Vocacional - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A busca da identidade humana e franciscana – IV

29/04/2021

 

Estudar, filosofia?

Introdução

Filosofia é uma interrogação? Ou a interrogação vale sobre o estudo? Supondo-se que seja sobre ambos, devemos saber o que é filosofia e o que é estudo. Mas, se estudar filosofia não é propriamente saber sobre o que é, mas filosofar[1], então esse filosofar não mais seria saber sobre filosofia nem sobre estudo, mas apenas questão[2]. Na questão, interrogar não é para responder e resolver um problema, mas abrir-se à disposição da jovialidade incondicional da busca.

Filosofia nos é dada como disciplina escolar. Ao lado das outras disciplinas da aprendizagem e do ensino. Como ciência. Como mundividência. Muitas vezes, como conjunto de doutrinas ideológicas. Como informações culturais e métodos, normas, como coleção de ensinamentos profundos da vida e da história como sabedoria. Como matérias de estudo, com provas e notas de aprovação ou reprovação. Com “ranking” do saber acadêmico, como promoção de graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, no empenho e desempenho do trabalho intelectual. E como qualquer outra matéria de estudo escolar, a filosofia está sujeita a variegadas e diferentes apreciações dos que a estudam. Mas usualmente, a filosofia como mundividência, ciência, ideologia, cultura, sabedoria, disciplina de ensino e aprendizagem escolar, de grau superior, seja o que for e como for, é considerada como uma das manifestações e expressões do espírito humano, do espírito europeu-ocidental.

Filosofia, porém, não é boa para indicar a profissão de uma pessoa, a não ser como professor de filosofia. Soa estranho chamar alguém de filósofo, como se costuma classificar, chamando alguém de engenheiro, mecânico, lixeiro, advogado, operário, médico, historiador. Filósofo soa assim, não como alguém que tem uma função social, um status, uma tarefa ou trabalho bem definido, mas como alguém solitário, todo próprio, digamos particular e singular, algo diferente, de alguma forma afim com excêntrico, alienado, excepcional, estranho, sábio quem sabe, de vez em quando até santo, mas em todo caso não oficial, não comum, e sempre como privativo, próprio, singular. Nesse sentido, se, em vez de dizer filósofo é aquele que estudou filosofia, é a pessoa que é formada na especialização da filosofia, se disser filósofo é aquele que filosofa, pensa, matuta, “crania”, a gente se sente melhor, mais familiarizado com a qualificação. Mas pensar, matutar, “craniar” não é de toda gente, de todo mundo? O que há de especial no filosofar? O que quer dizer a famosa expressão: Filosofia é filosofar?

Filosofia é filosofar

formalmente a formulação filosofia é filosofar quer dizer: o substantivo filosofia tem como substância ser um verbo. Filosofia não é isso ou aquilo, não é algo ali pré-jacente, dado de antemão, mas uma ação bem “encorpada”, um verbo. Não um verbo, uma ação que ocorre, mas sim o ter que ser, o ter que se perfazer. Nesse sentido filosofia é só em filosofando. Ser filosofia é: ser como em sendo. Filosofia como filosofar está responsabilizada, é responsável de cabo a rabo, em todas as articulações e fibras de sua estruturação, no seu método e no seu modo de ser e não ser, na sua gênese, no seu crescimento e na sua consumação: em, por e para ser (verbo) ela mesma, em sendo. Ser assim não é sujeito, não é agente, não é um quê, que age, que tem a ação, mas é o próprio, em sendo, o pura, plena e totalmente inteiriço “verbo”, ser. Em assim sendo, ser é pura ação, anterior à atividade e passividade, um ato, “em si”, a partir de si nele mesmo, de todo e plenamente próprio, ele mesmo, na soltura, na autonomia da auto-identidade. É, pois, ser ab-soluto. Esse caráter de ser ab-soluta liberdade de si, da pura ação se diz em latim studium, e em grego scholé[3], que se diz em português estudo, empenho e desempenho, o zelo. Esse caráter típico de se ser próprio se chama hermético. Enquanto propriedade de se ser, na ab-solutidade, na ab-soltura da liberdade de autonomia, absoluto não significa propriamente fixidez da imutabilidade; nem hermético trancamento e fechamento; mas pelo contrário franca abertura na imensidão, profundidade e criatividade da jovialidade de ser, no seu perfazer-se, no seu consumar-se per-feito. Em vez de na sua consumação perfeita, podemos também dizer na sua bom-dade.

Quando em português dizemos “bom!”, significamos um ente, um em sendo que está no ponto, ou melhor, no seu ponto. No ponto aqui quer dizer no seu próprio, na sua. Para indicar esse “na sua”, “no seu próprio” apertamos de leve a ponta, o lóbulo da orelha, lá onde se é fofo, redondo, pleno, solto, digamos na sua “identidade”, na sua coerência, na sua auto-adesão. Ser assim solto na coerência, como uma gota de água, redondinha, tinindo na sua contenção plena é ser no acima insinuado sentido verbal da bom-dade.

Quando a filosofia é filosofar, na sua caracterização de ser ela mesma, de estar na sua, “em casa”, no tinir da sua coerência, i. é, na sua scholé (leia-se: em casa na escola), para quem não consegue “ver” o ser como verbo, mas apenas como “substância” deslocada no seu sentido do ser para uma coisa-bloqueada como algo, a tênue vibração do tinir da contenção da bom-dade perfeita, o ponto nevrálgico da plenitude consumada de ser não é percebida, como também não se percebe a dinâmica da densidade de ser de uma turbina em plena rotação a não ser como estaticamente parada; e a soltura absoluta da autonomia da identidade é vista como fechamento, trancamento, como superfície dura de um espaço ou de uma coisa hermeticamente fechada.

A filosofia enquanto filosofar sofre da ambigüidade da “hermeticidade” acima mencionada, deslocada de sua dinâmica interna, quando vista de fora. É nesse sentido que se costuma dizer que a filosofia é hermética. Ou, dito de outro modo, numa constatação banal: Filosofia é dura, difícil de se estudar, pois não há, a partir de fora, nenhuma entrada de acesso.

O hermético da filosofia

Tentemos verificar esse pretenso fechamento da filosofia para dentro dela mesma, mencionando algumas de suas características, destacadas por Heinrich Rombach, quando analisa o modo de ser da filosofia moderna no seu livro Substanz, System, Struktur[4].

  1. Filosofia como filosofar é autoconstituição. Como tal ela não recebe nenhuma causação, ordenação, nenhum apoio ou subsídio de fora. Enquanto tal não há da parte de fora nenhum ponto de referência que nos possibilitasse ou facilitasse entrar nela. Não resta, pois, a não ser entrar em contato direto, corpo a corpo com ela, a partir dela e nela mesma; ou deixar que ela fale, dite a sua lei. Por isso: “ela pode ser definida como o pensar que se coloca a si mesmo sobre si mesmo e empreende tomar todas as suas soluções e fundamentações, de si mesmo, e todo o empréstimo de outras fontes, sejam elas experiência, autoridade, revelação, é rejeitado; e isto, não porque elas lhe pareçam incredíveis, mas porque elas estão sob as leis de um outro âmbito. Não somente é rejeitada a condução, mas também todo e qualquer conteúdo de pensamento de fora”. Aqui não se trata de reação de movimento de emancipação contra autoridade, seja ela qual for e donde vier, mas da precisão de uma busca, na qual se procura manter a coerência e limpidez do ser próprio de cada dimensão.
  2. Porque a filosofia como filosofar cria o seu médium próprio, vive, se move e é nele e a partir dele, não se acha mais na ordenação do mundo que lhe é dado fora de sua autoconstituição. “Assim a filosofia não assume nenhuma posição visível e distinta em referência à sociedade do seu tempo”. Assim, ela não possui nenhuma familiaridade e credibilidade simples no meio da sociedade, não lhe é acessível de imediato, não encontra receptividade junto dos seus contemporâneos. Nesse sentido “ela não mais fala para fora, mas fala ainda apenas para si mesma; ela é coisa de especialista para especialista. Ao filósofo não mais interessa ocupar uma posição educativa no todo do seu mundo circundante, ou demonstrar através da forma de sua existência a forma a mais sublime e excelente da existência humana, mas ele se retrai, se torna invisível para a sociedade e não possui nenhum característico que tivesse para com o povo a significação e importância de um perfil exemplar do humano numa configuração prenhe de significação. Assim, o filósofo parece qualquer um, age como todo mundo, e não faz da sua filosofia um objeto doutrinário transmissível. Isto quer dizer: ele não possui nenhuma posição oficial, não é da oficialidade, não é clérigo nem público. O Filósofo não é aquele que é chamado para uma tarefa humanitária pela vocação, o político, o educador, professor, alguém como teólogo, juiz ou médico. Ele im-porta apenas a si mesmo, por e para si, e vive no seu pensamento como o eremita na sua cela.
  3. Já que a filosofia como filosofar está de pé somente sobre si mesma, e fala somente por e para si; para as décadas e os séculos futuros ela fica fora das escolas. “Todos os pensadores decisivos da nova filosofia, Descartes, Hobbes, Arnauld, Pascal, Espinosa, Locke, Leibniz e Hume são mestres não funcionários e não possuem nenhuma conexão digna de menção com a universidade. Eles trabalham e pensam como pessoas privativas e se relacionam com os colegas somente na forma privativa. A universidade e os estudos gerais permanecem, por longo tempo, intocados por esse pensar”.
  4. A filosofia como filosofar não ocupa nem assume um determinado lugar descritível e visível dentro do mundo espiritual. Pois ela implica, contém em si todo o mundo do espírito, ou melhor, ele é todo o mundo do espírito. E assim, “ela agora somente pode apelar a isso que surgir nela mesma e é nela pensado. Ela é pensar sem pré-suposição. Ela não pode tomar da outra forma nem axiomas, nem princípios, nem verdades primeiras, nem os dados, mas deve tudo pro-duzir, gerar de si mesma. Agora sim, somente agora, a filosofia se torna “fundante”, “fundamental” de modo que tem que fundamentar tudo que ela usa como meios do pensar nela mesma. Desse modo a filosofia é acossada em direção ao fundo e fundamentação do fundo, de tal modo que uma vez a caminho, não lhe resta mais nenhuma outra orientação a não ser a ausculta e a sondagem do abismo insondável e sem fundo da possibilidade de ser. Assim, não se pensa em expandir, estender a extensão do saber, não se está mais na tarefa do pensar enciclopédico, da vasta erudição, mas toda a tarefa consiste em se concentrar na questão do início, do toque de origem e retorno a ela na busca do outro início. “Não mais os summa, não mais um speculum universale é a tarefa, a missão da filosofia; não o processamento e a propagação do saber “substancialista” sobre mundo e vida podem ser para ela tarefa, mas apenas ainda a questão de fundo da sua própria facticidade”. Essa concentração na questão do início faz surgir diferenciados e variegados estilos nas manifestações literárias na causa da filosofia. Temos assim, p. ex., tratados, ensaios, discursos, correspondências, fragmentos, anotações, diários etc., que por sua vez mais do que estilos, gêneros ou obras literárias, são vestígios do pensar como caminhos, sendas, trilhas que acenam. Não visam, pois, o quantum do saber, o seu resultado, mas somente se trata do toque do início, do retorno ao início de fundamentações.

O como dos diálogos entre filosofias não é mais o de confronto argumentativo de pressuposições, usadas na fundamentação das teses principais de cada filosofia. As pré-suposições são mantidas intactas, intocadas ou até compreendidas da melhor maneira possível dentro da lógica do todo da colocação. No entanto, o todo da colocação de cada filosofia em contacto mútuo entre si sofre uma espécie de escavação de sapa, na qual a posição de fundo do todo de cada colocação é interrogada no seu ser, e este no sentido do ser, subsumido operativamente por cada uma dessas filosofias em “confronto”, ao “construir” o conjunto visível exotérico da sua aparição. Aqui no “confronto” não estão em jogo posições particulares dentro do todo da colocação, mas sim o toque inicial da abordagem do todo da colocação. “Confira-se nessa perspectiva a controvérsia, p. ex., de um Locke contra Descartes, então de novo de um Leibniz contra Locke, de um Kant contra Leibniz etc.” Aqui cada oponente se conserva mutuamente protegido nas suas afirmações internas, esotéricas. Mas ao mesmo tempo, cada uma das abordagens do todo de colocação de cada oponente é colocada em questão, i. é, na busca, como ainda uma posição, portanto, não suficientemente no fundo, onde se possa vislumbrar um abismo sem fundo do pensar de origem.

  1. Na medida em que a filosofia não mais é mantida, determinada e esclarecida através e por meio de um mundo do ser e do sentido do ser extra-filosóficos, ela deve não somente pensar ela mesma, mas também deve determinar todas as suas particularidades e posições fundamentais. Por isso ela começa cada vez com uma autocolocação, auto-exame e autoconsideração. Antes de adentrar os problemas intra-filosóficos, o pensador deve, antes de tudo, clarear como tal o seu conceito de filosofia. Cada filosofia tem como seu primeiro e fundamental tema a possibilidade do próprio filosofar ele mesmo. Com isso cada uma filosofia se torna a filosofia. Ela se torna uma nova fundação do filosofar como tal e deve tudo pensar novo de novo no seu reino”. Isso faz com que o pensador seja considerado como isolado e apenas ligado na referência ao seu próprio espírito. Assim começa cada qual, consigo mesmo. Aqui, cada qual é descobridor do campo o mais próprio da filosofia. Cada pensador se compreende uma nova erupção, uma nova eclosão, uma retomada, como o início de toda uma época do pensar e não apenas como uma nova tese dentro de uma moldura que permanece igual, do filosofar como tal. “Somente agora o pensar se torna num modo destacado historial. Filosofia se torna epocal. Ela se adentra cada vez de tal maneira na história que com ela (filosofia) inicia um novo tempo. Cada filosofia se compreende como a incisão epocal entre as eras do universo temporal”. Assim a interpretação dos outros filósofos se torna volta às e retomada das pressuposições como sondagem e ausculta do que elas ocultam da possibilidade de ser. Nenhuma filosofia pode se estabelecer, sem dar ao mesmo tempo a sua própria apresentação e exposição da história da filosofia. A história da filosofia não é mais apresentação das diferentes opiniões sobre as mesmas perguntas, mas é entendida agora como uma história da questão do sentido do ser que contém cada vez diferentes possibilidades fundamentais da compreensão do mundo, homem e Deus, que projeta nessas possibilidades, diferentes perguntas e modos de perguntar.

Nessa perspectiva, “não existe uma base comum para discussão direta entre as filosofias. Com a criação nova do conceito de filosofia surge também cada vez uma nova, própria e i-repetível terminologia do pensar. Essa “terminologia”, quiçá, esclarece esse pensar em si, mas não o deixa mais se referir ao outro pensar e a teses em outro pensar. Cada filosofia deve ser concebida a partir da sua própria terminologia, e por isso mesmo suas enunciações não podem ser ditas para fora dela, portanto não mais no sentido usual como “diálogo” entre os filósofos. Os pensadores se isolam na absoluta solidão do seu mundo conceptual cada vez seu. Todas as categorias como essência, substância, ser, verdade, pensar, fundo e fundamento, causa, matéria, forma, assumem diferentes significações, sim até conteúdos contrários, na medida em que se atêm a diferentes círculos de pensamento. Diante disso, não se pode mais falar na filosofia de “Introdução geral da filosofia”, já que cada filosofia por e para si mesma é introdução, o adentrar-se no filosofar.

  1. Do que até agora dissemos, a filosofia como filosofar se assenta sobre e em si mesma e não é propriamente uma forma específica de espírito como tal. Assim, ela possui uma impostação e implicância toda própria, totalmente irredutível para com a sua tarefa. Ela é um modo de pensar que difere totalmente do modo de pensar do usual cotidiano, quer na ciência, quer na vida. Por isso a filosofia é difícil para a gente. Ela se torna assim inacessível e des-natural, artificial para quem se acha fora dela.

Esse resumo da exposição muito mais detalhada das características da filosofia como filosofar, feita por Rombach, nos pode induzir a tirarmos conclusões precipitadas. Falemos, pois, brevemente somente sobre uma dessas conclusões equivocadas que mais ocorrem, desviando-nos de um questionamento adequado da questão.

Evitando uma conclusão apressada

Acima mencionada conclusão precipitada em questão consiste em tirarmos de tudo quanto dissemos até aqui, caracterizando o modo de ser próprio da filosofia como filosofar, a conclusão de que tal estudar filosofia é um puro fechamento para dentro do solipsismo subjetivo-existencialista.

Admitindo a possibilidade de tal conclusão, sem entrar no questionamento das pressuposições ali pré-jacentes não analisadas, queremos aqui apenas apontar um item que poderia insinuar uma conclusão diferente, conclusão que longe de ser uma solução, é antes uma questão mais exigente.

O termo hermético, como já foi mencionado bem no início, conota fechamento, trancamento completo para dentro de si.

Nos supermercados encontramos e compramos à beça produtos alimentícios embalados e fechados em sacos de plástico resistente, de cujo interior se retirou de todo o ar, de modo que os alimentos estão totalmente blindados contra o contato com o ar exterior. É esse tipo de fechamento que nos vem à mente de imediato, quando ouvimos ou lemos a palavra “hermético”. Assim, para nós hoje, o adjetivo “hermético” se refere de imediato ao fechamento, é relativo ao fato de se estar trancado por e para dentro. No entanto, “hermético” contém o nome Hermes, um dos deuses principais e mais influentes da mitologia grega. O que tem deus Hermes a ver com trancamento por e para dentro, com o fechado hermeticamente? Talvez, segundo Dicionário Aurélio, porque “hermético” significa também “encimado por um Hermes”. Hermes ou herma é um bloco quadrilátero quadrangular de pedra, cuja parte de cima é um busto esculpido de Hermes, em que o peito, as costas e os ombros são cortados por planos verticais, formando a parte inferior do bloco a modo de um pedestal quadrangular; ou é um meio-busto esculpido ou estátua de Hermes aplicada a um plinto. Essa peça quadrilátero quadrangular de pedra, quando era usada para tampar um espaço aberto, o fechava de tal modo que de fora, ali nada mais entrava. Daí, num sentido figurado, algo cuja compreensão nos é fechada, inacessível ou muito difícil e obscura, é qualificado de hermético.

Mas a referência do “hermético” ao fechamento pode ter uma acepção mais profunda do que o simples fato de uma abertura ser fechada com um plinto encimado por busto de Hermes. É o que se insinua na ligação que a palavra “hermética” tem para com “ciência” oculta de mutação e transmutação das forças elementares das profundezas da matéria, da alquimia. “Hermético” agora se refere diretamente a deus Hermes, enquanto relacionado com as forças ocultas das profundezas obscuras da matéria. A referência da palavra “hermético” com fechamento, não poderia vir da sua direta referência a deus Hermes? Deus Hermes no seu modo de ser, nas suas propriedades, não nos poderia levar a uma interpretação da filosofia como filosofar, e que na exposição acima do item “O hermético da filosofia” parecia se caracterizar como hermeticamente fechada em, por e para dentro do solipsismo subjetivo-existencialista?

A filosofia como filosofar está fechada com deus Hermes

Fechar em português pode significar trancar, cerrar, tapar a abertura etc. Mas pode também em tudo isso significar concluir, levar ao cabo, consumar, perfazer. Nesse sentido é que dizemos: fechei um negócio, fechei um contrato. E no Brasil a expressão fechar com pode significar estar a favor ou ao lado de; concordar com. Não é assim que na mesma direção vai também a acepção da expressão: estou contigo e não abro?

Fechamento hermético da filosofia como filosofar não poderia significa então que a filosofia esteja declarando a deus Hermes: Estou contigo e não abro? Ou melhor, que a filosofia no seu filosofar não é outra coisa do que ser simples e totalmente inserção no “estar na sua” da divindade de Hermes, no entusiasmo de Hermes? Em que consiste o estar “na sua”, no próprio divino de Hermes, no seu entusiasmo? Hermes é deus, uma divindade. E deus na sua divindade é representação da excelência do ser, concentrada num ente, i.é, em um “em sendo”. Essa concentração muitas vezes na “mitologia” é entendida como personificação, subjetivação ou hipostatização, gramaticalmente substantivação do adjetivo ou verbo, de tal sorte que o deus Hermes se transforma num sujeito-pessoa, num substantivo que indica um algo substancial, um quê ocorrente em si, que por sua vez possui qualidades ocorrentes e acrescentadas a ele como seus atributos e ações. Se “des-mitologizamos”[5] o mito dos deuses gregos dessa personificação e os consideramos na dinâmica do seu ser próprio como divindade, como o divino, então “deus” ou “divindade” como excelência do ser, concentrada num ente, i.é, em um “em sendo” não deve mais ser entendida como fixação num ponto como centro, mas como onipresença cujo centro está cada vez em toda a parte, sem ocupar lugar, mas cada vez em cada momento de todo o “em sendo”, como plenitude, como alegria, como vitalidade de ser. O quê, aqui qualificado como concentração do ser, não é um quê ponto, um núcleo subjacente a propriedades e atuações, mas vigência qual difusão a modo de claridade ou afinação. A modo de claridade ou afinação é tal que instante, momento, vigência ali é cada vez instante do instante, momento do momento, vigência da vigência em crescimento e decrescimento da densidade de liberação da auto-identidade de cada “em sendo”. Esse modo de ser da vigência, do momento, do instante difusão no crescimento e decrescimento da liberação da auto-identidade é insinuado pelas expressões afins entre si como: o próprio, na sua, cada vez seu e expressa a excelência de ser que personificada e qualificada em suas diversificadas aparições recebe o nome de deus, deuses ou o divino.

Hermes, diferindo de seu irmão Apolo, que é deus do sol meridiano, deus da luz do dia, é deus da luz sombreada do lusco fusco do despertar da manhã; e é deus da luz sombria da noite, das trevas incandescentes. O seu elemento, a sua ambiência familiar, o seu “em casa” é vigência das forças ocultas das profundezas do mistério do ser, do abismo insondável e inesgotável das possibilidades de ser. Ele é assim o mensageiro, o arauto dos enigmas dos deuses, é condutor das almas para dentro do desconhecido, inesperado, e inaudito do mistério da origem e do seu toque. O seu reinado começa a se sentir em casa lá onde todas as nossas possibilidades do ser e pensar aparentemente estabelecidas sobre certeza do saber, exatidão do cálculo e controle, sobre firmeza do querer do poder, colocadas, padronizadas e classificadas, nas suas posições e pressuposições, afundam nas nuvens do não saber, do não poder, do não ser, impulsionadas na paixão da busca hermética do sentido do ser.

O fechamento hermético! O que, à primeira vista, sob a luz gélida e neutra e ao mesmo tempo tórrida e causticante da interpelação produtiva do auto-asseguramento de um cientificismo objetivante exacerbado, aparece como fechamento em, por e para dentro do solipsismo subjetivo-existencialista da filosofia como filosofar, não seria antes tentação e tentativa de uma boa aventurança, na busca da disposição, da prontidão atenta da espera do inesperado, trabalhada, renovada, buscada tenazmente sempre de novo pela existência “acadêmica” que de todo fecha com a paixão de Hermes e não abre?

Mas e a filosofia institucionalizada no ensino e na aprendizagem escolar com todas as suas exigências formais e de conteúdo, monitoradas pela sociedade acadêmico-científica? Nelas e através delas assumir o empenho e desempenho de nos exercitarmos em infindas tentativas de resolver os problemas e as dificuldades provenientes de suas determinadas posições e pressuposições; e nessas tentativas aguçar, ampliar, questionar a precisão e a cordialidade da busca na mira da única questão do fundo de todas as pressuposições, para dentro do abismo hermético de uma espera, inteiramente nova e jovial da possibilidade do ser, seja talvez a tarefa hodierna do estudo da filosofia.

Conclusão

O estudo? A filosofia? Filosofia é filosofar? O que vale, porém, em tudo isso, é não esquecer o aceno da recordação, a mais necessária dos tempos de urgência:

Pois odeia

O deus sensato

Crescimento intempestivo (Hölderlin, Do motivo dos Titãs, IV, 218)[6].


[1] Filosofia é filosofar. Cf. Heidegger, Martin, Os conceitos fundamentais da Metafísica. Mundo-finitude-solidão, tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2003. p. 5.
[2] Questão vem do verbo latino quaerere (quaero, quaesivi, quaestum ou quaesitum, quaerere) que significa buscar, procurar.
[3] Scholé, em latim schola, em português escola significa ócio, repouso, tempo livre de lazer. Ócio, aqui, porém, não quer dizer dolce far niente. Antes indica um modo de ser e de agir, uma modalidade de trabalho todo próprio, caracterizado como labor livre, gratuito, assumido cordialmente por causa dele mesmo, e por isso, isento de remuneração seja ela prêmio ou castigo, por ele ser querido voluntariamente, como realização da vocação de uma pessoa. Por isso, scholé significava estar livre dos negócios (=ne ou non+otium = negotium = trabalho forçado do escravo ou empregado); atividade da formação de ensino e aprendizagem escolar, conferência, diálogo, conversação erudita e filosófica. (Cf. Menge, Hermann, Langenscheidts Grosswörterbuch Griechisch, Teil 1 Griechisch-deutsch. Berlin/München/Zürich: Editora Langenscheidt, 1970, p. 670. Essa compreensão do trabalho livre é a mesma das assim chamadas profissões liberais.
[4] O que segue é resumo e citação da exposição de Rombach das páginas mencionadas abaixo. As citações estão em itálico. Cf. Rombach, Heinrich, Substanz System, Struktur, Die Ontologie des Funktionalismus und der philosophische Hintergrund der modernen Wissenschaft (Substância, Sistema Estrutura. A ontologia do funcionalismo e o fundo de trás da ciência moderna) Freiburg/München: Verlag Karl Alber, 1965, pp. 349-354.
[5] Desmitologizar aqui não significa desmascarar o mito de suas interpretações defasadas e supersticiosas, não objetivas factuais, mas sim desbloquear o mito de amarras de perspectivas a ele inadequadas, para deixá-lo ser ele mesmo na sua liberdade própria.
[6] Cf. Heidegger, Martin, Introdução à Metafísica. Apresentação e tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1987, p. 227.
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