{"id":194247,"date":"2024-01-23T08:48:11","date_gmt":"2024-01-23T11:48:11","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=194247"},"modified":"2024-02-01T08:13:44","modified_gmt":"2024-02-01T11:13:44","slug":"a-urgencia-de-um-humanismo-minimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-urgencia-de-um-humanismo-minimo\/","title":{"rendered":"A urg\u00eancia de um humanismo m\u00ednimo"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_194253\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-194253\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-194253 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/artigo_boff_230124.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/artigo_boff_230124.png 800w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/artigo_boff_230124-450x270.png 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/artigo_boff_230124-768x461.png 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/artigo_boff_230124-150x90.png 150w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-194253\" class=\"wp-caption-text\">Imagem ilustrativa: Canva (www.canva.com\/pt_br\/modelos)<\/p><\/div>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n<p>Meu sentimento do mundo me diz que possivelmente nunca na hist\u00f3ria dos \u00faltimos tempos tenhamos vivido, em n\u00edvel universal, tanta desumanidade. Quando falo em desumanidade quero expressar o desprezo total pelo valor do ser humano para com outro ser humano diferente, seja de etnia (negros, ind\u00edgenas, palestinos), seja pol\u00edtico (fundamentalistas, conservadores), seja de religi\u00e3o (mu\u00e7ulmanos, candombl\u00e9), seja de g\u00eanero (mulheres e LGBTQ+). Por um t\u00eanis algu\u00e9m \u00e9 morto. Uma pequena discuss\u00e3o de tr\u00e2nsito pode terminar num assassinato \u00e0 bala.<\/p>\n<p>Sem falar da guerra R\u00fassia-Ucr\u00e2nia (por detr\u00e1s est\u00e3o os USA e a NATO), a mais espantosa desumanidade est\u00e1 sendo assistida por toda a humanidade, atrav\u00e9s das m\u00eddias digitais, a c\u00e9u aberto: a dizima\u00e7\u00e3o de todo um povo, palestinos da Faixa de Gaza, centenas de mulheres e milhares de crian\u00e7as inocentes sacrificadas pela f\u00faria vingativa do atual primeiro ministro israelense, de extrema-direita, Banjamin Netanyahu. Seu ministro da Defesa declarou explicitamente que os palestinos da Faixa de Gaza (especialmente o ramo militar Hamas que perpetrou um ato terrorista contra Israel a 7 de outubro de 2023 com cerca de 1200 v\u00edtimas) s\u00e3o como animais, s\u00e3o sub-humanos e assim devem ser tratados, eventualmente, exterminados.<\/p>\n<p>Cercados por todos os lados, como num campo de exterm\u00ednio, os que vivem na Faixa de Gaza s\u00e3o permanentemente atacados dia e noite por ar, terra e mar pelas for\u00e7as de guerra do governo israelense. Muitos morrem de sede, de fome, sob os escombros e de seus ferimentos, pois, tudo lhes \u00e9 negado.<\/p>\n<p>Nem de longe se alimenta a ideia de que somos todos humanos, do mesmo g\u00eanero de seres e, portanto, vigora um ineg\u00e1vel la\u00e7o de irmandade entre todos. Todos respiram, todos comem, todos pisam o mesmo solo, todos recebem os mesmos raios de sol e as gotas de chuva. Todos, por mais altos que sejam seu cargos, t\u00eam que atender as necessidades da natureza. O rei da Inglaterra n\u00e3o pode dizer ao seu servi\u00e7al: v\u00e1 fazer pipi no meu lugar. Nesse ponto reina a mais radical democracia em grau zero, incluindo, reis, rainhas, papas, milion\u00e1rios, simples gente do povo, homens e mulheres, crian\u00e7as e idosos.<\/p>\n<p>Por que somos incapazes de nos tratar humanamente? Vale dizer, nos acolher como membros da mesma esp\u00e9cie homo, nos respeitar nas formas diversas de organizar a vida social e pessoal, nos h\u00e1bitos, nas tradi\u00e7\u00f5es e nas express\u00f5es religiosas e pr\u00e1ticas sexuais. O que existe em n\u00f3s que nos torna inimigos uns dos outros, homicidas, fratricidas, etnocidas e ultimamente biocidas? H\u00e1 alguns que afirmam que o homem de Neanderthal, tamb\u00e9m um humano pensante, teria sido exterminado pelo homo sapiens.<\/p>\n<p>J\u00e1 foi observado por bioantrop\u00f3logos que somos uma esp\u00e9cie extremamente ativa, irrequieta, violenta e possivelmente com pouca dura\u00e7\u00e3o sobre este planeta. Por outro lado, geneticistas e neur\u00f3logos constatam que pertence ao nosso DNA (<em>cf.Watson, Crik, Maturana<\/em>) o amor, a solidariedade, a coopera\u00e7\u00e3o e o sentimento de perten\u00e7a. H\u00e1 modos de equacionar estes dados aparentemente contradit\u00f3rios? Por que chegamos aos n\u00edveis atuais de desumanidade?<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma resposta satisfat\u00f3ria. O que podemos dizer, como tantos pensadores o tem sustentado, que o ser humano, por sua condi\u00e7\u00e3o existencial, \u00e9 simultaneamente<em> sapiens e demens<\/em>. \u00c9 movido por impulsos contradit\u00f3rios mas que convivem na mesma pessoa, um de destrui\u00e7\u00e3o e outro de constru\u00e7\u00e3o. Tenho trabalhado com duas categorias: a dimens\u00e3o <strong>sim-b\u00f3lica<\/strong> do ser humano (a que une e congrega) e dimens\u00e3o <strong>dia-b\u00f3lica<\/strong> (a que desune e desagrega). Ambas convivem, se confrontam e d\u00e3o dinamismo \u00e0 hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por um tempo, por raz\u00f5es m\u00faltiplas que n\u00e3o cabe aqui aventar, predomina a dimens\u00e3o <strong>sim-b\u00f3lica.<\/strong> Assim surge uma sociedade de conviv\u00eancia pac\u00edfica e cooperativa. Num outro, impera a dimens\u00e3o <strong>dia-b\u00f3lica<\/strong> que dilacera o tecido social, produz viol\u00eancia e at\u00e9 guerras. Temo que estamos neste momento sob o predom\u00ednio do dia-b\u00f3lico, recalcando o sim-b\u00f3lico, pois prevalece o pensamento fundamentalista, fascista e de uso da viol\u00eancia para resolver os problemas sociais.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta descrever esta fenomenologia de dualidade. Temos que cavar mais fundo. Estimo que a causa principal da desumanidade atual e hist\u00f3rica reside na eros\u00e3o da <em>Matriz Relacional<\/em> (<em>Relational Matrix)<\/em>. Quer dizer, ao longo da hist\u00f3ria, lentamente, mas por fim de forma cabal, rompemos o sentimento de que todos estamos interligados, que rela\u00e7\u00f5es se instauram entre todos os seres, formando o grande todo da natureza, da Terra e at\u00e9 do cosmos.<\/p>\n<p>Com a irrup\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e seu uso como poder de domina\u00e7\u00e3o, rompemos com a Matriz Relacional. Temos nos considerado senhores e donos das coisas. Podemos us\u00e1-las inescrupulosamente em nosso benef\u00edcio, com o pressuposto falso de que elas n\u00e3o possuem valor em si mesmas e, por isso, s\u00e3o destitu\u00eddas de prop\u00f3sito, inclusive o planeta Terra. Assim se fundou o paradigma da modernidade.<\/p>\n<p>Essa ruptura mostra-se hoje extremamente danosa, pois a natureza ou a Terra, est\u00e3o se voltando contra n\u00f3s, enviando-nos eventos extremos, uma gama de v\u00edrus letais e, nos \u00faltimos tempos, o aquecimento global que j\u00e1 se tornou sem retorno. Introduziu uma nova e perigosa fase do planeta Terra e da hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p>A ruptura da Matriz Relacional com os seres da natureza levou a uma ruptura com sua origem, com o Criador de todas as coisas. O que se chamou de \u201ca morte de Deus\u201d significa que perdemos aquele Elo que dava coes\u00e3o e sentido de plenitude ao nosso viver e a exist\u00eancia de um Sentido \u00faltimo da vida e da hist\u00f3ria. A proclama\u00e7\u00e3o da morte de Deus (sua aus\u00eancia na consci\u00eancia pessoal e coletiva) deu origem a muitos humanos desenraizados e mergulhados numa profunda solid\u00e3o. O oposto \u00e0 uma vis\u00e3o human\u00edstico-espiritual do mundo que afirma que a vida tem sentido e a hist\u00f3ria n\u00e3o termina no vazio, n\u00e3o \u00e9 o materialismo ou o ate\u00edsmo. \u00c9 o desenraizamento e o sentimento de que estamos s\u00f3s no universo e perdidos, coisa que uma vis\u00e3o humano-espiritual do mundo impedia.<\/p>\n<p>Hoje temos que voltar \u00e0 nossa pr\u00f3pria ess\u00eancia para refundar um humanismo m\u00ednimo. Quer dizer, colocar como marcos orientadores de nossa exist\u00eancia e coexist\u00eancia neste planeta o cuidado de uns para com os outros e para com a comunidade de vida, o amor como a maior for\u00e7a congregadora e humanizadora de todas as rela\u00e7\u00f5es, desentranhar de nosso interior nossa pot\u00eancia de coopera\u00e7\u00e3o e de solidariedade especialmente para com os que ficaram para tr\u00e1s, uma op\u00e7\u00e3o coletiva pela corresponsabilidade pelo destino comum, e, por fim, abrirmo-nos \u00e0quela Energia poderosa e amorosa de intu\u00edmos em nosso \u00edntimo como raz\u00e3o e sustent\u00e1culo de toda a realidade. Podemos dar-lhe mil nomes ou nenhum. As religi\u00f5es chamam-na de Deus, os cosm\u00f3logos de \u201cAbismo alimentador de todos os seres\u201d, ou o que prefiro, \u201caquele Ser que faz ser todos os seres\u201d. Esque\u00e7amos os nomes e concentremo-nos nessa Energia Inteligente e Suprema que sustenta e subjaz a todos os seres e fen\u00f4menos. \u00c9 a vis\u00e3o humano-espiritual das coisas.<\/p>\n<p>Sobre estes pressupostos poderemos fundar um humanismo m\u00ednimo, pelo qual todos se reconhecer\u00e3o como companheiros na mesma caminhada neste planeta e como irm\u00e3os e irm\u00e3s de todos as coisas (pois temos a mesma base gen\u00e9tica) e uns dos outros. Para sermos realistas, o dado <strong>sim-b\u00f3lico e dia-b\u00f3lico<\/strong> estar\u00e1 presente, mas sob a reg\u00eancia do <strong>sim-b\u00f3lico.<\/strong><\/p>\n<p>Desta forma construiremos uma conviv\u00eancia humana na qual n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil a acolhida de uns e de outros e na qual poder\u00e1 florescer a solidariedade essencial, a coopera\u00e7\u00e3o e o amor \u201cque move o c\u00e9u, todas as estrelas\u201d e os nossos cora\u00e7\u00f5es. Ou daremos este passo ou nos devoraremos uns aos outros.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong> <em>escreveu &#8220;Terra madura: uma teologia da vida&#8221;, S\u00e3o Paulo, Planeta 2023.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[59],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A urg\u00eancia de um humanismo m\u00ednimo - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-urgencia-de-um-humanismo-minimo\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A urg\u00eancia de um humanismo m\u00ednimo - 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