{"id":39025,"date":"2013-05-24T07:51:10","date_gmt":"2013-05-24T10:51:10","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=39025"},"modified":"2020-06-15T08:44:02","modified_gmt":"2020-06-15T11:44:02","slug":"a-experiencia-de-deus-pai-em-sao-francisco-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-experiencia-de-deus-pai-em-sao-francisco-de-assis\/","title":{"rendered":"A experi\u00eancia de Deus Pai em S\u00e3o Francisco"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/trindade.jpg\" alt=\"trindade\" width=\"830\" height=\"472\" \/><\/p>\n<table border=\"0\" width=\"400\" cellspacing=\"3\" cellpadding=\"3\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\">\n<td>\n<table border=\"0\" width=\"400\" cellspacing=\"3\" cellpadding=\"3\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\">\n<td><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Rublev-Trinity.jpg\" alt=\"Rublev-Trinity\" width=\"450\" height=\"574\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\">\n<td><strong>\u00cdcone da Trindade de Roublev (Moscou 1.425)\u00a0G\u00eanesis18,1-13<\/strong>Pode parecer estranho falar do Senhor, uma vez que n\u2019Ele h\u00e1 tr\u00eas pessoas. Pode-se tamb\u00e9m falar d\u2019Ele no plural. A Revela\u00e7\u00e3o que Deus fez d\u2019Ele mesmo em tr\u00eas \u00e9 a base da compreens\u00e3o deste \u00edcone russo do XV s\u00e9culo. \u00c9 verdadeiramente uma medita\u00e7\u00e3o em uma mensagem teol\u00f3gica profunda.Os tr\u00eas anjos sentados \u00e0 mesa expressam, ao mesmo tempo, a autoridade e o amor que existem entre Eles. Ao redor da cabe\u00e7a, as aur\u00e9olas, as asas e a semelhan\u00e7a das tr\u00eas pessoas, pode-se fazer um c\u00edrculo que \u00e9 o s\u00edmbolo da eternidade, sem princ\u00edpio e sem fim.Entre os p\u00e9s dos dois anjos, um tri\u00e2ngulo verde representa a Trindade. Est\u00e1 aberto no exterior para nos convidar a entrar nessa comunh\u00e3o com as tr\u00eas pessoas. Estes tr\u00eas anjos se assemelham em sua atitude, sua fisionomia, suas asas, sua cabeleira e no cetro que cada um tem na m\u00e3o. A aur\u00e9ola em torno das cabe\u00e7as \u00e9 o s\u00edmbolo da Santidade. Os anjos partilham intimamente sua unidade. Entretanto, podem-se notar as diferen\u00e7as.O anjo \u00e0 esquerda representa Deus, o Pai de onde vem o poder e a Palavra. Ele se mant\u00e9m majestoso em sua t\u00fanica p\u00farpura dourada, segurando o cetro com as duas m\u00e3os, s\u00edmbolo da dignidade que Ele espera em sil\u00eancio. Ele olha com amor seu Filho sentado do outro lado da mesa. Neste\u00a0 sil\u00eancio t\u00e3o pleno, pode-se quase ouvir o Filho de Deus dizer um \u201cSIM\u201d sagrado \u00e0 vontade Santa de Deus.O Filho aceita fazer-se homem e inclina a cabe\u00e7a. Ele p\u00f5e sua m\u00e3o aberta sobre a mesa que, conforme a velha tradi\u00e7\u00e3o russa significa a terra. A aceita\u00e7\u00e3o de fazer-se homem e um \u201cSIM\u201d \u00fanico do Filho ao mundo, pois tudo foi \u201ccriado para Ele e por Ele\u201d (Col 1,16).N\u00f3s podemos nos perguntar se todo engajamento de um homem feito livremente por Deus n\u00e3o \u00e9 um eco da Palavra do Pai ao mundo. \u201cQuem possui o Filho possui a vida\u201d (I Jo 5,12). O Filho tamb\u00e9m veste uma t\u00fanica verde, s\u00edmbolo da vida.O Esp\u00edrito, o 32\u00ba anjo, olha o Pai. O ciclo da vida se fecha com o Esp\u00edrito. O Esp\u00edrito escuta o Pai. Ele inclina a cabe\u00e7a como o Filho e sua atitude de disponibilidade \u00e9 refor\u00e7ada. Suas asas est\u00e3o sobre as do Pai e uma asa aflora com ternura a do Filho. O que Ele escuta do Pai volta ao Filho. \u00c9 isso que significa sua m\u00e3o direita e os dedos que aben\u00e7oam; a m\u00e3o descansa sobre a mesa ao mesmo n\u00edvel que a do Filho. Neste mundo, o Filho se oferece em perfeito sacrif\u00edcio a Deus atrav\u00e9s do Esp\u00edrito eterno. (Hebreus, 9,14).<\/p>\n<p>O c\u00e1lice ao centro desta Santa Comunidade lembra a realidade do sacrif\u00edcio. O Esp\u00edrito\u00a0 Santo \u00e9 o servidor, o inspirador do di\u00e1logo entre o Pai e o Filho, como mostra a estola do di\u00e1cono no seu vestido. Uma corrente de vida passa pela Sant\u00edssima Trindade, o Amor torna-se Palavra e p\u00falpito quando o Filho se faz homem; a hist\u00f3ria se completa quando o Filho morre na cruz. A \u00e1rvore ao fundo lembra isso, \u00e9 o carvalho de Mambr\u00e9 ou mais? \u00c9 a arvore do jardim do Para\u00edso contrastando com a \u00e1rvore da Cruz no G\u00f3lgota.<\/p>\n<p>Em Jesus e em sua vida, Deus que era estrangeiro e distante, passou a ser o Deus pr\u00f3ximo e presente. Em Jesus, n\u00f3s podemos ver Deus. Ele procura a terna afei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e0 distancia; d\u00e1 um amor pronto para o sacrif\u00edcio,\u00a0 d\u00e1 sentido a tudo quanto existe no mundo, pois Ele est\u00e1 al\u00e9m da compreens\u00e3o. Ele nos convida a entrar nesse jorro \u201cda Vida Trinit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Mas uma coisa e necess\u00e1ria: o \u201cSIM\u201d vindo do cora\u00e7\u00e3o, o \u201cSIM\u201d da alegria que se torna Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><em>Drutmar Cremer<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Fr. Jos\u00e9 Carlos Corr\u00eaa Pedroso, OFMCap<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\"><em>&#8220;Observemos, portanto, as palavras, a vida e a doutrina, o Santo Evangelho daquele que se dignou rogar por n\u00f3s a seu Pai e manifestar-nos o seu nome&#8221;. (RnB 22,41)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Francisco descobre o Pai ouvindo Jesus<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco viveu uma profunda experi\u00eancia espiritual de Deus Pai porque, acima de tudo, viveu Jesus Cristo. No seu tempo, era comum as pessoas chamarem a Deus de Pai, mas pensando na figura de Jesus Cristo. O que havia era uma id\u00e9ia ampla de Deus, chamado de Pai, mas reconhecido na figura de Jesus\u00a0(1).<\/p>\n<p>No relativamente demorado processo de convers\u00e3o de Francisco, s\u00e3o fatos marcantes o desencanto com as carreiras de comerciante e cavaleiro e, como ele mesmo afirma no Testamento, o encontro com os leprosos, de onde saiu transformado.<\/p>\n<h4><strong>A experi\u00eancia dos leprosos<\/strong><\/h4>\n<p>Parece-me fundamental notar que a transforma\u00e7\u00e3o que aconteceu na experi\u00eancia com os leprosos est\u00e1 ligada a uma experi\u00eancia de Deus Pai. Francisco disse que &#8220;com eles fiz miseric\u00f3rdia e, por isso, o que antes para mim era amargo, tornou-se doce&#8221; (Test 3). Miseric\u00f3rdia, a\u00a0<em>&#8221;hesed hahamin&#8221;<\/em>\u00a0da B\u00edblia, \u00e9 o amor que s\u00f3 Deus tem. No Novo Testamento, Jesus a atribui ao Pai. S\u00e3o Francisco amou os leprosos com o amor que \u00e9 de Deus, foi transformado pela presen\u00e7a do Pai. E a presen\u00e7a sens\u00edvel do Pai \u00e9 sempre a pessoa do Filho. E n\u00e3o acontece sem a presen\u00e7a abrasadora do Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 o amor entre o Pai e o Filho. Foi por esta raz\u00e3o que Francisco disse: &#8220;Assim, o Senhor me deu de come\u00e7ar a fazer penit\u00eancia&#8221;; ele come\u00e7ou a mudar, a se transformar, a ter consci\u00eancia da a\u00e7\u00e3o da Trindade nele quando se abriu para servir os leprosos.<\/p>\n<p>A partir do encontro com os leprosos, Francisco sabe que tem que fazer um\u00a0<em>&#8220;nostos&#8221;,<\/em>\u00a0um caminho de volta para o Pai. Sua vida de convers\u00e3o \u00e9 iluminada pela par\u00e1bola de convers\u00e3o do Filho Pr\u00f3digo, em que Jesus mostra o que aconteceu e o que ainda deve acontecer conosco. Sa\u00edmos de casa, pensando que o importante era s\u00f3 levar o dinheiro do Pai, porque o mundo tinha tudo de bom com que poder\u00edamos sonhar.<\/p>\n<p>Voltamos, porque percebemos que o importante \u00e9 estar com o Pai. Mais ainda: o importante \u00e9 continuar o caminho que o Pai est\u00e1 fazendo, porque ele n\u00e3o terminou a cria\u00e7\u00e3o. Ainda tem uma parte enorme, a ser feita conosco.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o notar que a linguagem neotestament\u00e1ria e patr\u00edstica nos habituou a falar em Deus &#8220;Pai&#8221;. Na sensibilidade de hoje, poder\u00edamos dizer, como Jo\u00e3o Paulo I, que \u00e9 &#8220;Deus M\u00e3e&#8221;. O que importa \u00e9 que toda a nossa vida flui a partir de Deus, Pai ou M\u00e3e, pois \u00e9 quem gera Jesus, o Filho.<\/p>\n<h4><strong><br \/>\nA experi\u00eancia da cripta de S\u00e3o Dami\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<h4><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/sd.jpg\" alt=\"sd\" width=\"250\" height=\"343\" \/><\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 interessante observar que tanto a Primeira Vida de Celano quanto a Legenda dos Tr\u00eas Companheiros colocam logo em seguida \u00e0 experi\u00eancia com os leprosos um fato que me parece not\u00e1vel para toda a sua experi\u00eancia posterior da Sant\u00edssima Trindade. Contam que ele convenceu um rapaz de sua idade de que tinha encontrado um tesouro. Dizem que os dois iam com freq\u00fc\u00eancia a uma caverna, que o rapaz ficava esperando fora, mas Francisco entrava e orava profundamente. Cito do texto da Legenda dos Tr\u00eas Companheiros:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Francisco o levava muitas vezes a uma caverna perto de Assis, e, entrando sozinho, deixava do lado de fora o companheiro, desejoso de possuir o tesouro; e assim, tomado de novo e singular esp\u00edrito, orava ao Pai, \u00e0s escondidas, cuidando que ningu\u00e9m soubesse o que estava fazendo l\u00e1 dentro a n\u00e3o ser Deus&#8221; (LTC 12). O texto correspondente de Celano diz: &#8220;O homem de Deus, que j\u00e1 estava santificado pelo santo prop\u00f3sito, entrava na gruta enquanto o companheiro ficava esperando do lado de fora e, tomado pelo novo e especial esp\u00edrito, orava a seu Pai na solid\u00e3o&#8221; (1Cel 6).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em primeiro lugar, gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o do leitor para uma observa\u00e7\u00e3o de Frei Marino Bigaroni<strong>(2)<\/strong>\u00a0de que, em latim, tanto o texto de 1Cel quanto o da LTC n\u00e3o falam em caverna ou gruta, mas em uma &#8220;crypta&#8221;. \u00c9 verdade que foi dessa palavra grega (que quer dizer &#8220;lugar escondido&#8221;) que veio a nossa &#8220;gruta&#8221;, mas o termo \u00e9 usado h\u00e1 muito tempo para designar um espa\u00e7o subterr\u00e2neo reservado para sepultar os mortos nas igrejas. Bigaroni argumenta que este local era a cripta que ficava embaixo do altar da Igreja de S\u00e3o Dami\u00e3o antes da grande reforma que Francisco nela fez para preparar o Mosteiro de Santa Clara.<\/p>\n<p>Mais importante \u00e9 lembrar que o texto \u00e9 uma evidente lembran\u00e7a da passagem b\u00edblica: &#8220;Ao contr\u00e1rio, quando voc\u00ea rezar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze ao seu Pai ocultamente; o seu Pai, que v\u00ea no escondido, recompensar\u00e1 voc\u00ea&#8221; (Mt 6,6).<\/p>\n<p>Ressalto, ent\u00e3o, que Francisco estava aprendendo a tratar com o Pai revelado por Jesus Cristo e que era levado a isso pela interven\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, sem a qual ningu\u00e9m \u00e9 capaz de rezar, ningu\u00e9m \u00e9 capaz de reconhecer o Senhor.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m chamo a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, se a ora\u00e7\u00e3o era feita na cripta de S\u00e3o Dami\u00e3o, Francisco j\u00e1 tinha tido o seu famoso encontro com Jesus Crucificado, que foi omitido na Primeira Vida de Celano, certamente porque se tratava de um segredo at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 conhecido por Santa Clara ou Frei Le\u00e3o. Talvez seja melhor pensar que os encontros foram m\u00faltiplos, seguidos, constantes, produzindo aos poucos a ora\u00e7\u00e3o mais antiga de Francisco que chegou a n\u00f3s:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Alt\u00edssimo e glorioso Deus, iluminai as trevas do meu cora\u00e7\u00e3o e dai-me uma f\u00e9 direita, esperan\u00e7a certa, caridade perfeita, bom senso e conhecimento, Senhor, para que fa\u00e7a vosso santo e verdadeiro mandamento. Am\u00e9m&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Com muitos dos autores mais recentes, podemos ver nesta ora\u00e7\u00e3o um dos pontos fundamentais da espiritualidade de S\u00e3o Francisco: ele quer cumprir o mandamento, isto \u00e9, obedecer a Deus Pai como Jesus crucificado obedeceu. Ora, fazer a vontade do Pai, que \u00e9 &#8220;todo o Bem&#8221;, implica tanto uma volta para Deus quanto um comprometimento com a constru\u00e7\u00e3o da utopia.<\/p>\n<p>Deve ter sido nesses incont\u00e1veis tempos de ora\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Dami\u00e3o, na cripta ou diante do Crucifixo, que Francisco aprendeu a rezar como a Igreja sempre tinha feito em sua liturgia desde os primeiros s\u00e9culos: dirigindo-se ao Pai atrav\u00e9s da Palavra de Jesus Cristo, com o qual podemos nos unir gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. Uma ora\u00e7\u00e3o exemplar, nesse sentido, \u00e9 a que S\u00e3o Francisco colocou no fim de sua Carta a toda Ordem:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dai a n\u00f3s, miser\u00e1veis, fazer, por v\u00f3s mesmo, o que sabemos que v\u00f3s quereis, e sempre querer o que vos apraz, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados e acesos no fogo do santo esp\u00edrito, possamos seguir os vest\u00edgios do vosso dileto Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e chegar s\u00f3 por vossa gra\u00e7a a v\u00f3s, Alt\u00edssimo, que na Trindade perfeita e na Unidade simples viveis e reinais e sois glorificado, Deus onipotente, por todos os s\u00e9culos dos s\u00e9culos. Am\u00e9m&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<h4><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-39029 alignright\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/dp.jpg\" alt=\"dp\" width=\"250\" height=\"343\" \/>A experi\u00eancia do Pai-nosso\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p>Os primeiros bi\u00f3grafos viram em Francisco um outro Cristo. Uma das coisas que mais os impressionou foi o fato de Francisco ter os estigmas, como Jesus crucificado. Na realidade, os estigmas foram apenas um sinal exterior: Francisco foi um outro Cristo porque realizou profundamente a sua voca\u00e7\u00e3o humana e porque ouviu Jesus para rezar com ele. Foi ouvindo Jesus Cristo que ele aprendeu a conhecer o Pai.<\/p>\n<p>Em todas as suas ora\u00e7\u00f5es, ele procura rezar ao Pai com Jesus Cristo. Ele tenta entrar na ora\u00e7\u00e3o de Jesus. Vamos tomar como um ponto alto o seu &#8220;Coment\u00e1rio ao Pai-nosso&#8221;. Fazemos notar que a ora\u00e7\u00e3o, ensinada por Jesus, \u00e9 toda dirigida ao Pai criador. Ora, Deus Pai n\u00e3o foi criador, ele \u00e9, continua a ser criador. Ainda est\u00e1 construindo o seu Reino. N\u00f3s estamos fora desse processo de cria\u00e7\u00e3o pelo pecado e precisamos voltar para a casa paterna se quisermos ter parte na constru\u00e7\u00e3o do Reino. Mas Jesus, em sua ora\u00e7\u00e3o, fala primeiro do Reino, que \u00e9 a nossa esperan\u00e7a, para depois falar da volta, que est\u00e1 baseada na mem\u00f3ria do nosso pecado e na mem\u00f3ria da miseric\u00f3rdia de Deus.<\/p>\n<h4><strong>Nosso trabalho\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p>Vamos desenvolver este nosso estudo sobre a experi\u00eancia de Deus Pai vivida por Francisco dividindo-o em duas grandes partes. Na primeira, que tem o subt\u00edtulo &#8221;Venha a n\u00f3s o vosso Reino&#8221;, vamos falar da incessante obra criadora de Deus Pai, que continua a ser feita. Poder tomar parte nela \u00e9 a nossa grandeza e \u00e9 tamb\u00e9m o nosso sonho. Vamos ver como Jesus a ensinou e como Francisco a viveu. Na segunda, que tem o subt\u00edtulo &#8220;Perdoai as nossas ofensas&#8221;, vamos considerar que deixamos de tomar parte na obra criadora do Pai porque nos afastamos dele. Como o filho pr\u00f3digo, temos que voltar para o Pai.<\/p>\n<h4><strong>1. &#8220;Venha a n\u00f3s o vosso Reino&#8221;<\/strong><\/h4>\n<p>Viver a B\u00edblia como um povo \u00e9 caminhar no sentido da Esperan\u00e7a. Esta parte \u00e9 um aprofundamento da &#8220;esperan\u00e7a&#8221; que marca a meta da hist\u00f3ria. Acredito que Jesus nos inculcou profundamente o seu sentido quando nos ensinou a primeira parte do Pai-nosso. Francisco demonstra ter compreendido muito bem a li\u00e7\u00e3o, como podemos ler no seu &#8220;Coment\u00e1rio ao Pai-nosso&#8221;, como podemos considerar em toda a sua vida de ora\u00e7\u00e3o e no seu sonho de ver Deus, com uma clareza cada vez maior.<\/p>\n<p>Quando chegamos a viver Deus Pai, somos criadores com Ele e como Ele. Nossa criatividade encontra seu verdadeiro sentido e nos traz a mais profunda realiza\u00e7\u00e3o como pessoas e como povo.<\/p>\n<h4><strong>Francisco inverte a nossa posi\u00e7\u00e3o de c\u00e9u<\/strong><\/h4>\n<p>Pensamos, habitualmente, no c\u00e9u como um lugar imenso, a casa de Deus, onde vamos todos estar com Ele. No seu Coment\u00e1rio, Francisco diz:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Que estais nos c\u00e9us: nos anjos e nos santos, iluminando-os para o conhecimento, porque v\u00f3s, Senhor, sois luz: inflamando-os para o amor, porque v\u00f3s, Senhor, sois amor; morando neles e plenificando-os para a bem-aventuran\u00e7a, porque v\u00f3s, Senhor, sois o sumo Bem, eterno Bem, do qual nos vem todo bem, sem o qual n\u00e3o h\u00e1 nenhum bem&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o estamos dentro do c\u00e9u, mas o c\u00e9u estar\u00e1 dentro de n\u00f3s na medida em que descobrirmos Deus em n\u00f3s.<\/p>\n<h4><strong>Deus Pai \u00e9 essencialmente criador. Nunca deixa de ser criador<\/strong><\/h4>\n<p>O atributo de Deus Pai \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 sempre criador e isso se manifesta em nossa criatividade. J\u00e1 usamos muito mal a criatividade no mundo que estamos construindo atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. Temos que aprender a us\u00e1-la construindo o Reino de Deus.<\/p>\n<h4><strong>Deus Pai est\u00e1 construindo a nossa utopia: o seu Reino<\/strong><\/h4>\n<p>O Reino de Deus n\u00e3o \u00e9 o mundo que criamos \u00e0 nossa imagem e semelhan\u00e7a trabalhando segundo o &#8220;esp\u00edrito da carne&#8221;. \u00c9 o mundo que criamos com Deus quando trabalhamos segundo o &#8220;esp\u00edrito do Senhor&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel compreender as posi\u00e7\u00f5es concretas de Francisco se n\u00e3o percebermos que todas se fundamentam nessa op\u00e7\u00e3o pelo &#8220;esp\u00edrito do Senhor&#8221; e n\u00e3o pelo &#8220;esp\u00edrito da carne&#8221;. Ele repete isso muitas vezes e de muitas formas, mas acredito que o texto fundamental \u00e9 o que est\u00e1 no cap\u00edtulo 17 da Regra n\u00e3o-bulada, que afirma:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prud\u00eancia da carne. Pois o esp\u00edrito da carne tem grande interesse em fazer muito em palavras e pouco em obras, nem procura a piedade e santidade interior de esp\u00edrito, mas antes visa e deseja uma piedade e santidade que apare\u00e7a por fora diante dos homens &#8230; Por\u00e9m, o esp\u00edrito do Senhor exige que a nossa carne seja mortificada e desprezada, vil, abjeta e desprez\u00edvel; e ele procura a humildade e a paci\u00eancia e a pura, simples e verdadeira paz do esp\u00edrito; e acima de tudo deseja sempre o temor de Deus, a sabedoria de Deus e o divino amor do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo&#8221; (RnB 17,11-16).<\/p><\/blockquote>\n<p>O &#8220;esp\u00edrito da carne&#8221;, express\u00e3o j\u00e1 usada por S\u00e3o Jo\u00e3o e S\u00e3o Paulo, mas fundamentada no uso cl\u00e1ssico da palavra &#8220;corpo&#8221; ou &#8220;carne&#8221; na literatura grega, expressa o que n\u00f3s somos sem Deus ou por oposi\u00e7\u00e3o a Deus: isto \u00e9, refere-se ao nosso ego\u00edsmo e ao mundo que constru\u00edmos \u00e0 nossa imagem e semelhan\u00e7a depois de nos termos afastado de Deus. Conseq\u00fcentemente, o &#8220;esp\u00edrito do Senhor&#8221; \u00e9 aquele impulso interior que nos faz enxergar as coisas como Deus enxerga e realiz\u00e1-las como Deus as realiza. Quem tem o &#8220;esp\u00edrito do Senhor&#8221; n\u00e3o fica em palavras e exterioridades e tamb\u00e9m n\u00e3o constr\u00f3i castelos de areia, porque \u00e9 criador com Deus Pai.<\/p>\n<h4><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-39030 alignleft\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/rc.jpg\" alt=\"rc\" width=\"250\" height=\"319\" \/>No seu Reino, estamos no \u201cn\u00e3o lugar&#8221; e no \u201cn\u00e3o tempo&#8221;<\/strong><\/h4>\n<p>Se n\u00f3s passamos para o Reino de Deus, sa\u00edmos do nosso lugar. Francisco disse que &#8220;saiu do s\u00e9culo&#8221;. Ele ficou no mundo (do pecado) sem ser do mundo. Ficou como um agente do mundo de Deus no &#8220;mundo dos homens&#8221;. Sair do s\u00e9culo, al\u00e9m de nos libertar do &#8220;nosso&#8221; espa\u00e7o fazendo-nos estar no espa\u00e7o de Deus, liberta-nos do &#8220;nosso&#8221; tempo, fazendo-nos entrar, desde agora, no &#8220;tempo&#8221; de Deus, que \u00e9 a eternidade.<\/p>\n<p>A palavra &#8220;utopia&#8221;, usada por S. Tom\u00e1s More, \u00e9 altamente significativa. Quer dizer &#8220;n\u00e3o-lugar&#8221;. E a situa\u00e7\u00e3o em que fica, diante do mundo criado pelos homens \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, quem passa para o mundo criado por Deus \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 reconheceu Deus como Pai passa a ser um contemplativo. Isto \u00e9, \u00e9 capaz de enxergar com nitidez, no meio de tantas obras dos homens sem Deus, o que foi feito por Deus, sozinho ou com os humanos.<\/p>\n<h4><strong>O seu reino n\u00e3o ter\u00e1 fim<\/strong><\/h4>\n<p>Continuando a sua &#8220;Par\u00e1frase ao Pai-nosso&#8221;, Francisco deseja que o Nome de Deus seja santificado. Nosso desejo mais profundo \u00e9 conhecer Deus. \u00c9 v\u00ea-lo face a face. \u00c9 isso que Deus continua a criar.<\/p>\n<p>A express\u00e3o &#8220;nome&#8221; \u00e9 devida ao respeito que o povo judeu sempre teve por Deus. At\u00e9 hoje, eles n\u00e3o dizem &#8220;Bendito seja Deus!&#8221;, mas &#8220;Bendito seja o nome!&#8221;, a fim de &#8220;n\u00e3o tomar o nome de Deus em v\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Pedir que o &#8220;nome&#8221; de Deus seja santificado \u00e9 pedir que compreendamos e vivamos tudo o que for poss\u00edvel da santidade de Deus. Francisco disse:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Santificado seja o vosso nome: fique clara em n\u00f3s a vossa not\u00edcia, para que conhe\u00e7amos qual \u00e9 a largura de vossos benef\u00edcios, a extens\u00e3o de vossas promessas, a sublimidade da majestade e a profundidade dos ju\u00edzos&#8221; (EPN 4).<\/p><\/blockquote>\n<p>Francisco parece ter gostado da maneira de falar de S\u00e3o Paulo: \u00a0&#8220;Voc\u00eas se tornar\u00e3o capazes de compreender, com todos os crist\u00e3os, qual \u00e9 a largura e o comprimento, a altura e a profundidade &#8230; para que fiquem repletos de toda plenitude de Deus&#8221; (Ef 3,18-19). Mas ainda falou em: a) largura dos benef\u00edcios, b) extens\u00e3o das promessas, c) sublimidade da majestade e d) profundidade dos ju\u00edzos. Ele quis mostrar que Deus n\u00e3o tem fim em nenhuma dire\u00e7\u00e3o. Projetou uma figura infinita em todos os sentidos para dar-nos uma id\u00e9ia do Reino que ainda podemos construir unindo nossa criatividade a todo o poder do Pai criador pelos s\u00e9culos sem fim.<\/p>\n<h4><strong>Orar com Jesus, pedindo que o Reino venha<\/strong><\/h4>\n<p>Em seu sentido mais freq\u00fcente, as ora\u00e7\u00f5es que Francisco faz para rezar com Jesus acompanham a primeira parte do Pai-nosso e pedem que o Reino venha. Mas eu vou destacar, aqui, dois pontos principais: as ora\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e o uso da ora\u00e7\u00e3o sacerdotal do evangelista Jo\u00e3o (cap. 17).<\/p>\n<h4><strong>a) S\u00e3o Francisco e a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as<\/strong><\/h4>\n<p>A maior parte das ora\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Francisco que chegaram at\u00e9 n\u00f3s tem um profundo sentido de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. S\u00e3o &#8220;eucar\u00edsticas&#8221;. \u00c9 f\u00e1cil perceber que ele est\u00e1 sempre dando gra\u00e7as ao Pai por tudo o que vai descobrindo, porque aprendeu a rezar com Jesus que disse: &#8220;Pai, eu vos dou gra\u00e7as porque escondestes estas coisas aos s\u00e1bios e aos prudentes e as revelastes aos pequeninos&#8221; (Lc 10,21).<\/p>\n<p>Chamo a aten\u00e7\u00e3o para o C\u00e2ntico de Frei Sol, mas tamb\u00e9m para algumas outras ora\u00e7\u00f5es, como a Exorta\u00e7\u00e3o ao Louvor de Deus, os Louvores a serem ditos em todas as Horas, os Louvores a Deus Alt\u00edssimo e mesmo a Sauda\u00e7\u00e3o \u00e0s Virtudes e a Sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 Bem-Aventurada Virgem Maria, que podem ser vistas como prepara\u00e7\u00f5es para o C\u00e2ntico de Frei Sol. Mas um destaque especial merece a Ora\u00e7\u00e3o a Deus Pai Criador que est\u00e1 no cap\u00edtulo 23 da Regra n\u00e3o-Bulada. \u00c9 um cap\u00edtulo que dever\u00edamos rezar com freq\u00fc\u00eancia, embora n\u00e3o me seja dado, aqui, mais do que citar o come\u00e7o:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Onipotente, alt\u00edssimo, sant\u00edssimo e sumo Deus, Pai santo e justo, Senhor e Rei dos c\u00e9us e da terra, damo-vos gra\u00e7as por causa de v\u00f3s mesmo, porque por vossa santa vontade e pelo vosso \u00fanico filho criastes do Esp\u00edrito Santo todos os seres espirituais e corporais, nos fizestes \u00e0 vossa imagem e semelhan\u00e7a e nos colocastes no para\u00edso &#8230; &#8221; (RnB 23,1-3).<\/p><\/blockquote>\n<p>Creio que \u00e9 fundamental percebermos o seu sentido profundo: ao dar gra\u00e7as, Francisco est\u00e1 pedindo ao Pai que o seu Reino venha. Ele est\u00e1 descobrindo com os seus &#8220;olhos do esp\u00edrito&#8221; como o Pai constr\u00f3i o seu mundo e, reconhecido, louva como se estivesse aplaudindo ou &#8220;animando&#8221; Deus Pai a continuar essa obra t\u00e3o maravilhosa.<\/p>\n<p>Francisco, que iniciou suas ora\u00e7\u00f5es pedindo a ilumina\u00e7\u00e3o das trevas interiores, sempre procurou a luz, porque viu na luz o maior s\u00edmbolo de Deus. Jesus \u00e9 luz porque veio revelar a luz que \u00e9 o Pai. Francisco tem a maior celebra\u00e7\u00e3o da luz no C\u00e2ntico de Frei Sol, quando, cego nos olhos do corpo, s\u00f3 enxerga com os &#8220;olhos do esp\u00edrito&#8221;.<\/p>\n<h4><strong>b) S\u00e3o Francisco e a ora\u00e7\u00e3o sacerdotal<\/strong><\/h4>\n<p>Francisco reza ao Pai com Jesus tr\u00eas vezes seguindo a &#8220;ora\u00e7\u00e3o sacerdotal&#8221;, que encontramos no cap\u00edtulo 17 do Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o. Nas tr\u00eas vezes, ele a usa livremente, selecionando trechos, saltando e mudando a ordem. Na Carta aos Fi\u00e9is (lCtFi e 2CtFi) \u00e9 mais curto do que na Regra n\u00e3o-Bulada (22,39-50). Alguns trechos coincidem. Tudo isso demonstra que ele deve ter rezado muitas vezes essa ora\u00e7\u00e3o de Jesus de cor, adaptando-a \u00e0s circunst\u00e2ncias. Tamb\u00e9m podemos ver, especialmente nestas duas passagens de seus escritos, poss\u00edveis trechos de serm\u00f5es que ele costumava fazer ao povo.<\/p>\n<p>Mas o mais importante \u00e9 que essa e outras ora\u00e7\u00f5es de Jesus foram formando Francisco como um filho verdadeiro do Pai eterno.<\/p>\n<p>Nessa grande ora\u00e7\u00e3o do final de sua vida, Jesus fala com o Pai sobre a gl\u00f3ria a que todos n\u00f3s estamos destinados. N\u00f3s precisamos estar com Ele onde Ele estiver, isto \u00e9, junto do Pai e do Esp\u00edrito Santo. N\u00e3o somos tirados do mundo, mas j\u00e1 n\u00e3o somos do mundo. S\u00f3 ficamos nele para ajudar o Pai a continuar a sua obra criadora.<\/p>\n<p>Francisco colocou os frades e os irm\u00e3os penitentes nessa mesma perspectiva trinit\u00e1ria em que j\u00e1 tinha colocado as clarissas quando lhes deu a Forma de Vida para Santa Clara. Algo que ele lembrava pelo menos quatorze vezes por dia ao rezar a Ant\u00edfona a Nossa Senhora que est\u00e1 no Of\u00edcio da Paix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, para Francisco, n\u00f3s estamos fazendo a vontade de Deus aqui na terra como vamos faz\u00ea-la um dia com todos l\u00e1 no c\u00e9u. N\u00f3s somos criadores com o Pai.<\/p>\n<h4><strong>2. Perdoai as nossas ofensas<\/strong><\/h4>\n<p>Viver a B\u00edblia como um povo \u00e9 tamb\u00e9m ter uma ampla mem\u00f3ria hist\u00f3rica. Esta se\u00e7\u00e3o do nosso trabalho \u00e9 um aprofundamento da &#8220;mem\u00f3ria&#8221; como ponto de partida da hist\u00f3ria. Jesus deixou-a para a segunda parte do seu Pai-nosso e nos deu uma excelente li\u00e7\u00e3o quando contou a par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo. Francisco viveu isso tudo na sua penit\u00eancia e na sua ora\u00e7\u00e3o, ensinando-nos a nos libertar do pecado que nos deixou \u00f3rf\u00e3os do Pai.<\/p>\n<h4><strong>Temos que fazer um &#8220;nostos&#8221; &#8211; somos o filho pr\u00f3digo<\/strong><\/h4>\n<p>Jesus nos deixou um par\u00e2metro para esta parte do Pai-nosso quando contou a par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo. N\u00f3s somos pecadores e estamos sempre na volta para a casa do Pai. \u00c9 interessante observar, na literatura universal, como a humanidade sempre sentiu um desejo profundo e inexplic\u00e1vel de voltar. Mesmo sem saber direito para onde tinha que voltar. Foi Jesus que veio mostrar com clareza que nossa volta \u00e9 para os bra\u00e7os do Pai.<\/p>\n<p>Em portugu\u00eas, temos uma palavra nossa muito caracter\u00edstica e original: &#8220;saudades&#8221;. A nossa l\u00edrica sempre encontrou um de seus grandes temas nas saudades. Ora, essa palavra \u00e9 substitu\u00edda nas outras l\u00ednguas ocidentais por &#8220;nostalgia&#8221;, e em todas as l\u00ednguas por alguma express\u00e3o semelhante. Em grego, ao p\u00e9 da letra, &#8220;nostalgia&#8221; quer dizer &#8220;dor da volta&#8221;. &#8220;Nostos&#8221; \u00e9 volta, e &#8220;algos&#8221; \u00e9 dor. Quem n\u00e3o sentiu esta dor profunda com o desejo de voltar: voltar a algum lugar, a uma situa\u00e7\u00e3o, aos bra\u00e7os de alguma pessoa?<\/p>\n<p>A segunda parte do Pai-nosso \u00e9 dominada por essa dor da volta. Temos que voltar ao para\u00edso, quando o Pai ainda passeava amigavelmente conosco naquelas tardes gostosas, porque n\u00e3o t\u00ednhamos resolvido sair de casa para construir o nosso mundo, um mundo em que pud\u00e9ssemos ser deuses sem nos lembrar de que h\u00e1 um outro Deus t\u00e3o grande.<\/p>\n<p>Na realidade, como lembra S\u00e3o Francisco, n\u00f3s nos tornamos tantas vezes &#8220;miser\u00e1veis&#8221; ou m\u00edseros, isto \u00e9, pessoas que precisam da compaix\u00e3o que s\u00f3 Deus pode ter, porque s\u00f3 Ele sabe o que \u00e9 a &#8220;<em>hesed hahamim&#8221;,<\/em>\u00a0a miseric\u00f3rdia, pois s\u00f3 Ele tem aquelas entranhas maternas capazes de sentir e de fazer voltar os filhos ausentes.<\/p>\n<h4><strong>Como fazer miseric\u00f3rdia<\/strong><\/h4>\n<p>Na sua Par\u00e1frase ao Pai-nosso, Francisco diz:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;E perdoai-nos as nossas ofensas por vossa inef\u00e1vel miseric\u00f3rdia, pela for\u00e7a da Paix\u00e3o de vosso dileto Filho e pelos m\u00e9ritos e intercess\u00e3o da beat\u00edssima Virgem Maria e de todos os vossos eleitos. Assim como n\u00f3s perdoamos a quem nos tem ofendido: e o que n\u00f3s n\u00e3o perdoamos totalmente, fazei v\u00f3s, \u00f3 Senhor, que perdoemos plenamente, para que por v\u00f3s amemos de verdade os nossos inimigos e intercedamos por eles devotamente diante de v\u00f3s, a ningu\u00e9m pagando o mal com o mal e em tudo procuremos ser proveitosos em v\u00f3s&#8221; (EPN 9-10).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para nos reconhecermos filhos do Pai eterno, \u00e9 fundamental reconhecermos: a) que somos pecadores, b) que somos perdoados e c) que tamb\u00e9m temos que perdoar.<\/p>\n<p>a) Somos pecadores. S\u00e3o Jo\u00e3o diz muito claramente: &#8220;Se dizemos que n\u00e3o temos pecado, enganamos a n\u00f3s mesmos, e a verdade n\u00e3o est\u00e1 em n\u00f3s. Se reconhecemos os nossos pecados, Deus que \u00e9 fiel e justo perdoar\u00e1 nossos pecados e nos purificar\u00e1 de toda injusti\u00e7a. Se dizemos que nunca pecamos, estaremos afirmando que Deus \u00e9 mentiroso e a sua palavra n\u00e3o estar\u00e1 em n\u00f3s&#8221; (lJo 1,8-10).<\/p>\n<p>b) Somos perdoados. Em vez de ser uma pessoa triste e desconsolada porque n\u00e3o est\u00e1 conseguindo ter tantas coisas que desejaria, todo crist\u00e3o deveria ser uma fonte transbordante de alegria por saber que foi perdoado: que estava longe e foi recebido em festa na casa paterna. Era essa a alegria constante de Francisco. Ele sabia que, para ele, j\u00e1 tinham sido movidas a &#8220;inef\u00e1vel miseric\u00f3rdia do Pai&#8221;, a &#8220;for\u00e7a da Paix\u00e3o do Filho&#8221;, \u00a0os &#8220;m\u00e9ritos e a intercess\u00e3o da beat\u00edssima Virgem Maria e de todos os eleitos&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos muito mal acostumados a pensar que todas as nossas grosserias podem ser lavadas com um simples pedido de desculpas e n\u00e3o compreendemos que, para podermos fazer o caminho de volta \u00e0 casa do Pai, foi preciso que se movimentasse tudo isso, inclusive que o Filho de Deus se encarnasse e morresse na cruz.<\/p>\n<p>Precisamos gritar ao mundo: &#8220;N\u00f3s somos perdoados&#8221;. J\u00e1 deveria ser uma raz\u00e3o mais do que suficiente para movimentarmos todos os povos para que se convertessem \u00e0 boa-nova do Evangelho.<\/p>\n<p>c) Temos que perdoar, como o Pai perdoa. Segundo o testemunho de S\u00e3o Lucas, Jesus ensinou: &#8220;Sede misericordiosos, como tamb\u00e9m vosso Pai \u00e9 misericordioso. N\u00e3o julgueis e n\u00e3o sereis julgados; n\u00e3o condeneis e n\u00e3o sereis condenados: perdoai e sereis perdoados&#8221; (Lc 6,36-37). No Evangelho de S\u00e3o Mateus, Jesus disse algo at\u00e9 mais incisivo: &#8220;Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste tamb\u00e9m vos perdoar\u00e1. Mas se n\u00e3o perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoar\u00e1&#8221; (Mt 6,14-15). A\u00a0<em>&#8220;hesed hahamin&#8221;<\/em>\u00a0\u00e9 caracter\u00edstica do Deus do Antigo Testamento, revelado por Jesus, como o Pai.<\/p>\n<p>Na Carta a um Ministro, S\u00e3o Francisco deu uma das melhores demonstra\u00e7\u00f5es de como entendia a pr\u00e1tica da miseric\u00f3rdia:<\/p>\n<p>&#8220;E nisto reconhecerei que amas realmente o Senhor e a mim, servo dele e teu, se fizeres o seguinte: n\u00e3o haja irm\u00e3o no mundo, mesmo que tenha pecado a n\u00e3o poder mais, que, ap\u00f3s ver os teus olhos, se sinta obrigado a sair de tua presen\u00e7a sem obter miseric\u00f3rdia, se miseric\u00f3rdia buscou. E se n\u00e3o buscar miseric\u00f3rdia, pergunta-lhe se n\u00e3o a quer. E se, depois disso, ele se apresentar ainda mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, procurando conquist\u00e1-lo para o Senhor. E tem sempre piedade de tais irm\u00e3os&#8221; (CtMi 5-7).<\/p>\n<p>Francisco devia estar muito consciente de toda a miseric\u00f3rdia que j\u00e1 tinha recebido pessoalmente de Deus quando teve a oportunidade de partilh\u00e1-la com os outros. Por isso, quando ele &#8220;fez miseric\u00f3rdia&#8221; com os leprosos, sua vida mudou. Ele at\u00e9 precisou &#8220;sair do mundo&#8221;. Na Carta a um Ministro, ele tamb\u00e9m disse que tudo o que acontece conosco \u00e9 gra\u00e7a: Deus est\u00e1 nos ajudando a voltar para a casa do Pai.<\/p>\n<p>Por isso, acredito que o fato de Francisco e Clara terem mandado seus irm\u00e3os e irm\u00e3s rezarem tantos Pai-nossos como um Of\u00edcio alternativo n\u00e3o deve ser devido s\u00f3 a um costume que j\u00e1 existia antes deles e em outros grupos religiosos. Eles tinham consci\u00eancia de que era preciso estar recordando o dia inteiro que o Pai \u00e9 misericordioso e n\u00f3s temos que ser misericordiosos com Ele (3).<\/p>\n<h4><strong>Orar com Jesus pedindo miseric\u00f3rdia &#8211; o Of\u00edcio da Paix\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>Francisco j\u00e1 reconheceu que precisava da miseric\u00f3rdia do Pai quando rezou diante do Crucifixo de S\u00e3o Dami\u00e3o pedindo que o Senhor &#8220;iluminasse as trevas do seu cora\u00e7\u00e3o&#8221;, e soube reconhec\u00ea-lo at\u00e9 o fim, quando insistiu na ora\u00e7\u00e3o que conclui a Carta a toda Ordem: &#8221; &#8230; misericordioso Deus, &#8230; dai a n\u00f3s, miser\u00e1veis &#8230; &#8220;. Ali\u00e1s, ele sempre esteve querendo sair das trevas do pecado para a luz da miseric\u00f3rdia do Pai.<\/p>\n<p>No Of\u00edcio da Paix\u00e3o, temos o melhor exemplo de como S\u00e3o Francisco procurava rezar com Jesus Cristo ao Pai, pedindo miseric\u00f3rdia ou celebrando o fato de ter recebido miseric\u00f3rdia. Ele comp\u00f4s todos os seus salmos como se estivessem sendo rezados pelo pr\u00f3prio Jesus: com ora\u00e7\u00f5es do Antigo Testamento, entremeadas por express\u00f5es que s\u00f3 o Filho de Deus veio revelar no Novo Testamento. Creio que \u00e9 importante examinar os passos mais significativos dessa ora\u00e7\u00e3o ao Pai que Francisco e Clara rezavam todos os dias.<\/p>\n<p>Na Ant\u00edfona de Nossa Senhora, o Pai \u00e9 chamado de &#8220;Alt\u00edssimo sumo Rei Pai Celeste, e Nossa Senhora \u00e9 saudada como sua &#8220;filha e serva&#8221;.<\/p>\n<p>No Salmo 1, vers\u00edculo 5, Francisco e Jesus rezam assim: &#8220;Santo Pai meu, rei do c\u00e9u e da terra, n\u00e3o vos afasteis de mim porque a tribula\u00e7\u00e3o est\u00e1 perto e n\u00e3o h\u00e1 quem me ajude&#8221;. E no vers\u00edculo 9 insistem: &#8220;Pai santo, n\u00e3o afasteis de mim o vosso aux\u00edlio; Deus meu, vinde me socorrer&#8221;.<\/p>\n<p>No Salmo 2, vers\u00edculos 11 e 12, rezam assim: &#8220;V\u00f3s sois o meu Pai sant\u00edssimo, meu Rei e Deus meu. Vinde em meu aux\u00edlio, Senhor Deus de minha salva\u00e7\u00e3o&#8221;. O Salmo 3, que come\u00e7a pedindo: &#8221;Tende compaix\u00e3o de mim, \u00f3 Deus, tende compaix\u00e3o &#8230; &#8220;, continua no vers\u00edculo 3: &#8220;Clamarei ao meu sant\u00edssimo Pai alt\u00edssimo; ao Senhor 1ue me encheu de benef\u00edcios&#8221;.<\/p>\n<p>No Salmo 4, vers\u00edculo 9, rezam assim: &#8220;Pai santo, n\u00e3o afasteis de mim a vossa ajuda, cuidai da minha defesa&#8221;. No Salmo 5 , reconhecem-se na posi\u00e7\u00e3o de pecadores quando, no vers\u00edculo 9, dizem: &#8220;Pai santo, o zelo de vossa casa me devorou, e os insultos dos que vos ofendem ca\u00edram em cima de mim &#8230; &#8220;. E mais \u00e0 frente, nos vers\u00edculos 15 e 16, v\u00e3o completar: &#8221;V\u00f3s sois o meu Pai sant\u00edssimo, meu Rei e meu Deus. Vinde depressa me ajudar, Senhor Deus de minha salva\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>No Salmo 6, depois de reconhecer que &#8220;reduziram-me ao p\u00f3 da morte, e aumentaram a dor de minhas chagas&#8221; (v. 10), voltam-se com confian\u00e7a para dizer ao Pai: &#8220;Fui dormir e me levantei, e meu Pai sant\u00edssimo me recebeu com gl\u00f3ria. Pai santo, v\u00f3s me tomastes pela m\u00e3o direita e me guiastes em vossa vontade e me acolhestes com honra&#8221; (vv. 11-12).<\/p>\n<p>O Salmo 7 reconhece o pecado de toda a terra, mas proclama: &#8220;Porque o sant\u00edssimo Pai do c\u00e9u, nosso Rei antes do come\u00e7o do mundo, enviou l\u00e1 do alto seu Filho amado e realizou a salva\u00e7\u00e3o em toda a terra&#8221; (v. 3). No tempo da Ascens\u00e3o, Francisco acrescentava: &#8220;Subiu aos c\u00e9us e est\u00e1 sentado \u00e0 direita do sant\u00edssimo Pai celestial&#8221; (v. 10).<\/p>\n<p>O Salmo 9 \u00e9 cheio de alegria pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, mas lembra que foi preciso sacrificar o Filho de Deus: &#8220;A seu Filho amado sacrificou a sua destra e seu santo bra\u00e7o&#8221; (v. 2).<\/p>\n<p>O Salmo 11 canta a miseric\u00f3rdia de Deus diante dos pecadores, pois celebra: &#8220;Agora, eu reconheci que o Senhor enviou Jesus Cristo, seu Filho, e ele julgar\u00e1 o universo com justi\u00e7a&#8221; (v. 6).<\/p>\n<p>O Salmo 14 j\u00e1 reza assim no primeiro vers\u00edculo: &#8220;Eu vos dou gra\u00e7as, Senhor, Pai sant\u00edssimo, Rei do c\u00e9u e da terra, porque me consolastes&#8221;. E, finalmente, o Salmo 15, que celebra o Natal, proclama no vers\u00edculo 3: &#8220;Pois o sant\u00edssimo Pai do c\u00e9u, Rei nosso antes de todos os s\u00e9culos, mandou do alto seu amado Filho e nasceu da bem-aventurada Virgem Santa Maria&#8221;, concluindo no vers\u00edculo 5: &#8220;Naquele dia concedeu o Senhor a sua miseric\u00f3rdia&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil perceber que todo o Of\u00edcio da Paix\u00e3o \u00e9 um pedido de miseric\u00f3rdia feito ao Pai e cheio de esperan\u00e7a-certeza.<\/p>\n<h4><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/h4>\n<p>Clara, que a fam\u00edlia francisclariana est\u00e1 come\u00e7ando a redescobrir, ilumina fortemente a espiritualidade que partilhou com Francisco, porque sabe express\u00e1-la de uma maneira quase sempre muito original e muito livre. \u00c9 interessante observarmos, mais do que ela diz sobre Deus Pai, sua pr\u00e1xis constante de viver com Jesus no caminho que leva ao Pai.<\/p>\n<p>Celano apresentou Francisco como um &#8220;homem novo&#8221;, justamente porque o viu como algu\u00e9m que retornara \u00e0 casa do Pai e estava colaborando com a nova cria\u00e7\u00e3o, j\u00e1 tinha observado isso quando afirmou, na Legenda de Santa Clara:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Quando ouviu falar do ent\u00e3o famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfei\u00e7\u00e3o, t\u00e3o apagado no mundo, quis logo v\u00ea-lo e ouvi-lo, movido pelo Pai dos esp\u00edritos, de quem um e outra, embora de modo diferente, tinham recebido os primeiros impulsos&#8221; (LSC 5).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 claro que foi esse &#8220;Pai dos esp\u00edritos&#8221; que se tornou a meta de Clara na sua voca\u00e7\u00e3o, que ela mesma descreve como um dos maiores benef\u00edcios recebidos do Pai, que nos d\u00e1 Jesus como o caminho e o espelho para chegar at\u00e9 ele:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Entre outros benef\u00edcios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda a miseric\u00f3rdia e pelos quais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, est\u00e1 a nossa voca\u00e7\u00e3o que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele \u00e9 devida&#8221; (TestC 2-4).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 empolgante ler o Processo de Canoniza\u00e7\u00e3o e ir percebendo como Clara conseguiu passar para suas irm\u00e3s a sua convic\u00e7\u00e3o viva de que toda a nossa vida \u00e9 um constante voltar para a casa paterna e um empenhativo compromisso de continuar com o Pai a obra da cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos.<\/p>\n<h4><strong>Quem tem um Pai no c\u00e9u \u00e9 pobre<\/strong><\/h4>\n<p>Uma das primeiras conclus\u00f5es pr\u00e1ticas que podemos tirar da descoberta de Deus como Pai \u00e9 que podemos ser pobres e livres. As pr\u00f3prias pessoas divinas s\u00e3o essencialmente pobres porque d\u00e3o tudo de si sem precisar segurar nada. T\u00eam a liberdade de dar tudo sem precisar guardar nada para nenhuma eventualidade, pois n\u00e3o pode acontecer nenhum imprevisto para quem s\u00f3 vive o Amor. Tudo o que pode acontecer \u00e9 s\u00f3 um dar-se sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, Clara e Francisco s\u00f3 podiam ser pobres e livres. Quem est\u00e1 vivendo o Pai-nosso s\u00f3 pode ser pobre e livre porque n\u00e3o precisa se apropriar de nada, n\u00e3o precisa mandar em ningu\u00e9m e n\u00e3o precisa ter import\u00e2ncia reconhecida pelos outros.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 filho de Deus sempre vai ter tudo o que precisar, sempre vai ter o melhor relacionamento poss\u00edvel com todas as pessoas sem ter que coagi-Ias a nada, sempre vai ter o melhor reconhecimento poss\u00edvel por parte de quem melhor sabe faz\u00ea-lo: Deus.<\/p>\n<h4><strong>Estamos seguindo os passos de Jesus crucificado\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p>Outra conclus\u00e3o pr\u00e1tica e concreta \u00e9 que n\u00e3o precisamos nos preocupar com nada. Sabemos que, no fim da caminhada, o que vamos encontrar \u00e9 a plenitude do que estamos descobrindo aos pouquinhos cada dia: o Pai. Para isso, Francisco ensinou que basta &#8220;seguir os passos de Jesus crucificado&#8221;. Podemos ir at\u00e9 como cegos que deram a m\u00e3o e confiam no seu guia.<\/p>\n<p>Quando lemos os jornais ou escutamos os notici\u00e1rios, somos invadidos pelo terr\u00edvel sofrimento do mundo. De um mundo de \u00f3rf\u00e3os que, n\u00e3o reconhecendo que t\u00eam um Pai nos c\u00e9us, t\u00eam que passar a vida brigando por coisinhas e se matando por id\u00e9ias que s\u00e3o mais ef\u00eameras do que as moscas. Ser\u00e1 que este mundo n\u00e3o est\u00e1 precisando da seguran\u00e7a que deveria brotar e jorrar de nossa confian\u00e7a viva no Pai?<\/p>\n<h4><strong>Vivemos a esperan\u00e7a da utopia\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p>Mas os filhos do Pai das miseric\u00f3rdias n\u00e3o s\u00e3o omissos. Est\u00e3o na luta da constru\u00e7\u00e3o do Reino, e o Reino \u00e9 uma utopia que s\u00f3 vir\u00e1 com muito trabalho. Muita gente j\u00e1 trabalhou por ele no passado, muita gente ainda vai trabalhar no futuro, e n\u00f3s somos os trabalhadores do presente. Jesus disse que at\u00e9 o Pai trabalha e que ele tamb\u00e9m n\u00e3o p\u00e1ra de trabalhar.<\/p>\n<p>Francisco falou na &#8220;gra\u00e7a do trabalho&#8221;. \u00c9 a gra\u00e7a de poder transformar o sonho em realidade. Homem que &#8220;tinha sido transformado na pr\u00f3pria ora\u00e7\u00e3o&#8221;, ele insiste muito mais na necessidade de agir. Achava que n\u00e3o era verdadeira ora\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o tornava realidade as obras do Pai.<\/p>\n<p>S\u00f3 consegue transformar o sonho em realidade quem vive cultivando o sonho do Pai, quem tem toda a for\u00e7a dele para transportar montanhas. Foi isso que o pobrezinho Francisco aprendeu com Jesus e nos ensinou.<\/p>\n<p>______________________________________________________________________________________________<br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">1. Sobre isso, nada melhor que ler a primeira parte do livro de Nguyen Van Kahnah,\u00a0<em>Gesu Cristo nel pensiero di San Francesco secondo i suoi scritti.\u00a0<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">2. &#8220;<em>San Damiano &#8211; Assisi: La prima Chiesa di San Francesco&#8221;,<\/em>\u00a0em Atti Accademia Properziana del Subasio, ser. VI, 7 (1983) 49-87.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">3. Sobre o perd\u00e3o em S\u00e3o Francisco e Santa Clara, h\u00e1 um cap\u00edtulo interessante no livro de Adriano Parenti<em>, La scuola di preghiera da Francesco e Chiara d\u2019Assisi<\/em>, p. 85-89<\/span><\/p>\n<p>______________________________________________________________________________________________<\/p>\n<p><strong>Fr. Jos\u00e9 Carlos Corr\u00eaa Pedroso, OFMCap \u00e9<\/strong>\u00a0diretor do Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba. \u00c9 autor de v\u00e1rios livros de espiritualidade e franciscanismo. \u00c9 historiador e pesquisador na \u00e1rea fransciscana, profundo conhecedor da vida e obra de S\u00e3o Francisco de Assis e Santa Clara.<br \/>\nEste texto foi publicado nos \u201cCadernos Franciscanos\u201d, da FFB e Editora Vozes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Jos\u00e9 Carlos Corr\u00eaa Pedroso, OFMCap<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":185545,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[76,77],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A experi\u00eancia de Deus Pai em S\u00e3o Francisco - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-experiencia-de-deus-pai-em-sao-francisco-de-assis\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A experi\u00eancia de Deus Pai em S\u00e3o Francisco - 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