{"id":98833,"date":"2015-11-05T16:44:40","date_gmt":"2015-11-05T18:44:40","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=98833"},"modified":"2020-05-22T10:35:23","modified_gmt":"2020-05-22T13:35:23","slug":"o-protagonismo-dos-franciscanos-na-evangelizacao-no-brasil-antes-dos-jesuitas-a-experiencia-de-laguna-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/o-protagonismo-dos-franciscanos-na-evangelizacao-no-brasil-antes-dos-jesuitas-a-experiencia-de-laguna-2\/","title":{"rendered":"O protagonismo dos Franciscanos na Evangeliza\u00e7\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/primeiramissa.jpg\" alt=\"primeiramissa\" width=\"820\" height=\"385\" \/><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro Roberto da Costa, ofm<\/strong><\/p>\n<h3>O protagonismo dos Franciscanos na Evangeliza\u00e7\u00e3o no Brasil antes dos jesu\u00edtas: a experi\u00eancia de Laguna<\/h3>\n<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Evangeliza\u00e7\u00e3o franciscana no Brasil: uma hist\u00f3ria ainda a ser contada<\/strong><br \/>\nQuando o assunto \u00e9 religiosos no Brasil col\u00f4nia, os primeiros a serem lembrados s\u00e3o os jesu\u00edtas. Tal fato se deve, em grande parte, ao desconhecimento dos fatos hist\u00f3ricos envolvendo o Brasil neste per\u00edodo. Os manuais e livros did\u00e1ticos que tratam do tema repetem, com frequ\u00eancia, um estere\u00f3tipo, silenciando sobre o protagonismo dos franciscanos e outros religiosos, exaltando a atua\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas. Os padres de Santo In\u00e1cio de fato marcaram a hist\u00f3ria do Brasil, n\u00e3o apenas na \u00e1rea religiosa, mas tamb\u00e9m\u00a0 pol\u00edtica, econ\u00f4mica, e, principalmente, no campo educacional, nos mais de duzentos anos de presen\u00e7a no pa\u00eds, at\u00e9 a expuls\u00e3o pelo Marqu\u00eas de Pombal, em 1759. Os jesu\u00edtas, pela pot\u00eancia que eram, se impuseram enquanto presen\u00e7a nos maiores centros, com homens preparados intelectual e espiritualmente, enviando para o Brasil seus melhores quadros. Sua expuls\u00e3o abre uma imensa lacuna no campo da educa\u00e7\u00e3o, na assist\u00eancia religiosa, no trabalho com os \u00edndios, lacuna que nenhuma institui\u00e7\u00e3o religiosa presente no Brasil estava em condi\u00e7\u00f5es de preencher.Apesar da import\u00e2ncia da atua\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas, n\u00e3o se pode negar o papel de protagonistas desempenhado tamb\u00e9m\u00a0pelos franciscanos na hist\u00f3ria da evangeliza\u00e7\u00e3o do Brasil. Basta recordar o fato hist\u00f3rico de que os franciscanos foram os primeiros religiosos europeus a colocar os p\u00e9s em terras brasileiras. A primeira missa celebrada no Brasil foi oficiada por um franciscano, Frei Henrique de Coimbra, que veio na esquadra de Pedro \u00c1lvares Cabral, aportando nas \u201cTerras de Santa Cruz\u201d, em abril de 1500. Os primeiros jesu\u00edtas chegariam quase cinq\u00fcenta anos depois.<\/p>\n<p>Embora os jesu\u00edtas tenham sido os primeiros religiosos oficialmente enviados para trabalhar no Brasil, em 1549, os franciscanos est\u00e3o presentes e atuantes j\u00e1 bem antes disso, numa presen\u00e7a extraoficial, espor\u00e1dica e esparsa, mas n\u00e3o menos rica, evang\u00e9lica e frutuosa. Temos relatos de v\u00e1rios frades presentes no litoral, de 1503 at\u00e9 1584. Tendo escapado de algum naufr\u00e1gio, ou numa escala da viagem, dirigindo-se para a regi\u00e3o do Rio da Prata ou para a \u00c1sia, os religiosos franciscanos aproveitavam para evangelizar os ind\u00edgenas e colonos, nas aldeias e vilas por onde passavam. O primeiro grupo de franciscanos oficialmente enviados pela coroa portuguesa vai desembarcar no Brasil em 1584.<\/p>\n<p>Os mission\u00e1rios jesu\u00edtas tinham por obriga\u00e7\u00e3o escrever as cr\u00f4nicas e relatos de suas atividades na miss\u00e3o, que eram periodicamente, enviados a Portugal e Roma. Por isso estamos relativamente bem informados sobre sua atua\u00e7\u00e3o nos 210 anos de presen\u00e7a na col\u00f4nia portuguesa. Os franciscanos, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o tinham o h\u00e1bito de escrever sobre suas atividades, ao menos no Brasil.\u00a0 O raro material que se conserva nos arquivos foram produzidos pelas autoridades, como provinciais, guardi\u00e3es e definidores. Mesmo assim, alguma coisa se conserva, principalmente nos arquivos europeus. Como verdadeiras j\u00f3ias preciosas, estes relatos transmitem para a posteridade pequenos restos de mem\u00f3ria da hist\u00f3ria da evangeliza\u00e7\u00e3o franciscana no Brasil. Atrav\u00e9s deles \u00e9 poss\u00edvel, mesmo que fragmentariamente, reconstituir parte desta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong><br \/>\n2. A carta de frei Bernardo de Armenta<\/strong><\/p>\n<p>Nesta exposi\u00e7\u00e3o vamos estudar um documento que nos relata um momento importante da hist\u00f3ria da evangeliza\u00e7\u00e3o do Brasil. Atrav\u00e9s dele poderemos conhecer o esp\u00edrito que animava os mission\u00e1rios franciscanos que se dirigiam para aquelas terras h\u00e1 pouco descobertas. Ao mesmo tempo, a an\u00e1lise do documento pode nos ajudar a conhecer o m\u00e9todo desenvolvido por esses mission\u00e1rios, seus projetos, suas op\u00e7\u00f5es, seus sonhos. O documento em quest\u00e3o j\u00e1 foi objeto de an\u00e1lise de alguns estudiosos, nos seus elementos filol\u00f3gicos, hist\u00f3ricos, cronol\u00f3gicos, etc. N\u00e3o vou entrar em \u201cquest\u00f5es disputadas\u201d espec\u00edficas das ci\u00eancias hist\u00f3ricas. Escolhi este documento como objeto de estudo porque acredito tratar-se de um testemunho hist\u00f3rico coerente, fidedigno e autorizado de um modo espec\u00edfico de evangelizar, concretizado no s\u00e9culo XVI pelos franciscanos no Brasil. Acredito que a an\u00e1lise deste documento e do contexto onde foi gerado, podem iluminar o presente de nossa atua\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria e evangelizadora.<\/p>\n<p>Para situar este documento no seu contexto hist\u00f3rico, pol\u00edtico, religioso, inicio com uma breve introdu\u00e7\u00e3o sobre a realidade do Brasil, nos primeiros 50 anos da chegada dos portugueses, passando a seguir \u00e0 an\u00e1lise do documento.<\/p>\n<p><strong>2.1 Os primeiros anos do Brasil portugu\u00eas\u00a0<\/strong><br \/>\nA chegada de Pedro \u00c1lvares Cabral ao Brasil, e os relatos que os pioneiros fizeram sobre as novas terras descobertas, n\u00e3o despertaram maiores interesses de Portugal. A principal preocupa\u00e7\u00e3o era saber se nas terras descobertas existia ouro. Como as primeiras explora\u00e7\u00f5es resultaram negativas, n\u00e3o houve nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o em ocupar as terras. Apenas aventureiros, piratas, n\u00e1ufragos, traficantes de \u00edndios, vez por outra aportavam nas costas do Brasil. Foram fundadas algumas \u201cfeitorias\u201d, postos em lugares estrat\u00e9gicos, cujo \u00fanico com\u00e9rcio consistia na explora\u00e7\u00e3o das riquezas naturais, peles de animais, e principalmente o pau de tinta \u201cvermelha como brasa\u201d, denominado por isso\u00a0<em>pau-brasil<\/em>. Tamb\u00e9m eram mandados ao Brasil os condenados pela justi\u00e7a, \u201cdegredados\u201d que eram deixados na praia para serem devorados pelos \u00edndios ou morrerem \u00e0 mingua. Somente a partir de 1520 Portugal come\u00e7a a se interessar pelas terras, na esperan\u00e7a de conseguir meios para diminuir suas dificuldades financeiras. Em 1526 alguns navios franceses s\u00e3o afundados no litoral da Bahia. Piratas e cors\u00e1rios ingleses, franceses e holandeses infestam as costas do pa\u00eds. Portugal decide ent\u00e3o ocupa-lo mais sistematicamente. Em 1532 \u00e9 fundada a primeira cidade, S. Vicente, no litoral sul, de onde sa\u00edram as expedi\u00e7\u00f5es que, em 1551, unindo \u00edndios, colonos e jesu\u00edtas, iriam fundar a cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>2.2 O documento<\/strong><br \/>\nA primeira experi\u00eancia mais organizada de evangeliza\u00e7\u00e3o franciscana de que temos not\u00edcia no Brasil deu-se entre 1538 e 1548, no litoral de Santa Catarina, na localidade denominada Laguna (Mbia\u00e7a), entre os \u00edndios carij\u00f3s.<\/p>\n<p>Em 1537 zarpava da Espanha em dire\u00e7\u00e3o ao Paraguai a frota de Alonso Cabrera. Cinco frades franciscanos faziam parte da expedi\u00e7\u00e3o: frei Bernardo de Armenta (de C\u00f3rdoba, Espanha), superior do grupo, frei Alonso Lebr\u00f3n (das Ilhas Can\u00e1rias) e outros tr\u00eas frades dos quais n\u00e3o conhecemos os nomes. A expedi\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas, n\u00e3o conseguindo entrar pelo Rio da Prata, foi parar nas costas do litoral catarinense, \u201cao porto ou rio de S\u00e3o Francisco, anteriormente chamado de D. Rodrigo\u201d, na atual cidade de Laguna, no Estado de Santa Catarina.<strong>(1)<\/strong>\u00a0Alguns meses depois da chegada, a 1o. de maio de 1538, o chefe da miss\u00e3o, frei Bernardo de Armenta, escrevia a Jo\u00e3o Bernal Dias de Lugo, do Conselho das \u00cdndias Espanholas, descrevendo os fatos que os levaram at\u00e9 ali, e relatando o trabalho mission\u00e1rio iniciado. Uma c\u00f3pia da carta foi enviada a Sevilha. Dali seguiu ao M\u00e9xico, onde frei Toribio Motolinia fez uma c\u00f3pia, e enviou o original de volta \u00e0 Espanha. Frei Jer\u00f4nimo de Mendieta a incluiu no Livro IV da sua \u201cHist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica Indiana\u201d.<strong>(2)<\/strong><\/p>\n<p>Frei Bernardo escreve entusiasmado com o sucesso da miss\u00e3o improvisada. Esta fora obra da provid\u00eancia. Um \u00edndio de nome Etiguara, uns quatro anos antes profetizara a vinda de verdadeiros crist\u00e3os, \u201cirm\u00e3os dos disc\u00edpulos do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Tom\u00e9, e haveriam de batizar a todos\u201d. Frei Bernardo, a quem os \u00edndios come\u00e7avam a chamar de \u201cPay\u00e7um\u00e9\u201d (S\u00e3o Tom\u00e9), escreve pedindo tamb\u00e9m mais frades para trabalhar com os \u00edndios, pois previa que teriam muitos frutos. O frade diz que deu \u00e0 sua \u201cProv\u00edncia\u201d o nome de \u201cProv\u00edncia de Jesus\u201d.<\/p>\n<p>Em julho de 1538 tr\u00eas dos cinco frades seguem para Buenos Aires com Alonso Cabrera. Fr. Bernardo e frei Alonso Lebr\u00f3n se recusam a acompanh\u00e1-lo. Em Laguna os dois frades fundam um \u201crecolhimento\u201d para as mulheres e outro para os homens, onde \u00e9 ensinada a doutrina crist\u00e3, ao mesmo tempo em que percorrem as aldeias vizinhas.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 carta do frade, o rei da Espanha escrevia em 8 de novembro de 1539 ao Ministro Provincial da Prov\u00edncia da Andaluzia, mandando que fossem enviados, \u201cpara o Rio da Prata seis religiosos seus, a fim de se associarem a frei Bernardo de Armenta, vig\u00e1rio provincial, que reside naquela prov\u00edncia da Prata\u201d. A nau foi enviada, chefiada por Alvar Nu\u00f1es Cabeza de Vaca, um dos mais ilustres exploradores daqueles tempos, mas n\u00e3o trouxe nenhum frade, a n\u00e3o ser seis ou nove cl\u00e9rigos.<strong>(3)<\/strong><\/p>\n<p><strong>3. Os frades e Cabeza de Vaca<\/strong><br \/>\nQuando os frades chegaram ao litoral catarinense, Alonso Cabrera, capit\u00e3o da expedi\u00e7\u00e3o que os levou, quis obrig\u00e1-los a seguir com ele para o interior do territ\u00f3rio espanhol (Buenos Aires). Frei Bernardo se negou, argumentando que \u201c&#8230; n\u00e3o a tendes sobre mim, nem sobre os frades que v\u00e3o comigo, (mando e jurisdi\u00e7\u00e3o), pois nem a Sua Majestade nos enviou nem fomos socorridos, na sede, com \u00e1gua da fazenda do Rei, pois os trouxe com o nosso pr\u00f3prio trabalho e suor. Ningu\u00e9m pode me impedir de p\u00f4r a bandeira de nossa santa f\u00e9 onde Deus manda [&#8230;]\u201d.<strong>(4)<\/strong><\/p>\n<p>Quando Cabe\u00e7a de Vaca chegou em Santa Catarina, em mar\u00e7o de 1541, faziam aproximadamente tr\u00eas anos que os frades estavam trabalhando entre os \u00edndios. O conquistador exigiu que os frades o acompanhassem na expedi\u00e7\u00e3o at\u00e9 o Paraguai. A alega\u00e7\u00e3o \u00e9 de que, pela autoridade que os frades gozavam\u00a0 junto aos \u00a0\u00edndios, eram indispens\u00e1veis para a jornada. Frei Bernardo de Armenta de fato era muito respeitado pelos nativos.<strong>(5)<\/strong>Praticamente obrigados pelo conquistador, os dois partem \u00e0 frente de uma centena de \u00edndios, recebendo dele a promessa de que os deixaria voltar assim que chegassem ao destino.<strong>(6)<\/strong><\/p>\n<p>Discuss\u00f5es e desaven\u00e7as entre Cabe\u00e7a de Vaca e os frades marcam a viagem. O principal motivo era o tratamento dispensado pelos espanh\u00f3is aos \u00edndios. Frades e \u00edndios, inconformados com a situa\u00e7\u00e3o, tentam fugir ainda durante a viagem, mas, encontrados, s\u00e3o obrigados a se juntar \u00e0 expedi\u00e7\u00e3o, que segue at\u00e9 Assun\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m l\u00e1 frei Bernardo e frei Alonso iniciam um trabalho de catequese contra a vontade de Cabe\u00e7a de Vaca, pois segundo ele \u201conde n\u00e3o h\u00e1 ouro nem prata, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de batismo\u201d. Em\u00a0 Assun\u00e7\u00e3o, fr. Bernardo funda um \u201crecolhimento\u201d, esp\u00e9cie de \u201ccasa de doutrina\u201d, onde recolhe umas trinta ou quarenta mo\u00e7as, ind\u00edgenas, filhas de carij\u00f3s, para preserv\u00e1-las da cobi\u00e7a dos soldados. Cabe\u00e7a de Vaca e seus soldados protestaram duramente, e fizeram s\u00e9rias acusa\u00e7\u00f5es ao comportamento dos frades &#8211; entre outras a de que \u201cguardariam encerradas em sua casa mais de trinta \u00edndias dos doze aos vinte anos de idade\u201d.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1543 os dois frades tentam fugir de Assun\u00e7\u00e3o, desta vez levando cartas dos advers\u00e1rios de Cabe\u00e7a de Vaca, denunciando-o \u00e0s autoridades espanholas. Acabam sendo presos, junto com Alonso Cabrera, considerado chefe da conspira\u00e7\u00e3o. Finalmente, em 1544, por causa dos cont\u00ednuos desmandos, Cabe\u00e7a de Vaca \u00e9 preso e destitu\u00eddo de suas fun\u00e7\u00f5es. Provavelmente frei Bernardo tenha tido um papel importante nas acusa\u00e7\u00f5es contra o explorador, pois era considerado seu principal desafeto. Os frades puderam voltar a Santa Catarina, onde chegaram em 1545. V\u00e1rias \u00edndias do \u201crecolhimento\u201d de Assun\u00e7\u00e3o os seguiram.<\/p>\n<p><strong>4. Fim da Miss\u00e3o de\u00a0<em>Mbia\u00e7a<\/em><\/strong><br \/>\nFrei Bernardo faleceu entre 1546 e 1547. Frei Alonso continuou na miss\u00e3o at\u00e9 1548, quando salteadores portugueses, em dois navios liderados por Pascoal Fernandes, de S\u00e3o Vicente, e Martin Vaz, de Ilh\u00e9us, invadiram a miss\u00e3o, prenderam e escravizaram os \u00edndios, e levaram prisioneiros os espanh\u00f3is e o frade. Quem nos informa sobre todo o acontecido \u00e9 o jesu\u00edta Manuel da N\u00f3brega, que escreveu dois anos ap\u00f3s os fatos. Segundo ele, os salteadores, chegando ao litoral catarinense, convidaram \u00edndios e espanh\u00f3is para uma festa no navio, onde prenderam a todos, inclusive frei Alonso. Os \u00edndios que ficaram na praia foram ao navio, implorando que soltassem o frade, e levassem os \u00edndios presos. Como os portugueses se negassem, os \u00edndios disseram que tamb\u00e9m eles queriam ir com o frade. Assim todos foram aprisionados. Os \u00edndios foram desembarcados em S\u00e3o Vicente e Ilh\u00e9us, onde foram vendidos.<strong>(7)<\/strong>\u00a0Logo se levantou o protesto dos jesu\u00edtas e do pr\u00f3prio frei Alonso Lebr\u00f3n, que se apresentou diante das autoridades portuguesas defendendo-os, pois n\u00e3o poderiam ser escravizados, j\u00e1 que eram crist\u00e3os, e n\u00e3o foram aprisionados em \u201cguerra justa\u201d (n\u00e3o estavam combatendo portugueses). Depois de muito insistir junto ao governador, N\u00f3brega conseguiu que alguns \u00edndios fossem libertados, e, guiados pelo jesu\u00edta irm\u00e3o Leonardo Nunes, voltassem \u00e0 sua aldeia, em Laguna. Os protestos dos colonos que tinham comprado os \u00edndios dificultaram a empreitada. Finalmente, o Padre Jos\u00e9 de Anchieta relata que uma doen\u00e7a s\u00fabita \u201cmatou quase todos\u201d. Frei Alonso Lebr\u00f3n, vendo que pouco conseguia junto \u00e0s autoridades no Brasil, viajou para a Espanha, para apresentar suas queixas \u00e0 Coroa. Acabou desaparecendo, segundo alguns cronistas, prisioneiro nas m\u00e3os de piratas franceses. Os carij\u00f3s catequizados que permaneceram em Laguna continuaram sofrendo os ataques dos ca\u00e7adores de escravos, e, aos poucos, foram sendo assimilados pela cultura portuguesa, que avan\u00e7ava rumo \u00e0 costa sul do Brasil.<\/p>\n<p><strong>5. Mem\u00f3ria da atua\u00e7\u00e3o dos frades franciscanos na Igreja do Brasil<\/strong><br \/>\nA atua\u00e7\u00e3o dos dois frades n\u00e3o ficou legada ao esquecimento. Al\u00e9m da carta preservada na obra do grande Mendieta, padres jesu\u00edtas portugueses, trabalhando no Brasil, cuidaram de preservar para a posteridade o trabalho quase an\u00f4nimo destes filhos de S\u00e3o Francisco em terras tupiniquins. O j\u00e1 citado Pe. Manoel da N\u00f3brega, em carta de agosto de 1549, referindo-se aos \u00edndios carij\u00f3s, faz men\u00e7\u00e3o ao trabalho dos frades: \u201cEste \u00e9 um gentio melhor do que nenhum desta costa, os quais foram, n\u00e3o h\u00e1 muitos anos, dois frades castelhanos ensinar e tomaram t\u00e3o bem sua doutrina, que t\u00eam j\u00e1 casas de recolhimento para mulheres, como de freiras, e outras de homens, como de frades. E isto durou muito tempo, at\u00e9 que o diabo levou l\u00e1 uma nau de salteadores e cativaram muitos deles\u201d\u00a0<strong>(8)<\/strong>\u00a0O Pe. Ant\u00f4nio Rodrigues faz uma refer\u00eancia \u00e0 aldeia, que os frades \u201cchamaram de Prov\u00edncia de Jesus, onde fizeram admir\u00e1vel fruto\u201d. O beato Jos\u00e9 de Anchieta, referindo-se aos carij\u00f3s aprisionados ilegalmente em S\u00e3o Vicente, diz que eles s\u00e3o \u201cpropensos \u00e0s coisas divinas\u201d.<strong>(9)<\/strong><\/p>\n<p><strong>6. Coment\u00e1rios de alguns aspectos da carta relacionados \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\n\u00c0 primeira vista o trabalho dos frades consiste na doutrina e no batismo dos \u00edndios. Uma an\u00e1lise mais atenta do documento, por\u00e9m, nos permite perceber, quase nas entrelinhas, uma realidade mais complexa. Al\u00e9m do mais, para uma melhor compreens\u00e3o desta realidade recorremos a outros testemunhos contempor\u00e2neos \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos frades em Santa Catarina, que nos fornecem preciosas informa\u00e7\u00f5es sobre o modo de pensar dos frades, seu plano de atua\u00e7\u00e3o e o modo franciscano de evangelizar.<\/p>\n<p><strong>6.1 Preocupa\u00e7\u00e3o com o preparo (qualidade) dos evangelizadores<\/strong><br \/>\nFrei Bernardo, diante do vasto campo que se abre para o an\u00fancio da boa-nova,\u00a0 vendo a boa \u00edndole dos ind\u00edgenas, sua docilidade em aceitar o batismo, percebe a urgente necessidade de mais frades para colaborar na miss\u00e3o. Na carta ele deixa bem claro a preocupa\u00e7\u00e3o de que os frades a serem enviados sejam da melhor qualidade:\u00a0<em>\u201c&#8230;que V. Mrd. tome esta empresa por suya, y hable a S. M. y a esos se\u00f1ores del Consejo, para que favorezcan tan santa obra, y el favor ha de ser que nos env\u00eden una docena de frailes de nuestra orden de S. Francisco, que sean escogidos,&#8230;\u201d,<\/em>\u00a0e termina:\u00a0<em>\u201cque env\u00eden frailes que sean como ap\u00f3stoles&#8230;\u201d<\/em>. O modelo que inspira o frade no trabalho evangelizador \u00e9 a experi\u00eancia da Igreja primitiva. O\u00a0 n\u00famero de frades pedidos, na nossa opini\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio nem casual: ele pede que sejam\u00a0 escolhidos, e que sejam 12. E diz expl\u00edcitamente: \u201c<em>que sejam como os ap\u00f3stolos<\/em>\u201d. Ora, qual era o modo de vida dos ap\u00f3stolos? Aqui podemos ver uma rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia evangelizadora dos franciscanos no M\u00e9xico: o envio dos primeiros frades \u00e0quela regi\u00e3o rec\u00e9m conquistada (os \u201c12 ap\u00f3stolos\u201d), e a tentativa da conquista pac\u00edfica, como aparece na &#8220;Instru\u00e7\u00e3o do Ministro Geral Francisco de los Angeles Qui\u00f1ones a Mart\u00edn de Val\u00eancia, integrante e cust\u00f3dio dos Doze Franciscanos enviados para evangelizar os habitantes de Tenochtitlan [M\u00e9xico] conquistado\u201d, de 4 de outubro de 1523. Al\u00e9m disso, frei Bernardo certamente tinha conhecimento de experi\u00eancias similares que haviam sido tentadas em outras partes da Am\u00e9rica, n\u00e3o s\u00f3 no M\u00e9xico, mas tamb\u00e9m em Cuman\u00e1 (1514), nas costas da atual Venezuela.<strong>(10)<\/strong>\u00a0A experi\u00eancia havia mostrado aos mission\u00e1rios que onde o Evangelho chegava junto com a espada, com a sede do ouro e a ambi\u00e7\u00e3o do lucro, o an\u00fancio n\u00e3o atingia seus objetivos.<\/p>\n<p>Frei Bernardo se refere aos \u201cmaus crist\u00e3os\u201d: \u201c<em>la mala vida y mal ejemplo de los que ac\u00e1 viniesen por conquistadores, les har\u00edan menospreciar nuestra fe<\/em>\u201d. A conquista verdadeira \u00e9 a \u201cespiritual\u201d, aquela que se d\u00e1 atrav\u00e9s do conv\u00edvio, da partilha de vida, da presen\u00e7a solid\u00e1ria e fraterna. Prega\u00e7\u00e3o, catequese e an\u00fancio, seriam muito mais eficientes se ancorados no exemplo de vida dos religiosos. E esse foi o m\u00e9todo assumido pelos frades entre os \u00edndios carij\u00f3s. Para pregar, anunciar e convencer n\u00e3o basta o preparo intelectual, mas s\u00e3o necess\u00e1rias\u00a0 pessoas que se destaquem pelo exemplo de vida. Pessoas cuja vida seja reflexo e espelho das verdades que est\u00e3o pregando. Tudo isso pode ser resumido na express\u00e3o \u201ctestemunho\u201d. Somente frades que \u201cfossem como \u201cap\u00f3stolos\u201d entrariam nesta categoria. Ora, o modelo de prega\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos \u00e9 o da itiner\u00e2ncia, do servi\u00e7o desinteressado pelo Reino, do an\u00fancio da miseric\u00f3rdia e do amor de Deus, capazes de ir at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias em defesa do rebanho, como Jesus Cristo. Esse foi o modelo asumido por Francisco de Assis e seus seguidores. Os frades, pela situa\u00e7\u00e3o em que se encontravam, viviam, necessariamente a itiner\u00e2ncia. Sem d\u00favida a pobreza e a austeridade de vida eram realidades onipresentes na vida destes mission\u00e1rios. A preocupa\u00e7\u00e3o dos dois frades em ter bons evangelizadores \u00e9 uma das caracteristicas deste per\u00edodo de evangeliza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica. Com raras exce\u00e7\u00f5es, os primeiros a serem mandados eram pessoas muito bem preparadas, moral, espiritual e intelectualmente.<\/p>\n<p><strong>6.2 Preocupa\u00e7\u00e3o com o \u201csocial\u201d<\/strong><br \/>\nHoje, quando falamos de evangeliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos desvincul\u00e1-la de um envolvimento mais amplo com a realidade social. O an\u00fancio, se \u00e9 eficaz, transforma toda a realidade. Na carta frei Bernardo demonstra uma clara preocupa\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos denominar de \u201ccivilizat\u00f3ria\u201d. A preocupa\u00e7\u00e3o do frade em conseguir bons evangelizadores \u00e9 seguida da preocupa\u00e7\u00e3o em conseguir bons trabalhadores e profissionais, bem como ter instrumentos necess\u00e1rios para a transforma\u00e7\u00e3o da realidade. O an\u00fancio da Boa Nova \u00e9 concomitante \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com a transforma\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es materiais dos ind\u00edgenas: \u201c<em>&#8230;que S. M. env\u00ede un factor suyo que traiga labradores, que no son menester conquistadores&#8230; Vengan labradores y traigan\u00a0 mucho hierro, y alg\u00fan lienzo y ropa, y ganado de vacas y ovejas burdas, y ca\u00f1as de az\u00facar, y maestros para hacer ingenios de az\u00facar, y algod\u00f3n y trigo y cebada, y toda manera de pepitas, que se dar\u00e1n bien, y sarmientos, que se har\u00e1n muy grandes vi\u00f1as&#8230;<\/em>\u201d. Os franciscanos em toda a Am\u00e9rica Latina, na sua atua\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, por onde passaram deixaram sua marca, n\u00e3o s\u00f3 no an\u00fancio e prega\u00e7\u00e3o, mas atrav\u00e9s de uma preocupa\u00e7\u00e3o com a qualidade de vida do povo. No Brasil muitos fundaram cidades, constru\u00edram hospitais e escolas, ensinaram o povo a cultivar a terra. Pelo que transparece na carta de frei Bernardo, os frades estavam preocupados com uma atua\u00e7\u00e3o integral: salvar a alma, cuidar do esp\u00edrito, mas tamb\u00e9m cuidar do corpo, da vida neste mundo. A preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas religiosa: \u00e9 civilizat\u00f3ria, \u00e9 \u201csocial\u201d, como dir\u00edamos hoje. Se o pedido de frei Bernardo fosse atendido teria se concretizado no sul do Brasil, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, a experi\u00eancia que depois foi realizada por frei Luis de Bol\u00e3nos, no Paraguai, a partir de 1580.<\/p>\n<p><strong>6.3 Den\u00fancia e atua\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica<\/strong><br \/>\nA evangeliza\u00e7\u00e3o, quando assumida por amor ao Reino e ao pr\u00f3ximo, necessariamente assume contornos de den\u00fancia social. Frei Bernardo n\u00e3o tem receio de denunciar os pecados do sistema colonizador e da conquista pelas armas. Ele mesmo afirma que \u201c<em>no son menester conquistadores&#8230; Y crea V. Mrd. que la mala vida y mal ejemplo de los que ac\u00e1 viniesen por conquistadores, les har\u00edan menospreciar nuestra fe. Porque viendo que yo les hago guardar la ley de Dios a la letra, y la guardan con tanta voluntad, si viesen lo contrario en los que ac\u00e1 viniesen, dir\u00edan que \u00e9ramos burladores, pues que a ellos les mand\u00e1bamos que guardasen la ley de Dios, y los cristianos viejos la quebrantaban<\/em>\u201d. A hist\u00f3ria da evangeliza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina est\u00e1 cheia de exemplos deste aberto conflito entre os projetos de evangeliza\u00e7\u00e3o e o projeto colonizador.<\/p>\n<p>Esta realidade vai se tornar cr\u00edtica com a chegada de Cabe\u00e7a de Vaca. Este trouxe, na sua expedi\u00e7\u00e3o, 400 soldados \u201cbien aderezados\u201d, isto \u00e9, preparados para o combate, para a guerra. Os soldados chegam armados com arcabuzes (260 arcabuzeiros), lan\u00e7as, bestas, espadas, escudos, al\u00e9m das armaduras e dos cavalos, em n\u00famero de trinta. Podemos imaginar a rea\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas ao ver todo esse aparato chegando em suas terras. \u00c9 sem d\u00favida uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, de poder, e incute temor.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o dos dois frades vai em sentido oposto \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de Cabe\u00e7a de Vaca e dos soldados. Al\u00e9m da demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a bruta, sabemos, atrav\u00e9s de outros relatos o quanto era comum os soldados abusarem das \u00edndias, mesmo porque nas campanhas de conquista n\u00e3o participavam mulheres europ\u00e9ias. A situa\u00e7\u00e3o se mostrava mais cr\u00edtica porque, enquanto os frades buscavam educar os \u00edndios dentro dos par\u00e2metros da moral sexual crist\u00e3, a vida dos soldados e colonos, em geral, ia em sentido oposto a estes ensinamentos.<\/p>\n<p>Frei Bernardo, numa outra carta dirigida \u00e0s autoridades espanholas vai denunciar a pr\u00e1tica de escravizar \u00edndios e \u00edndias. Por isso a sa\u00edda encontrada pelos mission\u00e1rios, a cria\u00e7\u00e3o dos \u201crecolhimentos\u201d, em Santa Catarina e em Assun\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma atua\u00e7\u00e3o clara de defesa do \u00edndio, contra os interesses dos conquistadores. Este viam nos \u00edndios pessoas a serem exploradas, subjugadas, principalmente as mulheres. Segundo o cronista Juan de Araoz, no auge da desaven\u00e7a de Cabe\u00e7a de Vaca com os frades, este vai exigir deles que \u201cn\u00e3o se carregassem de tantas mulheres\u201d.<strong>(11)<\/strong>Outro cronista, Pedro Fuentes, escrevendo sobre os v\u00edcios dos habitantes de Assun\u00e7\u00e3o, exatamente \u00e0 \u00e9poca de Cabe\u00e7a de Vaca, diz que \u201ch\u00e1 uns que t\u00eam dez \u00edndias, outros, 30, e alguns, 50, e todos as t\u00eam como mulheres&#8230;\u201d.<strong>(12)<\/strong>\u00a0Na sociedade hispano-guarani, o que valiam eram \u201cas mulheres, o ferro e as mi\u00e7angas. Com as \u00edndias \u2013 quanto mais, melhor -, o sustento estava garantido, pois eram elas as que plantavam, processavam os alimentos e realizavam quase todas as tarefas necess\u00e1rias para sobreviver naquela terra bruta\u201d.<strong>(13)<\/strong>\u00a0Entende-se a partir deste coment\u00e1rio o cuidado dos frades em proteger as \u00edndias em \u201crecolhimentos\u201d, e o motivo de serem eles objeto da ira dos soldados e colonos.<\/p>\n<p>A tentativa de fuga dos dois frades e dos \u00edndios, mostra um esfor\u00e7o de resist\u00eancia aos planos do conquistador. O fato de alguns historiadores verem nos dois frades os \u201cprincipais opositores de Cabe\u00e7a de Vaca\u201d (Van der Vat) refor\u00e7a sua atua\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia. A resist\u00eancia, como vimos, continua mesmo depois da destrui\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o, quando frei Alonso Lebr\u00f3n busca de todos os modos denunciar os crimes dos portugueses diante das autoridades. Tamb\u00e9m neste particular os frades de Laguna est\u00e3o inseridos na tradi\u00e7\u00e3o da Ordem, de assumir, com todos os meios a seu dispor, a defesa dos \u00edndios contra as injusti\u00e7as. N\u00e3o podemos cit\u00e1-los aqui, mas recordamos os in\u00fameros casos de frades, em toda a Am\u00e9rica, que se envolveram de corpo e alma nas pol\u00eamicas do per\u00edodo colonial, denunciando as realidades in\u00edquas que agrediam a dignidade do \u00edndio.<\/p>\n<p><strong>6.4 Miss\u00e3o como colocar-se em rela\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nNa carta de frei Bernardo transparece uma pura e quase ing\u00eanua confian\u00e7a no trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o. Seu otimismo e entusiasmo d\u00e3o provas de como o mission\u00e1rio estava convencido do trabalho a ser realizado. Este ardor mission\u00e1rio nasce primeiro de uma viv\u00eancia do Evangelho. O testemunho de vida \u00e9 a primeira forma de an\u00fancio. Pelos termos da carta, se percebe que o cora\u00e7\u00e3o de frei Bernardo ardia pelo amor das almas a serem salvas. \u201c<em>Y con estos indios se ha de hacer muy mejor que con otros de otras partes, pues ellos con tanta voluntad se subjetan al yugo de nuestra santa fe cat\u00f3lica&#8230; Y conf\u00edo en Nuestro Se\u00f1or que cuando \u00e9sta llegue all\u00ed, tendremos m\u00e1s de ochenta leguas convertidas a nuestra santa fe. As\u00ed que, no deje V. Mrd. y esos se\u00f1ores que se pierda tanto bien, porque no se lo demande Dios el d\u00eda del Juicio, si no socorriesen a tan santa obra&#8230;. Pues tal tierra como \u00e9sta, no es raz\u00f3n de la dejar, dem\u00e1s de lo principal que hay en ella, que son muchas \u00e1nimas<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o franciscana em Laguna foi, antes de tudo, de \u201cpresen\u00e7a\u201d. Foi uma presen\u00e7a silenciosa, ef\u00eamera, que n\u00e3o deixou grandes escritos, cr\u00f4nicas ou relatos, mas que se fixou no cora\u00e7\u00e3o dos habitantes. Recordamos que a carta ao Conselheiro foi escrita apenas alguns meses ap\u00f3s a chegada \u00e0 localidade. Mesmo assim a missiva exala uma simpatia pela cultura ind\u00edgena e um grande otimismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o: \u201c<em>Y lo que m\u00e1s es de alabar a Nuestro Se\u00f1or, que los m\u00e1s viejos (que hay hombres de cien a\u00f1os) vienen con m\u00e1s fervor. Y no s\u00f3lo esto, mas ellos mismos predican p\u00fablicamente la fe cat\u00f3lica. Son tan grandes maravillas las que Nuestro Se\u00f1or obra en ellos, que no las sabr\u00eda decir, ni bastar\u00eda papel para las escrebir&#8230;.<\/em>\u201d.<br \/>\nAl\u00e9m do otimismo, o religioso n\u00e3o deixa de ressaltar os aspectos positivos daquela cultura: a riqueza da terra, (\u201cque no tiene que ver Santo Domingo con la bondad de esta tierra\u201d), a variedade de plantas, frutas e animais (\u201c&#8230;donde hallar\u00e1n los que vinieren muchas gallinas y pescados excelentes, y muchos puercos jabal\u00edes y venados, y muchas perdices&#8230;\u201d), a sa\u00fade, longevidade e for\u00e7a dos ind\u00edgenas (\u201cque se cansan de vivir los hombres&#8230;\u201d), sua natural bondade, (\u201cY con estos indios se ha de hacer muy mejor que con otros de otras partes&#8230;\u201d).<\/p>\n<p>O fato de que Cabe\u00e7a de Vaca exigisse que os frades o acompanhassem na viagem ao Paraguai \u00e9 sintom\u00e1tico. Ele logo percebeu a autoridade moral dos frades perante os ind\u00edgenas. E percebeu que a presen\u00e7a deles na expedi\u00e7\u00e3o seria uma valiosa ajuda. Numa outra carta, relembrando estes fatos, frei Bernardo comenta que, ap\u00f3s uma consulta de Cabe\u00e7a de Vaca sobre a viagem, \u201ctodos concordaram que deveria ser feita a entrada por terra, e que isso fosse com a minha pessoa e a de meu companheiro, pela grande credibilidade que t\u00ednhamos com os \u00edndios&#8230;\u201d.<strong>(14)<\/strong>\u00a0Esta tamb\u00e9m foi a opini\u00e3o do comandante Pedro Dorantes. Quando se preparavam para a viagem, este pediu aos frades que os acompanhassem: \u201cDisse-lhe tamb\u00e9m que ajudaria muito a nossa boa viagem que o comiss\u00e1rio (frei Bernardo) fosse com o governador (Cabe\u00e7a de Vaca), porque os \u00edndios do campo o queriam muito&#8230; Encarreguei ao comiss\u00e1rio essa quest\u00e3o e ele, vendo que isso convinha, concordou&#8230; E tenho certeza que Deus fez que n\u00e3o nos desentend\u00eassemos com os \u00edndios gra\u00e7as a ele e a um \u00edndio que se chama Miguel&#8230;\u201d.<strong>(15)<\/strong>\u00a0As cr\u00f4nicas dos viajantes que participaram da expedi\u00e7\u00e3o relatam as imensas dificuldades da viagem que teve in\u00edcio no litoral brasileiro e terminou em Assun\u00e7\u00e3o. Depois de tr\u00eas semanas de viagem, acabaram-se os mantimentos. Cabe\u00e7a de Vaca queria consegui-los \u00e0 for\u00e7a dos \u00edndios.<strong>(16)<\/strong>\u00a0Acabou sendo convencido a incumbir frei Bernardo de conseguir os v\u00edveres entre os nativos da regi\u00e3o, coisa que este conseguiu sem dar um \u00fanico tiro. Sobre os mantimentos conseguidos no caminho, Dorantes relata, discorrendo sobre o papel de frei Bernardo: \u201cPreferiam dar a ele e n\u00e3o vend\u00ea-los para n\u00f3s\u201d.<strong>(17)<\/strong><\/p>\n<p>O respeito e autoridade de que o frade gozava n\u00e3o vinha do uso da for\u00e7a, do poder das armas, do ser superior ou da coer\u00e7\u00e3o. Vinham do testemunho de vida, do bom exemplo, da presen\u00e7a fraterna e humilde dos frades vivendo no meio dos \u00edndios, com eles e como eles. Tal afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada por v\u00e1rios testemunhos de autores contempor\u00e2neos e testemunhas oculares dos fatos. A autoridade dos frades diante dos \u00edndios \u00e9 colocada \u00e0 prova quando estes t\u00eam que assumir uma clara posi\u00e7\u00e3o de defesa dos \u00edndios, contra Cabe\u00e7a de Vaca. O cronista Juan de Araoz, escrevendo em 1541, relata que Cabe\u00e7a de Vaca n\u00e3o estava satisfeito com os frades, pela amizade destes com os \u00edndios \u201cin\u00fateis, a quem davam de comer\u201d.<strong>(18)<\/strong>\u00a0Esta express\u00e3o lac\u00f4nica revela uma diferen\u00e7a fundamental entre o modo dos frades e do conquistador se relacionarem com os \u00edndios. Enquanto o frade se preocupa com o sustento do nativo, o conquistador os considera in\u00fateis, mesmo sendo aqueles \u00edndios os respons\u00e1veis pelo carregamento das cargas da expedi\u00e7\u00e3o. Pedro Dorantes relata ainda o cuidado de frei Bernardo com os doentes: \u201cHouve ocasi\u00f5es em que convinha ao padre comiss\u00e1rio ficar para traz com os enfermos, dando-lhes de comer das coisas que [os \u00edndios] lhe traziam de esmola\u201d.<strong>(19)<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca n\u00e3o \u00e9 apenas quanto ao \u201cestar presente\u201d, mas o \u201ccomo\u201d ser presen\u00e7a: uma presen\u00e7a que n\u00e3o se imp\u00f5e, que n\u00e3o agride, que n\u00e3o extirpa os valores culturais, mas reconhece\u00a0 seus valores, e \u00e9 capaz de se \u201cinculturar\u201d. Pelos v\u00e1rios testemunhos j\u00e1 citados, percebemos que os frades estavam muito pr\u00f3ximos aos \u00edndios. A presen\u00e7a \u00e9 transformadora pelo pr\u00f3prio testemunho de vida dos frades. Podemos dizer que \u00e9 uma \u201cpresen\u00e7a minor\u00edtica\u201d, fazendo-se um deles, sem deixar de propagar os valores crist\u00e3os em que acreditavam. Diante de uma realidade totalmente diferente da sua pr\u00f3pria, os frades demonstram uma \u201cabertura poss\u00edvel\u201d. Embora levando consigo todo o aparato ocidental-crist\u00e3o, t\u00edpico de mission\u00e1rios que iam \u201cconverter os infi\u00e9is\u201d, que iam salv\u00e1-los da idolatria e do dem\u00f4nio, os frades, no pouco tempo de trabalho, entraram em di\u00e1logo com a cultura carij\u00f3. A quest\u00e3o da alteridade, do perceber e aceitar os valores do outro, do diferente, \u00e9 um dos mais importantes elementos a serem levados em considera\u00e7\u00e3o numa atua\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. O comportamento dos frades em Laguna \u00e9 bem diverso de muitos mission\u00e1rios posteriores (inclusive no Brasil), que v\u00e3o ver, na cultura a ser evangelizada, apenas erros a serem extirpados e defeitos a serem corrigidos.<strong>\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>7. Algumas quest\u00f5es abertas<\/strong><br \/>\nUma das acusa\u00e7\u00f5es que se faz ao trabalho mission\u00e1rio no Brasil, a todas as institui\u00e7\u00f5es religiosas, \u00e9 a superficialidade na catequese. Oswald de Andrade chega a afirmar que \u201cnunca fomos catequizados\u201d. De fato, se acreditarmos nos relatos de frei Bernardo, com centenas de batizados a cada dia, pode-se colocar em d\u00favida a profundidade da catequese. Por\u00e9m precisamos proceder com cautela. Tal pr\u00e1tica n\u00e3o era t\u00e3o incomum na \u00e9poca. Frei Pedro de Gante fala em 14 mil batizados por dia nos in\u00edcios da evangeliza\u00e7\u00e3o no \u00a0M\u00e9xico. Na mesma \u00e1rea, Motolin\u00eda, fala de cinco milh\u00f5es de batizados em 12 anos, entre 1524 e 1536. A quest\u00e3o \u00e9 que o batismo n\u00e3o era o ponto final da catequese. Sem d\u00favida a grande preocupa\u00e7\u00e3o dos frades\u00a0 era a a\u00e7\u00e3o \u201csoteriol\u00f3gica\u201d da Igreja, da qual eram os ministros. Na evangeliza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina o sacramento do batismo foi central, pois era a forma de salvar imediatamente as almas do inferno. A a\u00e7\u00e3o mistag\u00f3gica, a inicia\u00e7\u00e3o nos mist\u00e9rios da f\u00e9 era um segundo passo. Numa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o especial, com tantas dificuldades a serem vencidas, come\u00e7ando pelo n\u00famero de mission\u00e1rios, este primeiro contato era fundamental.<\/p>\n<p>Frei Bernardo e Alonso planejavam permanecer em meio aos \u00edndios por um bom tempo. Nesse sentido, a funda\u00e7\u00e3o das \u201ccasas de doutrina\u201d ou dos \u201crecolhimentos\u201d para homens e mulheres eram os meios ordin\u00e1rios para continuar o aprofundamento da catequese, \u00e0queles que j\u00e1 haviam recebido o batismo. Nestas casas, conhecidas tamb\u00e9m dos jesu\u00edtas, os \u00edndios, j\u00e1 batizados, poderiam aprofundar sua f\u00e9, tendo, a\u00ed sim, um conhecimento maior das verdades crist\u00e3s, chegando a uma f\u00e9 madura, a uma ades\u00e3o pessoal e profunda.<\/p>\n<p>O exagerado otimismo e at\u00e9 um certo idealismo do frade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o, como aparece na carta, nos colocam tamb\u00e9m alguns questionamentos. Conflitos, pecados e desvios dos \u00edndios quase n\u00e3o\u00a0 aparecem. E n\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o os tivessem. Uma resposta a todo esse otimismo \u00e9 o pr\u00f3prio objetivo da carta, que \u00e9 conseguir ajuda, convencer as autoridades a mandar mais frades, al\u00e9m de conseguir colonos para trabalhar na terra. Ora, se o autor expusesse a dura realidade que presenciava, certamente assustaria os eventuais candidatos. Por outro lado a carta foi escrita apenas alguns meses ap\u00f3s a chegada dos frades, o que certamente n\u00e3o lhes permitia fazer um profundo diagn\u00f3stico da realidade. Outro elemento a destacar \u00e9 que n\u00e3o podemos comparar os conflitos enfrentados pelos mission\u00e1rios junto \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas das florestas do Brasil, com os conflitos enfrentados pelos mission\u00e1rios que atuavam em meio \u00e0s culturas antropologicamente mais avan\u00e7adas, como os astecas, maias e incas. O mais interessante, por\u00e9m, \u00e9 que os fatos mostram que, mesmo ap\u00f3s conviver com os \u00edndios por v\u00e1rios anos, certamente conhecendo seus pecados e desvios, os frades continuavam defendendo-os contra as injusti\u00e7as do sistema colonial.<\/p>\n<p>Um discurso mais ancorado nas ci\u00eancias hist\u00f3ricas poderia aprofundar a rela\u00e7\u00e3o de frei Bernardo e frei Alonso com a corrente do humanismo renascentista europeu, em voga na Espanha e Europa naquele momento hist\u00f3rico, certamente conhecido pelos frades, e que inspirou o projeto dos franciscanos que atuaram nos prim\u00f3rdios da Evangeliza\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico. \u00c9 leg\u00edtimo tamb\u00e9m se questionar sobre a rela\u00e7\u00e3o dos frades de Laguna com todo o processo de reforma cat\u00f3lica, que exatamente neste momento est\u00e1 dominando a vida religiosa na Europa, particularmente a Espanha, e que gerou personagens fascinantes, como Tereza D\u2019Avila, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, In\u00e1cio de Loyola, e o pr\u00f3prio franciscano Cardeal Cisneros, que com tanto zelo se ocupava da reforma da Igreja nos dom\u00ednios espanh\u00f3is. Lembremos que estamos \u00e0s v\u00e9speras do Conc\u00edlio de Trento (1545-1563) e In\u00e1cio de Loyola havia acabado de fundar a Companhia de Jesus (1534). \u00c9 l\u00edcito perguntar at\u00e9 que pontos estes elementos de contexto impulsionaram ou inspiraram estes frades no seu servi\u00e7o aos \u00edndios nas long\u00ednquas paragens do litoral sul do Brasil.<\/p>\n<p><strong>8. Conclus\u00e3o<\/strong><br \/>\nAo falarmos de miss\u00e3o e evangeliza\u00e7\u00e3o poder\u00edamos recorrer a v\u00e1rios testemunhos de frades que, desde os prim\u00f3rdios da chegada dos portugueses, atuaram junto aos habitantes do Brasil, fossem eles \u00edndios, colonos ou escravos negros. Grandes nomes poderiam ser lembrados, nos mais variados campos de atua\u00e7\u00e3o. Frades se destacaram no mundo das letras, da educa\u00e7\u00e3o, da prega\u00e7\u00e3o, da miss\u00e3o, na vida de santidade. Ilustres intelectuais, como frei Vicente de Salvador, que mereceu o ep\u00edteto de \u201cHer\u00f3doto brasileiro\u201d, por ter sa\u00eddo de suas penas a primeira hist\u00f3ria do Brasil; frei Jaboat\u00e3o, ide\u00f3logo de um \u201cNovo Orbe Ser\u00e1fico Bras\u00edlico\u201d; frei Veloso, que subindo serras e montanhas, percorrendo rios e vales, catalogando a \u201cFlora Fluminensis\u201d, criou uma obra estupenda, fazendo dele o primeiro bot\u00e2nico brasileiro; frei Francisco do Monte Alverne, cujo manejo da palavra e da ret\u00f3rica impressionou imperadores. Poder\u00edamos citar ilustres mission\u00e1rios que catequizaram na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas inteiras, ou outros, que deixaram obras grandiosas, como o convento de Santo Ant\u00f4nio do Rio de Janeiro, que neste ano completa 400 anos de exist\u00eancia. Poder\u00edamos apresentar grandes vultos de santidade, como o santo frei Galv\u00e3o. Optamos pela experi\u00eancia de Laguna porque acreditamos que esta, em sua simplicidade, fragilidade e precariedade, pode \u00a0nos dar excelentes ind\u00edcios sobre como n\u00f3s, franciscanos, podemos anunciar o Evangelho no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Petr\u00f3polis, 09 de maio de 2008<\/p>\n<p>______________________<br \/>\n<strong>Cita\u00e7\u00f5es<br \/>\n(1)<\/strong>\u00a0A \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o destes frades era conhecida como \u00e1rea de \u201cpassagem\u201d, onde os limites geogr\u00e1ficos de territ\u00f3rio pertencentes a Espanha ou Portugal ainda n\u00e3o estavam claramente definidos.<br \/>\n<strong>(2)<\/strong>\u201cEsta carta en su original fue derecha a Sevilla, y de all\u00ed vino abierta a esta Nueva Espa\u00f1a, y la hubo el padre Fr. Toribio Motolinia, y sacado el traslado de ella (que yo tengo en mi poder), envi\u00f3 el original al mesmo doctor Bernal\u201d. Jer\u00f4nimo de Mendieta,<em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica Indiana<\/em>, Livro IV, Cap\u00edtulo 45,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cervantesvirtual.com\/\">http:\/\/www.cervantesvirtual.com<\/a>.<br \/>\n<strong>(3)<\/strong>\u00a0O motivo porque o Provincial da Andaluzia n\u00e3o enviou os frades n\u00e3o \u00e9 conhecido, mas, segundo recentes pesquisas ainda em curso, h\u00e1 suspeitas de que os frades estivessem trabalhando na costa sul do Brasil fora da obedi\u00eancia.<br \/>\n<strong>(4)<\/strong>\u00a0Esta frase d\u00e1 a entender que o frade tinha vindo na viagem por iniciativa pr\u00f3pria, coisa rara naqueles tempos, pois, em geral, eram enviados pelo superior eclesi\u00e1stico, sob obedi\u00eancia, a servi\u00e7o da coroa, que se encarregava de todo o apoio necess\u00e1rio. Cfr. Mello, Am\u00edlcar D\u2019Avila de,\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens, III. Santa Catarina na era dos descobrimentos geogr\u00e1ficos<\/em>, Ed. Express\u00e3o, Florian\u00f3polis, SC, 2005, 222.<br \/>\n<strong>(5)<\/strong>\u00a0Pedro Dorantes, comandante de uma das caravelas de Cabe\u00e7a de Vaca, narra que, numa expedi\u00e7\u00e3o em que precisou do aux\u00edlio dos \u00edndios, fez-se passar por filho \u201cdo comiss\u00e1rio da Ordem de S\u00e3o Francisco\u201d, ou seja, de Bernardo de Armenta, &#8220;a quien ellos dizen Pay\u00e7um\u00e9 y tienen en mucha veneraci\u00f3n&#8221;, segundo express\u00e3o do pr\u00f3prio Dorantes.<em>Cr\u00f4nicas&#8230;,<\/em>236.<br \/>\n<strong>(6)<\/strong>\u201cDeterminei fazer a jornada para servir a Deus e a Vossa Majestade, embora com grande dificuldade, por deixar uma coisa j\u00e1 come\u00e7ada, tendo batizado muitos deles e muitos outros que estavam sendo ensinados sobre as coisas de nossa santa f\u00e9 cat\u00f3lica e por ter-lhes prometido que sempre estaria com eles. E para que n\u00e3o tomassem minhas palavras por inverdades, disse-lhes e prometi-lhes que, feita a jornada com os crist\u00e3os, voltaria para eles sem falta&#8230;\u201d.\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens<\/em>, 229.<br \/>\n<strong>(7)<\/strong>\u00a0Afirma o c\u00e9lebre jesu\u00edta Manuel da N\u00f3brega: \u201cE hos negros (\u00edndios), desembracar\u00e3o em huma Capitania para venderem alguns delles, e todos se acolher\u00e3o \u00e0 Igreja dizendo que er\u00e3o christ\u00e3os, e que sabi\u00e3o as ora\u00e7\u00f5es e ajudar a missa, pedindo misericordia. Non lhes valeo, mas for\u00e3o tirados e vendidos pollas Capitanias desta costa\u201d.\u00a0<em>Cr\u00f4nicas<\/em>&#8230;, 291.<br \/>\n<strong>(8)<\/strong>\u00a0Manoel da N\u00f3brega,\u00a0<em>Cartas do Brasil<\/em>, p. 81,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0R\u00f6wer, Bas\u00edlio,\u00a0<em>A Ordem Franciscana no Brasil<\/em>, Vozes, Petr\u00f3polis 1947, 38.<br \/>\n<strong>(9)\u00a0<\/strong><em>Cr\u00f4nicas&#8230;<\/em>, 291.<br \/>\n<strong>(10)<\/strong>\u00a0O autor faz uma refer\u00eancia a Santo Domingo, o que nos permite supor que o mesmo conhecesse, de algum modo, aquela regi\u00e3o e, consequentemente, o trabalho dos frades: \u201cque no tiene que ver Santo Domingo con la bondad de esta tierra\u201d.<br \/>\n<strong>(11)\u00a0<\/strong><em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 234.<br \/>\n<strong>(12)\u00a0<\/strong>Relato de Pedro Fuentes, escrito em 1545, in\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 280.<br \/>\n<strong>(13)<\/strong>\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 276-277.<br \/>\n<strong>(14)<\/strong>\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 229.<br \/>\n<strong>(15)<\/strong>\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 239.<br \/>\n<strong>(16)<\/strong>\u00a0Pedro Dorantes diz que \u201c&#8230;ele (Cabe\u00e7a de Vaca), queria ir at\u00e9 eles com m\u00e3o armada para trazer mantimentos. Opus-me e comentei sobre isso com o comiss\u00e1rio (frei Bernardo), que falou com o governador e foi at\u00e9 os \u00edndios e pediu cautela\u201d.\u00a0<em>Ibidem<\/em>,240.<br \/>\n<strong>(17)<\/strong>\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 240.<br \/>\n<strong>(18)<\/strong>\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 234.<br \/>\n<strong>(19)<\/strong>\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens&#8230;<\/em>, 240.<strong><br \/>\n___________________________<br \/>\nBibliografia<br \/>\n<\/strong>&#8211; Arns, Alice Bertoli,\u00a0<em>Uma esquecida epop\u00e9ia de franciscanos e bandeirantes<\/em>, Curitiba, 1975.<br \/>\n&#8211; Errasti, Mariano,\u00a0<em>Am\u00e9rica Franciscana, Evangelizadores e Indigenistas franciscanos del siglo XVI<\/em>, \u00a0CEFEPAL, Santiago, Chile, 1986.<br \/>\n&#8211; Mello, Am\u00edlcar D\u2019Avila de,\u00a0<em>Cr\u00f4nicas das Origens, III. Santa Catarina na era dos descobrimentos geogr\u00e1ficos<\/em>, Ed. Express\u00e3o, Florian\u00f3polis, SC, 2005.<br \/>\n&#8211; R\u00f6wer, B.,\u00a0<em>Ordem Franciscana no Brasil<\/em>, Vozes, Petr\u00f3polis 1947.<br \/>\n&#8211; Sangenis, Luis F. C.,\u00a0<em>G\u00eanese do pensamento \u00fanico em educa\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>, Vozes, Petr\u00f3polis 2006.<br \/>\n&#8211; Tavares de Miranda M. C. ,<em>\u00a0Os Franciscanos e a forma\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>, Recife 1969.<\/p>\n<table width=\"100%\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"605\">Frei Sandro R. da Costa \u00e9 diretor do Instituto Teol\u00f3gico Franciscano (ITF),<br \/>\nmestre Doutor em Hist\u00f3ria da Igreja. Leciona no ITF as mat\u00e9rias Hist\u00f3ria<br \/>\nda Igreja e Patrologia.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Sandro Roberto da Costa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":184584,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[209],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O protagonismo dos Franciscanos na Evangeliza\u00e7\u00e3o no Brasil - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/o-protagonismo-dos-franciscanos-na-evangelizacao-no-brasil-antes-dos-jesuitas-a-experiencia-de-laguna-2\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O protagonismo dos Franciscanos na Evangeliza\u00e7\u00e3o no Brasil - 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