Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A corrupção é um “vírus social” na América Latina

20/01/2018

Notícias

O lema da viagem ao Peru, “Unidos pela esperança”, foi o tema do discurso que o Papa Francisco fez às autoridades no Palácio do Governo de Lima, em seu primeiro dia de atividades em solo peruano. “Olhar esta terra é, por si só, um motivo de esperança. Vocês possuem uma pluralidade cultural muito rica e cada vez mais interativa, que constitui a alma deste povo”, disse o Papa.

Os motivos de esperança são os jovens, presente mais vital que a sociedade possui, e o rosto de santidade do país. Francisco mencionou os Santos peruanos que abriram caminhos de fé para todo o continente americano, como S. Martinho de Porres.

Todavia, sobre esta esperança estende-se uma ameaça: o despojamento da terra dos recursos naturais, sem os quais nenhuma forma de vida é possível.

“Neste contexto, ‘unidos para defender a esperança’ significa fomentar e desenvolver uma ecologia integral. E isto exige escutar, reconhecer e respeitar as pessoas e os povos locais como válidos interlocutores.”

Para Francisco, a degradação do meio ambiente está intimamente ligada à degradação moral das comunidades. “Não podemos concebê-las como duas questões separadas.”

O Papa citou como exemplo as extrações minerárias irregulares e a devastação de florestas e rios com toda a sua riqueza. Como consequência, há o tráfico de seres humanos – nova forma de escravatura –, trabalho irregular e delinquência.

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Vírus social

Porém, Francisco incluiu outra forma mais sutil de degradação ambiental que contamina progressivamente todo o tecido vital: a corrupção.

“Quanto mal faz, aos nossos povos latino-americanos e às democracias deste abençoado continente, este ‘vírus’ social! É um fenômeno que tudo infeta, sendo os pobres e a mãe-terra os mais prejudicados. Tudo o que se puder fazer para lutar contra este flagelo social merece a maior das considerações e cooperações; e esta luta pertence-nos a todos. ”

Portanto, ‘unidos para defender a esperança’ implica maior cultura da transparência entre entidades públicas, setor privado e sociedade civil. “Ninguém pode ficar alheio a este processo; a corrupção é evitável e exige o compromisso de todos.”

O Papa concluiu seu discurso exortando os que ocupam cargos de responsabilidade a trabalharem para que o Peru seja um espaço de esperança e oportunidades não só para poucos, mas para todos.

Neste esforço, Francisco renovou o compromisso da Igreja Católica, que acompanhou e acompanha a nação peruana para que continue a ser uma terra de esperança.

“Santa Rosa de Lima interceda por cada um de vocês e por esta abençoada nação. De novo, obrigado!”

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ENCONTRO NO LAR «O PRINCIPEZINHO»

DISCURSO DO SANTO PADRE

Amados irmãos e irmãs,
Queridos meninos e meninas!

Muito obrigado por esta linda recepção e pelas palavras de boas-vindas. Ver-vos cantar e dançar enche-me de alegria.

Quando me referiram a existência deste Lar «O Principezinho» e da Fundação Apronia, pensei que não podia partir de Puerto Maldonado, sem vos saudar. Quisestes congregar-vos, vindos de diferentes casas, neste lindo Lar «O Principezinho». Obrigado pelos esforços que fizestes para estar aqui hoje.

Acabamos de celebrar o Natal. Enterneceu-nos o coração a imagem do Menino Jesus. Ele é o nosso tesouro, e vós meninos, sendo o seu reflexo, sois também o nosso tesouro, o tesouro de todos nós, o tesouro mais precioso de que devemos cuidar. Perdoai as vezes que nós, grandes, não o fazemos ou não vos damos a importância que vós mereceis. Quando fordes grandes, não vos esqueçais disto. O vosso olhar, a vossa vida requerem um compromisso e esforços sempre maiores para não ficarmos cegos ou indiferentes perante tantas outras crianças que sofrem e passam necessidade. Não há dúvida, vós sois o tesouro mais precioso de que devemos cuidar.

Queridos meninos do Lar «O Principezinho» e jovens dos outros centros de acolhimento! Às vezes, alguns de vós sentem-se tristes à noite, tendes saudade do pai ou da mãe que não estão convosco, e sei também que há feridas que doem muito. Dirsey, foste corajoso, ao partilhá-lo connosco. E dizias-me: «que a minha mensagem seja luz de esperança». Mas deixa-me dizer-te uma coisa: a tua vida, as tuas palavras e as de vós todos são luz de esperança. Quero agradecer-vos o vosso testemunho. Obrigado porque sois luz de esperança para todos nós.

Alegra-me ver que tendes um lar onde sois acolhidos, onde vos ajudam, com carinho e amizade, a descobrir que Deus vos segura nas suas mãos e coloca sonhos no vosso coração. É belo isto.

Como é belo o vosso testemunho de jovens que passastes por esta estrada, que ontem vos enchestes de amor nesta casa e hoje pudestes construir o vosso próprio futuro! Sois para todos nós o sinal das potencialidades imensas que cada pessoa tem. Para estes meninos e meninas, vós sois o melhor exemplo a seguir, a esperança de que também eles hão de conseguir. Todos nós precisamos de modelos para imitar; as crianças precisam de olhar em frente e encontrar modelos positivos: «quero ser – sentem e dizem – como ele, quero ser como ela». Tudo o que vós, jovens, puderdes fazer, como vir estar com eles, jogar, passar o tempo, é importante. Sede para eles, como dizia o «Principezinho», as estrelinhas que iluminam a noite.[1]

Alguns de vós, jovens que nos acompanhais, vindes das comunidades nativas. Vedes, com tristeza, a destruição das florestas. Os vossos avós ensinaram-vos a descobri-las: nelas encontravam o seu alimento e os remédios que os curavam: isto mesmo, o representastes, e bem, aqui ao princípio. Hoje, são devastadas na vertigem dum equivocado progresso. Os rios que acolheram os vossos jogos e vos deram comida, hoje estão sujos, poluídos, mortos. Jovens, não vos conformeis com o que está a acontecer. Não renuncieis à herança dos vossos avós, não renuncieis à vossa vida nem aos vossos sonhos. Gostaria de vos encorajar a estudar: preparai-vos, aproveitai as oportunidades que tendes para vos formar, esta oportunidade que vos dá a Fundação Apronia. O mundo precisa de vós, jovens dos povos nativos, e precisa de vós, não mascarados, mas assim como sois. Não mascarados como cidadãos doutro povo; isso não! É assim como sois, que precisamos de vós. Não vos conformeis com ser o vagão de cauda da sociedade, enganchados e deixando-se levar! Não, nunca sejais vagão de cauda, precisamos de vós como locomotiva, puxando. E recomendo-vos uma coisa: escutai os vossos avós, apreciai as vossas tradições, não reprimais a vossa curiosidade. Procurai as vossas raízes e, ao mesmo tempo, abri os olhos para a novidade; e, naturalmente, fazei a vossa própria síntese. Transmiti ao mundo o que aprendestes, porque o mundo precisa de vós originais, como realmente sois, não como imitações. Precisamos de vós autênticos, jovens orgulhosos de pertencer aos povos amazónicos e que oferecem à humanidade uma alternativa de vida autêntica. Amigos, muitas vezes, as nossas sociedades precisam de corrigir o rumo e estou certo de que vós, jovens dos povos nativos, podeis ajudar imenso neste desafio, sobretudo ensinando-nos um estilo de vida que se baseie no cuidado, e não na destruição, de tudo aquilo que se opõe à nossa ganância.

Outra coisa importante! Quero agradecer ao padre Xavier [Arbex de Morsier, fundador da Associação Apronia]. O padre Xavier sofreu muito… O que isto lhe custou! Simplesmente, obrigado! Obrigado pelo seu exemplo! Quero agradecer aos religiosos e religiosas, às missionárias leigas que realizam um trabalho fabuloso e a todos os benfeitores que formam esta família; aos voluntários que oferecem gratuitamente o seu tempo, que é como bálsamo refrescante nas feridas. Quero agradecer também a quantos fortalecem estes jovens na sua identidade amazónica e os ajudam a construir um futuro melhor para as vossas comunidades e para todo o planeta.

E agora, assim como estamos, fechemos os olhos e peçamos a Deus que nos dê a bênção:

Que o Senhor Se compadeça de vós e vos abençoe; faça brilhar sobre vós o seu rosto e vos acompanhe com a sua misericórdia e vos encha dos seus favores, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amen (cf. Nm 6, 24-26, Sal 66, Bênção I do Tempo Comum).

E peço-vos duas coisas: para rezardes por mim e para não vos esquecerdes de que vós sois as estrelinhas que iluminam a noite. Obrigado!
[1]Cf.Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, XXIV; XXVI.
Puerto Maldonado – Hogar Principito
Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018