Vocacional - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Meditação cristã?

22/04/2021

 

Hoje se fala de novo da necessidade de fazer meditação. Falamos de vários métodos de meditação, antigos e novos, uns de cunho acentuadamente científico-psicológico, outros de influência de outras religiões e terapias orientais. Esses métodos, se bem orientados e praticados adequadamente, podem nos trazer grande serenidade e, quem sabe, conduzir-nos até a iluminação, que eles prometem. Podem melhorar a saúde física, o equilíbrio emocional, trazer um bem-estar grande, curar doenças crônicas, desenvolver a mente. A grande dificuldade é, porém, a gente se exercitar todos os dias, pacientemente, com perseverança. Por melhor que seja um método, se não se pratica, se não se faz, nada faz.

Sem diminuir em nada a validez e a utilidade dessas meditações para a humanidade, perguntemos se essas meditações têm muito ou algo a ver com meditação no sentido da espiritualidade cristã. Para não haver equívocos, não se trata de perguntar se, por sermos cristãos, podemos ou não praticar tipos de meditação que têm, por exemplo, influências das religiões orientais. Aqui nesse ponto há divergências de opinião e posição. Não vamos entrar nessa questão. A nossa pergunta é, apenas, se a meditação no sentido da espiritualidade cristã tem algo a ver com essas meditações. Perguntando com maior precisão: a compreensão usual e geral da meditação, nessa fala hodierna e badalada da utilidade e do valor da meditação, é igual à compreensão da meditação que temos na espiritualidade cristã?

Não sei se a resposta está certa, mas a tentação é a de responder: não é igual. Pois na meditação no sentido da espiritualidade cristã se trata de uma postura existencial toda própria, diferente de posições e colocações de meditações no sentido geral e usual. Com isso não se afirma que a meditação cristã seja melhor, superior às outras meditações. Aqui, quando se trata de fenômenos da existência humana, comparação de valores é um modo inadequado de abordar a realidade.

Meditação e espiritualidade cristã

Para se perceber que a compreensão cristã da meditação não é igual à de meditações no sentido usual de hoje, vamos intuir o que é a meditação no sentido da Espiritualidade cristã, considerando a figura de Maria Santíssima, Virgem e Mãe.

No Evangelho de Lucas, na noite do Natal de Jesus, um anjo aparece a alguns pastores da região e anuncia o nascimento do Senhor, dizendo: “Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que é para todo o povo: nasceu-vos hoje um salvador que é Cristo Senhor, na cidade de Davi. Este será o sinal: encontrareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”. Os pastores disseram uns aos outros: “Vamos já para Belém, para ver o acontecimento que o Senhor nos manifestou”. Foram com presteza e encontraram Maria, José e o menino deitado numa manjedoura. Vendo, contaram sobre as coisas que lhes foram ditas sobre o menino. Todos que ouviam, maravilhavam-se com o que lhes diziam os pastores. E Lucas observa: “Maria conservava todas aquelas palavras, conjeturando em seu coração” (Lc 2,9-20).

O mesmo Evangelho de Lucas, ao falar de Jesus aos 12 anos no templo, relata a aflição de Maria e José ao procurarem por toda a Jerusalém o menino, e a alegria e a surpresa de o encontrarem no templo entre os doutores. Diz Lucas: “Quando o viram, admiraram-se e a mãe lhe disse: ‘Filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos’. E ele lhes respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa do meu Pai?’” Observa o evangelista: “Eles não entenderam o que lhes dizia… E sua mãe conservava a lembrança de tudo isso no coração” (Lc 2,48-52).

Nas bodas em Caná da Galiléia, tendo acabado o vinho, disse-lhe a mãe de Jesus: “Eles não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, que há entre mim e ti? Ainda não chegou minha hora”. Disse a mãe aos servos: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,3-5).

Na Sexta-Feira Santa, diz São João, “junto à cruz de Jesus estava de pé sua mãe…” (Jo 19,25).

Não sei se tal maneira de ler o Evangelho é legítima, mas, se a gente lê e relê esses raríssimos e breves relatos do Evangelho sobre Maria, aos poucos, através desses textos sóbrios, sente-se crescer, qual um fundo imenso e generoso na claridade suave de uma presença indizível, o vulto de Maria, discreta, silenciosa, cheia de pudor e continência no cuidado humilde e diligente de todas as coisas. Ela ali está no alvoroço do nascimento na pobreza do presépio; na resposta inesperada do filho de 12 anos no templo à aflição dos dias angustiantes da busca; no corre-corre dos afazeres de um casamento em Caná da Galiléia; na morte do seu filho, de pé, junto à cruz: sempre e cada vez, na simplicidade serena e absoluta de um sim total. É a disponibilidade incondicional de doação do encontro do amor da Virgem e Mãe, que sempre e cada vez, em todas as vicissitudes da vida, desde o início até o fim, diz pronta e simplesmente, com toda alma e com todo o coração: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

A meditação de Maria

Maria, Virgem e Mãe! Virgem, na limpidez e vitalidade intacta da doação absoluta de amor; Mãe, na fecundidade generosa e inesgotável dessa doação. Não é ela a re-petição de, e a sintonia e repercussão com Jesus Cristo, cujo alimento é fazer a vontade do Pai? (Cf. Jo 4,34); a perfeita imitação de Jesus Cristo, que diz ao entrar no mundo: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas me preparaste um corpo… Então eu disse: ‘Eis-me aqui, venho para fazer, ó Deus, a tua vontade’” (Hb 10,5-7)? E é desse Jesus Cristo, filho de Maria, que diz São Paulo: “… subsistindo na condição de Deus, não pretendeu reter para si ser igual a Deus. Mas se aniquilou a si mesmo, assumindo a condição de servo por solidariedade com os homens. E se apresentando como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, até a morte da cruz” (Fl 2,6-8).

Mas o que tem tudo isso a ver com a meditação?

Voltemos à nossa pergunta. A pergunta era: a compreensão usual da meditação, na fala hodierna e badalada da utilidade e do valor da meditação, é igual à compreensão da meditação que temos na Espiritualidade cristã? E, como uma espécie de hipótese, colocamos a resposta: não é igual por tratar-se de existências diferentes.

A desigualdade, ou melhor, a diferença aparece aqui nitidamente no vulto de Maria, que não é outra coisa do que a concretização viva, corpo a corpo, da imitação de Jesus Cristo, cuja vida, cuja existência é fazer a vontade do Pai. Quem foi mais próxima, mais semelhante a Jesus Cristo do que Maria Santíssima? Em sendo mãe, ela foi a discípula, a mais achegada e mais fiel do filho, pensando, sentindo, querendo e agindo como ele e com ele. Nesse sentido, podemos dizer que é em Maria que se realiza de modo mais pleno e perfeito o que Jesus diz pessoalmente a cada um de nós, cristãos, seus discípulos: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Eis minha mãe e meus irmãos: aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,33-35).

É interessante observar que Maria Santíssima, no Evangelho, apenas é qualificada como aquela que faz a vontade de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se se em mim segundo a tua palavra”. Nessa sobriedade da fala do Evangelho acerca de Maria, não se oculta a imensidão, a profundidade incomensurável do ser de Maria, que em tudo, total e radicalmente, esteve junto de Jesus, silenciosa, discreta, como o ar, como o sopro vital que o encobre, envolve-o, sendo em tudo como ele, “segundo a vontade do Pai”?

Portanto, se quisermos falar da meditação cristã, antes de tudo, é necessário marcar bem a sua diferença ou a sua identidade, a qual poderemos caracterizar como um relacionamento pessoal de compromisso total e radical com Jesus Cristo, na sua imitação, ou melhor, no seguimento e discipulado, no projeto existencial que se formula: em tudo, desde o início até o fim, fazer a vontade de Deus.

Nossos ídolos e o Deus de Jesus Cristo

Essa fala da espiritualidade cristã, no entanto, é inteiramente falsificada se eu entendo a “vontade de Deus” no sentido geral e usual. É que costumamos usar a expressão “vontade de Deus” muitas vezes para neutralizar o confronto pessoal, duro e corpo a corpo com o que, a partir de nós mesmos, chamamos de Deus, e para assim nos pouparmos da tarefa inalienável de distinguir entre o deus, ou melhor, o ídolo que eu me ajeito para mim mesmo, e o Deus de Jesus Cristo. Sem essa distinção não se realiza o verdadeiro encontro de amor com Deus. Por isso, se a expressão “fazer a vontade de Deus” ou expressões similares – como por exemplo, “é vontade de Deus”, “foi Deus que quis”, “se Deus quiser” – contiver em si, por menos que seja, a idéia de fatalidade, de uma resignação diante de um destino inevitável, de um suportar porque não há outro jeito, então elas não trazem à fala a compreensão cristã da vontade de Deus. Antes, pelo contrário, falsificam-na. Pois o conceito de Deus que está pressuposto atrás de tal acepção da vontade de Deus tem pouco a ver com o Deus de Jesus Cristo.

Fazer a vontade de Deus, na acepção da espiritualidade cristã, não é executar a ordem do patrão celeste, não é “conformar-se” ao arbítrio de um senhor absolutista, nem sequer é, resignado, deixar que o poderoso faça como ele quer e acha melhor, pois ele é aquele que tudo pode e tudo sabe.

Fazer a vontade de Deus no sentido cristão é, antes, querer, isto é, amar a Deus, revelado e testemunhado com a morte da cruz, por Jesus Cristo, amá-lo com todo o coração, com toda a alma e toda a mente, e nesse amor, procurar compreender cada vez mais o coração desse Deus, entrar totalmente na dinâmica do seu projeto, sentir, pensar, ser e agir como ele; sim, querer, amar como ele quer e ama. E na imensidão, na profundidade e no abismo desse amor, amar com ele, como ele todos os homens e todos os seres, o universo, no tempo e no espaço, pela eternidade a fora (Cf. Mt 22,37-39; Jo 13,12-15; 15,1-17).

Essa disposição amorosa de querer como e o que Deus quer, de amar como Ele ama, é relacionamento de abertura para e recepção do Tu-absoluto. É a disposição de total doação na incondicional abertura de si a Outro. Essa abertura é, ao mesmo tempo, o recolhimento para a intimidade a mais profunda de recepção do Outro, na atenta ausculta do seu toque, do seu desejo, da sua vontade. Esse abrir-se, que se recolhe como que no toque da intensa ausculta obediente ao Tu-absoluto, aparece no olhar da face serena da “Pietá” de Miguel Ângelo, no olhar atento da Virgem Maria na “Anunciação” de Fra Angélico. É o que evoca a serenidade das figuras de Cristo e do Anjo, de Paul Klee (1879-1940, pintor alemão, nascido na Suíça, cujo nome está ligado, junto com o de Kandinsky e Gropius, à famosa escola de arte Bauhaus).

Distintivo existencial do ser-cristão

Esse engajamento por Jesus Cristo e pela sua Revelação, o tê-lo como caminho, verdade e vida (Jo 14,6) é o distintivo existencial do ser-cristão. Trata-se, pois, da existência de encontro com Jesus Cristo. Aqui, tudo que se faz, tudo que se pensa, tudo que se sente não tem mais a fragmentação setorizada do modo de ser usual e geral. Tudo é impregnado desse singular encontro, é animado e informado por esse encontro único. Por isso, numa tal existência cristã não há uma realidade geral e em si ocorrente que se divida em setores, aspectos, formas ou partes. Assim, se falo da meditação, da contemplação, da oração ou da ação, se celebro liturgia, se trabalho na pastoral, se estou acordado ou dormindo, portanto, se estou nessa ou naquela, todas essas “realidades”, todas essas “coisas” são realidades, não porque assim ocorrem em si, quais entes existentes por si e em si, constituindo a ocorrência do nosso ser-humano; mas são realidades, porque estão na dinâmica do engajamento total e absoluto do seguimento de Jesus Cristo. A palavra cristão, aqui, nessa realidade nova e singular, não é adjetivo. É substantivo! Por isso, na expressão “meditação cristã”, meditação é adjetivo e cristã, substantivo!

Se essa colocação for válida, se o ser-cristão de algum modo for assim, então a meditação cristã não é meditação no sentido de um método, não é terapia, não é busca da perfeição, da melhoria da saúde, seja física ou mental, não é abertura da mente, serenidade, harmonia e equilíbrio, nem mesmo iluminação! Tudo isso seria ainda uma “burguesia” espiritualista. É, antes, simplesmente, diretamente o próprio trabalho engajado, suado do amor do seguimento de Jesus Cristo, a transpiração da imitação de Cristo. Não é outra coisa senão, com toda a mente, com toda a alma e com todo o coração, investigar, conjeturar, tentar entender melhor, cada vez mais profunda, vasta e originariamente, tudo que foi dito sobre Jesus Cristo, por Jesus Cristo, como Revelação. É guardar tudo isso no fundo do nosso coração e sempre de novo o trazer ao vigor da re-cordialização, isto é, recordação, lembrança, memória, ruminá-lo, buscar, buscar e tentar penetrar na dinâmica do projeto do amor de Deus de Jesus Cristo, que nos amou primeiro (cf. 1Jo 4,7-19).

Não é isso que está escrito no Evangelho acerca de Maria, Virgem e Mãe, quando nos diz que Maria, no Natal, conservava todas aquelas palavras, conjeturando, isto é, meditando em seu coração? Não é isso que ela, silenciosa e radicalmente, estava fazendo quando não entendeu a resposta do menino Jesus no templo, mas conservava a lembrança de tudo isso no coração? Não é isso que Maria fazia quando, diante da resposta aparentemente dura do seu filho (“Mulher, que há entre mim e ti? Ainda não chegou a minha hora”), disse simplesmente aos servos: “Fazei tudo que ele vos disser”? E a mãe de Jesus, de pé (!), junto da cruz na agonia do seu filho… Não é isso a absoluta disponibilidade de uma entrega corpo a corpo, para valer, em seguir Jesus Cristo na sua obediência incondicional ao amor do Pai, até a morte, e morte de cruz?

Hoje se fala de novo na necessidade de parar e fazer meditação. E mesmo na nossa espiritualidade, tentamos nos renovar e nos enriquecer, assimilando diferentes métodos de meditação, como por exemplo, zen, meditação transcendental, animação carismática, yoga etc. etc. Toda essa busca brota realmente da profunda consciência da nossa identidade e da diferença do ser-cristão? Ou não é, antes, uma confusa dispersão por termos perdido, ou por nunca termos adquirido a compreensão essencial do que seja realmente ser-cristão? Dispersão que nos afasta sempre mais da nossa identidade, dilui-nos numa consciência vaga, geral e indeterminada, onde tudo serve mais ou menos, porque de fato não buscamos para valer nenhuma coisa? O que é a meditação cristã? Mas, antes, o que é ser-cristão? O aprofundamento dessa questão essencial da nossa própria identidade nos acorda para a busca mais engajada do que somos e devemos ser em profundidade. E na medida em que buscamos a profundidade mais radical da nossa própria identidade, comecemos talvez a ver outras meditações, meditações de outras religiões e de outros humanismos, não apenas como um método, não como apenas instrumento neutro, usável por qualquer um, portanto também por nós cristãos, mas sim também como engajamento e compromisso de vida ou morte, uma busca para valer do mistério que historicamente tocou e atingiu um determinado povo, uma determinada religião ou uma determinada comunidade de homens.

E talvez, na medida em que cada uma dessas concreções históricas volta à raiz da sua origem, e na profunda sondagem da sua identidade se torna autenticamente ela mesma, comece a surgir uma real comunicação. Comunicação e diálogo, que fazem desaparecer toda e qualquer assimilação fácil do outro, desafiando-nos para a árdua e difícil, mas também aventureira e venturosa tarefa de um verdadeiro confronto sincero, amigo e fecundo na diferença, isto é, entre autênticas e verdadeiras identidades.

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