles que realizam na própria vida a vontade de Deus, que consiste em continuar a missão de Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

10º Domingo do Tempo Comum

 Oração: “Ó Deus, fonte de todo o bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda”.

  1. Leitura: Gn 3,9-15

Porei inimizade entre a tua descendência

e a descendência da mulher.

Em Gn 2–3, Deus cria o ser humano como um ser comunitário; homem e mulher são “auxílio necessário” um para o outro, a fim de viverem em comunhão de amor, planejada pelo Criador. Havia harmonia entre homem e mulher, harmonia entre o ser humano e as demais criaturas da terra (jardim de Éden) e harmonia com o Criador. Este é o projeto de Deus. Em Gn 2, porém, Deus não diz que “tudo que havia feito era muito bom”, como em Gn 1,31, pois esta harmonia é algo por ser ainda buscado. Na realidade ela foi quebrada quando homem e mulher, por sugestão da “serpente” (símbolo do mistério do mal, satanás, adversário), comem do fruto proibido, que os faria ser “como deuses, conhecedores do bem e do mal”. Em vez de se tornarem “como deuses”, percebem que estão nus; essa nudez significa não tanto o pudor, mas a limitação e carência do ser humano diante de Deus. Por isso se escondem. Deus, porém, visita o jardim, não apenas para punir a desobediência do ser humano, mas para socorrê-lo em sua carência e limitação. No interrogatório, Deus pergunta ao homem por que está se escondendo e ele responde que estava com medo porque estava nu. Deus o acusa de ter desobedecido ao comer do fruto proibido e ele responde, acusando de certo modo, a Deus: “Foi a mulher que me deste por companheira”. E a mulher ao ser interrogada joga a culpa na serpente, também uma criatura de Deus, como os outros animais (Gn 2,18-20). No fundo, a explicação da origem do mal recai sobre Deus. No livro da Sabedoria (2,24) o diabo é identificado com a serpente. Assim também em Jo 8,44; Ap 12,9; 20,2). Tiago, porém, adverte: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘É Deus que me tenta’. Pois Deus não pode ser tentado para o mal, nem tenta ninguém. Cada um é tentado pelo próprio mau desejo que alicia e seduz” (Tg 1,13-14). A serpente é punida e deverá arrastar-se pelo chão; a mulher é punida pela dominação que o marido sobre ela exerce e pelos sofrimentos de sua gravidez; o homem é punido pela dureza do trabalho na produção de alimentos. Começa a desarmonia entre Deus e o ser humano, entre homem e mulher e entre o homem e a terra. Deus nos deu a liberdade para podermos amá-lo. Seremos sempre atraídos pelo Sumo Bem e tentados para o mal. Mas os descentes de “Eva” sempre poderão esmagar a cabeça da serpente, com Maria, a “Nova Eva”, e com Jesus Cristo, seu grande descendente (v. 15).

Salmo responsorial: Sl 129

No Senhor toda graça e redenção.

  1. Segunda leitura: 2Cor 4,13–5,1

Nós também cremos e, por isso, falamos.

Paulo está engajado, de corpo e alma, na luta da pregação do Evangelho. A pregação do Evangelho e a vida cristã são sustentadas pela fé no Cristo Ressuscitado. Paulo tem consciência de sua limitação humana, pois tudo é graça, é dom de Deus. É movido pela esperança da vitória final sobre o mal e a morte: “Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco”. Porque “o último inimigo a ser reduzido a nada será a morte” (1Cor 15,26). Segundo Paulo, a vida cristã é dinâmica pois, à medida em que nosso “homem exterior vai se arruinando, o nosso homem interior… vai se renovando”. É da fé em Jesus Cristo que brota a esperança da ressurreição. 

Aclamação ao Evangelho

O príncipe deste mundo agora será expulso;

e eu, da terra levantado, atrairei todos a mim mesmo.

  1. Evangelho: Mc 3,20-35

Satanás será destruído.

A luta permanente entre a humanidade e a serpente, entre o Bem e o Mal, da qual fala a primeira leitura, concretiza-se na vida pública de Jesus. A intensa atividade de Jesus, andando pelas aldeias, anunciado a boa nova do Reino de Deus, curando os enfermos e aleijados, expulsando os demônios deixava seus parentes e adversários preocupados. Os parentes de Jesus, preocupados com sua saúde física e psíquica, queriam tirá-lo do meio do povo, pensando que ele “estava fora de si”; isto é, possuído por um espírito, ou que estava “estressado” – diríamos nós. De fato, a atividade de Jesus e os discípulos era tão intensa que eles “não tinham nem tempo para comer”. De Jerusalém vem os mestres da Lei para examinar o caso e desautorizam Jesus, acusando-o de expulsar demônios em nome de Belzebú, o chefe dos demônios. Aos mestres da Lei Jesus responde que, ao expulsar os demônios, está combatendo o Satanás; por isso, o Reino de Deus que anuncia vai acabar com o reino do Mal. Aos seus familiares Jesus responde que agora tem uma nova família, isto é, seus discípulos e o povo que o acompanham. Olhando para eles, Jesus diz: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. A urgência de anunciar a boa-nova do Reino de Deus exigiu de Jesus a opção radical de deixar sua própria mãe. Jesus exige o mesmo daqueles que desejam abraçar sua missão: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Assumir a vida em família também tem suas exigências: “Por isso o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher e se tornarão uma só carne” (Gn 2,24). Fazer a vontade de Deus é assumir as práticas de Jesus.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Não médium, mas Deus

Frei Clarêncio Neotti

O trecho começa com parentes de Jesus e termina com parentes. A atitude dos primeiros assemelha-se, embora de forma atenuada, à dos fariseus. Não veem a presença de Deus, mas uma ‘loucura’ (v. 21). Esses parentes continuam. Continuam negando a divindade de Jesus, atribuindo-lhe poderes mediúnicos. E pensam até que estão afirmando coisa boa dele. Não estranha que os que lhe dão apenas poderes mediúnicos não creem em seu poder redentor, porque a redenção está ligada à divindade. Descartada a divindade de Jesus, está negada sua missão salvadora.

O episódio dos parentes que aparecem na parte final, incluída sua Mãe, realça o fato de que, na nova família de Deus, que Jesus estava começando a fundar, não seriam o sangue e os laços familiares, por maiores que fossem, que dariam algum direito à pertença. Mas o ‘fazer a vontade de Deus’ (v. 35). E nisso Maria leva o maior elogio, porque ela se tornou quase sinônimo de vontade de Deus, com seu histórico e fundamental ‘sim’ (Lc 1,38). Fazer a vontade de Deus é “crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, ter a vida em seu nome” (Jo 20,31).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Homem, onde estás?

Frei Almir Guimarães

♦ Domingo, dia do Senhor! Continuamos nossos encontros dominicais do Tempo Comum de nossa Igreja. A primeira leitura, do livro do Gênesis, relata o drama da fissura do coração de nossos primeiros pais após o pecado e fala de Deus buscando Adão: “Onde estas?”. A leitura de Marcos, por sua vez, enfoca a ação do Maligno sobre as pessoas. Gostaria de me limitar a uma reflexão sobre o trecho do livro do Gênesis.

♦ Faz bem ouvir esses textos dos primeiros capítulos da Bíblia. São encantadores e saborosos. Levam-nos à admiração e ao espanto. Fazem com que tenhamos saudades do paraíso perdido. Encaminham-nos a uma terra de frescor e de paz. Carlos Mesters, há anos, escreveu um interessantíssimo texto cujo título era: “Paraíso terrestre: saudade ou esperança?

♦ O Senhor Deus costumava passear no Jardim do Éden admirando flores e plantas. Gostava de sentir no rosto o frescor da brisa vespertina. Certa feita sentiu falta de Adão. O que teria acontecido? “Adão, onde estás? Homens e mulheres de todo os tempos, onde vocês tão? Por que estás escondido, Adão? Onde escondemo-nos dos olhos do Senhor? Quando isso acontece? Por quê?

♦ “Ouvi o barulho dos teus passos no jardim e tive medo porque estou nu e ocultei-me”. A árvore, o fruto apetitoso da árvore…a mulher… Adão e Eva não conseguiram resistir a tentação. Instala-se a desordem, quebra-se a inocência. O coração deixa de ouvir a voz do amor. Homem e mulher se cobrem com folhas. Como descrever essa situação? Um vaso de cristal espatifado no chão. Paulo dirá: não quero o mal e é o mal. O drama do pecado, do homem que se coloca distante de Deus. Quem nos livrará desse corpo de morte? Perdemos a candura porque temos vontade de tudo nos assenhorar como propriedade nossa. Francisco de Assis, mais tarde, vai pedir que tudo restituamos ao Senhor. Restituição. Desapropriação. Viver jubilosamente nossa pobreza.

♦ “Onde estás, tu que eu cativei. Tu que andaste atrás de mim como a amada procura o Amado”. Muitos já vivemos tempos de núpcias com o Senhor. Sabíamos que ele enchia nossa vida de sentido. Nosso querer somava-se ao querer do Senhor. Nosso coração não tinha ídolos e apegos. Parece mesmo, quem sabe, que pouco faltava para dizer que éramos definitivamente do Senhor. “Tu que vivias tão serenamente diante de meus olhos…o que aconteceu que agora te escondes? O que acontece, rapaz?”

♦ “Meu coração continua teu. Só tenho paz profunda quando posso olhar serena e longamente nos teus olhos. Tenho vergonha. Ando querendo resolver minha vida por mim mesmo. Resolvo acertar as contas com aqueles que entravam meu caminho… Durante longos tempos não faço lugar em meu interior para que empurres a porta e entres. Ando me maquiando de cores que não correspondem ao que sou interiormente. Por isso, o belo e puro brilho de teu olhar faz com que eu me esconda. Estou nu e tenho vergonha.

♦ Perdi um pouco o gosto de estar aos teus pés como a mulher que lavava com lágrimas os pés de Jesus. Não sei fazer sala carinhosa e te buscar como fez Maria, a irmã de Lázaro”.

♦ Estou por aí, vagueando no meio da multidão, no metrô, nas aglomerações, olhando para isso e aquilo… fazendo o que me compete fazer, mas o olhar meio baixo, tudo na rotina sem um fogo que pudesse contagiar e uma luz que conseguisse iluminar a vida de poucas pessoas que fosse”.

♦ Somos enganados pelo Maligno. Aproveitar a vida. Beber todos os goles que os inebriem. Desfilar nas passarelas. Arrancar concordâncias para nossos gestos. Meus celeiros estão cheios. E depois, um pouco mais adiante. Deus vai perguntar a Caim: “Onde está o teu irmão”.

♦ Precisamos responder pessoalmente a essa questão: “Onde tu estás?”

Texto para reflexão
Quando vivemos para sermos vistos, falseamos a verdade profunda para a qual nossa vida deve tender. Quando vivemos só de ação e de resultados, tornamo-nos possessivos e com menos capacidade de acolher e partilhar. Na solidão entramos em nosso quarto e fechamos a porta, podemos desmascarar, lentamente, ilusão da posse e do domínio e descobrir no fundo de nós mesmos que a vida espiritual não se trata de um conquista a defender, mas de um dom a repartir. É precisamente quando estamos mais sós, quando somos mais nós mesmos sem subterfúgios nem evasões, que Deus se manifesta mais perto de nos. Aí fazemos a experiência de Deus como Pai amoroso que nos conhece melhor do que nós nos conhecemos anos mesmos.

José Tolentino Mendonça, “O tesouro escondido – Para uma busca interior”, Paulinas, p. 25


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

A força curadora do Espírito

José Antonio Pagola

O homem contemporâneo está se acostumando a viver sem responder à questão mais vital de sua vida: por que e para que viver. A coisa mais grave é que, quando a pessoa perde todo contato com sua própria interioridade e mistério, a vida cai na trivialidade e na falta de sentido.

Vive-se então de impressões, na superfície das coisas e dos acontecimentos, desenvolvendo apenas a aparência da vida. Esta trivialização da vida é provavelmente a raiz mais importante da falta de fé de não poucos.

Quando o ser humano vive sem interioridade, perde o respeito pela vida, pelas pessoas e pelas coisas. Mas, sobretudo, perde a capacidade de “escutar” o mistério que se encerra no mais profundo da existência.

O homem de hoje resiste à profundidade. Não está disposto a cuidar de sua vida interior. Mas começa a sentir-se insatisfeito: intui que precisa de algo que a vida de cada dia não lhe proporciona. Nessa insatisfação pode estar o começo de sua salvação.

O grande teólogo Paul Tillich dizia que só o Espírito pode ajudar-nos a descobrir novamente “o caminho da profundidade’: Pelo contrário, pecar contra esse Espírito Santo seria “carregar nosso pecado para sempre”. O Espírito pode despertar em nós o desejo de lutar por algo mais nobre e melhor do que o trivial de cada dia. Pode dar-nos a audácia necessária para iniciar em nós um trabalho interior.

O Espírito pode fazer brotar uma alegria diferente em nosso coração; pode vivificar nossa vida envelhecida; pode acender em nós o amor inclusive para com aqueles pelos quais não sentimos hoje o menor interesse.

O Espírito é “uma força que atua em nós e que não é nossa”. É o próprio Deus inspirando e transformando nossa vida. Ninguém pode dizer que não está habitado por esse Espírito. O importante é não apagá-lo, avivar seu fogo, fazer com que arda purificando e renovando nossa vida. Talvez precisemos começar invocando a Deus com o salmista: “Não afastes de mim teu Espírito”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

O poder do Messias e os demônios

Pe. Johan Konings

O demônio está em alta. Há “igrejas” especializadas em expulsar os demônios que você tem. E se você não os tem, lhe arrumam alguns … Será que se pode comparar com essas práticas aquilo que Jesus andou fazendo no meio do povo da Galileia, conforme descreve o evangelho?

Nos tempos bíblicos, diversos tipos de forças misteriosas que assolavam as pessoas eram chamados “demônios” ou “espíritos de impureza” (= causando impureza, incapacidade de participar do culto). Muitos desses fenômenos hoje são da competência do médico ou do psiquiatra. Mas havia também a percepção de um poder do mal que é maior que a gente, e ao qual se chama de Satã ou “diabo”. O diabo tenta desviar o ser humano de sua vocação à comunhão com Deus. Mas ele não tem a última palavra; é inferior a Deus, que o condena. É o que ensina a 1ª leitura de hoje. O homem e a mulher são punidos por terem prestado ouvido antes ao diabo (a serpente) do que a Deus, mas o diabo é subjugado a Deus e à descendência da mulher. E o evangelho mostra esse “descendente da mulher”, que domina o diabo – como se manifesta (dentro dos conceitos daquele tempo) na expulsão dos demônios.

Ora, alguns mestres atribuíam o poder de Jesus sobre os demônios ao próprio chefe dos demônios. Jesus responde com três argumentos: I) o demônio não é combate contra si mesmo; 2) está aí alguém que é mais forte que o demônio (o “anunciado” da 1ª leitura); 3) não existe pecado mais grave do que caluniar o Espírito de Deus – e é isso que esses mestres estão fazendo! A cena termina, depois, com uma palavra de Jesus a respeito de seus parentes que não compreendem a sua atuação. Jesus diz que sua verdadeira família são aqueles que escutam seu ensinamento e praticam a vontade de Deus.

Jesus é o Messias, vindo com o poder de Deus. É com esse poder e com nenhum outro que ele expulsa as forças malignas. E com o mesmo poder ensina a vontade de Deus, pedindo que a pratiquemos, para nos tomarmos seus verdadeiros irmãos.

Expulsar o que se opõe ao bem e praticar a vontade do Pai são dois lados da mesma moeda. Se pretendemos aderir a Jesus e à sua prática, devemos também, no Espírito de Deus, libertar os nossos irmãos das possessões demoníacas de hoje, aquilo que os desvia do plano do Pai, aquilo que os impede de doar-se à prática do Reino: os vícios do consumo, da droga, da ganância, as amarras de uma sociedade estruturada para fazer reinar a injustiça … todas as forças que oprimem o bem que Deus colocou em seus filhos e filhas.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella