{"id":25301,"date":"2010-09-28T10:33:07","date_gmt":"2010-09-28T13:33:07","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=25301"},"modified":"2020-05-26T08:34:03","modified_gmt":"2020-05-26T11:34:03","slug":"a-compreensao-franciscana-do-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-compreensao-franciscana-do-homem\/","title":{"rendered":"A Compreens\u00e3o Franciscana do Homem"},"content":{"rendered":"<p><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-full wp-image-25302\" title=\"3554_290912\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/3554_290912.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"696\" \/>Frei Vit\u00f3rio Mazzuco Filho, OFM<\/strong><\/p>\n<p>Queremos, neste artigo, refletir sobre o Homem: sua vida, hist\u00f3ria, projetos, \u00e9tica, modelo, inspira\u00e7\u00e3o e sua postura neste mil\u00eanio. O Homem no seu mist\u00e9rio, na sua busca, nos mais diversos horizontes de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos refletir partindo da compreens\u00e3o franciscana do homem. Dizemos franciscana por nos espelharmos em Francisco de Assis, cuja vida \u00e9 uma ilumina\u00e7\u00e3o que nos pode dar o sentido maravilhoso da exist\u00eancia. Dizemos franciscana porque temos um modelo de grandeza.<\/p>\n<p>Francisco \u00e9 para n\u00f3s uma imensa saudade de uma p\u00e1tria distante do esp\u00edrito, uma escolha essencial, uma reconquista dura e jovial de uma inoc\u00eancia perdida. Francisco \u00e9 para n\u00f3s a alegria de ser, uma loucura e esc\u00e2ndalo, um pensamento \u00e1vido de realiza\u00e7\u00f5es, uma palavra portadora de alegria, uma vontade criativa e criadora.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode compreender ou analisar a hist\u00f3ria de uma vida sem levar em conta o contexto, o &#8220;Sitz im leben&#8221;, as paix\u00f5es, v\u00edcios e virtudes e as incont\u00e1veis experi\u00eancias do tempo a que esta hist\u00f3ria se refere.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nosso prop\u00f3sito reescrever ou recontar neste momento a hist\u00f3ria de Francisco, isto as tantas biografias, ensaios e an\u00e1lises j\u00e1 fizeram at\u00e9 com muita precis\u00e3o, mas queremos destacar alguns pontos de sua vida, compreender um pouco mais de sua vida e do seu modo franciscano de viver. Como dizia o astr\u00f4nomo franc\u00eas Laland: \u201cAquele que compilou Regras para milhares de\u00a0pessoas \u00e9 certamente um personagem importante. A fun\u00e7\u00e3o de uma Ordem, assim Pobre e austera, realizada por um jovem de 25 anos \u00e9 algo de extraordin\u00e1rio&#8230; e revela um g\u00eanio elevado, uma virtude singular, uma fervida devo\u00e7\u00e3o, uma eloq\u00fc\u00eancia envolvente, um zelo infatig\u00e1vel, uma const\u00e2ncia fora de comum\u201d.<\/p>\n<p>De onde vem esta for\u00e7a? Certamente de uma vida vivida de maneira apaixonada: um jovem nobre de ideais nobres, que soube fazer nascer, nos limites de sua encantadora Assis, um projeto de vida universal. Este jovem chamado Francisco soube estar aos p\u00e9s de seu Senhor, escutar uma Inspira\u00e7\u00e3o, seguir e imitar, com isso arrastou atr\u00e1s de si um grupo todo que jamais deixou de se renovar.<\/p>\n<p><strong>1. Francisco e seu substrato medieval<\/strong><br \/>\nA humanidade s\u00f3 pode crescer na unidade das diferen\u00e7as; por isso a sua hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de diversidades que d\u00e3o um colorido pr\u00f3prio a cada gera\u00e7\u00e3o, com sua originalidade, com sua inven\u00e7\u00e3o, com seus riscos.<\/p>\n<p>Compreender o passado \u00e9 iluminar o presente e motivar o futuro. Nisto tudo existe uma descontinuidade, \u201ca medita\u00e7\u00e3o do passado n\u00e3o \u00e9 um v\u00e3o esteticismo. Analisar as interroga\u00e7\u00f5es e as respostas, buscar a novidade do pr\u00f3prio tempo n\u00e3o \u00e9 est\u00e9ril nem in\u00fatil. N\u00e3o se trata de imitar o passado, mas traduzi-lo; o que sup\u00f5e um certo tipo de rela\u00e7\u00e3o entre o agora, antes e depois\u201d(1)<\/p>\n<p>Uma pessoa deve ser sempre compreendida dentro de seu contexto hist\u00f3rico. Tantas vezes afirmamos que Francisco \u00e9 express\u00e3o cristalina do mundo medieval. O que est\u00e1 por detr\u00e1s desta afirma\u00e7\u00e3o? O impulso que as pesquisas de Paul Sabatier deram ao estudo do franciscanismo? A sua convic\u00e7\u00e3o de que \u201cFrancisco foi, por excel\u00eancia, o Santo da Idade M\u00e9dia\u201d(2) Como situar\u00a0Francisco dentro desta \u00e9poca? Como compreender o medieval?<\/p>\n<p>Ter a clareza do que significa o medieval \u00e9 n\u00e3o deixar-se contaminar pelas ideologias que desejam usar o termo para refor\u00e7ar suas posi\u00e7\u00f5es, muitas vezes de um modo superficial, sem fundamenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Diz o pr\u00f3prio Sabatier que \u201co medieval constitui um per\u00edodo org\u00e2nico na vida da humanidade: como todos os organismos poderosos come\u00e7ou com uma longa e misteriosa gesta\u00e7\u00e3o, teve a sua juventude, a sua virilidade, a sua decrepitude. O fim do s\u00e9culo XII e o in\u00edcio do s\u00e9culo XIII assinalam o seu definitivo desenvolvimento org\u00e2nico. S\u00e3o anos com a pr\u00f3pria poesia, sonhos, entusiasmos, generosidade, aud\u00e1cia. O amor era abundante em sua for\u00e7a; por toda parte os homens tinham um s\u00f3 desejo: dedicar-se a alguma grande e santa causa\u201d (3)<\/p>\n<p>A Idade M\u00e9dia \u00e9 um momento cultural, social, religioso, m\u00edtico, arcaico, motivo de esc\u00e2ndalo e de interesse. Revelou possuir um centro, um cerne muito pr\u00f3prio, e, talvez, exatamente por causa disto nos legou uma vida cultural e espiritual de rara profundidade.<\/p>\n<p>Os fil\u00f3sofos humanistas na metade do s\u00e9culo XV cunharam o termo latino: \u201cM\u00e9dio Evo\u201d, composto do adjetivo \u201cmedius\u201d que significa: meio, isto \u00e9, aquilo que est\u00e1 no meio; e do substantivo \u201ceavum\u201d, que quer dizer: longo espa\u00e7o de tempo, idade, \u00e9poca. Do ponto de vista liter\u00e1rio indica, portanto, uma \u00e9poca de meio. Esta \u201cIdade do Meio\u201d indica o per\u00edodo entre a antiguidade e o seu tempo, uma n\u00e3o-antiguidade em meio a duas \u00e9pocas, com uma caracter\u00edstica exclusiva: uma particular vis\u00e3o de mundo ancorada no transcendente, capaz de impregnar em profundidade cada extrato social (4).<\/p>\n<p>A historiografia tamb\u00e9m situa a \u201cmedia aetas\u201d entre o per\u00edodo que vai da morte do Imperador Constantino (306-337) at\u00e9 o saque de Constantinopla pelos turcos (1453); ou da \u00e9poca do feudalismo at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789). Hoje, aceita-se mais seguramente o espa\u00e7o hist\u00f3rico da Queda do Imp\u00e9rio do Ocidente (476) at\u00e9 a\u00a0descoberta da Am\u00e9rica (1492), isto se pensarmos numa delimita\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica. (5)<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00f3s queremos entender aqui a Idade do Meio como uma idade nuclear, isto \u00e9, um per\u00edodo onde a humanidade viveu um MEIO, um ESSENCIAL, uma RAIZ, uma IDENTIDADE. E foi justamente Francisco quem melhor captou este n\u00facleo da humanidade.<\/p>\n<p>Para compreender a inspira\u00e7\u00e3o franciscana \u00e9 preciso ter bem claro o significado desta \u00e9poca. Ao viver intensamente seu momento hist\u00f3rico, Francisco o transformou de simples hist\u00f3ria em hist\u00f3ria espiritual. Como diz Herm\u00f3genes Harada: \u201cTodas as \u00e9pocas e per\u00edodos da humanidade possuem suas superf\u00edcies e seus subterr\u00e2neos profundos. Francisco, n\u00e3o ficou na superf\u00edcie, mas foi \u00e0 raiz, ao centro energ\u00e9tico de tudo, e a\u00ed captou todas as suas for\u00e7as. Existe um per\u00edodo hoje: permanecermos na superficialidade e n\u00e3o sermos capazes de captar as energias que brotam do subterr\u00e2neo da nossa atualidade\u201d.<\/p>\n<p>Francisco, porque viveu bem o particular de sua \u00e9poca, torna-se universal, e \u201ccontinua a provocar interesse e ocasi\u00f5es celebrativas\u201d (6) No concreto de sua hist\u00f3ria ele vive o N\u00facleo Absoluto, a ess\u00eancia do humano e do divino, por isso desperta uma atra\u00e7\u00e3o, \u00e9 amado e estudado, \u201cse escrevem bibliotecas inteiras\u201d (7), mas nele haver\u00e1 sempre algo para se descobrir: \u201cFrancisco n\u00e3o necessita de bi\u00f3grafos. Estes disp\u00f5em de sete s\u00e9culos, e nenhum deles ainda soube penetrar plenamente o\u00a0segredo da sua personalidade. Mas \u00e9 verdade o contr\u00e1rio: Os bi\u00f3grafos precisam de Francisco! Cada gera\u00e7\u00e3o sente a necessidade de fornecer a \u201csua\u201d vers\u00e3o do \u201cseu\u201d Francisco, de interrogar-se sobre o que ele tem a dizer-lhe\u201d (8).<\/p>\n<p>A precis\u00e3o e a dist\u00e2ncia cronol\u00f3gica n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias quando se faz o confronto com um homem assim, \u201cem quem \u00e9 imersa, de modo excepcional, a natureza humana nos seus impulsos constitutivos, na densidade ontol\u00f3gica, nas formas existenciais in\u00e9ditas, mas que, no encontro com a realidade, \u00e9 constrita a re-explicar-se em tempo prop\u00edcio\u201d (9)<\/p>\n<p>Francisco atravessa o tempo sempre sugerindo, sempre sendo um p\u00f3lo de atra\u00e7\u00e3o. Como diz E. Balducci: \u201cDesejaria conduzir os leitores a reconhecerem em Francisco aquele excesso de humanidade que, quando aparece, vem acolhida com admira\u00e7\u00e3o, entre as pretens\u00f5es do homem hist\u00f3rico, e que hoje tem diante de si condi\u00e7\u00f5es aptas para fornecer-lhe carne e sangue. Sendo assim, o fen\u00f4meno Francisco sai do \u00e2mbito especializado da hagiografia e entra naquele da antropologia, sai do espa\u00e7o sagrado e entra no espa\u00e7o leigo\u201d (10)<\/p>\n<p>Na diversidade da sociedade medieval, entre nobres, mendicantes, guerreiros, camponeses, monges, jograis, ricos e pobres, existe um modelo de Homem? A resposta \u00e9 afirmativa. Poucas \u00e9pocas da hist\u00f3ria tiveram, como este per\u00edodo, \u201ca convic\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia universal e eterna de um modelo humano\u201d (11).<\/p>\n<p>A busca deste modelo est\u00e1 presente na interroga\u00e7\u00e3o de Frei Masseo: \u201cPor que a ti, por que a ti, por que a ti?\u201d( I Fioretti, 10).<\/p>\n<p>Neste mundo que se torna sempre mais o da exclus\u00e3o, marcada pela legisla\u00e7\u00e3o dos Conc\u00edlios, decretos, do direito Can\u00f4nico e pela pr\u00e1tica, exclus\u00e3o dos judeus, dos leprosos, dos hereges, dos homossexuais, onde a Escol\u00e1stica exalta a natureza abstrata e ignora o universo concreto, Francisco proclama, sem o menor ran\u00e7o de pante\u00edsmo, a presen\u00e7a divina em todas as criaturas. Entre o mundo mon\u00e1stico banhado em l\u00e1grimas e a massa dos despreocupados mergulhados em ilus\u00f3ria euforia, ele prop\u00f5e o rosto alegre e sereno daquele que sabe o que \u00e9 realmente uma serenidade existencial. \u201c\u00c9 o contempor\u00e2neo dos sorrisos g\u00f3ticos\u201d (12).<\/p>\n<p><strong>2. A Religi\u00e3o como modelo<\/strong><br \/>\nNesta sociedade, dominada pela religi\u00e3o, o modelo que aparecia do humano vinha sempre definido a partir\u00a0da religi\u00e3o, e, \u201cem primeiro lugar, pela mais alta\u00a0express\u00e3o da ci\u00eancia religiosa: a teologia\u201d. (13) O Homem era conhecido a partir da sua capacidade de crer e participar de uma estrutura de inspira\u00e7\u00e3o eclesial. Eram poucos os que negavam a\u00a0Deus, embora n\u00e3o se possa ignorar as rea\u00e7\u00f5es anticlericais, as contesta\u00e7\u00f5es doutrinais existentes. Sabatier afirma: \u201cOs conservadores de nosso tempo, que se voltam para o s\u00e9culo XIII como a\u00a0idade de ouro da f\u00e9 imposta, cometem um estranho engano. Se \u00e9 o s\u00e9culo dos santos por excel\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m aquele dos her\u00e9ticos\u201d(14)<\/p>\n<p>Religi\u00e3o era uma palavra forte e significativa. Francisco mesmo a tomou como um lugar existencial. Podemos encontr\u00e1-la em in\u00fameras cita\u00e7\u00f5es das Fontes Franciscanas, por exemplo: \u201cEsta \u00e9 a santa Ordem dos Frades Menores, a maravilhosa Religi\u00e3o de homens apost\u00f3licos, digna de ser imitada\u201d. (15)<\/p>\n<p>Estar dentro de uma estrutura religiosa, para o medieval, era moldar um comportamento. Entra-se numa organiza\u00e7\u00e3o para trabalhar um modo de ser. \u00c9 definir bem o lugar do encontro. \u00c9 n\u00e3o perder a pr\u00f3pria identidade e n\u00e3o ter dificuldades com certos esquemas tais como: superior, s\u00fadito, servo, obedi\u00eancia etc. Entrava-se ali para fazer uma experi\u00eancia e testar uma coer\u00eancia de vida. A organiza\u00e7\u00e3o era respeitada como vontade de Deus e esta falava nos princ\u00edpios her\u00e1rquicos. O medievalista L\u00ea Goff diz que \u201csob o plano social e pol\u00edtico, o homem medieval obedecia superiores, cl\u00e9rigos, reis, senhores, chefes municipais. Sob o aspecto intelectual, mental, religioso, obedecia tudo o que o cristianismo hist\u00f3rico lhe impunha: B\u00edblia, os Padres da Igreja, os Mestres&#8230;\u201d(16) A autoridade tinha um valor abstrato e superior. A grande virtude exigida tinha bases religiosas e chamava-se: obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Francisco integrou-se neste espa\u00e7o cultural e estrutural de regras, votos e fidelidade e at\u00e9 priva\u00e7\u00f5es, para submeter-se e cumprir o que havia prometido.<\/p>\n<p><strong>3. A luta entre o bem e o mal<\/strong><br \/>\nO medieval n\u00e3o foi um personagem tranq\u00fcilo. Estava sempre em luta, numa luta que ia al\u00e9m das suas possibilidades; luta entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Dem\u00f4nio. Por isso mesmo n\u00e3o se acomoda, est\u00e1 sempre em estado de batalha. \u00c9 preciso limpar dentro de si e na vida aquilo que n\u00e3o \u00e9 bom, \u00e9 necess\u00e1rio chegar a uma retid\u00e3o de vida. N\u00e3o adianta lutar por uma ordem externa se o interior n\u00e3o tiver conquistado a pr\u00f3pria harmonia. Com isto podemos entender por que nesta fase da hist\u00f3ria florescem os ascetas, monges e penitentes.<\/p>\n<p>Ao eliminar os v\u00edcios se nasce para uma postura mais nobre, mais livre, mais digna e muito mais transparente. Esta realidade encontramos no testemunho dos textos franciscanos, num modo muito simples de mostrar como a comunidade primitiva franciscana, vencendo \u201ceste g\u00eanero de esp\u00edritos malignos\u201d(RnB 3,1), ia\u00a0firmando a sua vida num ideal muito grande. Superar\u00a0tenta\u00e7\u00f5es, pecados, dem\u00f4nios&#8230; pertence ao caminho da\u00a0perfei\u00e7\u00e3o, \u00e9 um processo de ir aparando arestas: \u201cTodos os irm\u00e3os se ocupem ardorosamente em trabalhos honestos, pois est\u00e1 escrito: Entret\u00e9m-te sempre nalgum bom trabalho, para que o dem\u00f4nio te encontre ocupado\u201d (RnB 7,10) .<\/p>\n<p><strong>4. O \u201cHomo Viator\u201d<\/strong><br \/>\nOutra caracter\u00edstica do medieval \u00e9 aquela de sentir-se um viandante, um peregrino, sempre a caminho, sempre em viagem neste mundo, na sua vida, no seu espa\u00e7o, no seu tempo. \u00c9 o \u201cHomo viator\u201d que procura o seu destino de vida e de morte e vai andando, segundo suas escolhas, rumo \u00e0 eternidade. Le Goff nos lembra que na paisagem medieval \u201cparadoxalmente at\u00e9 o monge caminha, ele que, ligado por voca\u00e7\u00e3o \u00e0 clausura, vai frequentemente pelas estradas. No s\u00e9culo XIII, os frades da Ordem dos Mendicantes, com Francisco \u00e0\u00a0frente, estavam sempre \u201cin via\u201d, na estrada, como nos seus conventos\u201d (17)<\/p>\n<p>O medieval \u00e9 um peregrino por excel\u00eancia, por voca\u00e7\u00e3o, por ess\u00eancia, por risco. Os tr\u00eas lugares mais importantes de peregrina\u00e7\u00e3o eram: Jerusal\u00e9m, Roma e Santiago de Compostela, sem contar os outros in\u00fameros santu\u00e1rios. Cada ser humano era um peregrino em potencial com toda a sua riqueza simb\u00f3lica. A estrada torna-se lugar para medir a estabilidade, a moral, a salva\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito errante, mission\u00e1rio, vagabundo. (18)<\/p>\n<p><strong>5. A Penit\u00eancia: Um Caminho para eliminar os excessos<\/strong><br \/>\nPara Francisco e seus primeiros companheiros a penit\u00eancia \u00e9 uma carta de identidade porque est\u00e1 integrada num projeto de vida: eliminar o pr\u00f3prio ego\u00edsmo para deixar transparecer o Senhor, como ele mesmo diz no Testamento de 1226:\u00a0\u201cFoi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penit\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Desta frase do Testamento podemos ver que penit\u00eancia significa aquela reviravolta que leva o homem \u201cde uma vida instintiva centrada sobre o seu pr\u00f3prio eu, para uma vida inteiramente sujeita e abandonada \u00e0 vontade e senhoria de Deus\u201d(19)<\/p>\n<p>Para o frade primitivo ser penitente \u00e9 sair do mundo secular e entrar mais no espa\u00e7o do divino, individualmente ou dentro de um grupo:<\/p>\n<p>\u201cDiziam: \u2018De onde sois?\u201d Ou ent\u00e3o: \u2018A que Ordem pertenceis?\u2019 E eles respondiam com simplicidade: \u201cSomos penitentes e viemos da cidade de Assis\u2019\u201d(3Comp 37)<\/p>\n<p>Com um modo original os frades primitivos se integravam na concep\u00e7\u00e3o penitente da \u00e9poca: engajar todo o seu pr\u00f3prio ser, canalizar o sentimento, exercitar a vontade.<\/p>\n<p>O fazer penit\u00eancia est\u00e1 no cerne do ideal de Francisco, no seu pensamento, na sua a\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s da penit\u00eancia molda a sua exist\u00eancia para entreg\u00e1-la totalmente ao Senhor. (20)<\/p>\n<p><strong>6. O \u201cSanto Prop\u00f3sito\u201d<\/strong><br \/>\nO esp\u00edrito de aventura, um sonho movente, um impulso, um ainda n\u00e3o-ser mas querer-ser, querer dar o melhor de si, ia criando um vigor pr\u00f3prio:<\/p>\n<p>\u201cO que pensais de mim? Ainda serei venerado pelo mundo inteiro!\u201d(3Comp 2,4)<br \/>\n\u201cSei que hei de me tornar um grande pr\u00edncipe\u201d (Idem, 2,5).<\/p>\n<p>\u201cDissestes a verdade, eu estava pensando em escolher uma esposa, a mais nobre, a mais rica e a mais bela que jamais vistes\u201d (Idem, 2,7)<\/p>\n<p>Assim viveu\u00a0Francisco, como os her\u00f3is dos romances cavaleirescos, imaginando, avan\u00e7ando a olhar apenas em frente, imerso em pensamentos profundos, confiando nos sonhos, abandonando-se \u00e0 Provid\u00eancia, \u201candando sem ter pra onde, mas sabendo um porqu\u00ea\u201d(21)<\/p>\n<p>Quem parte para a conquista quer encontrar e provar alguma coisa: a si mesmo, seu valor, seu destino. Por isso consegue dialogar com o mais profundo, entrar numa esp\u00e9cie de transe, tentar decifrar o n\u00facleo, o enigma escondido. Esta busca se transforma numa conquista superior. \u00c9 a procura do Santo Graal. O Santo Prop\u00f3sito. A verdade transformadora de Francisco \u00e9 o modo como ele acreditava apaixonadamente no seu projeto.<\/p>\n<p><strong>7. A \u201cFloresta dos s\u00edmbolos\u201d<\/strong><br \/>\nO medieval est\u00e1 sempre empenhado em decifrar. Gosta do simb\u00f3lico e nele vive imerso. O s\u00edmbolo est\u00e1\u00a0presente na arquitetura eclesial, nas cerim\u00f4nias, nas\u00a0formalidades pol\u00edticas, nas bandeiras e estandartes, nos emblemas, nas armas, nas legendas, em todas as alegorias.<\/p>\n<p>Este aspecto \u00e9 sempre direcionado para o espiritual, nada pode destru\u00ed-lo porque se orienta para a luz. Faz parte deste n\u00facleo humano e lhe abre tantas portas de compreens\u00e3o. Esta \u00e9 a diferen\u00e7a entre o medieval e o moderno. N\u00f3s, hoje, pela displic\u00eancia quanto ao valor simb\u00f3lico das coisas, esvaziamos e mecanizamos o sentido de tudo. Naquele tempo o s\u00edmbolo conferia, mesmo \u00e0s palavras, um fervor todo especial, contemplativo, desvelado (22).<\/p>\n<p>Com esta vis\u00e3o do Homem vai vivendo a sua tens\u00e3o, sobretudo as duas tens\u00f5es fundamentais: f\u00e9 e a realidade do mundo, a iman\u00eancia e a transcend\u00eancia. Francisco viveu isto em sua carne e esp\u00edrito e inculcou esta tens\u00e3o em seus frades, e de um modo quase exclusivo e transcendente. Esta era a sua \u201cWeltanschauung\u201d, a alegoria da realidade mundana, transit\u00f3ria\u00a0e caduca, suspensa entre o nada e a nova realidade escatol\u00f3gica. Esta \u00e9 a express\u00e3o simples e genu\u00edna da esperan\u00e7a franciscana (23).<\/p>\n<p><strong>8. A nobreza de costumes<\/strong><br \/>\nNa viv\u00eancia medieval e, de um modo espec\u00edfico, no ideal cavaleiresco, destaca-se a nobreza. O que \u00e9 ser nobre? Por que dizemos que ser nobre foi uma t\u00f4nica e uma procura durante a juventude de Francisco?<\/p>\n<p>A Legenda dos Tr\u00eas Companheiros mostra de um modo preciso a naturalidade nobre de Francisco: \u201cAs virtudes naturais foram os degraus de que a gra\u00e7a divina se serviu para o elevar a ideais mais nobres\u201d (3Comp 3,3).<\/p>\n<p>A alegre, mas n\u00e3o decadente juventude de Francisco, foi o prel\u00fadio natural de um ideal maior, de prop\u00f3sito sobrenatural que vai emergindo com muita espontaneidade e dedica\u00e7\u00e3o. Uma lideran\u00e7a carism\u00e1tica, uma jovial fraternidade, um modo de amar apaixonado, uma nobreza de sentimentos, s\u00e3o marcas deste per\u00edodo de sua vida (24).<\/p>\n<p>Falamos de nobreza de costumes. O que isto significa? \u00c9 um termo que quer mostrar algo mais do que uma simples heran\u00e7a, um t\u00edtulo, uma tradi\u00e7\u00e3o familiar do assim chamado padr\u00e3o de sangue azul.<\/p>\n<p>Quando se fala de nobre, neste contexto, quer se revelar uma identidade n\u00e3o jur\u00eddica, mas existencial, um modo de ser daquele que tem postura nobre, daquele que \u00e9 naturalmente nobre.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um humano qualquer, um humano que se encontra com o banal. \u00c9 algo muito mais forte, mais vigoroso. \u00c9 aquele que possui um projeto de vida e o persegue com todas as suas for\u00e7as. Quem tem um projeto de vida muito concreto sempre tem algo para transmitir, possui um atra\u00e7\u00e3o muito especial, revela este humano nobre. Afirma Delort: \u201cO nobre se distingue dos outros por um g\u00eanero de vida, por uma mentalidade toda particular, por saber morar, saber vestir, saber exprimir um sentimento, por acreditar em la\u00e7os edificantes, por inspirar-se em her\u00f3is e ter um modelo de vida, por saber ocupar-se, pelo esp\u00edrito de combate\u201d (25).<\/p>\n<p>Ser nobre \u00e9 dar um sentido a tudo o que se faz. \u00c9 n\u00e3o gastar e desgastar a vida por pouca coisa, \u00e9 ter uma medida de grandeza. \u201cA grandeza de uma \u00e9poca depende da quantidade de pessoas capazes de sacrif\u00edcios qualquer que seja o objeto destes sacrif\u00edcios&#8230; Dedica\u00e7\u00e3o \u00e9 sua palavra de ordem! Dedica\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o apenas garantia de um soldo seguro. Com que coisa come\u00e7a a grandeza? Com a empenhada entrega a uma causa&#8230; a grandeza \u00e9 uma liga\u00e7\u00e3o entre um determinado esp\u00edrito e uma determinada vontade\u201d (26)<\/p>\n<p>Ser nobre \u00e9 ter uma ambi\u00e7\u00e3o sadia. N\u00e3o \u00e9 uma vontade ego\u00edsta, por\u00e9m \u00e9 uma vontade que visa uma plenitude. Se quer ser, tem que ser o melhor! O entusiasmo aparece como uma for\u00e7a, como um sonho, um impulso. \u00c9 um fen\u00f4meno sonhar, querer, buscar! Isto caracteriza a nobreza de Francisco: este impulso interno para algo que vale a pena viver, algo em que vale a pena investir. \u00c9 t\u00e3o convicto de seu sonho, de seu ideal, que n\u00e3o se sente ofendido quando um companheiro de pris\u00e3o o considera louco. Mesmo nesta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o perde a sua postura de nobre. Ser nobre \u00e9 ser transparente, sereno, n\u00e3o agressivo, ser cada vez mais n\u00edtido e seguro naquilo que se quer.<\/p>\n<p><strong>9. O ser disc\u00edpulo<\/strong><br \/>\nO disc\u00edpulo \u00e9 aquele que est\u00e1 no movimento de refazer o Mestre, \u00e9 aquele que, diante do Mestre, est\u00e1 sempre disposto ao aprendizado. Copia n\u00e3o para multiplicar, mas para descobrir a originalidade \u00fanica do Mestre:<\/p>\n<p>\u201cIrm\u00e3o, prometi fazer tudo o que fizeres, por conseguinte, conv\u00e9m que me conforme em tudo contigo\u201d (Sp 57).<\/p>\n<p>Todo o caminho de Francisco foi um engajamento em causas nobres. Re\u00fane mais do que qualquer outra figura na hist\u00f3ria espiritual, porque soube expressar interioridade e humildade, uma ind\u00f4mita energia de querer seguir, uma her\u00f3ica pot\u00eancia de a\u00e7\u00e3o, necess\u00e1ria para completar o humano e um des\u00edgnio que vai al\u00e9m do humano (27).<\/p>\n<p>O engajamento numa grande causa \u00e9 que chamamos de discipulado. No cora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia do Grande Outro fazer a pr\u00f3pria experi\u00eancia. \u00c9 o colocar-se aos p\u00e9s de um mestre e predispor-se a acolher aquilo que \u00e9\u00a0digno de alimentar uma vida.<\/p>\n<p>Ilustremos isto com um texto de Facchinetti: \u201cOs amigos ideais entre os companheiros de apostolado de Francisco, encontramos naqueles frades devotos que o seguiam, disc\u00edpulos fi\u00e9is e admiradores do Mestre. Recolhiam-se com ele na solid\u00e3o dos ermos e das florestas, compreendiam-se perfeitamente em esp\u00edrito, imitivam generosamente seus exemplos, viviam a sua\u00a0mesma vida de extrema pobreza, com ardor ser\u00e1fico, com simplicidade profunda, em ora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e austera\u00a0penit\u00eancia, numa fraternidade rec\u00edproca, em perfeita alegria, o seu esfor\u00e7o incessante era imitar e chegar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o segundo os vest\u00edgios do Pai Ser\u00e1fico, e procurando reproduzir, neles mesmos, o mais fielmente poss\u00edvel, as virtudes do seu Grande Guia Espiritual\u201d (28)<\/p>\n<p>N\u00e3o era apenas um seguir como estar fisicamente junto, mas era repetir em sua vida o modelo e a experi\u00eancia de seu mestre e senhor. Imitar \u00e9 m\u00e9todo, \u00e9 aceitar o convite de fazer e refazer junto e exercitar-se naquilo que o Mestre exige&#8230;<\/p>\n<p><strong>10. Francisco e as criaturas<\/strong><br \/>\nTodos conhecemos o C\u00e2ntico do Sol de Francisco de Assis, um marco e s\u00edmbolo da sua rela\u00e7\u00e3o m\u00edstica com o cosmos e a reabilita\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. Neste C\u00e2ntico celebra a fraternidade c\u00f3smica da cria\u00e7\u00e3o, e novamente, com sua agu\u00e7ada sensibilidade, nos lega mais uma j\u00f3ia da poesia religiosa popular. Um momento po\u00e9tico de rara inspira\u00e7\u00e3o! \u00c9 um canto que brota da felicidade, da felicidade de amar, de ver, de sofrer, da capacidade de perdoar. Neste C\u00e2ntico, Francisco mostra-se de um modo muito aut\u00eantico, \u00e9 muito dispon\u00edvel em desvelar o seu ser.<\/p>\n<p>\u00c9 a express\u00e3o direta e imediata de louvor ao Senhor atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o da realidade criatural. Nele aparece Francisco que se inebria de seu Senhor, deixa-se iluminar por ele, deixa-se cuidar. Canto de maravilha e encantamento!<\/p>\n<p>\u00c9 o hino de quem caminha, de quem \u00e9 peregrino que passa e v\u00ea, extasia-se mas n\u00e3o toma posse. \u00c9 o cavaleiro b\u00eabado de s\u00edmbolos e de mitos! \u00c9 o trovador que sente a limita\u00e7\u00e3o de suas palavras, e, na impossibilidade\u00a0de dizer, convoca todo o cosmos&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 o canto do servo que se reconhece quase um nada diante da Grandeza de seu Senhor, por isso torna-se submisso, humilde, consang\u00fc\u00edneo de todo o ser criado&#8230;<\/p>\n<p><strong>11. A cortesia como virtude: nobreza de atitudes<\/strong><br \/>\nFalemos da cortesia&#8230; Quem viveu a realidade e a fantasia das legendas cavaleirescas conhece o reino da cortesia. \u00c9 muito dif\u00edcil dar uma defini\u00e7\u00e3o exata da cortesia, pois \u00e9 todo um vasto mundo de significados.<\/p>\n<p>Diz o poeta: \u201cuso di corte, quando ne l\u00ea corti anticamente l\u00ea virtudi e li belli costumi su\u2019usavano\u201d (Dante, Conv\u00edvio, II, X, 8). Este \u00e9 o ponto de partida para a compreens\u00e3o: os costumes e usos da corte para se trabalhar a virtude. Isto compreende uma s\u00e9rie de valores: lealdade, generosidade, prodigalidade, fineza no trato, aten\u00e7\u00e3o devota \u00e0 pessoa do outro, g\u00eanio do gosto, comunidade dos que amam o belo.<\/p>\n<p>Os trovadores iam de castelo em castelo cantando o amor-cort\u00eas. Os cavaleiros andavam na sua busca\u00a0influenciados por este modo de viver. Francisco certamente ouviu demais falar desta virtude bastante presente nas gestas dos paladinos, nos romances do ciclo do Rei Artur, nos contos narrados por sua m\u00e3e. A cortesia entra na sua m\u00edstica: \u201cMansid\u00e3o, gentileza, paci\u00eancia, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassa seus recursos, eram sinais de sua natureza privilegiada que anunciavam j\u00e1 uma efus\u00e3o mais abundante ainda da gra\u00e7a divina neles\u201d( LM, 11)<\/p>\n<p>Este\u00a0texto \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201csem\u00e2ntica da cortesia\u201d, que vai preparando um quadro de objetiva disponibilidade para a santifica\u00e7\u00e3o. Francisco era cort\u00eas por natureza; isto fazia com que estivesse sempre preocupado pelos direitos dos outros, repartindo tranq\u00fcilidade e alegria.<\/p>\n<p>Suas atitudes causavam grande impacto num tempo cheio de \u00f3dio, lutas e cobi\u00e7a. Mesmo ali mandava a lei do mais poderoso e competitivo. Neste contexto ele apresenta uma proposta nova de relacionamento mais pr\u00e1tico. A cortesia dos nobres estava presente nas can\u00e7\u00f5es e id\u00e9ias, a de Francisco era imediata e desinteressada.<\/p>\n<p>Francisco tinha sonhado repetir as empresas de Carlos Magno e Artur; depois da convers\u00e3o n\u00e3o renega aqueles que foram os seus ideais de juventude e, com muita sensibilidade, soube colher os aspectos mais nobres da cavalaria para fixar-lhes uma nova ordem, em que o perd\u00e3o substitui a vingan\u00e7a, o amor substitui o \u00f3dio, o esp\u00edrito de dedica\u00e7\u00e3o o orgulho, a sede de paz e de justi\u00e7a os saques e ac\u00famulos, a humildade substitui a opress\u00e3o do comando (29).<\/p>\n<p>Em Francisco, a cortesia n\u00e3o \u00e9 uma etiqueta, uma norma de civilidade social, mas \u00e9 a express\u00e3o insubordin\u00e1vel e inevit\u00e1vel de seu sentimento interior: \u00e9 o modo como o outro deve ser amado de um modo verdadeiro. \u00c9 um relacionamento de respeito, retid\u00e3o e sinceridade.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><br \/>\nNo modelo de Francisco podemos ver a compreens\u00e3o franciscana do Homem; n\u00e3o sem certa dificuldade, porque o homem moderno, frio, calculista, c\u00e9tico&#8230; tem dificuldades em medir-se com o ardor e paix\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o, pobreza, do\u00e7ura e rudez de um modelo assim.\u00a0Mas existe o confronto, pois como diz Agostinho Gemelli: \u201cO homem de nosso tempo procura e encontra em Francisco algo de que tem sede\u201d.<\/p>\n<p>Para os que amam o seu lado natural e ecol\u00f3gico, ele \u00e9 um homem primitivo. Para os que amam a reflex\u00e3o, ele representa o fervor das palavras contra a aridez dos discursos. Para os de sensibilidade est\u00e9tica, ele\u00a0\u00e9 um jeito novo, um p\u00e3o caseiro. Para a Hist\u00f3ria e a M\u00edstica, ele \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel, um provocador espiritual e um sempre novo modo de conceber a vida.<\/p>\n<p>Termino citando um te\u00f3logo franciscano que nos recorda que: \u201cDiante de Francisco descobrimo-nos imperfeitos e velhos. Ele aparece como o novo e o futuro por todos buscado, embora tenha vivido h\u00e1 800 anos. Mas este sentimento \u00e9 sem amargura, pois sua mensagem encerra tanta do\u00e7ura que o med\u00edocre se sente convidado a ser bom, o bom a ser perfeito, e o perfeito a ser santo. Ningu\u00e9m fica imune \u00e0 sua convoca\u00e7\u00e3o vigorosa e ao mesmo tempo terna\u201d(30).<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(1) H.J. Stiker, Um cr\u00e9ateur em son temps: Fran\u00e7ois d\u2019Assise, CHR 80 (1973) 416-430<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(2) P. Sabatier, Vita di San Francesco d\u2019Assisi, Mil\u00e3o, Mondadori, 1978, 34<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(3) Ibidem<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(4) H. Fuhrmann, Guida al Medioevo, Bari, Laterza, 1989, 2-3<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(5) C. Ciranna, Riassunto di Storia Medievale, Roma, Ed. Ciranna, 1984, 3.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(6) F. Cardini, Francesco D\u2019Assisi, Mil\u00e3o, Mondadori, 1989, 24.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(7) Ibidem<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(8) Ibidem<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(9) E. Balducci, Francesco d\u2019Assisi, Floren\u00e7a, Ed. Cultura della Pace, 1989, 5.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(10) Ibidem<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(11) J. Le Goff, L\u2019Uomo Medievale, Roma-Bari, Laterza, 1983, 3<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(12) Id. Francisco de Assis entre as Inova\u00e7\u00f5es e a Morosidade do Mundo Feudal, Concilium 169 (1981) 14.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(13) J. L\u00ea Goff, L`Uomo Medievale, 3-4<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(14) P. Sabatier, Vita, 32.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(15) G. da Vitry, L\u2019Ordine e la Predicazione dei Frati Minori, FF, 2229.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(16) J. Le Goff, L\u2019Uomo Medievale, 37.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(17) Ibidem, 8<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(18) G. B. Ladner, Homo Viator: Medieval Ideas on Alienation and Order, Speculum 63 (1967) 235.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(19) K. Esser, Origini e Inizi del Movimento e dell\u2019Ordine Francescano, Mil\u00e3o, Jaca Book, 1975, 197<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(20) R. Pazzelli, San Francesco e il Terz\u2019Ordine. Il Movimento Penitenziale Pr\u00e9-francescano e francescano, P\u00e1dua, Ed. Messagero, 1982.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(21) F. Cardini, Francesco, 52<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(22) Sobre os s\u00edmbolos medievais, cf. M. M. Davy, Introduzione al Medioevo, Mil\u00e3o, Jaca Book, 1981; G. de Champeaux-S. Sterckx, I Simboli del Medio Evo, Mil\u00e3o, Jaca Book, 1981<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(23) S. Nicolosi, Medioevo Francescano, Roma, Borla,\u00a01983, 229-230.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(24)\u00a0F. D\u2019Anversa, L\u2019allegra giovenezza di San Francesco, IF, 4 (1926) 273.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(25)\u00a0R. Delort, La Vita quotidiana nel medioevo, Roma-Bari, Laterza, 1989, 144.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(26) Esta \u00e9 uma \u201cafirma\u00e7\u00e3o de Jacob Burckhardt, defendendo a grandeza do Mundo Medieval como a nossa \u201creal exist\u00eancia\u201d. Texto citado por H. Fuhrmann, Guida ao Medioevo, 24.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(27) A. Chiappelli, L\u2019Anima eroica di Frati Francesco e l\u2019Italia, RI (1927) 46.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(28) V. Facchinetti, San Francesco d&#8217;Assisi e l &#8216;amicizia cristiano, Quaracchi, 1923, 117.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(29) P. Anasagasti, La cortesia, prioridad del Pobrecillo, CF, 22 (1988) 36-42<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">(30) L. Boff, S\u00e3o Francisco de Assis: Ternura e Vigor, Petr\u00f3polis, Vozes, 1981, 181.<\/span><\/p>\n<p><strong>Este artigo foi publicado na \u201cRevista Grande Sinal\u201d, publica\u00e7\u00e3o da Editora Vozes da Prov\u00edncia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o do Brasil,\u00a0em 1991.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Vitorio Mazzuco<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":184699,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[203],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A Compreens\u00e3o Franciscana do Homem - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-compreensao-franciscana-do-homem\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Compreens\u00e3o Franciscana do Homem - 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