Vocacional - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

De como ler os “Fioretti”?

29/04/2021

 

Frei Hermógenes Harada

Se você não se fixa no ponto de interrogação do título acima, você pode estar esperando uma coisa que essa conversa mole não consegue dar. É que de como ler insinua algo como  método apropriado para ler esse estranho livro, chamado Fioretti de São Francisco de Assis. E método, para nós hoje, é uma coisa séria, pois método hoje, para valer, deve ser de alguma forma científico, i. é, deve ser um meio instrumental que me leve a abordar e tratar o livro de maneira certa, segura e verdadeira; que não me deixe apenas numa interpretação subjetiva, privativa; que me permita atingir o sentido subjetivo do autor, aquele sentido real que o próprio autor quis dar ao texto na época em que escreveu o livro etc.

Mas não é nada disso que você pode esperar dessa conversa. É que alguém perguntou se a gente não podia escrever sobre o método de como ler os Fioretti. E a única coisa real que a gente pode responder foi a de se perguntar um tanto atrapalhado: “De como ler os Fioretti? Não sei, não senhor!”… Mas pensando bem, a gente sabe algo de como ler um livro. Esse saber não é, porém, científico. É algo bem banal e elementar. Tão banal que não sei se dá assunto para uma conversa séria. Por outro lado, o elementar, quando é sério, é complexo e pluridimensional. Por isso, talvez, hoje, nessa conversa, poderíamos nos limitar a falar apenas um pouco acerca de um único ponto.

Para ler os Fioretti de São Francisco de Assis, é necessário antes de tudo pegar no livro. Para pegar no livro, pegamos o livro… Mas pegar o livro não é apenas estabelecer um qualquer contato entre uma coisa chamada mão e outra coisa chamada livro. Pegar o livro é um contato todo especial. É esse contato especial que denominamos pegar o livro.

Eu posso pegar, agarrar o livro com as duas mãos e dar-lhe uma dentada. Com isso não peguei no livro. Pegar no livro para fazer leitura significa certamente segurá-lo, agarrá-lo, tocá-lo com as mãos. Mas esse sentido físico de pegar está assumido por um sentido concreto humano específico de pegar. E, ao pegar o livro para a leitura, o que importa é esse sentido concreto humano específico de pegar.

Quando dizemos: é necessário pegar o/no livro, a palavra pegar evoca aquele sentido  que nela está contido, quando exclamamos: “Meu amigo, agora sim, te peguei!” A exclamação pode expressar diversas situações. Talvez ando, há muito tempo, atrás de um amigo para cobrar dele uma dívida; talvez o surpreendi numa fossa, a ele que me intriga por estar sempre alegre e jamais triste; pode ser que eu o convenci de uma idéia, depois de muito argumentar etc. Mas, seja qual for a situação em que se dê essa exclamação, ela nos indica o pegar como um contato bem concreto da afeição do interesse. “Te peguei” não tem a indiferença abstrata de uma ação física do contato de uma coisa com a outra. É muito mais. É diferente. É um contato da afeição de interesse. É nesse sentido concreto humano que o camponês pega na enxada; o piloto da fórmula I no volante; o sacerdote no cálice; a mãe na fralda; o esfaimado no pão; o moribundo no crucifixo etc.

Pegar no livro é portanto um fazer movido por todo um mundo de afeição do interesse. Se pegar no livro é tudo isso, então o que significa a afirmação: para ler é necessário pegar no livro? A minha dificuldade na leitura é pegar no livro. Pegar no livro é ser pego pela afeição de todo um modo de interesse, afeição essa que me faz pegar o livro com as mãos trêmulas do sedento que pega o copo de água salvadora.

A condição de possibilidade da leitura, portanto, não é a capacidade de manejar o alfabeto. Antes, é a afeição do interesse do analfabeto, a cede e a fome de pegar, com ambas as mãos do não-saber reverente, o livro. Sem essa afeição do interesse não podemos ler. Sem essa afeição do interesse não pegamos no livro, apenas o tocamos com a indiferença do consumidor, cheio de letras mortas.

Estar cheios de letras mortas é nossa situação hoje. Vivemos saturados de livros. A saturação, no entanto, aparece mais lá onde o nosso saber engole tudo, lê tudo, sempre mais e mais em quantidade, sem poder demorar-se na acolhida de um questionamento simples e bem experimentado. É que perdemos o sentido para o elementar. Para poder ler, pois, é necessário recuperar o sentido para o elementar (o próprio).

Mas somente recuperaremos o sentido para o elementar se formos mais lentos, menos afoitos e precipitados, menos pretensiosos e gananciosos, se formos calmos num empenho tranquilo e trabalhoso a modo do trabalho de uma vaca: se formos ruminadores… É por  isso que um grande mestre de leitura dos tempos modernos, cujo nome é Friedrich Nietzsche, diz em seu livro A genealogia da moral “…. evidentemente, para  exercitar o ler como uma tal arte, uma coisa se faz necessária, coisa esta que hodiernamente, aliás, foi completamente desaprendida…, uma coisa, pois se faz necessária e para a qual é preciso ser antes como vaca e de modo nenhum como: ‘homem moderno’. Mas, enfim: faz-se necessário o ruminar”.

De como ler? Friedrich Nietzsche – diz: para exercitar o ler, uma coisa se faz necessário – faz-se necessário o ruminar.

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