Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

“Crise ecológica e o cuidado da Vida”

12/09/2007

Frei Sinivaldo Silva Tavares

Dizer que vivemos em uma situação caracterizada pela “crise ecológica” talvez tenha se tornado mais um entre tantos lugares comuns que infestam nossa civilização atual. Contudo, quer a consideremos ou não um lugar comum, isso não diminui em nada a complexidade e a gravidade do que se quer significar com essa expressão. O que se convencionou chamar de “crise ecológica” corresponde na verdade a uma crise do paradigma civilizacional do Ocidente. Trata-se, neste caso, de uma crise no sistema disciplinado mediante o qual a sociedade atual se orienta e organiza o conjunto de suas relações. Em outras palavras, seria uma crise no conjunto de modelos ou de padrões a partir dos quais organizamos nossa relação com nós mesmos, com as demais pessoas e com o conjunto da realidade na qual estamos inseridos.

O que se encontra em crise, na verdade, é o paradigma tipicamente ocidental, sintoma de um incorrigível antropocentrismo, expresso na peculiar atitude de se colocar sobre as coisas, objetivando-as, e julgando-as distantes e desconectadas do ser humano considerado como sujeito. A vontade desenfreada do ser humano de tudo dominar tem marcado os destinos da civilização ocidental técnico-científica. A exacerbação do saber concebido como poder está nos conduzindo, paradoxalmente falando, à total sujeição aos imperativos de uma Terra degradada. A ilusão, enfim, de um crescimento desmedido e de um progresso ilimitado voltados para a melhoria das condições de vida nos está levando a uma degradação sem precedentes, perceptível, sobretudo, na deterioração progressiva da qualidade de vida nossa, dos demais seres vivos e do próprio Planeta.

A utopia da criação de um novo mundo, onde, pela primeira vez, a fome e as demais necessidades básicas do ser humano seriam de vez debeladas está sucumbindo face às contradições escandalosas como, por exemplo, a produção do subdesenvolvimento de nada menos do que 2/3 da inteira população mundial. O mito da perfeita utilização dos recursos da Terra, encarnado pelo ser humano de maneira voluptuosa e obstinada, tem produzido a exaustão dos sistemas vitais e a desintegração do equilíbrio ambiental. A agravar ainda mais a situação de degrado e exaustão à qual tem sido submetido o Planeta, são as incidências do desastre ecológico em termos de exclusão e marginalização dos pobres da Terra. Em virtude da assim chamada “revolução tecnológica”, sobretudo através dos processos de informação e robotização, o trabalho e a criatividade humanos se tornam cada vez mais dispensáveis. Prefere-se falar, hoje em dia, em sociedades de plena atividade, para distingui-las das sociedades de pleno emprego. Pois, na verdade, os trabalhadores se encontram excluídos até mesmo daquele exército de pessoas que antes eram postas na reserva, aguardando a oportunidade de se inserirem no mercado do trabalho explorado. Com a emergência do capitalismo neo-liberal, veio à tona uma das maiores contradições da civilização ocidental: o trabalhador sequer tem o direito de se deixar explorar por meio de sua inserção no mercado de trabalho.

Neste sentido, são esclarecedores os dados recentemente publicados pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) em seu “Relatório do Desenvolvimento Humano 2007-2008”, intitulado Combater a Mudança Climática: Solidariedade Humana num Mundo Dividido. O relatório alerta-nos para uma situação paradoxal: as populações mais pobres, justamente aquelas que contribuem de maneira desprezível ao aquecimento global, serão as maiores vítimas dos resultados imediatos da mudança no clima. Apenas 13% da população do planeta são responsáveis por mais da metade da emissão dos gases de efeito estufa. Os EUA e a União Européia juntos são responsáveis por 10 Gt das 29 Gt liberados anualmente em todo o planeta. O relatório mostra ainda que se cada pessoa pobre do Planeta levasse o mesmo estilo de vida de alto consumo de energia de um habitante médio dos EUA ou do Canadá, seriam necessários nove planetas para absorver a poluição. Com razão, dizia Gandhi: “A Terra possui recursos suficientes para prover às necessidades de todos, mas não à avidez de alguns”. O aquecimento global, segundo o mesmo relatório, desencadeará provavelmente um grande retrocesso no desenvolvimento e o total fracasso em implementar os “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio” (ODM), acordados na ONU em 2000, para a redução da pobreza mundial. Tem, de fato, razão o ex-arcebispo da Cidade do Cabo, Desmond Tutu, quando, referindo-se a essa situação, fala de um verdadeiro “Apartheid da Adaptação”. Percebemos hoje, mais do que nunca, o caráter reducionista e profundamente excludente do paradigma civilizacional moderno. Daí a urgência de se articular o grito da Terra com o grito dos pobres.

A proposta do “paradigma da complexidade” como alternativa viável ao paradigma da Modernidade vem adquirindo cada vez mais plausibilidade, e encontrando um consenso sempre maior na comunidade científica e cultural. Ele atestaria, em primeiro lugar, a incapacidade da lógica linear moderna de corresponder com um mínimo de responsabilidade à complexidade do real. Qual teia de relações, o real é extremamente complexo. Particularmente densa é a complexidade em todos os organismos vivos. Por essa razão, prefere-se falar hoje em dia de sistemas abertos como correspondentes cognitivos da complexidade do real. Eles são caracterizados como tal por testemunharem uma lógica dialógico-circular.

Ao contrário da lógica linear, aquela dialógica se caracteriza pela assunção do diálogo em todos os momentos e direções em vista de atitudes as mais inclusivas possíveis. Essa parece ser a lógica mais próxima àquela do universo onde tudo interage com tudo em todos os pontos e em todas as circunstâncias. Nesse sentido, fala-se hoje da transdisciplinaridade como método capaz de superar lógica e método extremamente fragmentados das ciências especializadas. Como vem insistindo há tempo Edgard Morin, a transdisciplinaridade é a única solução possível para libertarmo-nos do beco-sem-saída no qual nos encurralou a ultra especialização de nossas ciências modernas. A ultra-especialização característica de cada uma e de todas as disciplinas tem produzido um conhecimento específico que consiste em “saber cada vez mais sobre cada vez menos”, produzindo uma situação na qual “não sabemos o que sabemos sobre nosso mundo”.

O princípio da complexidade se constrói fundamentalmente sobre dois pressupostos: 1) a totalidade é sempre maior do que a simples soma das partes; 2) o real na sua complexidade sempre se dá todo em cada uma de suas dimensões. É impossível, na verdade, decompor a complexidade do real em partes, ainda que sejam tantas. O real se dá cada vez de maneira distinta em cada uma das presumidas partes. É por essa mesma razão que a simples soma das partes não recobre a complexidade do real. O real se dá numa complexa e densa teia de relações de modo que se torna cada vez mais legítimo falar, como Fritjof Capra, de uma “Teia da Vida”.

Acolhendo as interpelações oriundas do impasse criado pela atual situação, ponderava, recentemente, Marcelo Gleiser: “É pensando nas fronteiras do saber que novas idéias surgem”. Neste contexto, vale lembrar ainda o apelo ousado do filósofo Michel Foucault: “De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição do conhecimento e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para se continuar a olhar ou a refletir”. Nosso poeta maior, Fernando Pessoa, parece dizer o mesmo, só que com aquela evidência peculiar, própria da poesia: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É tempo de travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

Face à realidade nua e crua que acabamos de descrever, não podemos de forma alguma nos furtar às seguintes questões: é viável continuarmos nessa mesma direção imposta pelo paradigma antropocêntrico moderno? O que fazer para que essa “lógica” da acumulação e do consumo, de crescimento linear e desmedido, seja desmascarada como a principal responsável pela depredação dos recursos naturais e pela ameaça de futuro do ser humano e do inteiro Planeta? Continuar legitimando esse paradigma civilizacional seria porventura uma posição eticamente responsável?

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