{"id":23847,"date":"2007-10-05T11:53:03","date_gmt":"2007-10-05T14:53:03","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=23847"},"modified":"2020-05-26T08:46:09","modified_gmt":"2020-05-26T11:46:09","slug":"uma-vida-sob-o-signo-da-travessia-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/uma-vida-sob-o-signo-da-travessia-pascal\/","title":{"rendered":"Uma vida sob o signo da travessia pascal"},"content":{"rendered":"<p><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-23848\" title=\"3275_120912\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/3275_120912.jpg\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"781\" \/>Por Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM<\/strong><\/p>\n<p>A pluralidade das narrativas acerca da convers\u00e3o de Francisco nos remete \u00e0 peculiaridade de sua experi\u00eancia e, portanto, \u00e0 singularidade de sua pessoa. Quanto mais intensa, de fato, uma experi\u00eancia, tanto mais ela fomenta uma variedade incontida de express\u00f5es. Surpreende-nos, todavia, o <em>Poverello,<\/em> ao eleger, no ocaso de sua vida, o abra\u00e7o solid\u00e1rio e acolhedor do leproso como experi\u00eancia crucial de sua convers\u00e3o.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio judeu-crist\u00e3o, a lepra ocupa bem mais do que outras doen\u00e7as uma posi\u00e7\u00e3o de relevo. No Primeiro e no Segundo Testamentos descortinam-se, diante de nossos olhos, variadas cenas envolvendo pessoas acometidas por esta doen\u00e7a. A lepra que acomete Naam\u00e3, o S\u00edrio, \u00e9 a mesma que atinge tantas pessoas que Jesus encontra no curso de seu minist\u00e9rio p\u00fablico. Lepra que corr\u00f3i a carne e desfigura as fei\u00e7\u00f5es, tornando-se estigma da exclus\u00e3o e da morte.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, o tempo de Francisco \u00e9 caracterizado por profundas e significativas mudan\u00e7as e noto, portanto, como um per\u00edodo de grande instabilidade. A causar esta situa\u00e7\u00e3o de instabilidade n\u00e3o s\u00e3o apenas as cont\u00ednuas guerras; s\u00e3o tamb\u00e9m as doen\u00e7as antigas e novas ocasionadas pelo fluxo cont\u00ednuo de pessoas. O emergente com\u00e9rcio que vai se impondo gra\u00e7as ao progressivo esfacelamento do feudalismo provoca um significativo movimento migrat\u00f3rio. E com ele, al\u00e9m das t\u00e3o apreciadas especiarias, infestam a Europa, entre outros, ratos com suas pulgas hospedeiras dos germes da Peste Negra. Tamb\u00e9m as Cruzadas contribuem para o crescimento do fen\u00f4meno da migra\u00e7\u00e3o. Os gloriosos cruzados partem para o Oriente investidos de uma incumb\u00eancia messi\u00e2nica: defender os lugares santos e, assim, propagarem a Cristandade. No entanto, por onde passam, espalham lepra, s\u00edfilis e outras doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Em um estudo acurado sobre o surto de lepra na Idade M\u00e9dia, a pesquisadora e sanitarista estadunidense Jeanette Farrell, no seu A assustadora hist\u00f3ria das pestes e epidemias, lembra que, enquanto para os judeus a lepra implicava em impureza ritual, para os crist\u00e3os, ela se torna o estigma do pecado e da morte que pesa com gravidade sobre os ombros de seu portador. A tal prop\u00f3sito, ela menciona alguns exemplos que testemunham a exist\u00eancia de um ritual religioso de morte social destinado aos acometidos por esta enfermidade, ainda que n\u00e3o tivessem ainda morrido de fato. Segundo esse mesmo ritual, os leprosos eram queimados ou, em certos casos, enterrados vivos. Tais fatos se davam freq\u00fcentemente durante os reinados de Henrique II da Inglaterra (1154-1189), Filipe V da Fran\u00e7a (1285-1314) e de Eduardo I da Inglaterra (1272-1327).<\/p>\n<p>Como se pode ver, no tempo de Francisco, al\u00e9m de ser v\u00edtima do sofrimento f\u00edsico e moral, o leproso encarna a express\u00e3o cabal do pecado e, portanto, da condena\u00e7\u00e3o divina. Por esta raz\u00e3o, a atitude de acolhida e de solidariedade que Francisco assume para com ele deve ser interpretada n\u00e3o apenas como express\u00e3o de sua compaix\u00e3o humanit\u00e1ria. Ela encarna uma distinta maneira de se relacionar com o exclu\u00eddo e, conseq\u00fcentemente, com o mal e sua estigmatiza\u00e7\u00e3o religiosa, mediante o pecado.<\/p>\n<p>Em seu Testamento, Francisco n\u00e3o deixa d\u00favidas de que o encontro com o leproso constitui uma aut\u00eantica ruptura em sua vida. E esta ruptura foi radical a ponto de assinalar de maneira indel\u00e9vel sua vida a partir de ent\u00e3o. Esta experi\u00eancia crucial \u00e9 por ele mesmo descrita como \u201caquilo que parecia amargo se me converteu em do\u00e7ura de alma e de corpo\u201d (Testamento, 3a). O que nos deixa, contudo, perplexos, n\u00e3o \u00e9 tanto que ele tenha abra\u00e7ado o leproso e, mediante este gesto, se solidarizado com o pecador e o exclu\u00eddo, quando praticamente todos ostentavam raz\u00f5es, pretensamente leg\u00edtimas, para justificar o recha\u00e7o e a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O que mais chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que, abra\u00e7ando o leproso, ele se sente testemunha de um visceral processo de transforma\u00e7\u00e3o: o que antes lhe parecia amargo, lhe se converte em do\u00e7ura de alma e de corpo. Aqui se encontra propriamente o \u00e2mago da experi\u00eancia de Francisco que a torna um evento singular: a ousadia de abra\u00e7ar a morte, disposto a acordar nela as mais genu\u00ednas sementes de vida. Ou ainda, abra\u00e7ar a express\u00e3o personificada da exclus\u00e3o e do pecado como \u00fanico caminho poss\u00edvel de salva\u00e7\u00e3o. Pois assim como a aut\u00eantica vida s\u00f3 pode brotar de uma generosa aceita\u00e7\u00e3o da morte, assim tamb\u00e9m s\u00f3 o pecado acolhido com amor pode transmutar-se em salva\u00e7\u00e3o. E esta experi\u00eancia se torna decisiva, uma vez que ele mesmo atesta: \u201ce, depois, demorei s\u00f3 um pouco, e sa\u00ed do mundo\u201d (Testamento, 3b).<\/p>\n<p>Para n\u00f3s que manifestamos tamanha habilidade em dissecar as realidades, individuando-as uma a uma, para depois separ\u00e1-las chegando ao paroxismo de contrap\u00f4-las, esta li\u00e7\u00e3o se nos revela demasiadamente indigesta, por parecer-nos paradoxal e absurda. Julgamos que morte e vida se encontram nos extremos de nossa exist\u00eancia a ponto de n\u00e3o se tocarem sen\u00e3o no derradeiro e inevit\u00e1vel instante. Qual impostora, a morte estaria sempre \u00e0 espreita, para sequestrar de maneira sorrateira, embora agressiva, nossa vida. Por esta raz\u00e3o \u00e9 que buscamos construir nossa vida numa dist\u00e2ncia cada vez maior de toda e qualquer sombra de morte. Julgamos que a vida s\u00f3 pode vicejar desde que se afugente sempre mais a morte, esta figura assustadora com seus in\u00fameros e amea\u00e7adores tent\u00e1culos.<\/p>\n<p>O mesmo se diga com respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre salva\u00e7\u00e3o e pecado. Quanto mais longe do pecado, mais pr\u00f3ximo da salva\u00e7\u00e3o. Donde a compreens\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o como uma esp\u00e9cie de condi\u00e7\u00e3o paradis\u00edaca, ou de uma pureza ass\u00e9ptica e isenta de toda e qualquer contamina\u00e7\u00e3o, legitimadora de tantas ideologias discriminat\u00f3rias. Pois, imbu\u00eddos, muitas vezes, da necessidade de se ter que fugir do pecado, n\u00f3s nos surpreendemos justificando as mais sutis exclus\u00f5es daqueles que julgamos acometidos pelo pecado e, portanto, disseminadores do mesmo.<\/p>\n<p>Abra\u00e7ando a instabilidade de seu tempo at\u00e9 suas \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias, Francisco alcan\u00e7a uma peculiar intensidade em sua rela\u00e7\u00e3o para com cada pessoa, cada criatura e cada instante de vida. E a motiva\u00e7\u00e3o e for\u00e7a suficientes para n\u00e3o so\u00e7obrar em meio a esta \u00e1rdua travessia, Francisco as busca numa inser\u00e7\u00e3o cada vez profunda no mist\u00e9rio da vida, paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Deixando-se inspirar pelo Esp\u00edrito do Senhor Ressuscitado, Francisco persegue at\u00e9 o fim os passos de Jesus, estreitando cada vez mais seus la\u00e7os de comunh\u00e3o e de solidariedade para com Ele, numa fidelidade inaudita \u00e0 vontade do Pai.<\/p>\n<p>Segundo a express\u00e3o do ap\u00f3stolo, \u201cCristo resgatou-nos da maldi\u00e7\u00e3o da Lei, fazendo-se maldi\u00e7\u00e3o por n\u00f3s\u201d (Gl 3,13). A salva\u00e7\u00e3o que Jesus nos procurou mediante o mist\u00e9rio de sua vida, paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resume a alguma coisa que Ele nos tenha trazido de fora de nossa exist\u00eancia conturbada e assinalada pelo pecado. Ele viveu em tudo nossa condi\u00e7\u00e3o, reconstituindo os fios da trama de nossa exist\u00eancia, a partir de suas fibras mais \u00edntimas, reconciliando-nos mediante uma efic\u00e1cia sem precedentes, porque inusitada. Sorvendo at\u00e9 a \u00faltima gota nossa exist\u00eancia intrinsecamente contradit\u00f3ria e amb\u00edgua, Ele a sanou eficazmente, por amor e com amor, transformando o veneno de nossa perversidade em ant\u00eddoto contra o pecado.<\/p>\n<p>\u00c9 esta a raz\u00e3o pela qual o Apocalipse, que \u00e9 um aut\u00eantico grito de esperan\u00e7a em meio a situa\u00e7\u00f5es de persegui\u00e7\u00e3o e de morte, atribui a Cristo um dos t\u00edtulos mais significativos do inteiro corpo liter\u00e1rio do Segundo Testamento: \u201co Vivente por excel\u00eancia\u201d. Cristo n\u00e3o morre mais, porque a morte n\u00e3o representa mais amea\u00e7a alguma \u00c0quele que a assumiu com amor, virando-a pelo avesso, para dela poder extrair vida e vida plena para todos. De fato, s\u00f3 emergindo, de forma paradoxal, dos escombros mais amea\u00e7adores da morte \u00e9 que a vida pode se considerar como tal.<\/p>\n<p>Seguindo, portanto, as pegadas de Cristo para permanecer em comunh\u00e3o com Ele, Francisco assume a morte, com uma intensidade tal, a ponto de desarm\u00e1-la. Ele alcan\u00e7a esta proeza \u2013 transformar o que antes lhe parecia amargo em aut\u00eantica do\u00e7ura de alma e de corpo \u2013 gra\u00e7as a seu amor singelo e puro, aut\u00eantico e solid\u00e1rio, como o de Cristo. A peculiar ousadia com que o <em>Poverello<\/em> opera esta aut\u00eantica reconvers\u00e3o da morte em vida e do pecado em gra\u00e7a \u00e9, sem sombra de d\u00favida, a marca distintiva de seu processo de convers\u00e3o e, ao fim e ao cabo, o diferencial de sua singular\u00edssima experi\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Sinivaldo S. 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