{"id":4280,"date":"2011-10-25T13:48:56","date_gmt":"2011-10-25T13:48:56","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=4280"},"modified":"2021-09-02T11:07:44","modified_gmt":"2021-09-02T14:07:44","slug":"mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-2008","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-2008\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlia humana, comunidade de paz"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_190464\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-190464\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-190464 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/familia_mensagem_papabento0209.png\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"554\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/familia_mensagem_papabento0209.png 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/familia_mensagem_papabento0209-450x297.png 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/familia_mensagem_papabento0209-768x507.png 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/familia_mensagem_papabento0209-150x99.png 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-190464\" class=\"wp-caption-text\"><em> \u00a0 \u00a0 Imagem ilustrativa: Canva (<a href=\"http:\/\/www.canva.com\/pt_br\/modelos\">www.canva.com\/pt_br\/modelos<\/a>)<\/em><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. NO IN\u00cdCIO DE UM ANO NOVO,<\/strong> desejo fazer chegar meus ardentes votos de paz, acompanhados duma calorosa mensagem de esperan\u00e7a, aos homens e mulheres do mundo inteiro; fa\u00e7o-o, propondo \u00e0 reflex\u00e3o comum o tema com que abri esta mensagem e que me \u00e9 muito importante: Fam\u00edlia humana, comunidade de paz. Com efeito, a primeira forma de comunh\u00e3o entre pessoas \u00e9 a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para constru\u00edrem juntos uma nova fam\u00edlia. Entretanto, os povos da terra tamb\u00e9m s\u00e3o chamados a instaurar entre si rela\u00e7\u00f5es de solidariedade e colabora\u00e7\u00e3o, como conv\u00e9m em membros da \u00fanica fam\u00edlia humana: \u00ab Os homens \u2013 sentenciou o Conc\u00edlio Vaticano II \u2013 constituem todos uma s\u00f3 comunidade; todos t\u00eam a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro g\u00eanero humano (Act 17, 26); t\u00eam tamb\u00e9m todos um s\u00f3 fim \u00faltimo, Deus \u00bb.(1)<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia, sociedade e paz<\/strong><br \/>\n2. A fam\u00edlia natural, enquanto comunh\u00e3o \u00edntima de vida e de amor fundada sobre o matrim\u00f4nio entre um homem e uma mulher,(2) constitui \u00ab o lugar prim\u00e1rio da \u2018\u2018humaniza\u00e7\u00e3o&#8221; da pessoa e da sociedade \u00bb,(3) o \u00ab ber\u00e7o da vida e do amor \u00bb.(4) Por isso, a fam\u00edlia \u00e9 justamente designada como a primeira sociedade natural, \u00ab uma institui\u00e7\u00e3o divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como prot\u00f3tipo de todo o ordenamento social \u00bb.(5)<\/p>\n<p>3. Com efeito, numa vida familiar \u00ab s\u00e3 \u00bb experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justi\u00e7a e o amor entre irm\u00e3os e irm\u00e3s, a fun\u00e7\u00e3o da autoridade manifestada pelos pais, o servi\u00e7o carinhoso aos membros mais d\u00e9beis porque pequenos, doentes ou idosos, a m\u00fatua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necess\u00e1rio, perdoar-lhe. Por isso, a fam\u00edlia \u00e9 a primeira e insubstitu\u00edvel educadora para a paz. N\u00e3o admira, pois, que a viol\u00eancia, quando perpetrada em fam\u00edlia, seja sentida como particularmente intoler\u00e1vel. Deste modo, quando se diz que a fam\u00edlia \u00e9 \u00ab a primeira c\u00e9lula vital da sociedade \u00bb,(6) afirma-se algo de essencial. A fam\u00edlia \u00e9 fundamento da sociedade inclusivamente porque permite fazer decisivas experi\u00eancias de paz. Devido a isso, a comunidade humana n\u00e3o pode prescindir do servi\u00e7o que a fam\u00edlia realiza. Onde poder\u00e1 o ser humano em forma\u00e7\u00e3o aprender melhor a apreciar o \u00ab sabor \u00bb genu\u00edno da paz do que no \u00ab ninho \u00bb primordial que a natureza lhe prepara? A linguagem familiar usa um l\u00e9xico de paz; aqui \u00e9 necess\u00e1rio recorrer sempre para n\u00e3o perder o uso do vocabul\u00e1rio da paz. Na infla\u00e7\u00e3o das linguagens, a sociedade n\u00e3o pode perder a refer\u00eancia \u00e0quela \u00abgram\u00e1tica \u00bb que cada crian\u00e7a aprende dos gestos e olhares da m\u00e3e e do pai, antes mesmo das suas palavras.<\/p>\n<p>4. Uma vez que a fam\u00edlia tem o dever de educar os seus membros, a mesma \u00e9 titular de direitos espec\u00edficos. A pr\u00f3pria Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, que constitui uma aquisi\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de valor verdadeiramente universal, afirma que \u00ab a fam\u00edlia \u00e9 o n\u00facleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a ser protegida pela sociedade e pelo Estado \u00bb.(7) Por seu lado, a Santa S\u00e9 quis reconhecer uma especial dignidade jur\u00eddica \u00e0 fam\u00edlia, publicando a Carta dos Direitos da Fam\u00edlia. L\u00ea-se no Pre\u00e2mbulo: \u00ab Os direitos da pessoa, ainda que expressos como direitos do indiv\u00edduo, t\u00eam uma dimens\u00e3o social fundamental, que encontra na fam\u00edlia a sua express\u00e3o origin\u00e1ria e vital \u00bb.(8) Os direitos enunciados na Carta s\u00e3o express\u00e3o e explicita\u00e7\u00e3o da lei natural, inscrita no cora\u00e7\u00e3o do ser humano e que lhe \u00e9 manifestada pela raz\u00e3o. A nega\u00e7\u00e3o ou mesmo a restri\u00e7\u00e3o dos direitos da fam\u00edlia, obscurecendo a verdade sobre o homem, amea\u00e7a os pr\u00f3prios alicerces da paz.<\/p>\n<p>5. Deste modo quem, mesmo inconscientemente, combate o instituto familiar, debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que \u00e9 efetivamente a principal \u00ab ag\u00eancia \u00bb de paz. Este \u00e9 um ponto que merece especial reflex\u00e3o: tudo o que contribui para debilitar a fam\u00edlia fundada sobre o matrim\u00f4nio de um homem e uma mulher, aquilo que direta ou indiretamente refreia a sua abertura ao acolhimento respons\u00e1vel de uma nova vida, o que dificulta o seu direito de ser a primeira respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o dos filhos, constitui um impedimento objetivo no caminho da paz. A fam\u00edlia tem necessidade da casa, do emprego ou do justo reconhecimento da atividade dom\u00e9stica dos pais, da escola para os filhos, de assist\u00eancia sanit\u00e1ria b\u00e1sica para todos. Quando a sociedade e a pol\u00edtica n\u00e3o se empenham a ajudar a fam\u00edlia nestes campos, privam-se de um recurso essencial ao servi\u00e7o da paz. De forma particular os meios de comunica\u00e7\u00e3o social, pelas potencialidades educativas de que disp\u00f5em, t\u00eam uma responsabilidade especial de promover o respeito pela fam\u00edlia, de ilustrar as suas expectativas e os seus direitos, de p\u00f4r em evid\u00eancia a sua beleza.<\/p>\n<p><strong>A humanidade \u00e9 uma grande fam\u00edlia<\/strong><br \/>\n6. A pr\u00f3pria comunidade social, para viver em paz, \u00e9 chamada a inspirar-se nos valores por que se rege a comunidade familiar. Isto vale tanto para as comunidades locais como nacionais; mais, vale para a pr\u00f3pria comunidade dos povos, para a fam\u00edlia humana que vive nesta casa comum que \u00e9 a terra. Numa tal perspectiva, por\u00e9m, n\u00e3o se pode esquecer que a fam\u00edlia nasce do \u00ab sim \u00bb respons\u00e1vel e definitivo de um homem e de uma mulher e vive do \u00ab sim \u00bb consciente dos filhos que pouco a pouco entram a fazer parte dela. Para prosperar, a comunidade familiar tem necessidade do consenso generoso de todos os seus membros. \u00c9 preciso que esta consci\u00eancia se torne convic\u00e7\u00e3o partilhada tamb\u00e9m por quantos s\u00e3o chamados a formar a fam\u00edlia humana comum. \u00c9 necess\u00e1rio saber dizer o \u00ab sim \u00bb pessoal a esta voca\u00e7\u00e3o que Deus inscreveu na nossa pr\u00f3pria natureza. N\u00e3o vivemos uns ao lado dos outros por acaso; estamos percorrendo todos um mesmo caminho como homens e por isso como irm\u00e3os e irm\u00e3s. Desta forma, \u00e9 essencial que cada um se empenhe por viver a pr\u00f3pria vida em atitude de responsabilidade diante de Deus, reconhecendo n&#8217;Ele a fonte origin\u00e1ria da exist\u00eancia pr\u00f3pria e alheia. \u00c9 subindo at\u00e9 este Princ\u00edpio supremo que se pode perceber o valor incondicional de todo o ser humano, colocando as premissas para a edifica\u00e7\u00e3o duma humanidade pacificada. Sem este Fundamento transcendente, a sociedade \u00e9 apenas uma agrega\u00e7\u00e3o de vizinhos, e n\u00e3o uma comunidade de irm\u00e3s e irm\u00e3os chamados a formar uma grande fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia, comunidade humana e ambiente<\/strong><br \/>\n7. A fam\u00edlia precisa duma casa, dum ambiente \u00e0 sua medida onde tecer as pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es. No caso da fam\u00edlia humana, esta casa \u00e9 a terra, o ambiente que Deus criador nos deu para que o habit\u00e1ssemos com criatividade e responsabilidade. Devemos cuidar do ambiente: este foi confiado ao homem, para que o guarde e cultive com liberdade respons\u00e1vel, tendo sempre como crit\u00e9rio orientador o bem de todos. Obviamente, o ser humano tem um primado de valor sobre toda a cria\u00e7\u00e3o. Respeitar o ambiente n\u00e3o significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem; quer dizer antes n\u00e3o a considerar egoisticamente \u00e0 completa disposi\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios interesses, porque as gera\u00e7\u00f5es futuras tamb\u00e9m t\u00eam o direito de beneficiar da cria\u00e7\u00e3o, exprimindo nela a mesma liberdade respons\u00e1vel que reivindicamos para n\u00f3s. Nem se h\u00e3o-de esquecer os pobres, em muitos casos exclu\u00eddos do destino universal dos bens da cria\u00e7\u00e3o. Atualmente a humanidade teme pelo futuro equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. Ser\u00e1 bom que as avalia\u00e7\u00f5es a este respeito se fa\u00e7am com prud\u00eancia, no di\u00e1logo entre peritos e cientistas, sem acelera\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas para conclus\u00f5es apressadas e sobretudo pondo-se conjuntamente de acordo sobre um modelo de progresso sustent\u00e1vel, que garanta o bem-estar de todos no respeito dos equil\u00edbrios ecol\u00f3gicos. Se a tutela do ambiente comporta os seus custos, estes devem ser distribu\u00eddos com justi\u00e7a tendo em conta a disparidade de desenvolvimento dos v\u00e1rios pa\u00edses e a solidariedade com as futuras gera\u00e7\u00f5es. Prud\u00eancia n\u00e3o significa deixar de assumir as pr\u00f3prias responsabilidades e adiar as decis\u00f5es; significa antes assumir o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objetivo de refor\u00e7ar aquela alian\u00e7a entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho.<\/p>\n<p>8. A tal prop\u00f3sito, \u00e9 fundamental \u00ab sentir \u00bb a terra como \u00ab nossa casa comum \u00bb e escolher, para uma gest\u00e3o da mesma ao servi\u00e7o de todos, a estrada do di\u00e1logo em vez de decis\u00f5es unilaterais. Podem-se aumentar, se for necess\u00e1rio, os lugares institucionais a n\u00edvel internacional, para se enfrentar conjuntamente o governo desta nossa \u00ab casa \u00bb; mas, o que mais conta \u00e9 fazer maturar nas consci\u00eancias a convic\u00e7\u00e3o da necessidade de colaborar responsavelmente. Os problemas que se desenham no horizonte s\u00e3o complexos e o tempo escasseia. Para fazer frente de maneira eficaz \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso agir de comum acordo. Um \u00e2mbito onde seria particularmente necess\u00e1rio intensificar o di\u00e1logo entre as na\u00e7\u00f5es \u00e9 o da gest\u00e3o dos recursos energ\u00e9ticos do planeta. A tal respeito, uma dupla urg\u00eancia preme sobre os pa\u00edses tecnologicamente avan\u00e7ados: \u00e9 preciso, por um lado, rever os elevados n\u00edveis de consumo devido ao modelo atual de progresso e, por outro, providenciar adequados investimentos para a diferencia\u00e7\u00e3o das fontes de energia e o melhoramento da sua utiliza\u00e7\u00e3o. Os pa\u00edses emergentes sentem car\u00eancia de energia, mas \u00e0s vezes esta car\u00eancia \u00e9 remediada prejudicando os pa\u00edses pobres, que, pela insufici\u00eancia das suas infra-estruturas nomeadamente tecnol\u00f3gicas, se v\u00eaem obrigados a vender ao desbarato os recursos energ\u00e9ticos em seu poder. \u00c0s vezes a sua pr\u00f3pria liberdade pol\u00edtica \u00e9 posta em discuss\u00e3o por formas de protetorado ou, em todo o caso, de condicionamento que resultam claramente humilhantes.<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia, comunidade humana e economia<\/strong><br \/>\n9. Condi\u00e7\u00e3o essencial para a paz nas fam\u00edlias \u00e9 que estas assentem sobre o alicerce firme de valores espirituais e \u00e9ticos compartilhados. No entanto, \u00e9 preciso acrescentar que a fam\u00edlia experimenta autenticamente a paz quando a ningu\u00e9m falta o necess\u00e1rio, e o patrim\u00f4nio familiar \u2013 fruto do trabalho de alguns, da poupan\u00e7a de outros e da colabora\u00e7\u00e3o ativa de todos \u2013 \u00e9 bem gerido na solidariedade, sem excessos nem desperd\u00edcio. Para a paz familiar, portanto, \u00e9 necess\u00e1ria a abertura a um patrim\u00f4nio transcendente de valores, mas, simultaneamente, h\u00e1 que n\u00e3o menosprezar a sapiente gest\u00e3o quer dos bens materiais quer das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas. O falimento desta componente tem como conseq\u00fc\u00eancia a quebra da confian\u00e7a rec\u00edproca devido \u00e0s perspectivas incertas que passam a gravar sobre o futuro do n\u00facleo familiar.<\/p>\n<p>10. O mesmo se diga daquela grande fam\u00edlia que \u00e9 a humanidade no seu todo. De fato a fam\u00edlia humana, que hoje aparece ainda mais interligada pelo fen\u00f4meno da globaliza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de um alicerce de valores compartilhados tem necessidade tamb\u00e9m de uma economia que corresponda verdadeiramente \u00e0s exig\u00eancias de um bem comum com dimens\u00f5es planet\u00e1rias. A refer\u00eancia \u00e0 fam\u00edlia natural revela-se, sob este ponto de vista tamb\u00e9m, singularmente sugestiva. Entre os indiv\u00edduos humanos e entre os povos, \u00e9 preciso promover rela\u00e7\u00f5es corretas e sinceras, que permitam a todos colaborarem num plano de paridade e justi\u00e7a. Ao mesmo tempo, tem-se de trabalhar por uma s\u00e1bia utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos e uma eq\u00fcitativa distribui\u00e7\u00e3o da riqueza. De forma particular, as ajudas concedidas aos pa\u00edses pobres devem obedecer a crit\u00e9rios duma l\u00f3gica econ\u00f4mica s\u00e3, evitando desperd\u00edcios que no fim de contas resultam sobretudo do funcionamento de custosos aparelhos burocr\u00e1ticos. \u00c9 preciso ter em devida conta tamb\u00e9m a exig\u00eancia moral de fazer com que a organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o obede\u00e7a somente \u00e0s duras leis do lucro imediato, que se podem revelar desumanas.<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia, comunidade humana e lei moral<\/strong><br \/>\n11. Uma fam\u00edlia vive em paz, se todos os seus componentes se sujeitam a uma norma comum: \u00e9 esta que impede o individualismo ego\u00edsta e que mant\u00e9m unidos os indiv\u00edduos, favorecendo a sua coexist\u00eancia harmoniosa e laboriosidade para o fim comum. Tal crit\u00e9rio, em si \u00f3bvio, vale tamb\u00e9m para as comunidades mais amplas: desde as locais passando pelas nacionais, at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3pria comunidade internacional. Para se gozar de paz, h\u00e1 necessidade duma lei comum que ajude a liberdade a ser verdadeiramente tal, e n\u00e3o um arb\u00edtrio cego, e que proteja o fraco da prepot\u00eancia do mais forte. Na fam\u00edlia dos povos, verificam-se muitos comportamentos arbitr\u00e1rios, seja dentro dos diversos Estados seja nas rela\u00e7\u00f5es destes entre si. Al\u00e9m disso, n\u00e3o faltam situa\u00e7\u00f5es em que o fraco tem de inclinar a cabe\u00e7a n\u00e3o frente \u00e0s exig\u00eancias da justi\u00e7a mas \u00e0 for\u00e7a nua e crua de quem possui mais meios do que ele. \u00c9 preciso repeti-lo: a for\u00e7a h\u00e1 de ser sempre disciplinada pela lei, e isto mesmo deve acontecer tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es entre Estados soberanos.<\/p>\n<p>12. Sobre a natureza e a fun\u00e7\u00e3o da lei, j\u00e1 muitas vezes se pronunciou a Igreja: a norma jur\u00eddica que regula as rela\u00e7\u00f5es das pessoas entre si, disciplinando os comportamentos externos e prevendo tamb\u00e9m san\u00e7\u00f5es para os transgressores, tem como crit\u00e9rio a norma moral assente na natureza das coisas. A raz\u00e3o humana, por sua vez, \u00e9 capaz de discerni-la, pelo menos nas suas exig\u00eancias fundamentais, subindo assim at\u00e9 \u00e0 Raz\u00e3o criadora de Deus que est\u00e1 na origem de todas as coisas. Esta norma moral deve regular as op\u00e7\u00f5es das consci\u00eancias e guiar todos os comportamentos dos seres humanos. Existir\u00e3o normas jur\u00eddicas para as rela\u00e7\u00f5es entre as na\u00e7\u00f5es que formam a fam\u00edlia humana? E, se existem, ser\u00e3o operativas? Eis a resposta: sim, as normas existem, mas para fazer com que sejam verdadeiramente operativas \u00e9 preciso subir at\u00e9 \u00e0 norma moral natural como base da norma jur\u00eddica; de contr\u00e1rio, esta fica \u00e0 merc\u00ea de fr\u00e1geis e provis\u00f3rios consensos.<\/p>\n<p>13. O conhecimento da norma moral natural n\u00e3o est\u00e1 vedado ao homem que entre em si mesmo e, tendo diante dos olhos o pr\u00f3prio destino, se interrogue sobre a l\u00f3gica interna das mais profundas inclina\u00e7\u00f5es presentes no seu ser. Embora com perplexidades e incertezas, ele pode chegar a descobrir, pelo menos nas suas linhas essenciais, esta lei moral comum que, independentemente das diferen\u00e7as culturais, permite aos seres humanos entenderem-se entre si quanto aos aspectos mais importantes do bem e do mal, do justo e do injusto. \u00c9 imprescind\u00edvel subir at\u00e9 esta lei fundamental, empenhando nesta pesquisa as nossas melhores energias intelectuais sem deixar-se desanimar por equ\u00edvocos nem confus\u00f5es. Com efeito, valores radicados na lei natural est\u00e3o presentes, ainda que de forma fragment\u00e1ria e nem sempre coerente, nos acordos internacionais, nas formas de autoridade universalmente reconhecidas, nos princ\u00edpios do direito humanit\u00e1rio recebido nas legisla\u00e7\u00f5es dos diversos Estados ou nos estatutos dos organismos internacionais. A humanidade n\u00e3o est\u00e1 \u00ab sem lei \u00bb. \u00c9 urgente, por\u00e9m, prosseguir o di\u00e1logo sobre estes temas, favorecendo a converg\u00eancia das pr\u00f3prias legisla\u00e7\u00f5es dos diversos Estados sobre o reconhecimento dos direitos humanos fundamentais. O crescimento da cultura jur\u00eddica no mundo depende, para al\u00e9m do mais, do esfor\u00e7o de tornar as normas internacionais sempre substanciosas de conte\u00fado profundamente humano, para evitar a sua redu\u00e7\u00e3o a procedimentos facilmente contorn\u00e1veis por motivos ego\u00edstas ou ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p><strong>Supera\u00e7\u00e3o dos conflitos e desarmamento<\/strong><br \/>\n14. A humanidade vive hoje, infelizmente, grandes divis\u00f5es e fortes conflitos que lan\u00e7am densas sombras sobre o seu futuro. Temos vastas \u00e1reas do planeta envolvidas em tens\u00f5es crescentes, enquanto o perigo de se multiplicarem os pa\u00edses detentores de armas nucleares cria motivadas apreens\u00f5es em toda a pessoa respons\u00e1vel. H\u00e1 ainda muitas guerras civis no continente africano, embora tamb\u00e9m se tenham registrado em v\u00e1rios dos seus pa\u00edses progressos na liberdade e na democracia. O M\u00e9dio Oriente continua a ser teatro de conflitos e atentados, que n\u00e3o deixam de influenciar na\u00e7\u00f5es e regi\u00f5es lim\u00edtrofes com o risco de arrast\u00e1-las na espiral da viol\u00eancia. A n\u00edvel mais geral, h\u00e1 que registrar, com tristeza, um n\u00famero maior de Estados envolvidos na corrida aos armamentos: temos at\u00e9 na\u00e7\u00f5es em vias de desenvolvimento que destinam uma quota importante do seu magro produto interno para a compra de armas. Neste funesto com\u00e9rcio, s\u00e3o muitas as responsabilidades: h\u00e1 os pa\u00edses do mundo industrialmente desenvolvido que arrecadam avultados lucros da venda de armas e temos as oligarquias reinantes em muitos pa\u00edses pobres que pretendem refor\u00e7ar a sua posi\u00e7\u00e3o com a aquisi\u00e7\u00e3o de armas cada vez mais sofisticadas. Em tempos t\u00e3o dif\u00edceis, \u00e9 verdadeiramente necess\u00e1ria a mobiliza\u00e7\u00e3o de todas as pessoas de boa vontade para se encontrar acordos concretos que visem uma eficaz desmilitariza\u00e7\u00e3o, sobretudo no campo das armas nucleares. Nesta fase em que o processo de n\u00e3o prolifera\u00e7\u00e3o nuclear marca passo, sinto-me no dever de exortar as Autoridades a retomarem, com mais firme determina\u00e7\u00e3o, as conversa\u00e7\u00f5es em ordem ao desmantelamento progressivo e concordado das armas nucleares existentes. Ao renovar este apelo, sei que dou voz a um desejo compartilhado por quantos t\u00eam a peito o futuro da humanidade.<\/p>\n<p>15. H\u00e1 sessenta anos, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas tornava p\u00fablica, de maneira solene, a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos (1948-2008). Com tal documento, a fam\u00edlia humana reagia aos horrores da II Guerra Mundial, reconhecendo a sua pr\u00f3pria unidade assente na igual dignidade de todos os homens e pondo, no centro da conviv\u00eancia humana, o respeito pelos direitos fundamentais dos indiv\u00edduos e dos povos: tratou-se de um passo decisivo no \u00e1rduo e empenhativo caminho da conc\u00f3rdia e da paz. Merece tamb\u00e9m men\u00e7\u00e3o especial a passagem do 25\u00ba anivers\u00e1rio da ado\u00e7\u00e3o pela Santa S\u00e9 da Carta dos Direitos da Fam\u00edlia (1983-2008), bem como o 40\u00ba anivers\u00e1rio da celebra\u00e7\u00e3o do primeiro Dia Mundial da Paz (1968-2008). Fruto duma providencial intui\u00e7\u00e3o do Papa Paulo VI, retomada com grande convic\u00e7\u00e3o pelo meu amado e venerado predecessor, Papa Jo\u00e3o Paulo II, a celebra\u00e7\u00e3o deste Dia proporcionou ao longo dos anos a possibilidade de a Igreja desenvolver, atrav\u00e9s das Mensagens publicadas para tal circunst\u00e2ncia, uma doutrina elucidativa em defesa deste bem humano fundamental. \u00c9 precisamente \u00e0 luz de tais significativas comemora\u00e7\u00f5es que convido todo o homem e toda a mulher a tomarem consci\u00eancia mais l\u00facida da sua perten\u00e7a comum \u00e0 \u00fanica fam\u00edlia humana e a empenharem-se por que a conviv\u00eancia sobre a terra espelhe cada vez mais esta convic\u00e7\u00e3o da qual depende a instaura\u00e7\u00e3o de uma paz verdadeira e duradoura. Em seguida, convido os crentes a implorarem de Deus, sem se cansar, o grande dom da paz. Os crist\u00e3os, por seu lado, sabem que podem confiar-se \u00e0 intercess\u00e3o d&#8217;Aquela que, sendo M\u00e3e do Filho de Deus encarnado para a salva\u00e7\u00e3o da humanidade inteira, \u00e9 M\u00e3e comum.<br \/>\nA todos desejo um Ano Novo feliz!<\/p>\n<p>Vaticano, 8 de dezembro de 2007.<br \/>\n<strong>Papa Bento XVI<\/strong><\/p>\n<p>_____________________<br \/>\n(1) Decl. sobre a Igreja e as religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s Nostra \u00e6tate, 1.<br \/>\n(2) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 48.<br \/>\n(3) Jo\u00e3o Paulo II, Exort. ap. p\u00f3s-sinodal Christifideles laici, 40: AAS 81 (1989), 469.<br \/>\n(4) Ibid., 40: o.c., 469.<br \/>\n(5) Pont. Cons. \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, n. 211.<br \/>\n(6) Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 11.<br \/>\n(7) Art. 16\/3.<br \/>\n(8) Pont. Cons. para a Fam\u00edlia, Carta dos Direitos da Fam\u00edlia (24 de Novembro de 1983), Pre\u00e2mbulo\/A.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem do Papa Bento XVI para a celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial\u00a0 da Paz 1\u00ba de janeiro de 2008<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":190464,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[174],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Fam\u00edlia humana, comunidade de paz - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-2008\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Fam\u00edlia humana, comunidade de paz - 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