Vocacional - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Formação e autoformação

22/04/2021

 

O que segue é apenas uma reflexão de uso pessoal, feita por algumas pessoas que estão na tarefa de formação, e que querem aos poucos, como exercício de auto-formação, examinar a própria compreensão que têm da formação. Não serve pois para ser aplicada no uso comum ou público. Trata-se apenas de um subsídio provisório para acionar o estudo durante o dia de reunião.

Questionar o modo de colocar o questionamento da formação

  1. A importância da formação sempre foi acentuada na fala de uma congregação ou ordem. Hoje, essa fala se torna cada vez mais exigente. Preocupados com a exigência de um mundo novo e dos apelos da Igreja Nova, urgimos uma reforma radical e ampla na formação pa­ra a vida religiosa. Exigimos uma recolocação na questão da formação.

Aliás, tornou-se quase moda, recolocar a questão. Entendemos usualmente, por recolocar a questão, uma espécie de renovação e inovação total e radical do que viemos fazendo até agora. Falamos, assim, na necessidade de mudar as estruturas antigas, as formas e os métodos de formação, dar uma formação mais adequada para as necessidades, os anelos e as exigências do mundo de hoje etc.

  1. Mas as exigências de renovação e inovação assim aventadas são tantas e tão variadas que extrapolam toda e qualquer possibilidade de discussão séria, tanto no tempo, como na capacidade físico-concreta de uma reunião, de um curso ou de um encontro. As­sim, os nossos questionamentos se transformam numa espécie de agitação tempestuosa de idéias lançadas ao vento, sugestões mal coloca­das, arrolamento de opiniões em moda, misturadas com queixas e reclamações, uma reunião sem rumo, sem concentração temática, sem a possibilidade real e finita de uma determinação que nos possa levar a uma ação, a um confronto de soluções reais. E, ao repetirmos sempre de novo tais reuniões, aos poucos nos resignamos e começamos a ter cabeça feita, de que a formação hoje é muito complicada, sim quase uma tarefa impossível, por causa de tantas dificuldades provenientes da sociedade de hoje, em que tudo flutua por ser tempo de transição etc. etc.
  2. Mas, se observarmos atentamente as nossas colocações e os nossos questionamentos, percebemos que colocamos mil e mil diferentes temas, assuntos, propostas, problemas, isto é, conteúdos, mas jamais examinamos o modo de colocar a questão. Perguntamos por isso: será que não é necessário, antes de tudo, recolocar o modo de questionar a formação, hoje? Mas, em que sentido?
  3. Questionar é buscar. Quando uma busca perde o rumo e se agita em diferentes colocações disparatadas, é uma busca que perdeu a cabeça e não mais está assentada na raiz do seu questionar. Então, é necessário se colocar, se assentar de novo numa busca mais finita, determinada, mais próxima de si mesma.

Mas o que significa uma busca mais finita, determinada, mais próxima de nós mesmos, em referência à formação?

Para percebermos o que é a busca mais finita, mais de­terminada, mais próxima de nós mesmos, precisamos voltar a ser bem concretos e cotidianos, sim bem materiais e físicos, sem nos espraiarmos em representações “universalistas” e gerais, como é o caso, quando falamos sem pensar muito, no Mundo de Hoje, no Século XX, da Igreja, hoje, da América Latina, do Mundo Tecnológico, do Franciscanísmo atual etc.etc. Próximo, finito, bem determinado é a Ordem na qual estamos, em cuja obediência vivemos, a nossa Província, a nos­sa casa, o encargo que exercemos, a equipe de formação a que pertencemos, o postulantado, o noviciado da nossa província, com tais e tais pessoas, em tais e tais situações e problemas, em tais e tais limites do tempo.

Tentemos agarrar com as duas mãos o finito, o determinado assim entendido material e fisicamente, e façamos assentar a nossa busca ali dentro, colocando-a como uma busca séria, bem atenta, realista e eficaz. O que acontece?

Acontece que vem à tona, bem em concreto, materialmente, numa delimitação corporal e física, o que devemos fazer todos os dias na formação, sempre de novo como nossas ocupações, preocupações e obrigações, como nossos afazeres. Por mais diferentes que sejam as circunstâncias de países, nações e povos, por mais diversificadas que sejam as culturas, por mais diversos, diferenciados e até opostos que sejam os. tipos, os lugares, os modos de nossa convivência, do nosso engajamento sócio-político, sempre de novo nos vêm ao encontro essas coisas bem finitas de nossa cotidianidade rotineira da formação. Você pode estar diante das exigências, as mais prementes do mundo de hoje que se possam imaginar, você pode achar que é essencial e de capital importância para se estar preparado para o engajamento na Igreja de hoje, tal e tal curso, tal e tal participação num movimento, tal e tal engajamento social, vire e revire, sempre de novo vai ter que se deparar, confrontar-se com um quantum bem corporal concreto de coisas que vai ter que fazer, adquirir, no qual vai ter que se exercitar e se formar, digamos em 1 ano, 2 anos 3 anos, contando com o dia que não tem mais do que 24 horas, com hora que não tem mais do que 60 minutos.

  1. Formar franciscanos para o mundo de hoje, para estar à disposição da Igreja do Século XX, para servir aos irmãos nas suas necessidades e nos seus anelos de um Mundo melhor, formação para América Latina, formação para África, para Ásia, formação para, para, para, etc…

Falamos de tudo isso, porque é séria a nossa vontade de formar para a realidade. A realidade nos convoca a sermos bem reais em assumir o trabalho árduo de nos prepararmos para tudo isso, que falamos ser necessário, no dia de hoje. A realidade nos convoca, pois, a trabalharmos arduamente um fazer, a concretizarmos materialmente uma ação que se chama formar-se.

É importante se conscientizar que aqui se trata de um fazer todo próprio. Não é pois qualquer fazer, um fazer geral. Trata-se de um fazer à cuja seriedade não lhe é permitido se espraiar, vagar, avoar-se pelo mundo a fora, como quem voa por cima das coisas numa visão geral, universalizante, panorâmica, conferencisticamente, sem se colocar duramente no cotidiano físico material da situação aqui, agora, dentro dessa Ordem, dentro dessa Congregação, dessa Província, dentro dessa casa, nessa etapa da formação, chamada aspirantado, postulado, noviciado, juniorato etc.

  1. De repente, sentimos na carne a necessidade de nos concentrarmos muito a sério, de apertarmos realmente o cinto do nosso fazer e do pensar sóbrio, de ajuntar todas as nossas forças disponíveis para aplicá-las num trabalho árduo de conquista: de conquista de um saber muito mais real, concreto, verdadeiro, desse fazer todo próprio chamado formação. Sentimos com responsabilidade a premente necessidade de deixar de lado as agitações precipitadas, deixar de lado toda a fala vazia enfeitada, retórica estético-romântica ou até demagógica, deixar de lado tentativas irresponsavelmente provisórias e chutadas, sintomas esses de uma busca imatura, mal coloca­da. Percebemos como decisivo para o êxito da formação que não misturemos as coisas superficialmente, pensando que a formação é como qualquer outra ação, basta fazer que tudo dá certo. Se a formação é um fazer todo próprio, é necessário saber bem que exigências ela tem a partir dela mesma. Nesse sentido, por exemplo é bem diferente você fazer pastoral e você fazer uma ação chamada formar-se para a Pastoral.
  2. Recolocar a questão da formação acaba, assim, se trans­formando numa coisa bem humilde, real e concreta, sim numa obrigação, digamos sóbria e necessária, de toda e qualquer ação real e eficiente, isto é, na obrigação de examinarmos no duro, se realmente estamos fazendo o que devemos fazer finita e concretamente na nossa formação, conforme o modo de ser próprio dessa ação chamada formação. Sem esse embasamento real, a formação é vã, por melhores que sejam as intenções, as idéias, os recursos pedagógicos e “acio­namentos”. Talvez, de tanto falar nas necessidades atuais, nas exigências prementes de hoje, estejamos nos alienando da humilde necessidade terra à terra de fazer o que devemos fazer no cotidiano da terra da formação. Para isso é necessário ter, ou melhor, recuperar o realismo nu e cru de quem faz, age a formação, ciente de que a formação é uma ação toda própria, e isto de tal maneira que não po­de ser nivelada a outras modalidades de fazer.
  3. Nós, que estamos refletindo, somos formadores. Formadores, formamos, na medida em que nos formamos. Na formação o que ma­is importa é pois autoformação. Na autoformação o que mais impor­ta é a clarividência que temos acerca da ação toda própria chamada formação.

Examinemos: nós, como formadores, temos conhecimento claro de que ação, de que fazer se trata, quando falamos de formação?

Na discussão acerca da formação é necessário evitar um questionismo vazio de identidade, reduzindo o essencial, o elementar e o básico a mil diferentes pontos  de vista de interpretações subjetivas.

  1. Numa discussão acerca da formação da vida religiosa, o que mais nos dá trabalho é a objeção: Como entender o essencial da vida religiosa, se há tantas interpretações da essência da vida religiosa, hoje? O que é pois a vida religiosa no mundo de hoje, diante de tantas exigências novas, novos apelos da humanidade em transformação, novas teologias, novas pastorais, novas fronteiras para todos os lados?
  2. É necessário, cada vez de novo, checar essa objeção. Pois, ela pode não passar de uma expressão de inquietações, angústias e perplexidades, nas quais estamos e caímos sempre de novo, diante de avalanche de novas teorias, novas exigências, novas situações, a que estamos expostos como religiosos. Pode também ser produto de uma contaminação, quase inconsciente, de opinião pública que, com superficialidade, coloca tudo em dúvida, com ares de questionador. Expressões, portanto, de receios, medos, perplexidades pela falta de identidade bem assentada ou expressão de superficialidade frívola, sem responsabilidade da verdadeira busca. Se as­sim o for, então não é a expressão de uma busca intensa, séria, engajada, já de há muito tempo exercida em empenho no estudo bem orientado e experimentado. As objeções que têm esse caráter de receios e perplexidades, por falta ou fraqueza de identidade, não são propriamente questionamentos. Podem soar muito atuais e críticos, impressionantes, angustiantes. Mas, na realidade, não são nem atuais, nem atuantes ou críticas, pois não passam de agitações carregadas emocionalmente, ávidas de soluções imediatistas e “miraculosas”, sonhadoras de reforma sem trabalho tenaz, demorado e realmente assumido, incapazes de com sangue-frio se assentar num questionamento de busca mais real, concreto, profundo e responsabilizado, incapazes de assumir com decisão firme e inabalável a tarefa de buscar, dentro do possível, do concreto e finito, o que se pode e deve fazer, hoje, e agora para aos poucos ir construindo um futuro viável e re­al.
  3. Na formação, esse tipo de pseudo-questionamento é um tóxico, uma droga alienante que mata o vigor elementar. Pois, contamina tudo com frustração, irritação, ressentimento e dúvida, condicionando uma existência sem dinâmica de busca. Impede pela raiz a possibilidade de juntos, unidos com boa cabeça e bom coração, buscarmos intensa e totalmente o essencial.
  4. Se, porém, evitarmos esse tipo de questionaismo debilitante, e formularmos a objeção, ela pode ser ouvida num sentido de busca real e bem responsável. Mas, se assim o fizermos, então haveremos de constatar uma coisa bem real e de muita urgência.
  5. Haveremos de constatar que, na época em que se exige renovação, e se exige busca de soluções alternativas, na época em que somos expostos a novas conquistas, novos apelos, novos horizontes, o que se faz antes de tudo é necessário aprofundar e firmar, ir até às raízes no fundo de nossa própria identidade, para ali e dali renovar, realizar a dinâmica criadora das nossas e das novas possibilidades. Com outras palavras, como a condição da possibilidade, co­mo o pré-requisito e como a garantia da renovação, devemos ir às fontes de nossa inspiração, devemos aprofundar a verdadeira pertença à terra, à base da força de inspiração da nossa identidade cristã-franciscana.

A importância decisiva do elementar na formação

  1. Toda e qualquer formação eficiente gasta um longo tempo e muita energia na aprendizagem e na assimilação do elementar, o qual é fundamento e base de todas as elaborações posteriores, mais complexas, mais sofisticadas, mais exigentes e especiais.

Quanto maiores as exigências de uma profissão,. quanto mais difíceis e perigosas suas tarefas, tanto mais se preparam os candidatos no domínio do que é elementar e básico, com muitos exercícios artificialmente simulados, com muito rigor e repetição, pa­ra que naquilo que sempre de novo entra em todas as ações e atividades como o seu elemento comum, o profissional tenha relativa facilidade, por tê-lo assimilado de tal modo que o elementar se tenha tornado uma parte integrante do seu próprio ser.

Nenhum profissional de uma área considera como tempo perdido essa demora caprichosa e bem trabalhada no elementar. Pois quanto melhor, mais firme, mais trabalhado o fundamento, tanto mais rápida, mais segura e eficiente a assimilação de todo o resto. E cada profissão, que sabe o que quer e o que faz, tem bem claro, quais os exercícios, quais as coisas que são consideradas como in­dispensáveis, por serem elementares e essenciais.

  1. Exercícios elementares num esporte por exemplo são aqueles exercícios que criam, desenvolvem e firmam no atleta habilidade, vigor e disposição básicos de que ele necessita, para realizar toda e qualquer atividade esportiva de diferentes e variadas modalidades. Assim por exemplo exercícios de flexibilidade lhe proporcionam a flexibilidade. Esta é então a habilidade, força e disposição que entra em todos os movimentos que o atleta faz, quando joga. Também na nossa vocação espiritual de religiosos existem exercícios elementares, que nos dão habilidade, força e disposição elementares, necessárias e úteis para tudo quanto fazemos nos mais diferentes e nas mais variadas situações.

Experimente você mesmo dizer quais essas habilidades elementares e como elas atuam em tudo que fazemos.

  1. Um lutador por exemplo através de intenso exercício, is­to é, através de formas artificiais e simuladas de combate, adquire uma boa habilidade de se defender. Depois aos poucos, começa em lutas mais reais, sim simulacro, aperfeiçoar, intensificar os exercícios e faz crescer o que antes aprendeu. O elementar só cresce e se firma nesse processo gradual de aprendizagem. Por isso, é sinal de completa falta de compreensão para com essa maneira artesanal e real de perfazer o vigor do ser num trabalho intenso e artificialmente concentrado, colocar o tempo por exemplo do noviciado como algo negativo e alienado, dizendo-se que ali tudo é alienado por ser artificial, e opondo-o à vida real da sociedade e do público, cujo projeto tem bem outra finalidade e bem outro espírito. Artificial não é sinônimo de alienado, irreal. Pelo contrário, significa bem bolado a modo de um artefato, para um desempenho melhor. Quem tem medo do artificial num treinamento é alguém que está alienado do mundo dos projetos, e pensa que o real e viver é a vida espontânea, sem intervenção de um plano, projeto e determinação de um trabalho penoso e exigente. Como se a vida de um operário, de uma faxineira não fosse artificialmente conquistada em duro trabalho de aprendizagem… Uma ideologia espontaneísta não cria gente, cria sim cogumelos como diz Sait-Exupéry.
  2. Nenhum bom profissional, seja de que área for, coloca o tempo de aprendizagem do elementar como inimigo ou alienação de praxis posterior. Antes, pelo contrário, considera a aprendizagem do elementar em forma de exercícios no trabalho de concentração artificial, de treinamento através da simulação do real, como o momento decisivo para todas as outras alternativas posteriores.

Perguntas:

Como e o que você pensa do tempo de formação elementar? Não desta ou daquela formação, mas da formação do elementar como tal?

Na sua aprendizagem, de seja o que for, você já experimentou o que é formar-se no elementar?

Você não é dessas pessoas espontaneístas, que logo opõe tudo que é bem determinado, estruturado, planejado, finalizado para um projeto como sendo artificial, longe da realidade da vida? Mas nesse caso o que você entende quando diz vida real?

Quais são para você os exercícios elementares indispensáveis pa­ra a aquisição da habilidade para a Vida Religiosa?

Quando com razão combatemos o “artificialismo” na formação, o que é que estamos combatendo afinal?

Depois de você combater com razão o “artificialismo” na formação, experimente você mesmo dizer em concreto como seria realmente, em detalhes práticos a formação real para a Vida Real…

A importância do elementar para a unidade fundamental da formação para a Vida Religiosa, no tempo em que cada vez mais se tornam contrariantes as diferenças e alternativas da formação

  1. O que chamamos de elementar na formação é fundamental e básico, anterior a toda e qualquer especificação posterior e alternativa. E como já foi dito, o elementar é aquilo que entra em to­das as diferentes variantes de um movimento, por mais diversifica­das que elas sejam. Seria, pois, de uma grande importância para a formação para a vida religiosa, conseguir um consenso evidente acerca do que é elementar na formação para ser religioso. Deste modo, teríamos, por assim dizer, uma base comum, sobre a qual poderiam ser desenvolvidas diferentes variantes e alternativas da formação, conforme necessidades e exigências de cada região, cada povo, cada raça, cada tipo de pastoral, de diferentes situações e engajamentos nela.
  2. O elementar é sempre um princípio, uma dinâmica de constituição de uma determinada ação, mas não coincide com esta ou aquela ação. E, no entanto, está em cada uma das ações, por mais diferentes que elas sejam entre si, cada vez de outro modo, mas sempre como o mesmo…
    É necessário ter um tato próprio para captar essa realidade elementar. Assim, estar sentado, estar correndo com toda a velocidade que minhas pernas me permitem, e estar deitado numa boa, são atividades inteiramente diferentes. Mas, em todas essas ações, posso estar de modo elementar, chamado por exemplo serenidade. E para me exercitar no vigor da serenidade, eu o posso fazer ora na corrida, ora me sentando, ora deitado, em diferentes situações em diferentes circunstâncias, mas sempre visando o mesmo elementar.
  1. Se tivermos claro na formação que é necessário, custe o que custar, adquirir por exemplo o vigor elementar chamado serenidade, então fazendo a formação desta ou daquela maneira, neste ou naquele lugar social, no ambiente tradicional ou no desafio do inteiramente novo, haveríamos de nos concentrar, para realmente, em cada uma dessas situações, trabalhar bem, com muito empenho e exigência, para a conquista desse uno e mesmo vigor elementar. E uma vez adquirido esse vigor, por ser elementar, ele serviria para qualquer lugar, qualquer situação em que caíssemos mais tarde.
  2. Quando examinamos as fontes franciscanas, percebemos que ali está presente um modo de formação, não tematicamente explicitado, mas sim operativamente atuante, como algo bem conhecido, em todas as ações dos irmãos. Modo de formação que se anuncia em palavras e expressões como por exemplo vencer-se a si mesmo, fazer fruto em si, bem fazer, salvação da alma, virtudes e vícios etc. To­dos termos referentes à prática da vida interior. No entanto, na nossa maneira usual de falar, o que denominamos de vida interior do homem, a Legenda dos Três Companheiros, Cap. III, n. 8 por exemplo chama de o Homem interior.
  3. Provavelmente, o que se denomina aqui de o homem interior tem muita pouca coisa, para não dizer nenhuma coisa, a ver com o que nós hoje entendemos, quando dizemos a vida interior do homem. Pois, usualmente, por interior do homem entendemos o nosso eu e sua vida íntima, o subjetivo em nós, o privativo, o particular. Mas
    nesses textos antigos, o homem interior significa o homem essencial, o fundamental, o básico no homem, aquela realidade primeira e originária, radical e universal de todos os homens, portanto, a realidade universal e essencial da humanidade, sobre a qual deveriam se basear todas as variantes e alternativas possíveis do ser homem.

Esses termos acima mencionados, usados pelas fontes, que em nosso preconceito moderno entendemos como indicativos do subjetivo em nós, não estariam eles indicando uma medida de ser, universal, for­te, radical e imensa, sim, elementar, sobre a qual deveríamos basear toda e qualquer formação, por mais diferenciada, diferente e alternativa que ela seja no mundo de hoje?

Um antigo e sempre novo segredo da formação franciscana

  1. Hoje, vivemos uma profunda crise da formação. Nessa crise, não sabemos mais que rumo tomar, o que fazer. Por não se saber bem que rumo tomar, não se tem mais uma orientação segura. Agitamo-nos em diferentes colocações disparatadas, nos debatemos em tentativas não muito clarividentes de solução.

Dissemos no início da nossa reflexão que, numa tal crise, é necessário nos assentarmos de novo numa busca mais finita, determinada, mais próxima de nós mesmos. Com outras palavras, é necessário buscar a solução não longe, nas regiões alheias ao nosso projeto de vida, mas sim bem porto, em casa. Se, porém, tentarmos com muito empenho e seriedade vasculhar a nossa própria casa, a nossa proximidade chamada ser franciscano, descobriremos em casa um tesouro escondido, que, se bem assimilado, pode transformar-se num segredo antigo e sempre novo da nossa formação franciscana. De que tesouro se trata? Trata-se de duas obras escritas: as Sagradas Escrituras ou Bíblia e os Escritos de São Francisco de Assis ou num sentido mais lato as Fontes Franciscanas.

Essas duas obras devemos ler.

Será que as Sagrada Escrituras e as Fontes Franciscanas lidas, estudadas, meditadas, experimentadas, trabalhadas passa a passo, todos os dias, longamente por anos a fio, não poderiam se transformar no Manual originário e fundamental, de onde os formadores e os formandos da vida franciscana pudessem, sim, devessem haurir todas as orientações e normas de sua formação?

  1. Esse estudo que deve ser intenso e de grande volume de trabalho, ser profundo e bem cuidadoso no rigor e na precisão da compreensão não coincide com o estudo acadêmico usual, cientificista. Mas também não coincide com “estudo edificante” e piedoso de vivências espirituais, ou melhor, espiritualistas. Não se trata, portanto, da leitura “espiritual” ou reflexão partilhada de trocas de opiniões subjetivas espiritualistas. Trata-se realmente de estudo, de intenso trabalho suado da busca e pesquisa da verdade. Trata-se de um estudo existencial, isto é, empenho no qual está em jogo o engajamento de toda uma existência humana. Trata-se, pois, de um estudo no estilo como São Francisco de Assis leu e assimilou as Sagradas Escrituras. São Francisco de Assis assimilou de tal forma as Sagradas Escrituras que em tudo que ele era, fazia, falava, pensava, sentia, irradiava o Evangelho. Atrás de tal irradiação, existe um imenso volume de trabalho, de estudo para a compreensão viva e dinâmica, de meditação, de assimilação. O que e como fez São Francisco de Assis?
  2. A primeira coisa que ele fez foi acreditar de todo o coração, com a absoluta e pura positividade discipular que as Sagradas Escrituras eram o livro de Deus, o livro do Povo de Deus, onde estava guardado o arcano, o grande segredo escondido do vigor do Deus de Jesus Cristo. Ele acreditava, sim, sabia que um livro assim está impregnado da experiência viva de todo um povo, todo especial e extraordinário, chamado Povo Cristão. Não é pois um livro qual­quer. Uma tal crença não é crendice fanática. É antes uma experiência, experiência de quem, viva, concreta e intensamente está enraizado, está unido na pertença real a uma grande comunidade chamada Povo Cristão, a Igreja. Trata-se, pois, de uma experiência viva da participação simbiótica com a imensa e profunda experiência de milhares e milhares de pessoas, que desde Jesus Cristo até nos dias de hoje constituem essa imensa família, raça, povo chamado Povo Cristão.
  3. Cada povo, cada religião possui um tal livro arcano. Um tal livro arcano não se lê por princípio historicamente, nem exegeticamente, nem sociologicamente, psicologicamente, literariamente. Todas essas abordagens de diferentes ciências não são erradas. Mas não atingem, não tocam o espírito, a essência desses livros. E se essas abordagens científicas de alguma maneira podem ser úteis pa­ra ler melhor os livros arcanos na sua essência, então somente pa­ra quem já antes, através de um intenso empenho de confronto existencial com esses livros, está por dentro do espírito e essência de tais livros.
  4. Mas, como é esse estudo de leitura existencial? Pega-se o livro com as duas mãos, isto é, com todo o ser, com grande reverência, sabendo que você ali tem nas mãos o vigor, a orientação, a evidência, a fé, vida de milhões e milhões de irmãs, irmãos, pais, mães, filhos e filhas, esposos e esposas, parentes de sua raça, do seu povo, da sua família, de pessoas que desde Jesus Cristo vieram até hoje, pessoas altamente inteligentes, autênticas, cheias de boa vontade extraordinariamente discipular, todas elas sábias e experimentadas no Seguimento. E então começa-se a ler. Paciente, humildemente, com gratidão, cheio de interesse e atenção obediente. Mas não usa o que ali está para defender a sua posição, por mais nobre que ela seja. Não usa o que lê para a sua própria satisfação, por mais nobre e sublime que seja a sua busca. Antes, pelo contrário, se co­loca desarmado, com coração vazio de todo o apego, preconceitos e prejuízos, inteiramente concentrado, com plena atenção cuidadosa, para se abrir ao que as Sagrada Escrituras, ou também a leitura das Fontes, ao que as Fontes Franciscanas lhe ditam. Deixa-se questionar por elas. Purifica-se. Torna-se cada vez mais obediente, todo ouvido de ausculta dinâmica e atenta, uma ausculta cordial de discípulo. E na medida em que, nesse contínuo confronto, lhe vem ao encontro urna compreensão, uma evidência, não subjetiva a partir do que você sabe, quer e pode, mas a partir do que as Sagradas Escrituras e as Fontes lhe dizem, começa a ver tudo, Deus, Homem e Uni­verso, os sofrimentos, as lutas, as adversidades, enfim tudo, à luz dessa nova compreensão.
  5. Um tal estudo, não seria ele o estudo, o mais direto, o mais próximo, que todos nós poderíamos realizar, sempre e em toda parte, em todos os momentos e em todas as situações? E um tal estudo, concreto e possível a todos, não poderia se tornar o nosso estudo profissional básico e elementar, a partir do qual tiraríamos todas as nossas orientações e diretrizes da formação?

A liberdade na formação e da formação deve seguir a liberdade discípular do seguimento de Jesus Cristo.

  1. A formação é essencialmente formação para Liberdade. Na vida Religiosa, do postulantado ao noviciado, do noviciado ao tempo de profissão temporária, do tempo de profissão temporária à Vida Religiosa de profissão perpétua, vamos crescendo para a idade madu­ra da plenitude de Cristo. Esse processo de amadurecimento é o perfazer-se da liberdade no Seguimento de Jesus Cristo.
  2. A liberdade do discípulo de Jesus Cristo, na sua busca rigorosamente discipular, sabe nitidamente que, os compromissos de projeto de vida religiosa são imperativos, a que ele se submete livre, cordial e diligentemente como a direitos e deveres sagrados da obrigação grata da sua vocação.
  3. Hoje, numa época em que a sociedade de consumo, sempre de novo, insufla nos ouvidos jovens, a idéia de que toda e qualquer imposição é contra a liberdade humana, há nos candidatos à vida relígiosa a tendência muito enraizada de ver nas exigências de um projeto de vida uma espécie de imposição do autoritarismo.
  4. Por mais que no noviciado se tenha decidido a abraçar de todo o coração o gênero de vida religiosa, essa tendência pode permanecer, por assim dizer, atuando, escondida debaixo das cinzas no tempo de posteriores etapas da nossa Vida Religiosa, numa espécie de resistência calcitrante contra o viver concreto e engajado da própria vida, aqui e agora, da Vida Religiosa, principalmente da formação. Essa resistência pode aparecer sob o disfarce de indiferença, de uma aceitação dissimulada, exterior de normas e deveres, ou em sintomas como um contínuo ressentimento e descontentamento diante de obrigações e deveres, ditados pela Regra, pelas Constituições ou uma atitude de crítica abstrata, azeda que toma ares de consciência superior, ofendida na sua autenticidade pelos defeitos da comunidade ou dos coordenadores.
  5. Essa tendência impede o deslanchar-se no elã total da formação. Pois impede o religioso de abraçar com as duas mãos o tempo de formação de posteriores etapas da vida religiosa na auto­formação, para valer, e de corpo e alma perfazer cordial e assumidamente o que se iniciou no noviciado.
  6. Por isso, na formação, é de importância vital para o formando que se evite da parte dos formadores o autoritarismo proveniente de seus próprios defeitos e da sua imaturidade ou ignorância, mas por outro lado é de importância maior ainda extirpar na formação essa atitude de se ficar com um pé atrás, por confundir as exigências dos compromissos sagrados da nossa vocação com as imposições indevidas de um autoritarismo. Por isso, no tempo de formação para a Vida Religiosa, nunca é demais insistir na compreensão cada vez mais nítida e evidente acerca da necessidade de conquistar a pura e absoluta positividade da busca discipular, onde, em referência ao nosso projeto de vida religiosa, toda a nossa atitude, cada vez de novo e sempre deve ser um sim total, cordial, da ponta da cabeça até a sola dos pés, para todos os compromissos, obrigações, deveres e imposição dessa nossa profissão e vocação.
Frei Hermôgenes llarada

Casa Provincial Maria Imaculada, Itapecerica da Serra/SP – Nov./90.

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