{"id":71440,"date":"2023-08-25T00:56:22","date_gmt":"2023-08-25T03:56:22","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=71440"},"modified":"2023-08-25T08:19:53","modified_gmt":"2023-08-25T11:19:53","slug":"sao-luis-de-franca-e-os-franciscanos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/sao-luis-de-franca-e-os-franciscanos-2\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Lu\u00eds de Fran\u00e7a e os Franciscanos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/LUIS_27.jpg\" alt=\"LUIS_27\" width=\"820\" height=\"413\" \/><\/p>\n<h3><strong>S\u00e3o Lu\u00eds de Fran\u00e7a e os Franciscanos<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Frei Sandro Roberto da Costa, ofm<\/strong><\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIII \u00e9 um dos mais fecundos na hist\u00f3ria da Idade M\u00e9dia. O surgimento das universidades testemunha a sede de saber e a efervesc\u00eancia do pensamento filos\u00f3fico e teol\u00f3gico. A ebuli\u00e7\u00e3o religiosa se traduz \u00a0na constru\u00e7\u00e3o das magn\u00edficas catedrais, onde a f\u00e9 transforma pedras em arte, beleza, e luz. No s\u00e9culo XIII s\u00e3o fundadas tamb\u00e9m algumas das mais importantes Ordens religiosas da Igreja, os dominicanos e os franciscanos em particular, com seus respectivos santos: Francisco de Assis, Domingos de Gusm\u00e3o, Ant\u00f4nio de P\u00e1dua, Clara de Assis, Boaventura, Tom\u00e1s de Aquino, entre outros. Por outro lado, \u00e9 um s\u00e9culo marcado pela inquietude religiosa, pelo espocar das heresias, marcadamente em territ\u00f3rio franc\u00eas, pela luta entre papado e imp\u00e9rio, pelo recrudescimento da inquisi\u00e7\u00e3o, pela amea\u00e7a constante do isl\u00e3, pelas cruzadas, e pelas lutas internas entre os reinos, que aos poucos v\u00e3o configurando o espa\u00e7o geogr\u00e1fico que mais tarde seria conhecido como Europa<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A Fran\u00e7a ocupa um lugar de destaque neste cen\u00e1rio<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Na passagem do s\u00e9culo XII para o s\u00e9culo XIII, seus monarcas est\u00e3o entre os mais c\u00e9lebres e respeitados do Ocidente.<\/p>\n<p>Um dos pressupostos da hist\u00f3ria \u00e9 a capacidade de fazer \u201cmem\u00f3ria\u201d, de tornar vivo e presente fatos, personagens e acontecimentos que, de outro modo, seriam relegados ao ba\u00fa do eterno esquecimento. No presente artigo, nosso objetivo \u00e9 fazer mem\u00f3ria da vida de Lu\u00eds de Fran\u00e7a. Queremos conhecer um pouco mais sobre este personagem medieval, leigo, homem de governo, pai de fam\u00edlia, crist\u00e3o fiel. Queremos fazer isso nos questionando sobre o papel desempenhado pelos frades franciscanos em sua vida, suas m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es, que o fizeram ser al\u00e7ado ao posto de Patrono da Ordem Franciscana Secular.<\/p>\n<p>Apresentar um texto a respeito de um personagem que viveu h\u00e1 oitocentos anos atr\u00e1s, sobre o qual, aparentemente tudo j\u00e1 foi dito, pode parecer uma temeridade<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Temeroso tamb\u00e9m \u00e9 se aventurar a retratar a vida de um sujeito hist\u00f3rico envolto em pol\u00eamicas, fruto, em alguns casos, de uma compreens\u00e3o descontextualizada de sua vida, de seu tempo e da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Mesmo assim, dados os m\u00faltiplos contextos e as m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es nas quais esteve envolvido este soberano medieval, acreditamos que seja poss\u00edvel apresentar alguns enfoques particulares, que lancem luzes sobre alguns aspectos de sua vida, e que podem, ao mesmo tempo, iluminar a hist\u00f3ria que estamos vivendo, escrevendo e construindo. Por isso, n\u00e3o vamos nos ocupar exaustivamente da vida de S\u00e3o Lu\u00eds. Embora fa\u00e7amos um breve sobrevoo sobre sua biografia, seus feitos em geral, nosso foco \u00e9 espec\u00edfico: a influ\u00eancia do movimento franciscano na vida de Lu\u00eds IX<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Lu\u00eds IX<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O ano do nascimento de Lu\u00eds n\u00e3o nos \u00e9 conhecido. Sabe-se que o dia 25 de abril de 1214 pode ter sido tanto a data de seu nascimento, como de seu batismo. O fato \u00e9 que, com apenas doze anos, por causa da morte de Lu\u00eds VIII, seu pai, o menino tem que assumir um dos tronos mais importantes do Ocidente. No dia 30 de novembro de 1226, menos de dois meses ap\u00f3s a morte de Francisco de Assis, o pequeno Lu\u00eds era sagrado rei, na cidade de Reims, na Fran\u00e7a, com o t\u00edtulo de Lu\u00eds IX. At\u00e9 Lu\u00eds atingir a maioridade, a rainha Branca de Castela, sua m\u00e3e, ser\u00e1 a tutora do rei e regente do reino<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Na \u201cgeografia\u201d espiritual do Ocidente medieval, a Fran\u00e7a destaca-se, por ser a \u201cfilha primog\u00eanita da Igreja\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Os monarcas franceses, por sua vez, em fun\u00e7\u00e3o da un\u00e7\u00e3o que recebem na cerim\u00f4nia de consagra\u00e7\u00e3o, com o \u00f3leo da \u201csanta \u00e2mbula\u201d, gozam de uma exclusividade sobre os demais reis europeus: s\u00e3o os reis mais crist\u00e3os da Europa, o rei da Fran\u00e7a \u00e9 o \u201cRex Christianissimus\u201d, o \u201cRei Cristian\u00edssimo\u201d.<\/p>\n<p>Seguindo a tradi\u00e7\u00e3o, o jovem pr\u00edncipe foi educado, desde a mais tenra idade, dentro dos princ\u00edpios crist\u00e3os, que tamb\u00e9m norteavam a vida de seus pais. Lu\u00eds VIII era cognominado \u201cLe\u00e3o\u201d, por sua bravura nos campos de batalha, mas tamb\u00e9m por sua firmeza no combate aos inimigos da f\u00e9, testemunhada principalmente no empenho para eliminar a heresia c\u00e1tara no sul da Fran\u00e7a. Preocupados em dar uma boa forma\u00e7\u00e3o religiosa e intelectual ao futuro rei, seus pais confiaram sua educa\u00e7\u00e3o a preceptores de comprovado saber e fidelidade religiosa<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Sua m\u00e3e teve que enfrentar s\u00e9rios desafios durante a minoridade do filho, at\u00e9 consolidar o poder. Nobres e opositores do reino argumentavam com a menoridade de Lu\u00eds, e pelo fato de a regente ser uma mulher. A \u00a0Inglaterra aproveitou da ocasi\u00e3o para fazer valer seus direitos sobre territ\u00f3rios perdidos nos anos anteriores. Branca, todavia, soube mostrar seu valor, fazendo frente de modo corajoso e firme a todas as amea\u00e7as ao trono. Lu\u00eds atingiu a maioridade aos dezenove ou vinte anos, em 25 de abril de 1234, e logo a seguir casou-se com Margarida de Proven\u00e7a. Sua m\u00e3e, no entanto, continuou ocupando uma posi\u00e7\u00e3o de proemin\u00eancia nas decis\u00f5es mais importantes do reino.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Principais informa\u00e7\u00f5es sobre a vida de S\u00e3o Lu\u00eds<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<p>Estamos muito bem informados sobre a vida de Lu\u00eds, atrav\u00e9s das v\u00e1rias biografias, escritas por contempor\u00e2neos seus, ou pessoas pr\u00f3ximas a seus familiares. As principais informa\u00e7\u00f5es nos foram transmitidas por seu amigo, confidente, e mais importante bi\u00f3grafo, o leigo Jean de Joinville, que escreveu \u201cA Vida de S\u00e3o Lu\u00eds\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Outra biografia foi escrita por Godofredo de Beaulieu, frade dominicano e confessor do rei, que lhe esteve muito pr\u00f3ximo nos \u00faltimos vinte anos de sua vida. O capel\u00e3o do rei, Guilherme de Chartres, Gr\u00e3o-Mestre da Ordem dos Templ\u00e1rios tamb\u00e9m escreveu uma \u201cVida de S\u00e3o Lu\u00eds\u201d. Outra fonte importante \u00e9 a vida escrita pelo franciscano Guilherme de Saint-Pathus, confessor da rainha Margarida de Proven\u00e7a, que se utilizou do inqu\u00e9rito papal para a canoniza\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds, para escrever a sua \u201cVida\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Finalmente, outra obra sobre a vida de Lu\u00eds foi escrita por Guilherme de Nangis, tamb\u00e9m confessor da rainha Margarida<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. As biografias de Lu\u00eds, para al\u00e9m das inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que as permeiam, nos fornecem importantes informa\u00e7\u00f5es sobre a vida, as op\u00e7\u00f5es, o modo de agir de um homem que, colocado \u00e0 frente da administra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de um reino, buscou pautar sua vida segundo os valores do Evangelho e dos padr\u00f5es propostos pela Igreja de seu tempo. E o fez de modo t\u00e3o perfeito, que chegou \u00e0 honra dos altares.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.2 Um santo leigo!<\/strong><\/p>\n<p>Diferentemente dos santos de seu tempo, Lu\u00eds \u00e9 um santo leigo, e \u00e9 casado. Isto n\u00e3o deixa de ser notado pela maioria de seus bi\u00f3grafos: santo, apesar de ser leigo e casado! Humilde, piedoso, virtuoso, Lu\u00eds, no entanto, \u00a0continua um leigo, n\u00e3o \u00e9 um sacerdote<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. \u00c9, sobretudo, casado, pai de fam\u00edlia, que n\u00e3o renuncia \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es e prazeres conjugais e \u00e0 sexualidade, submetidos aos ditames da lei da Igreja, como os \u201cdias de resguardo\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Lu\u00eds vai ser pai de onze filhos, tr\u00eas dos quais nascem durante sua perman\u00eancia no Egito. Sua mulher o acompanha na peregrina\u00e7\u00e3o. Sua biografia, a primeira vida de um santo escrita por um leigo, vai priorizar elementos que normalmente n\u00e3o se destacavam nas biografias, quase todas escritas por eclesi\u00e1sticos e sobre cl\u00e9rigos: Jean de Joinville vai p\u00f4r em relevo, na vida de Lu\u00eds, sua rela\u00e7\u00e3o com a sexualidade, com a guerra e a pol\u00edtica. \u00c9 um rei que vai \u00e0 guerra, que combate valorosamente, inclusive nas cruzadas, mas \u00e9, ao mesmo tempo, um rei de paz, que tudo faz para mant\u00ea-la, atrav\u00e9s dos tratados e negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o o impede de exercer bem suas fun\u00e7\u00f5es em favor do povo. Coadjuvado em grande parte pela ast\u00facia pol\u00edtica de sua m\u00e3e, Branca de Castela, Lu\u00eds conseguiu estabelecer a paz e a harmonia no reino. Isso foi conseguido ap\u00f3s \u00e1rduas batalhas, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s de h\u00e1beis negocia\u00e7\u00f5es e uma s\u00e9rie de tratados, onde n\u00e3o faltaram os matrim\u00f4nios arranjados entre os irm\u00e3os do rei e as filhas da nobreza de reinos circunstantes, em fun\u00e7\u00e3o da pacifica\u00e7\u00e3o e do fortalecimento dos la\u00e7os do reino com outras pot\u00eancias. Outra frente de atua\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds foi a organiza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as. Em pol\u00edtica, Lu\u00eds tentou instaurar um c\u00f3digo de conduta especificamente crist\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>1.3 Gravemente doente: o voto da cruzada<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez organizado e pacificado o reino, Lu\u00eds organizou a s\u00e9tima cruzada. Na origem desta expedi\u00e7\u00e3o est\u00e1 a grave doen\u00e7a que o acometeu, em dezembro de 1244, e que o deixou praticamente \u00e0 beira da morte. Num esfor\u00e7o extremo para recuperar a sa\u00fade, o rei fez a promessa de que, se ficasse curado, iria organizar uma cruzada<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Depois de quatro anos de prepara\u00e7\u00e3o, em junho de 1248, com sua mulher Margarida, e seus irm\u00e3os Carlos de Anjou, Afonso e Roberto de Artois, ap\u00f3s receberem a b\u00ean\u00e7\u00e3o do papa Inoc\u00eancio IV, partiram para libertar o Santo Sepulcro. O reino ficou a cargo de sua m\u00e3e, Branca de Castela, que j\u00e1 dera provas suficientes de que teria condi\u00e7\u00f5es de conduzi-lo na aus\u00eancia do filho. Devido a uma s\u00e9rie de reveses, incluindo tempestades que desviaram a frota, al\u00e9m de epidemias, os cruzados tomaram, em 08 de junho de 1249, a cidade de Damieta, no Egito. No caminho para o Cairo, deu-se a famosa batalha de Mansur\u00e1, onde perdeu a vida o irm\u00e3o de Lu\u00eds, Roberto de Artois. A disenteria e o escorbuto ajudaram a enfraquecer ainda mais a tropa. Lu\u00eds e seus soldados foram feitos prisioneiros pelos mu\u00e7ulmanos. Sua mulher, Margarida, passou a comandar os cruzados. Ap\u00f3s o pagamento de um vultuosa soma, Lu\u00eds e seus soldados foram libertados depois de um m\u00eas de cativeiro, em maio de 1250. O rei e suas tropas passaram ainda quatro anos na Terra Santa, consolidando as fortalezas crist\u00e3s, conduzindo negocia\u00e7\u00f5es entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos. Tendo recebido a not\u00edcia da morte da m\u00e3e, retornou \u00e0 Fran\u00e7a, entrando em Paris em setembro de 1254<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>A volta da cruzada, a saudade do Oriente: a morte \u00e0s portas de T\u00fanis<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<p>De volta da cruzada, entre 1254 a 1270, Lu\u00eds continua desempenhando sua miss\u00e3o de monarca crist\u00e3o. Se antes j\u00e1 exercia suas fun\u00e7\u00f5es como rei exemplar, praticando a justi\u00e7a e defendendo o direito, principalmente dos pobres, ap\u00f3s o retorno do Oriente estas pr\u00e1ticas se acentuam. Os estudiosos sublinham a mudan\u00e7a de comportamento ap\u00f3s a volta da cruzada. A experi\u00eancia frustrada deixou marcas profundas na alma de Lu\u00eds. O rei justo, \u00e9tico, modelo de crist\u00e3o piedoso, passa a ser ainda mais cioso da pr\u00e1tica da justi\u00e7a, al\u00e9m de acentuar suas pr\u00e1ticas de devo\u00e7\u00e3o e de piedade, e suas obras de caridade para com os pobres e os religiosos.<\/p>\n<p>Desde que retornara da cruzada, o horizonte de vida de Lu\u00eds passou a ser a Terra Santa. Em meio \u00e0s fun\u00e7\u00f5es que exigiam a administra\u00e7\u00e3o do reino, o monarca deixava claro que n\u00e3o sossegaria enquanto n\u00e3o organizasse uma nova expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra Santa. A decis\u00e3o foi anunciada a 25 de mar\u00e7o de 1267. Em 04 de junho de 1270, Lu\u00eds, seus filhos Jo\u00e3o Trist\u00e3o e o herdeiro Filipe, al\u00e9m de v\u00e1rios nobres, partiram em dire\u00e7\u00e3o a T\u00fanis. Desembarcados \u00e0s portas da cidade, uma forte epidemia de disenteria e febre ataca os cruzados. Jo\u00e3o Trist\u00e3o morre a 03 de agosto. Depois de muito sofrimento, estendido sobre um leito de cinza em forma de cruz, Lu\u00eds inicia sua definitiva viagem ao encontro daquele que t\u00e3o ardentemente buscara nesta vida. Um longo processo iniciado logo ap\u00f3s sua morte vai culminar com a canoniza\u00e7\u00e3o solene, sob o pontificado de Bonif\u00e1cio VIII, em 1297. Sua festa foi fixada em 25 de agosto, dia de sua morte.<\/p>\n<p><strong>A espiritualidade que moveu S\u00e3o Lu\u00eds de Fran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOs contempor\u00e2neos do rei&#8230; praticamente n\u00e3o tinham como deixar de classificar esse soberano a n\u00e3o ser com a palavra santo \u2013 mas um santo excepcional, do mesmo modo que S\u00e3o Francisco o tinha sido como religioso, no in\u00edcio do mesmo s\u00e9culo XIII\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Esta afirma\u00e7\u00e3o do ilustre medievalista franc\u00eas nos fornece elementos para uma an\u00e1lise da espiritualidade que inspirou os gestos e decis\u00f5es do monarca, a ponto de ter sido declarado santo pela Igreja. Um dado importante \u00e9 o fato de que Lu\u00eds j\u00e1 era considerado santo por seus contempor\u00e2neos. Mas era um santo com um endere\u00e7o definido: um santo franciscano. Ora, de onde vem esta percep\u00e7\u00e3o? Para dar uma resposta, temos que nos debru\u00e7ar brevemente sobre a espiritualidade crist\u00e3 que dominava ent\u00e3o o Ocidente \u00e0 \u00e9poca de Lu\u00eds.<\/p>\n<p><strong>2.1 Espiritualidade medieval: movimentos de contesta\u00e7\u00e3o, franciscanos e dominicanos<\/strong><\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XII e XIII, um dos principais motes dos movimentos de contesta\u00e7\u00e3o, liderados por leigos, mas \u00a0tamb\u00e9m por cl\u00e9rigos, era a dura cr\u00edtica que faziam \u00e0 Igreja e seus membros, principalmente da hierarquia, por sua liga\u00e7\u00e3o com o \u201cs\u00e9culo\u201d, o apego \u00e0s riquezas, a luta pelo poder, seu distanciamento dos fi\u00e9is a quem deviam pastorear, a incapacidade de pregar, seja pelo mal preparo intelectual, ou pela acomoda\u00e7\u00e3o em que viviam, ao mesmo tempo em que mantinham os fi\u00e9is distantes da Palavra de Deus<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. A resposta a esta incapacidade dos membros da Igreja de proferir uma palavra evang\u00e9lica de esperan\u00e7a e de coragem \u00e0 imensa massa dos fi\u00e9is, foram os movimentos alternativos, protagonizados por leigos e cl\u00e9rigos. Nem sempre ortodoxos, propunham meios para o retorno ao Evangelho, atrav\u00e9s principalmente da prega\u00e7\u00e3o e de um exemplo de vida pobre e humilde, calcado na viv\u00eancia do Evangelho \u201csine glosa\u201d (ao p\u00e9 da letra). Alguns destes movimentos descambaram para a heresia. Consolida-se, aos poucos, a certeza de que o caminho de santifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusivo de cl\u00e9rigos, monges e membros da hierarquia, mas que todos, inclusive homens e mulheres casados, sem renunciar ao seu estado, tamb\u00e9m podem encetar a \u201cSequela Christi\u201d: <em>seguir nu o Cristo nu<\/em>.<\/p>\n<p>Domingos de Gusm\u00e3o, com os dominicanos, e Francisco de Assis, com os franciscanos, constituem, de um certo modo, o ponto de chegada de todo esse movimento de contesta\u00e7\u00e3o. \u201cEsses religiosos de um novo g\u00eanero, cujo r\u00e1pido sucesso \u00e9 extraordin\u00e1rio em toda a cristandade, vivem, diferentemente dos monges, entre os homens nas cidades, misturam-se estreitamente aos leigos e s\u00e3o os grandes difusores das pr\u00e1ticas religiosas que renovam profundamente: a confiss\u00e3o, a cren\u00e7a no Purgat\u00f3rio, a prega\u00e7\u00e3o. Penetram nas consci\u00eancias e nas casas, entram na intimidade das fam\u00edlias e dos indiv\u00edduos. Praticam as virtudes fundamentais do cristianismo primitivo em uma sociedade nova: a pobreza, a humildade, a caridade\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. Diferentemente das institui\u00e7\u00f5es mon\u00e1sticas tradicionais, que vivem no isolamento de seus mosteiros, distante do \u201cmundo\u201d, o espa\u00e7o urbano, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es e perigos, \u00e9 o lugar privilegiado de atua\u00e7\u00e3o dos frades. N\u00e3o moram em \u201cconventos\u201d, mas em \u201clocus\u201d, casas simples, em meio \u00e0s pessoas, que deveriam converter pelo exemplo de vida.<\/p>\n<p>Tendo suas origens como movimento misto, onde n\u00e3o havia a distin\u00e7\u00e3o entre cl\u00e9rigos e leigos, logo s\u00e3o assimilados pela Igreja e passam a fazer parte da hierarquia e a servir aos seus projetos de poder. Mas a origem laica e o protagonismo dos leigos sempre esteve no horizonte do movimento, ao menos como ideal. O melhor exemplo disto \u00e9 o pr\u00f3prio Francisco de Assis, que era leigo, sem provas conclusivas de que teria sido ordenado di\u00e1cono. Al\u00e9m de criar uma institui\u00e7\u00e3o para receber mulheres (as Damas Pobres ou Clarissas), Francisco tamb\u00e9m iniciou a Ordem Terceira, para leigos, homens e mulheres, casados ou n\u00e3o, que n\u00e3o precisavam \u201cabandonar o mundo\u201d, mas poderiam se santificar permanecendo no seu estado de vida laica, em fam\u00edlia. S\u00e3o Lu\u00eds \u00e9 leigo, e seu principal bi\u00f3grafo tamb\u00e9m \u00e9 leigo. A espiritualidade leiga que come\u00e7a a avan\u00e7ar no s\u00e9culo XIII, e a santidade, at\u00e9 ent\u00e3o apan\u00e1gio de cl\u00e9rigos e monges, passa a ser poss\u00edvel tamb\u00e9m aos leigos. Santificar-se vivendo o Evangelho em fraternidade, pobreza e penit\u00eancia, praticado a caridade, anunciando, principalmente pelo exemplo de vida, a paz e o bem, eram os principais motes dos seguidores de Francisco de Assis. Lu\u00eds se insere neste contexto.<\/p>\n<p><strong>2.2 S\u00e3o Lu\u00eds e a espiritualidade mendicante<\/strong><\/p>\n<p>Na vida de S\u00e3o Lu\u00eds, homem religioso e piedoso, os religiosos em geral ocupam um lugar de destaque. Mas entre estes, gozam de maior simpatia e familiaridade do rei aqueles que t\u00eam sua vida pautada por uma regra de mais estrita observ\u00e2ncia e radicalidade evang\u00e9lica. A amizade que unia o rei e os beneditinos cistercienses era conhecida de todos<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. O rei construiu para os monges uma bel\u00edssima abadia, a de Royaumont, e para l\u00e1 se dirigia com prazer, com toda sua fam\u00edlia, onde se entretinha com os monges, como se fosse um deles, nas ora\u00e7\u00f5es, of\u00edcios, pr\u00e1ticas devocionais e de caridade. Outro grupo religioso que ocupa um lugar central na vida de Lu\u00eds s\u00e3o os mendicantes, especificamente dominicanos e franciscanos<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p>Quando Lu\u00eds nasceu, o movimento franciscano estava nos seus in\u00edcios, dando os primeiros passos fora da \u00dambria. Francisco de Assis tinha uma liga\u00e7\u00e3o sentimental com a Fran\u00e7a: sua paix\u00e3o pela l\u00edngua francesa provavelmente estava na origem de seu nome<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. H\u00e1 ind\u00edcios de que sua m\u00e3e fosse de origem francesa, e por isso era tamb\u00e9m chamada de \u201cProven\u00e7al\u201d. Nos in\u00edcios da Ordem, Francisco havia tentado viajar \u00e0 Fran\u00e7a, mas foi impedido pelo cardeal Hugolino, que o aconselhou a ficar na It\u00e1lia<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Francisco enviou assim alguns frades. Frei Pac\u00edfico chega a V\u00e9zelay em 1217, e a\u00ed estabelece o primeiro convento franciscano em terras francesas, denominado \u201cla Cordelle\u201d (por causa da \u201ccorda\u201d com os tr\u00eas n\u00f3s que os frades usam)<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. Em 1219, est\u00e3o em Paris e em Saint Denis, onde ser\u00e3o conhecidos como \u201ccordeliers\u201d. Em 1223, est\u00e3o em Lens, no Norte da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Lu\u00eds \u00e9 muito pr\u00f3ximo dos franciscanos e dominicanos, e \u00e9 a espiritualidade preconizada pelos mendicantes que vai inspir\u00e1-lo no exerc\u00edcio de seu governo enquanto leigo crist\u00e3o<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>. Os franciscanos, nas suas prega\u00e7\u00f5es nas cidades, s\u00e3o os maiores divulgadores desta espiritualidade nova, do Cristo vivo, encarnado, humano, humilde e sofredor, crucificado pelos pecados da humanidade. Uma espiritualidade cristol\u00f3gica, de um Cristo que se revela nos pobres, nos leprosos, nos abandonados<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>. \u00c9, ao mesmo tempo, uma espiritualidade penitencial, de convers\u00e3o pessoal e de reforma, de combate aos abusos da Igreja, uma espiritualidade da \u201csequela christi\u201d (<em>seguimento de Cristo<\/em>), do seguimento da \u201cVita Apostolica\u201d (<em>da vida dos Ap\u00f3stolos<\/em>), que encontra eco nas almas mais s\u00e9rias e sedentas de uma pr\u00e1tica crist\u00e3 original, propugnada e popularizada pelos pregadores dos movimentos her\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Lu\u00eds pratica todos os atos de devo\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o comuns e esperados dos reis crist\u00e3os piedosos: os of\u00edcios lit\u00fargicos, a frequ\u00eancia aos sacramentos (confiss\u00e3o, comunh\u00e3o), o culto \u00e0s rel\u00edquias, o respeito \u00e0 Igreja e a sua hierarquia, as pr\u00e1ticas penitenciais e asc\u00e9ticas, e a pr\u00e1tica da caridade, principalmente para com os pobres. Sua m\u00e3e foi a grande respons\u00e1vel por disciplin\u00e1-lo, desde a mais tenra idade, no caminho da devo\u00e7\u00e3o e da piedade. \u201cNo centro de sua vida est\u00e1 a ora\u00e7\u00e3o, como um sol que ilumina todas as horas do dia. \u00c0 meia noite o rei se veste para dizer as matinas na capela; depois ele torna a se deitar, mas semi-vestido, para estar pronto para se levantar assim que soe a hora da prima&#8230; Ap\u00f3s a prima, a cada manh\u00e3, ao menos duas missas; uma breve, para os mortos, a outra cantada, que \u00e9 a missa do dia. Durante a Quaresma, ele assiste uma terceira&#8230; Durante a jornada, algumas horas can\u00f4nicas n\u00e3o podem faltar. Mesmo quando o rei cavalga, ele \u00e9 acompanhado de seu capel\u00e3o, e as horas s\u00e3o ditas a cavalo\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas para al\u00e9m desses gestos de devo\u00e7\u00e3o e piedade esperados de um rei, aos seus contempor\u00e2neos Lu\u00eds aparece como um homem que foi al\u00e9m: ele foi um rei que imitou Cristo. A bula de canoniza\u00e7\u00e3o vai se referir a isso. Lu\u00eds imita Cristo no sofrimento. No s\u00e9culo XIII as ordens mendicantes popularizam a pr\u00e1tica da piedade atrav\u00e9s das obras de miseric\u00f3rdia. Para Lu\u00eds, f\u00e9 e devo\u00e7\u00e3o conjugam-se com obras. Uma pr\u00e1tica comprovada por v\u00e1rios de seus bi\u00f3grafos \u00e9 o gesto de lavar os p\u00e9s aos pobres e aos monges. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es Lu\u00eds realiza este gesto, imitando a humildade de Cristo. Quando pode, aos s\u00e1bados, lava os p\u00e9s de alguns anci\u00e3os, \u00e0s escondidas, para evitar cr\u00edticas. Depois os beija, d\u00e1-lhes dinheiro e os serve, ele mesmo, \u00e0 mesa. \u201cQuando S\u00e3o Lu\u00eds est\u00e1 com os pobres, os seus gestos parecem p\u00f4r-se ao seu n\u00edvel e apresentam-se como mais verdadeiros\u201d<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a>. O cuidado e o carinho com que Lu\u00eds cuida dos pobres beira ao extremo: \u201cE se entre esses pobres havia um cego ou algu\u00e9m que via mal, o rei bendito colocava-lhe o peda\u00e7o de p\u00e3o diretamente na m\u00e3o com as suas pr\u00f3prias m\u00e3os, ou ent\u00e3o guiava a m\u00e3o do pobre at\u00e9 a tigela e ensinava-lhe como devia p\u00f4r a m\u00e3o na tigela; e ainda mais, quando havia um que via mal ou estava impedido, e havia peixe diante dele, o rei bendito pegava no peda\u00e7o de peixe, tirava-lhe cuidadosamente as espinhas com as suas m\u00e3os, depois molhava-o no molho e punha-o na boca do doente\u201d<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a>.<\/p>\n<p>V\u00edtima de v\u00e1rios males f\u00edsicos, Lu\u00eds se solidariza com os mais fracos. O rei se preocupa com os cegos, e para eles manda construir um hospital em Paris. D\u00e1 muitas esmolas aos pobres, principalmente aos leprosos, a quem cuidava carinhosamente, dava de comer, beijava-lhes a m\u00e3o. Seus bi\u00f3grafos destacam o fato de que ele se levantava muito cedo, sem fazer ru\u00eddo, para ir \u00e0 Igreja, para rezar, o que obrigava seus guardas a tamb\u00e9m se levantarem cedo, alguns tendo que se vestir correndo pelo caminho, para alcan\u00e7ar o rei. Quando os monges v\u00e3o construir a abadia de Royaumont, Lu\u00eds os ajuda a carregar pedras, e obriga seus irm\u00e3os a fazerem o mesmo, embora estes n\u00e3o o fa\u00e7am de bom grado<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a>.<\/p>\n<p>Lu\u00eds tamb\u00e9m obriga aqueles que o servem, sejam marinheiros ou soldados, a ouvirem longos serm\u00f5es, e a participarem de of\u00edcios religiosos. Para impedir que seus soldados almo\u00e7assem nas tavernas da cidade, lugares mal afamados, de jogos, bebida e mulheres, oferece-lhes o almo\u00e7o no pr\u00f3prio local de servi\u00e7o, no refeit\u00f3rio do pal\u00e1cio, sem cobrar por isso. Ao contr\u00e1rio, continuando dando aos soldados a ajuda de custo a que tinham direito para comer fora. Alguns o fazem a contragosto, pois comendo no pal\u00e1cio, seriam obrigados a ouvir serm\u00f5es durante a refei\u00e7\u00e3o. Para Lu\u00eds as tavernas eram t\u00e3o perigosas quanto os bord\u00e9is.<\/p>\n<p>Algumas destas pr\u00e1ticas causavam transtornos no meio em que vivia o rei. Lu\u00eds era consciente de que seu comportamento piedoso n\u00e3o agradava a todos, e suscitavam in\u00fameras cr\u00edticas. Uma das mais comuns era o fato de gastar muito com esmolas e com a constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios religiosos<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a>. Era claro, para os medievais, burgueses e nobres que o cercavam, que Lu\u00eds n\u00e3o podia ultrapassar o limite do rei para o de sacerdote.<\/p>\n<p>Uma forte cr\u00edtica vinha daqueles que consideravam Lu\u00eds como um ref\u00e9m dos colaboradores e conselheiros religiosos, principalmente dos franciscanos e dominicanos<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a>. Um epis\u00f3dio contado por seu bi\u00f3grafo franciscano Guillerme de Saint-Pathus, demonstra bem a sua proximidade com o clero. Diz-se que uma mulher o abordou na sa\u00edda do parlamento, e teria exclamado: \u201cS\u00f3 \u00e9s rei dos frades menores e dos pregadores, dos padres e dos cl\u00e9rigos!\u201d<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a>. A rea\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds, segundo seu bi\u00f3grafo, foi de calma. Concordou com a mulher, e disse que ela tinha raz\u00e3o, e que outro governaria melhor o reino. E pediu a seus soldados que dessem dinheiro a ela. O fato em si demonstra o quanto Lu\u00eds prezava a companhia do clero, e como isso n\u00e3o era bem visto por alguns setores da sociedade<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>2.2.1 Sua devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Paix\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A posse de rel\u00edquias era pr\u00e1tica comum na Idade M\u00e9dia. Devo\u00e7\u00e3o, prest\u00edgio, necessidade de prote\u00e7\u00e3o eram elementos que se misturavam na procura por rel\u00edquias cada vez mais preciosas. Lu\u00eds tinha um apre\u00e7o especial pelas rel\u00edquias da paix\u00e3o de Jesus. Prova disso \u00e9 um acontecimento envolvendo a rel\u00edquia do cravo de Jesus. Em 1232, quando a rel\u00edquia foi exposta para venera\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is na catedral de Saint Denis, acabou caindo do relic\u00e1rio e desapareceu. Seguiu-se uma como\u00e7\u00e3o em todo o reino. Guilherme de Nagis relata o sentimento do rei e sua m\u00e3e: \u201cO santo rei Lu\u00eds e a rainha sua m\u00e3e, quando souberam da perda desse alt\u00edssimo tesouro e o que tinha acontecido ao santo cravo sob seu reinado, sentiram grande dor e disseram que not\u00edcia mais cruel n\u00e3o podia ter sido levada a eles nem lhes fizesse sofrer mais cruelmente\u201d<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a>. Esta devo\u00e7\u00e3o era testemunhada publicamente na Sexta-Feira Santa: \u201cA sua devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Cruz, especialmente na Sexta-Feira Santa, tem como momento forte a visita das igrejas \u2018pr\u00f3ximas do lugar onde se encontrava\u2019: ia l\u00e1 \u2018descal\u00e7o\u2019, e depois, para a adora\u00e7\u00e3o da cruz, tirava o chap\u00e9u e a touca e avan\u00e7ava, de cabe\u00e7a descoberta de joelhos, at\u00e9 \u00e0 cruz, \u2018beijava-a\u2019, e por fim \u2018punha-se inclinado para o ch\u00e3o com os bra\u00e7os abertos, como na cruz, durante todo o tempo em que a beijava, e diz-se que enquanto fazia isto chorava\u2019\u201d<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a>.<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, supera o esfor\u00e7o para conseguir duas das rel\u00edquias mais preciosas para a cristandade: a coroa de espinhos de Jesus e o lenho da Santa Cruz. Lu\u00eds adquire a coroa do Imperador de Constantinopla, Baldu\u00edno. Quando a coroa entra em territ\u00f3rio franc\u00eas, em 1239, depois de uma longa viagem desde Constantinopla, o rei e seus irm\u00e3os v\u00e3o ao seu encontro. Carregam o relic\u00e1rio \u00e0s costas, em prociss\u00e3o, vestidos de t\u00fanica branca e descal\u00e7os, em sinal de humildade e penit\u00eancia. Os nobres tamb\u00e9m se associam aos pr\u00edncipes, participando descal\u00e7os da prociss\u00e3o. Seguem-se a aquisi\u00e7\u00e3o do lenho da Cruz e de outras rel\u00edquias da Paix\u00e3o, como a esponja e o ferro da santa lan\u00e7a. Para guardar as rel\u00edquias, Lu\u00eds construiu um dos maiores tesouros da arte g\u00f3tica: a Saint-Chapelle, capela privada do rei. A estas rel\u00edquias preciosas soma-se o travesseiro de S\u00e3o Francisco, enviado ao rei pelos frades de Assis, quando de sua coroa\u00e7\u00e3o, em 1226.<\/p>\n<p>O movimento cruzado tem sua legitima\u00e7\u00e3o nesta devo\u00e7\u00e3o \u00e0s rel\u00edquias: as terras onde Cristo nasceu, viveu e morreu, est\u00e3o em m\u00e3os infi\u00e9is, de pecadores. Jerusal\u00e9m, a maior rel\u00edquia da cristandade, precisa ser libertada.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>2.2.2 Um rei paciente no sofrimento<\/strong><\/p>\n<p>Lu\u00eds \u00e9 um rei que, como crist\u00e3o exemplar, suporta pacientemente os sofrimentos. E n\u00e3o s\u00e3o poucos. Ainda jovem, aos 28 anos, ap\u00f3s a guerra contra os ingleses, come\u00e7a a sofrer de febre ter\u00e7\u00e3 (uma esp\u00e9cie de mal\u00e1ria). Em 1244, sofre com uma diarreia t\u00e3o grave, que chegam a consider\u00e1-lo morto. Nesta ocasi\u00e3o faz o voto de partir em cruzada<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a>. As doen\u00e7as o perseguem, sejam as cr\u00f4nicas, como a febre ocasionada pelo paludismo, sejam outras que surgem em v\u00e1rias ocasi\u00f5es: erisipela, diarreia, escorbuto. Mas todos testemunham a paci\u00eancia do rei frente aos sofrimentos. Joinville testemunhou os sofrimentos do rei durante a s\u00e9tima cruzada. Segundo ele, o rei, quando prisioneiro dos mu\u00e7ulmanos, sofria de grave infec\u00e7\u00e3o intestinal. Estava muito p\u00e1lido, \u201ccom os ossos da coluna todos t\u00e3o pontudos e t\u00e3o fraco que era preciso que um homem de sua criadagem o levasse para todas as suas necessidades&#8230; \u00c0 noite desmaiou por v\u00e1rias vezes; e, por causa da forte disenteria que tinha, foi preciso cortar o fundilho de suas\u00a0 ceroulas, tantas vezes ele descia para ir ao banheiro\u201d<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a>. Na partida para a oitava cruzada, o rei estava t\u00e3o fraco que provocou a indigna\u00e7\u00e3o de seu amigo Joinville, com aqueles que o deixaram partir naquele estado. O rei mal podia caminhar, pela fraqueza: \u201cele n\u00e3o podia aguentar ir nem de carro\u00e7a nem a cavalo. Sua fraqueza era t\u00e3o grande que ele se resignou que eu o carregasse&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a>. Sua morte ser\u00e1 causada pelo tifo. Mas Lu\u00eds n\u00e3o \u00e9 um rei triste. Le Goff afirma: \u201cTalvez nisso tamb\u00e9m haja um tra\u00e7o de espiritualidade franciscana\u201d<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[38]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>2.2.3 Lu\u00eds e o combate aos inimigos da Igreja<\/strong><\/p>\n<p>Uma das mais s\u00e9rias amea\u00e7as \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 na passagem do s\u00e9culo XII para o s\u00e9culo XIII foi a heresia c\u00e1tara. Por ter seu centro principalmente na regi\u00e3o de Albi, no sul da Fran\u00e7a, eram tamb\u00e9m chamados de Albigenses.\u00a0 No auge do reinado de Lu\u00eds, ap\u00f3s o duro combate da Igreja, inclusive com a prega\u00e7\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio e outros grandes nomes das Ordens mendicantes, a heresia c\u00e1tara havia se enfraquecido, mas permanecia como uma amea\u00e7a. Lu\u00eds, fiel aos ditames do IV Conc\u00edlio do Latr\u00e3o (1215), que determinava que os soberanos crist\u00e3os dessem combate \u00e0 heresia, recomenda ao filho nos seus ensinamentos: \u201cPersiga os hereges e as pessoas ruins de tua terra tanto quanto possas, pedindo como \u00e9 necess\u00e1rio o s\u00e1bio conselho das pessoas boas a fim de purgar assim a terra\u201d. Na concep\u00e7\u00e3o medieval de colabora\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado, o soberano \u00e9 o defensor da f\u00e9 e a realeza \u00e9 o bra\u00e7o secular da Igreja, que deve \u201cca\u00e7ar\u201d e combater os hereges.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos mu\u00e7ulmanos, o fato de se empenhar na realiza\u00e7\u00e3o de duas cruzadas exemplifica bem o quanto esta atividade era importante para Lu\u00eds. Os mu\u00e7ulmanos eram, sobretudo, os infi\u00e9is, e deveriam ser convertidos. De um rei piedoso crist\u00e3o, o m\u00ednimo que se esperava \u00e9 que se empenhasse na defesa da f\u00e9 frente ao isl\u00e3<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a>. No entanto, em que pese a viol\u00eancia das cruzadas, em v\u00e1rios momentos, especificamente da primeira, Lu\u00eds entra em di\u00e1logo com os mu\u00e7ulmanos. Algumas fontes afirmam que, durante sua pris\u00e3o, surgiu um afeto e respeito m\u00fatuo entre o rei e o sult\u00e3o que o mantinha prisioneiro. Outros autores relatam que os mu\u00e7ulmanos teriam pedido a Lu\u00eds que se tornasse seu chefe. O bi\u00f3grafo Godofredo de Beualieu, testemunha ocular da morte do rei, revela que, no momento extremo de sua agonia, umas das \u00faltimas palavras balbuciadas pelo rei foram de preocupa\u00e7\u00e3o com a convers\u00e3o dos mu\u00e7ulmanos: \u201ctentemos, pelo amor de Deus, pregar e implantar a f\u00e9 cat\u00f3lica em Tunis. \u00d2h como poder\u00edamos enviar um pregador capaz a Tunis\u201d, e teria citado um pregador que j\u00e1 havia pregado em Tunis, e se tornara conhecido do sult\u00e3o.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds com os judeus \u00e9 mais complexa. Antes de mais nada, n\u00e3o podemos julgar as rela\u00e7\u00f5es entre crist\u00e3os e judeus na Idade M\u00e9dia a partir dos par\u00e2metros contempor\u00e2neos de ecumenismo e toler\u00e2ncia, que s\u00e3o conquistas modernas. Lu\u00eds age como os soberanos crist\u00e3os de seu tempo. Os judeus, embora sejam uma verdadeira religi\u00e3o, s\u00e3o considerados os \u201cassassinos de Cristo\u201d. Lu\u00eds tomou medidas severas contra os mesmos, visando a \u201cpurifica\u00e7\u00e3o do reino\u201d, mas ao mesmo tempo os protegeu do abuso de extremistas. Tamb\u00e9m promoveu a convers\u00e3o de v\u00e1rios deles, e foi padrinho de alguns judeus convertidos.<\/p>\n<p>Outro perigo que rondava o Ocidente medieval era a amea\u00e7a t\u00e1rtara, representada pelos mong\u00f3is. Lu\u00eds acalentava o sonho de aliar-se a eles para combater os mu\u00e7ulmanos. Depois de algumas expedi\u00e7\u00f5es fracassadas, enviadas pelo papa, Lu\u00eds enviou o dominicano Andr\u00e9 de Longjumeau, que tamb\u00e9m n\u00e3o obteve sucesso. Por fim, em 1253, foi enviado o franciscano Guilherme de Roubroek, que se aventurou at\u00e9 a Mong\u00f3lia, ao Grande Khan, em Karakorum, no cora\u00e7\u00e3o do reino mongol. Apesar da valiosa rela\u00e7\u00e3o que o franciscano fez da vida e dos costumes mong\u00f3is, o resultado desta miss\u00e3o tamb\u00e9m foi ef\u00eamero. Finalmente, em 1264, uma embaixada de 24 mong\u00f3is, tendo \u00e0 frente dois frades dominicanos como int\u00e9rpretes, se apresentou em Paris, propondo ao rei uma alian\u00e7a contra os mu\u00e7ulmanos da S\u00edria. Tamb\u00e9m esta tentativa de alian\u00e7a n\u00e3o frutificou.<\/p>\n<p><strong>O franciscanismo reformador de Lu\u00eds de Fran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>A proximidade de Lu\u00eds com os franciscanos e dominicanos \u00e9-nos atestada por uma anedota, transmitida por seus bi\u00f3grafos: \u201cGodofredo de Beaulieu e Saint-Pathus afirmam que Lu\u00eds quisera fazer-se dominicano ou franciscano, mas n\u00e3o soube decidir-se sobre as duas ordens, e a rainha Margarida (sua esposa) \u00e0 qual teria manifestado a sua inten\u00e7\u00e3o de deix\u00e1-la para entrar no convento na altura em que fosse poss\u00edvel transmitir a coroa ao filho maior, t\u00ea-lo-ia dissuadido de tal prop\u00f3sito\u201d<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\">[40]<\/a>. Embora contestado pelos historiadores modernos, este fato, relatado pelos bi\u00f3grafos contempor\u00e2neos ao santo testemunham a proximidade de Lu\u00eds, sen\u00e3o a simpatia de que gozavam diante dele os franciscanos e dominicanos. Mais s\u00e9ria \u00e9, no entanto, a afirma\u00e7\u00e3o de que ele teria desejado que seu segundo e terceiro filhos se tornassem frades, um dominicano, outro franciscano<a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[41]<\/a>. Por outro lado, como j\u00e1 acenamos, os bi\u00f3grafos s\u00e3o concordes sobre a cr\u00edtica que se fazia no reino, \u00e0 imagem de um rei manipulado pelos mendicantes, sendo ele mesmo, quase um frade sobre o trono.<\/p>\n<p>O pesquisador Jean-Philippe Genet afirma que os dominicanos exerceram uma influ\u00eancia fundamental sobre o pensamento pol\u00edtico de S\u00e3o Lu\u00eds. A ideia de um rei como padr\u00e3o de comportamento moral, um rei com a virtude da sabedoria, teria sido constru\u00edda e seguida por Lu\u00eds, seguindo os ditames dos s\u00e1bios te\u00f3logos e fil\u00f3sofos dominicanos que dominavam a universidade de Paris, nos anos 1250-1280<a href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref42\">[42]<\/a>. Apesar de Le Goff afirmar que as \u00a0elocubra\u00e7\u00f5es filos\u00f3fico-teol\u00f3gicas que fervilhavam na universidade de Paris n\u00e3o interessavam a Lu\u00eds, o fato \u00e9 que Lu\u00eds se cercou de grandes nomes da intelectualidade de seu tempo, pensadores, fil\u00f3sofos e te\u00f3logos, principalmente franciscanos e dominicanos, que colaboraram na administra\u00e7\u00e3o e ajudaram a dar uma determinada dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao reino. Le Goff afirma que havia em Paris \u201cuma \u2018academia pol\u00edtica\u2019 de S\u00e3o Lu\u00eds cujo cora\u00e7\u00e3o era o convento dos jacobinos, o c\u00e9lebre convento de Saint-Jacques dos dominicanos parisienses\u201d<a href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref43\">[43]<\/a>. Vicente de Beauvais, dominicano, autor do <em>Speculum Maius<\/em>, a principal enciclop\u00e9dia utilizada na Idade M\u00e9dia, era um de seus mais pr\u00f3ximos colaboradores<a href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref44\">[44]<\/a>.<\/p>\n<p>Podemos afirmar que dominicanos e franciscanos rivalizavam no papel de conselheiros do rei. Da parte dos franciscanos, por\u00e9m, gra\u00e7as \u00e0s pesquisas dos \u00faltimos anos, sabemos que Lu\u00eds tinha um apre\u00e7o particular pelos frades empenhados numa viv\u00eancia mais radical dos ditames do Evangelho, que chegavam quase a se constituir uma \u201cseita\u201d dentro da Ordem franciscana. Referimo-nos, aqui, \u00e0 proximidade de Lu\u00eds com o movimento dos \u201cEspirituais\u201d<a href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref45\">[45]<\/a>. E nesse particular, um encontro vai causar profunda impress\u00e3o no rei da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>3.1 O encontro com frei Hugo de Digne<\/strong><\/p>\n<p>Em 1254, voltando do Oriente derrotado, ap\u00f3s a morte da m\u00e3e, Lu\u00eds ouve falar de frei Hugo de Digne, um frade franciscano da corrente dos espirituais, defensor das ideias de Joaquim de Fiore. Frei Hugo era um grande pregador, que arrebatava multid\u00f5es<a href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref46\">[46]<\/a>. Em Hy\u00e8res, Lu\u00eds pediu para trazerem o frade \u00e0 sua presen\u00e7a, pois queria ouvi-lo pregar. Ficou t\u00e3o maravilhado que queria, a todo custo, que o frade se juntasse a seu s\u00e9quito que retornava para Paris. Hugo se negou peremptoriamente. Acabou ficando apenas dois dias com Lu\u00eds, mas este encontro marcou, a partir de ent\u00e3o, a vida e o governo do rei. Hugo, segundo as palavras do bi\u00f3grafo de Lu\u00eds, Joinville, exortou ao rei que este \u201cdeveria se conduzir de acordo com seu povo\u201d. No fim do serm\u00e3o o frade afirmou que nunca tinha lido que um reino ou dom\u00ednio se tivesse perdido ou passado a um outro senhor, \u201ca n\u00e3o ser por v\u00edcio de justi\u00e7a\u201d. E terminou: \u201cOra, que atente o rei, continuou, uma vez que vai para a Fran\u00e7a, que fa\u00e7a tanta justi\u00e7a a seu povo que o povo assim conserve o amor de Deus, de tal maneira que Deus n\u00e3o lhe tire o reino de Fran\u00e7a com a vida\u201d<a href=\"#_ftn47\" name=\"_ftnref47\">[47]<\/a>.<\/p>\n<p>Depois de 1254, Lu\u00eds assumiu um comportamento sempre mais austero. No dizer de seus bi\u00f3grafos, passou \u201cda simplicidade, \u00e0 austeridade\u201d. E este esp\u00edrito passou \u00e0 atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Um sinal claro desta orienta\u00e7\u00e3o foi a chamada \u201cGrande Ordena\u00e7\u00e3o\u201d, de dezembro de 1254. Trata-se de uma s\u00e9rie de determina\u00e7\u00f5es legais que objetivavam reformar profundamente o governo do reino. Entre elas, destacam-se aquelas visando uma moraliza\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, para um governo justo (\u00e9tico e n\u00e3o corrupto, dir\u00edamos hoje). Os oficiais do reino deveriam fazer justi\u00e7a sem fazer distin\u00e7\u00e3o de pessoas. N\u00e3o deveriam aceitar presentes, nem para suas mulheres ou filhos. Tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos costumes e \u00e0 moral eram promulgadas medidas severas: contra a blasf\u00eamia, contra os jogos, contra a prostitui\u00e7\u00e3o, contra a usura. No esp\u00edrito da \u00e9poca, s\u00e3o emanadas tamb\u00e9m leis contra os judeus.<\/p>\n<p><strong>3.2 Outros franciscanos influentes no \u201centourage\u201d de Lu\u00eds<\/strong><\/p>\n<p>O encontro e as palavras prof\u00e9ticas de Hugo de Digne certamente impressionaram profundamente o esp\u00edrito de Lu\u00eds, educado desde crian\u00e7a num ambiente de piedade, que favorecia uma m\u00edstica religiosa e devocional, de busca de realizar, na terra, o reino de Deus. Mas j\u00e1 antes deste encontro o rei mantinha, em sua \u201centourage\u201d, al\u00e9m dos dominicanos, religiosos franciscanos empenhados com a seriedade da reforma dos costumes. Um dos franciscanos mais pr\u00f3ximos de Lu\u00eds \u00e9 o mestre da Universidade de Paris, Eudes de Rigaud.<\/p>\n<p>Eudes era mestre regente do convento de Paris e mestre de teologia na universidade daquela cidade. Foi o sucessor de Jean de la Rochelle e de Alexandre de Hales, e foi mestre de S\u00e3o Boaventura. Eudes \u00e9 um dos \u201cQuatro Mestres\u201d, que redigiram o coment\u00e1rio oficial da Regra franciscana, em 1242<a href=\"#_ftn48\" name=\"_ftnref48\">[48]<\/a>. Em 1248 foi nomeado arcebispo da diocese de Rouen, a mais importante da Fran\u00e7a, mas continuou fazendo parte do c\u00edrculo dos amigos do rei, sendo um dos frades franciscanos mais \u00edntimos de Lu\u00eds: \u201cSeu mais pr\u00f3ximo conselheiro e amigo\u201d, nas palavras de Le Goff<a href=\"#_ftn49\" name=\"_ftnref49\">[49]<\/a>.<\/p>\n<p>Em 1255 ele celebrou o casamento da filha de Lu\u00eds, Isabel. A partir de 1258 Eudes se encontra frequentemente na corte. Em novembro de 1258 presidiu a missa no anivers\u00e1rio de morte de Lu\u00eds VIII, pai do rei. Os documentos testemunham v\u00e1rios encontros do rei com o arcebispo franciscano, em 1259 e 1260, quando da morte de seu herdeiro, o primog\u00eanito Lu\u00eds. Em 1261 ele foi convidado a pregar na Saint-Chapelle. Sabe-se que, quando o rei estava na abadia de Royalmont, pedia que Eudes presidisse a celebra\u00e7\u00e3o, como na festa de\u00a0 Pentecostes de 1262. A presen\u00e7a de Eudes na corte se justifica tamb\u00e9m pelas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas que o rei lhe confiara, como o tratado entre a Fran\u00e7a e a Inglaterra, em 1259. Em 1264 Eudes tornou-se membro do Parlamento de Paris.<\/p>\n<p>Destaque-se, no comportamento do arcebispo franciscano, seu esp\u00edrito reformador e de combate aos abusos no clero regular e secular. Visitando incansavelmente todos os mosteiros, abadias e conventos masculinos e femininos de sua arquidiocese, Eudes conseguiu dar uma nova imagem \u00e0 Igreja. Seus escritos somam mais de mil p\u00e1ginas, consistindo hoje num documento de valor inestim\u00e1vel para conhecermos a realidade da Igreja em uma regi\u00e3o da Fran\u00e7a, no s\u00e9culo XIII. Antes de morrer, Lu\u00eds o designou um de seus executores testament\u00e1rios. Eudes tamb\u00e9m tornou-se membro do Conselho de Reg\u00eancia encarregado de governar a Fran\u00e7a, sendo o primeiro membro \u00a0nomeado pelo rei Felipe III, sucessor de Lu\u00eds, quando ainda se encontrava em Cartago, em outubro de 1270.<\/p>\n<p>Ainda no campo intelectual, outro mestre franciscano de Paris muito pr\u00f3ximo do rei \u00e9 Gilberto de Tournai. Das poucas informa\u00e7\u00f5es que nos chegaram sobre ele, sabemos que era mestre de teologia em Paris, amigo de S\u00e3o Boaventura e de Lu\u00eds, e pregador de cruzadas. Escreveu v\u00e1rias obras de cunho pedag\u00f3gico. Algumas dessas obras nasceram da amizade com o rei, como a <em>Eruditio Regum et Principum<\/em> (Educa\u00e7\u00e3o dos reis e dos pr\u00edncipes), uma cole\u00e7\u00e3o de tr\u00eas cartas escritas em 1259, endere\u00e7adas a Lu\u00eds, versando sobre os princ\u00edpios necess\u00e1rios ao bom governo dos pr\u00edncipes<a href=\"#_ftn50\" name=\"_ftnref50\">[50]<\/a>. Depois de 1261, Gilberto abandonou a c\u00e1tedra para viver uma vida de ora\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o. A pedido de Boaventura, participou do 2\u00ba. Conc\u00edlio de Li\u00e3o, em 1274, onde teria apresentado sua obra <em>De Scandalis Ecclesiae<\/em><a href=\"#_ftn51\" name=\"_ftnref51\"><em><strong>[51]<\/strong><\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Boaventura de Bagnoregio era um dos maiores pregadores da \u00e9poca, mestre da universidade de Paris at\u00e9 1257, quando foi eleito Ministro Geral dos Franciscanos, tamb\u00e9m era admirado por Lu\u00eds, que o convidava para pregar em sua presen\u00e7a. Boaventura pregou pelo menos dezenove vezes diante do rei.<\/p>\n<p>A proximidade e intimidade entre Lu\u00eds e os franciscanos mostra-se numa querela s\u00e9ria, que estourou na Universidade de Paris. Entre 1254 e 1257, alguns mestres seculares colocaram em quest\u00e3o o estilo de vida dos mendicantes, uma novidade que, segundo eles, ia contra o Direito Can\u00f4nico, especificamente por causa do princ\u00edpio mendicante e do ensino universit\u00e1rio e da prega\u00e7\u00e3o. O chefe dos seculares era Guilherme de Saint-Amour. Depois de uma acirrada pol\u00eamica, com a interven\u00e7\u00e3o dos maiores mestres da \u00e9poca, Boaventura e Tom\u00e1s de Aquino, entre outros, a Santa S\u00e9 reconheceu, por duas vezes, o direito dos frades. O rei Lu\u00eds executou imediatamente as ordens em favor dos frades. Obrigou Saint-Amour a entregar seus cargos e benef\u00edcios, proibiu-o de pregar e ensinar, e o exilou da Fran\u00e7a<a href=\"#_ftn52\" name=\"_ftnref52\">[52]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>3.3 Um encontro de Lu\u00eds com os frades<\/strong><\/p>\n<p>Frei Salimbene de Parma, cronista medieval, \u00e9 o respons\u00e1vel pela descri\u00e7\u00e3o de um dos mais belos quadros de conviv\u00eancia do rei Lu\u00eds com os franciscanos. Salimbene viajou a Sens, na Fran\u00e7a, para participar do Cap\u00edtulo Geral. Al\u00e9m das autoridades da Ordem, como o Ministro Geral Jo\u00e3o de Parma, chega ao local o rei da Fran\u00e7a, dirigindo-se em peregrina\u00e7\u00e3o para a cruzada. Salimbene descreve a cena da chegada do rei. Povo e religiosos se aglomeram \u00e0 espera da chegada do rei. Em meio \u00e0 multid\u00e3o, perdido, porque se atrasara e os outros frades j\u00e1 tinham ido ao encontro do rei, encontra-se o franciscano Eudes de Rigaud, arcebispo de Rouen, que, mitra na cabe\u00e7a e cajado \u00e0 m\u00e3o, gritava: \u201cOnde est\u00e1 o rei? Onde est\u00e1 o rei?\u201d. Salimbene passa a descrever o rei: \u201cO rei era esbelto e delicado, magro e alto, tendo um rosto angelical e face simp\u00e1tica. E vinha \u00e0 igreja dos Frades menores n\u00e3o na pompa r\u00e9gia, mas no h\u00e1bito de peregrino, tendo uma sacola e bord\u00e3o de peregrina\u00e7\u00e3o ao pesco\u00e7o que decoravam muito bem as esp\u00e1duas do rei. E vinha n\u00e3o a cavalo, mas a p\u00e9; e os seus irm\u00e3os de sangue, que eram tr\u00eas condes, [&#8230;] seguiam-no em semelhante humildade e h\u00e1bito. [&#8230;] Na verdade, parecia mais um monge, quanto \u00e0 devo\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, do que um cavaleiro, quanto \u00e0s armas de guerra. E assim, entrando na igreja dos irm\u00e3os, tendo feito a genuflex\u00e3o mui devotamente diante do altar, rezou. [&#8230;] Em seguida, o rei disse, com voz bem clara que ningu\u00e9m entrasse na sala do Cap\u00edtulo, a n\u00e3o ser os cavaleiros, exceto os irm\u00e3os, aos quais ele queria falar. E quando est\u00e1vamos reunidos no Cap\u00edtulo, o rei come\u00e7ou a relatar seus atos, recomendando-se a si mesmo, aos irm\u00e3os e a rainha sua m\u00e3e, e toda sua comitiva; e, fazendo genuflex\u00e3o com muita devo\u00e7\u00e3o, pediu as ora\u00e7\u00f5es e os sufr\u00e1gios dos irm\u00e3os\u201d<a href=\"#_ftn53\" name=\"_ftnref53\">[53]<\/a>.<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o de Parma tomou a palavra e prometeu as ora\u00e7\u00f5es da Ordem, devendo cada padre celebrar quatro missas pelo rei. Ap\u00f3s o encontro, seguiu-se um lauto banquete, tudo \u00e0s expensas do rei. Frei Jo\u00e3o de Parma, embora tendo lugar reservado ao lado do rei, preferiu sentar-se com os mais pobres<a href=\"#_ftn54\" name=\"_ftnref54\">[54]<\/a>.<\/p>\n<p>No dia seguinte o rei retomou seu caminho em dire\u00e7\u00e3o ao porto que o levaria para a Terra Santa. Mas ainda faria v\u00e1rios desvios, para visitar os eremit\u00e9rios franciscanos pelo caminho, onde se punha em ora\u00e7\u00e3o. De novo \u00e9 frei Salimbene quem nos descreve uma destas visitas. Em V\u00e9zelay, no dia 21 de junho de 1248, o rei e seus tr\u00eas irm\u00e3os dirigiram-se ao convento dos frades, modesto e rec\u00e9m-constru\u00eddo. Entraram na igreja e, embora os frades lhes oferecessem bancos e cadeiras, o rei se senta no ch\u00e3o, na poeira, j\u00e1 que o piso da igreja ainda n\u00e3o estava pavimentado. Sentados todos no ch\u00e3o, em c\u00edrculo em volta do rei, este lhes dirige a palavra e se recomenda \u00e0s suas ora\u00e7\u00f5es<a href=\"#_ftn55\" name=\"_ftnref55\">[55]<\/a>.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A inf\u00e2ncia do pr\u00edncipe Lu\u00eds foi marcada pela presen\u00e7a dos primeiros franciscanos que chegaram \u00e0 Fran\u00e7a. Religiosos austeros, piedosos, penitentes, mas ao mesmo tempo plenamente inseridos nos centros urbanos que surgiam, cientes de suas labutas e ambiguidades cotidianas, seja na pol\u00edtica, seja no mundo acad\u00eamico ou eclesi\u00e1stico-religioso.<\/p>\n<p>Franciscanos e dominicanos influenciaram o modo de Lu\u00eds impostar a pol\u00edtica na Fran\u00e7a. Ambas as Ordens contavam com homens preparados, intelectuais e pensadores que dominavam as c\u00e1tedras na universidade de Paris. Da parte especificamente franciscana, \u00e9 interessante notar que Lu\u00eds se cerca daqueles frades imbu\u00eddos de uma nova vis\u00e3o do modo de ser religioso e de impostar as rela\u00e7\u00f5es com o mundo. O empenho nas reformas, a radicalidade de vida, o combate aos abusos, a vis\u00e3o aleg\u00f3rica, apocal\u00edptica e milenarista, prospectando um mundo diferente, transformado pela radicalidade evang\u00e9lica, marcam a vida destes homens. Mas n\u00e3o s\u00e3o monges, isolados nos eremit\u00e9rios e mosteiros, distantes e alheios aos problemas humanos. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o religiosos empenhados em buscar respostas \u00e0s grandes quest\u00f5es e desafios que aquele momento e aquela sociedade lhes prop\u00f5em, vivenciando-as e conhecendo-as a partir de dentro. Le Goff afirma que \u201cS\u00e3o Lu\u00eds&#8230; entre os franciscanos estava inclinado a seguir os joaquimitas: mas ele se cerca daqueles que se imp\u00f5em por sua influ\u00eancia na sociedade da segunda metade do s\u00e9culo XIII, quer dizer, pessoas da Igreja que buscam antes de tudo achar um <em>modus vivendi<\/em> entre as novas sedu\u00e7\u00f5es da vida, o desenvolvimento de uma economia de troca e empr\u00e9stimo, e as necessidades da salva\u00e7\u00e3o. Pessoas partid\u00e1rias tanto do compromisso religioso como do compromisso social, de uma evangeliza\u00e7\u00e3o da sociedade nova equilibrando o admiss\u00edvel e o inaceit\u00e1vel\u201d<a href=\"#_ftn56\" name=\"_ftnref56\">[56]<\/a>.<\/p>\n<p>Os franciscanos correspondem muito bem a esse novo <em>modus vivendi<\/em>: s\u00e3o homens de uma piedade e seriedade religiosa a toda prova, fautores da pobreza e da simplicidade, vivem nas cidades, e est\u00e3o nos grandes centros de estudos, discutindo em p\u00e9 de igualdade com os maiores pensadores de seu tempo, dando respostas pertinentes e eficazes aos desafios dos novos tempos. S\u00e3o homens que entendem as necessidades, a linguagem e os desafios das cidades. Encontram-se, com a mesma desenvoltura, nos mais simples e humildes tug\u00farios ou nos pal\u00e1cios e parlamentos dos reis. Homens preparados e capazes de corresponder \u00e0s exig\u00eancias dos esp\u00edritos mais s\u00e9rios e preocupados em impostar uma pol\u00edtica de governo que correspondesse aos des\u00edgnios de Deus. Mas, ao mesmo tempo, capazes de guiar os esp\u00edritos humanos nas \u00e1rduas batalhas espirituais travadas dia a dia na busca da salva\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria alma. Com os disc\u00edpulos de Francisco de Assis, Lu\u00eds de Fran\u00e7a aprendeu a cuidar bem da cidade dos homens, sem perder de vista a Cidade de Deus.<\/p>\n<p>Na peregrina\u00e7\u00e3o em busca da salva\u00e7\u00e3o, a exemplo de Francisco de Assis, Lu\u00eds seguiu os passos do Cristo da Paix\u00e3o. Atrav\u00e9s da penit\u00eancia, do sacrif\u00edcio e da caridade para com o pr\u00f3ximo, os pequenos e pobres, conseguiu atingir a meta. Na decis\u00e3o de partir para a segunda cruzada, doente e enfraquecido, estava a certeza de que a derrota da primeira fora causada por sua culpa, por causa de seus pecados. Assim, a cruzada revela-se como uma via purgativa, de salva\u00e7\u00e3o e de conforma\u00e7\u00e3o com o Cristo pobre e sofredor<a href=\"#_ftn57\" name=\"_ftnref57\">[57]<\/a>. A morte na cruzada \u00e9 a conclus\u00e3o ideal de sua vida.<\/p>\n<p>As palavras dirigidas ao filho no seu Testamento Espiritual representam o ponto de chegada de uma vida pautada pela busca do bem comum, e pelo empenho pela pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o, seguindo as pegadas de Cristo: \u201cFilho dileto, come\u00e7o por querer ensinar-te a amar ao Senhor, teu Deus, com todo cora\u00e7\u00e3o, com todas as for\u00e7as, pois sem isto n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o&#8230; <strong>Guarda, meu filho, um cora\u00e7\u00e3o compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos e, quanto puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benef\u00edcios que te foram dados por Deus, rende-lhe gra\u00e7as para te tornares digno de receber maiores. Em rela\u00e7\u00e3o a teus s\u00fabditos, s\u00ea justo at\u00e9 o extremo da justi\u00e7a, sem te desviares; e p\u00f5e-te sempre de prefer\u00eancia\u00a0 da parte do pobre mais do que do rico, at\u00e9 estares bem certo da verdade. Procura com empenho <\/strong>que todos os teus s\u00faditos sejam protegidos pela justi\u00e7a e pela paz, principalmente as pessoas eclesi\u00e1sticas e religiosas. S\u00ea dedicado e obediente a nossa m\u00e3e, a Igreja Romana, ao Sumo Pont\u00edfice, como pai espiritual. Esfor\u00e7a-te por remover de teu pa\u00eds todo pecado, sobretudo o de blasf\u00eamia e heresia. \u00d3 filho muito amado, dou-te, enfim toda b\u00ean\u00e7\u00e3o que um pai pode dar ao filho e toda Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a gra\u00e7a de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos v\u00ea-lo, am\u00e1-lo e louv\u00e1-lo sem fim. Am\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Livros:<\/strong><\/p>\n<p>Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradu\u00e7\u00e3o de Celso M\u00e1rcio Teixeira, Vozes\/FFB, Petr\u00f3polis 2004, <em>Primeira Vida de Celano<\/em>; <em>Compila\u00e7\u00e3o de Assis<\/em>; <em>Cr\u00f4nica de Jord\u00e3o de Jano<\/em>; <em>Cr\u00f4nica de Frei Salimbene de Adam (de Parma)<\/em>; <em>Testemunhos Menores \u2013 Jacques de Vitry<\/em>.<\/p>\n<p>Guillaume de Nangis<em>, Vie et vertus de Saint Louis<\/em>, Librarie de la Soci\u00e9t\u00e9 Bibiographique, Paris 1877.<\/p>\n<p>Joinville, Jean, <em>Histoire de Saint Louis<\/em>, edi\u00e7\u00e3o de Natalis de Wailly. Paris: Librairie Hachette, 1921.<\/p>\n<p>le Goff, Jacques, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, Record 1999.<\/p>\n<p>____________, <em>Uma longa Idade M\u00e9dia<\/em>, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, RJ 2008.<\/p>\n<p>____________, <em>O maravilhoso e o cotidiano no Ocidente Medieval<\/em>, Edi\u00e7\u00f5es 70, Lisboa, Portugal 1985.<\/p>\n<p>____________, <em>S\u00e3o Francisco de Assis<\/em>, Record, RJ e SP 2011.<\/p>\n<p>Madaule, J., <em>Saint Louis de France<\/em>, Aux Editions Franciscanies, Paris 1946.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Artigos:<\/p>\n<p>Cardini, F., <em>Nella presenza del Soldan superbo: Bernardo, Francesco, Bonaventura e il superamento dell\u2019idea di Crociata<\/em>, Studi Francescani, 71, 1974, 199-250.<\/p>\n<p>Carolus-Barre L., <em>Guillaume de Saint-Pathus, confesseur de la reine Marguerite et biografe de Saint-Louis<\/em>. Archivum Franciscanum Historicum, Firenze 1986, vol.\u00a079,\u00a0n<sup>o<\/sup>1-2,\u00a0pp.\u00a0142-152.<\/p>\n<p>D\u2019Aincreville, P., <em>Le voyage de Salimbene en France<\/em>, La France Franciscaine, t. I, 1912, p. 21-75.<\/p>\n<p>Miatello, A. L. Pereira, <em>Os frades mendicantes e a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no s\u00e9culo XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai)<\/em>, XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012<\/p>\n<p>Miatello, A. L. Pereira, <em>O rei e o reino sob o olhar do pregador: Vicente de Beauvais e a realeza no s\u00e9culo XIII<\/em>, Revista Brasileira de Hist\u00f3ria, vol. 32, n\u00ba 63.<\/p>\n<p>Peano, P., <em>Resenha de obra sobre frei Hugo de Digne<\/em>, Archivum Franciscanum Historicum, 79, 1986, 14-19.<\/p>\n<p><strong>Arquivos eletr\u00f4nicos:<\/strong><\/p>\n<p>Carolus-Barr\u00e9 Louis, <em>Le Proc\u00e8s de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution.<\/em> Rome : \u00c9cole Fran\u00e7aise de Rome, 1994, 328 p. (Publications de l&#8217;\u00c9cole fran\u00e7aise de Rome, 195). <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/ouvrages\/home\/prescript\/monographie\/efr_0000-0000_1994_edc_195_1\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/ouvrages\/home\/prescript\/monographie\/efr_0000-0000_1994_edc_195_1<\/a><\/p>\n<p>Delaborde Henri-Fran\u00e7ois. <em>Le texte primitif des Enseignements de saint Louis \u00e0 son fils<\/em>. In: Biblioth\u00e8que de l&#8217;\u00e9cole des chartes. 1912, tome 73. pp. 73-100. Doi : 10.3406\/bec. 1912.448470. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470<\/a><\/p>\n<p>Genet, Jean-Philippe. <em>Saint Louis : le roi politique<\/em>. In: M\u00e9di\u00e9vales, N\u00b034, 1998. pp. 25-34. doi : 10.3406\/medi.1998.1410. \u00a0<a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410<\/a><\/p>\n<p>Glorieus, Paul, <em>Pr\u00e9lats fran\u00e7ais contre religieux mendiants. <\/em><em>Autour de la bulle: \u201cAd fructus \u00faberes\u201d (1281-1290). <\/em>In Revue d&#8217;histoire de l&#8217;\u00c9glise de France. Tome 11. N\u00b052, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406\/rhef.1925.2360. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_%202360\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360<\/a>.<\/p>\n<p>Laband, Edmond-R\u00e8ne, <em>Saint Louis P\u00e8lerin<\/em>. In: Revue d&#8217;histoire de l&#8217;\u00c9glise de France. Tome 57. N\u00b0158, 1971. pp. 5-18. Doi : 10.3406\/rhef.1971.1856.\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856<\/a><\/p>\n<p>Mercuri, Chiara. <em>San Luigi e la crociata<\/em>. In: M\u00e9langes de l&#8217;Ecole fran\u00e7aise de Rome. Moyen-Age, Temps modernes, T. 108, N\u00b01. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406\/mefr.1996.3483. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483<\/a><\/p>\n<p>Stein, Henri, <em>Pierre Lombard, m\u00e9decin de Saint Louis<\/em> In: Biblioth\u00e8que de l&#8217;\u00e9cole des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406\/bec.1939.449186.\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A realiza\u00e7\u00e3o do IV Conc\u00edlio do Latr\u00e3o (1215), com seus c\u00e2nones relacionados \u00e0 vida crist\u00e3 em geral, \u00e0 prega\u00e7\u00e3o, \u00e0s cruzadas, \u00e0s Ordens mendicantes, ao combate \u00e0s heresias, entre outros, serve-nos como paradigma para ilustrar a efervesc\u00eancia espiritual do momento.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> O que hoje conhecemos como Fran\u00e7a era, no s\u00e9culo XIII, composto de uma s\u00e9rie de reinos, mais ou menos independentes, sob controle do monarca franc\u00eas. S\u00f3 no s\u00e9culo XV \u00e9 que os reis v\u00e3o conseguir o dom\u00ednio efetivo de todo o territ\u00f3rio, que corresponde \u00e0 Fran\u00e7a atual.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Uma obra imprescind\u00edvel para se conhecer a vida de Lu\u00eds de Fran\u00e7a, constitu\u00edda de quase 900 p\u00e1ginas de conhecimento e erudi\u00e7\u00e3o medieval: Le Goff, Jacques, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, Record, RJ e SP 1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Tratar da vida de um rei santo nos coloca o s\u00e9rio risco de cairmos em lugares-comuns, sem uma vis\u00e3o cr\u00edtica. N\u00e3o ignoramos o uso ideol\u00f3gico que se fez da atua\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds, nem o uso pol\u00edtico que se fez da religi\u00e3o, ou o modo como seus bi\u00f3grafos utilizaram-se de sua piedade e devo\u00e7\u00e3o, para criar a imagem de um rei santo como governante ideal. Varias destas facetas foram e continuam sendo exploradas nos meios acad\u00eamicos. Do mesmo modo, n\u00e3o ignoramos a t\u00eanue linha que separa a biografia da hagiografia. Nas poucas p\u00e1ginas de um artigo, por\u00e9m, n\u00e3o podemos fazer a \u201cexegese\u201d dos gestos religiosos e pol\u00edticos de Lu\u00eds, como foram apresentados por seus bi\u00f3grafos, ou o modo como foram assimilados, apropriados e, em alguns casos, manipulados em fun\u00e7\u00e3o do poder.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Quando da morte de S\u00e3o Francisco, os frades de Assis enviaram de presente \u00e0 m\u00e3e do rei o travesseiro que o santo costumava usar durante sua doen\u00e7a. Tom\u00e1s de Celano faz refer\u00eancia aos milagres realizados na Fran\u00e7a atrav\u00e9s desta rel\u00edquia: \u201cQuantas maravilhas Francisco realiza somente na Fran\u00e7a, aonde acorrem o rei e a rainha dos franceses e todos os grandes para beijar e venerar o travesseiro que S\u00e3o Francisco usava na enfermidade?\u201d. Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradu\u00e7\u00e3o de Celso M\u00e1rcio Teixeira, Vozes\/FFB, Petr\u00f3polis 2004, <em>Primeira Vida de Celano<\/em> 120, p. 283.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> A Fran\u00e7a tem este t\u00edtulo pelo fato de que Cl\u00f3vis, o rei dos Francos (tribo b\u00e1rbara que vai dar origem \u00e0 Fran\u00e7a), ter sido batizado em 499, pelo bispo cat\u00f3lico Rem\u00edgio, sem ter antes passado pela heresia ariana, como os demais povos b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Frase famosa na Idade M\u00e9dia: \u201cUm rei iletrado n\u00e3o passa de um asno coroado\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Jean de Joinville, <em>Histoire de Saint Louis<\/em>, edi\u00e7\u00e3o de Natalis de Wailly. Paris: Librairie Hachette, 1921. Joinville escreveu a <em>Vida<\/em> 30 anos ap\u00f3s a morte de Lu\u00eds e ele mesmo morreu 47 anos depois da morte de S\u00e3o Lu\u00eds, aos 93 anos. Esta biografia tamb\u00e9m foi utilizada pelo papa Bonif\u00e1cio VIII no processo de canoniza\u00e7\u00e3o, em 1297. N\u00e3o nos cabe aqui, dada a complexidade da mat\u00e9ria, fazer uma distin\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica entre \u201cbiografia\u201d e \u201chagiografia\u201d. Utilizaremos, quando necess\u00e1rio, o termo \u201cbiografia\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Uma filha do rei pediu ao franciscano que escrevesse a biografia. Esta ficou pronta em 1303. Sobre Guilherme de Saint-Pathus; Carolus-Barre L., <em>Guillaume de Saint-Pathus, confesseur de la reine Marguerite et biografe de Saint-Louis,<\/em> Archivum Franciscanum Historicum, Firenze 1986, vol.\u00a079,\u00a0n<sup>o<\/sup>1-2,\u00a0pp.\u00a0142-152.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Guillaume de Nangis<em>, Vie et vertus de Saint Louis<\/em>, Librarie de la Soci\u00e9t\u00e9 Bibiographique, Paris 1877.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Quanto \u00e0 perten\u00e7a de Lu\u00eds \u00e0 Ordem Terceira Franciscana, nada consta de uma efetiva profiss\u00e3o, que, por outro lado, nem era comum naqueles in\u00edcios da Ordem. Ele \u00e9, <em>de fato<\/em>, Terceiro Franciscano, e a justo t\u00edtulo Patrono da Ordem Terceira, pela seriedade com que assumiu em sua vida, enquanto leigo, os valores franciscanos. J\u00e1 a iconografia que o representa como membro da Ordem franciscana \u00e9 tardia. Por volta de 1330, Giotto (+1337) pintou um afresco na capela Bardi, na Igreja de Santa Cruz, dos franciscanos de Floren\u00e7a. Nesta capela, que servia de local de reuni\u00e3o dos terceiros florentinos, S\u00e3o Lu\u00eds aparece segurando o cord\u00e3o franciscano. A iconografia representando S\u00e3o Lu\u00eds como pertencente \u00e0 Ordem Terceira vai se multiplicar: 1330, afresco na capela de S\u00e3o Francisco, de Lucca (It\u00e1lia), hoje perdida; 1450, desenho na obra <em>Armorial d\u2019Auvergne<\/em> (Fran\u00e7a), pintado por Guilherme Ravel; terracota de Andrea della Robbia (1435-1525), representando S\u00e3o Francisco entregando a Regra a Santa Isabel e a S\u00e3o Lu\u00eds. As representa\u00e7\u00f5es seguem este padr\u00e3o,\u00a0 em afrescos, quadros e pinturas nas principais igrejas franciscanas, continuando a tradi\u00e7\u00e3o que se afirma ap\u00f3s a canoniza\u00e7\u00e3o: Lu\u00eds de Fran\u00e7a pertenceu \u00e0 Ordem Franciscana. O Of\u00edcio dos Terceiros, de 1550, afirma que \u201cLu\u00eds se associou a S\u00e3o Francisco porque a Regra da Penit\u00eancia dirige seus passos\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Seu bi\u00f3grafo, Jean de Joinville atesta: \u201cNunca um homem leigo de nosso tempo viveu t\u00e3o santamente durante todo o seu tempo, desde o come\u00e7o de seu reinado at\u00e9 o fim de sua vida\u201d. Seu papel de pai dedicado aparece nos <em>Ensinamentos<\/em> que deixou a seu filho. A obra \u00a0refor\u00e7a a imagem do tipo ideal de soberano crist\u00e3o, suas regras de conduta moral e pol\u00edtica. Delaborde Henri-Fran\u00e7ois. <em>Le texte primitif des Enseignements de saint Louis \u00e0 son fils<\/em>. In: Biblioth\u00e8que de l&#8217;\u00e9cole des chartes. 1912, tome 73. pp. 73-100. Doi : 10.3406\/bec. 1912.448470. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Segundo uma fonte contempor\u00e2nea aos fatos, teria sido a m\u00e3e de Lu\u00eds, Branca de Castela, a fazer o voto, com as rel\u00edquias sobre o corpo do filho, num momento de desespero, quando todos achavam que o rei estivesse morto. In Mercuri, Chiara. <em>San Luigi e la crociata<\/em>. In: M\u00e9langes de l&#8217;Ecole fran\u00e7aise de Rome. Moyen-Age, Temps modernes, T. 108, N\u00b01. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406\/mefr.1996.3483. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Sobre a participa\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds em duas cruzadas h\u00e1 muita bibliografia. Citamos apenas algumas obras: Laband, Edmond-R\u00e8ne, <em>Saint Louis P\u00e8lerin<\/em>. In: Revue d&#8217;histoire de l&#8217;\u00c9glise de France. Tome 57. N\u00b0158, 1971. pp. 5-18. Doi : 10.3406\/rhef.1971.1856\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856<\/a>; <em>San Luigi e la Crociata<\/em>, oc.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Le Goff, Jacques, <em>Uma longa Idade M\u00e9dia<\/em>, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, RJ 2008, p. 93.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> O cl\u00e9rigo Jacques de Vitry, escrevendo em 1216 sobre o movimento franciscano vai comentar, sobre os cl\u00e9rigos que n\u00e3o desempenhavam a contento sua fun\u00e7\u00e3o de cuidar dos fi\u00e9is, que eram quais \u201cc\u00e3es mudos, incapazes de ladrar (Is 56,10)\u201d. Fontes Franciscanas e Clarianas, <em>oc<\/em>., <em>Testemunhos Menores \u2013 Jacques de Vitry<\/em>, p. 1423.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Le Goff, Jacques, <em>S. Lu\u00eds<\/em>, p. 661-662. Em outra obra, o mesmo autor afirma: \u201c\u00c9 sabido quanta influ\u00eancia tiveram sobre S\u00e3o Lu\u00eds os mendicantes, de que se rodeou\u201d. In Le Goff, Jacques, <em>O maravilhoso e o Cotidiano no Ocidente Medieval<\/em>, Edi\u00e7\u00f5es 70, Lisboa, Portugal 1985, p. 75. Quando da morte de Lu\u00eds, existiam na Fran\u00e7a mais de duzentos conventos franciscanos e mais de cem dominicanos. Quando voltou da sua primeira cruzada, Lu\u00eds mandou construir uma biblioteca na Saint-Chapelle, onde guardava originais dos maiores escritores eclesi\u00e1sticos, como Agostinho, Ambr\u00f3sio, Jer\u00f4nimo, Greg\u00f3rio, e outros autores. Quando morreu, estes livros foram deixados em heran\u00e7a aos frades menores de Paris, aos dominicanos e aos cistercienses de Royaumont. Ele ajudou ainda sua irm\u00e3, Isabel de Fran\u00e7a, a fundar a abadia das Clarissas de Longchamps, com o t\u00edtulo de Irm\u00e3s Menores da Humildade de Nossa Senhora. Lu\u00eds conseguiu que seu nome e o de sua m\u00e3e fossem inclu\u00eddos no memento dos vivos em todos os mosteiros da Ordem Cisterciense da Fran\u00e7a, bem como dos dominicanos, dos franciscanos e dos beneditinos de Grandmont.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Os Cistercienses s\u00e3o uma reforma do ramo beneditino, surgida na Fran\u00e7a em 1098, buscando uma maior radicalidade na viv\u00eancia da Regra de S\u00e3o Bento. Seu maior nome \u00e9 Bernardo de Claraval (1090-1153).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Na liturgia da Saint-Chapelle, a magn\u00edfica capela pessoal que o rei construiu para colocar as rel\u00edquias, Lu\u00eds institui tr\u00eas of\u00edcios lit\u00fargicos por ano, em honra das rel\u00edquias: um para os dominicanos, um para os franciscanos, e um dividido alternadamente entre as outras ordens religiosas presentes na capital.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> \u201c\u2018Quando ele estava cheio do ardor do Esp\u00edrito Santo\u2019, diz Tom\u00e1s de Celano, \u2018falava franc\u00eas em voz alta\u2019. Nos bosques, cantava em franc\u00eas, pedia como esmola em franc\u00eas, \u00f3leo para a luminaria de San Damiano\u00a0 que tinha consertado\u201d. Le Goff, Jacques, <em>S\u00e3o Francisco de Assis<\/em>, Record, RJ e SP 2011, p. 59.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradu\u00e7\u00e3o de Celso M\u00e1rcio Teixeira, Vozes\/FFB, Petr\u00f3polis 2004: <em>Primeira Vida de Celano<\/em> 74-75, p. 248-249; <em>Compila\u00e7\u00e3o de Assis<\/em> 18, p. 944-945.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Os primeiros frades que chegaram \u00e0 Fran\u00e7a foram confundidos com os albigenses. Depois da interven\u00e7\u00e3o de um bispo e uma carta do papa Hon\u00f3rio, atestando a seriedade de vida dos frades, estes puderam se estabelecer no pa\u00eds. Cfr. <em>Cr\u00f4nicas de frei Jord\u00e3o de Jano<\/em>, in Fontes Franciscanas&#8230;, <em>oc<\/em>., p. 1265. Destru\u00eddo durante a revolu\u00e7\u00e3o francesa, o convento de V\u00e9zelay foi reaberto em 1997, tornando-se um eremit\u00e9rio franciscano.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> A simpatia de Lu\u00eds pelos franciscanos tem sua origem na devo\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e, Branca, por S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> A biografia de S\u00e3o Francisco, escrita em 1228 por Tom\u00e1s de Celano, coloca no encontro com o leproso, que se revela como sendo o pr\u00f3prio Cristo, o momento central da convers\u00e3o do santo. Francisco vai evocar esta experi\u00eancia vital no seu Testamento, um de seus mais importantes escritos. Outra experi\u00eancia de convers\u00e3o se d\u00e1 quando Francisco entrega sua capa a um pobre que est\u00e1 sofrendo com o frio. O pobre logo desaparece, o que faz entender que se tratava do pr\u00f3prio Cristo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Madaule, J., <em>Saint Louis de France<\/em>, Aux Editions Franciscanies, Paris 1946, p. 17-18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> Le Goff, <em>O maravilhoso&#8230;<\/em>, <em>oc<\/em>., p. 89, nota 41.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> <em>Idem.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> V\u00e1rios gestos de Lu\u00eds demonstram um esp\u00edrito livre das amarras do poder e das conven\u00e7\u00f5es sociais. Ele \u00e9 um rei que se senta no ch\u00e3o, na terra nua, para conversar com seus s\u00faditos; \u00e9 capaz de fazer reuni\u00f5es sob as \u00e1rvores, nos jardins do pal\u00e1cio; frequentemente come com os monges, vai \u00e0 cozinha e lhes traz a terrina com a sopa, e os serve. Quando \u00e9 advertido pelo abade que acabou sujando a capa na terrina de sopa, o rei responde: \u201cn\u00e3o tem import\u00e2ncia. Eu tenho outras\u201d. Cfr. Guilherme de Saint-Pathus, citado por Le Goff, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, <em>oc.<\/em>, p. 557.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Quando lhe criticam pelo excesso de despesa na constru\u00e7\u00e3o dos conventos dos franciscanos e dominicanos em Paris, Lu\u00eds responde: \u201cMeu Deus! Como acredito ser bem empregado este dinheiro para todos esses frades t\u00e3o eminentes que do mundo inteiro confluem aos conventos parisienses para estudar a ci\u00eancia sagrada, e que, a\u00ed tendo aprendido, voltam ao mundo inteiro para expandi-la pelo amor de Deus e a salva\u00e7\u00e3o das almas\u201d. Le Goff, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>,<em> oc<\/em>., p. 725.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> Franciscanos e dominicanos eram os principais confessores da fam\u00edlia real. A esposa de Lu\u00eds e sua filha, Branca, tinham como confessores frades franciscanos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> Guilherme de Saint-Pathus, <em>Vie de Saint Louis<\/em>, p. 118-119, citado por Le Goff, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, <em>oc<\/em>., 729.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> Apesar desta proximidade com os religiosos, os estudiosos s\u00e3o concordes em assinalar a independ\u00eancia de Lu\u00eds em rela\u00e7\u00e3o aos bispos e mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao papado. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es o rei n\u00e3o vai deixar de expressar sua opini\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 pol\u00edtica eclesi\u00e1stica diante das autoridades da Igreja, inclusive o pr\u00f3prio papa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> Guilherme de Nagis, citado por Le Goff, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, 115.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> Le Goff, Jacques, <em>O maravilhoso&#8230;, o,.c.. p. <\/em>86. As cita\u00e7\u00f5es entre aspas simples dentro do texto referem-se \u00e0 cita\u00e7\u00e3o da obra de\u00a0 Guilherme de Saint-Pathus.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> Stein, Henri, <em>Pierre Lombard, m\u00e9decin de Saint Louis<\/em> In: Biblioth\u00e8que de l&#8217;\u00e9cole des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406\/bec.1939.449186.\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> Le Goff, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>,<em> oc<\/em>., p. 175; p. 766, citando Joinville.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> <em>Idem<\/em>, 768.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> \u201cGra\u00e7as a Joinville, vemos S\u00e3o Lu\u00eds rir e \u00e0s vezes rir \u00e0s gargalhadas\u201d. Le Goff, Jacques, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, <em>oc<\/em>., p. 431.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[39]<\/a> A Terra Santa sempre foi, desde as origens do movimento franciscano, mais do que um lugar geogr\u00e1fico, um ideal de santidade e de santifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\">[40]<\/a> Le Goff, Jacques,<em> O Maravilhoso&#8230;<\/em>,<em> oc<\/em>, p. 79.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\">[41]<\/a> Seu sobrinho, Lu\u00eds de Toulose, vai se tornar franciscano e bispo, e tamb\u00e9m vai se canonizado.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref42\" name=\"_ftn42\">[42]<\/a> O autor chega a afirmar que Le Goff teria privilegiado, atrav\u00e9s de Gilberto de Tournai, o S\u00e3o Lu\u00eds dos franciscanos, em detrimento do S\u00e3o Lu\u00eds dominicano In: Genet, Jean-Philippe.<em> Saint Louis: le roi politique<\/em>, In: M\u00e9di\u00e9vales, N\u00b034, 1998. pp. 25-34. doi : 10.3406\/medi.1998.1410. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref43\" name=\"_ftn43\">[43]<\/a> Le Goff, Jacques, <em>Uma longa Idade M\u00e9dia<\/em>, <em>o.c<\/em>., 226.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref44\" name=\"_ftn44\">[44]<\/a> \u201c&#8230;foi tamb\u00e9m o compilador de um amplo tratado filos\u00f3fico-teol\u00f3gico (<em>Speculum doctrinale<\/em>) em que s\u00e3o discutidos os temas relativos ao poder, ao governo, ao minist\u00e9rio r\u00e9gio, sua fun\u00e7\u00e3o natural e sobrenatural, a constitui\u00e7\u00e3o mesma de uma comunidade pol\u00edtica e sua necessidade. Al\u00e9m de teorizar sobre a pol\u00edtica, Vicente tamb\u00e9m procurou educar os governantes, no sentido de ensinar a arte do governo: devem-se a ele duas das principais obras do s\u00e9culo XIII sobre essa mat\u00e9ria\u201d. Miatello, A. L. Pereira, <em>O rei e o reino sob o olhar do pregador: Vicente de Beauvais e a realeza no s\u00e9culo XIII<\/em>, Revista Brasileira de Hist\u00f3ria, vol. 32, n\u00ba 63, p. 227. Uma dessas obras \u00e9 o <em>De Morali principis institutione<\/em>, escrita em 1247, a pedido da rainha Margarida, para a educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Roberto de Sourbonne, fundador do Col\u00e9gio (depois Universidade) de Sorbonne, era outro cl\u00e9rigo muito pr\u00f3ximo de Lu\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref45\" name=\"_ftn45\">[45]<\/a> Os \u201cEspirituais\u201d surgiram na Ordem franciscana logo ap\u00f3s a morte de Francisco, em oposi\u00e7\u00e3o ao que consideravam desvios na proposta original de vida do fundador. Sinteticamente, seu programa tinha quatro pontos: atacavam os abusos contra a pobreza, eram contra os estudos, defendiam que a Regra e o Testamento eram obrigat\u00f3rios para toda a Ordem, eram contra os privil\u00e9gios pontif\u00edcios. S\u00e3o chamados <em>espirituais<\/em> porque assumiram as doutrinas do abade Joaquim de Fiore, morto em 1202 (por isso tamb\u00e9m \u201cjoaquimitas\u201d), que dividia a hist\u00f3ria do mundo em tr\u00eas eras: a do Pai, a do Filho e a do Esp\u00edrito Santo. Os frades fi\u00e9is (segundo os Espirituais) aos prop\u00f3sitos originais de Francisco, fi\u00e9is \u00e0 pobreza e \u00e0 simplicidade, iriam inaugurar a era do Esp\u00edrito: por isso, <em>Espirituais<\/em>. Com o tempo o grupo se amplia, constituindo um verdadeiro partido rigorista, de reforma e de radicalidade dentro da Ordem, suspeito de heresia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref46\" name=\"_ftn46\">[46]<\/a> Sobre frei Hugo de Digne nos informa o cronista medieval Salimbene de Parma: \u201cEle era um dos maiores cl\u00e9rigos do mundo, solene pregador, querido pelo clero e pelo povo, o maior nas disputas e preparado para tudo. Envolvia a todos, tinha uma conclus\u00e3o para tudo, tinha l\u00edngua eloquente e voz como de tuba que soa, de grande trov\u00e3o e de muitas \u00e1guas que soam, quando descem pelo precip\u00edcio. Nunca impunha [suas ideias], nunca complicava. Estava sempre preparado para toda resposta. Dizia coisas maravilhosas da corte celeste, isto \u00e9, da gl\u00f3ria do para\u00edso, e coisas terr\u00edveis das penas do inferno.\u00a0Era oriundo da prov\u00edncia da Proven\u00e7a, de estatura m\u00e9dia e n\u00e3o muito escuro. Homem espiritual al\u00e9m da medida&#8230; Havia (em Hy\u00e8res) muitos not\u00e1rios, ju\u00edzes, m\u00e9dicos e outros letrados que nos dias solenes se reuniam na sala de Frei Hugo para ouvi-lo, enquanto ele falava da doutrina do abade Joaquim, ensinava e expunha os mist\u00e9rios da Sagrada Escritura e predizia as coisas futuras. Pois era um grande joaquimita e tinha todos os livros do abade Joaquim escritos com letras grandes\u201d. Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradu\u00e7\u00e3o de Celso M\u00e1rcio Teixeira, Vozes\/FFB, Petr\u00f3polis 2004, <em>Cr\u00f4nica de Frei Salimbene de Adam (de Parma)<\/em>, p. 1400-1401.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref47\" name=\"_ftn47\">[47]<\/a> Joinville, <em>Histoire de Saint Louis<\/em>, citado por le Goff, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, p. 193. O autor v\u00ea neste encontro com o franciscano Hugo de Digne um momento fundamental no governo de Lu\u00eds, pois, voltando derrotado e decepcionado da Cruzada (Lu\u00eds vai passar um per\u00edodo em profunda tristeza), busca respostas para a derrota e sobre o melhor modo de servir a Deus. O encontro com Hugo \u00e9, para Lu\u00eds, a resposta: governar de modo a fazer reinar, aqui na terra, a justi\u00e7a do reino de Deus.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref48\" name=\"_ftn48\">[48]<\/a> A pedido do Ministro Geral frei Haimon de Faversham, alguns mestres das escolas de Oxford e Paris se dispuseram a \u201cinterpretar\u201d a Regra, para responder \u00e0s d\u00favidas surgidas na Ordem. O resultado da consulta foi a \u201c<em>Expositio quatuor magistrorum super Regulam Fratrum Minorum<\/em>\u201d, dos mestres de Paris Alexandre de Hales, Jo\u00e3o de La Rochele, Roberto de Base e Eudes de Rigaud.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref49\" name=\"_ftn49\">[49]<\/a> Le Goff, Jacques, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, <em>o.c.<\/em>, p. 269.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref50\" name=\"_ftn50\">[50]<\/a> Veja-se: <em>Retrato do rei ideal<\/em>, in Le Goff, <em>Um Longa&#8230;,<\/em> <em>oc<\/em>., p. 217-238. Miatello, A. L. Pereira, <em>Os frades mendicantes e a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no s\u00e9culo XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai)<\/em>, XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref51\" name=\"_ftn51\">[51]<\/a> Cardini, F., <em>Gilberto de Tournai: un francescano predicatore della crociata<\/em>, Studi Francescani 72, 1975, 31-48.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref52\" name=\"_ftn52\">[52]<\/a> A quest\u00e3o vai ter seus desdobramentos, a favor e contra os mendicantes. Veja-se a prop\u00f3sito: Glorieus, Paul, <em>Pr\u00e9lats fran\u00e7ais contre religieux mendiants. Autour de la bulle: \u201cAd fructus \u00faberes\u201d (1281-1290). <\/em>In Revue d&#8217;histoire de l&#8217;\u00c9glise de France. Tome 11. N\u00b052, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406\/rhef.1925.2360. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_%202360\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref53\" name=\"_ftn53\">[53]<\/a> Fontes Franciscanas e Clarianas, \u00a02004, <em>Cr\u00f4nica de Frei Salimbene de Adam (de Parma)<\/em>, <em>o.c.,<\/em> p. 1402.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref54\" name=\"_ftn54\">[54]<\/a> Jo\u00e3o de Parma tamb\u00e9m era fautor da ala reformista dos joaquimitas. S\u00e3o Boaventura foi seu sucessor, que o processou e condenou \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua.\u00a0 A proximidade dos soberanos franceses com os franciscanos espirituais vai continuar ap\u00f3s a morte de Lu\u00eds. J\u00e1 citamos aqui S\u00e3o Lu\u00eds de Toulose, sobrinho de Lu\u00eds. Ele e seus irm\u00e3os tiveram como preceptor frei Pedro de Jo\u00e3o Olivi, um dos maiores expoentes da corrente dos Espirituais.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref55\" name=\"_ftn55\">[55]<\/a> Carolus-Barr\u00e9, Louis. <em>Le Proc\u00e8s de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution<\/em>. Rome: \u00c9cole Fran\u00e7aise de Rome, 1994, p. 295, (Publications de l&#8217;\u00c9cole fran\u00e7aise de Rome, 195). <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/ouvrages\/home\/prescript\/monographie\/efr_0000-0000_1994_edc_195_1\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/ouvrages\/home\/prescript\/monographie\/efr_0000-0000_1994_edc_195_1<\/a> . Descri\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em Le Goff, <em>S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, 401-402.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref56\" name=\"_ftn56\">[56]<\/a> Le Goff, <em>Uma Longa..<\/em>., <em>oc<\/em>, p. 261.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref57\" name=\"_ftn57\">[57]<\/a> \u201cO Cristo sofredor \u00e9 aquele proposto por Boaventura e pelo movimento franciscano, ao contr\u00e1rio de Francisco que tinha, ele mesmo, privilegiado o rosto amoroso do Pai celeste e que se viu \u2018irm\u00e3o\u2019 do Cristo. Francisco se identificou com os sofrimentos espirituais do Filho, ao Cristo do Monte das Oliveiras, e n\u00e3o aos tormentos do supliciado, ao Cristo do G\u00f3lgota\u201d. Mercuri, Chiara, <em>San Luigi e la Crociata<\/em>, 235-236. In: M\u00e9langes de l&#8217;Ecole fran\u00e7aise de Rome. Moyen-Age, Temps modernes T. 108, N\u00b01. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406\/mefr.1996.3483. <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483\">http:\/\/www.persee.fr\/web\/revues\/home\/prescript\/article\/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Sandro Roberto da Costa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":184588,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[209],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>S\u00e3o Lu\u00eds de Fran\u00e7a e os Franciscanos - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/sao-luis-de-franca-e-os-franciscanos-2\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"S\u00e3o Lu\u00eds de Fran\u00e7a e os Franciscanos - 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