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Romero: o primeiro santo de El Salvador

Romero: o primeiro santo de El Salvador

A Igreja da América Latina ganhou mais um santo. Na realidade, para o povo, Oscar Romero já era considerado santo desde o seu martírio, em 24 de março de 1980. Ele é o primeiro santo de El Salvador, país localizado na América Central com pouco mais de 6 milhões de habitantes.

A ação pastoral do bispo visava ao entendimento mútuo entre os salvadorenhos. Criticava duramente tanto a inércia do governo, as interferências estrangeiras, como as injustiças praticadas pelos grupos “revolucionários”. O Arcebispo Dom Oscar Arnulfo Romero foi fiel a Igreja, e pagou com a vida o preço de ser discípulo de Cristo. O seu nome foi incluído na relação dos 1015 salvadorenhos que foram assassinados, em 1980.

Nas palavras do Papa Francisco por ocasião de sua beatificação, “Romero convida-nos ao bom senso e à reflexão, ao respeito pela vida e à concórdia. É necessário renunciar à violência da espada, do ódio, e viver a violência do amor, que nos deixou Cristo pregado numa cruz, aquela que cada um deve fazer a si mesmo para vencer os próprios egoísmos e a fim de que não haja desigualdades tão cruéis entre nós. Ele soube ver e experimentou na sua própria carne o egoísmo que se insinua em quantos não querem ceder o que é seu para alcançar os outros. E, com um coração de pai, preocupou-se com as maiorias pobres, pedindo aos poderosos que transformassem as armas em foices para o trabalho”.

Biografia de Dom Oscar Romero

Oscar Arnulfo Romero Y Gadamez nasceu em 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, em El Salvador. Sua família era numerosa e pobre. Quando criança, sua saúde inspirava cuidados. Com apenas 13 anos entrou no seminário. Foi para Roma completar o curso de teologia com 20 anos e se ordenou sacerdote, em 1943.

Retornou a El Salvador, na função de pároco. Era um sacerdote generoso e atuante: visitava os doentes, lecionava religião nas escolas, foi capelão do presídio; os pobres carentes faziam fila na porta de sua casa paroquial, pedindo e recebendo ajuda. Durante 26 anos, na função de vigário, padre Oscar Romero conheceu a miséria profunda que assolava seu pequeno país.

A maioria dos países sul-americanos vivia duras experiências de ditaduras militares, na década de 1970. Também para El Salvador era um período de grandes conflitos. Em 1977, padre Oscar Romero foi nomeado Arcebispo de El Salvador, chegando à capital com fama de conservador. No fundo era um homem do povo, simples, de profunda sensibilidade para com os sofrimentos da maioria, de firme perspicácia aliada à coragem de decisão.

Em 1979, o presidente do país foi deposto pelo golpe militar. A ditadura se instalou no país e, pouco a pouco, se acirrou a violência. Reinou o caos político, econômico e institucional no país. De janeiro a março de 1980 foram assassinados 1015 salvadorenhos. Os responsáveis pertenciam às forças de segurança e às organizações conservadoras do regime militar instalado no país.

Nessa ocasião, dois sacerdotes foram assassinados violentamente por defenderem os camponeses, que foram pedir abrigo em suas paróquias. Dom Romero teve que se posicionar e, de pronto, se colocou no meio do conflito. Não para aumentá-lo, mas para ajudar a resolvê-lo. Esta atitude revelou o quando sua espiritualidade foi realista e o seu coração, sereno e obediente ao Evangelho.

No dia 24 de março de 1980, Dom Romero foi fuzilado, em meio aos doentes de câncer e enfermeiros, enquanto celebrava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador.

Sua ação pastoral visava ao entendimento mútuo entre os salvadorenhos. Criticava duramente tanto a inércia do governo, as interferências estrangeiras, como as injustiças praticadas pelos grupos “revolucionários”. O Arcebispo Dom Oscar Arnulfo Romero foi fiel a Igreja, e pagou com a vida o preço de ser discípulo de Cristo. O seu nome foi incluído na relação dos 1015 salvadorenhos que foram assassinados, em 1980.

Mártir do Evangelho por ódio à fé

Por ocasião da beatificação de Dom Oscar Romero, o Papa Francisco afirmou que “o mundo mudou muito desde aquele longínquo 1980, mas o pastor de um pequeno país da América Central fala mais forte”.  Sim, essa é a esperança do nosso povo, que a voz do Evangelho ecoe em nossas vidas com força capaz de regenerar aquilo que foi destruído pela ganância e pelo pecado.

Em El Salvador, algumas forças contrárias à ação de Deus procuraram calar a voz do Pastor. Ao mesmo tempo, Oscar Romero afirmava: “Se eu morrer, eu ressuscitarei no povo Salvadorenho”. A voz do filho, irmão, padre e exímio pastor continua falando não somente no povo de El Salvador, mas em todos os homens e mulheres que buscam estreitar os laços de irmandade universal.

A Igreja, nos últimos tempos, tem passado por alguns momentos difíceis. Oxalá a canonização de Paulo VI e do mártir Oscar Romero nos ajude a fazermos um profundo exame de consciência e optar por manter viva em nós a vocação à santidade, para que transformemos o mundo.

Por ocasião da canonização de Dom Oscar Romero, Frei Omar Durán Vásquez, que pertence à Província Franciscana de Nossa Senhora de Guadalupe (Centro América, Panamá e Fundação do Haiti), que atualmente cursa Doutorado em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Antonianum em Roma, nos ajuda a conhecer uma pouco mais o novo santo, bispo e mártir, através de suas homílias.

Entrevista concedida a Frei Gilberto da Silva.

Site Franciscanos – Através dos estudos das homilias e dos escritos de Dom Oscar Romero, você poderia destacar alguns aspectos da vida do nosso santo que são importantes para compreendermos a ação de Deus na História. 

Frei Omar Durán Vásquez – Monsenhor Romero, no dia 23 de março de 1980, dia anterior ao seu martírio, pregou e recordou ao povo de Deus algumas chaves que manifestam e mostram a atuação de Deus na história do gênero humano:

“Que frase mais bela de Deus. Deus é aquele que faz nova todas as coisas. É o Deus que caminha com a história. Hoje também El Salvador vive seu êxodo próprio, hoje estamos passando também nossa libertação pelo deserto, onde cadáveres, onde a dor angustiante nos assola e muitos sofrem a tentação dos que caminhavam com Moisés e queriam voltar atrás e não colaboravam. É a história de sempre: Deus quer salvar ao povo renovando a história. […] Que densa nossa história, que muda de um dia para o outro. Alguém sai de El Salvador, volta na semana seguinte e parece que a história mudou rotundamente. Não podemos julgar as coisas da forma que as julgamos anteriormente. Uma coisa sim: tenhamos a fé ancorada firmemente em Jesus Cristo, o Deus da história. Este sim, não muda. Mas Ele tem a alegria de mudar a história, julgar a história, ‘fazer novas todas as coisas’”. 

Para Monsenhor Romero, o ponto de partida da mudança que Deus quer fazer na história é a partir do Êxodo, porque o desejo mais profundo de Deus é “fazer novas todas as coisas”. Para isso, existe uma dupla dinâmica que envolve a missão do cristão para que Deus possa mudar a história e fazê-la nova. Isto envolve a tomada de consciência do seu ser cristão a partir de Cristo. Por isso, disse:

“A graça do cristão, então, está em não estabelecer-se em tradições que já não podem ser sustentadas, mas em aplicar esta tradição eterna em Cristo às realidades presentes. Nós, que fomos formados em outras épocas, devemos ter e pedir ao Senhor a graça de nos adaptarmos sem trair nossa fé, sermos compreensivos com o dia de hoje”. 

A ação de Deus na história se dá através de uma dinâmica dupla. Aplica-se a tradição eterna de Cristo no presente.

“Por isso digo, à medida em que os projetos históricos tratam de refletir o projeto eterno de Deus, nesta medida, refletem o Reino de Deus e este é o trabalho da Igreja. Por isso ela não se instala em nenhum sistema social, em nenhuma organização política, em nenhum partido. A Igreja não se deixa caçar por nenhuma destas forças porque ela é a peregrina eterna da história e sinaliza em todos os momentos históricos o que reflete ou não o Reino de Deus. Ela é servidora do Reino de Deus.” 

Site Franciscanos – Qual é a compreensão do monsenhor Romero da Igreja no mundo e da libertação?                     

Frei Omar – Para Romero, o evangelho mais bonito de Jesus é o da mulher surpreendida em adultério, humilhada e sentenciada ao apedrejamento por seu pecado. Jesus olha, em primeiro lugar, a dignidade da pessoa. Isto é o que urge libertar em primeiro lugar. Pouco importa para Jesus os legalismos que condenam à morte. O que Jesus toca é a consciência da pessoa. Ao atrever-se a atirar pedras, quando olhamos para a consciência, somos capazes de ver refletido o próprio pecado. Jesus não salva o pecado, mas sim a dignidade da pessoa que está submersa no pecado. Por isso, para o monsenhor Romero as leis têm que estar a serviço da pessoa, para salvá-la e não para condená-la. Ele sustenta que o pecado pessoal está na base do pecado social. É fácil apontar, clamar por justiça, mas é difícil ver a própria consciência. É no coração da pessoa que está a fonte do pecado. Por isso, a salvação tem que partir do coração do homem. É preciso desmascarar o pecado pessoal. Pedir perdão a Deus à sociedade por suas próprias vergonhas. (Cf. homilia do dia 23 de março de 1980).

Romero afirma que a Igreja não pode estar ausente da luta pela liberdade. Deve fazê-lo com uma presença original para levantar e dignificar o homem, ainda que o mundo não compreenda esta presença. Seguindo Paulo VI na Exortação Evangelii Nuntiandi nº 38, e no contexto da missa de exéquias de seu amigo assassinado, Pe. Rutilio Grande, sj; nosso mártir recordou: “A Igreja oferece esta luta libertadora do mundo, homens libertadores, mas com uma inspiração da fé, uma doutrina social que está na base de sua prudência e de sua existência para traduzir-se em compromissos concretos e sobretudo uma motivação de amor, de amor fraternal.” (Cf. homilia de 14 de março de 1977).

Segundo Romero, não se trata de colocar a esperança em ser comunista ou capitalista, porque os dois são materialistas. Trata-se de ter uma inspiração de fé a partir do seio de Igreja com uma doutrina social clara e uma motivação de amor. A motivação de amor é capaz de não caminhar com ressentimentos, com ódios ou com luta de classes, mas motivados a trabalhar para sermos todos irmãos. Estar especialmente com os que sofrem a pobreza, a marginalização, as torturas. Por isso, não se pode confundir Medellín com marxismo, como fazem certos jornalistas. (Cf. Homilia do dia 22 de maio de 1977).

A liberdade que a Igreja prega leva em consideração a fé e a esperança cristãs, porque nasce da libertação do coração da pessoa, a libertação do pecado. Isto somente se espera de Deus, que é quem perdoa o pecado desde a raiz. A Igreja deseja e luta para que toda criação possa cantar ao seu Senhor junto aos homens redimidos. Que cante de felicidade ao Deus libertador. (Cf. homilia de 11 de dezembro de 1977).

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Site Franciscanos – No dia 23 de março de 1980, Romero fez uma homilia profética. O que ele disse que pudesse provocar a morte dele no dia seguinte?

Frei Omar – Poderíamos destacar que o fim da homilia, no momento de ação de graças ele fez uma avaliação dos meses anteriores em El Salvador e diz que o país contava com um novo governo cuja intenção era “tirar-nos destes ambientes horrorosos e se o que eles pretendem é acabar com a organização do povo e estorvar o processo que o povo quer, não pode progredir outro processo. Sem as raízes no povo, nenhum governo pode ter eficácia, muito menos quando quer implantar à força, ao custo de sangue e dor”.

Ou seja, ele faz uma análise como profeta, vê e denuncia que as estruturas não estão mudando. Ao contrário, a violência aumentou. Ele faz um chamado à consciência do ser humano, chamado à relação do homem de fé desde a aliança do decálogo e onde julga um papel importante à singularidade do sujeito como sentido de povo, valorizando a dignidade da pessoa e a dignidade de sermos chamados filhos de Deus. Ele diz:

“Quero fazer um chamado de maneira especial aos homens do exército, concretamente às bases da Guarda Nacional, da polícia, dos quartéis. Irmãos que são de nosso mesmo povo, matam a seus irmãos camponeses. Diante da ordem de matar, dada por um homem, deve prevalecer a lei de Deus, que diz: não matar. Nenhum soldado é obrigado a obedecer uma ordem contra a lei de Deus. Uma lei imoral ninguém tem que cumprir. Já é hora de recuperar sua consciência e que obedeçam, antes sua consciência que a ordem do pecado. A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da lei de Deus, da dignidade humana da pessoa, não pode permanecer calada diante de tanta abominação. Queremos que o Governo considere que de nada servem as reformas se estão manchadas de sangue. Em nome de Deus e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu cada vez mais tumultuosos, eu suplico, rogo e ordeno, em nome de Deus: cesse a repressão. A Igreja prega sua libertação tal como estudamos hoje, na Sagrada Escritura. Uma libertação que considera, acima de tudo, o respeito à dignidade da pessoa, a salvação do bem comum do povo e a transcendência que olha antes de tudo Deus e somente Dele derivam sua esperança e força.”

Site Franciscanos – O que a última mensagem de Romero pode dizer ao contexto atual de El Salvador?

Frei Omar – Basta fazer uma busca na internet para ver as inúmeras notícias ligadas à violência em El Salvador. Isso nos mostra que continua até o dia de hoje o desrespeito à vida das pessoas. Pessoas são assassinadas sem nenhuma consideração à dignidade do ser humano. A mensagem de Romero pode nos ajudar a recordar que é preciso combater a raiz do pecado, seja ele pessoal ou social, de modo que salvaguardemos a dignidade da pessoa humana.

“Que fácil é denunciar a injustiça estrutural, a violência institucionalizada, o pecado social. Tudo isto é verdade, mas onde estão as fontes deste pecado social? No coração de cada homem. A sociedade atual é uma espécie de sociedade anônima em que ninguém quer assumir a culpa e todos somos responsáveis. Todos somos pecadores e colocamos nosso grão de areia nesta onda de crimes e violência em nosso país. Por isso, a salvação começa no homem, na dignidade do homem, de onde devemos arrancar o pecado. Na Quaresma, este é o pedido de Deus: Converta-se! Individualmente. Não há aqui entre nós dois pecadores iguais. Cada um cometeu suas próprias sem-vergonhices e queremos colocar a culpa no outro e ocultar as nossas. É necessário desmascarar-se. Eu também sou um deles e tenho que pedir perdão a Deus, ofendi a Deus e à sociedade. Este é o chamado de Deus: a pessoa antes de tudo!” (Cf. Homilia do dia 23 de março de 1980).

A tomada de consciência do cristão leva a situar-se diante dos problemas sociais para obedecer em primeiro lugar Deus, e depois os homens. E que, principalmente, não é negociável obedecer uma lei humana quando ela vai contra a dignidade do ser humano. Sobre este assunto, manifestou o seguinte:

“Leiam o capítulo 7 do livro de Macabeus, aí há uma teologia do martírio, uma teologia que hoje nosso povo precisa muito, a teologia do testemunho de fidelidade à lei de Deus contra os que obedecem aos que profanam a lei do Senhor. É preciso obedecer à lei de Deus, ainda que corra o risco de morrer. Que princípio mais valente! Aquele que é mutilado, que tem a língua cortada, os braços, é despedaçado; segundo a lei de Deus ressuscitará com seus membros íntegros e esta vida será devolvida glorificada no Senhor. Também ressuscitaram os carrascos, diz a Bíblia, mas não para receber glória, mas o castigo merecido, a humilhação se não se arrependerem de seu pecado”. (Cf. homilia de 6 de novembro de 1977).

Nosso profeta reconhece os poderes temporais e está disposto a obedecê-los, desde que eles respeitem os direitos de Deus. Ou seja, a defesa da dignidade da pessoa, a liberdade. A autoridade exercida que considere os direitos e desejos de Deus para o ser humano. A este propósito, manifestou:

“Como é bom sentir-se governado por Deus, sob a soberania de Deus. Assim se explica quando a Sagrada Escritura também diz que não existe poder que não venha de Deus e que é preciso obedecer este poder, porque viemos de Deus. […] Todo poder vem de Deus e por isso, o governante não pode usar o poder segundo seu capricho, mas segundo a vontade do Senhor. É a providência de Deus que quer governar os povos e não os governantes com seus ministros, servidores de Deus como todas as criaturas”.

romero_540Site Franciscanos – Dom Oscar Romero foi reconhecido na cerimônia de beatificação como “mártir por ódio à fé”. Quais implicações têm este título?

Frei Omar – O título dado por Roma implica um reconhecimento de seu profetismo e sua profunda fé no Senhor. Esta fé que o levou a comprometer-se concretamente. Para ele, a fé provoca, implicitamente, uma forte participação nas coisas deste mundo.

“O cristão não é um homem que espera tudo no futuro, o cristão sabe que Cristo está há 20 séculos trabalhando a humanidade, e a humanidade que se converte a Cristo é o homem novo da qual a sociedade necessita, para organizar um mundo segundo o coração de Deus”. (Homilia do dia 3 de dezembro de 1978).

“É preciso refletir sempre o Reino de Deus e sua justiça, para que os homens que trabalham nos projetos da terra tenham presentes esta iluminação, e que, à luz desta fé, tratem de construir também a sociedade da terra. Esta é a grande missão dos cristãos no mundo. […] Para que a fé seja autêntica, é preciso estar envolvida nas realidades do mundo, mas conservada sempre em Jesus Cristo” (Homilia de 10 de fevereiro de 1980).

Para nosso mártir, a fé ilumina como transformar o mundo de hoje. A resposta do mundo de pecado e de injustiças é provocar o martírio:

“Na liturgia, a palma representa o martírio, mas também a vitória. Esta é a vitória que vence o mundo: vossa fé. Maria sai ao encontro desta Igreja peregrina, disposta ao martírio, ao sofrimento, para dizer-nos a visão do Apocalipse. Ela, que é sinal das almas valentes, das almas que não traem sua fé. O Concílio Vaticano II diz que nem todos terão a honra de dar seu sangue, de ser morto, pela fé. Mas Deus pede a todos os que creem nele o Espírito do martírio, ou seja, todos devemos estar dispostos a morrer por nossa fé, ainda que Deus não nos conceda esta honra. Este espírito de entrega é o que significa para mim esta procissão de palmas” (Homilia do dia 15 de maio de 1977).

Antes de tudo, o martírio é um dom do Espírito de Deus:

“Mártir quer dizer testemunha. Testemunha de uma vida que o mundo não conhece, por isso persegue e calunia. Necessitamos de valentia nesta hora de covardes, de traidores, de vendedores de sua fé. Jovens, em vocês a Igreja se renova, em vocês o Espírito de Deus é como água fecunda para a humanidade nesta Arquidiocese em todas suas fronteiras, graças aos mártires que foram nobres, que defenderam sua Crisma, seu Batismo, sua fé em Cristo. (Homilia no dia 13 de maio de 1978).

Santo Romero das Américas

Foi no dia 24 de março de 1980 que assassinaram o Arcebispo de El Salvador. Ele, aos poucos, foi abrindo os olhos para a miséria do seu povo e a violência dos poderosos, que matavam ou faziam desaparecer líderes camponeses, padres e agentes de pastoral… Como um profeta, o bispo bradava nas homilias e pregações, denunciando a violação dos direitos humanos e da ética nacional.

Depois do assassinato de seu ajudante, o jesuíta Pe. Rutillo Grande († 1977), Dom Romero acusou frontalmente os governantes e militares, responsabilizando-os pelos males ocorrentes no país. Ele enfrentou o sistema de morte imperante.

O Papa Francisco também falou contra a máfia em março de 2014, que fez mais de 150.000 vítimas: “Convertam-se! Eu vos peço de joelhos! A vida que vocês levam não pode lhes dar prazer, nem felicidade… Vosso dinheiro está ensanguentado! Ainda há tempo para não terminar no inferno! É isso que vos espera se continuarem nesse caminho. Vocês têm um pai e uma mãe, pensem neles… Convertam-se!” Mais claro impossível!

Dom Romero falava a linguagem simples do povo e todos o entendiam.

“Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas se esquece do clamor das injustiças, não é verdadeiramente a Igreja do nosso divino Redentor” (04/12/1977).

“Muitos desejariam que o pobre sempre dissesse que é pobre porque ‘é vontade de Deus’. Não é vontade de Deus que uns tenham tudo e outros não tenham nada. Uma ideia assim não pode ser de Deus. De Deus é a vontade que todos seus filhos sejam felizes” (10/09/1978).

“De que servem belas estradas e aeroportos, belos prédios de muitos pisos, se estão construídos sobre o sangue dos pobres que jamais vão desfrutar deles…” (15/07/1979).

A justiça é como as serpentes: apenas morde os descalços…

Eis um fragmento da última homilia de Dom Romero, proferida na véspera de seu assassinato.

“Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: Não matarás! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral… Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!…”(23/03/1980).

No dia 24 de março de 1980, Dom Romero foi assassinado por um pistoleiro enquanto celebrava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência. O arcebispo foi atingido no momento em que erguia o cálice na consagração. Ao cair, o sangue de Cristo se misturou com o dele, numa comunhão perfeita. O mandante do crime, major Roberto D’Aubuisson, como um novo Herodes, silenciou covardemente a boca deste profeta e continuou a viver com mais este crime na sua consciência.

O povo faz já tempo, canonizou Dom Romero…

São Romero das Américas, velai por todos nós!

Padre Ramón de La Cigoña, sj

Fonte: Blog Terra Boa

Poema de Dom Pedro Casaldáliga

São Romero da América, pastor e mártir

O anjo do Senhor anunciou na véspera…
O coração de El Salvador marcava
24 de março e de agonia
Tu ofertavas o Pão,
O Corpo Vivo
– o triturado Corpo de teu Povo:
Seu derramado Sangue vitoriosa
– O sangue “campesino” de teu Povo em massacre
que há de tingir em vinhos e alegria a Aurora conjurada!

O anjo do Senhor anunciou na véspera
e o verbo se fez morte, outra vez, em tua morte.

Como se faz morte, cada dia, na carne desnuda de teu Povo.

E se fez vida Nova
Em nossa velha Igreja!

Estamos outra vez em pé de Testemunho,
São Romero de América, pastor e mártir nosso!
Romero de uma Paz quase impossível, nesta Terra em guerra.

Romero em roxa flor morada da Esperança incólume de todo Continente
Romero desta Páscoa latino-americana.

Pobre pastor glorioso,
assassinado a soldo,
a dólar
a divisa.

Como Jesus, por ordem de Império.
Pobre pastor glorioso,
abandonado
por teus próprios irmãos de Báculo e de Mesa.

(As Cúrias não podiam entender-te:
Nenhuma Sinagoga bem montada pode entender a Cristo)

Tua pobreza sim te acompanha,
em desespero fiel,
pastor e rebanho, a um tempo, de tua missão profética.
O Povo te fez santo.

A hora do teu Povo te consagrou no “Kairós”.
Os Pobres te ensinaram a ler o Evangelho.

Como um Irmão
ferido
por tanta morte irmã,
tu sabias chorar, a sós, no Horto.

Sabias ter medo, como um homem em combate.
Porém sabias dar a tua palavra,
livre,
o seu timbre de sino.

E soubeste beber
O duplo cálice
do Altar e do Povo
com essa mesma mão consagrada ao Serviço.

América Latina já te elevou à glória de Bernini
– na espuma-auréola de seus mares,
no retábulo antigo de seus Andes,
no dossel irado de todas suas florestas,
na cantiga de todos seus caminhos,
no calvário novo de todos os seus cárceres,
de todas suas trincheiras
de todos seus altares…

na ara garantida do coração insone de seus filhos!
São Romero de América, pastor e mártir nosso,
ninguém
há de calar
tua última Homilia!

Dom Pedro Casaldáliga – Bispo de São Felix do Araguaia – MT (1980)

Profeta de uma igreja dos pobres

O Arcebispo de São Salvador, D. Oscar Romero foi profundamente marcado pela morte do jesuíta Rutilio Grande, após a qual se dedicou aos mais pobres. Venerar Romero hoje significa seguir o seu caminho: denunciar a injustiça.

O Papa canonizou no dia 14 de outubro o arcebispo Oscar Romero (1917 – 1980), assim como o Papa Paulo VI e outros santos, durante o Sínodo dos Jovens, em Roma. Foi um processo de beatificação e canonização com muitos obstáculos e atrasos. Em El Salvador, Romero já é venerado por grande parte da população como santo. No entanto, a alta sociedade do país utilizou todos os meios a fim de impedir o reconhecimento oficial por parte da Igreja, tendo até aliados entre cardeais influentes da cúria romana. Estes argumentavam que Romero não teria morrido pela fé, mas por interferir na política.

Francisco assumiu a beatificação e posterior canonização de Oscar Romero como uma questão muito pessoal, considerando-o um mártir e um bispo exemplar de uma Igreja pobre para os pobres, com cheiro a ovelha.

A história de Oscar Romero é de uma grande mudança pessoal e até de conversão. Nascido no seio de uma família pobre, despertou nele o desejo de ser padre aos doze anos. Uma vaga permitiu que estudasse Teologia em Roma, onde seria ordenado padre em 1942. De volta a El Salvador, tornou-se um pastor estimado. No entanto, era considerado conservador e queria manter a Igreja afastada dos conflitos sociais crescentes. Subiu na carreira eclesiástica abruptamente: em 1970 foi nomeado Bispo Auxiliar, depois Bispo da Diocese de Santiago de Maria e, por fim, em 1977, Arcebispo da capital de El Salvador. Aqueles que esperavam a continuação do compromisso social do seu antecessor, ficaram decepcionados com a nomeação de Oscar Romero.

No entanto, o assassinato do padre Rutilio Grande, sj e de dois companheiros em nome dos latifundiários chocou-o profundamente. Grande encorajou os camponeses da aldeia agrícola de Aguilares a organizarem-se e exigirem uma distribuição mais justa da terra. Embora fosse amigo dele, Romero mantinha uma postura reservada face ao trabalho pastoral de Rutilio Grande. Mas estando perante os seus corpos ainda a sangrar, percebeu que teria de seguir também o caminho do jesuíta. Dentro de poucas semanas, tornar-se-ia num profético defensor dos pobres, falando-se até do “milagre Romero” provocado pela morte de Rutilio Grande.

Fonte: Ponto sj | P. Martin Maier sj

Carta do Papa Francisco por ocasião da beatificação

Carta do Papa Francisco ao arcebispo de San Salvador por ocasião da beatificação de Dom Oscar Arnulfo Romero Galdámez

Excelentíssimo D. José Luís Escobar Alas
Arcebispo de São Salvador
Presidente da Conferência Episcopal de El Salvador

Prezado Irmão,

A beatificação de D. Óscar Arnulfo Romero Galdámez, que foi Pastor da sua amada Arquidiocese, é motivo de grande alegria para os salvadorenhos e para nós, que nos beneficiamos do exemplo dos melhores filhos da Igreja. D. Romero, que construiu a paz com a força do amor, deu testemunho da fé com a sua vida dedicada até ao extremo.

O Senhor nunca abandona o seu povo nas dificuldades, mostrando-se sempre solícito para com as suas necessidades. Ele vê a opressão, ouve os clamores de dor dos seus filhos e vai ao seu encontro para os libertar da angústia e para os conduzir rumo a uma terra nova, fértil e espaçosa, que «mana leite e mel» (cf. Êx 3, 7-8). Como um dia escolheu Moisés a fim de que, em seu nome, guiasse o seu povo, assim continua a suscitar Pastores segundo o seu coração, a fim de que apascentem a sua grei com sabedoria e prudência (cf. Jr 3, 15).

Neste bonito país centro-americano, banhado pelo Oceano Pacífico, o Senhor concedeu à sua Igreja um Bispo zeloso que, amando Deus e servindo os irmãos, se tornou a imagem de Cristo Bom Pastor. Em tempos de convivência difícil, D. Romero soube guiar, defender e proteger o seu rebanho, permanecendo fiel ao Evangelho e em comunhão com a Igreja inteira. O seu ministério distinguiu-se por uma atenção especial aos mais pobres e aos marginalizados. E no momento da sua morte, enquanto celebrava o Santo Sacrifício do amor e da reconciliação, recebeu a graça de se identificar plenamente com Aquele que entregou a vida pelas suas ovelhas.

Neste dia de festa para a Nação salvadorenha, e também para os países irmãos latino-americanos, damos graças a Deus porque concedeu ao Bispo mártir a capacidade de ver e de ouvir o sofrimento do seu povo e plasmou o seu coração a fim de que, em seu nome, o orientasse e iluminasse, a ponto de fazer do seu agir uma prática repleta de caridade cristã.

A voz do novo Beato continua a ressoar hoje para nos recordar que a Igreja, convocação de irmãos ao redor do seu Senhor, é a família de Deus, onde não pode haver divisão alguma. A fé em Jesus Cristo, retamente entendida e vivida até às suas derradeiras consequências, gera comunidades artífices de paz e de solidariedade. A isto é chamada hoje a Igreja em El Salvador, na América e no mundo inteiro: a ser rica de misericórdia e a tornar-se fermento de reconciliação para a sociedade.

Romero convida-nos ao bom senso e à reflexão, ao respeito pela vida e à concórdia. É necessário renunciar à «violência da espada, do ódio», e viver «a violência do amor, que nos deixou Cristo pregado numa cruz, aquela que cada um deve fazer a si mesmo para vencer os próprios egoísmos e a fim de que não haja desigualdades tão cruéis entre nós». Ele soube ver e experimentou na sua própria carne «o egoísmo que se insinua em quantos não querem ceder o que é seu para alcançar os outros». E, com um coração de pai, preocupou-se com as «maiorias pobres», pedindo aos poderosos que transformassem «as armas em foices para o trabalho».

Quem considera D. Romero um amigo na fé, aqueles que o invocam como protetor e intercessor, quantos admiram a sua figura possam encontrar nele a força e a coragem para edificar o Reino de Deus e para se comprometer a favor de uma ordem social mais equitativa e mais digna.

É o momento favorável para uma verdadeira reconciliação nacional diante dos desafios que se enfrentam hoje. O Papa participa nas suas esperanças e une-se às suas orações, a fim de que germine a semente do martírio e se fortaleçam nos caminhos autênticos os filhos e as filhas desta Nação, que se gloria de ter o nome do divino Salvador do mundo.

Estimado Irmão, peço-te por favor que rezes e faças rezar por mim, enquanto concedo a Bênção apostólica a todos aqueles que se unem de vários modos à celebração do novo Beato.

Fraternalmente,

Francisco
Vaticano, 23 de Maio de 2015.

Oscar Romero, santo na consciência latino-americana desde 1980

Independentemente da ratificação romana, para o povo salvadorenho, desde o dia de sua morte, em 1980, inequivocamente foi considerado santo, proclamado assim, num ‘sensus fidelium’, pela consciência eclesial latino-americana.

Oscar Romero, conservador quando bispo-auxiliar em San Salvador, na pobre diocese de Santiago de Maria foi descobrindo, dolorosamente, os sofrimentos de seu povo humilde e voltou transformado, nomeado arcebispo da capital. Ali recebeu em seus braços o corpo ensanguentado do Padre Rutílio Grande e isso o confirmou em seu apostolado em defesa dos pobres e na denúncia à repressão. Durante cada semana ia ouvindo, com extrema atenção, camponeses que lhe transmitiam a dor de perder entes queridos e relatos de torturas e agressões. Anotava cuidadosamente tudo em pequenas folhas e depois, durante a homilia do domingo seguinte, relatava o que ouvira, proclamava os nomes das testemunhas e, num espírito de profunda espiritualidade e à sombra da palavra de Jesus, fazia um juízo claro e direto em nome da justiça ferida. Suas celebrações eucarísticas se alongavam cada vez mais, numa catedral repleta que o ouvia em silêncio e logo aplaudia seu pastor.

Conheci D. Oscar na reunião dos bispos em Puebla, em janeiro-fevereiro de 1979 e tivemos uma inesquecível conversação. Queria ouvir uma análise da realidade política, o que ele já conhecia, e muito profundamente, por iluminadas intuição e empatia. Com olhos cheios de lágrimas, relatou como estava em minoria entre o pequeno episcopado salvadorenho. Depois, fui visitá-lo no seminário San José de La Montaña, em setembro desse ano. Perguntei-lhe como mover-se numa situação política tão ambígua e me respondeu, com voz cansada porém firme:“Tudo o que tenho a fazer é tentar interpretar meu povo e ser fiel a ele”. Nada tão terrivelmente simples e difícil.

Ao voltar, escrevi um artigo sobre seu apostolado: “no momento em que a opção preferencial pelos pobres virou discurso oficial e está sendo cuidadosamente recuperada e interpretada pelos ricos, esse homenzinho incômodo e valente, oportuna e inoportunamente, vem lembrar que a Fé tem sempre algo a dizer lá no centro do engajamento político mais complexo. Não foi assim que sempre agiram os profetas?” O texto ainda estava no prelo, em algumas publicações, quando o mataram e escrevi um adendo:“mais um mártir, ele que tinha ido lendo a lista interminável de mártires … com quem o povo tinha se identificado cada dia mais profundamente. Estava na lógica das forças repressivas que essa voz tinha que ser calada … essa voz não se calou, mas fica ainda mais presente nas consciências e na prática do povo de El Salvador”.

Sua voz foi se fazendo, pelo ano litúrgico de 1979-1980, cada vez mais clara e direta. Em seu último sermão, que podemos ouvir em gravação inesquecível ele, que normalmente falava manso, lançou um grito que ecoa até hoje:“Em nome de Deus, em nome deste povo sofrido, cujos lamentos sobem até o céu cada dia em maior agitação, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno: cessem a repressão”. Pouco antes se dirigira aos soldados, indicando que não poderiam cumprir ordens injustas. Isso foi demais para os poderosos e assim, na segunda-feira seguinte, celebrando missa numa pequena capela, no momento em que ofertava o vinho que seria logo sangue de Cristo, um tiro certeiro o fez debruçar-se já sem vida sobre o altar e seu sangue se uniu ao vinho que ia ser consagrado.

Imediatamente Leonardo Boff e eu preparamos um livro com suas homilias, a partir de outubro de 1979 e fiz uma introdução para situá-las no clima terrível de seu país.

Pedro Casaldáliga escreveu um poema para a publicação:

E soubestes beber

o duplo Cálice do Altar e do Povo,

com essa mesma mão consagrada ao serviço.

 

América Latina já te elevou à glória de Bernini…

no calvário novo

de todos os seus cárceres,

de todas suas trincheiras,

de todos seus altares…

na ara garantida do coração insone de seus filhos!

 

São Romero da América, pastor e mártir nosso,

ninguém

há de calar

tua última homilia.

Hoje, 14 de outubro de 2018, agora sim diante da colunata romana de Bernini, Francisco o proclamou solenemente santo. Já em março de 2015, indicara que Romero sofrera martírio “por ódio contra a Fé” e o assinalou como beato. Agora, com a enorme praça do Vaticano repleta de fieis, uma longa cerimônia declarou santos, além de Romero, Paulo VI, dois sacerdotes, duas religiosas e um jovem napolitano. A Igreja salvadorenha teria preferido que Francisco viesse a San Salvador para uma cerimônia mais significativa. Nesse domingo romano festivo e ensolarado, a memória de Romero ficava abafada por um cerimonial solene; seu retrato e dos outros santificados ornavam, com certo triunfalismo, a fachada da igreja renascentista dos papas. Seu nome foi mencionado de raspão na homilia papal, ofuscado pela menção à personalidade de papa anterior, Paulo VI. A igreja dos pobres submergia, contraditoriamente, na pompa da celebração. Acompanhando a cerimônia tentei trazer a memória daquele Romero humilde e firme que conheci. Em rápidos momentos senti-me ligado a ele, mas logo, uma solenidade presa a rubricas litúrgicas rígidas, me afastava de um possível momento de recolhimento. Como se sentiriam ali, naquele ambiente, os pobres camponeses de Romero? O eclesial das práticas populares se afogava num eclesiástico majestoso.

Foi um ato de reparação, ainda que tardio. Romero tivera um encontro afetuoso com Paulo VI, seu companheiro nesta celebração. Ao sair da audiência com João Paulo II, entretanto, estava silencioso e não ocultava certa tristeza.

Independentemente da ratificação romana, para o povo salvadorenho, desde o dia de sua morte, em 1980, inequivocamente foi considerado santo, proclamado assim, num “sensus fidelium”, pela consciência eclesial latino-americana.

Parafraseando o final de um poema de Simões Lopes Neto com a santificação do índio Sepé Tiaraju, podemos agora dizer:“Oscar Romero virou santo, amém, amém , amém”.

Texto de  Luiz Alberto Gomez de Souza, na “Carta Capital”.