{"id":41051,"date":"2013-07-05T10:05:09","date_gmt":"2013-07-05T13:05:09","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=41051"},"modified":"2021-09-02T09:49:09","modified_gmt":"2021-09-02T12:49:09","slug":"carta-enciclica-lumen-fidei-do-papa-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/carta-enciclica-lumen-fidei-do-papa-francisco\/","title":{"rendered":"Carta Enc\u00edclica \u201cLumen Fidei\u201d do Papa Francisco"},"content":{"rendered":"<p align=\"CENTER\">\n<div id=\"attachment_190237\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-190237\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-190237 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/brasao_papa.gif\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"720\" \/><p id=\"caption-attachment-190237\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <strong><em>\u00a0 \u00a0 Imagem: Vatican Media (Bras\u00e3o do Papa Francisco)<\/em><\/strong><\/p><\/div>\n<h4 style=\"text-align: center;\">CARTA ENC\u00cdCLICA<br \/>\nLUMEN FIDEI<br \/>\nDO SUMO PONT\u00cdFICE<br \/>\nFRANCISCO<br \/>\nAOS BISPOS<br \/>\nAOS PRESB\u00cdTEROS E AOS DI\u00c1CONOS<br \/>\n\u00c0S PESSOAS CONSAGRADAS<br \/>\nE A TODOS OS FI\u00c9IS LEIGOS<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">SOBRE A F\u00c9<\/h4>\n<p>1. A luz da f\u00e9 \u00e9 a express\u00e3o com que a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de Jo\u00e3o: \u00ab Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que cr\u00ea em Mim n\u00e3o fique nas trevas \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>12, 46). E S\u00e3o Paulo exprime-se nestes termos: \u00ab Porque o Deus que disse: &#8220;das trevas brilhe a luz&#8221;, foi quem brilhou nos nossos cora\u00e7\u00f5es \u00bb (<i>2 Cor\u00a0<\/i>4, 6). No mundo pag\u00e3o, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol,\u00a0<i>Sol invictus<\/i>, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a exist\u00eancia do homem. De facto, o sol n\u00e3o ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar at\u00e9 \u00e0s sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Ali\u00e1s \u00ab nunca se viu ningu\u00e9m \u2014 afirma o m\u00e1rtir S\u00e3o Justino \u2014 pronto a morrer pela sua f\u00e9 no sol \u00bb.[1]\u00a0Conscientes do amplo horizonte que a f\u00e9 lhes abria, os crist\u00e3os chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, \u00ab cujos raios d\u00e3o a vida \u00bb.[2]\u00a0A Marta, em l\u00e1grimas pela morte do irm\u00e3o L\u00e1zaro, Jesus diz-lhe: \u00ab Eu n\u00e3o te disse que, se acreditares, ver\u00e1s a gl\u00f3ria de Deus? \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>11, 40). Quem acredita, v\u00ea; v\u00ea com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manh\u00e3 que n\u00e3o tem ocaso.<\/p>\n<p><b>Uma luz ilus\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p>2. E contudo podemos ouvir a objec\u00e7\u00e3o que se levanta de muitos dos nossos contempor\u00e2neos, quando se lhes fala desta luz da f\u00e9. Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas n\u00e3o servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua raz\u00e3o, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a f\u00e9 aparecia como uma luz ilus\u00f3ria, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irm\u00e3 Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (\u2026), na incerteza de proceder de forma aut\u00f3noma \u00bb. E acrescentava: \u00ab Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcan\u00e7ar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a f\u00e9; mas, se queres ser uma disc\u00edpula da verdade, ent\u00e3o investiga \u00bb.[3]\u00a0O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolver\u00e1 a sua cr\u00edtica ao cristianismo por ter diminu\u00eddo o alcance da exist\u00eancia humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a f\u00e9 seria uma esp\u00e9cie de ilus\u00e3o de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanh\u00e3.<\/p>\n<p>3. Por este caminho, a f\u00e9 acabou por ser associada com a escurid\u00e3o. E, a fim de conviver com a luz da raz\u00e3o, pensou-se na possibilidade de a conservar, de lhe encontrar um espa\u00e7o: o espa\u00e7o para a f\u00e9 abria-se onde a raz\u00e3o n\u00e3o podia iluminar, onde o homem j\u00e1 n\u00e3o podia ter certezas. Deste modo, a f\u00e9 foi entendida como um salto no vazio, que fazemos por falta de luz e impelidos por um sentimento cego, ou como uma luz subjectiva, talvez capaz de aquecer o cora\u00e7\u00e3o e consolar pessoalmente, mas imposs\u00edvel de ser proposta aos outros como luz objectiva e comum para iluminar o caminho. Entretanto, pouco a pouco, foi-se vendo que a luz da raz\u00e3o aut\u00f3noma n\u00e3o consegue iluminar suficientemente o futuro; este, no fim de contas, permanece na sua obscuridade e deixa o homem no temor do desconhecido. E, assim, o homem renunciou \u00e0 busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas s\u00e3o incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: \u00e9 imposs\u00edvel distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz \u00e0 meta daquela que nos faz girar repetidamente em c\u00edrculo, sem direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Uma luz a redescobrir<\/b><\/p>\n<p>4. Por isso, urge recuperar o car\u00e1cter de luz que \u00e9 pr\u00f3prio da f\u00e9, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam tamb\u00e9m por perder o seu vigor. De facto, a luz da f\u00e9 possui um car\u00e1cter singular, sendo capaz de iluminar toda a exist\u00eancia do homem. Ora, para que uma luz seja t\u00e3o poderosa, n\u00e3o pode dimanar de n\u00f3s mesmos; tem de vir de uma fonte mais origin\u00e1ria, deve porvir em \u00faltima an\u00e1lise de Deus. A f\u00e9 nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que h\u00e1 nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a vis\u00e3o do futuro. A f\u00e9, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, prov\u00e9m do passado: \u00e9 a luz duma mem\u00f3ria basilar \u2014 a da vida de Jesus \u2013, onde o seu amor se manifestou plenamente fi\u00e1vel, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de al\u00e9m da morte, a f\u00e9 \u00e9 luz que vem do futuro, que descerra diante de n\u00f3s horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso \u00ab eu \u00bb isolado abrindo-o \u00e0 amplitude da comunh\u00e3o. Deste modo, compreendemos que a f\u00e9 n\u00e3o mora na escurid\u00e3o, mas \u00e9 uma luz para as nossas trevas. Dante, na\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>, depois de ter confessado diante de S\u00e3o Pedro a sua f\u00e9, descreve-a como uma \u00ab centelha \/ que se expande depois em viva chama \/ e, como estrela no c\u00e9u, em mim cintila \u00bb.\u00a0[4]\u00a0\u00c9 precisamente desta luz da f\u00e9 que quero falar, desejando que cres\u00e7a a fim de iluminar o presente at\u00e9 se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz.<\/p>\n<p>5. Antes da sua paix\u00e3o, o Senhor assegurava a Pedro: \u00ab Eu roguei por ti, para que a tua f\u00e9 n\u00e3o desfale\u00e7a \u00bb (<i>Lc\u00a0<\/i>22, 32). Depois pediu-lhe para \u00ab confirmar os irm\u00e3os \u00bb na mesma f\u00e9. Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro,\u00a0Bento XVI\u00a0quis\u00a0proclamar\u00a0este\u00a0<i>Ano da F\u00e9<\/i>, um tempo de gra\u00e7a que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a percep\u00e7\u00e3o da amplitude de horizontes que a f\u00e9 descerra, para a confessar na sua unidade e integridade, fi\u00e9is \u00e0 mem\u00f3ria do Senhor, sustentados pela sua presen\u00e7a e pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. A convic\u00e7\u00e3o duma f\u00e9 que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na for\u00e7a da sua gra\u00e7a, animava a miss\u00e3o dos primeiros crist\u00e3os. Nas Actas dos M\u00e1rtires, lemos este di\u00e1logo entre o prefeito romano R\u00fastico e o crist\u00e3o Hierax: \u00ab Onde est\u00e3o os teus pais? \u00bb \u2014 perguntava o juiz ao m\u00e1rtir; este respondeu: \u00ab O nosso verdadeiro pai \u00e9 Cristo, e nossa m\u00e3e a f\u00e9 n\u2019Ele \u00bb.[5]\u00a0Para aqueles crist\u00e3os, a f\u00e9, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma \u00ab m\u00e3e \u00bb, porque os fazia vir \u00e0 luz, gerava neles a vida divina, uma nova experi\u00eancia, uma vis\u00e3o luminosa da exist\u00eancia, pela qual estavam prontos a dar testemunho p\u00fablico at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>6. O\u00a0<i>Ano da F\u00e9\u00a0<\/i>teve in\u00edcio no cinquenten\u00e1rio da abertura do Conc\u00edlio Vaticano II. Esta coincid\u00eancia permite-nos ver que o mesmo foi um Conc\u00edlio sobre a f\u00e9,[6]\u00a0por nos ter convidado a repor, no centro da nossa vida eclesial e pessoal, o primado de Deus em Cristo. Na verdade, a Igreja nunca d\u00e1 por descontada a f\u00e9, pois sabe que este dom de Deus deve ser nutrido e revigorado sem cessar para continuar a orientar o caminho dela. O Conc\u00edlio Vaticano II fez brilhar a f\u00e9 no \u00e2mbito da experi\u00eancia humana, percorrendo assim os caminhos do homem contempor\u00e2neo. Desta forma, se viu como a f\u00e9 enriquece a exist\u00eancia humana em todas as suas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>7. Estas considera\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 \u2014 em continuidade com tudo o que o magist\u00e9rio da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal\u00a0[7]\u00a0\u2014 pretendem juntar-se a tudo aquilo que\u00a0Bento XVI\u00a0escreveu nas cartas enc\u00edclicas sobre a\u00a0caridade\u00a0e a\u00a0esperan\u00e7a. Ele j\u00e1 tinha quase conclu\u00eddo um primeiro esbo\u00e7o desta carta enc\u00edclica sobre a f\u00e9. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribui\u00e7\u00e3o. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanh\u00e3, sempre est\u00e1 chamado a \u00ab confirmar os irm\u00e3os \u00bb no tesouro incomensur\u00e1vel da f\u00e9 que Deus d\u00e1 a cada homem como luz para o seu caminho.<\/p>\n<p>Na f\u00e9, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que \u00e9 Jesus Cristo \u2014 Palavra encarnada \u2013, o Esp\u00edrito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em n\u00f3s as asas da esperan\u00e7a para o percorrermos com alegria. F\u00e9, esperan\u00e7a e caridade constituem, numa interliga\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel, o dinamismo da vida crist\u00e3 rumo \u00e0 plena comunh\u00e3o com Deus. Mas, como \u00e9 este caminho que a f\u00e9 desvenda diante de n\u00f3s? Donde prov\u00e9m a sua luz, t\u00e3o poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\">CAP\u00cdTULO I<\/p>\n<p align=\"CENTER\"><b>ACREDIT\u00c1MOS NO AMOR<br \/>\n<\/b>(cf. 1\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>4, 16)<\/p>\n<p><b>Abra\u00e3o, nosso pai na f\u00e9<\/b><\/p>\n<p>8. A f\u00e9 desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na hist\u00f3ria. Por isso, se quisermos compreender o que \u00e9 a f\u00e9, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens crentes, com os primeiros testemunhos j\u00e1 no Antigo Testamento. Um posto singular ocupa Abra\u00e3o, nosso pai na f\u00e9. Na sua vida, acontece um facto impressionante: Deus dirige-lhe a Palavra, revela-Se como um Deus que fala e o chama por nome. A f\u00e9 est\u00e1 ligada \u00e0 escuta. Abra\u00e3o n\u00e3o v\u00ea Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a f\u00e9 assume um car\u00e1cter pessoal: o Senhor n\u00e3o \u00e9 o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado espec\u00edfico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abra\u00e3o, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contacto com o homem e estabelecer com ele uma alian\u00e7a. A f\u00e9 \u00e9 a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome.<\/p>\n<p>9. Esta Palavra comunica a Abra\u00e3o uma chamada e uma promessa. Cont\u00e9m, antes de tudo, uma chamada a sair da pr\u00f3pria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, in\u00edcio de um \u00eaxodo que o encaminha para um futuro inesperado. A perspectiva, que a f\u00e9 vai proporcionar a Abra\u00e3o, estar\u00e1 sempre ligada com este passo em frente que ele deve realizar: a f\u00e9 \u00ab v\u00ea \u00bb na medida em que caminha, em que entra no espa\u00e7o aberto pela Palavra de Deus. Mas tal Palavra cont\u00e9m ainda uma promessa: a tua descend\u00eancia ser\u00e1 numerosa, ser\u00e1s pai de um grande povo (cf.\u00a0<i>Gn\u00a0<\/i>13, 16; 15, 5; 22, 17). \u00c9 verdade que a f\u00e9 de Abra\u00e3o, enquanto resposta a uma Palavra que a precede, ser\u00e1 sempre um acto de mem\u00f3ria; contudo esta mem\u00f3ria n\u00e3o o fixa no passado, porque, sendo mem\u00f3ria de uma promessa, se torna capaz de abrir ao futuro, de iluminar os passos ao longo do caminho. Assim se v\u00ea como a f\u00e9, enquanto mem\u00f3ria do futuro, est\u00e1 intimamente ligada com a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>10. A Abra\u00e3o pede-se para se confiar a esta Palavra. A f\u00e9 compreende que a palavra \u2014 uma realidade aparentemente ef\u00e9mera e passageira \u2014, quando \u00e9 pronunciada pelo Deus fiel, torna-se no que de mais seguro e inabal\u00e1vel possa haver, possibilitando a continuidade do nosso caminho no tempo. A f\u00e9 acolhe esta Palavra como rocha segura, sobre a qual se pode construir com alicerces firmes. Por isso, na B\u00edblia hebraica, a f\u00e9 \u00e9 indicada pela palavra\u00a0<i>\u2018em\u00fbnah<\/i>, que deriva do verbo\u00a0<i>\u2018am\u00e0n<\/i>, cuja raiz significa \u00ab sustentar \u00bb. O termo\u00a0<i>\u2018em\u00fbnah<\/i>tanto pode significar a fidelidade de Deus como a f\u00e9 do homem. O homem fiel recebe a sua for\u00e7a do confiar-se nas m\u00e3os do Deus fiel. Jogando com dois significados da palavra \u2014 presentes tanto no termo grego\u00a0<i>pist\u00f3s\u00a0<\/i>como no correspondente latino\u00a0<i>fidelis\u00a0<\/i>\u2013, S\u00e3o Cirilo de Jerusal\u00e9m exaltar\u00e1 a dignidade do crist\u00e3o, que recebe o mesmo nome de Deus: ambos s\u00e3o chamados \u00ab fi\u00e9is \u00bb.[8]\u00a0E Santo Agostinho explica-o assim: \u00ab O homem fiel \u00e9 aquele que cr\u00ea no Deus que promete; o Deus fiel \u00e9 aquele que concede o que prometeu ao homem \u00bb.[9]<\/p>\n<p>11. H\u00e1 ainda um aspecto da hist\u00f3ria de Abra\u00e3o que \u00e9 importante para se compreender a sua f\u00e9. A Palavra de Deus, embora traga consigo novidade e surpresa, n\u00e3o \u00e9 de forma alguma alheia \u00e0 experi\u00eancia do Patriarca. Na voz que se lhe dirige, Abra\u00e3o reconhece um apelo profundo, desde sempre inscrito no mais \u00edntimo do seu ser. Deus associa a sua promessa com aquele \u00ab ponto \u00bb onde desde sempre a exist\u00eancia do homem se mostra promissora, ou seja, a paternidade, a gera\u00e7\u00e3o duma nova vida: \u00ab Sara, tua mulher, dar-te-\u00e1 um filho, a quem h\u00e1s-de chamar Isaac \u00bb (<i>Gn\u00a0<\/i>17, 19). O mesmo Deus que pede a Abra\u00e3o para se confiar totalmente a Ele, revela-Se como a fonte donde prov\u00e9m toda a vida. Desta forma, a f\u00e9 une-se com a Paternidade de Deus, da qual brota a cria\u00e7\u00e3o: o Deus que chama Abra\u00e3o \u00e9 o Deus criador, aquele que \u00ab chama \u00e0 exist\u00eancia o que n\u00e3o existe \u00bb (<i>Rm<\/i>4, 17), aquele que, \u00ab antes da funda\u00e7\u00e3o do mundo, (&#8230;) nos predestinou para sermos adoptados como seus filhos \u00bb (<i>Ef\u00a0<\/i>1, 4-5). No caso de Abra\u00e3o, a f\u00e9 em Deus ilumina as ra\u00edzes mais profundas do seu ser: permite-lhe reconhecer a fonte de bondade que est\u00e1 na origem de todas as coisas, e confirmar que a sua vida n\u00e3o deriva do nada nem do acaso, mas de uma chamada e um amor pessoais. O Deus misterioso que o chamou n\u00e3o \u00e9 um Deus estranho, mas a origem de tudo e que tudo sustenta. A grande prova da f\u00e9 de Abra\u00e3o, o sacrif\u00edcio do filho Isaac, manifestar\u00e1 at\u00e9 que ponto este amor originador \u00e9 capaz de garantir a vida mesmo para al\u00e9m da morte. A Palavra que foi capaz de suscitar um filho no seu corpo \u00ab j\u00e1 sem vida (\u2026), como sem vida estava o seio \u00bb de Sara est\u00e9ril (<i>Rm\u00a0<\/i>4, 19), tamb\u00e9m ser\u00e1 capaz de garantir a promessa de um futuro para al\u00e9m de qualquer amea\u00e7a ou perigo (cf.\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>11, 19;\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>4, 21).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b>A f\u00e9 de Israel<\/b><\/p>\n<p>12. A hist\u00f3ria do povo de Israel, no livro do \u00caxodo, continua na esteira da f\u00e9 de Abra\u00e3o. De novo, a f\u00e9 nasce de um dom originador: Israel abre-se \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Deus, que quer libert\u00e1-lo da sua mis\u00e9ria. A f\u00e9 \u00e9 chamada a um longo caminho, para poder adorar o Senhor no Sinai e herdar uma terra prometida. O amor divino possui os tra\u00e7os de um pai que conduz seu filho pelo caminho (cf.\u00a0<i>Dt\u00a0<\/i>1, 31). A confiss\u00e3o de f\u00e9 de Israel desenrola-se como uma narra\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios de Deus, da sua ac\u00e7\u00e3o para libertar e conduzir o povo (cf.\u00a0<i>Dt\u00a0<\/i>26, 5-11); narra\u00e7\u00e3o esta, que o povo transmite de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. A luz de Deus brilha para Israel, atrav\u00e9s da comemora\u00e7\u00e3o dos factos realizados pelo Senhor, recordados e confessados no culto, transmitidos pelos pais aos filhos. Deste modo aprendemos que a luz trazida pela f\u00e9 est\u00e1 ligada com a narra\u00e7\u00e3o concreta da vida, com a grata lembran\u00e7a dos benef\u00edcios de Deus e com o progressivo cumprimento das suas promessas. A arquitectura g\u00f3tica exprimiu-o muito bem: nas grandes catedrais, a luz chega do c\u00e9u atrav\u00e9s dos vitrais onde est\u00e1 representada a hist\u00f3ria sagrada. A luz de Deus vem-nos atrav\u00e9s da narra\u00e7\u00e3o da sua revela\u00e7\u00e3o e, assim, \u00e9 capaz de iluminar o nosso caminho no tempo, recordando os benef\u00edcios divinos e mostrando como se cumprem as suas promessas.<\/p>\n<p>13. A hist\u00f3ria de Israel mostra-nos ainda a tenta\u00e7\u00e3o da incredulidade, em que o povo caiu v\u00e1rias vezes. Aparece aqui o contr\u00e1rio da f\u00e9: a idolatria. Enquanto Mois\u00e9s fala com Deus no Sinai, o povo n\u00e3o suporta o mist\u00e9rio do rosto divino escondido, n\u00e3o suporta o tempo de espera. Por sua natureza, a f\u00e9 pede para se renunciar \u00e0 posse imediata que a vis\u00e3o parece oferecer; \u00e9 um convite para se abrir \u00e0 fonte da luz, respeitando o mist\u00e9rio pr\u00f3prio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. Martin Buber citava esta defini\u00e7\u00e3o da idolatria, dada pelo rabino de Kock: h\u00e1 idolatria, \u00ab quando um rosto se dirige reverente a um rosto que n\u00e3o \u00e9 rosto \u00bb.[10]\u00a0Em vez da f\u00e9 em Deus, prefere-se adorar o \u00eddolo, cujo rosto se pode fixar e cuja origem \u00e9 conhecida, porque foi feito por n\u00f3s. Diante do \u00eddolo, n\u00e3o se corre o risco de uma poss\u00edvel chamada que nos fa\u00e7a sair das pr\u00f3prias seguran\u00e7as, porque os \u00eddolos \u00ab t\u00eam boca, mas n\u00e3o falam \u00bb (<i>Sal\u00a0<\/i>115, 5). Compreende-se assim que o \u00eddolo \u00e9 um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adora\u00e7\u00e3o da obra das pr\u00f3prias m\u00e3os. Perdida a orienta\u00e7\u00e3o fundamental que d\u00e1 unidade \u00e0 sua exist\u00eancia, o homem dispersa-se na multiplicidade dos seus desejos; negando-se a esperar o tempo da promessa, desintegra-se nos mil instantes da sua hist\u00f3ria. Por isso, a idolatria \u00e9 sempre polite\u00edsmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria n\u00e3o oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que n\u00e3o conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. Quem n\u00e3o quer confiar-se a Deus, deve ouvir as vozes dos muitos \u00eddolos que lhe gritam: \u00ab Confia-te a mim! \u00bb A f\u00e9, enquanto ligada \u00e0 convers\u00e3o, \u00e9 o contr\u00e1rio da idolatria: \u00e9 separa\u00e7\u00e3o dos \u00eddolos para voltar ao Deus vivo, atrav\u00e9s de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a exist\u00eancia, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa hist\u00f3ria. A f\u00e9 consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os \u00eddolos.<\/p>\n<p>14. Na f\u00e9 de Israel, sobressai tamb\u00e9m a figura de Mois\u00e9s, o mediador. O povo n\u00e3o pode ver o rosto de Deus; \u00e9 Mois\u00e9s que fala com Jahv\u00e9 na montanha e comunica a todos a vontade do Senhor. Com esta presen\u00e7a do mediador, Israel aprendeu a caminhar unido. O acto de f\u00e9 do indiv\u00edduo insere-se numa comunidade, no \u00ab n\u00f3s \u00bb comum do povo, que, na f\u00e9, \u00e9 como um s\u00f3 homem: \u00ab o meu filho primog\u00e9nito \u00bb, assim Deus designar\u00e1 todo o Israel (cf.\u00a0<i>Ex\u00a0<\/i>4, 22). Aqui a media\u00e7\u00e3o n\u00e3o se torna um obst\u00e1culo, mas uma abertura: no encontro com os outros, o olhar abre-se para uma verdade maior que n\u00f3s mesmos. Jean Jacques Rousseau lamentava-se por n\u00e3o poder ver Deus pessoalmente: \u00ab Quantos homens entre mim e Deus! \u00bb\u00a0[11]\u00a0\u00ab Ser\u00e1 assim t\u00e3o simples e natural que Deus tenha ido ter com Mois\u00e9s para falar a Jean Jacques Rousseau? \u00bb[12]\u00a0A partir de uma concep\u00e7\u00e3o individualista e limitada do conhecimento \u00e9 imposs\u00edvel compreender o sentido da media\u00e7\u00e3o: esta capacidade de participar na vis\u00e3o do outro, saber compartilhado que \u00e9 o conhecimento pr\u00f3prio do amor. A f\u00e9 \u00e9 um dom gratuito de Deus, que exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho luminoso do encontro entre Deus e os homens, a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b>A plenitude da f\u00e9 crist\u00e3<\/b><\/p>\n<p>15. \u00ab Abra\u00e3o (&#8230;) exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>8, 56). De acordo com estas palavras de Jesus, a f\u00e9 de Abra\u00e3o estava orientada para Ele, de certo modo era vis\u00e3o antecipada do seu mist\u00e9rio. Assim o entende Santo Agostinho, quando afirma que os Patriarcas se salvaram pela f\u00e9; n\u00e3o f\u00e9 em Cristo j\u00e1 chegado, mas f\u00e9 em Cristo que havia de vir, f\u00e9 proclive para o evento futuro de Jesus.[13]\u00a0A f\u00e9 crist\u00e3 est\u00e1 centrada em Cristo; \u00e9 confiss\u00e3o de que Jesus \u00e9 o Senhor e que Deus O ressuscitou de entre os mortos (cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>10, 9). Todas as linhas do Antigo Testamento se concentram em Cristo: Ele torna-Se o \u00ab sim \u00bb definitivo a todas as promessas, fundamento \u00faltimo do nosso \u00ab Amen \u00bb a Deus (cf.\u00a0<i>2 Cor\u00a0<\/i>1, 20). A hist\u00f3ria de Jesus \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o plena da fiabilidade de Deus. Se Israel recordava os grandes actos de amor de Deus, que formavam o centro da sua confiss\u00e3o e abriam o horizonte da sua f\u00e9, agora a vida de Jesus aparece como o lugar da interven\u00e7\u00e3o definitiva de Deus, a suprema manifesta\u00e7\u00e3o do seu amor por n\u00f3s. A palavra que Deus nos dirige em Jesus j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma entre muitas outras, mas a sua Palavra eterna (cf.\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>1, 1-2). N\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia maior que Deus possa dar para nos certificar do seu amor, como nos lembra S\u00e3o Paulo (cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>8, 31-39). Portanto, a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 f\u00e9 no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo. \u00ab N\u00f3s conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele \u00bb (1\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>4, 16). A f\u00e9 identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta a realidade e o seu destino \u00faltimo.<\/p>\n<p>16. A maior prova da fiabilidade do amor de Cristo encontra-se na sua morte pelo homem. Se dar a vida pelos amigos \u00e9 a maior prova de amor (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>15, 13), Jesus ofereceu a sua vida por todos, mesmo por aqueles que eram inimigos, para transformar o cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que os evangelistas situam, na hora da Cruz, o momento culminante do olhar de f\u00e9: naquela hora resplandece o amor divino em toda a sua sublimidade e amplitude. S\u00e3o Jo\u00e3o colocar\u00e1 aqui o seu testemunho solene, quando, juntamente com a M\u00e3e de Jesus, contemplou Aquele que trespassaram (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>19, 37): \u00ab Aquele que viu estas coisas \u00e9 que d\u00e1 testemunho delas e o seu testemunho \u00e9 verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para v\u00f3s crerdes tamb\u00e9m \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>19, 35). Na sua obra\u00a0<i>O Idiota,<\/i>Fi\u00f3dor Mikhailovich Dostoi\u00e9vski faz o protagonista \u2014 o pr\u00edncipe Myskin \u2014 dizer, \u00e0 vista do quadro de Cristo morto no sepulcro, pintado por Hans Holbein o Jovem: \u00ab Aquele quadro poderia mesmo fazer perder a f\u00e9 a algu\u00e9m \u00bb;[14]\u00a0de facto, o quadro representa, de forma muito crua, os efeitos destruidores da morte no corpo de Cristo. E todavia \u00e9 precisamente na contempla\u00e7\u00e3o da morte de Jesus que a f\u00e9 se refor\u00e7a e recebe uma luz fulgurante, \u00e9 quando ela se revela como f\u00e9 no seu amor inabal\u00e1vel por n\u00f3s, que \u00e9 capaz de penetrar na morte para nos salvar. Neste amor que n\u00e3o se subtraiu \u00e0 morte para manifestar quanto me ama, \u00e9 poss\u00edvel crer; a sua totalidade vence toda e qualquer suspeita e permite confiar-nos plenamente a Cristo.<\/p>\n<p>17. Ora, a morte de Cristo desvenda a total fiabilidade do amor de Deus \u00e0 luz da sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Enquanto ressuscitado, Cristo \u00e9 testemunha fi\u00e1vel, digna de f\u00e9 (cf.\u00a0<i>Ap\u00a0<\/i>1, 5;\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>2, 17), apoio firme para a nossa f\u00e9. \u00ab Se Cristo n\u00e3o ressuscitou, \u00e9 v\u00e3 a vossa f\u00e9 \u00bb, afirma S\u00e3o Paulo (<i>1 Cor\u00a0<\/i>15, 17). Se o amor do Pai n\u00e3o tivesse feito Jesus ressurgir dos mortos, se n\u00e3o tivesse podido restituir a vida ao seu corpo, n\u00e3o seria um amor plenamente fi\u00e1vel, capaz de iluminar tamb\u00e9m as trevas da morte. Quando S\u00e3o Paulo fala da sua nova vida em Cristo, refere que a vive \u00ab na f\u00e9 do Filho de Deus que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim \u00bb (<i>Gl\u00a0<\/i>2, 20). Esta \u00ab f\u00e9 do Filho de Deus \u00bb \u00e9 certamente a f\u00e9 do Ap\u00f3stolo dos gentios em Jesus, mas sup\u00f5e tamb\u00e9m a fiabilidade de Jesus, que se funda, sem d\u00favida, no seu amor at\u00e9 \u00e0 morte, mas tamb\u00e9m no facto de Ele ser Filho de Deus. Precisamente porque \u00e9 o Filho, porque est\u00e1 radicado de modo absoluto no Pai, Jesus p\u00f4de vencer a morte e fazer resplandecer em plenitude a vida. A nossa cultura perdeu a no\u00e7\u00e3o desta presen\u00e7a concreta de Deus, da sua ac\u00e7\u00e3o no mundo; pensamos que Deus Se encontra s\u00f3 no al\u00e9m, noutro n\u00edvel de realidade, separado das nossas rela\u00e7\u00f5es concretas. Mas, se fosse assim, isto \u00e9, se Deus fosse incapaz de agir no mundo, o seu amor n\u00e3o seria verdadeiramente poderoso, verdadeiramente real e, por conseguinte, n\u00e3o seria sequer verdadeiro amor, capaz de cumprir a felicidade que promete. E, ent\u00e3o, seria completamente indiferente crer ou n\u00e3o crer n\u2019Ele. Ao contr\u00e1rio, os crist\u00e3os confessam o amor concreto e poderoso de Deus, que actua verdadeiramente na hist\u00f3ria e determina o seu destino final; um amor que se fez pass\u00edvel de encontro, que se revelou em plenitude na paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo.<\/p>\n<p>18. A plenitude a que Jesus leva a f\u00e9 possui outro aspecto decisivo: na f\u00e9, Cristo n\u00e3o \u00e9 apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifesta\u00e7\u00e3o do amor de Deus, mas \u00e9 tamb\u00e9m Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A f\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 olha para Jesus, mas olha tamb\u00e9m a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o no seu modo de ver. Em muitos \u00e2mbitos da vida, fiamo-nos de outras pessoas que conhecem as coisas melhor do que n\u00f3s: temos confian\u00e7a no arquitecto que constr\u00f3i a nossa casa, no farmac\u00eautico que nos fornece o rem\u00e9dio para a cura, no advogado que nos defende no tribunal. Precisamos tamb\u00e9m de algu\u00e9m que seja fi\u00e1vel e perito nas coisas de Deus: Jesus, seu Filho, apresenta-Se como Aquele que nos explica Deus (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>1, 18). A vida de Cristo, a sua maneira de conhecer o Pai, de viver totalmente em rela\u00e7\u00e3o com Ele abre um espa\u00e7o novo \u00e0 experi\u00eancia humana, e n\u00f3s podemos entrar nele. S\u00e3o Jo\u00e3o exprimiu a import\u00e2ncia que a rela\u00e7\u00e3o pessoal com Jesus tem para a nossa f\u00e9, atrav\u00e9s de v\u00e1rios usos do verbo\u00a0<i>crer<\/i>. Juntamente com o \u00ab crer que \u00bb \u00e9 verdade o que Jesus nos diz (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>14, 10; 20, 31), Jo\u00e3o usa mais duas express\u00f5es: \u00ab crer a (sin\u00f3nimo de dar cr\u00e9dito a) \u00bb Jesus e \u00ab crer em \u00bb Jesus. \u00ab Cremos a \u00bb Jesus, quando aceitamos a sua palavra, o seu testemunho, porque Ele \u00e9 verdadeiro (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>6, 30). \u00ab Cremos em \u00bb Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao longo do caminho (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>2, 11; 6, 47; 12, 44).<\/p>\n<p>Para nos permitir conhec\u00ea-Lo, acolh\u00ea-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e, assim, a sua vis\u00e3o do Pai deu-se tamb\u00e9m de forma humana, atrav\u00e9s de um caminho e um percurso no tempo. A f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 f\u00e9 na encarna\u00e7\u00e3o do Verbo e na sua ressurrei\u00e7\u00e3o na carne; \u00e9 f\u00e9 num Deus que Se fez t\u00e3o pr\u00f3ximo que entrou na nossa hist\u00f3ria. A f\u00e9 no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazar\u00e9 n\u00e3o nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o crist\u00e3o a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b>A salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9<\/b><\/p>\n<p>19. A partir desta participa\u00e7\u00e3o no modo de ver de Jesus, o ap\u00f3stolo Paulo deixou-nos, nos seus escritos, uma descri\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia crente. Aquele que acredita, ao aceitar o dom da f\u00e9, \u00e9 transformado numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho: \u00ab\u00a0<i>Abb\u00e1<\/i>, Pai \u00bb \u00e9 a palavra mais caracter\u00edstica da experi\u00eancia de Jesus, que se torna centro da experi\u00eancia crist\u00e3 (cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>8, 15). A vida na f\u00e9, enquanto exist\u00eancia filial, \u00e9 reconhecer o dom origin\u00e1rio e radical que est\u00e1 na base da exist\u00eancia do homem, podendo resumir-se nesta frase de S\u00e3o Paulo aos Cor\u00edntios: \u00ab Que tens tu que n\u00e3o tenhas recebido? \u00bb (<i>1 Cor\u00a0<\/i>4, 7). \u00c9 precisamente aqui que se situa o cerne da pol\u00e9mica do Ap\u00f3stolo com os fariseus: a discuss\u00e3o sobre a salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 ou pelas obras da lei. Aquilo que S\u00e3o Paulo rejeita \u00e9 a atitude de quem se quer justificar a si mesmo diante de Deus atrav\u00e9s das pr\u00f3prias obras; esta pessoa, mesmo quando obedece aos mandamentos, mesmo quando realiza obras boas, coloca-se a si pr\u00f3pria no centro e n\u00e3o reconhece que a origem do bem \u00e9 Deus. Quem actua assim, quem quer ser fonte da sua pr\u00f3pria justi\u00e7a, depressa a v\u00ea exaurir-se e descobre que n\u00e3o pode sequer aguentar-se na fidelidade \u00e0 lei; fecha-se, isolando-se do Senhor e dos outros, e, por isso, a sua vida torna-se v\u00e3, as suas obras est\u00e9reis, como \u00e1rvore longe da \u00e1gua. Assim se exprime Santo Agostinho com a sua linguagem concisa e eficaz: \u00ab N\u00e3o te afastes d\u2019Aquele que te fez, nem mesmo para te encontrares a ti \u00bb.[15]\u00a0Quando o homem pensa que, afastando-se de Deus, encontrar-se-\u00e1 a si mesmo, a sua exist\u00eancia fracassa (cf.\u00a0<i>Lc\u00a0<\/i>15, 11-24). O in\u00edcio da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a abertura a algo que nos antecede, a um dom origin\u00e1rio que sustenta a vida e a guarda na exist\u00eancia. S\u00f3 abrindo-nos a esta origem e reconhecendo-a \u00e9 que podemos ser transformados, deixando que a salva\u00e7\u00e3o actue em n\u00f3s e torne a vida fecunda, cheia de frutos bons. A salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume S\u00e3o Paulo: \u00ab Porque \u00e9 pela gra\u00e7a que estais salvos, por meio da f\u00e9. E isto n\u00e3o vem de v\u00f3s, \u00e9 dom de Deus \u00bb (<i>Ef\u00a0<\/i>2, 8).<\/p>\n<p>20. A nova l\u00f3gica da f\u00e9 centra-se em Cristo. A f\u00e9 em Cristo salva-nos, porque \u00e9 n\u2019Ele que a vida se abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age em n\u00f3s e connosco. V\u00ea-se isto claramente na exegese que o Ap\u00f3stolo dos gentios faz de um texto do Deuteron\u00f3mio; uma exegese que se insere na din\u00e2mica mais profunda do Antigo Testamento. Mois\u00e9s diz ao povo que o mandamento de Deus n\u00e3o est\u00e1 demasiado alto nem demasiado longe do homem; n\u00e3o se deve dizer: \u00ab Quem subir\u00e1 por n\u00f3s at\u00e9 ao c\u00e9u e no-la ir\u00e1 buscar? \u00bb ou \u00ab Quem atravessar\u00e1 o mar e no-la ir\u00e1 buscar? \u00bb (cf.\u00a0<i>Dt\u00a0<\/i>30, 11-14). Esta proximidade da palavra de Deus \u00e9 concretizada por S\u00e3o Paulo na presen\u00e7a de Jesus no crist\u00e3o. \u00ab N\u00e3o digas no teu cora\u00e7\u00e3o: Quem subir\u00e1 ao c\u00e9u? Seria para fazer com que Cristo descesse. Nem digas: Quem descer\u00e1 ao abismo? Seria para fazer com que Cristo subisse de entre os mortos \u00bb (<i>Rm\u00a0<\/i>10, 6-7). Cristo desceu \u00e0 terra e ressuscitou dos mortos: com a sua encarna\u00e7\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o, o Filho de Deus abra\u00e7ou o percurso inteiro do homem e habita nos nossos cora\u00e7\u00f5es por meio do Esp\u00edrito Santo. A f\u00e9 sabe que Deus Se tornou muito pr\u00f3ximo de n\u00f3s, que Cristo nos foi oferecido como grande dom que nos transforma interiormente, que habita em n\u00f3s, e assim nos d\u00e1 a luz que ilumina a origem e o fim da vida, o arco inteiro do percurso humano.<\/p>\n<p>21. Podemos assim compreender a novidade, a que a f\u00e9 nos conduz. O crente \u00e9 transformado pelo Amor, ao qual se abriu na f\u00e9; e, na sua abertura a este Amor que lhe \u00e9 oferecido, a sua exist\u00eancia dilata-se para al\u00e9m dele pr\u00f3prio. S\u00e3o Paulo pode afirmar: \u00ab J\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim \u00bb (<i>Gl\u00a0<\/i>2, 20), e exortar: \u00ab Que Cristo, pela f\u00e9, habite nos vossos cora\u00e7\u00f5es \u00bb (<i>Ef\u00a0<\/i>3, 17). Na f\u00e9, o \u00ab eu \u00bb do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. \u00c9 aqui que se situa a ac\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do Esp\u00edrito Santo: o crist\u00e3o pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposi\u00e7\u00e3o filial, porque \u00e9 feito participante do seu Amor, que \u00e9 o Esp\u00edrito; \u00e9 neste Amor que se recebe, de algum modo, a vis\u00e3o pr\u00f3pria de Jesus. Fora desta conforma\u00e7\u00e3o no Amor, fora da presen\u00e7a do Esp\u00edrito que o infunde nos nossos cora\u00e7\u00f5es (cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>5, 5), \u00e9 imposs\u00edvel confessar Jesus como Senhor (cf.\u00a0<i>1 Cor\u00a0<\/i>12, 3).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b>A forma eclesial da f\u00e9<\/b><\/p>\n<p>22. Deste modo, a vida do fiel torna-se exist\u00eancia eclesial. Quando S\u00e3o Paulo fala aos crist\u00e3os de Roma do \u00fanico corpo que todos os crentes formam em Cristo, exorta-os a n\u00e3o se vangloriarem, mas a avaliarem-se \u00ab de acordo com a medida de f\u00e9 que Deus distribuiu a cada um \u00bb (<i>Rm\u00a0<\/i>12, 3). O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da f\u00e9 que professa. A figura de Cristo \u00e9 o espelho em que descobre realizada a sua pr\u00f3pria imagem. E dado que Cristo abra\u00e7a em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o crist\u00e3o compreende-se a si mesmo neste corpo, em rela\u00e7\u00e3o primordial com Cristo e os irm\u00e3os na f\u00e9. A imagem do corpo n\u00e3o pretende reduzir o crente a simples parte de um todo an\u00f3nimo, a mero elemento de uma grande engrenagem; antes, sublinha a uni\u00e3o vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre si (cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>12, 4-5). Os crist\u00e3os sejam \u00ab todos um s\u00f3 \u00bb (cf.\u00a0<i>Gl\u00a0<\/i>3, 28), sem perder a sua individualidade, e, no servi\u00e7o aos outros, cada um ganha profundamente o pr\u00f3prio ser. Compreende-se assim por que motivo, fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo \u2014 desta Igreja que, segundo as palavras de Romano Guardini, \u00ab \u00e9 a portadora hist\u00f3rica do olhar global de Cristo sobre o mundo \u00bb,[16]\u00a0\u2014, a f\u00e9 perca a sua \u00ab medida \u00bb, j\u00e1 n\u00e3o encontre o seu equil\u00edbrio, nem o espa\u00e7o necess\u00e1rio para se manter de p\u00e9. A f\u00e9 tem uma forma necessariamente eclesial, \u00e9 professada partindo do corpo de Cristo, como comunh\u00e3o concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indiv\u00edduo crist\u00e3o a todos os homens. Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu pr\u00f3prio dinamismo, transforma-se em resposta no crist\u00e3o, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confiss\u00e3o de f\u00e9. S\u00e3o Paulo afirma: \u00ab Realmente com o cora\u00e7\u00e3o se cr\u00ea (\u2026) e com a boca se faz a profiss\u00e3o de f\u00e9 \u00bb (<i>Rm\u00a0<\/i>10, 10). A f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um facto privado, uma concep\u00e7\u00e3o individualista, uma opini\u00e3o subjectiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se an\u00fancio. Com efeito, \u00ab como h\u00e3o-de acreditar n\u2019Aquele de quem n\u00e3o ouviram falar? E como h\u00e3o-de ouvir falar, sem algu\u00e9m que O anuncie? (<i>Rm\u00a0<\/i>10, 14). Concluindo, a f\u00e9 torna-se operativa no crist\u00e3o a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf.\u00a0<i>Gl\u00a0<\/i>5, 6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na hist\u00f3ria rumo \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver, a f\u00e9 torna-se luz para os seus olhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"CENTER\">CAP\u00cdTULO II<\/p>\n<p align=\"CENTER\"><b>SE N\u00c3O ACREDITARDES,\u00a0N\u00c3O COMPREENDEREIS<br \/>\n<\/b>\u00a0(cf.\u00a0<i>Is\u00a0<\/i>7, 9)<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b>F\u00e9 e verdade<\/b><\/p>\n<p>23. Se n\u00e3o acreditardes, n\u00e3o compreendereis (cf.\u00a0<i>Is\u00a0<\/i>7, 9): foi assim que a vers\u00e3o grega da B\u00edblia hebraica \u2014 a tradu\u00e7\u00e3o dos Setenta, feita em Alexandria do Egipto \u2014 traduziu as palavras do profeta Isa\u00edas ao rei Acaz, fazendo aparecer como central, na f\u00e9, a quest\u00e3o do conhecimento da verdade. Entretanto, no texto hebraico, h\u00e1 uma leitura diferente; aqui o profeta diz ao rei: \u00ab Se n\u00e3o o acreditardes, n\u00e3o subsistireis \u00bb. Existe aqui um jogo de palavras com duas formas do verbo\u00a0<i>\u2018am\u00e0n<\/i>: \u00ab acreditardes \u00bb (<i>ta\u2019aminu<\/i>) e \u00ab subsistireis \u00bb (<i>te\u2019amenu<\/i>). Apavorado com a for\u00e7a dos seus inimigos, o rei busca a seguran\u00e7a que lhe pode vir de uma alian\u00e7a com o grande imp\u00e9rio da Ass\u00edria; mas o profeta convida-o a confiar apenas na verdadeira rocha que n\u00e3o vacila: o Deus de Israel. Uma vez que Deus \u00e9 fi\u00e1vel, \u00e9 razo\u00e1vel ter f\u00e9 n\u2019Ele, construir a pr\u00f3pria seguran\u00e7a sobre a sua Palavra. Este \u00e9 o Deus que Isa\u00edas chamar\u00e1 mais adiante, por duas vezes, o Deus-Amen, o \u00ab Deus fiel \u00bb (cf.\u00a0<i>Is\u00a0<\/i>65, 16), fundamento inabal\u00e1vel de fidelidade \u00e0 alian\u00e7a. Poder-se-ia pensar que a vers\u00e3o grega da B\u00edblia, traduzindo \u00ab subsistir \u00bb por \u00ab compreender \u00bb, tivesse realizado uma mudan\u00e7a profunda do texto, passando da no\u00e7\u00e3o b\u00edblica de entrega a Deus \u00e0 no\u00e7\u00e3o grega de compreens\u00e3o. E no entanto esta tradu\u00e7\u00e3o, que aceitava certamente o di\u00e1logo com a cultura helenista, n\u00e3o \u00e9 alheia \u00e0 din\u00e2mica profunda do texto hebraico; a firmeza que Isa\u00edas promete ao rei passa, realmente, pela compreens\u00e3o do agir de Deus e da unidade que Ele d\u00e1 \u00e0 vida do homem e \u00e0 hist\u00f3ria do povo. O profeta exorta a compreender os caminhos do Senhor, encontrando na fidelidade de Deus o plano de sabedoria que governa os s\u00e9culos. Esta s\u00edntese entre o \u00ab compreender \u00bb e o \u00ab subsistir \u00bb \u00e9 expressa por Santo Agostinho, nas suas\u00a0<i>Confiss\u00f5es<\/i>, quando fala da verdade em que se pode confiar para conseguirmos ficar de p\u00e9: \u00ab Estarei firme e consolidar-me-ei em Ti, (\u2026) na tua verdade \u00bb.\u00a0[17]\u00a0Vendo o contexto, sabemos que este Padre da Igreja quer mostrar que esta verdade fidedigna de Deus \u00e9, como resulta da B\u00edblia, a sua presen\u00e7a fiel ao longo da hist\u00f3ria, a sua capacidade de manter unidos os tempos, recolhendo a dispers\u00e3o dos dias do homem.[18]<\/p>\n<p>24. Lido a esta luz, o texto de Isa\u00edas faz-nos concluir: o homem precisa de conhecimento, precisa de verdade, porque sem ela n\u00e3o se mant\u00e9m de p\u00e9, n\u00e3o caminha. Sem verdade, a f\u00e9 n\u00e3o salva, n\u00e3o torna seguros os nossos passos. Seria uma linda f\u00e1bula, a projec\u00e7\u00e3o dos nossos desejos de felicidade, algo que nos satisfaz s\u00f3 na medida em que nos quisermos iludir; ou ent\u00e3o reduzir-se-ia a um sentimento bom que consola e afaga, mas permanece sujeito \u00e0s nossas mudan\u00e7as de \u00e2nimo, \u00e0 varia\u00e7\u00e3o dos tempos, incapaz de sustentar um caminho constante na vida. Se a f\u00e9 fosse isso, ent\u00e3o o rei Acaz teria raz\u00e3o para n\u00e3o jogar a sua vida e a seguran\u00e7a do seu reino sobre uma emo\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9! Precisamente pela sua liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a verdade, a f\u00e9 \u00e9 capaz de oferecer uma luz nova, superior aos c\u00e1lculos do rei, porque v\u00ea mais longe, compreende o agir de Deus, que \u00e9 fiel \u00e0 sua alian\u00e7a e \u00e0s suas promessas.<\/p>\n<p>25. Lembrar esta liga\u00e7\u00e3o da f\u00e9 com a verdade \u00e9 hoje mais necess\u00e1rio do que nunca, precisamente por causa da crise de verdade em que vivemos. Na cultura contempor\u00e2nea, tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: \u00e9 verdadeiro aquilo que o homem consegue construir e medir com a sua ci\u00eancia; \u00e9 verdadeiro porque funciona, e assim torna a vida mais c\u00f3moda e apraz\u00edvel. Esta verdade parece ser, hoje, a \u00fanica certa, a \u00fanica partilh\u00e1vel com os outros, a \u00fanica sobre a qual se pode conjuntamente discutir e comprometer-se; depois haveria as verdades do indiv\u00edduo, como ser aut\u00eantico face \u00e0quilo que cada um sente no seu \u00edntimo, v\u00e1lidas apenas para o sujeito mas que n\u00e3o podem ser propostas aos outros com a pretens\u00e3o de servir o bem comum. A verdade grande, aquela que explica o conjunto da vida pessoal e social, \u00e9 vista com suspeita. Porventura n\u00e3o foi esta \u2014 perguntam-se \u2014 a verdade pretendida pelos grandes totalitarismos do s\u00e9culo passado, uma verdade que impunha a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o global para esmagar a hist\u00f3ria concreta do indiv\u00edduo? No fim, resta apenas um relativismo, no qual a quest\u00e3o sobre a verdade de tudo \u2014 que, no fundo, \u00e9 tamb\u00e9m a quest\u00e3o de Deus \u2014 j\u00e1 n\u00e3o interessa. Nesta perspectiva, \u00e9 l\u00f3gico que se pretenda eliminar a liga\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o com a verdade, porque esta associa\u00e7\u00e3o estaria na raiz do fanatismo, que quer emudecer quem n\u00e3o partilha da cren\u00e7a pr\u00f3pria. A este respeito, pode-se falar de uma grande obnubila\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria no nosso mundo contempor\u00e2neo; de facto, a busca da verdade \u00e9 uma quest\u00e3o de mem\u00f3ria, de mem\u00f3ria profunda, porque visa algo que nos precede e, desta forma, pode conseguir unir-nos para al\u00e9m do nosso \u00ab eu \u00bb pequeno e limitado; \u00e9 uma quest\u00e3o relativa \u00e0 origem de tudo, a cuja luz se pode ver a meta e tamb\u00e9m o sentido da estrada comum.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b>Conhecimento da verdade e amor<\/b><\/p>\n<p>26. Nesta situa\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 a f\u00e9 crist\u00e3 prestar um servi\u00e7o ao bem comum relativamente \u00e0 maneira correcta de entender a verdade? Para termos uma resposta, \u00e9 necess\u00e1rio reflectir sobre o tipo de conhecimento pr\u00f3prio da f\u00e9. Pode ajudar-nos esta frase de Paulo: \u00ab Acredita-se com o cora\u00e7\u00e3o \u00bb (<i>Rm\u00a0<\/i>10, 10). Este, na B\u00edblia, \u00e9 o centro do homem, onde se entrecruzam todas as suas dimens\u00f5es: o corpo e o esp\u00edrito, a interioridade da pessoa e a sua abertura ao mundo e aos outros, a intelig\u00eancia, a vontade, a afectividade. O cora\u00e7\u00e3o pode manter unidas estas dimens\u00f5es, porque \u00e9 o lugar onde nos abrimos \u00e0 verdade e ao amor, deixando que nos toquem e transformem profundamente. A f\u00e9 transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em que ela se abre ao amor; \u00e9 neste entrela\u00e7amento da f\u00e9 com o amor que se compreende a forma de conhecimento pr\u00f3pria da f\u00e9, a sua for\u00e7a de convic\u00e7\u00e3o, a sua capacidade de iluminar os nossos passos. A f\u00e9 conhece na medida em que est\u00e1 ligada ao amor, j\u00e1 que o pr\u00f3prio amor traz uma luz. A compreens\u00e3o da f\u00e9 \u00e9 aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus, que nos transforma interiormente e nos d\u00e1 olhos novos para ver a realidade.<\/p>\n<p>27. \u00c9 conhecido o modo como o fil\u00f3sofo Ludwig Wittgenstein explicou a liga\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e a certeza. Segundo ele, acreditar seria compar\u00e1vel \u00e0 experi\u00eancia do enamoramento, concebida como algo de subjectivo, imposs\u00edvel de propor como verdade v\u00e1lida para todos.[19]\u00a0De facto, aos olhos do homem moderno, parece que a quest\u00e3o do amor n\u00e3o teria nada a ver com a verdade; o amor surge, hoje, como uma experi\u00eancia ligada, n\u00e3o \u00e0 verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos.<\/p>\n<p>Mas, ser\u00e1 esta verdadeiramente uma descri\u00e7\u00e3o adequada do amor? Na realidade, o amor n\u00e3o se pode reduzir a um sentimento que vai e vem. \u00c9 verdade que o amor tem a ver com a nossa afectividade, mas para a abrir \u00e0 pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclus\u00e3o no pr\u00f3prio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma rela\u00e7\u00e3o duradoura; o amor visa a uni\u00e3o com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade \u00e9 que pode perdurar no tempo, superar o instante ef\u00e9mero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor n\u00e3o tivesse rela\u00e7\u00e3o com a verdade, estaria sujeito \u00e0 altera\u00e7\u00e3o dos sentimentos e n\u00e3o superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor n\u00e3o pode oferecer um v\u00ednculo s\u00f3lido, n\u00e3o consegue arrancar o \u00ab eu \u00bb para fora do seu isolamento, nem libert\u00e1-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.<\/p>\n<p>Se o amor tem necessidade da verdade, tamb\u00e9m a verdade precisa do amor; amor e verdade n\u00e3o se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que d\u00e1 significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor \u00e9 experi\u00eancia da verdade, compreende que \u00e9 precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em uni\u00e3o com a pessoa amada. Neste sentido, escreveu S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno que o pr\u00f3prio amor \u00e9 um conhecimento,\u00a0[20]\u00a0traz consigo uma l\u00f3gica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento partilhado, vis\u00e3o na vis\u00e3o do outro e vis\u00e3o comum sobre todas as coisas. Na Idade M\u00e9dia, Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradi\u00e7\u00e3o, ao comentar um vers\u00edculo do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos no qual o amado diz \u00e0 amada: \u00ab Como s\u00e3o lindos os teus olhos de pomba! \u00bb (<i>Ct\u00a0<\/i>1, 15).\u00a0[21]\u00a0Estes dois olhos \u2014 explica Saint Thierry \u2014 s\u00e3o a raz\u00e3o crente e o amor, que se tornam um \u00fanico olhar para chegar \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o de Deus, quando a intelig\u00eancia se faz \u00ab entendimento de um amor iluminado \u00bb.\u00a0[22]<\/p>\n<p>28. Esta descoberta do amor como fonte de conhecimento, que pertence \u00e0 experi\u00eancia primordial de cada homem, encontra uma express\u00e3o categorizada na concep\u00e7\u00e3o b\u00edblica da f\u00e9. Israel, saboreando o amor com que Deus o escolheu e gerou como povo, chega a compreender a unidade do des\u00edgnio divino, desde a origem \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o. O conhecimento da f\u00e9, pelo facto de nascer do amor de Deus que estabelece a Alian\u00e7a, \u00e9 conhecimento que ilumina um caminho na hist\u00f3ria. \u00c9 por isso tamb\u00e9m que, na B\u00edblia, verdade e fidelidade caminham juntas: o Deus verdadeiro \u00e9 o Deus fiel, Aquele que mant\u00e9m as suas promessas e permite, com o decorrer do tempo, compreender o seu des\u00edgnio. Atrav\u00e9s da experi\u00eancia dos profetas, no sofrimento do ex\u00edlio e na esperan\u00e7a de um regresso definitivo \u00e0 Cidade Santa, Israel intuiu que esta verdade de Deus se estendia mais al\u00e9m da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, abra\u00e7ando a hist\u00f3ria inteira do mundo a come\u00e7ar da cria\u00e7\u00e3o. O conhecimento da f\u00e9 ilumina n\u00e3o s\u00f3 o caminho particular de um povo, mas tamb\u00e9m o percurso inteiro do mundo criado, desde a origem at\u00e9 \u00e0 sua consuma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>A f\u00e9 como escuta e vis\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>29. Justamente porque o conhecimento da f\u00e9 est\u00e1 ligado \u00e0 alian\u00e7a de um Deus fiel, que estabelece uma rela\u00e7\u00e3o de amor com o homem e lhe dirige a Palavra, \u00e9 apresentado pela B\u00edblia como escuta, aparece associado com o ouvido. S\u00e3o Paulo usar\u00e1 uma f\u00f3rmula que se tornou cl\u00e1ssica: \u00ab\u00a0<i>fides ex auditu\u00a0<\/i>\u2014 a f\u00e9 vem da escuta \u00bb (<i>Rm\u00a0<\/i>10, 17). O conhecimento associado \u00e0 palavra \u00e9 sempre conhecimento pessoal, que reconhece a voz, se lhe abre livremente e a segue obedientemente. Por isso, S\u00e3o Paulo falou da \u00ab obedi\u00eancia da f\u00e9 \u00bb (cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>1, 5; 16, 26).[23]Al\u00e9m disso, a f\u00e9 \u00e9 conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para ser explicitada: \u00e9 conhecimento que s\u00f3 se aprende num percurso de seguimento. A escuta ajuda a identificar bem o nexo entre conhecimento e amor.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do conhecimento da verdade, pretendeu-se por vezes contrapor a escuta \u00e0 vis\u00e3o, a qual seria peculiar da cultura grega. Se a luz, por um lado, oferece a contempla\u00e7\u00e3o da totalidade a que o homem sempre aspirou, por outro, parece n\u00e3o deixar espa\u00e7o \u00e0 liberdade, pois desce do c\u00e9u e chega directamente \u00e0 vista, sem lhe pedir que responda. Al\u00e9m disso, parece convidar a uma contempla\u00e7\u00e3o est\u00e1tica, separada do tempo concreto em que o homem goza e sofre. Segundo esta concep\u00e7\u00e3o, haveria oposi\u00e7\u00e3o entre a abordagem b\u00edblica do conhecimento e a grega, a qual, na sua busca duma compreens\u00e3o completa da realidade, teria associado o conhecimento com a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tal suposta oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 corroborada de forma alguma pelos dados b\u00edblicos: o Antigo Testamento combinou os dois tipos de conhecimento, unindo a escuta da Palavra de Deus com o desejo de ver o seu rosto. Isto tornou poss\u00edvel entabular di\u00e1logo com a cultura helenista, um di\u00e1logo que pertence ao cora\u00e7\u00e3o da Escritura. O ouvido atesta n\u00e3o s\u00f3 a chamada pessoal e a obedi\u00eancia, mas tamb\u00e9m que a verdade se revela no tempo; a vista, por sua vez, oferece a vis\u00e3o plena de todo o percurso, permitindo situar-nos no grande projecto de Deus; sem tal vis\u00e3o, dispor\u00edamos apenas de fragmentos isolados de um todo desconhecido.<\/p>\n<p>30. A conex\u00e3o entre o ver e o ouvir, como \u00f3rg\u00e3os do conhecimento da f\u00e9, aparece com a m\u00e1xima clareza no Evangelho de Jo\u00e3o, onde acreditar \u00e9 simultaneamente ouvir e ver. A escuta da f\u00e9 verifica-se segundo a forma de conhecimento pr\u00f3pria do amor: \u00e9 uma escuta pessoal, que distingue e reconhece a voz do Bom Pastor (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>10, 3-5); uma escuta que requer o seguimento, como acontece com os primeiros disc\u00edpulos que, \u00ab ouvindo [Jo\u00e3o Baptista] falar desta maneira, seguiram Jesus \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>1, 37). Por outro lado, a f\u00e9 est\u00e1 ligada tamb\u00e9m com a vis\u00e3o: umas vezes, a vis\u00e3o dos sinais de Jesus precede a f\u00e9, como sucede com os judeus que, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro, \u00ab ao verem o que Jesus fez, creram n\u2019Ele \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>11, 45); outras vezes, \u00e9 a f\u00e9 que leva a uma vis\u00e3o mais profunda: \u00ab Se acreditares, ver\u00e1s a gl\u00f3ria de Deus \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>11, 40). Por fim, acreditar e ver cruzam-se: \u00ab Quem cr\u00ea em Mim (&#8230;) cr\u00ea n\u2019Aquele que Me enviou; e quem Me v\u00ea a Mim, v\u00ea Aquele que me enviou \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>12, 44-45). O ver, gra\u00e7as \u00e0 sua uni\u00e3o com o ouvir, torna-se seguimento de Cristo; e a f\u00e9 aparece como um caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade. E assim, na manh\u00e3 de P\u00e1scoa, de Jo\u00e3o \u2014 que, ainda na escurid\u00e3o perante o t\u00famulo vazio, \u00ab viu e come\u00e7ou a crer \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>20, 8) \u2014 passa-se a Maria Madalena \u2014 que j\u00e1 v\u00ea Jesus (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>20, 14) e quer ret\u00ea-Lo, mas \u00e9 convidada a contempl\u00e1-Lo no seu caminho para o Pai \u2014 at\u00e9 \u00e0 plena confiss\u00e3o da pr\u00f3pria Madalena diante dos disc\u00edpulos: \u00ab Vi o Senhor! \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>20, 18).<\/p>\n<p>Como se chega a esta s\u00edntese entre o ouvir e o ver? A partir da pessoa concreta de Jesus, que Se v\u00ea e escuta. Ele \u00e9 a Palavra que Se fez carne e cuja gl\u00f3ria contempl\u00e1mos (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>1, 14). A luz da f\u00e9 \u00e9 a luz de um Rosto, no qual se v\u00ea o Pai. De facto, no quarto Evangelho, a verdade que a f\u00e9 apreende \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o do Pai no Filho, na sua carne e nas suas obras terrenas; verdade essa, que se pode definir como a \u00ab vida luminosa \u00bb de Jesus.[24]\u00a0Isto significa que o conhecimento da f\u00e9 n\u00e3o nos convida a olhar uma verdade puramente interior; a verdade que a f\u00e9 nos descerra \u00e9 uma verdade centrada no encontro com Cristo, na contempla\u00e7\u00e3o da sua vida, na percep\u00e7\u00e3o da sua presen\u00e7a. Neste sentido e a prop\u00f3sito da vis\u00e3o corp\u00f3rea do Ressuscitado, S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino fala de<i>oculata fides\u00a0<\/i>(uma f\u00e9 que v\u00ea) dos Ap\u00f3stolos:[25]\u00a0viram Jesus ressuscitado com os seus olhos e acreditaram, isto \u00e9, puderam penetrar na profundidade daquilo que viam para confessar o Filho de Deus, sentado \u00e0 direita do Pai.<\/p>\n<p>31. S\u00f3 assim, atrav\u00e9s da encarna\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da partilha da nossa humanidade, podia chegar \u00e0 plenitude o conhecimento pr\u00f3prio do amor. De facto, a luz do amor nasce quando somos tocados no cora\u00e7\u00e3o, recebendo assim, em n\u00f3s, a presen\u00e7a interior do amado, que nos permite reconhecer o seu mist\u00e9rio. Compreendemos agora por que motivo, para Jo\u00e3o, a f\u00e9 seja, juntamente com o escutar e o ver, um tocar, como nos diz na sua Primeira Carta: \u00ab O que ouvimos, o que vimos (\u2026) e as nossas m\u00e3os tocaram relativamente ao Verbo da Vida\u2026 \u00bb (<i>1 Jo\u00a0<\/i>1, 1). Por meio da sua encarna\u00e7\u00e3o, com a sua vinda entre n\u00f3s, Jesus tocou-nos e, atrav\u00e9s dos sacramentos, ainda hoje nos toca; desta forma, transformando o nosso cora\u00e7\u00e3o, permitiu-nos \u2014 e permite-nos \u2014 reconhec\u00ea-Lo e confess\u00e1-Lo como Filho de Deus. Pela f\u00e9, podemos toc\u00e1-Lo e receber a for\u00e7a da sua gra\u00e7a. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorro\u00edssa que toca Jesus para ser curada (cf.\u00a0<i>Lc\u00a0<\/i>8, 45-46), afirma: \u00ab Tocar com o cora\u00e7\u00e3o, isto \u00e9 crer \u00bb.[26]\u00a0A multid\u00e3o comprime-se ao redor de Jesus, mas n\u00e3o O alcan\u00e7a com aquele toque pessoal da f\u00e9 que reconhece o seu mist\u00e9rio, o seu ser Filho que manifesta o Pai. S\u00f3 quando somos configurados com Jesus \u00e9 que recebemos o olhar adequado para O ver.<\/p>\n<p><b>O di\u00e1logo entre f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>32. A f\u00e9 crist\u00e3, enquanto anuncia a verdade do amor total de Deus e abre para a for\u00e7a deste amor, chega ao centro mais profundo da experi\u00eancia de cada homem, que vem \u00e0 luz gra\u00e7as ao amor e \u00e9 chamado ao amor para permanecer na luz. Movidos pelo desejo de iluminar a realidade inteira a partir do amor de Deus manifestado em Jesus e procurando amar com este mesmo amor, os primeiros crist\u00e3os encontraram no mundo grego, na sua fome de verdade, um parceiro id\u00f3neo para o di\u00e1logo. O encontro da mensagem evang\u00e9lica com o pensamento filos\u00f3fico do mundo antigo constituiu uma passagem decisiva para o Evangelho chegar a todos os povos e favoreceu uma fecunda sinergia entre f\u00e9 e raz\u00e3o, que se foi desenvolvendo no decurso dos s\u00e9culos at\u00e9 aos nossos dias. O Beato\u00a0Jo\u00e3o Paulo II, na sua carta enc\u00edclica\u00a0<i>Fides et ratio<\/i>, mostrou como f\u00e9 e raz\u00e3o se refor\u00e7am mutuamente.\u00a0[27]\u00a0Depois de ter encontrado a luz plena do amor de Jesus, descobrimos que havia, em todo o nosso amor, um lampejo daquela luz e compreendemos qual era a sua meta derradeira; e, simultaneamente, o facto de o nosso amor trazer em si uma luz ajuda-nos a ver o caminho do amor rumo \u00e0 plenitude da doa\u00e7\u00e3o total do Filho de Deus por n\u00f3s. Neste movimento circular, a luz da f\u00e9 ilumina todas as nossas rela\u00e7\u00f5es humanas, que podem ser vividas em uni\u00e3o com o amor e a ternura de Cristo.<\/p>\n<p>33. Na vida de Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a busca da raz\u00e3o, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da f\u00e9, do qual recebeu uma nova compreens\u00e3o. Por um lado, acolhe a filosofia grega da luz com a sua insist\u00eancia na vis\u00e3o: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz, que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um s\u00edmbolo de Deus. Desta maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcend\u00eancia divina e descobriu que todas as coisas possuem em si uma transpar\u00eancia, isto \u00e9, que podiam reflectir a bondade de Deus, o Bem; assim se libertou do manique\u00edsmo, em que antes vivia, que o inclinava a pensar que o bem e o mal lutassem continuamente entre si, confundindo-se e misturando-se, sem contornos claros. O facto de ter compreendido que Deus \u00e9 luz deu \u00e0 sua exist\u00eancia uma nova orienta\u00e7\u00e3o, a capacidade de reconhecer o mal de que era culpado e voltar-se para o bem.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, na experi\u00eancia concreta de Agostinho, que ele pr\u00f3prio narra nas suas\u00a0<i>Confiss\u00f5es<\/i>, o momento decisivo no seu caminho de f\u00e9 n\u00e3o foi uma vis\u00e3o de Deus para al\u00e9m deste mundo, mas a escuta, quando no jardim ouviu uma voz que lhe dizia: \u00ab Toma e l\u00ea \u00bb; ele pegou no tomo com as Cartas de S\u00e3o Paulo, detendo-se no cap\u00edtulo d\u00e9cimo terceiro da Carta aos Romanos.[28]\u00a0Temos aqui o Deus pessoal da B\u00edblia, capaz de falar ao homem, descer para viver com ele e acompanhar o seu caminho na hist\u00f3ria, manifestando-Se no tempo da escuta e da resposta.<\/p>\n<p>Mas, este encontro com o Deus da Palavra n\u00e3o levou Santo Agostinho a rejeitar a luz e a vis\u00e3o, mas integrou ambas as perspectivas, guiado sempre pela revela\u00e7\u00e3o do amor de Deus em Jesus. Deste modo, elaborou uma filosofia da luz que re\u00fane em si a reciprocidade pr\u00f3pria da palavra e abre um espa\u00e7o \u00e0 liberdade pr\u00f3pria do olhar para a luz: tal como \u00e0 palavra corresponde uma resposta livre, assim tamb\u00e9m a luz encontra como resposta uma imagem que a reflecte. Deste modo, associando escuta e vis\u00e3o, Santo Agostinho p\u00f4de referir-se \u00e0 \u00ab palavra que resplandece no interior do homem \u00bb.[29]\u00a0A luz torna-se, por assim dizer, a luz de uma palavra, porque \u00e9 a luz de um Rosto pessoal, uma luz que, ao iluminar-nos, nos chama e quer reflectir-se no nosso rosto para resplandecer a partir do nosso \u00edntimo. Por outro lado, o desejo da vis\u00e3o do todo, e n\u00e3o apenas dos fragmentos da hist\u00f3ria, continua presente e cumprir-se-\u00e1 no fim, quando o homem \u2014 como diz o Santo de Hipona \u2014 poder\u00e1 ver e amar;[30]\u00a0e isto, n\u00e3o por ser capaz de possuir a luz toda, j\u00e1 que esta ser\u00e1 sempre inexaur\u00edvel, mas por entrar, todo inteiro, na luz.<\/p>\n<p>34. A luz do amor, pr\u00f3pria da f\u00e9, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade. Muitas vezes, hoje, a verdade \u00e9 reduzida a autenticidade subjectiva do indiv\u00edduo, v\u00e1lida apenas para a vida individual. Uma verdade comum mete-nos medo, porque a identificamos \u2014 como dissemos atr\u00e1s \u2014 com a imposi\u00e7\u00e3o intransigente dos totalitarismos; mas, se ela \u00e9 a verdade do amor, se \u00e9 a verdade que se mostra no encontro pessoal com o Outro e com os outros, ent\u00e3o fica livre da reclus\u00e3o no indiv\u00edduo e pode fazer parte do bem comum. Sendo a verdade de um amor, n\u00e3o \u00e9 verdade que se imp\u00f5e pela viol\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 verdade que esmaga o indiv\u00edduo; nascendo do amor pode chegar ao cora\u00e7\u00e3o, ao centro pessoal de cada homem; daqui resulta claramente que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 intransigente, mas cresce na conviv\u00eancia que respeita o outro. O crente n\u00e3o \u00e9 arrogante; pelo contr\u00e1rio, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la n\u00f3s, \u00e9 ela que nos abra\u00e7a e possui. Longe de nos endurecer, a seguran\u00e7a da f\u00e9 p\u00f5e-nos a caminho e torna poss\u00edvel o testemunho e o di\u00e1logo com todos.<\/p>\n<p>Por outro lado, enquanto unida \u00e0 verdade do amor, a luz da f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da f\u00e9 \u00e9 luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A f\u00e9 ilumina tamb\u00e9m a mat\u00e9ria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreens\u00e3o. Deste modo, o olhar da ci\u00eancia tira benef\u00edcio da f\u00e9: esta convida o cientista a permanecer aberto \u00e0 realidade, em toda a sua riqueza inesgot\u00e1vel. A f\u00e9 desperta o sentido cr\u00edtico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas f\u00f3rmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o, a f\u00e9 alarga os horizontes da raz\u00e3o para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ci\u00eancia.<\/p>\n<p><b>A f\u00e9 e a busca de Deus<\/b><\/p>\n<p>35. A luz da f\u00e9 em Jesus ilumina tamb\u00e9m o caminho de todos aqueles que procuram a Deus e oferece a contribui\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do cristianismo para o di\u00e1logo com os seguidores das diferentes religi\u00f5es. A Carta aos Hebreus fala-nos do testemunho dos justos que, antes da Alian\u00e7a com Abra\u00e3o, j\u00e1 procuravam a Deus com f\u00e9; l\u00e1 se diz, a prop\u00f3sito de Henoc, que \u00ab tinha agradado a Deus \u00bb, sendo isso imposs\u00edvel sem a f\u00e9, porque \u00ab quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram \u00bb (<i>Heb\u00a0<\/i>11, 5.6). Deste modo, \u00e9 poss\u00edvel compreender que o caminho do homem religioso passa pela confiss\u00e3o de um Deus que cuida dele e que Se pode encontrar. Que outra recompensa poderia Deus oferecer \u00e0queles que O buscam, sen\u00e3o deixar-Se encontrar a Si mesmo? Ainda antes de Henoc, encontramos a figura de Abel, de quem se louva igualmente a f\u00e9, em virtude da qual foram agrad\u00e1veis a Deus os seus dons, a oferenda dos primog\u00e9nitos dos seus rebanhos (cf.\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>11, 4). O homem religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experi\u00eancias di\u00e1rias da sua vida, no ciclo das esta\u00e7\u00f5es, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus \u00e9 luminoso, podendo ser encontrado tamb\u00e9m por aqueles que O buscam de cora\u00e7\u00e3o sincero.<\/p>\n<p>Imagem desta busca s\u00e3o os Magos, guiados pela estrela at\u00e9 Bel\u00e9m (cf.\u00a0<i>Mt\u00a0<\/i>2, 1-12). A luz de Deus mostrou-se-lhes como caminho, como estrela que os guia ao longo duma estrada a descobrir. Deste modo, a estrela fala da paci\u00eancia de Deus com os nossos olhos, que devem habituar-se ao seu fulgor. Encontrando-se a caminho, o homem religioso deve estar pronto a deixar-se guiar, a sair de si mesmo para encontrar o Deus que n\u00e3o cessa de nos surpreender. Este respeito de Deus pelos olhos do homem mostra-nos que, quando o homem se aproxima d\u2019Ele, a luz humana n\u00e3o se dissolve na imensid\u00e3o luminosa de Deus, como se fosse um estrela absorvida pela aurora, mas torna-se tanto mais brilhante quanto mais perto fica do fogo gerador, como um espelho que reflecte o resplendor. A confiss\u00e3o de Jesus, \u00fanico Salvador, afirma que toda a luz de Deus se concentrou n\u2019Ele, na sua \u00ab vida luminosa \u00bb, em que se revela a origem e a consuma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.[31]\u00a0N\u00e3o h\u00e1 nenhuma experi\u00eancia humana, nenhum itiner\u00e1rio do homem para Deus que n\u00e3o possa ser acolhido, iluminado e purificado por esta luz. Quanto mais o crist\u00e3o penetrar no c\u00edrculo aberto pela luz de Cristo, tanto mais ser\u00e1 capaz de compreender e acompanhar o caminho de cada homem para Deus.<\/p>\n<p>Configurando-se como caminho, a f\u00e9 tem a ver tamb\u00e9m com a vida dos homens que, apesar de n\u00e3o acreditar, desejam-no fazer e n\u00e3o cessam de procurar. Na medida em que se abrem, de cora\u00e7\u00e3o sincero, ao amor e se p\u00f5em a caminho com a luz que conseguem captar, j\u00e1 vivem \u2014 sem o saber \u2014 no caminho para a f\u00e9: procuram agir como se Deus existisse, seja porque reconhecem a sua import\u00e2ncia para encontrar directrizes firmes na vida comum, seja porque sentem o desejo de luz no meio da escurid\u00e3o, seja ainda porque, notando como \u00e9 grande e bela a vida, intuem que a presen\u00e7a de Deus ainda a tornaria maior. Santo Ireneu de Li\u00e3o refere que Abra\u00e3o, antes de ouvir a voz de Deus, j\u00e1 O procurava \u00ab com o desejo ardente do seu cora\u00e7\u00e3o \u00bb e \u00ab percorria todo o mundo, perguntando-se onde pudesse estar Deus \u00bb, at\u00e9 que \u00ab Deus teve piedade daquele que, sozinho, O procurava no sil\u00eancio \u00bb.[32]\u00a0Quem se p\u00f5e a caminho para praticar o bem, j\u00e1 se aproxima de Deus, j\u00e1 est\u00e1 sustentado pela sua ajuda, porque \u00e9 pr\u00f3prio da din\u00e2mica da luz divina iluminar os nossos olhos, quando caminhamos para a plenitude do amor.<\/p>\n<p><b>F\u00e9 e teologia<\/b><\/p>\n<p>36. Como luz que \u00e9, a f\u00e9 convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia crist\u00e3; assim, \u00e9 claro que a teologia \u00e9 imposs\u00edvel sem a f\u00e9 e pertence ao pr\u00f3prio movimento da f\u00e9, que procura a compreens\u00e3o mais profunda da auto-revela\u00e7\u00e3o de Deus, culminada no Mist\u00e9rio de Cristo. A primeira consequ\u00eancia \u00e9 que, na teologia, n\u00e3o se verifica apenas um esfor\u00e7o da raz\u00e3o para perscrutar e conhecer, como nas ci\u00eancias experimentais. Deus n\u00e3o pode ser reduzido a objecto; Ele \u00e9 Sujeito que Se d\u00e1 a conhecer e manifesta na rela\u00e7\u00e3o pessoa a pessoa. A f\u00e9 recta orienta a raz\u00e3o para se abrir \u00e0 luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor \u00e0 verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda. Os grandes doutores e te\u00f3logos medievais declararam que a teologia, enquanto ci\u00eancia da f\u00e9, \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o no conhecimento que Deus tem de Si mesmo. Por isso, a teologia n\u00e3o \u00e9 apenas palavra sobre Deus, mas, antes de tudo, acolhimento e busca de uma compreens\u00e3o mais profunda da palavra que Deus nos dirige: palavra que Deus pronuncia sobre Si mesmo, porque \u00e9 um di\u00e1logo eterno de comunh\u00e3o, no \u00e2mbito do qual \u00e9 admitido o homem.[33]\u00a0Assim, \u00e9 pr\u00f3pria da teologia a humildade, que se deixa \u00ab tocar \u00bb por Deus, reconhece os seus limites face ao Mist\u00e9rio e se encoraja a explorar, com a disciplina pr\u00f3pria da raz\u00e3o, as riquezas insond\u00e1veis deste Mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a teologia partilha a forma eclesial da f\u00e9; a sua luz \u00e9 a luz do sujeito crente que \u00e9 a Igreja. Isto implica, por um lado, que a teologia esteja ao servi\u00e7o da f\u00e9 dos crist\u00e3os, vise humildemente preservar e aprofundar o crer de todos, sobretudo dos mais simples; e por outro, dado que vive da f\u00e9, a teologia n\u00e3o considera o magist\u00e9rio do Papa e dos Bispos em comunh\u00e3o com ele como algo de extr\u00ednseco, um limite \u00e0 sua liberdade, mas, pelo contr\u00e1rio, como um dos seus momentos internos constitutivos, enquanto o magist\u00e9rio assegura o contacto com a fonte origin\u00e1ria, oferecendo assim a certeza de beber na Palavra de Cristo em toda a sua integridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\">CAP\u00cdTULO III<\/p>\n<p align=\"center\"><b>TRANSMITO-VOS AQUILO QUE RECEBI<br \/>\n<\/b>(cf.\u00a0<i>1 Cor\u00a0<\/i>15, 3)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A Igreja, m\u00e3e da nossa f\u00e9<\/b><\/p>\n<p>37. Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, n\u00e3o pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que \u00e9 escuta e vis\u00e3o, a f\u00e9 transmite-se tamb\u00e9m como palavra e como luz; dirigindo-se aos Cor\u00edntios, o ap\u00f3stolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: \u00ab Animados do mesmo esp\u00edrito de f\u00e9, conforme o que est\u00e1 escrito: Acreditei e por isso falei, tamb\u00e9m n\u00f3s acreditamos e por isso falamos \u00bb (<i>2 Cor\u00a0<\/i>4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confiss\u00e3o, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, S\u00e3o Paulo refere-se tamb\u00e9m \u00e0 luz: \u00ab E n\u00f3s todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a gl\u00f3ria do Senhor, somos transfigurados na sua pr\u00f3pria imagem \u00bb (<i>2 Cor\u00a0<\/i>3, 18); \u00e9 uma luz que se reflecte de rosto em rosto, como sucedeu com Mois\u00e9s cujo rosto reflectia a gl\u00f3ria de Deus depois de ter falado com Ele: \u00ab [Deus] brilhou nos nossos cora\u00e7\u00f5es, para irradiar o conhecimento da gl\u00f3ria de Deus, que resplandece na face de Cristo \u00bb (<i>2 Cor\u00a0<\/i>4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos crist\u00e3os como num espelho, e assim se difunde chegando at\u00e9 n\u00f3s, para que tamb\u00e9m n\u00f3s possamos participar desta vis\u00e3o e reflectir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do c\u00edrio, na liturgia de P\u00e1scoa, acende muitas outras velas. A f\u00e9 transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os crist\u00e3os, na sua pobreza, lan\u00e7am uma semente t\u00e3o fecunda que se torna uma grande \u00e1rvore, capaz de encher o mundo de frutos.<\/p>\n<p>38. A transmiss\u00e3o da f\u00e9, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa tamb\u00e9m atrav\u00e9s do eixo do tempo, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Dado que a f\u00e9 nasce de um encontro que acontece na hist\u00f3ria e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos s\u00e9culos. \u00c9 atrav\u00e9s de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como \u00e9 poss\u00edvel isto? Como se pode estar seguro de beber no \u00ab verdadeiro Jesus \u00bb atrav\u00e9s dos s\u00e9culos? Se o homem fosse um indiv\u00edduo isolado, se quis\u00e9ssemos partir apenas do \u00ab eu \u00bb individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria imposs\u00edvel; n\u00e3o posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa \u00e9poca t\u00e3o distante de mim. Mas, esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica maneira de o homem conhecer; a pessoa vive sempre em rela\u00e7\u00e3o: prov\u00e9m de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os outros; o pr\u00f3prio conhecimento e consci\u00eancia de n\u00f3s mesmos s\u00e3o de tipo relacional e est\u00e3o ligados a outros que nos precederam, a come\u00e7ar pelos nossos pais que nos deram a vida e o nome. A pr\u00f3pria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos atrav\u00e9s dos outros, conservadas na mem\u00f3ria viva de outros; o conhecimento de n\u00f3s mesmos s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando participamos duma mem\u00f3ria mais ampla. O mesmo acontece com a f\u00e9, que leva \u00e0 plenitude o modo humano de entender: o passado da f\u00e9, aquele acto de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega at\u00e9 n\u00f3s na mem\u00f3ria de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito \u00fanico de mem\u00f3ria que \u00e9 a Igreja; esta \u00e9 uma M\u00e3e que nos ensina a falar a linguagem da f\u00e9. S\u00e3o Jo\u00e3o insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente f\u00e9 e mem\u00f3ria e associando as duas \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo que, como diz Jesus, \u00ab h\u00e1-de recordar-vos tudo \u00bb (<i>Jo\u00a0<\/i>14, 26). O Amor, que \u00e9 o Esp\u00edrito e que habita na Igreja, mant\u00e9m unidos entre si todos os tempos e faz-nos contempor\u00e2neos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na f\u00e9.<\/p>\n<p>39. \u00c9 imposs\u00edvel crer sozinhos. A f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma op\u00e7\u00e3o individual que se realiza na interioridade do crente, n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o isolada entre o \u00ab eu \u00bb do fiel e o \u00ab Tu \u00bb divino, entre o sujeito aut\u00f3nomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao \u00ab n\u00f3s \u00bb, verifica-se sempre dentro da comunh\u00e3o da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia baptismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que n\u00e3o prov\u00e9m de mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um di\u00e1logo, n\u00e3o pode ser uma mera confiss\u00e3o que nasce do indiv\u00edduo: s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel responder \u00ab creio \u00bb em primeira pessoa, porque se pertence a uma comunh\u00e3o grande, dizendo tamb\u00e9m \u00ab cremos \u00bb. Esta abertura ao \u00ab n\u00f3s \u00bb eclesial realiza-se de acordo com a abertura pr\u00f3pria do amor de Deus, que n\u00e3o \u00e9 apenas rela\u00e7\u00e3o entre o Pai e o Filho, entre \u00ab eu \u00bb e \u00ab tu \u00bb, mas, no Esp\u00edrito, \u00e9 tamb\u00e9m um \u00ab n\u00f3s \u00bb, uma comunh\u00e3o de pessoas. Por isso mesmo, quem cr\u00ea nunca est\u00e1 sozinho; e, pela mesma raz\u00e3o, a f\u00e9 tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a f\u00e9, descobre que os espa\u00e7os do pr\u00f3prio \u00ab eu \u00bb se alargam, gerando-se nele novas rela\u00e7\u00f5es que enriquecem a vida. Assim o exprimiu vigorosamente Tertuliano ao dizer do catec\u00fameno que, tendo sido recebido numa nova fam\u00edlia \u00ab depois do banho do novo nascimento \u00bb, \u00e9 acolhido na casa da M\u00e3e para erguer as m\u00e3os e rezar, juntamente com os irm\u00e3os, o\u00a0<i>Pai Nosso<\/i>.[34]<\/p>\n<p><b>Os sacramentos e a transmiss\u00e3o da f\u00e9<\/b><\/p>\n<p>40. Como sucede em cada fam\u00edlia, a Igreja transmite aos seus filhos o conte\u00fado da sua mem\u00f3ria. Como se deve fazer esta transmiss\u00e3o de modo que nada se perca, mas antes que tudo se aprofunde cada vez mais na heran\u00e7a da f\u00e9? \u00c9 atrav\u00e9s da Tradi\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica, conservada na Igreja com a assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo, que temos contacto vivo com a mem\u00f3ria fundadora. E aquilo que foi transmitido pelos Ap\u00f3stolos, como afirma o Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, \u00ab abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua f\u00e9; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gera\u00e7\u00f5es tudo aquilo que ela \u00e9 e tudo quanto acredita \u00bb.[35]<\/p>\n<p>De facto, a f\u00e9 tem necessidade de um \u00e2mbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conte\u00fado meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repeti\u00e7\u00e3o de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradi\u00e7\u00e3o viva \u00e9 a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu \u00edntimo, no cora\u00e7\u00e3o, envolvendo a sua mente, vontade e afectividade, abrindo-a a rela\u00e7\u00f5es vivas na comunh\u00e3o com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que p\u00f5e em jogo a pessoa inteira: corpo e esp\u00edrito, interioridade e rela\u00e7\u00f5es. Este meio s\u00e3o os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma mem\u00f3ria encarnada, ligada aos lugares e \u00e9pocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa \u00e9 envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de rela\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias. Por isso, se \u00e9 verdade que os sacramentos s\u00e3o os sacramentos da f\u00e9,[36]\u00a0h\u00e1 que afirmar tamb\u00e9m que a f\u00e9 tem uma estrutura sacramental; o despertar da f\u00e9 passa pelo despertar de um novo sentido sacramental na vida do homem e na exist\u00eancia crist\u00e3, mostrando como o vis\u00edvel e o material se abrem para o mist\u00e9rio do eterno.<\/p>\n<p>41. A transmiss\u00e3o da f\u00e9 verifica-se, em primeiro lugar, atrav\u00e9s do Baptismo. Poderia parecer que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confiss\u00e3o de f\u00e9, um acto pedag\u00f3gico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria poss\u00edvel fundamentalmente prescindir. Mas n\u00e3o \u00e9 assim, como no-lo recorda uma palavra de S\u00e3o Paulo: \u00ab Pelo Baptismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela gl\u00f3ria do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s caminhemos numa vida nova \u00bb (<i>Rm\u00a0<\/i>6, 4); nele, tornamo-nos nova criatura e filhos adoptivos de Deus. E mais adiante o Ap\u00f3stolo diz que o crist\u00e3o foi confiado a uma \u00ab forma de ensino \u00bb (<i>typos didach\u00e9s<\/i>), a que obedece de cora\u00e7\u00e3o (cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>6, 17): no Baptismo, o homem recebe tamb\u00e9m uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para o bem; \u00e9 transferido para um novo \u00e2mbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Baptismo recorda-nos que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 obra do indiv\u00edduo isolado, n\u00e3o \u00e9 um acto que o homem possa realizar contando apenas com as pr\u00f3prias for\u00e7as, mas tem de ser recebida, entrando na comunh\u00e3o eclesial que transmite o dom de Deus: ningu\u00e9m se baptiza a si mesmo, tal como ningu\u00e9m vem sozinho \u00e0 exist\u00eancia. Fomos baptizados.<\/p>\n<p>42. Quais s\u00e3o os elementos baptismais que nos introduzem nesta nova \u00ab forma de ensino \u00bb? Sobre o catec\u00fameno \u00e9 invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo. E deste modo se oferece, logo desde o princ\u00edpio, uma s\u00edntese do caminho da f\u00e9: o Deus que chamou Abra\u00e3o e quis chamar-Se seu Deus, o Deus que revelou o seu nome a Mois\u00e9s, o Deus que, ao entregar-nos o seu Filho, nos revelou plenamente o mist\u00e9rio do seu Nome, d\u00e1 \u00e0 pessoa baptizada uma nova identidade filial. Desta forma, se evidencia o sentido da imers\u00e3o na \u00e1gua que se realiza no Baptismo: a \u00e1gua \u00e9, simultaneamente, s\u00edmbolo de morte, que nos convida a passar pela convers\u00e3o do \u00ab eu \u00bb tendo em vista a sua abertura a um \u00ab Eu \u00bb maior, e s\u00edmbolo de vida, do ventre onde renascemos para seguir Cristo na sua nova exist\u00eancia. Deste modo, atrav\u00e9s da imers\u00e3o na \u00e1gua, o Baptismo fala-nos da estrutura encarnada da f\u00e9. A ac\u00e7\u00e3o de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos filhos adoptivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas rela\u00e7\u00f5es, a nossa situa\u00e7\u00e3o concreta na terra e no universo, abrindo-as \u00e0 pr\u00f3pria vida de comunh\u00e3o d\u2019Ele. Este dinamismo de transforma\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio do Baptismo ajuda-nos a perceber a import\u00e2ncia do catecumenato, que hoje \u2014 mesmo em sociedades de antigas ra\u00edzes crist\u00e3s, onde um n\u00famero crescente de adultos se aproxima do sacramento baptismal \u2014 se reveste de singular relev\u00e2ncia para a nova evangeliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o itiner\u00e1rio de prepara\u00e7\u00e3o para o Baptismo, para a transforma\u00e7\u00e3o da vida inteira em Cristo.<\/p>\n<p>Para compreender a liga\u00e7\u00e3o entre o Baptismo e a f\u00e9, pode ajudar-nos a recorda\u00e7\u00e3o de um texto do profeta Isa\u00edas, que j\u00e1 aparece associado com o Baptismo na literatura crist\u00e3 antiga: \u00ab Ter\u00e1 o seu ref\u00fagio em rochas elevadas, ter\u00e1 (\u2026) \u00e1gua em abund\u00e2ncia \u00bb (<i>Is\u00a0<\/i>33, 16).[37]\u00a0Resgatado da morte pela \u00e1gua, o baptizado pode manter-se de p\u00e9 sobre \u00ab rochas elevadas \u00bb, porque encontrou a solidez \u00e0 qual confiar-se; e, assim, a \u00e1gua de morte transformou-se em \u00e1gua de vida. O texto grego descrevia-a como \u00e1gua\u00a0<i>pist\u00f2s<\/i>, \u00e1gua \u00ab fiel \u00bb: a \u00e1gua do Baptismo \u00e9 fiel, podendo confiar-nos a ela porque a sua corrente entra na din\u00e2mica de amor de Jesus, fonte de seguran\u00e7a para o nosso caminho na vida.<\/p>\n<p>43. A estrutura do Baptismo, a sua configura\u00e7\u00e3o como renascimento no qual recebemos um nome novo e uma vida nova, ajuda-nos a compreender o sentido e a import\u00e2ncia do Baptismo das crian\u00e7as. Uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 capaz de um acto livre que acolha a f\u00e9: ainda n\u00e3o a pode confessar sozinha e, por isso mesmo, \u00e9 confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome dela. A f\u00e9 \u00e9 vivida no \u00e2mbito da comunidade da Igreja, insere-se num \u00ab n\u00f3s \u00bb comum. Assim, a crian\u00e7a pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na f\u00e9 deles que \u00e9 a f\u00e9 da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do c\u00edrio na liturgia baptismal. Esta estrutura do Baptismo p\u00f5e em evid\u00eancia a import\u00e2ncia da sinergia entre a Igreja e a fam\u00edlia na transmiss\u00e3o da f\u00e9. Os pais s\u00e3o chamados \u2014 como diz Santo Agostinho \u2014 n\u00e3o s\u00f3 a gerar os filhos para a vida, mas a lev\u00e1-los a Deus, para que sejam, atrav\u00e9s do Baptismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da f\u00e9.[38]Assim, juntamente com a vida, \u00e9-lhes dada a orienta\u00e7\u00e3o fundamental da exist\u00eancia e a seguran\u00e7a de um bom futuro; orienta\u00e7\u00e3o esta, que ser\u00e1 ulteriormente corroborada no sacramento da Confirma\u00e7\u00e3o com o selo indel\u00e9vel do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>44. A natureza sacramental da f\u00e9 encontra a sua m\u00e1xima express\u00e3o na Eucaristia. Esta \u00e9 alimento precioso da f\u00e9, encontro com Cristo presente de maneira real no seu acto supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos sobre os quais a f\u00e9 percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da hist\u00f3ria: a Eucaristia \u00e9 acto de mem\u00f3ria, actualiza\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, em que o passado, como um evento de morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo recorda a liturgia com o seu\u00a0<i>hodie<\/i>, o \u00ab hoje \u00bb dos mist\u00e9rios da salva\u00e7\u00e3o. Por outro lado, encontra-se aqui tamb\u00e9m o eixo que conduz do mundo vis\u00edvel ao invis\u00edvel: na Eucaristia, aprendemos a ver a profundidade do real. O p\u00e3o e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a cria\u00e7\u00e3o para a sua plenitude em Deus.<\/p>\n<p>45. Na celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, a Igreja transmite a sua mem\u00f3ria, particularmente com a profiss\u00e3o de f\u00e9. Nesta, n\u00e3o se trata tanto de prestar assentimento a um conjunto de verdades abstractas, como sobretudo fazer a vida toda entrar na comunh\u00e3o plena com o Deus Vivo. Podemos dizer que, no\u00a0<i>Credo<\/i>, o fiel \u00e9 convidado a entrar no mist\u00e9rio que professa e a deixar-se transformar por aquilo que confessa. Para compreender o sentido desta afirma\u00e7\u00e3o, pensemos em primeiro lugar no conte\u00fado do\u00a0<i>Credo<\/i>. Este tem uma estrutura trinit\u00e1ria: o Pai e o Filho unem-Se no Esp\u00edrito de amor. Deste modo o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais profundo de todas as coisas \u00e9 a comunh\u00e3o divina. Al\u00e9m disso, o\u00a0<i>Credo\u00a0<\/i>cont\u00e9m uma confiss\u00e3o cristol\u00f3gica: repassam-se os mist\u00e9rios da vida de Jesus at\u00e9 \u00e0 sua morte, ressurrei\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o ao C\u00e9u, na esperan\u00e7a da sua vinda final na gl\u00f3ria. E, consequentemente, afirma-se que este Deus-comunh\u00e3o, permuta de amor entre o Pai e o Filho no Esp\u00edrito, \u00e9 capaz de abra\u00e7ar a hist\u00f3ria do homem, de introduzi-lo no seu dinamismo de comunh\u00e3o, que tem, no Pai, a sua origem e meta final. Aquele que confessa a f\u00e9 sente-se implicado na verdade que confessa; n\u00e3o pode pronunciar, com verdade, as palavras do\u00a0<i>Credo<\/i>, sem ser por isso mesmo transformado, sem mergulhar na hist\u00f3ria de amor que o abra\u00e7a, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma grande comunh\u00e3o, do sujeito \u00faltimo que pronuncia o\u00a0<i>Credo<\/i>: a Igreja. Todas as verdades, em que cremos, afirmam o mist\u00e9rio da vida nova da f\u00e9 como caminho de comunh\u00e3o com o Deus Vivo.<\/p>\n<p><b>F\u00e9, ora\u00e7\u00e3o e Dec\u00e1logo<\/b><\/p>\n<p>46. H\u00e1 mais dois elementos que s\u00e3o essenciais na transmiss\u00e3o fiel da mem\u00f3ria da Igreja. O primeiro \u00e9 a Ora\u00e7\u00e3o do Senhor, o\u00a0<i>Pai Nosso<\/i>; nela, o crist\u00e3o aprende a partilhar a pr\u00f3pria experi\u00eancia espiritual de Cristo e come\u00e7a a ver com os olhos d\u2019Ele. A partir d\u2019Aquele que \u00e9 Luz da Luz, do Filho Unig\u00e9nito do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s conhecemos a Deus e podemos inflamar outros no desejo de se aproximarem d\u2019Ele.<\/p>\n<p>Igualmente importante \u00e9 ainda a liga\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e o Dec\u00e1logo. Dissemos j\u00e1 que a f\u00e9 se apresenta como um caminho, uma estrada a percorrer, aberta pelo encontro com o Deus vivo; por isso, \u00e0 luz da f\u00e9, da entrega total ao Deus que salva, o Dec\u00e1logo adquire a sua verdade mais profunda, contida nas palavras que introduzem os Dez Mandamentos: \u00ab Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto \u00bb (<i>Ex\u00a0<\/i>20, 2). O Dec\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 um conjunto de preceitos negativos, mas de indica\u00e7\u00f5es concretas para sair do deserto do \u00ab eu \u00bb auto-referencial, fechado em si mesmo, e entrar em di\u00e1logo com Deus, deixando-se abra\u00e7ar pela sua miseric\u00f3rdia a fim de a irradiar. Deste modo, a f\u00e9 confessa o amor de Deus, origem e sustent\u00e1culo de tudo, deixa-se mover por este amor para caminhar rumo \u00e0 plenitude da comunh\u00e3o com Deus. O Dec\u00e1logo aparece como o caminho da gratid\u00e3o, da resposta de amor, que \u00e9 poss\u00edvel porque, na f\u00e9, nos abrimos \u00e0 experi\u00eancia do amor de Deus que nos transforma. E este caminho recebe uma luz nova de tudo aquilo que Jesus ensina no Serm\u00e3o da Montanha (cf.\u00a0<i>Mt\u00a0<\/i>5 &#8211; 7).<\/p>\n<p>Toquei assim os quatro elementos que resumem o tesouro de mem\u00f3ria que a Igreja transmite: a confiss\u00e3o de f\u00e9, a celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, o caminho do Dec\u00e1logo, a ora\u00e7\u00e3o. \u00c0 volta deles se estruturou tradicionalmente a catequese da Igreja, como se pode ver no\u00a0<i>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/i>, instrumento fundamental para aquele acto com que a Igreja comunica o conte\u00fado inteiro da f\u00e9, \u00ab tudo aquilo que ela \u00e9 e tudo quanto acredita \u00bb.[39]<\/p>\n<p><i><b>A unidade e a integridade da f\u00e9<\/b><\/i><\/p>\n<p><i><\/i>47. A unidade da Igreja, no tempo e no espa\u00e7o, est\u00e1 ligada com a unidade da f\u00e9: \u00ab H\u00e1 um s\u00f3 Corpo e um s\u00f3 Esp\u00edrito, (&#8230;) uma s\u00f3 f\u00e9 \u00bb (<i>Ef\u00a0<\/i>4, 4-5). Hoje poder\u00e1 parecer realiz\u00e1vel a uni\u00e3o dos homens com base num compromisso comum, na amizade, na partilha da mesma sorte com uma meta comum; mas sentimos muita dificuldade em conceber uma unidade na mesma verdade; parece-nos que uma uni\u00e3o do g\u00e9nero se oporia \u00e0 liberdade do pensamento e \u00e0 autonomia do sujeito. Pelo contr\u00e1rio, a experi\u00eancia do amor diz-nos que \u00e9 poss\u00edvel termos uma vis\u00e3o comum precisamente no amor: neste, aprendemos a ver a realidade com os olhos do outro e isto, longe de nos empobrecer, enriquece o nosso olhar. O amor verdadeiro, \u00e0 medida do amor divino, exige a verdade e, no olhar comum da verdade que \u00e9 Jesus Cristo, torna-se firme e profundo. Esta \u00e9 tamb\u00e9m a alegria da f\u00e9: a unidade de vis\u00e3o num s\u00f3 corpo e num s\u00f3 esp\u00edrito. Neste sentido, S\u00e3o Le\u00e3o Magno podia afirmar: \u00ab Se a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 una, n\u00e3o \u00e9 f\u00e9 \u00bb.[40]<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o segredo desta unidade? A f\u00e9 \u00e9 una, em primeiro lugar, pela unidade de Deus conhecido e confessado. Todos os artigos de f\u00e9 se referem a Ele, s\u00e3o caminhos para conhecer o seu ser e o seu agir; por isso, possuem uma unidade superior a tudo quanto possamos construir com o nosso pensamento, possuem a unidade que nos enriquece, porque se comunica a n\u00f3s e nos torna um.<\/p>\n<p>Depois, a f\u00e9 \u00e9 una, porque se dirige ao \u00fanico Senhor, \u00e0 vida de Jesus, \u00e0 hist\u00f3ria concreta que Ele partilha connosco. Santo Ireneu de Li\u00e3o deixou isto claro, contrapondo-o aos hereges gn\u00f3sticos. Estes sustentavam a exist\u00eancia de dois tipos de f\u00e9: uma f\u00e9 rude, a f\u00e9 dos simples, imperfeita, que se mantinha ao n\u00edvel da carne de Cristo e da contempla\u00e7\u00e3o dos seus mist\u00e9rios; e outro tipo de f\u00e9 mais profunda e perfeita, a f\u00e9 verdadeira reservada para um c\u00edrculo restrito de iniciados, que se elevava com o intelecto para al\u00e9m da carne de Jesus rumo aos mist\u00e9rios da divindade desconhecida. Contra esta pretens\u00e3o, que ainda em nossos dias continua a ter o seu encanto e os seus seguidores, Santo Ireneu reafirma que a f\u00e9 \u00e9 uma s\u00f3, porque passa sempre pelo ponto concreto da encarna\u00e7\u00e3o, sem nunca superar a carne e a hist\u00f3ria de Cristo, dado que Deus Se quis revelar plenamente nela. \u00c9 por isso que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a, na f\u00e9, entre \u00ab aquele que \u00e9 capaz de falar dela mais tempo \u00bb e \u00ab aquele que fala pouco \u00bb, entre aquele que \u00e9 mais dotado e quem se mostra menos capaz: nem o primeiro pode ampliar a f\u00e9, nem o segundo diminu\u00ed-la.[41]<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a f\u00e9 \u00e9 una, porque \u00e9 partilhada por toda a Igreja, que \u00e9 um s\u00f3 corpo e um s\u00f3 Esp\u00edrito: na comunh\u00e3o do \u00fanico sujeito que \u00e9 a Igreja, recebemos um olhar comum. Confessando a mesma f\u00e9, apoiamo-nos sobre a mesma rocha, somos transformados pelo mesmo Esp\u00edrito de amor, irradiamos uma \u00fanica luz e temos um \u00fanico olhar para penetrar na realidade.<\/p>\n<p>48. Dado que a f\u00e9 \u00e9 uma s\u00f3, deve-se confessar em toda a sua pureza e integridade. Precisamente porque todos os artigos da f\u00e9 est\u00e3o unitariamente ligados, negar um deles \u2014 mesmo dos que possam parecer menos importantes \u2014 equivale a danificar o todo. Cada \u00e9poca pode encontrar pontos da f\u00e9 mais f\u00e1ceis ou mais dif\u00edceis de aceitar; por isso, \u00e9 importante vigiar para que se transmita todo o dep\u00f3sito da f\u00e9 (cf.\u00a0<i>1 Tm\u00a0<\/i>6, 20) e para que se insista oportunamente sobre todos os aspectos da confiss\u00e3o de f\u00e9. De facto, visto que a unidade da f\u00e9 \u00e9 a unidade da Igreja, tirar algo \u00e0 f\u00e9 \u00e9 faz\u00ea-lo \u00e0 verdade da comunh\u00e3o. Os Padres descreveram a f\u00e9 como um corpo, o corpo da verdade, com diversos membros, analogamente ao que se passa no corpo de Cristo com o seu prolongamento na Igreja.[42]\u00a0A integridade da f\u00e9 foi associada tamb\u00e9m com a imagem da Igreja virgem, com o seu amor esponsal fiel a Cristo: danificar a f\u00e9 significa danificar a comunh\u00e3o com o Senhor.[43]\u00a0A unidade da f\u00e9 \u00e9, por conseguinte, a de um organismo vivo, como bem evidenciou o Beato John Henry Newman, quando enumera, entre as notas caracter\u00edsticas para distinguir a continuidade da doutrina no tempo, o seu poder de assimilar em si tudo o que encontra, nos diversos \u00e2mbitos em que se torna presente, nas diversas culturas que encontra,[44]\u00a0tudo purificando e levando \u00e0 sua melhor express\u00e3o. \u00c9 assim que a f\u00e9 se mostra universal, cat\u00f3lica, porque a sua luz cresce para iluminar todo o universo, toda a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>49. Como servi\u00e7o \u00e0 unidade da f\u00e9 e \u00e0 sua transmiss\u00e3o \u00edntegra, o Senhor deu \u00e0 Igreja o dom da sucess\u00e3o apost\u00f3lica. Por seu interm\u00e9dio, fica garantida a continuidade da mem\u00f3ria da Igreja, e \u00e9 poss\u00edvel beber, com certeza, na fonte pura donde surge a f\u00e9; assim a garantia da liga\u00e7\u00e3o com a origem \u00e9-nos dada por pessoas vivas, o que equivale \u00e0 f\u00e9 viva que a Igreja transmite. Esta f\u00e9 viva assenta sobre a fidelidade das testemunhas que foram escolhidas pelo Senhor para tal tarefa; por isso, o magist\u00e9rio fala sempre em obedi\u00eancia \u00e0 Palavra origin\u00e1ria, sobre a qual se baseia a f\u00e9, e \u00e9 fi\u00e1vel porque se entrega \u00e0 Palavra que escuta, guarda e exp\u00f5e.[45]\u00a0No discurso de despedida aos anci\u00e3os de \u00c9feso, em Mileto, referido por S\u00e3o Lucas nos Actos dos Ap\u00f3stolos, S\u00e3o Paulo atesta que cumpriu o encargo, que lhe foi confiado pelo Senhor, de lhes anunciar toda a vontade de Deus (cf.\u00a0<i>Act\u00a0<\/i>20, 27); \u00e9 gra\u00e7as ao magist\u00e9rio da Igreja que nos pode chegar, \u00edntegra, esta vontade e, com ela, a alegria de a podermos cumprir plenamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\">CAP\u00cdTULO IV<\/p>\n<p align=\"center\"><b>DEUS PREPARA\u00a0PARA ELES UMA CIDADE<br \/>\n<\/b>(cf.\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>11, 16)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A f\u00e9 e o bem comum<\/b><\/p>\n<p>50. Ao apresentar a hist\u00f3ria dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos Hebreus p\u00f5e em relevo um aspecto essencial da sua f\u00e9; esta n\u00e3o se apresenta apenas como um caminho, mas tamb\u00e9m como edifica\u00e7\u00e3o, prepara\u00e7\u00e3o de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros. O primeiro construtor \u00e9 No\u00e9, que, na arca, consegue salvar a sua fam\u00edlia (cf.\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>11, 7). Depois aparece Abra\u00e3o, de quem se diz que, pela f\u00e9, habitara em tendas, esperando a cidade de alicerces firmes (cf.\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>11, 9-10). Vemos assim surgir, relacionada com a f\u00e9, uma nova fiabilidade, uma nova solidez, que s\u00f3 Deus pode dar. Se o homem de f\u00e9 assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf.\u00a0<i>Is\u00a0<\/i>65, 16), tornando-se assim firme ele mesmo, podemos acrescentar que a firmeza da f\u00e9 se refere tamb\u00e9m \u00e0 cidade que Deus est\u00e1 a preparar para o homem. A f\u00e9 revela qu\u00e3o firmes podem ser os v\u00ednculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. N\u00e3o evoca apenas uma solidez interior, uma convic\u00e7\u00e3o firme do crente; a f\u00e9 ilumina tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es entre os homens, porque nasce do amor e segue a din\u00e2mica do amor de Deus. O Deus fi\u00e1vel d\u00e1 aos homens uma cidade fi\u00e1vel.<\/p>\n<p>51. Devido precisamente \u00e0 sua liga\u00e7\u00e3o com o amor (cf.\u00a0<i>Gl\u00a0<\/i>5, 6), a luz da f\u00e9 coloca-se ao servi\u00e7o concreto da justi\u00e7a, do direito e da paz. A f\u00e9 nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta \u00e9 iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto \u00e9, enquanto se torna caminho e exerc\u00edcio para a plenitude do amor. A luz da f\u00e9 \u00e9 capaz de valorizar a riqueza das rela\u00e7\u00f5es humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fi\u00e1veis, enriquecerem a vida comum. A f\u00e9 n\u00e3o afasta do mundo, nem \u00e9 alheia ao esfor\u00e7o concreto dos nossos contempor\u00e2neos. Sem um amor fi\u00e1vel, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria conceb\u00edvel apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjuga\u00e7\u00e3o dos interesses, o medo, mas n\u00e3o sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presen\u00e7a do outro pode gerar. A f\u00e9 faz compreender a arquitectura das rela\u00e7\u00f5es humanas, porque identifica o seu fundamento \u00faltimo e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua constru\u00e7\u00e3o, tornando-se um servi\u00e7o ao bem comum. Por isso, a f\u00e9 \u00e9 um bem para todos, um bem comum: a sua luz n\u00e3o ilumina apenas o \u00e2mbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no al\u00e9m, mas ajuda tamb\u00e9m a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperan\u00e7a. A Carta aos Hebreus oferece um exemplo disto mesmo, ao nomear entre os homens de f\u00e9 Samuel e David, a quem a f\u00e9 permitiu \u00ab exercerem a justi\u00e7a \u00bb (11, 33). A express\u00e3o refere-se aqui \u00e0 sua justi\u00e7a no governar, \u00e0quela sabedoria que traz a paz ao povo (cf.\u00a0<i>1 Sm\u00a0<\/i>12, 3-5;\u00a0<i>2 Sm\u00a0<\/i>8, 15). As m\u00e3os da f\u00e9 levantam-se para o c\u00e9u, mas fazem-no ao mesmo tempo que edificam, na caridade, uma cidade constru\u00edda sobre rela\u00e7\u00f5es que t\u00eam como alicerce o amor de Deus.<\/p>\n<p><b>A f\u00e9 e a fam\u00edlia<\/b><\/p>\n<p>52. No caminho de Abra\u00e3o para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude \u00e0 b\u00ean\u00e7\u00e3o que se transmite dos pais aos filhos (cf. 11, 20-21). O primeiro \u00e2mbito da cidade dos homens iluminado pela f\u00e9 \u00e9 a fam\u00edlia; penso, antes de mais nada, na uni\u00e3o est\u00e1vel do homem e da mulher no matrim\u00f3nio. Tal uni\u00e3o nasce do seu amor, sinal e presen\u00e7a do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceita\u00e7\u00e3o do bem que \u00e9 a diferen\u00e7a sexual, em virtude da qual os c\u00f4njuges se podem unir numa s\u00f3 carne (cf.\u00a0<i>Gn\u00a0<\/i>2, 24) e s\u00e3o capazes de gerar uma nova vida, manifesta\u00e7\u00e3o da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu des\u00edgnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor m\u00fatuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos tra\u00e7os da f\u00e9: prometer um amor que dure para sempre \u00e9 poss\u00edvel quando se descobre um des\u00edgnio maior que os pr\u00f3prios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro \u00e0 pessoa amada. Depois, a f\u00e9 pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a gera\u00e7\u00e3o dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos d\u00e1 e nos entrega o mist\u00e9rio de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua f\u00e9, se tornou m\u00e3e, apoiando-se na fidelidade de Deus \u00e0 sua promessa (cf.\u00a0<i>Heb\u00a0<\/i>11, 11).<\/p>\n<p>53. Em fam\u00edlia, a f\u00e9 acompanha todas as idades da vida, a come\u00e7ar pela inf\u00e2ncia: as crian\u00e7as aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, \u00e9 importante que os pais cultivem pr\u00e1ticas de f\u00e9 comuns na fam\u00edlia, que acompanhem o amadurecimento da f\u00e9 dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida t\u00e3o complexa, rica e importante para a f\u00e9, devem sentir a proximidade e a aten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da f\u00e9. Todos vimos como, nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens mostram a alegria da f\u00e9, o compromisso de viver uma f\u00e9 cada vez mais s\u00f3lida e generosa. Os jovens t\u00eam o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da exist\u00eancia, d\u00e1-lhe uma esperan\u00e7a firme que n\u00e3o desilude. A f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um ref\u00fagio para gente sem coragem, mas a dilata\u00e7\u00e3o da vida: faz descobrir uma grande chamada \u2014 a voca\u00e7\u00e3o ao amor \u2014 e assegura que este amor \u00e9 fi\u00e1vel, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que \u00e9 mais forte do que toda a nossa fragilidade.<\/p>\n<p><b>Uma luz para a vida em sociedade<\/b><\/p>\n<p>54. Assimilada e aprofundada em fam\u00edlia, a f\u00e9 torna-se luz para iluminar todas as rela\u00e7\u00f5es sociais. Como experi\u00eancia da paternidade e da miseric\u00f3rdia de Deus, dilata-se depois em caminho fraterno. Na Idade Moderna, procurou-se construir a fraternidade universal entre os homens, baseando-se na sua igualdade; mas, pouco a pouco, fomos compreendendo que esta fraternidade, privada do referimento a um Pai comum como seu fundamento \u00faltimo, n\u00e3o consegue subsistir; por isso, \u00e9 necess\u00e1rio voltar \u00e0 verdadeira raiz da fraternidade. Desde o seu in\u00edcio, a hist\u00f3ria de f\u00e9 foi uma hist\u00f3ria de fraternidade, embora n\u00e3o desprovida de conflitos. Deus chama Abra\u00e3o para sair da sua terra, prometendo fazer dele uma \u00fanica e grande na\u00e7\u00e3o, um grande povo, sobre o qual repousa a B\u00ean\u00e7\u00e3o divina (cf.\u00a0<i>Gn\u00a0<\/i>12, 1-3). \u00c0 medida que a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o avan\u00e7a, o homem descobre que Deus quer fazer a todos participar como irm\u00e3os da \u00fanica b\u00ean\u00e7\u00e3o, que encontra a sua plenitude em Jesus, para que todos se tornem um s\u00f3. O amor inexaur\u00edvel do Pai \u00e9-nos comunicado em Jesus, tamb\u00e9m atrav\u00e9s da presen\u00e7a do irm\u00e3o. A f\u00e9 ensina-nos a ver que, em cada homem, h\u00e1 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina atrav\u00e9s do rosto do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Quantos benef\u00edcios trouxe o olhar da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e0 cidade dos homens para a sua vida em comum! Gra\u00e7as \u00e0 f\u00e9, compreendemos a dignidade \u00fanica de cada pessoa, que n\u00e3o era t\u00e3o evidente no mundo antigo. No s\u00e9culo II, o pag\u00e3o Celso censurava os crist\u00e3os por algo que lhe parecia uma ilus\u00e3o e um engano: pensar que Deus tivesse criado o mundo para o homem, colocando-o no v\u00e9rtice do universo inteiro. \u00ab Porqu\u00ea pretender que [a verdura] cres\u00e7a para os homens, em vez de crescer para os mais selvagens dos animais sem raz\u00e3o? \u00bb[46]\u00a0\u00ab Se olh\u00e1ssemos a terra do alto do c\u00e9u, que diferen\u00e7a se nos ofereceria entre as nossas actividades e as das formigas e das abelhas? \u00bb[47]\u00a0No centro da f\u00e9 b\u00edblica, h\u00e1 o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa, o seu desejo de salva\u00e7\u00e3o que abra\u00e7a toda a humanidade e a cria\u00e7\u00e3o inteira e que atinge o cl\u00edmax na encarna\u00e7\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta realidade, falta o crit\u00e9rio para individuar o que torna preciosa e \u00fanica a vida do homem; e este perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando \u00e0 pr\u00f3pria responsabilidade moral, ou ent\u00e3o pretende ser \u00e1rbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipula\u00e7\u00e3o sem limites.<\/p>\n<p>55. Al\u00e9m disso a f\u00e9, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gram\u00e1tica escrita por Ele e uma habita\u00e7\u00e3o que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de progresso, que n\u00e3o se baseiem apenas na utilidade e no lucro mas considerem a cria\u00e7\u00e3o como dom, de que todos somos devedores; ensina-nos a individuar formas justas de governo, reconhecendo que a autoridade vem de Deus para estar ao servi\u00e7o do bem comum. A f\u00e9 afirma tamb\u00e9m a possibilidade do perd\u00e3o, que muitas vezes requer tempo, canseira, paci\u00eancia e empenho; um perd\u00e3o poss\u00edvel quando se descobre que o bem \u00e9 sempre mais origin\u00e1rio e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida \u00e9 mais profunda do que todas as nossas nega\u00e7\u00f5es. Ali\u00e1s, mesmo dum ponto de vista simplesmente antropol\u00f3gico, a unidade \u00e9 superior ao conflito; devemos preocupar-nos tamb\u00e9m com o conflito, mas vivendo-o de tal modo que nos leve a resolv\u00ea-lo, a super\u00e1-lo, como elo duma cadeia, num avan\u00e7o para a unidade.<\/p>\n<p>Quando a f\u00e9 esmorece, h\u00e1 o risco de esmorecerem tamb\u00e9m os fundamentos do viver, como advertia o poeta Thomas Sterls Eliot: \u00ab Precisais porventura que se vos diga que at\u00e9 aqueles modestos sucessos \/ que vos permitem ser orgulhosos de uma sociedade educada \/ dificilmente sobreviveriam \u00e0 f\u00e9, a que devem o seu significado? \u00bb[48]\u00a0Se tiramos a f\u00e9 em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-\u00e1 a confian\u00e7a entre n\u00f3s, apenas o medo nos manter\u00e1 unidos, e a estabilidade ficar\u00e1 amea\u00e7ada. Afirma a Carta aos Hebreus: \u00ab Deus n\u00e3o Se envergonha de ser chamado o &#8220;seu Deus&#8221;, porque preparou para eles uma cidade \u00bb (<i>Heb\u00a0<\/i>11, 16). A express\u00e3o \u00ab n\u00e3o se envergonha \u00bb tem conotado um reconhecimento p\u00fablico: pretende-se afirmar que Deus, com o seu agir concreto, confessa publicamente a sua presen\u00e7a entre n\u00f3s, o seu desejo de tornar firmes as rela\u00e7\u00f5es entre os homens. Porventura vamos ser n\u00f3s a envergonhar-nos de chamar a Deus \u00ab o nosso Deus \u00bb? Seremos por acaso n\u00f3s a recusar-nos a confess\u00e1-Lo como tal na nossa vida p\u00fablica, a propor a grandeza da vida comum que Ele torna poss\u00edvel? A f\u00e9 ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da hist\u00f3ria, porque coloca todos os acontecimentos em rela\u00e7\u00e3o com a origem e o destino de tudo no Pai que nos ama.<\/p>\n<p><b>Uma for\u00e7a consoladora no sofrimento<\/b><\/p>\n<p>56. S\u00e3o Paulo, falando aos crist\u00e3os de Corinto das suas tribula\u00e7\u00f5es e sofrimentos, coloca a sua f\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o com a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho. De facto, diz que nele se cumpre esta passagem da Escritura: \u00ab Acreditei e por isso falei \u00bb (<i>2 Cor\u00a0<\/i>4, 13). O Ap\u00f3stolo refere-se a uma frase do Salmo 116, onde o salmista exclama: \u00ab Eu tinha confian\u00e7a, mesmo quando disse: &#8220;A minha afli\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande!&#8221; \u00bb (v. 10). Falar da f\u00e9 comporta frequentemente falar tamb\u00e9m de provas dolorosas, mas \u00e9 precisamente nelas que S\u00e3o Paulo v\u00ea o an\u00fancio mais convincente do Evangelho, porque \u00e9 na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento. O pr\u00f3prio Ap\u00f3stolo se encontra numa situa\u00e7\u00e3o de morte que redunda em vida para os crist\u00e3os (cf.\u00a0<i>2 Cor\u00a0<\/i>4, 7-12). Na hora da prova, a f\u00e9 ilumina-nos; e \u00e9 precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como \u00ab n\u00e3o nos pregamos a n\u00f3s mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor \u00bb (<i>2 Cor\u00a0<\/i>4, 5). O cap\u00edtulo 11 da Carta aos Hebreus termina com a refer\u00eancia a quantos sofreram pela f\u00e9, entre os quais ocupa um lugar particular Mois\u00e9s que tomou sobre si a humilha\u00e7\u00e3o de Cristo (cf. vv. 26.35-38). O crist\u00e3o sabe que o sofrimento n\u00e3o pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se acto de amor, entrega nas m\u00e3os de Deus que n\u00e3o nos abandona e, deste modo, ser uma etapa de crescimento na f\u00e9 e no amor. Contemplando a uni\u00e3o de Cristo com o Pai, mesmo no momento de maior sofrimento na cruz (cf.\u00a0<i>Mc<\/i>15, 34), o crist\u00e3o aprende a participar no olhar pr\u00f3prio de Jesus; at\u00e9 a morte fica iluminada, podendo ser vivida como a \u00faltima chamada da f\u00e9, o \u00faltimo \u00ab Sai da tua terra \u00bb (cf.\u00a0<i>Gn\u00a0<\/i>12, 1), o \u00faltimo \u00ab Vem! \u00bb pronunciado pelo Pai, a quem nos entregamos com a confian\u00e7a de que Ele nos tornar\u00e1 firmes tamb\u00e9m na passagem definitiva.<\/p>\n<p>57. A luz da f\u00e9 n\u00e3o nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de f\u00e9; tal foi o leproso para S\u00e3o Francisco de Assis, ou os pobres para a Beata Teresa de Calcut\u00e1. Compreenderam o mist\u00e9rio que h\u00e1 neles; aproximando-se deles, certamente n\u00e3o cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 luz que dissipa todas as nossas trevas, mas l\u00e2mpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus n\u00e3o d\u00e1 um racioc\u00ednio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presen\u00e7a que o acompanha, duma hist\u00f3ria de bem que se une a cada hist\u00f3ria de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o pr\u00f3prio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo \u00e9 aquele que, tendo suportado a dor, Se tornou \u00ab autor e consumador da f\u00e9 \u00bb (<i>Heb\u00a0<\/i>12, 2).<\/p>\n<p>O sofrimento recorda-nos que o servi\u00e7o da f\u00e9 ao bem comum \u00e9 sempre servi\u00e7o de esperan\u00e7a que nos faz olhar em frente, sabendo que s\u00f3 a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, \u00e9 que a nossa sociedade pode encontrar alicerces s\u00f3lidos e duradouros. Neste sentido, a f\u00e9 est\u00e1 unida \u00e0 esperan\u00e7a, porque, embora a nossa morada aqui na terra se v\u00e1 destruindo, h\u00e1 uma habita\u00e7\u00e3o eterna que Deus j\u00e1 inaugurou em Cristo, no seu corpo (cf.\u00a0<i>2 Cor\u00a0<\/i>4, 16 \u2014 5, 5). Assim, o dinamismo de f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade (cf.\u00a0<i>1 Ts\u00a0<\/i>1, 3;\u00a0<i>1 Cor\u00a0<\/i>13, 13) faz-nos abra\u00e7ar as preocupa\u00e7\u00f5es de todos os homens, no nosso caminho rumo \u00e0quela cidade, \u00ab cujo arquitecto e construtor \u00e9 o pr\u00f3prio Deus \u00bb (<i>Heb\u00a0<\/i>11, 10), porque \u00ab a esperan\u00e7a n\u00e3o engana \u00bb (<i>Rm\u00a0<\/i>5, 5).<\/p>\n<p>Unida \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 caridade, a esperan\u00e7a projecta-nos para um futuro certo, que se coloca numa perspectiva diferente relativamente \u00e0s propostas ilus\u00f3rias dos \u00eddolos do mundo, mas que d\u00e1 novo impulso e nova for\u00e7a \u00e0 vida de todos os dias. N\u00e3o deixemos que nos roubem a esperan\u00e7a, nem permitamos que esta seja anulada por solu\u00e7\u00f5es e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que \u00ab fragmentam \u00bb o tempo transformando-o em espa\u00e7o. O tempo \u00e9 sempre superior ao espa\u00e7o: o espa\u00e7o cristaliza os processos, ao passo que o tempo projecta para o futuro e impele a caminhar na esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><b>FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU<br \/>\n<\/b>(cf.\u00a0<i>Lc<\/i>\u00a01, 45)<\/p>\n<p>58. Na par\u00e1bola do semeador, S\u00e3o Lucas refere estas palavras com que o Senhor explica o significado da \u00ab terra boa \u00bb: \u00ab S\u00e3o aqueles que, tendo ouvido a palavra com um cora\u00e7\u00e3o bom e virtuoso, conservam-na e d\u00e3o fruto com a sua perseveran\u00e7a \u00bb (<i>Lc\u00a0<\/i>8, 15). No contexto do Evangelho de Lucas, a men\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o bom e virtuoso, em refer\u00eancia \u00e0 Palavra ouvida e conservada, pode constituir um retrato impl\u00edcito da f\u00e9 da Virgem Maria; o pr\u00f3prio evangelista nos fala da mem\u00f3ria de Maria, dizendo que conservava no cora\u00e7\u00e3o tudo aquilo que ouvia e via, de modo que a Palavra produzisse fruto na sua vida. A M\u00e3e do Senhor \u00e9 \u00edcone perfeito da f\u00e9, como dir\u00e1 Santa Isabel: \u00ab Feliz de ti que acreditaste \u00bb (<i>Lc\u00a0<\/i>1, 45).<\/p>\n<p>Em Maria, Filha de Si\u00e3o, tem cumprimento a longa hist\u00f3ria de f\u00e9 do Antigo Testamento, com a narra\u00e7\u00e3o de tantas mulheres fi\u00e9is a come\u00e7ar por Sara; mulheres que eram, juntamente com os Patriarcas, o lugar onde a promessa de Deus se cumpria e a vida nova desabrochava. Na plenitude dos tempos, a Palavra de Deus dirigiu-se a Maria, e Ela acolheu-a com todo o seu ser, no seu cora\u00e7\u00e3o, para que n\u2019Ela tomasse carne e nascesse como luz para os homens. O m\u00e1rtir S\u00e3o Justino, na obra\u00a0<i>Di\u00e1logo com Trif\u00e3o<\/i>, tem uma express\u00e3o significativa ao dizer que Maria, quando aceitou a mensagem do Anjo, concebeu \u00ab f\u00e9 e alegria \u00bb.[49]\u00a0De facto, na M\u00e3e de Jesus, a f\u00e9 mostrou-se cheia de fruto e, quando a nossa vida espiritual d\u00e1 fruto, enchemo-nos de alegria, que \u00e9 o sinal mais claro da grandeza da f\u00e9. Na sua vida, Maria realizou a peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 seguindo o seu Filho.[50]\u00a0Assim, em Maria, o caminho de f\u00e9 do Antigo Testamento foi assumido no seguimento de Jesus e deixa-se transformar por Ele, entrando no olhar pr\u00f3prio do Filho de Deus encarnado.<\/p>\n<p>59. Podemos dizer que, na Bem-aventurada Virgem Maria, se cumpre aquilo em que insisti anteriormente, isto \u00e9, que o crente se envolve todo na sua confiss\u00e3o de f\u00e9. Pelo seu v\u00ednculo com Jesus, Maria est\u00e1 intimamente associada com aquilo que acreditamos. Na concep\u00e7\u00e3o virginal de Maria, temos um sinal claro da filia\u00e7\u00e3o divina de Cristo: a origem eterna de Cristo est\u00e1 no Pai \u2014 Ele \u00e9 o Filho em sentido total e \u00fanico \u2014 e por isso nasce, no tempo, sem interven\u00e7\u00e3o do homem. Sendo Filho, Jesus pode trazer ao mundo um novo in\u00edcio e uma nova luz, a plenitude do amor fiel de Deus que Se entrega aos homens. Por outro lado, a verdadeira maternidade de Maria garantiu, ao Filho de Deus, uma verdadeira hist\u00f3ria humana, uma verdadeira carne na qual morrer\u00e1 na cruz e ressuscitar\u00e1 dos mortos. Maria acompanh\u00e1-Lo-\u00e1 at\u00e9 \u00e0 cruz (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>19, 25), donde a sua maternidade se estender\u00e1 a todo o disc\u00edpulo de seu Filho (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>19, 26-27). Estar\u00e1 presente tamb\u00e9m no Cen\u00e1culo, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o de Jesus, para implorar com os Ap\u00f3stolos o dom do Esp\u00edrito (cf.\u00a0<i>Act\u00a0<\/i>1, 14). O movimento de amor entre o Pai e o Filho no Esp\u00edrito percorreu a nossa hist\u00f3ria; Cristo atrai-nos a Si para nos poder salvar (cf.\u00a0<i>Jo\u00a0<\/i>12, 32). No centro da f\u00e9, encontra-se a confiss\u00e3o de Jesus, Filho de Deus, nascido de mulher, que nos introduz, pelo dom do Esp\u00edrito Santo, na filia\u00e7\u00e3o adoptiva (cf.\u00a0<i>Gl\u00a0<\/i>4, 4-6).<\/p>\n<p>60. A Maria, M\u00e3e da Igreja e M\u00e3e da nossa f\u00e9, nos dirigimos, rezando-Lhe:<\/p>\n<blockquote><p>Ajudai, \u00f3 M\u00e3e, a nossa f\u00e9.<\/p>\n<p>Abri o nosso ouvido \u00e0 Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a sua chamada.<\/p>\n<p>Despertai em n\u00f3s o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa.<\/p>\n<p>Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos toc\u00e1-Lo com a f\u00e9.<\/p>\n<p>Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribula\u00e7\u00e3o e cruz, quando a nossa f\u00e9 \u00e9 chamada a amadurecer.<\/p>\n<p>Semeai, na nossa f\u00e9, a alegria do Ressuscitado.<\/p>\n<p>Recordai-nos que quem cr\u00ea nunca est\u00e1 sozinho.<\/p>\n<p>Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho. E que esta luz da f\u00e9 cres\u00e7a sempre em n\u00f3s at\u00e9 chegar aquele dia sem ocaso que \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor.<\/p><\/blockquote>\n<p><i>Dado em Roma, junto de S\u00e3o Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Ap\u00f3stolos S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, do ano 2013, primeiro de Pontificado.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #888888;\"><b>FRANCISCUS<\/b><\/span><\/p>\n<hr size=\"1\" width=\"75%\" \/>\n<p><span style=\"color: #888888;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[1]\u00a0\u00a0<i>Dialogus cum Tryphone Iudaeo<\/i>, 121, 2:\u00a0<i>PG\u00a0<\/i>6, 758.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[2]\u00a0 Clemente de Alexandria,\u00a0<i>Protrepticus<\/i>, IX:\u00a0<i>PG\u00a0<\/i>8, 195.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[3]\u00a0\u00ab Brief an Elisabeth Nietzsche (11 de Junho de 1865) \u00bb, in:\u00a0<i>Werke in drei B\u00e4nden\u00a0<\/i>(Munique 1954), 953-954.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[4]\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>, Para\u00edso, XXIV, 145-147.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[5]\u00a0<i>Acta Sanctorum<\/i>, Iunii, I, 21.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[6]\u00a0\u00ab Embora o Conc\u00edlio n\u00e3o trate expressamente da f\u00e9, todavia fala dela em cada p\u00e1gina, reconhece o seu car\u00e1cter vital e sobrenatural, sup\u00f5e-na \u00edntegra e forte e constr\u00f3i sobre ela os seus ensinamentos. Bastaria lembrar as declara\u00e7\u00f5es conciliares (&#8230;) para nos darmos conta da import\u00e2ncia essencial que o Conc\u00edlio, coerente com a tradi\u00e7\u00e3o doutrinal da Igreja, atribui \u00e0 f\u00e9, \u00e0 verdadeira f\u00e9, aquela que tem Cristo como fonte e, como canal, o magist\u00e9rio da Igreja \u00bb [Paulo VI,\u00a0<i>Audi\u00eancia Geral\u00a0<\/i>(8 de Mar\u00e7o de 1967):\u00a0<i>Insegnamenti\u00a0<\/i>V (1967), 705].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[7]\u00a0Cf., por exemplo, Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a f\u00e9 cat\u00f3lica\u00a0<i>Dei Filius<\/i>, III:\u00a0<i>DS\u00a0<\/i>3008-3020; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revela\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Dei Verbum<\/i>, 5;\u00a0<i>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/i>, 153-165.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[8]\u00a0 Cf.\u00a0<i>Catechesis<\/i>, V, 1:\u00a0<i>PG\u00a0<\/i>33, 505A.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[9]\u00a0\u00a0<i>Enarratio in Psalmum<\/i>, 32, II, s. I, 9:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>36, 284.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[10]\u00a0Martin Buber,\u00a0<i>Die Erz\u00e4hlungen der Chassidim\u00a0<\/i>(Zurique 1949), 793.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[11]\u00a0<i>\u00c9mile\u00a0<\/i>(Paris 1966), 387.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[12]\u00a0<i>Lettr\u00e8 \u00e0 Christophe de Beaumont\u00a0<\/i>(Lausanne 1993), 110.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[13]\u00a0Cf.\u00a0<i>In evangelium Johannis tractatus<\/i>, 45, 9:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>35, 1722- 1723.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[14]\u00a0Parte II, IV.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[15]\u00a0<i>De continentia<\/i>, 4, 11:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>40, 356 (\u00ab ab eo qui fecit te noli deficere nec ad te \u00bb).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[16]\u00a0<i>\u00ab\u00a0<\/i>Vom Wesen katholischer Weltanschauung (1923) \u00bb, in:\u00a0<i>Unterscheidung des Christlichen. Gesammelte Studien 1923-1963\u00a0<\/i>(Mainz 1963), 24.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[17]\u00a0<i>Confessiones<\/i>, XI, 30, 40:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>32, 825.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[18]\u00a0Cf.\u00a0<i>ibid<\/i>.:\u00a0<i>o. c.<\/i>, 825-826.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[19]\u00a0Cf. G. H. von Wright (coord.),\u00a0<i>Vermischte Bemerkungen \/ Culture and Value\u00a0<\/i>(Oxford 1991), 32-33 e 61-64.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[20]\u00a0Cf.\u00a0<i>Homiliae in Evangelia<\/i>, II, 27, 4:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>76, 1207 (\u00ab amor ipse notitia est \u00bb).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[21]\u00a0 Cf.\u00a0<i>Expositio super Cantica Canticorum<\/i>, XVIII, 88:\u00a0<i>CCL<\/i>,\u00a0<i>Continuatio Mediaevalis<\/i>, 87, 67.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[22]\u00a0\u00a0<i>Ibid.<\/i>, XIX, 90:\u00a0<i>o. c.<\/i>, 87, 69.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[23]\u00a0\u00ab A Deus que revela \u00e9 devida a &#8220;obedi\u00eancia da f\u00e9&#8221; (<i>Rm\u00a0<\/i>16, 26; cf.\u00a0<i>Rm\u00a0<\/i>1, 5;\u00a0<i>2 Cor\u00a0<\/i>10, 5-6); pela f\u00e9, o homem entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo a Deus revelador o obs\u00e9quio pleno da intelig\u00eancia e da vontade e prestando volunt\u00e1rio assentimento \u00e0 sua revela\u00e7\u00e3o. Para prestar esta ades\u00e3o da f\u00e9, s\u00e3o necess\u00e1rios a pr\u00e9via e concomitante ajuda da gra\u00e7a divina e os interiores aux\u00edlios do Esp\u00edrito Santo, o qual move e converte a Deus o cora\u00e7\u00e3o, abre os olhos do entendimento, e d\u00e1 a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade. Para que a compreens\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o seja sempre mais profunda, o mesmo Esp\u00edrito Santo aperfei\u00e7oa sem cessar a f\u00e9 mediante os seus dons \u00bb (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revela\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Dei Verbum<\/i>, 5).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[24]\u00a0Cf. Heinrich Schlier, \u00ab Meditationen \u00fcber den Johanneischen Begriff der Wahrheit \u00bb, in:\u00a0<i>Besinnung auf das Neue Testament. Exegetische Aufs\u00e4tze und Vortr\u00e4ge 2\u00a0<\/i>(Friburgo, Basel, Viena 1959), 272.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[25]\u00a0 Cf.\u00a0<i>Summa theologiae<\/i>, III, q. 55, a. 2, ad 1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[26]\u00a0<i>Sermo\u00a0<\/i>229\/L, 2:\u00a0<i>PLS\u00a0<\/i>2, 576 (\u00ab Tangere autem corde, hoc est credere \u00bb).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[27]\u00a0Cf. n.\u00ba 73:\u00a0<i>AAS\u00a0<\/i>(1999), 61-62.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[28]\u00a0 Cf.\u00a0<i>Confessiones<\/i>, VIII, 12, 29:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>32, 762.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[29]\u00a0\u00a0<i>De Trinitate<\/i>, XV, 11, 20:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>42, 1071.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[30]\u00a0 Cf.\u00a0<i>De civitate Dei<\/i>, XXII, 30, 5:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>41, 804.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[31]\u00a0Cf. Congr. para a Doutrina da F\u00e9, Decl.\u00a0<i>Dominus Iesus\u00a0<\/i>(6 de Agosto de 2000), 15:\u00a0<i>AAS\u00a0<\/i>92 (2000), 756.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[32]\u00a0<i>Demonstratio apostolicae praedicationis<\/i>, 24:\u00a0<i>SC\u00a0<\/i>406, 117.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[33]\u00a0Cf. Boaventura,\u00a0<i>Breviloquium<\/i>, Prol.:\u00a0<i>Opera Omnia<\/i>, V (Quaracchi 1891), 201;\u00a0<i>In I librum sententiarum<\/i>, Proem., q. 1, resp.:\u00a0<i>Opera Omnia<\/i>, I (Quaracchi 1891), 7; Tom\u00e1sde Aquino,\u00a0<i>Summa theologiae<\/i>, I, q. 1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[34]\u00a0Cf.\u00a0<i>De Baptismo<\/i>, 20, 5:\u00a0<i>CCL\u00a0<\/i>1, 295.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[35]\u00a0Const. dogm. sobre a divina Revela\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Dei Verbum<\/i>, 8.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[36]\u00a0Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia\u00a0<i>Sacrosanctum Concilium<\/i>, 59.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[37]\u00a0Cf.\u00a0<i>Epistula Barnabae<\/i>, 11, 5:\u00a0<i>SC\u00a0<\/i>172, 162.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[38]\u00a0Cf.\u00a0<i>De nuptiis et concupiscentia<\/i>, I, 4, 5:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>44, 413 (\u00ab Habent quippe intentionem generandi regenerandos, ut qui ex eis saeculi filii nascuntur in Dei filios renascantur \u00bb).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[39]\u00a0Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revela\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Dei Verbum<\/i>, 8.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[40]\u00a0<i>In nativitate Domini sermo<\/i>, 4, 6:\u00a0<i>SC\u00a0<\/i>22, 110.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[41]\u00a0Cf. Ireneu,\u00a0<i>Adversus haereses<\/i>, I, 10, 2:\u00a0<i>SC\u00a0<\/i>264, 160.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[42]\u00a0Cf.\u00a0<i>ibid.<\/i>, II, 27, 1:\u00a0<i>o. c.<\/i>, 294, 264.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[43]\u00a0Cf. Agostinho,\u00a0<i>De sancta virginitate<\/i>, 48, 48:\u00a0<i>PL\u00a0<\/i>40, 424- 425 (\u00ab Servatur et in fide inviolata quaedam castitas virginalis, qua Ecclesia uni viro virgo casta cooptatur \u00bb).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[44]\u00a0Cf.\u00a0<i>An Essay on the Development of Christian Doctrine\u00a0<\/i>(Uniform Edition: Longmans, Green and Company, Londres 1868-1881), 185-189.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[45]\u00a0 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revela\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Dei Verbum<\/i>, 10.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[46]\u00a0Or\u00edgenes,\u00a0<i>Contra Celsum<\/i>, IV, 75:\u00a0<i>SC\u00a0<\/i>136, 372.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[47]\u00a0<i>Ibid.<\/i>, 85:\u00a0<i>o. c.<\/i>, 136, 394.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #888888;\">[48]\u00a0\u00ab Choruses from\u00a0<i>The Rock\u00a0<\/i>\u00bb, in:\u00a0<i>The Collected Poems and Plays\u00a0<\/i>1909-1950 (Nova Iorque 1980), 106.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[49]\u00a0Cf.\u00a0<i>Dialogus cum Tryphone Iudaeo<\/i>, 100, 5:\u00a0<i>PG\u00a0<\/i>6, 710.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">[50]\u00a0Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja\u00a0<i>Lumen gentium<\/i>, 58.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/banca\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/enciclica-lumen-fidei_po.pdf\"><strong>PDF PARA IMPRESS\u00c3O<\/strong><\/a><\/span><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":190238,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[317],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Carta Enc\u00edclica \u201cLumen Fidei\u201d do Papa Francisco - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/carta-enciclica-lumen-fidei-do-papa-francisco\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Carta Enc\u00edclica \u201cLumen Fidei\u201d do Papa Francisco - 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