{"id":84633,"date":"2015-05-06T08:56:28","date_gmt":"2015-05-06T11:56:28","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=84633"},"modified":"2021-09-03T15:17:51","modified_gmt":"2021-09-03T18:17:51","slug":"fidelidade-simplesmente-a-fidelidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/fidelidade-simplesmente-a-fidelidade\/","title":{"rendered":"Fidelidade, simplesmente a fidelidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Somos seres a caminho. Fazemos hist\u00f3ria com outros, companheiros de perto e viandantes de longe de todos os cantos cujos nomes\u00a0 n\u00e3o conhecemos.\u00a0 Organizamos nossa vida pessoal em torno da observa\u00e7\u00e3o de promessas e na persegui\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que pode nos organizar interiormente. Fi\u00e9is \u00e0 nossa verdade, fi\u00e9is aos outros. Trazemos aqui uma reflex\u00e3o de cunho antropol\u00f3gico a respeito do belo e desafiador tema da fidelidade sob o ponto de vista filos\u00f3fico. O texto que segue se inspira fortemente em G\u00e9rard\u00a0 Bailhache\u00a0 (L\u2019humaine fid\u00e9lit\u00e9, in Christus\u00a0 169, jan. 1996, p. 30-39). Remetemos tamb\u00e9m para outro artigo, este de Xavier Quinz\u00e1 Ll\u00e9o, SJ,\u00a0 Los otros nombres de la fid\u00e9lit\u00e9, publicado na revista espanhola de cultura e espiritualidade Sal Terrae\u00a0 (n. 90, 2002, p. 723-731).<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Frei Almir Ribeiro Guimar\u00e3es, OFM<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0A experi\u00eancia nos diz que certas\u00a0 escolhas e decis\u00f5es que tomamos na vida organizam nosso interior, colocam ordem em nossa desordem, arrumam\u00a0 as \u201ccoisas\u201d de nossa trajet\u00f3ria no fluir do tempo. Bel\u00edssima uma vida marcada pela fidelidade:\u00a0 fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria verdade sempre em estado de descoberta,\u00a0 fidelidade crist\u00e3, fidelidade conjugal, fidelidade aos amigos, fidelidade profissional, sempre, por\u00e9m, fidelidade\u00a0 din\u00e2mica e criativa, tamb\u00e9m fidelidade ao amor fiel do Deus fiel. Felizes os que s\u00e3o fi\u00e9is aos seus prop\u00f3sitos e compromissos!\u00a0 Xavier Lacroix assim se exprime:\u00a0 \u201cA promessa de fidelidade \u00e9 um compromisso de assumir juntos um futuro comum, ter um horizonte comum.\u00a0 Ela conjuga as virtudes da perman\u00eancia e da cont\u00ednua inven\u00e7\u00e3o, na abertura ao duplo desconhecido, ou seja, o outro e o futuro\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1, \u00e9 verdade, os que dizem que ela \u00e9 imposs\u00edvel ou, ent\u00e3o, impens\u00e1vel. Outros ainda dizem que \u00e9 uma loucura. E h\u00e1, \u00e9 certo, \u00a0aqueles que fazem dela o fulcro de suas vidas.\u00a0 Uns a qualificam de dura e dif\u00edcil. Todos, no entanto, a ele se referem. Sentem saudades de seu perfume quando constatam suas infidelidades. Ela \u00e9 das mais nobres virtudes ao lado da honradez, da lisura, da humildade, da generosidade e da coragem.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9 uma experi\u00eancia que se vive na carne, quer dizer,\u00a0\u00a0 encarnada. Porque somos carne vivemos de fidelidade em fidelidade. Fidelidade vivida com outros que vivem na carne como n\u00f3s vivemos. Vivemos a fidelidade no fundo de nossa consci\u00eancia, ou com uma outra pessoa, e tamb\u00e9m com muitas outras pessoas. Trata-se de realidade multifacetada.<\/p>\n<p>Antes de ser no\u00e7\u00e3o, a fidelidade \u00e9 um comportamento, uma escolha, uma decis\u00e3o. N\u00e3o vem de fora. Nasce dessa preocupa\u00e7\u00e3o que temos a respeito da qualidade do humano que vive em n\u00f3s ou que pode nos deixar.\u00a0 Assim, a fidelidade nos habita ou de n\u00f3s se afasta. N\u00e3o existe: ela se cria, se inventa, \u00e9 retomada ao longo de toda a nossa vida. N\u00e3o existe uma \u00fanica\u00a0 Fidelidade com f mai\u00fasculo. H\u00e1\u00a0 fidelidades m\u00faltiplas que fazem de n\u00f3s\u00a0 seres de fidelidade, pessoas que escrevemos nossa hist\u00f3ria com refer\u00eancia ao passado, aten\u00e7\u00e3o ao presente e vigil\u00e2ncia quanto ao futuro.<\/p>\n<p>Os lugares da fidelidade em nossas vidas s\u00e3o m\u00faltiplos: o esposo, a esposa, a fam\u00edlia, os filhos, os amigos, os compromissos pol\u00edticos, sociais, religiosos. Somos fi\u00e9is a um pintor, a um tipo de compositor de m\u00fasica cl\u00e1ssica, a um autor que lemos regularmente e que ilumina nosso pensar, que nos questiona ou que, com seu jeito, questiona o rumo de nossa viagem.<\/p>\n<p>Fidelidade&#8230; a comportamentos regulares, a decis\u00f5es.\u00a0 Em que sentido a fidelidade \u00e9 dimens\u00e3o essencial de nossa vida? O que est\u00e1, de fato, por detr\u00e1s dessa palavra e dessa realidade? A fidelidade aparece, n\u00e3o poucas vezes, \u00a0como fora de moda, antiquada e completamente ultrapassada:\u00a0 a vida social \u00e9 feita de trai\u00e7\u00f5es e de reviravoltas que nos surpreendem. Em muitos contextos existenciais a fidelidade n\u00e3o \u00e9 mais levada em considera\u00e7\u00e3o. Com esse alongamento do tempo de viver at\u00e9 90 ou 100 anos, mais do que nunca, se diz a fidelidade \u00e9 imposs\u00edvel, ou ao menos improv\u00e1vel. Como ser fiel ao longo de uma estrada t\u00e3o longa?<\/p>\n<p>Como falar de fidelidade de sorte que n\u00e3o seja apenas um ideal inating\u00edvel, mas uma pr\u00e1tica que seja dimens\u00e3o fundamental de nossa\u00a0 humanidade, aquilo que nos constitui como seres da hist\u00f3ria e n\u00e3o somente sujeitos do instante? Quando pensamos em fidelidade temos em mente nosso relacionamento com a hist\u00f3ria. \u00c9 um modo de comportamento que n\u00e3o \u00e9 tra\u00e7ado de antem\u00e3o. A fidelidade nos faz sair da fatalidade, do destino cego. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um teatro de sombras, mas uma inven\u00e7\u00e3o em que o homem vai decidindo\u00a0 como ser\u00e1 sua vida e sua vida\u00a0 com outros.\u00a0 Fidelidade \u00e9 trabalho, tarefa: n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel na g\u00f4ndola de um supermercado, num lugar imagin\u00e1rio onde pud\u00e9ssemos ir busc\u00e1-la.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9 a modalidade de nosso existir como seres que se situam entre um come\u00e7o e um fim que nos escapam. Ser fiel, querer ser fiel \u00e9 atravessar a densidade do tempo, a opacidade dos trabalhos e dos dias, na certeza de que uma hist\u00f3ria est\u00e1 sendo escrita e que n\u00e3o h\u00e1 \u00a0simplesmente a acumula\u00e7\u00e3o de instantes separados uns dos outros. Uma hist\u00f3ria vai se tecendo na medida em que n\u00f3s mesmos unimos os fios a certo momento e determinadas\u00a0 pessoas. Ser fiel \u00e9 estar orientado, tamb\u00e9m propor o \u201coriente\u201d \u00a0a outros. Ser fiel \u00e9 transmitir o que recebemos aos que nos seguem, dando-lhes gosto por este la\u00e7o entre as gera\u00e7\u00f5es. Nisto situa-se a din\u00e2mica pr\u00f3pria da fidelidade que pode ser designada de produ\u00e7\u00e3o de um sentido com outros, quer dizer acolhimento desse sentido na confronta\u00e7\u00e3o e na troca.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9 um la\u00e7o. Romp\u00ea-la \u00e9 cortar esse liame. Ela aponta tanto para nossa identidade pessoal quanto\u00a0 social.\u00a0 Inscreve-nos na dura\u00e7\u00e3o,\u00a0 nessa\u00a0 \u201cespessura\u201d do tempo que acontece nessa sucess\u00e3o de momentos e acontecimentos abertos ao que vem.<\/p>\n<p>Costuma-se dizer que a fidelidade est\u00e1 em crise. Talvez melhor fosse afirmar que a <em>fidelidade \u00e9 crise.<\/em> Ela \u00e9 julgamento e n\u00e3o condena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o combina com o repouso inerte: est\u00e1 sempre questionando, buscando\u00a0 a constru\u00e7\u00e3o com outro ou outros. Nunca \u00e9 somente obra pessoal. Esse la\u00e7o t\u00e3o fundamental para nossa humanidade vive-se com outros. Insistimos nesse aspecto.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9, antes de tudo, uma qualidade humana. N\u00e3o existe fidelidade, mas homens e mulheres fi\u00e9is ou infi\u00e9is. Nossa experi\u00eancia de fidelidade se faz ao lado da experi\u00eancia da infidelidade.<\/p>\n<p>Ser fiel \u00e9 escolha de vida. O fato de existirmos no mundo, com outros, com milh\u00f5es de outros seres, pr\u00f3ximos ou distantes, pode fazer com que pensemos estar em estado de perda, da quase insignific\u00e2ncia de nossa vida.\u00a0 Em nossos dias, decidir a ser fiel\u00a0 \u00e9 optar pelo humano que existe em n\u00f3s e um tal cuidado\u00a0 sup\u00f5e o cuidado pelo outro e para o outro. A rela\u00e7\u00e3o para com o outro me constitui e o constitui como ser humano e ser fiel a esta rela\u00e7\u00e3o nos torna cada\u00a0 mais\u00a0 \u201chumanizados\u201d.\u00a0 H\u00e1 comportamentos humanizantes e outros que n\u00e3o o s\u00e3o. O borboletear de flor e flor sem palavra dada nos desumaniza.<\/p>\n<p>Quando decidimos ser fi\u00e9is tomamos consci\u00eancia que tal decis\u00e3o consiste na inscri\u00e7\u00e3o de nossa exist\u00eancia numa hist\u00f3ria: hist\u00f3ria de uma amizade, de um relacionamento amoroso, de uma vida numa comunidade de consagra\u00e7\u00e3o religiosa. A fidelidade \u00e9 modo de comportamento que nos situa no tempo vivido como orientado: o passado, o presente e o futuro est\u00e3o interligados.\u00a0 A fidelidade n\u00e3o pode fazer economia da promessa. Promessa de unidade, de edifica\u00e7\u00e3o paciente por meio de gestos cotidianos, retomadas, assentimentos, desvios imprevistos. Se a fidelidade nos fala tanto quaisquer que sejam nossas convic\u00e7\u00f5es e atitudes \u00e9 que nela pressentimos a constru\u00e7\u00e3o paciente, laboriosa de nossa exist\u00eancia, como exist\u00eancia voltada para o sentido,\u00a0 a plenitude , a completude que n\u00e3o outorgamos a n\u00f3s mesmos mas que partilhamos com outros.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9 necess\u00e1ria para a cria\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o haja\u00a0 cria\u00e7\u00e3o sem que antes haja fidelidade a si e \u00e0s suas op\u00e7\u00f5es fundamentais. Ela nos coloca no horizonte de um nascimento, de uma chegada a si mesmo, de uma vida verdadeira.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 comportamento que nos situa no tempo vivido e experimentado como tempo da continuidade. Ser fiel \u00e9 ter uma mem\u00f3ria que podemos qualificar de amorosa e respeitosa. Sou fiel \u00e0 pessoa do outro, amada pelo que ela \u00e9, pelo que foi e pelo que ser\u00e1 sendo que esse futuro do outro est\u00e1 fora de meu alcance.\u00a0 Uma hist\u00f3ria vivida juntos se desdobra na ren\u00fancia a poss\u00edveis infidelidades do instante, sempre presentes e insistentes. Uma vez a\u00a0 escolha feita, dever\u00e1 sempre \u00a0de novo ser retomada. Se \u00e9 definitiva est\u00e1 sempre sofrendo amea\u00e7as. H\u00e1 empenho na fidelidade, esfor\u00e7o de alimentar uma decis\u00e3o, uma palavra dada, na obscuridade cotidiana, na passagem de um instante para o outro.\u00a0 Tal empenho n\u00e3o significa apego a si, vontade de vencer sozinho, mas \u00e0 promessa\u00a0 mergulhada\u00a0 no el\u00e3 dos come\u00e7os, promessa que vai tomando incessantemente novas formas\u00a0 porque a fidelidade \u00e9 criativa e inventiva.<\/p>\n<p>Fidelidade se conjuga com confian\u00e7a, com f\u00e9.\u00a0 Trata-se de dar cr\u00e9dito ao outro. Curiosamente, em nossas sociedades que vivem do cr\u00e9dito em diferentes dom\u00ednios, a fidelidade se apresenta como uma virtude in\u00fatil, impr\u00f3pria para enfrentar nossa \u00e9poca. Porque o cr\u00e9dito, em nossos dias, se apoia mais no engano e na trapa\u00e7a do que sobre a verdade. Dar cr\u00e9dito a algu\u00e9m \u00e9 tecer um relacionamento de confian\u00e7a que \u00e9 certamente um dos mais preciosos bens de\u00a0 nossa humanidade. Este relacionamento de confian\u00e7a \u00e9 uma maneira simples de dar ao outro seu lugar oferecendo-lhe o que n\u00e3o podemos dar: reconhecer que ele \u00e9 um ser humano\u00a0 digno de respeito e n\u00e3o um objeto manipul\u00e1vel de acordo com nossos loucuras e nossos instintos, de acordo com nossas\u00a0 emo\u00e7\u00f5es e desejos.<\/p>\n<p>Ser fiel se escolhe, se decide. A infidelidade nem a fidelidade s\u00e3o fatalidades. N\u00e3o se pode pensar \u00a0fidelidade sem amor. A fidelidade amorosa\u00a0 vive a longa dura\u00e7\u00e3o e atravessa as intemp\u00e9ries que a amea\u00e7am. Trata-se precisamente de escolher \u00a0a longa dura\u00e7\u00e3o mesmo sem saber para onde ele nos leva. Ao culto do agora, que configura tantos comportamentos atuais, o ser fiel opta pela dura\u00e7\u00e3o, situando\u00a0 toda decis\u00e3o\u00a0 no tempo e na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Vive-se o amor na fidelidade e esta se alimenta daquele, sem que os que se amam sempre o saibam. Existe um saber pr\u00f3prio do amor que sabe bem o que significa\u00a0 ser fiel ao outro, um saber tal que se exprime tanto por gestos, e olhares como por palavras. Amar se conjuga com o ser fiel sem que as formas desta fidelidade sejam desenhadas de antem\u00e3o. Recebemos do outro nosso modo de ser fiel porque o outro \u00e9 aquele que\u00a0 despertou em n\u00f3s a capacidade inacess\u00edvel de amor. Tocamos aqui uma dimens\u00e3o pr\u00f3pria ao amor e \u00e0 fidelidade: a gratuidade. Ser fiel, amar, \u00e9 dom que nos \u00e9 confiado, que \u00e9 entregue \u00e0 fraqueza de nossa liberdade, \u00e0 fragilidade desse relacionamento com o outro do qual n\u00e3o somos expectadores, mas atores.\u00a0 Esta surpreendente \u00a0e emocionante gratuidade nos revela\u00a0 que somos respons\u00e1veis por este la\u00e7o com o outro e que ser\u00e1 s\u00f3 ser\u00e1 vivo que for incessantemente\u00a0 entretido, tecido dia ap\u00f3s dias. Ser fiel \u00e9 descobrir que nossa liberdade se funda e se desenvolve\u00a0 nesta rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o profunda, sem nada ter a ver com\u00a0 o moralismo.\u00a0 Paradoxo desta fidelidade: cada dia ela \u00e9 mais exigente e cada dia nos torna mais livres. Esta fecunda tens\u00e3o acompanha o tempo da fidelidade.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9 criativa e construtora. Edifica o indiv\u00edduo e a comunidade. Cria prolongados relacionamentos que s\u00e3o retomados, sempre de novo tecidos, aprofundar a partir da escolha do come\u00e7o.\u00a0 A exist\u00eancia humana ganha peso e consist\u00eancia por meio da fidelidade.\u00a0 O que inquieta profundamente com respeito \u00e0 fidelidade \u00e9 o definitivo que ela funda. A fidelidade se nutre da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de ser fiel \u00e0 fidelidade, mas ao outro e a si mesmo, a uma palavra dada que nos ligou e continua nos ligando um ao outro. A fidelidade \u00e9 um la\u00e7o invis\u00edvel que se funda sobre o invis\u00edvel de cada palavra, mas n\u00e3o cessa de se inscrever no vis\u00edvel pelas escolhas que v\u00e3o sendo feitas que significam rupturas,\u00a0 novas partidas, \u00a0adeuses\u00a0 em vista de uma cria\u00e7\u00e3o ou uma recria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQue dois esposos se vejam compromissados por toda a vida, que\u00a0 constrangimento intoler\u00e1vel!\u00a0 E no entanto duas pessoas que se amam o que querem \u00e9 precisamente se comprometerem por toda a vida\u201d (Jean Paulhan).\u00a0 Constrangimento ou verdadeira liberdade? Pode ser que, \u00e0 primeira vista o compromissar-se por toda a vida d\u00ea a ideia de uma camisa de for\u00e7a intoler\u00e1vel e fria. Cabe a cada um de n\u00f3s, a cada instante, reencontrar o frescor do primeiro engajamento e ter a certeza de que desse instante lhe adv\u00e9m\u00a0 toda nobreza. O esp\u00edrito aceita ter um corpo.\u00a0 Sabe que desse corpo lhe vem o risco.<\/p>\n<p>A fidelidade humana n\u00e3o \u00e9 um comportamento ang\u00e9lico: \u00e9 inscri\u00e7\u00e3o na carne da continuidade de uma escolha na qual toda a pessoa se comprometeu, \u00a0se deu e se ofereceu.\u00a0 \u00c9 risco que n\u00e3o \u00e9 solit\u00e1rio&#8230; A fidelidade se vive com o outro e se funda na confian\u00e7a um dia feita, ao estrangeiro, \u00e0 estrangeira\u00a0 que se tornou a pessoa mais pr\u00f3xima. \u00c9 bem no seio deste relacionamento estranho e admir\u00e1vel que somos convidados a viver esta dimens\u00e3o da exist\u00eancia que \u00e9 a fidelidade, o dom ao outro daquilo que \u00e9 nos \u00e9 mais caro e que n\u00e3o nos pertence:\u00a0 n\u00f3s mesmos, entrega que se abre ao risco e \u00e0 alegria.<\/p>\n<p>Ser fiel \u00e9 engajar-se numa aventura desconhecida, porque n\u00e3o est\u00e1 escrita\u00a0 de antem\u00e3o, que encontrar\u00e1 surpresas, riscos, escurid\u00f5es, trai\u00e7\u00f5es.\u00a0 A quest\u00e3o \u00e9 sempre esta: como todos esses momentos ser\u00e3o vividos relacionados com esta promessa primeira, aquelas primeiras palavras que falavam do desejo de construir uma hist\u00f3ria? Por isso, a fidelidade n\u00e3o se repete, mas se renova tendo em mente o el\u00e3 origin\u00e1rio que deu origem a esse\u00a0 movimento de vida.<\/p>\n<p>Ser fiel se escolhe e se escolhe sempre de novo.\u00a0 N\u00e3o se trata de algo realizado num instante, mas em cada instante, porque a fidelidade tem a ver com nossa fragilidade, atinge ao mesmo tempo nosso desejo profundo de ser fiel e, ao mesmo tempo, nossas tend\u00eancias invenc\u00edveis a n\u00e3o s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode falar de fidelidade sem aludir ao tema da trai\u00e7\u00e3o. O termo \u00e9 menos recorrente em nossos tempos. A trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas realidade que concerne a espi\u00f5es. H\u00e1 muitos modos de trair uma promessa. O Evangelho o afirma quando diz que o olho \u00e9 a l\u00e2mpada do cora\u00e7\u00e3o. Nossos olhos n\u00e3o cessam de dizer quanto somos infi\u00e9is ao que nossos l\u00e1bios confessam.\u00a0 Prometemos isto e nossos olhos \u00a0procuram aquilo.\u00a0 Assim somos chamados a nos educar em mat\u00e9ria de fidelidade.\u00a0 N\u00e3o o somos naturalmente. A fidelidade n\u00e3o est\u00e1 inscrita em nosso c\u00f3digo gen\u00e9tico. Seremos fi\u00e9is passo a passo.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9 conduta cotidiana que nos orienta rumo ao infinito abrindo-nos a uma hist\u00f3ria imprevista e imprevis\u00edvel. Decidimo-nos a ser fieis e estamos\u00a0 sujeitos \u00e0 nossa pr\u00f3pria fragilidade.\u00a0 A fidelidade \u00e9 humana, somos humanos, fr\u00e1geis, o que n\u00e3o deve ser fonte de desespero, mas de aquiesc\u00eancia a que somos seres\u00a0 da hist\u00f3ria,\u00a0 homens e mulheres finitos, vivendo no tempo e acolhendo as surpresas desse mesmo tempo.<\/p>\n<p>A fidelidade\u00a0 demanda esfor\u00e7o, aceita\u00e7\u00e3o de atravessar noites escuras, muitas e dolorosas incompreens\u00f5es.\u00a0 Atinge em n\u00f3s a vida, esta vida que n\u00e3o nos pertence, embora desejemos manipul\u00e1-la.\u00a0 A fidelidade nos envia ao n\u00e3o dispon\u00edvel. Podemos nos decidir a ser fi\u00e9is, mas n\u00e3o o fazemos sozinhos. \u00c9 um \u00a0perene procedimento de alian\u00e7a, numa rela\u00e7\u00e3o de troca;\u00a0 entramos nesse agir que est\u00e1 em movimento.. Embora definitiva, a fidelidade nunca est\u00e1 engessada em suas express\u00f5es.<\/p>\n<p>A fidelidade n\u00e3o \u00e9 uma palavra e, no entanto, ela precisa sem fim de palavras para se dizer, partilhar, se construir, tecer e novamente tecer, tudo como a ternura.<\/p>\n<p>Por que se fiel? N\u00e3o h\u00e1 uma raz\u00e3o l\u00f3gica porque aqui nos encontramos\u00a0\u00a0 no plano da f\u00e9 em n\u00f3s mesmos e nos outros. Tocamos uma regi\u00e3o de profunda pobreza descobrindo que n\u00e3o somos n\u00f3s mesmos a n\u00e3o ser no e pelo relacionamento de liberdade com o outro.<\/p>\n<p>\u00c9 feito um convite de dar e receber. Chegamos a vislumbrar quest\u00f5es vitais, mas que sufocamos ou deixamos para amanh\u00e3, depois de amanh\u00e3, quer dizer, para momentos que nunca chegar\u00e3o. N\u00e3o colocamos os verdadeiros questionamentos. O que fa\u00e7o de minha vida? O que desejo viver para crescer na aventura humana t\u00e3o apaixonante quanto dilacerante, vida feita de \u201cdesgra\u00e7as\u201d e alegrias, para al\u00e9m do razo\u00e1vel?\u00a0 A fidelidade se revela como um a postura, um comportamento\u00a0 em que seremos livres mas ligados a outros.\u00a0 Esta experi\u00eancia \u00e9 paradoxal e dever\u00e1 ser retomada, como toda descoberta que se abre ao desconhecido.<\/p>\n<p>Fidelidade humana, n\u00e3o fidelidade mec\u00e2nica. \u00c9 desejo de construir nossa personalidade desse relacionamento com rela\u00e7\u00e3o aos outros, ato que ser\u00e1 sempre retomado.\u00a0 Quando se escolhe ser fiel rejeita-se a in\u00e9rcia, porque a fidelidade \u00e9 prec\u00e1ria. Sup\u00f5e vigil\u00e2ncia, trabalho de sentinelas\u00a0 porque ela est\u00e1 dirigida ao desconhecido.<\/p>\n<p>A fidelidade \u00e9, pois, hist\u00f3ria, mem\u00f3ria, atitude de quem sabe deixar o passado agir no presente. N\u00e3o \u00e9 la\u00e7o mec\u00e2nico, mas um bem hist\u00f3rico.\u00a0 Vivemos a fidelidade no meio das mudan\u00e7as imprevis\u00edveis de nossa hist\u00f3ria, de nosso mundo e do outro. No \u00e2mago da fidelidade est\u00e1 a decis\u00e3o fundante que nos faz mergulhar na paz, sem nunca nos deixar em paz porque \u00e9 constante convite\u00a0 \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, \u00e0 inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A fidelidade caminha junto com a coragem, outra virtude que parece t\u00e3o pouco apreciada em nossos tempos, virtude que tamb\u00e9m \u00e9 sinal de nossa finitude. Sim, a fidelidade permite que se estabele\u00e7am relacionamentos de confian\u00e7a entre os homens.\u00a0 Talvez tenhamos esquecido que \u00e9 necess\u00e1rio ter desejo de ser fiel.\u00a0 Assim podemos nos relacionar com o tempo sem \u201cmat\u00e1-lo\u201d\u00a0 mas atravess\u00e1-lo na paci\u00eancia das obscuridades.\u00a0 Ela \u00e9 escolha pela dura\u00e7\u00e3o, protesta\u00e7\u00e3o contra as decis\u00f5es ef\u00eameras, desejo de construir uma hist\u00f3ria que aponta para o sentido.<\/p>\n<p>A fidelidade se conserva sendo recriada. Tem sua origem num come\u00e7o com o qual n\u00e3o se confunde, sem deixar de construir-se na lembran\u00e7a desse primeiro compromisso.\u00a0 Ela \u00e9 inven\u00e7\u00e3o de uma vida humana que vai ganhando consist\u00eancia, peso, for\u00e7a e serenidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Almir Ribeiro Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[30],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Fidelidade, simplesmente a fidelidade - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/fidelidade-simplesmente-a-fidelidade\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Fidelidade, simplesmente a fidelidade - 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