Vocacional - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A busca da identidade humana e franciscana – VI

29/04/2021

 

Princípio do saber, estranho

Certamente, o seguinte comentário está deslocado numa revista científica, cujo número comemorativo homenageia Beato frei João Duns Scotus. Pois, o comentário se refere a um dos ditos do Beato frei Egídio de Assis (+1262) que se intitula: Da ciência útil e inútil. Para que aqui se comente o princípio do saber, dito por um irmão leigo, certamente analfabeto, que cuidava da horta, de “formação campesina”, da mesma ordem de Duns Scotus (+1308), a única justificativa  reside no que W. Dettloff denominou de “Pré-decisão franciscana”[1]. Esta indica uma impostação prévia, herança de São Francisco de Assis, ao redor e a partir da qual os pensadores franciscanos, de todas as épocas, raças, tipos e formações, convergem no “pouco saber e muita jovialidade”[2] dada aos que amam a finitude agraciada do mistério da Encarnação, a saber, da Senhora Pobreza. A suspeita, quem sabe, infundada, aqui no comentário, é que há algo muito próximo e comum entre a altíssima e “mais do que subtil” especulação de um Beato frei João Duns Scotus e a graça da simplicidade certeira dos ditos de um Beato frei Egídio de Assis.

Da ciência útil e inútil[3]

(1) Quem quer saber muito incline muito a cabeça e opere muito e arraste a barriga na terra, e o Senhor o ensinara muito. (2) A suma sabedoria é fazer boas obras, custodiar-se bem e considerar os juízos de Deus. (3) Disse uma vez frei Egídio a alguém que queria ir à escola para aprender: “por que queres ir à escola? (4) O sumo de toda a ciência é temer e amar a Deus; estes dois te bastam. (5) O homem tem tanta sabedoria quanto age bem, e não mais. Portanto, não confies na tua sabedoria, mas empenha-te em trabalhar com toda solicitude, e confia radicalmente naquelas obras. (6) Por isso diz o Apóstolo: “Não amemos em palavra nem em língua, mas em obra e em verdade” (1Jo 3,18). (7) Não sejas demasiadamente solícito em ser útil aos outros; mas sê mais solícito em seres útil a si mesmo. (8) De quando em quando queremos saber muitas coisas para os outros e poucas para nós. (9) A Palavra de Deus não é de quem ouve ou fala, mas de quem opera. (10) Muitos, não sabendo nadar, entraram nas águas, para ajudar aos que nelas pereciam e com eles pereceram. Antes havia um dano; depois, dois. (11) Se procuras bem a saúde de tua alma, procurarás bem a saúde de todos os teus amigos. (12) Se fazes bem o teu feito, fazes bem o feito de todos os teus benevolentes. (13) O pregador da palavra de Deus foi posto por Deus para ser candeia, espelho e porta-bandeira do povo de Deus. (14) Bem-aventurado é aquele que dirige os outros por caminho reto, de tal modo que ele mesmo não cesse de caminhar por ele; e convida os outros a correr, de tal modo que ele mesmo não desiste de correr. (15) E assim ajuda outros a ficarem ricos sem com isso ele mesmo tornar-se pobre. (16) Creio que o bom pregador fala mais para si do que para os outros.

Comentário

  1. Ciência

Aqui ciência não está no sentido da ciência moderna positiva, atual e atuante na nossa época. A compreensão da palavra ciência no nosso sentido moderno das ciências positivas, quer naturais quer humanas, possui acepção toda própria, bem determinada, definida e específica. Comparada a ela, a ciência (scientia) aqui em frei Egídio pode soar mais vasta no sentido lato, menos estrito, mais geral, caracterizado como de uso vulgar, vago, abrangendo indeterminadamente diferentes tipos de saber. Assim, em “ciência útil e inútil”, ciência parece querer referir-se ao saber que o povo usa, saber mais em voga entre o vulgo, ciência no sentido usual, no nível prático, portanto, no sentido pragmático, ou sob o aspecto teórico, uma ciência popularizada.

Mas pode ser que ciência útil, aqui em frei Egídio, esteja referida ao que a palavra grega epistéme indicava outrora no sentido literal lexicográfico do verbo epistamai (epí+hístamai) que significa propriamente: postura adequada para adentrar e se colocar dentro da disposição, atitude necessária, para se acercar de modo próprio às exigências de uma determinada ação ou atividade. Nesse caso, trata-se de um saber competente de como e o que fazer para que surja um bom resultado, uma obra confiável, per-feita, bem iniciada, bem conduzida e “per-fazida”, per-feita. Ciência útil seria, pois, saber técnico de habilidade e habilitação do trabalho, da operação dentro da existência medieval artesanal. Técnico aqui não indica a maneira de ser moderno relativo à tecnologia, mas ao saber e ao sabor da habilidade e poder ou potência artesanal proveniente da palavra latina ars, -tis. Essa referência ao ars , ao artesanal e à existência artesanal pode estar no fundo do uso que frei Egídio faz do adjetivo útil e inútil na expressão ciência útil e inútil. Para de modo bem sucinto indicar essa referência, reproduzimos o que o glossário-apêndice anexo no fim do volume I da tradução dos sermões alemães de Mestre Eckhart[4] diz a esse respeito.

  1. Útil, utilidade, em uso: ars, artesanal e existência artesanal medieval

“Adjetivo artesanal diz respeito à habilidade ou ao hábito de uma classe de trabalhadores denominados artesãos, na confecção de um artefato. No pensamento medieval, essa habilidade, no entanto, não se referia primordialmente só à produção do objeto arte-fato. Isso porque o artefato aqui não era propriamente um objeto fabricado, mas sim uma obra, em cuja elaboração, a própria humanidade do artesão, i.é, o ser do homem se perfazia, vinha a se tornar cada vez mais ser. A obra não era outra coisa do que o vir à luz, o vir a uma determinada consumação desse perfazer-se do próprio ser humano do artesão. A habilidade do artesão em latim se diz ars, –tis. Trata-se, pois, da competência de um agir todo próprio, cujo modo de ser se caracteriza como um saber que está por dentro de e capta a dinâmica da possibilidade de ser, do poder ser. Esse saber no alemão é Kunst. Kunst vem do verbo können que significa saber poder. Na ars, na Kunst não se trata da potência de uma força natural, mas sim de uma possibilidade da concreção humana na habilitação do seu ser, conquistada a duras penas, a partir de um dom natural, e tornada uma sua segunda natureza, denominada virtude[5]. A um tal saber poder se chega através do empenho de busca, no uso da inteligência e vontade, i.é, no exercício da liberdade, em contínuo e bem orientado exercício de aprendizagem. É dom de uma conquista, pois, o surgir, crescer e consumar-se na realização desse perfazer-se não é causado simplesmente pelo arbítrio de quem busca, mas salta da total disponibilidade de dar de si o melhor para acolher a possibilidade finita, bem determinada, concedida gratuitamente de antemão à pessoa, em busca; e de seguir a condução que lhe vem ao encontro, do fundo dessa própria possibilidade. É desse encontro do empenho de total doação de si e do dom da possibilidade gratuita que salta a possibilidade do ser inteiramente novo como obra de uma criação, do perfazer-se de si, como obra da perfeição.

Como foi acima dito, o adjetivo artesanal indica o modo da ars.-tis, próprio do artesão, no seu agir e criar obra. Esse modo de ser, no entanto, era a manifestação do que constituía o modo de ser e se interpretar do homem medieval, na realização de sua humanidade, como gênese, crescimento e estruturação de um mundo, sob o toque de uma determinada possibilidade de ser. Uma tal abertura da possibilidade de ser se chama existência. Assim, o artesanal no medieval, não é apenas um atributo e qualificação de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, mas sim o modo de ser, que uma vez subsumido pelo sentido do ser denominado filiação divina, se tornou o característico próprio do ser medieval.

Essa existência artesanal subsumida pelo sentido do ser da filiação divina nos pode levar a crer que todo o pensamento medieval é unilateralmente teológico. Essa constatação é correta. Mas não no sentido de uma absolutização do teológico, entendido como um ponto de vista parcial, ao lado de outros pontos de vista. O teológico do medieval é antes uma pré-compreensão ontológica, i. é, o sentido do ser da existência medieval, o uni-verso da realização da realidade a priori, toda própria, cuja lógica de seu ser somente se torna acessível e necessária se nos colocarmos no ponto de salto, a partir e dentro do qual se dá a aberta[6] da eclosão e manifestação do mundo medieval. Nesse sentido a criação como filiação divina é algo como condição da possibilidade de ser, agir, e sentir, portanto, é o ser do ser-no-mundo medieval, e não um ponto de vista, um aspecto parcial”.

Porque assim, a ciência útil se refere em última instância e fundamentalmente ao ser da existência cristã, à cristidade, i.é, ao renascer em e com Cristo, na origem e vigor da filiação divina, a ciência útil está intimamente ligada ao anúncio da boa nova, à pregação. Daí, o título desse dito de frei Egídio: Da ciência útil e inútil e dos pregadores da palavra de Deus.

  1. Querer e dever: vigor da finitude livre

(1) Quem quer saber muito incline muito a cabeça e opere muito e arraste a barriga na terra, e o Senhor o ensinará muito.

Incline, opere e arraste são imperativos. Indica o dever, o ter que ser, a necessidade da liberdade, a necessidade livre, a possibilidade i. é, a potência do querer: quem quer deve, “se acha obrigado”, ligado a[7].

Querer mesmo não é voluntarioso. Querer voluntarioso parece querer muito, mas na realidade não passa de cobiça exacerbada. Em vez de agir, se agita; em vez de se concentrar, gira falso; em vez de fazer, se “a-voa”, jogando à sua volta intermináveis, infinitos castelos no ar. Não está aqui, agora, mas sempre lá, alhures[8], fora do tempo oportuno; jamais na sua possibilidade, mas na impotência novidadeira sempre vazia, sem contensão concreta, cada vez apenas escancarada. Falta-lhe a realidade, o húmus da terra dos homens, a humildade; não adere, não está colado à fecundidade do fundo; não habita no inesgotável e insondável abismo jovial da terra-mãe, não conhece a generosidade benigna da matriz das possibilidades de ser; anda cheirando nuvens, passos cambaleantes, sem se assentar, sem repousar na realidade, em realizações vãs, cheias de empáfia e pretensões. O seu saber sabe a elevações disparadas e disparatadas de representações padronizadas, sem o sabor cada vez todo próprio, prenhe de virtude dia-noética do co-nascimento. Não sabe à recepção cordial, humilde, aberta à amplidão, pro-fundidade e liberdade do Filho primogênito do Pai, que é a pura, simples e imediata recepção, atenta, grata e filial do Verbo: a linguagem, o intelecto do Pai, na benignidade, estima do amor do Pai, na intimidade e ternura do mútuo encontro e união como ab-soluta doação e recepção do poder, querer, saber ser. A alegria do saber e saber muito é cordialidade da humildade, no empenho impregnado de boa vontade, da labuta terra à terra, pele à pele no e do temor e amor na recepção do co-nascimento que vem do mistério da filiação divina, desse Deus feito homem: Quem quer saber muito incline muito a cabeça e opere muito e arraste a barriga na terra, e o Senhor o ensinará muito.

  1. Aprendizagem na escola da ciência útil

Aprendizagem real e verdadeira é aprender o aprender. O aprender aprendido pelo aprender é apreender. Por isso, aprender o aprender quer dizer apreender o apreender. O apreender desse apreender o apreender é recepção. A pura, simples, imediata recepção, é benigna, totalmente doada em gratidão por e para poder receber, na mais íntima simpatia de querer dar tudo de si a quem assim se doa tudo de si com tamanha humildade e ab-negação de si. Essa doação e a recepção da doação, tanto do doador como do receptor é a pura gratidão da pura apreensão simples, imediata, da pura recepção do encontro no amor. Em se doando de todo e tudo de si, o doador pede humildemente que a doação seja aceita qual recepção benigna doada por receptor ao doador; e o receptor, em assim doando a recepção benigna, ao aceitar a doação, agradece humildemente ao doador, a própria possibilidade de poder receber, a ele concedida por doador, juntamente com a doação. Aqui, tanto quem doa como quem recebe, mutuamente se colocam da referência do servo ao seu senhor. Ao doar, se faz servo. Ao receber, se faz servo, sempre agradecendo que foi recebido benignamente. Aqui o relacionamento de senhor e servo não tem nada a ver com senhor e escravo, mas com temer e amar: intimidade reverente para dentro do sumo de toda ciência é temer e amar a Deus de Jesus Cristo que é de todo e apenas, simplesmente, de imediato, operativamente temer e amar. E o início <a saber, o princípio, a fonte, a origem que tudo faz saltar de modo redondo, perfeito, bem acabado como obra perfeita do bem fazer> – de toda sabedoria é temer e amar. Estes dois momentos que perfazem o amor de Deus – <tanto no sentido subjetivo como objetivo, e isso tanto da parte de Deus, Pai como da parte dos filhos e das filhas no Filho de Deus> – bastam, pois o amor assim é tudo de todas as coisas, seja nos céus seja na terra, o por e para quê, o saber, a inteligência e sentimento, o sabor de tudo quanto foi, é, será, seja possível e impossível, para além e para aquém de toda e qualquer impossibilidade lógica, numa medida transbordante, calcada, imensa, generosa do abismo insondável e inesgotável da possibilidade de ser e não ser.

O fazer e o feito de uma operosidade desse quilate se chama fazer bem, fazer o bem, o bom, o útil, o per-feito, como acima insinuado. O lugar e o próprio fruto de um tal trabalho, em grego se diz scholé, que significa ócio, otium em latim; que no entanto, pouco ou nada tem a ver com preguiça, com dolce far niente, mas tem tudo a ver com o termo em latim studium que significa empenho e desempenho, intenso, trabalho gratuito livremente querido como o perfazer-se da liberdade da existência humana autônoma no seu ser que faz bem a todas as coisas e todas as coisas. Guardar-se bem, jamais afrouxar na plena atenção de colocar-se nesse labor profissional de bem fazer, de operar, de fazer obras, de ser bom operário e prontamente manter-se alegremente na disposição de aprender, apreender, considerar o modo certeiro, competente e profissional, atender com atenção pronta a tomada de pulso de tudo que faz, i. é, os juízos do nosso mestre e guia Deus, é o gosto dos discípulos, dos que estão na dinâmica de aprendizagem e ensino da escola da ciência útil. É que as palavras escola, escolaridade e escolar vêm da scholé. Assim nos diz frei Egídio: (2) A suma sabedoria é fazer boas obras, custodiar-se bem e considerar os juízos de Deus. E por isso perguntou e respondeu frei Egídio a alguém que queria ir à escola para estudar: (4) O sumo de toda a ciência é temer e amar a Deus; estes dois te bastam.

  1. Um tema que importa no estudo da ciência útil

Muitas vezes se entende no sentido lato, por tema, o objeto de um saber. Objeto é o que nos vem ao encontro como isto e aquilo pertencente ao enfoque de um determinado interesse. Objeto assim é o ponto de vista de um enfoque, em cujo horizonte de visualização se destaca isso ou aquilo. No tema, no objeto, pode(m) assim tornar-se presente(s) de modo realçado o(s) momento(s) característico(s) do modo de ser, referente(s) ao todo de um saber. No saber a modo da existência artesanal, é de importância, i. é, decisiva para que se vá para dentro da ciência útil, o trabalhar a si mesmo, para si mesmo, em si mesmo, no seu  perfazer-se. Pertence essencialmente à eficiência e à excelência da ciência útil a direção reduplicativa do trabalho, o empenho e o desempenho do labor deve retornar a quem trabalha, no se perfazer. Dito de outro modo, no modo de ser do trabalho da ciência útil, cuja aprendizagem e nela frutificar é da scholé, do otium, da ars, portanto da profissão livre, o inter-esse do zelo e do estudo (studium) sou eu mesmo e não o outro. O engajamento nesse e desse tipo de trabalho livre não pode ser terceirizado, não pode ser feito pelo outro, nem eu fazer o trabalho no lugar do outro, é inalienável. Aqui, todo o trabalho e cuidado pelo próximo, pelo outro, se é feito sacrificando-se a si mesmo, em detrimento de si mesmo, não é mais virtuoso e autêntico, mas vicioso e defasado. É desse modo todo próprio do trabalho de autonomia no crescimento do ser humano essencial que fala agora frei Egídio, quando diz: (7) Não sejas demasiadamente solícito em ser útil aos outros; mas sê mais solícito em seres útil a si mesmo. (8) De quando em quando queremos saber muitas coisas para os outros e poucas para nós. (10) Muitos, não sabendo nadar, entraram nas águas, para ajudar aos que nelas pereciam e com eles pereceram. Antes havia um dano; depois, dois. (11) Se procuras bem a saúde de tua alma, procurarás bem a saúde de todos os teus amigos. (12) Se fazes bem o teu feito, fazes bem o feito de todos os teus benevolentes[9].

Esse momento decisivo da ciência útil que pode ser resumido num slogan antes cuidar de si do que do outro facilmente pode ser considerado num nível muito superficial de compreensão, onde se interpreta o vigor e a vitalidade do engajamento de toda uma existência na busca apaixonada do Espírito do Senhor e do seu santo modo de operar, na expressão de São Francisco de Assis, dentro do problema particular espiritualista, a saber, do perigo de egoísmo ensimesmado no cuidado da perfeição pessoal de santidade, alienando-se da responsabilidade social e comunitária; ou do bitolamento fundamentalista no verticalismo da metafísica medieval, ignorante da dimensão horizontal antropológica do humanismo etc. etc.

Aqui, em tais casos, se faz necessário recordar que esses e similares ditos dos místicos medievais que dizem dos fatos, das dicas de cunho prático, moral e empírico devem ser lidos como pontas dos fios de meada que nos conduzem às dimensões de fundo, ocultas à primeira vista, às possibilidades, sim ao abismo de imensidão, profundidade e liberdade das possibilidades insondáveis e inesgotáveis do ser da filiação divina. Para nós, hodiernos, filhos da época dos fatos, dos empirismos, das objetividades, fatos são realidade; e a possibilidade, apenas virtual ou mental, ou não contradição lógica; ao passo que para os medievais a possibilidade é realidade, o uni-versal e os fatos, apenas realizações efêmeras, privativas e particulares.

Assim, enquanto a nós o antes cuidar de si do que do outro soe como se um galho falasse com seus botões: “devo cuidar de mim para tornar-me vigoroso e forte e por isso não devo me ocupar dos outros galhos, mas só cultivar a mim mesmo” ou “não posso ficar parado e cuidar somente de mim mesmo, pois, devo, tenho responsabilidade social de cuidar de tantos outros galhos que devem quebrar tantos “galhos” na sua vida e estão a se definhar cada vez mais emaranhados em si”; aos medievais soava: Cuidar de si, quer dizer cuidar do que é o próprio de si, para aquém, para o anterior daquilo que como possibilidade de ser, como núcleo, como cerne, como âmago do ser de cada qual ali está pré-sente em todas as etapas do seu surgir, crescer e se consumar, como abismo da generosidade e jovialidade de ser, cada vez novo e cada vez de novo, sustentando o nosso ser. Assim, se eu fosse galho de uma árvore, dentro de mim, bem no centro de mim, há um fio condutor que me liga às raízes, através das quais me vem toda a minha vitalidade. Cada qual dos galhos está unido com outros através, a partir, e dentro do seu cerne, da sua interioridade fundamental, está vertido, virado para o uno vital radical, a partir, dentro e através do qual recebe a alegria de ser da terra dos homens, formando leques de diversidades das possibilidades de ser galhos, grandes, médios, pequenos, infinitesimais, como tronco, galhos principais, galhos arteriais finos, mais finos, finíssimos, cada qual no seu vigor e alegria de ser. Cada galho antes de tudo, como o a priori do empenho e desempenho do trabalho cuidadoso centrado, virado, vertido nesse uno de todas as coisas, jamais deve se esquecer que desse trabalho profissional do cultivo de si é o verdadeiro, autentico serviço e cuidado comunitário, uni-versal.

Os ditos de frei Egídio que falam pois de salva-vidas, da candeia, da bandeira, espelho, daquele que corre e em correndo convida a correr em correndo, dos pregadores que sabem que a palavra de Deus não é de quem ouve, de quem fala, mas de quem opera e se nela perfaz, nos insinuam todos eles esse estranho modo de saber e saborear a possibilidade de ser, a realidade. Nessa realização da realidade, cada vez seu, uni-versal

(5) o homem tem tanta sabedoria, quanto age bem, e não mais. Portanto, não confies na tua sabedoria, mas empenha-te em trabalhar com toda solicitude, e confia radicalmente naquelas obras. (6) Por isso diz o Apóstolo: “Não amemos em palavra nem em língua, mas em obra e em verdade” (1Jo 3,18).

Conclusão provisória

Terminemos esse comentário um tanto desbaratado com os ditos de Frei Egídio:

(9) A palavra de Deus não é de quem ouve ou fala, mas de quem opera. (6) Por isso diz o apóstolo: “Não amemos em palavra nem em língua, mas em obra e em verdade” (1Jo 3,18). A ciência útil é pois o studium universale do amor de Deus. Aqui vale o estranho princípio do saber: (1). Quem quer saber muito incline muito a cabeça e opere muito e arraste a barriga na terra, e o Senhor o ensinara muito.


[1] Dettlof, W. “Bonaventura”, in TRE (Theologische Realenzyklopädie) VII (1981) 48-55.
[2] Diz, pois, Hölderlin, o poeta-pensador, o vigia avançado do tempo da indigência: Pouco saber, mas muita jovialidade é dada a mortais (IV, 240).
[3] 16. “Da ciência útil e inútil e dos pregadores da palavra de Deus”, in: Ditos do bem-aventurado Egídio de Assis, Fontes Franciscanas, Santo André: Editora O Mensageiro de Santo Antônio, 2005, pp. 1136-1140.
[4] Eckhart, Meister: Sermões alemães. Tradução e introdução de Ênio Paulo Giachini, Bragança Paulista/Petrópolis: Editora Universitária São Francisco/Vozes, 2006, pp. 327-329.
[5] Em latim,virtus, i.é, vigor do varão.
[6] Aqui na significação de clareira, abertura; nesga do céu que as nuvens, abrindo-se por instante, deixam entrever, através da qual vislumbramos a imensidão do céu aberto.
[7] Cf. o termo aprisionado em: Antoine de Saint-Exupéry, O pequeno príncipe.
[8] Cf. a introdução dos tradutores dos ditos de frei Egídio, Fontes Franciscanas, op. cit., p. 1154: “Frei Egídio achava o “canto” dos corvos, horrível, e o canto dos homens belíssimo. Mas preferia o grasnar dos corvos ao canto dos homens. É que estes entoam “lá, lá, lá”, ao passo que aqueles grasnam “quá, quá, quá”. O “lá” é belo, sublime, vem das alturas e eleva os corações para o alto. É sempre para além, “espiritualista”, “celestial”. Jamais está aqui e agora. Jamais inserido no concreto definido de uma dada situação-terra, misturado com a podridão e a decadência humana, acolhendo-o com gratidão e responsabilidade, como o dom precioso, único da possibilidade agraciada. O “cá” de Frei Egídio é a dinâmica da espiritualidade da graça cristã que conhece a possibilidade agraciada e “engraçada” de Jesus Cristo crucificado. Na quadratura do encaixe, da incrustação nas vicissitudes, corpo-a-corpo, da existência histórica e finita, descobre as sementes de uma condução, em cuja descida para dentro da terra dos homens encontra o tesouro escondido no subterrâneo do mistério do abaixamento de Deus: a Encarnação”.
[9] Esse momento decisivo da ciência útil é hoje no espiritualismo subjetivista considerado como o grande defeito da assim chamada espiritualidade de perfeição pessoal, atribuída à Idade Média.
Abordagem desse equívoco que acontece não raras vezes também no meio erudito, em referência à espiritualidade e à mística da Idade Média, requer maiores explicitações do pensamento, principalmente ontológico, pré-jacente no fundo da existência medieval. Como tais explicitações ultrapassam o âmbito desse comentário do texto de frei Egídio, aqui as omitimos, pressupondo conhecidas a ontologia e a metafísica medievais. Apenas mencionemos que não se devem confundir indivíduo, privativo, particular com pessoal e singular; geral com universal; social com coununitário.
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