{"id":194819,"date":"2024-07-03T11:52:12","date_gmt":"2024-07-03T14:52:12","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=194819"},"modified":"2024-07-11T09:56:12","modified_gmt":"2024-07-11T12:56:12","slug":"deus-o-quer-mas-e-francisco-os-franciscanos-e-a-pregacao-das-cruzadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/deus-o-quer-mas-e-francisco-os-franciscanos-e-a-pregacao-das-cruzadas\/","title":{"rendered":"&#8220;Deus o quer!&#8221;, mas&#8230; e Francisco? Os Franciscanos e a Prega\u00e7\u00e3o das cruzadas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-194820 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Untitled-3.webp\" alt=\"\" width=\"775\" height=\"437\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Untitled-3.webp 775w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Untitled-3-450x254.webp 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Untitled-3-768x433.webp 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Untitled-3-150x85.webp 150w\" sizes=\"(max-width: 775px) 100vw, 775px\" \/><br \/>\nFrei Sandro Roberto da Costa, OFM<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">1. Introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\n2. As cruzadas nos in\u00edcios da Ordem Franciscana<br \/>\n3. As cruzadas e os frades menores<br \/>\n4. Os franciscanos e a prega\u00e7\u00e3o<br \/>\nConclus\u00e3o<\/p>\n<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No ano de 1234 os ministros da Ordem dos Frades Menores e da Ordem dos Pregadores da Lombardia recebiam uma bula, determinando que fossem nomeados dois frades para a prega\u00e7\u00e3o da cruzada naquelas regi\u00f5es. No ano seguinte, no dia 30 de dezembro de 1235 era mandada uma bula a todos os arcebispos, bispos e prelados da Fran\u00e7a, anunciando a nomea\u00e7\u00e3o de frei Guilherme de la Cordelle, da Ordem dos Frades Menores, para pregar as cruzadas nos seus dom\u00ednios. Frei Guilherme deveria recolher os fundos necess\u00e1rios \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos ex\u00e9rcitos, al\u00e9m de receber os votos dos que se dispusessem a partir. Esses dois documentos marcam o in\u00edcio do envolvimento dos frades menores com o &#8220;negotium crucis&#8221;, as cruzadas.<br \/>\nNosso objetivo, na presente exposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 fazer uma hist\u00f3ria das cruzadas. Pretendemos, sob a chave de leitura da prega\u00e7\u00e3o de cruzadas pelos franciscanos, fazer uma averigua\u00e7\u00e3o do processo atrav\u00e9s do qual a Ordem, surgida num contexto de simplicidade, de &#8220;minoridade&#8221;, aos poucos vai assumindo cargos e of\u00edcios que parecem se contrapor aos princ\u00edpios sobre os quais a mesma tinha sido fundada. O fato de a Ordem se destacar, com v\u00e1rios nomes, no of\u00edcio da prega\u00e7\u00e3o de cruzadas, \u00e9 um dos fatores onde melhor aparece o seu poss\u00edvel &#8220;alinhamento&#8221; com o poder papal, com a C\u00faria romana. Como se chegou a esse alinhamento? Pode-se afirmar, como querem alguns historiadores, que ao assumir a defesa da C\u00faria papal, os franciscanos tra\u00edram o projeto de Francisco de Assis? Teria a C\u00faria papal cooptado a Ordem, de tal modo que, apenas alguns anos ap\u00f3s a morte do fundador, esta teria pouco do primitivo ideal? Numa \u00e9poca em que toda a cristandade era exortada veementemente a pegar em armas contra os &#8220;infi\u00e9is&#8221;, o &#8220;usurpador&#8221; da Terra Santa, Francisco de Assis foi ao Egito, tentar converter o sult\u00e3o, usando as armas do di\u00e1logo ao inv\u00e9s da viol\u00eancia. Como, em t\u00e3o pouco tempo (oito anos ap\u00f3s sua morte), seus seguidores recebem do pr\u00f3prio papa que tinha sido um dos maiores amigos de Francisco, o cardeal-protetor da Ordem, uma miss\u00e3o que parece trair os ideais de Francisco? \u00c9 o que pretendemos analisar nesta exposi\u00e7\u00e3o. Nos ocuparemos do per\u00edodo que cobre aproximadamente os 30 primeiros anos da Ordem franciscana, de 1210 a 1240.2<\/p>\n<p>2. As cruzadas nos in\u00edcios da Ordem Franciscana<\/p>\n<p>O apelo do papa Urbano II no conc\u00edlio de Clermont, em 1095, &#8220;Deus o quer!&#8221;, (Deus lo vult!) tinha sido amplamente ouvido. At\u00e9 os in\u00edcios do s\u00e9culo XIII, quatro expedi\u00e7\u00f5es armadas tinham se dirigido \u00e0s terras do Oriente, para combater os infi\u00e9is. A quarta cruzada atacou Constantinopla, deixando \u00e0s claras todo o jogo de interesses nada espirituais que motivavam os senhores da guerra. Apesar da deturpa\u00e7\u00e3o da ideia de cruzada, que acabou opondo crist\u00e3os a crist\u00e3os, Inoc\u00eancio III (1198-1216) acalentava o projeto de uma nova expedi\u00e7\u00e3o, e na abertura do IV conc\u00edlio do Latr\u00e3o externou seus sentimentos. Coube a seu sucessor Hon\u00f3rio III (1216-1227) levar em frente seu projeto. A quinta cruzada atacou o Egito, tomando a cidade de Damieta, em 1219. \u00c9 durante esta cruzada que acontece o encontro de Francisco com o sult\u00e3o.<br \/>\nCom a morte de Hon\u00f3rio, foi eleito Greg\u00f3rio IX (1227-1241). Em 1229 o imperador Frederico II estabeleceu uma tr\u00e9gua de 10 anos com o sult\u00e3o. Chegando ao fim desse per\u00edodo, a organiza\u00e7\u00e3o de uma nova cruzada se fazia urgente. Greg\u00f3rio IX mandou pregadores, a partir de 1235, para a Fran\u00e7a, e em 1239 partia a expedi\u00e7\u00e3o, de aproximadamente mil cavaleiros, sob o comando de Thibaud, rei de Navarra.<br \/>\nAl\u00e9m de todo o aspecto espiritual envolvido na ideia de cruzada, representado pela &#8220;peregrinatio&#8221; a Jerusal\u00e9m, pela penit\u00eancia e purifica\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias faltas, pela indulg\u00eancia, a cruzada desempenhava um importante papel pol\u00edtico na C\u00faria romana: al\u00e9m de ajudar a manter a disciplina e aplacar a viol\u00eancia que grassava pela europa, atrav\u00e9s do &#8220;voto&#8221; cruzado, as cruzadas eram um instrumento de confirma\u00e7\u00e3o da autoridade papal. As entradas oriundas das esmolas e d\u00e9cimas tamb\u00e9m n\u00e3o podiam ser ignoradas. Por estes e outros motivos, as cruzadas eram muito bem vistas pela pr\u00f3pria hierarquia papal: n\u00e3o \u00e9 por acaso que, entre os papas do s\u00e9culo XIII, v\u00e1rios vieram dos reinos latinos do al\u00e9m-mar, criados e defendidos (a duras-penas) pelos cruzados e pela Igreja: Tiago Pantale\u00e3o, Patriarca de Jerusal\u00e9m, em 1261 \u00e9 eleito papa, com o nome de Urbano IV; Tebaldo Visconti, arcidiacono de Liegi, participou da cruzada de Eduardo de Cornualha, e foi ainda na Terra Santa que recebeu a not\u00edcia de ter sido eleito papa, escolhendo o nome de Greg\u00f3rio X. Era de bom tom defender e incentivar as cruzadas. Opor-se a elas, ainda quando fracassavam, era um mal neg\u00f3cio. Basta ver que as maiores lideran\u00e7as da cristandade se envolveram, de um modo ou de outro, nas cruzadas: os reis da Fran\u00e7a, da Alemanha, da Inglaterra, da Hungria, al\u00e9m de nobres das mais altas estirpes europeias.<br \/>\nO IV Conc\u00edlio do Latr\u00e3o, em 1215, sob o comando de Inoc\u00eancio III (1198-1216), organizou a cruzada no s\u00e9culo XIII.5 Inoc\u00eancio refor\u00e7ou o suporte financeiro \u00e0s cruzadas: instituiu a reden\u00e7\u00e3o e a comuta\u00e7\u00e3o do voto cruzado, o direito de conseguir indulg\u00eancia parcial em troca de ajuda material, a coleta de dinheiro e taxas. Organizou tamb\u00e9m o apoio moral-espiritual aos cruzados da parte daqueles que ficavam e toda uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas lit\u00fargicas ligadas \u00e0 cruzada, atrav\u00e9s de ora\u00e7\u00f5es, prociss\u00f5es, e outras formas de intercess\u00e3o. N\u00e3o menos importante \u00e9 o aparato teol\u00f3gico que se criou, com te\u00f3logos, inclusive franciscanos, empenhando-se em justificar a &#8220;guerra justa&#8221;.6 Para Inoc\u00eancio III, a reorganiza\u00e7\u00e3o da cruzada fazia parte do programa muito mais amplo de reforma da Igreja. Tal mentalidade vai guiar os pont\u00edfices seus sucessores.<\/p>\n<p><strong>3. As cruzadas e os frades menores<\/strong><\/p>\n<p>Por que um cl\u00e9rigo tinha que pregar a cruzada? Antes de mais nada, porque era um evento &#8220;religioso&#8221;, uma &#8220;peregrina\u00e7\u00e3o&#8221;. A &#8220;propaganda&#8221;, atrav\u00e9s da prega\u00e7\u00e3o, foi no in\u00edcio confiada aos legados papais e ao clero local. Este nem sempre correspondeu: os bispos viviam envolvidos em quest\u00f5es pol\u00edticas locais, o clero secular nem sempre tinha o n\u00edvel intelectual exigido para a prega\u00e7\u00e3o; al\u00e9m do mais, ordens vindas de Roma eram recebidas como inger\u00eancia n\u00e3o devida nos neg\u00f3cios da Igreja local. Devido a esses contratempos, desde cedo a Igreja recorreu ao aux\u00edlio de pessoas especializadas na prega\u00e7\u00e3o, especialmente membros das ordens mon\u00e1sticas, muito pr\u00f3ximas do ambiente da C\u00faria papal. Basta lembrarmos a lend\u00e1ria figura de Bernardo de Claraval, pregador de grande impacto. O sucesso dos pregadores deixou claro que uma cruzada, para ter bom \u00eaxito, tanto quanto do n\u00famero de combatentes, dependia tamb\u00e9m da qualidade do pregador. Nas primeiras d\u00e9cadas de 1200, o papel desempenhado outrora pelas ordens mon\u00e1sticas, passa a ser exercido pelas ordens mendicantes.<br \/>\nA Ordem dos pregadores (dominicanos) e a Ordem dos frades menores (franciscanos) surgem com a expl\u00edcita miss\u00e3o de pregar o Evangelho. Espalhados em pouco tempo por toda a europa, com uma grande mobilidade, sem o impedimento da stabilitas loci, pr\u00f3pria dos monges, recebendo desde o in\u00edcio entre seus quadros pessoas de alt\u00edssimo n\u00edvel intelectual e moral, logo atraem a aten\u00e7\u00e3o da C\u00faria romana, que percebe o enorme potencial que se esconde entre aqueles cl\u00e9ricos aparentemente simples e humildes.<\/p>\n<p><strong>3.1 Os frades menores e a C\u00faria romana<\/strong><br \/>\nO Cardeal Hugolino de \u00d3stia, amigo de S\u00e3o Francisco, foi, a pedido deste, nomeado cardeal protetor da Ordem. Eleito papa com o nome de Greg\u00f3rio IX, Hugolino demonstra desde cedo sua confian\u00e7a nos frades menores, escolhendo entre eles v\u00e1rios de seus colaboradores diretos. Alguns foram escolhidos como capel\u00e3es e penitenci\u00e1rios da C\u00faria papal.10 A outros foram confiadas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas delicadas; foi-lhes confiada a inquisi\u00e7\u00e3o contra os hereges;11 aos poucos os frades come\u00e7am a ser escolhidos tamb\u00e9m para as dignidades eclesi\u00e1sticas mais altas: em 1241 frei Le\u00e3o de Perego foi nomeado arcebispo de Mil\u00e3o, e em 1248 frei Eudes Rigaud foi consagrado arcebispo de Rouen.12 Os capel\u00e3es e penitenci\u00e1rios viviam na C\u00faria romana; eram os colaboradores diretos e de confian\u00e7a do romano pont\u00edfice, desempenhando as mais variadas fun\u00e7\u00f5es, inclusive diplom\u00e1ticas, nas regi\u00f5es mais distantes.13 Os papas sabiam que podiam contar com os mendicantes.14 Entre as miss\u00f5es confiadas aos menores e aos dominicanos, estava a de pregadores das cruzadas.<\/p>\n<p><strong>3.2 Os pregadores de cruzadas<\/strong><br \/>\nO processo de nomea\u00e7\u00e3o de frades para pregar as cruzadas se inicia com Greg\u00f3rio IX. N\u00e3o apenas na prega\u00e7\u00e3o da cruzada &#8220;ultramarina&#8221;, mas tamb\u00e9m na &#8220;cismarina&#8221;, contra os hereges, no pr\u00f3prio continente. As bulas eram enviadas ao Ministro Geral ou aos provinciais, que nomeavam os pregadores e coletores de subs\u00eddios. As bulas continham instru\u00e7\u00f5es minuciosas sobre os poderes concedidos aos pregadores: conceder indulg\u00eancias e comutar os votos, dispensar de certas obriga\u00e7\u00f5es da Regra, como por exemplo a proibi\u00e7\u00e3o de andar a cavalo; ordenava de proteger aqueles que se alistassem nas cruzadas, permitia receber os proventos pecuni\u00e1rios, os dons volunt\u00e1rios, as taxas sobre os bens do clero, os legados testament\u00e1rios, as restitui\u00e7\u00f5es, etc. Tinham que prestar contas anualmente de sua gest\u00e3o, dos trabalhos e resultados obtidos. O dinheiro arrecadado deveria ser colocado em lugar seguro, em geral nos conventos dos frades.<br \/>\nPara a prega\u00e7\u00e3o da cruzada eram escolhidos religiosos que se destacavam pelos dotes orat\u00f3rios e intelectuais, conhecedores da doutrina que iriam pregar, al\u00e9m de comprovada conduta moral e religiosa. No que consistia a prega\u00e7\u00e3o? Era antes de mais nada uma prega\u00e7\u00e3o em nome de Deus, expressa por interm\u00e9dio do Papa, seu porta-voz: &#8220;Deus o quer!&#8221;, era o mote que se tornou famoso desde o conc\u00edlio de Clermont. Os pregadores iam de cidade em cidade, pregando, numa esp\u00e9cie de miss\u00e3o volante, dormindo nos mosteiros ou nos conventos da pr\u00f3pria Ordem, ou nos albergues. A prega\u00e7\u00e3o acontecia normalmente onde se reuniam multid\u00f5es: nas pra\u00e7as, nas feiras, nos torneios, nos dias de festas, nas igrejas. Era um of\u00edcio de comunica\u00e7\u00e3o, de propaganda, que deveria atingir o maior n\u00famero de pessoas.<\/p>\n<p><strong>3.2.1 Os frades pregadores de cruzadas: alguns nomes<\/strong><br \/>\nOs tr\u00eas primeiros religiosos das ordens mendicantes nomeados pregadores de cruzadas eram \u00edntimos do c\u00edrculo de amizade do papa Greg\u00f3rio IX. Todos eram penitenci\u00e1rios papais, e estiveram envolvidos em v\u00e1rias atividades diplom\u00e1ticas a servi\u00e7o do papado.15 O primeiro franciscano nomeado foi o franc\u00eas frei Guilherme de la Cordelle, nomeado por bula de 1235. Guilherme era um dos onze penitenci\u00e1rios de Greg\u00f3rio IX. Em 1236 foi o mediador num lit\u00edgio entre o rei Luis da Fran\u00e7a e o bispo de Beauvais. Em 1238 partiu para a cruzada guiada por Thibaud de Champagne. Esteve at\u00e9 1243 na Terra Santa, pregando aos cruzados.<br \/>\nOutro nome de destaque, bem mais conhecido, \u00e9 o do franc\u00eas frei Gilberto de Tournai.16 Nascido por volta de 1200, estudou em Paris, onde ensinou teologia at\u00e9 1240. Entre seus colegas de ensino estavam Boaventura de Bagnoregio, Alexandre de Halles, Giovanni de La Rochelle. Em 1240 resolveu entrar na Ordem franciscana. Existem d\u00favidas a respeito de uma sua suposta participa\u00e7\u00e3o na cruzada de 1248-1254, ao lado do rei Luis IX. Em 1259, \u00e9 mandado, por obedi\u00eancia, de volta a Paris, onde assume o cargo de mestre-regente do &#8220;studium&#8221; franciscano daquela cidade. Em 1270 ainda se encontrava ativo na Fran\u00e7a. Entre suas v\u00e1rias obras, algumas eruditas, encontramos tr\u00eas Serm\u00f5es aos Cruzados.17 Gilberto tamb\u00e9m escrevia serm\u00f5es para os pregadores de cruzadas.<br \/>\nNo contexto da prega\u00e7\u00e3o das cruzadas pelos frades menores, merece destaque o nome de frei Benedito de Alignano. Antes de seu ingresso na Ordem, este frade foi monge beneditino. Em 1224 era abade da Abadia de Nossa Senhora da la Grasse, em Aude (Fran\u00e7a). Em 1226 obteve \u00eaxito na negocia\u00e7\u00e3o pela rendi\u00e7\u00e3o dos habitantes de Carcassone ao rei Luis IX. Em 1228 foi nomeado bispo de Marselha, e provalvelmente pouco depois ingressou na Ordem franciscana. Esteve na Terra Santa em 1239 e em 1260. Morreu em 1268. Frei Benedito escreveu um tratado sobre a Sant\u00edssima Trindade, que ficou mais conhecido por causa de um cap\u00edtulo, onde trata das rela\u00e7\u00f5es dos crist\u00e3os com os mu\u00e7ulmanos. Neste cap\u00edtulo, o autor declara que &#8220;os absurdos deste Maom\u00e9, que fala \u00e0 maneira dos loucos e das bestas, n\u00e3o s\u00e3o dignos de debate, mas devem ser extirpados pelo fogo e pela espada&#8221;.18 Os argumentos do autor s\u00e3o tirados, em sua maioria, da teologia da \u00e9poca e da Sagrada Escritura. Benedito \u00e9 taxativo: o mu\u00e7ulmano deve ser eliminado, bem como os pag\u00e3os e hereges. A obra se caracteriza pela dureza de linguagem, ultrapassando o radicalismo de alguns te\u00f3logos, e da pr\u00f3pria C\u00faria romana. &#8220;Benedito deu a justifica\u00e7\u00e3o para o uso ilimitado da for\u00e7a nas cruzadas, e seu ideal de cruzada era definido primeiramente pela elimina\u00e7\u00e3o do Sarraceno, n\u00e3o pela defesa da cristandade contra o Isl\u00e3 ou pela prega\u00e7\u00e3o aos mu\u00e7ulmanos&#8221;.19 O tratado de frei Benedito teve larga difus\u00e3o no s\u00e9culo XIV no Oriente e na Europa Central, onde foi empregado no combate \u00e0 heresia Hussita.<br \/>\nO fato de a C\u00faria recorrer aos franciscanos para a propaganda das cruzadas encontra respaldo num elemento fundamental da Ordem: a prega\u00e7\u00e3o \u00e9 a miss\u00e3o por excel\u00eancia dos frades menores.<\/p>\n<p><strong>4. Os franciscanos e a prega\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nOs mestres de espiritualidade franciscana s\u00e3o concordes em afirmar que Francisco de Assis n\u00e3o fundou uma Ordem com uma finalidade espec\u00edfica. O objetivo dos frades era viver a vida evang\u00e9lica no mundo, como menores, seguindo &#8220;a pobreza e a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo&#8221;. Mas desde os in\u00edcios fica claro que a proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus \u00e9 a miss\u00e3o por excel\u00eancia dos frades menores.20 Se Francisco deixa claro que esta proclama\u00e7\u00e3o deve dar-se pelo exemplo, n\u00e3o exclui a possibilidade da prega\u00e7\u00e3o pela palavra. V\u00e1rias passagens de sua vida o atestam: quando ouve o texto do Evangelho de Mateus, em que Jesus envia seus disc\u00edpulos dois a dois, ele exclama: &#8220;\u00e9 isso que eu quero, \u00e9 isso que eu procuro, \u00e9 isso que eu desejo de todo o cora\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;.21 Quando o n\u00famero de irm\u00e3os chega a oito, Francisco, manda os frades dois a dois, para pregar.22 O papa Inoc\u00eancio III, quando confirma sua forma de vida, os envia como pregadores: &#8220;Ide irm\u00e3os&#8230; pregai a todos a penit\u00eancia&#8230;&#8221;.23 Pregar a &#8220;penit\u00eancia&#8221; (presente tamb\u00e9m em outros movimentos pauper\u00edsticos) era a prega\u00e7\u00e3o dos &#8220;v\u00edcios e das virtudes&#8221;, uma esp\u00e9cie de exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 convers\u00e3o, diferente da prega\u00e7\u00e3o com conte\u00fados doutrinais, reservada aos ministros ordenados.<br \/>\nSe nos seus in\u00edcios os membros da Ordem se enquadram neste tipo de prega\u00e7\u00e3o, de forte conte\u00fado \u00e9tico-religioso, com o passar dos anos, com o ingresso de sacerdotes, intelectuais e pessoas letradas, e com a expans\u00e3o para centros urbanos mais desenvolvidos, a prega\u00e7\u00e3o deixa de ser o an\u00fancio simples e direto da &#8220;boa-nova&#8221;, para se tornar prega\u00e7\u00e3o em sentido doutrinal, sofisticada, o que imp\u00f5e a necessidade do estudo da teologia. E isso exige o contato com os centros &#8220;escol\u00e1sticos&#8221; e universit\u00e1rios, que ent\u00e3o estavam se expandindo e se impondo em v\u00e1rias partes da europa.<br \/>\nO quadro social da Ordem franciscana, cerca de dez anos depois de sua aprova\u00e7\u00e3o por Roma, mostrava-se bem diferente dos in\u00edcios. Cada vez mais ingressavam na ordem homens envolvidos com o mundo dos estudos, das universidades. Este processo de &#8220;intelectualiza\u00e7\u00e3o&#8221; da Ordem vai exercer sua influ\u00eancia no modo como a mesma presta seus servi\u00e7os \u00e0 Igreja.24 O papado, atento ao seu desenvolvimento, bem cedo come\u00e7a a envolver os frades menores nas miss\u00f5es que envolvem &#8220;prega\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;an\u00fancio&#8221;.<\/p>\n<p><strong>4.1 O processo de &#8220;intelectualiza\u00e7\u00e3o&#8221; da Ordem<\/strong><br \/>\nNos in\u00edcios da Ordem, reuniram-se a Francisco n\u00e3o s\u00f3 companheiros origin\u00e1rios da nobreza, como Bernardo de Quintavale e Pedro Catani, mas tamb\u00e9m pobres trabalhadores e pequenos artes\u00e3os. J\u00e1 em 1212-1213, segundo indica Tom\u00e1s de Celano, entravam &#8220;alguns letrados e nobres&#8221;.26 Jacques de Vitry diz, em 1216, que entre os irm\u00e3os menores, entravam &#8220;muitos seculares ricos de ambos os sexos&#8221;; a diversidade social vai se alargando com o tempo. O cronista acena tamb\u00e9m ao ingresso de membros da C\u00faria papal27, de membros da hierarquia eclesi\u00e1stica que ocupam altos postos de comando.28 Tamb\u00e9m juristas, te\u00f3logos, e pessoas dos mais variados campos da cultura ingressam na Ordem logo nos primeiros anos, ap\u00f3s sua aprova\u00e7\u00e3o pelo papa.29 At\u00e9 1219-1220, intelectuais e simples artes\u00e3os convivem lado a lado, sem maiores diferen\u00e7as.<br \/>\n\u00c0 medida que vai ganhando notoriedade, e os frades v\u00e3o se infiltrando nas realidades urbanas, \u00e9 cada vez maior o n\u00famero de membros do clero secular e regular, artistas, expoentes da aristocracia, doutores, te\u00f3logos, expertos em direito, que entram na Ordem.30 Isso vai fazer com que, paulatinamente, a Ordem come\u00e7e a se desenvolver em um sentido n\u00e3o previsto por Francisco.<br \/>\nEm 1220, quando estava retornando do Egito, a situa\u00e7\u00e3o foge ao seu controle: as &#8220;novidades&#8221; repudiadas revelam as diverg\u00eancias existentes entre Francisco e os vig\u00e1rios no modo de entender o novo estilo de vida religiosa. Situa-se por essa \u00e9poca tamb\u00e9m o conflito de Bolonha, quando da constru\u00e7\u00e3o do primeiro edif\u00edcio est\u00e1vel para a Ordem.32<br \/>\nCome\u00e7am a entrar cada vez mais homens que pensam com a cabe\u00e7a em Roma, mais do que com a cabe\u00e7a em Assis. Aos poucos v\u00e3o prevalecer os que pensam com a cabe\u00e7a em Bolonha e em Paris. A partir de 1219-1220 forma-se um grupo dirigente onde sobressaem os mestres de direito e de teologia, que interpretam a presen\u00e7a dos menores na Igreja e na sociedade \u00e0 luz de uma cultura, que n\u00e3o era a de Francisco.33 Em 1230 este processo est\u00e1 mais ou menos consolidado: quando um grupo de frades vai ao papa pedir a explica\u00e7\u00e3o da Regra e sua rela\u00e7\u00e3o com o Testamento, n\u00e3o havia entre eles nenhum representante da primeira fraternidade, os mais pr\u00f3ximos a Francisco, e que poderiam talvez interpretar melhor as suas inten\u00e7\u00f5es expressas no Testamento. Ao contr\u00e1rio, a delega\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de irm\u00e3os letrados, de grandes capacidades Intelectuais e pastorais, como vai ficar claro no desenvolvimento posterior da Ordem.34<br \/>\nA delega\u00e7\u00e3o de 1230 marca o ponto de chegada de um processo. Neste processo de &#8220;intelectualiza\u00e7\u00e3o&#8221; desempenha um papel importante a proced\u00eancia dos frades menores. De onde vinham? Qual o extrato social ao qual pertenciam? Quais os valores dos quais estavam imbu\u00eddos? Antes de mais nada, h\u00e1 um r\u00e1pido deslocamento da \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios frades menores. De zonas marginais, aos poucos se passa aos centros habitados. Palavras como locus, ecclesia, claustrum, conventum, v\u00e3o aos poucos aparecendo e se tornando comuns nos documentos da Ordem. O historiador Antonio Rigon, analisando a \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o dos frades menores, principalmente na It\u00e1lia, afirma que no sul, encontram-se, entre os candidatos \u00e0 Ordem, membros de fam\u00edlias em oposi\u00e7\u00e3o ao poder imperial (Frederico II); no centro da It\u00e1lia \u00e9 comum encontrar entre os frades membros das fam\u00edlias papais; em Pisa os mercadores est\u00e3o entre os seguidores dos menores; em Treviso encontram-se v\u00e1rios juristas que ingressam na Ordem, enquanto em P\u00e1dua, propriet\u00e1rios de terra, fam\u00edlias ligadas aos condes, e os mais importantes grupos dirigentes da sociedade, contribuem para o crescimento da nova religi\u00e3o.35 Estabelece-se um estreito v\u00ednculo entre os irm\u00e3os menores e os grupos da nobreza, gra\u00e7as \u00e0 convers\u00e3o de membros, inclusive da aristocracia de sangue e de dinheiro, e \u00e0 benefici\u00eancia e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o exercitada por este grupo em favor dos menores.<br \/>\nPoder\u00edamos nos questionar sobre o papel desempenhado pela C\u00faria romana neste processo de intelectualiza\u00e7\u00e3o da Ordem. Teria ela, atrav\u00e9s de seus dirigentes, apoiado uma fac\u00e7\u00e3o da Ordem, em detrimento de outra? Qual o papel do cardeal Hugolino neste processo?<\/p>\n<p><strong>4.2 Cardeal Hugolino<\/strong><br \/>\nQuando o papa prop\u00f5e a Francisco de Assis que escolha um cardeal-protetor para a Ordem, este n\u00e3o hesita em escolher seu amigo, o cardeal Hugolino. Hugolino estava em 1220 na Lombardia, como legado papal, para combater as heresias, os desvios doutrinais, as revoltas sociais e pol\u00edticas.36 Hon\u00f3rio III (1216-1227) esperava obter a pacifica\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o para poder assim convocar uma nova cruzada. Hugolino teve oportunidade de se encontrar v\u00e1rias vezes com Francisco, e conhecia bem suas inten\u00e7\u00f5es, pois partilhara dos momentos mais importantes de sua vida. Na miss\u00e3o que desempenhava, tinha necessidade de fi\u00e9is e inteligentes colaboradores. Os membros mais cultos das jovens ordens religiosas, pregadores e menores, era o que de melhor se oferecia ao legado papal.<br \/>\nLombardia por\u00e9m significava tamb\u00e9m direito, estudo, intelectuais. Jovens de toda Europa se dirigiam a Bolonha, e mais tarde, tamb\u00e9m a P\u00e1dua e Verceli, para estudar. A primeira edifica\u00e7\u00e3o est\u00e1vel dos menores, que causou indigna\u00e7\u00e3o a Francisco, quando voltou do Egito, estava em Bolonha. Em Bolonha tem in\u00edcio, como atesta a carta escrita em fins de 1223 e in\u00edcio de 1224 de Francisco para Ant\u00f4nio, o primeiro estudo organizado na Ordem.<br \/>\nTalvez pela experi\u00eancia tida como legado papal na terras lombardas, imediatamente ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o, quando assumiu o nome de Greg\u00f3rio IX, Hugolino tra\u00e7ou um programa de reforma, baseado nos decretos do IV Conc\u00edlio do Latr\u00e3o, confiando principalmente nos frades pregadores e nos beneditinos, que logo seriam coadjuvados pelos menores: entre 1227 e 1228 estes combatem a heresia em Bassano e em Mil\u00e3o. Nos anos seguintes participam de uma campanha de prega\u00e7\u00e3o e pacifica\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o do V\u00eaneto, com destaque para Ant\u00f4nio de P\u00e1dua. Em 1233 est\u00e3o, junto com o pregadores, envolvidos no movimento devoto chamado Alleluia.37<br \/>\nGreg\u00f3rio IX tem um papel importante no processo de desenvolvimento da Ordem, n\u00e3o apenas enquanto amigo de Francisco, mas como aquele que viu na Ordem um elemento de fundamental import\u00e2ncia para a realiza\u00e7\u00e3o de seus planos de reforma. Hugolino conhecia a Ordem por dentro. Sabia que podia contar com os frades, com sua obedi\u00eancia e prontid\u00e3o. Os menores (bem como os pregadores) foram recebendo dos papas uma s\u00e9rie de privil\u00e9gios, que aos poucos foram moldando a Ordem dentro da Igreja.<br \/>\nA canoniza\u00e7\u00e3o de Francisco (1228), menos de dois anos ap\u00f3s sua morte, foi um momento de afirma\u00e7\u00e3o da autoridade papal. Contribuiu para apressar a canoniza\u00e7\u00e3o a vontade de reafirmar a autoridade do magist\u00e9rio papal, em um momento de \u00e1spera contenda com o imperador Frederico II. A canoniza\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio (1232) serve tamb\u00e9m para contrapor, \u00e0 humildade e &#8220;ignor\u00e2ncia&#8221; de um certo setor da Ordem, a figura de um frade douto, intelectual, mestre de ortodoxia: por longo tempo, na iconografia, Francisco vai ser representado ao lado de Ant\u00f4nio.<br \/>\nO percurso feito desde 1210, quando da aprova\u00e7\u00e3o oral da forma de vida pelo papa Inoc\u00eancio III, at\u00e9 a Quo elongati (1230), culminando com o cap\u00edtulo de 1239, quando s\u00e3o colocadas r\u00edgidas restri\u00e7\u00f5es ao ingresso de irm\u00e3os n\u00e3o-sacerdotes, deixa evidente a plena inser\u00e7\u00e3o da Ordem nos mecanismos da Igreja, inclusive como instrumento de afirma\u00e7\u00e3o do poderio papal em todo o Ocidente, n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s da prega\u00e7\u00e3o de cruzadas, mas tamb\u00e9m assumindo miss\u00f5es diplom\u00e1ticas, lega\u00e7\u00f5es, aceitando nomea\u00e7\u00f5es episcopais. Boaventura aceita o cardinalato em 1273. O auge do processo se d\u00e1 em 1288, com a elei\u00e7\u00e3o ao cargo pontif\u00edcio de Nicolau IV (1288-1292), primeiro papa franciscano.<\/p>\n<p><strong>5. Conclus\u00e3o<\/strong><br \/>\nNa avalia\u00e7\u00e3o do processo que leva os frades menores \u00e0 plena inser\u00e7\u00e3o no intrincado jogo de poder eclesi\u00e1stico, defendendo as prerrogativas papais, entre outros atrav\u00e9s da prega\u00e7\u00e3o das cruzadas, algumas conclus\u00f5es podem ser tiradas. Antes de mais nada, o processo n\u00e3o tem nada daquele compl\u00f4 da C\u00faria papal, denunciado por alguns historiadores, que teria propositalmente tra\u00eddo o ideal de Francisco. Francisco e seus frades, est\u00e3o a servi\u00e7o da Igreja. Num momento em que &#8220;pululavam&#8221; movimentos her\u00e9ticos por toda a Europa, Francisco quis uma vida evang\u00e9lica dentro da Igreja, e submissa a ela. Que os frades &#8220;sejam cat\u00f3licos, vivam como cat\u00f3licos e falem como cat\u00f3licos&#8221;; \u00e9 o desejo maior de Francisco. Quanto \u00e0 prega\u00e7\u00e3o, que esteja de acordo com as prescri\u00e7\u00f5es da Igreja: &#8220;Nullus frater praedicet contra formam et institutionem sanctae Ecclesiae&#8221;.<br \/>\nFrancisco tamb\u00e9m determina que os frades n\u00e3o preguem nas dioceses onde os bispos n\u00e3o derem autoriza\u00e7\u00e3o. Tal submiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas ao papa e aos bispos, mas tamb\u00e9m aos sacerdotes, nas suas par\u00f3quias, ainda que fossem ignorantes ou pecadores, Francisco pede submiss\u00e3o e respeito. Esta submiss\u00e3o \u00e9 express\u00e3o da catolicidade de Francisco: Francisco quer um apostolado dentro da Igreja, diferentemente dos outros movimentos que ca\u00edram na heresia por n\u00e3o se submeterem \u00e0 Igreja. N\u00e3o existe conflito entre Francisco e Igreja. Ao contr\u00e1rio, nas duas Regras transparece uma firme vontade de inserir a nova fraternidade na estrutura fundamental da Igreja.<br \/>\nN\u00e3o menos importante foi toda a novidade representada pelo estilo de vida dos frades menores: a simplicidade, a busca da verdadeira vida evang\u00e9lica, a inser\u00e7\u00e3o em todos os meios sociais, fizeram com que os mesmos fossem estimados pelo povo simples e pelos nobres. Numa \u00e9poca de decad\u00eancia e conflitos na Igreja, quando a estrutura eclesi\u00e1stica enfrentava duros ataques, os frades aparecem com autoridade religiosa e moral diante da sociedade. Por isso foram escolhidos pelo papado como porta-vozes de seus projetos, principalmente das cruzadas.<br \/>\nOutro elemento a destacar \u00e9 dar o devido peso \u00e0 pessoa do cardeal Hugolino no processo. Tal processo n\u00e3o \u00e9 responsabilidade \u00fanica de Greg\u00f3rio IX. Como primeiro cardeal-protetor da Ordem, ele contribuiu de forma decisiva para formar o quadro jur\u00eddico, e manteve uma intensa rela\u00e7\u00e3o pessoal com Francisco. Mas j\u00e1 desde o tempo de Francisco iniciara-se uma lenta mas gradual transforma\u00e7\u00e3o da Ordem, e Francisco percebeu isso. Tanto que procurou salvaguardar sua experi\u00eancia origin\u00e1ria no seu Testamento. No fim dos anos vinte, prevalece na Ordem a linha dos que defendem um maior interesse e inser\u00e7\u00e3o na vida da Igreja e da sociedade. Hugolino, homem pr\u00e1tico, percebeu que, ou a Ordem se institucionalizava ou desaparecia. Por isso ajuda Francisco a escrever a Regra. &#8220;A exig\u00eancia de uma regra se apresentava&#8230; como uma necessidade perempt\u00f3ria e inderrog\u00e1vel&#8221;.40 Era um processo natural, intr\u00ednseco \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia da Ordem, que, de outro modo, teria desaparecido, como desapareceram tantas outras ordens similares, no II conc\u00edlio de Li\u00e3o, em 1274. Se podemos afirmar que o projeto tra\u00e7ado pela Regra n\u00e3o sobreviveu integralmente \u00e0 morte de Francisco, isto deveu-se, mais que \u00e0 influ\u00eancia da Igreja, \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 din\u00e2mica interna da Ordem ela mesma.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1. Palestra realizada pelo autor na 5\u00aa Semana de Estudos Medievais realizado no Programa de Estudos Medievais da UFRJ, ocorrido nos dias 17-19 de novembro de 2003.<br \/>\n2. Para se conhecer o progressivo e r\u00e1pido envolvimento dos frades menores com as Cruzadas, as fontes mais importantes s\u00e3o os documentos conservados no Bullarium Franciscanum, a obra de Lucas Wadding, Analles Minorum, e a obra de G. Golubovitch, Bibliotheca Bio-bibliografica della Terra Santa e dell&#8217;Oriente Francescano. Al\u00e9m disso existem artigos de v\u00e1rios historiadores, esparsos nas v\u00e1rias revistas especializadas de hist\u00f3ria da Ordem, como Archivum Franciscanum Historicum, Studi Francescani, La France Franciscaine, Analecta franciscana, etc.<br \/>\n3. Por &#8220;Cruzada&#8221; entendemos as guerras pregadas e dirigidas em nome do papa enquanto chefe da cristandade, contra os inimigos da f\u00e9 ou da Igreja. De car\u00e1ter supranacional, participam soldados de diversas nacionalidades crist\u00e3s. O papa concede a indulg\u00eancia plen\u00e1ria de todos os pecados a todos os que se alistam sob o estandarte da Cruz (o Vexillum Crucis ou Vexillum Sancti Petri), estandarte que o pr\u00f3prio papa entrega a um seu legado, para que o leve em combate. Veja-se sobre as cruzadas: ROUSSET, Paul. Hist\u00f3ria das Cruzadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1980. RUNCIMAN, Steve. Hist\u00f3ria das Cruzadas. Rio de Janeiro: Imago, 2002.<br \/>\n4. V\u00e1rias fontes nos relatam a viagem de Francisco ao Egito. Celano \u00e9 o \u00fanico que relata as duas precedentes tentativas, quando Francisco teve que voltar da costa da Dalm\u00e1cia, e quando voltou, doente, da Espanha. A terceira tentativa, de 1219, que teve \u00eaxito, \u00e9 relatada tamb\u00e9m por Jord\u00e3o de Jano e por Jacques de Vitry. N\u00e3o nos toca aqui fazer o estudo cr\u00edtico deste epis\u00f3dio. Apenas atestamos, com os historiadores, que n\u00e3o existem d\u00favidas sobre o fato de que Francisco esteve no Egito, em 1219, durante o ass\u00e9dio de Damieta, e que de fato encontrou-se com o sult\u00e3o. O que aconteceu neste encontro \u00e9 envolto em mist\u00e9rio. Francisco foi, conversou com o sult\u00e3o, e voltou s\u00e3o e salvo. Francisco n\u00e3o foi a Damieta com o intuito de opor-se \u00e0 quinta cruzada. Ao contr\u00e1rio, seu objetivo era o mesmo dos cruzados. Como os cruzados, e como todo crist\u00e3o, Francisco queria liberar os lugares santos na Palestina dos mu\u00e7ulmanos. O que era diferente era a estrat\u00e9gia. Francisco quer sua total submiss\u00e3o \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3. Fora disso n\u00e3o haveria paz. A diferen\u00e7a \u00e9 que Francisco vai ao encontro do sult\u00e3o usando n\u00e3o as armas dos cruzados, mas a arma da palavra, da prega\u00e7\u00e3o, mesmo que isso lhe custasse a pr\u00f3pria vida, atrav\u00e9s do mart\u00edrio. Alguns autores que tratam do assunto: LEMMENS, L. De Sancto Francisco Christum Praedicante coram sultano Aegypti. Archivum Franciscanum Historicum, (citaremos sempre AFH) n. 19, p. 559-578, 1926. CARDINI, F., Nella presenza del soldan superba: Bernardo, Francesco, Bonaventura e il superamento spirituale dell&#8217;idea di crociata. Studi Francescani, n. 71, p. 199-250, 1974.<br \/>\n5. Trata-se do c\u00e2non Ad liberanda. A partir de 1215 todas as bulas de cruzada o reproduzir\u00e3o, ou a ele se referir\u00e3o. Cfr. ALBERIGO, Giuseppe et alii (Org.), Conciliorum Oecumenicorum Decreta, Bolonha: Edizione Dehoniane Bologna, 1991. p. 267-270.<br \/>\n6. Entre estes te\u00f3logos destacamos os pr\u00f3prios pregadores de cruzadas, como Gilberto de Tournai, Humberto de Romans, e outros. &#8220;La necessit\u00e0 di galvanizzare l&#8217;opinione pubblica nonostante i molti rovesci sub\u00ecti dalle armi crociate e di controbattere al crescente spirito anticrociato obblig\u00f2 i pontefici a servirsi largamente d&#8217;uno strumento di pressione propagandistica che l&#8217;esperienza degli ordini mendicanti e la tecnica intellettuale scolastica avevano nel frattempo affinato: la predicazione&#8221;. CARDINI, Franco. Gilberto de Tournai: Un francescano predicatore della Crociata. Studi Francescani, n. 72, p. 31-48, 1975.<br \/>\n7. A princ\u00edpio n\u00e3o se dizia cruzada, mas via, profectio ou expedictio transmarina, iter hierosolymitanum, ultramarinum ou sancti sepulcri, passagium, peregrinatio contra paganos, etc. O cruzado se chamava miles cruce signatus, crucem portans, crucifer ou signatus. GARC\u00cdA-VILLOSLADA, Ricardo. Historia de la Iglesia Catolica. In: LORCA, B., VILLOSLADA, R.-G., MARIA LABOA, J. Historia de la Iglesia Catolica, II: Edad Media (800-1303). La cristiandad en el mundo europeo y feudal. 5. ed. Madri: BAC, 1988. p. 367, nota 15.<br \/>\n8. Quando nos referimos aos &#8220;mendicantes&#8221;, estamos nos referindo principalmente aos dominicanos e aos franciscanos. Muito do que afirmamos aqui em rela\u00e7\u00e3o aos franciscanos poderia ser dito tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos dominicanos (Ordem dos pregadores), que tamb\u00e9m contaram com a total confian\u00e7a dos pont\u00edfices.<br \/>\n9. Prega\u00e7\u00e3o, itiner\u00e2ncia, pobreza evang\u00e9lica eram os tr\u00eas elementos constitutivos das ordens mendicantes: exatamente o que se exigia de um pregador de cruzadas.<br \/>\n10. OLIGER, L. I Penitenzieri Francescani a S. Giovanni in Laterano. Studi Francescani, n. 22, p. 495-522, 1925.<br \/>\n11. N\u00e3o \u00e9 objetivo desta exposi\u00e7\u00e3o tratar dos franciscanos envolvidos com a inquisi\u00e7\u00e3o. Apenas acenamos ao fato de que o primeiro frade menor inquisidor foi frei Ethienne de Saint-Thib\u00e9ry, nomeado em 1237 pelo papa Greg\u00f3rio IX. &#8220;A 29 e a 30 de maio de 1254, com a bula &#8216;Licet ex Omnibus&#8217;, Inoc\u00eancio IV dividiu a It\u00e1lia em duas zonas inquisitoriais: a primeira&#8230; foi confiada ainda uma vez aos dominicanos; a segunda,&#8230; foi confiada aos menores. Assim, depois de um empenho apenas ocasional de alguns frades individualmente no of\u00edcio inquisitorial&#8230; a Ordem [dos menores] foi organicamente inserida tamb\u00e9m no sistema repressivo institu\u00eddo pela Igreja de Roma&#8221;. Cf. MICCOLLI, G. Francesco D&#8217;Assisi e l&#8217;Ordine dei Minori. Mil\u00e3o: Edizione Biblioteca Francescana, 1999. p. 78-79.<br \/>\n12. A nomea\u00e7\u00e3o de Leone de Perego deu-se em 1241. N\u00e3o podemos afirmar que Hugolino, uma vez papa, tenha tra\u00eddo os ideais de S\u00e3o Francisco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas retic\u00eancias sobre frades-bispos. Greg\u00f3rio IX nomeou apenas um bispo da Ordem dos menores, enquanto nomeou 31 dominicanos. Dall pulpito alla Catedra. I vescovi degli ordini mendicanti nell&#8217;200 e nel primo&#8217;300. Convegno Internazionale, 27, Assis, 1998, Atti&#8230; Spoleto: Centro Italiano di Studi Sull&#8217;Alto Medioevo, 1999.<br \/>\n13. Entre os mais c\u00e9lebres penitenci\u00e1rios dos papas destacam-se os frades G\u00e9rard de Prato, penitenci\u00e1rio de Urbano IV, Jean de Samois, penitenci\u00e1rio de Nicolau III e de Bonif\u00e1cio VIII, \u00c1lvaro Paes, penitenci\u00e1rio de Clemente V e de Jo\u00e3o XXII. Entre estes sobressai-se frei Velasco, penitenci\u00e1rio de Inoc\u00eancio IV e de Alexandre IV. Velasco desempenhou miss\u00f5es diplom\u00e1ticas dos mais variados tipos, atravessando praticamente toda a Europa. Viajou pela It\u00e1lia, pela Boh\u00eamia, pela Espanha, Inglaterra, Fran\u00e7a. Nomeado para a sede episcopal de Famagouse (Chipre), transferiu-se para Idanna (Portugal). Morreu em Roma em 1278. GRATIEN DE PARIS, Histoire de la fondation et de l&#8217;evolution de l&#8217;Ordre des Fr\u00e8res Mineurs au XIIIe si\u00e8cle. Roma: Istituto Storico dei Cappuccini, 1982. p 358, nota 17. Al\u00e9m das miss\u00f5es diplom\u00e1ticas em nome da C\u00faria, v\u00e1rios franciscanos acompanharam as expedi\u00e7\u00f5es cruzadas, como no caso dos frades Eudes de Rigaud, Gilberto de Tournai e Jo\u00e3o de Mons, que estiveram ao lado do rei Luis IX. O ingl\u00eas frei Guilherme de Hedley esteve na cruzada com o rei Eduardo I, da Inglaterra. Cfr. CALLEBAUT, A. La deuxi\u00e8me croizade de S. Louis et les Franciscains. La France Franciscaine, n. 5, p. 282-288, 1922.<br \/>\n14. &#8220;Le Bullaire Franciscain ou les Registres des Papes publi\u00e9s par l&#8217;Ecole Fran\u00e7aise de Rome nous montrent que ces commissions furent tr\u00e8s nombreuses. Fr\u00e9quentemment les papes chargeaient les fr\u00e8res du soin d\u00e9nqu\u00eater sur la conduite de certains \u00e9v\u00eaques, d&#8217;examiner, de confirmer ou d&#8217;annuler des \u00e9lections \u00e9piscopales ou abbatiales, de r\u00e9former les abus eccl\u00e9siastiques dans les royaumes, les dioc\u00e8ses, les \u00e9glises et les monast\u00e8res, d&#8217;\u00eatre les arbitres dans les conflits entre les \u00e9v\u00eaques ou entre les autorit\u00e9s civiles et eccl\u00e9siastiques, d&#8217;absoudre des particuliers, des princes ou de villes des censures encourues, d&#8217;accorder des dispenses de mariage&#8221;. Citado em GRATIEN DE PARIS. Op. Cit., p. 539.<br \/>\n15. Cf. MAIER, Christoph T. Preaching the Cruzades. Mendicant friars and the cross in the thirteenth century. Cambridge: Cambridge University Press. p. 34.<br \/>\n16. DELORME, F. Trois bulles \u00e0 Fr. Hugues de Turenne, ofm. AFH, n. 18, p. 291-293, 1925. Veja-se tamb\u00e9m: DELORME, F. De praedicatione cruciatae saec. XIII per fratres minores. AFH, n. 9, p. 99-117, 1916.<br \/>\n17. Nesta obra Gilberto desenvolve sua prega\u00e7\u00e3o acentuando as gl\u00f3rias e benef\u00edcios da cruz. Exp\u00f5e os argumentos para assumir a cruzada, sem dar ouvidos aos apelos da fam\u00edlia, exaltando a coragem em enfrentar as fadigas e os sofrimentos de Cristo, comparando os cavaleiros aos m\u00e1rtires. Estes se tornaram vassalos de Cristo, e foram investidos em seu reino por terem assumido a Cruz. Cf.: PAPI, M. Crociati, pellegrini e cavalieri nei &#8220;Sermones&#8221; di Gilberto de Tournai. Studi Francescani, n. 73, p. 373-409, 1976. O artigo traz a edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de v\u00e1rios &#8220;Sermones ad Crucesignatos&#8221; de Gilberto de Tornai.<br \/>\n18. &#8220;Deliramenta ipsius Machometi, qui more insanientium et more etiam pecudum locutus est, non sunt disputatione digna, sed potius igne ac glaudio extirpanda&#8221;. JENSEN, K. Villads. War against muslins according to Benedict of Alignano, ofm. AFH, n. 79, p. 185, 1996.<br \/>\n19. Idem.<br \/>\n20. &#8220;N\u00e3o se caracterizando por uma espec\u00edfica atividade apost\u00f3lica, os frades estavam abertos e dispon\u00edveis para os mais variados tipos de apostolado na Igreja: a prega\u00e7\u00e3o, a ajuda na cura de almas, as confiss\u00f5es, o cuidado aos leprosos, etc. Dentro da variedade de tipos de apostolado merece men\u00e7\u00e3o especial a prega\u00e7\u00e3o, atividade apost\u00f3lica, que, pelas circunst\u00e2ncias do tempo e necessidade especial da Igreja, marca a Ordem desde o in\u00edcio&#8221;. TEIXEIRA, C. M. O pensamento apost\u00f3lico mission\u00e1rio de S. Francisco. In: S. Francesco e la Chiesa. Roma: Pontificium Athenaeum Antonianum, 1982. p. 210.<br \/>\n21. TOMAS DE CELANO. Vida I. In: SILVEIRA, Ildefonso &amp; REIS, Orlando dos. (Org.). S\u00e3o Francisco de Assis. Escritos e biografias de S\u00e3o Francisco de Assis, Cr\u00f4nicas e outros testemunhos do primeiro s\u00e9culo franciscano. 7 ed. Petr\u00f3polis: Vozes\/CEFEPAL, 1996. p. 194.<br \/>\n22. TOMAS DE CELANO. Op. Cit., p. 199.<br \/>\n23. Idem, p. 202.<br \/>\n24. Embora tratemos dos franciscanos enquanto pregadores de cruzadas, acenamos aqui para o fato de que os frades tamb\u00e9m se envolveram em miss\u00f5es diplom\u00e1ticas na Terra Santa, ajudando a solucionar os constantes conflitos que surgiam entre as v\u00e1rias for\u00e7as em contraste: frei Louren\u00e7o de Orte empenhou-se no processo de paz entre gregos e latinos em Chipre (1248-1249); Frei Bartolomeu de Amelia foi o mediador no processo de paz entre Miguel Pale\u00f3logo, imperador de Constantinopla, e Carlos de Anjou, rei da Sic\u00edlia (1278), tr\u00eas frades menores foram intermedi\u00e1rios no proceso de paz, em 1280, entre os templ\u00e1rios e o princ\u00edpe de Antioquia.<br \/>\n25. Chamamos de &#8220;intelectualiza\u00e7\u00e3o&#8221; o que outros chamaram de &#8220;clericaliza\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;sacerdotaliza\u00e7\u00e3o&#8221;. N\u00e3o exclu\u00edmos tamb\u00e9m essa nomenclatura, mas optamos por empregar este termo para colocar em evid\u00eancia a import\u00e2ncia aos poucos assumida pelos letrados na ordem.<br \/>\n26. &#8220;N\u00e3o fazia muito tempo que tinha voltado \u00e0 Santa Maria da Porci\u00fancula, quando alguns homens letrados e nobres juntaram-se a ele com grande satisfa\u00e7\u00e3o&#8221;. TOMAS DE CELANO. Op. Cit., p. 219.<br \/>\n27. &#8220;Recentemente, o santo frei Nicolau, compatr\u00edcio do papa, deixara a C\u00faria para se associar a eles&#8230;&#8221;. Cf. JACQUES DE VITRY. Historia Orientalis. In: SILVEIRA, Ildefonso &amp; REIS, Orlando dos. (Org.). S\u00e3o Francisco de Assis. Escritos e biografias de S\u00e3o Francisco de Assis, Cr\u00f4nicas e outros testemunhos do primeiro s\u00e9culo franciscano. 7 ed. Petr\u00f3polis: Vozes\/CEFEPAL, 1996. p. 1030.<br \/>\n28. &#8220;Rain\u00e9rio, prior da igreja de S\u00e3o Miguel (em Acre), entrou para a Ordem dos Frades Menores&#8230; Nessa mesma Ordem entraram Colin, ingl\u00eas, cl\u00e9rigo nosso; dois outros de nossos companheiros: mestre Miguel e dom Mateus, ao qual eu confiara a par\u00f3quia de Santa Cruz&#8230; Estou tendo dificuldade de reter ainda o cantor, Henrique e alguns outros&#8221;. Idem, 1030-1031.<br \/>\n29. Uma dessas pessoas \u00e9 o pr\u00f3prio frei Tom\u00e1s de Celano, bi\u00f3grafo de S\u00e3o Francisco, cujas obras s\u00e3o o melhor testemunho de que era um erudito, um homem de cultura.<br \/>\n30. &#8220;A ningu\u00e9m recusam entrada na Ordem, a n\u00e3o ser \u00e0queles que j\u00e1 estejam comprometidos em casamento ou por sua profiss\u00e3o em outra Ordem; n\u00e3o devem nem querem receber os casados sem o consentimento da esposa ou, aos religiosos, sem o consentimento de seus superiores. Todos os outros s\u00e3o aceitos&#8221;. JACQUES DE VITRY. Op. Cit., p. 1034.<br \/>\n31. Raoul Manselli, comentando a entrada na Ordem de pessoas dos mais variados setores da sociedade, comenta: &#8220;\u00c9 o fato central destes anos: a reviravolta na vida da Ordem, que \u00e9 por assim dizer, uma crise de crescimento, determina-se tamb\u00e9m com a incid\u00eancia nova na Igreja e com um impulso mission\u00e1rio mais intenso e decidido&#8221;. MANSELLI, R. S\u00e3o Francisco de Assis. Petr\u00f3polis: Vozes\/FFB, 1997. p. 176.<br \/>\n32. TOMAS DE CELANO. Op. Cit., p. 330.<br \/>\n33. MERLO, G. G. Historia del hermano Francisco y de la Ordem de los Menores In: Francisco de As\u00eds y el primer siglo de historia franciscana. O\u00f1ati (Guip\u00fazcoa): Editorial Franciscana Arantzazu, 1999. p. 18-19.<br \/>\n34. Est\u00e3o entre eles: o Ministro Geral Jo\u00e3o Parenti, que tinha sido juiz; Haymon de Faversham, mestre de teologia em Paris; Le\u00e3o de Perego, futuro arcebispo de Mil\u00e3o; Ant\u00f4nio de P\u00e1dua, que Francisco tinha autorizado a ensinar teologia aos irm\u00e3os; Geraldo de M\u00f3dena, ilustre pregador; Geraldo de Rossignol, penitenci\u00e1rio pontif\u00edcio, e o menos conhecido Pedro de Br\u00e9scia.<br \/>\n35. RIGON, A. Hermanos menores, sociedad, cultura. In: Francisco de As\u00eds y el primer siglo de historia franciscana. Op. Cit., p. 299-300.<br \/>\n36. A Lombardia era conhecida como &#8220;a terra de todas as heresias&#8221;, pelos constantes conflitos de que era palco. Na verdade nem todas as &#8220;heresias&#8221; eram doutrinais, mas se tratavam de reivindica\u00e7\u00f5es das classes sociais, buscando maior independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao poder papal ou imperial.<br \/>\n37. BROWN, D. A. The Allelluia. A Thirteenth Century Peace Movement. AFH, n.81, p. 3-16, 1988.<br \/>\n38. Regra N\u00e3o-Bulada. In: SILVEIRA, Ildefonso &amp; REIS, Orlando dos. (Org.). Op. Cit., p. 155.<br \/>\n39. &#8220;Nenhum dos irm\u00e3os pregue contra a forma e a doutrina da santa Igreja&#8230;&#8221;. Idem, p. 154.<br \/>\n40. MANSELLI, R. Op. Cit., p. 197.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Sandro Roberto da Costa<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":194820,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>&quot;Deus o quer!&quot;, mas... e Francisco? 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