{"id":189260,"date":"2021-03-26T09:26:36","date_gmt":"2021-03-26T12:26:36","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=189260"},"modified":"2021-03-26T09:27:18","modified_gmt":"2021-03-26T12:27:18","slug":"carta-apostolica-candor-lucis-aeternae-do-santo-padre-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/carta-apostolica-candor-lucis-aeternae-do-santo-padre-francisco\/","title":{"rendered":"Carta Apost\u00f3lica &#8220;Candor Lucis Aeternae&#8221; do Santo Padre Francisco"},"content":{"rendered":"<div class=\"testo\">\n<div class=\"text parbase vaticanrichtext\">\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-189261 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/dante.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/dante.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/dante-450x159.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/dante-768x271.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/dante-150x53.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\">NO VII CENTEN\u00c1RIO DA MORTE DE DANTE ALIGHIERI<\/span><\/p>\n<p>Esplendor da Luz Eterna, o Verbo de Deus tomou um corpo da Virgem Maria quando, ao an\u00fancio do Anjo, Ela respondeu: \u00abEis a serva do Senhor\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a01, 38). O dia em que a Liturgia celebra este mist\u00e9rio inef\u00e1vel \u00e9 particularmente significativo tamb\u00e9m na vida hist\u00f3rica e liter\u00e1ria do insigne poeta Dante Alighieri, profeta de esperan\u00e7a e testemunha da sede de infinito presente no cora\u00e7\u00e3o do homem. Por isso, nesta ocorr\u00eancia, desejo unir-me tamb\u00e9m eu ao coro numeroso de quantos querem honrar a sua mem\u00f3ria no VII centen\u00e1rio da sua morte.<\/p>\n<p>Em Floren\u00e7a, de facto, o ano tinha in\u00edcio, segundo o c\u00f4mputo<i>\u00a0ab Incarnatione<\/i>, em 25 de mar\u00e7o. Pr\u00f3xima do equin\u00f3cio da primavera e vista na perspetiva pascal, tal data aparecia associada quer com a cria\u00e7\u00e3o do mundo quer com a reden\u00e7\u00e3o realizada por Cristo na cruz, in\u00edcio da nova cria\u00e7\u00e3o. \u00c0 luz do Verbo encarnado, convida a contemplar o des\u00edgnio de amor que \u00e9 o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e a fonte inspiradora da obra mais c\u00e9lebre do Poeta, a\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>. No \u00faltimo canto desta, o acontecimento da Encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 lembrado por S\u00e3o Bernardo com estes versos famosos: \u00abNo ventre teu reacendeu-se amor \/ e em paz eterna fez que germinasse \/ a seu calor assim t\u00e3o bela flor\u00bb (<i>Par<\/i>. XXXIII, 7-9)<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn*\" name=\"_ftnref*\">[*]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas, j\u00e1 no\u00a0<i>Purgat\u00f3rio<\/i>, Dante representara a cena da Anuncia\u00e7\u00e3o esculpida num penhasco rochoso (X, 34-37.40-45).<\/p>\n<p>Por isso, nesta circunst\u00e2ncia, n\u00e3o pode faltar a voz da Igreja que se associa \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o un\u00e2nime do homem e do poeta Dante Alighieri. Melhor do que muitos outros, soube exprimir, com a beleza da poesia, a profundidade do mist\u00e9rio de Deus e do amor. O seu poema, express\u00e3o sublime do g\u00e9nio humano, \u00e9 fruto duma nova e profunda inspira\u00e7\u00e3o, de que o Poeta ali\u00e1s tem consci\u00eancia quando fala dele como \u00abpoema santo que consagro, \/ em que puseram m\u00e3o o c\u00e9u e a terra\u00bb (<i>Par<\/i>. XXV, 1-2).<\/p>\n<p>Desejo, com esta Carta Apost\u00f3lica, unir a minha voz \u00e0 dos meus Antecessores que honraram e celebraram o Poeta, especialmente por ocasi\u00e3o dos anivers\u00e1rios do nascimento ou da morte, para o propor de novo \u00e0 aten\u00e7\u00e3o da Igreja, \u00e0 universalidade dos fi\u00e9is, aos estudiosos de literatura, aos te\u00f3logos, aos artistas. Recordarei brevemente estas interven\u00e7\u00f5es, focando a aten\u00e7\u00e3o nos Pont\u00edfices do \u00faltimo s\u00e9culo e nos seus documentos de maior relevo.<\/p>\n<p><i>1. As palavras sobre Dante Alighieri dos Romanos Pont\u00edfices do \u00faltimo s\u00e9culo<\/i><\/p>\n<p>H\u00e1 um s\u00e9culo, em 1921, por ocasi\u00e3o do VI centen\u00e1rio da morte do Poeta,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xv\/pt.html\">Bento XV<\/a>, recolhendo as ideias que surgiram nos pontificados anteriores, particularmente de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/leo-xiii\/pt.html\">Le\u00e3o XIII<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/pius-x\/pt.html\">S\u00e3o Pio X<\/a>, comemorou o anivers\u00e1rio de Dante quer com uma Enc\u00edclica<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0quer promovendo obras de restauro em Ravena na igreja de S\u00e3o Pedro Maior, chamada popularmente de S\u00e3o Francisco, onde se celebrou o funeral de Alighieri tendo sido sepultado na respetiva \u00e1rea tumular. O Papa, vendo com apre\u00e7o as numerosas iniciativas tendentes a solenizar a ocorr\u00eancia, reivindicava o direito da Igreja, \u00abque foi sua m\u00e3e\u00bb, de ser protagonista de tais comemora\u00e7\u00f5es, honrando o \u00abseu\u00bb Dante.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0J\u00e1 na Carta ao Arcebispo de Ravena, D. Pasqual Morganti, com a qual aprovara o programa das celebra\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio, Bento XV motivou a sua ades\u00e3o da seguinte forma: \u00abAl\u00e9m disso (e isto \u00e9 mais importante) h\u00e1 uma raz\u00e3o particular para considerarmos que se deve celebrar o seu fausto anivers\u00e1rio com grata mem\u00f3ria e grande concurso de povo, ou seja, o facto de que Alighieri \u00e9 nosso. (&#8230;) Com efeito, quem poder\u00e1 negar que o nosso Dante tenha alimentado e fortalecido a chama do engenho e a virtude po\u00e9tica inspirando-se na f\u00e9 cat\u00f3lica, a ponto de cantar num poema quase divino os mist\u00e9rios sublimes da religi\u00e3o?\u00bb<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Num momento hist\u00f3rico marcado por sentimentos de hostilidade \u00e0 Igreja, o Pont\u00edfice reiterou, na citada Enc\u00edclica, a perten\u00e7a do Poeta \u00e0 Igreja, \u00aba uni\u00e3o \u00edntima de Dante com esta C\u00e1tedra de Pedro\u00bb; mais, afirmou que a sua obra, apesar de ser express\u00e3o da \u00abprodigiosa vastid\u00e3o e agudeza do seu engenho\u00bb, recebeu \u00abum poderoso impulso de inspira\u00e7\u00e3o\u00bb precisamente da f\u00e9 crist\u00e3. Por isso, \u00abnele \u2013 continuava Bento XV \u2013 n\u00e3o devemos admirar apenas a altura sublime do engenho, mas tamb\u00e9m a vastid\u00e3o do tema que a religi\u00e3o divina ofereceu ao seu canto\u00bb. E tecia o seu elogio, respondendo indiretamente a quantos negavam ou criticavam a matriz religiosa da sua obra: \u00abRespira-se em Alighieri a mesma piedade que h\u00e1 em n\u00f3s; a sua f\u00e9 tem os mesmos sentimentos. (&#8230;) O motivo principal de elogio nele \u00e9 este: ser um poeta crist\u00e3o e ter cantado com acentua\u00e7\u00f5es quase divinas os ideais crist\u00e3os dos quais contemplava, com toda a alma, a beleza e o esplendor\u00bb. E o Pont\u00edfice prosseguia: a obra de Dante \u00e9 um exemplo eloquente e v\u00e1lido para \u00abdemonstrar qu\u00e3o falso seja que o obs\u00e9quio da mente e do cora\u00e7\u00e3o a Deus corte as asas do engenho; pelo contr\u00e1rio, estimula-o e eleva-o\u00bb. Por isso, defendia ainda o Papa, \u00abos ensinamentos que Dante nos deixou em todas as suas obras, mas sobretudo no seu triplo poema\u00bb podem servir \u00abcomo guia valid\u00edssimo para os homens do nosso tempo\u00bb, e de modo particular para alunos e estudiosos, j\u00e1 que ele, \u00abao compor o seu poema, n\u00e3o teve outro objetivo sen\u00e3o levantar os mortais do estado de mis\u00e9ria, isto \u00e9, do pecado e conduzi-los ao estado de beatitude, isto \u00e9, da gra\u00e7a divina\u00bb.<\/p>\n<p>Passando a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/paul-vi\/pt.html\">S\u00e3o Paulo VI<\/a>, as suas v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es est\u00e3o relacionadas com o VII centen\u00e1rio do nascimento, em 1965. No dia 19 de setembro, ofereceu uma cruz dourada para embelezar a Capela de Ravena que guarda o t\u00famulo de Dante, at\u00e9 ent\u00e3o desprovida de \u00abtal sinal de religi\u00e3o e esperan\u00e7a\u00bb.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0Em 14 de novembro, enviou a Floren\u00e7a uma coroa \u00e1urea de louros para ser encastoada no Batist\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o. Finalmente, no termo dos trabalhos do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, quis doar aos Padres Conciliares uma edi\u00e7\u00e3o art\u00edstica da\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>. Mas sobretudo honrou a mem\u00f3ria do insigne Poeta com a Carta Apost\u00f3lica\u00a0<i>Altissimi cantus<\/i>,<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0na qual reiterava a forte liga\u00e7\u00e3o entre a Igreja e Dante Alighieri: \u00abSe algu\u00e9m quisesse perguntar por que motivo a Igreja Cat\u00f3lica, por vontade do seu Chefe vis\u00edvel, tenha a peito cultivar a mem\u00f3ria e celebrar a gl\u00f3ria do poeta florentino, \u00e9 f\u00e1cil a nossa resposta: porque, por um direito particular, Dante \u00e9 nosso! Nosso, queremos dizer da f\u00e9 cat\u00f3lica, porque tudo nele respira amor a Cristo; nosso, porque muito amou a Igreja, cujas gl\u00f3rias ele cantou; e nosso, porque no Romano Pont\u00edfice reconheceu e venerou o Vig\u00e1rio de Cristo\u00bb.<\/p>\n<p>Mas tal direito, continuava o Papa, longe de autorizar atitudes triunfalistas, constitui um compromisso. \u00abDante \u00e9 nosso: podemos justamente repeti-lo. E afirmamo-lo, n\u00e3o para fazer dele um almejado trof\u00e9u de gl\u00f3ria ego\u00edsta, mas antes para nos lembrar a n\u00f3s pr\u00f3prios o dever de o reconhecer como tal e explorar na sua obra os tesouros inestim\u00e1veis do pensamento e sentimento crist\u00e3os, convencidos como estamos de que s\u00f3 quem penetra na alma religiosa do insigne Poeta pode compreender profundamente e saborear as suas maravilhosas riquezas espirituais\u00bb. E este compromisso n\u00e3o dispensa a Igreja de acolher tamb\u00e9m as palavras de cr\u00edtica prof\u00e9tica pronunciadas pelo Poeta contra quem devia anunciar o Evangelho e representar, n\u00e3o a si pr\u00f3prio, mas a Cristo: \u00abNem me custa recordar que a voz de Dante se ergueu, pungente e severa, contra mais de um Romano Pont\u00edfice, e teve amargas reprimendas para institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas e pessoas que foram ministros e representantes da Igreja\u00bb; contudo resulta claro que \u00abtais atitudes inexor\u00e1veis nunca abalaram a sua f\u00e9 cat\u00f3lica firme nem o seu afeto filial \u00e0 santa Igreja\u00bb.<\/p>\n<p>Depois Paulo VI ilustrava as carater\u00edsticas que fazem do poema de Dante uma fonte de riqueza espiritual ao alcance de todos: \u00abO poema de Dante \u00e9 universal: na sua amplitude imensa, abra\u00e7a c\u00e9u e terra, eternidade e tempo, os mist\u00e9rios de Deus e as vicissitudes dos homens, a doutrina sagrada e a que deriva da luz da raz\u00e3o, os dados da experi\u00eancia pessoal e as mem\u00f3rias da hist\u00f3ria\u00bb. Mas sobretudo especificava a finalidade intr\u00ednseca da obra de Dante, particularmente da\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>\u00a0(finalidade essa, nem sempre claramente apreciada e avaliada): \u00abO objetivo da\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>\u00a0\u00e9 primariamente pr\u00e1tico e transformador. N\u00e3o se prop\u00f5e apenas ser poeticamente bela e moralmente boa, mas capaz de mudar radicalmente o homem e lev\u00e1-lo da desordem \u00e0 sabedoria, do pecado \u00e0 santidade, da mis\u00e9ria \u00e0 felicidade, da vis\u00e3o terrificante do inferno \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o beatificante do para\u00edso\u00bb.<\/p>\n<p>Num momento hist\u00f3rico denso de tens\u00f5es entre os povos, o Papa tinha a peito o ideal da paz e encontrava na obra do Poeta uma reflex\u00e3o preciosa para a promover e suscitar: \u00abEsta paz dos indiv\u00edduos, das fam\u00edlias, das na\u00e7\u00f5es, da sociedade humana, paz interna e externa, paz individual e p\u00fablica, tranquilidade da ordem, \u00e9 perturbada e abalada, porque s\u00e3o espezinhadas a piedade e a justi\u00e7a. E, para restaurar a ordem e a salva\u00e7\u00e3o, s\u00e3o chamadas a trabalhar em harmonia a f\u00e9 e a raz\u00e3o, Beatriz e Virg\u00edlio, a Cruz e a \u00c1guia, a Igreja e o Imp\u00e9rio\u00bb. Nesta linha, assim definia a obra po\u00e9tica na perspetiva da paz: \u00abA\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>\u00a0\u00e9 poema da paz: l\u00fagubre canto da paz perdida para sempre \u00e9 o\u00a0<i>Inferno<\/i>, suave canto da paz esperada \u00e9 o\u00a0<i>Purgat\u00f3rio<\/i>, epin\u00edcio triunfal de paz eterna e plenamente possu\u00edda \u00e9 o\u00a0<i>Para\u00edso<\/i>\u00bb.<\/p>\n<p>Nesta perspetiva, continuava o Pont\u00edfice, a\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>\u00a0\u00ab\u00e9 o poema da melhoria social na conquista duma liberdade, que est\u00e1 isenta da escravid\u00e3o do mal e nos leva a encontrar e amar a Deus (\u2026) professando um humanismo, cujas qualidades julgamos ter ficado bem esclarecidas\u00bb. E Paulo VI reiterava uma vez mais quais eram as qualidades do humanismo de Dante: \u00abEm Dante, todos os valores humanos (intelectuais, morais, afetivos, culturais, civis) s\u00e3o reconhecidos, exaltados; e \u00e9 muito importante notar que este apre\u00e7o e honra se verificam enquanto ele mergulha no divino, quando a contempla\u00e7\u00e3o teria podido anular os elementos terrenos\u00bb. Da\u00ed, afirmava o Papa, nasce \u2013 e justamente \u2013 o apelativo de Sumo Poeta e o atributo de\u00a0<i>divina<\/i>\u00a0dado \u00e0\u00a0<i>Com\u00e9dia<\/i>, bem como a proclama\u00e7\u00e3o de Dante como \u00absenhor do alt\u00edssimo canto\u00bb, no\u00a0<i>incipit<\/i>\u00a0da pr\u00f3pria Carta Apost\u00f3lica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, avaliando as qualidades art\u00edsticas e liter\u00e1rias extraordin\u00e1rias de Dante, Paulo VI reiterava um princ\u00edpio por ele afirmado muitas outras vezes. \u00abA teologia e a filosofia t\u00eam com a beleza ainda outra rela\u00e7\u00e3o, e \u00e9 esta: a beleza, ao emprestar \u00e0 doutrina o seu vestido e ornamento, com a suavidade do canto e a visibilidade da arte figurativa e pl\u00e1stica, abre a estrada para os seus preciosos ensinamentos chegarem a muitos. As pesquisas profundas, os racioc\u00ednios subtis resultam inacess\u00edveis aos humildes, que s\u00e3o uma multid\u00e3o, e famintos tamb\u00e9m eles do p\u00e3o da verdade. Entretanto estes percebem, sentem e apreciam o influxo da beleza e, por este ve\u00edculo, brilha mais facilmente para eles a verdade e nutre-os. Bem o compreendeu e realizou o senhor do alt\u00edssimo canto, cuja beleza se tornou serva da bondade e da verdade, e a bondade mat\u00e9ria da beleza\u00bb. Por fim, citando a\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>, Paulo VI exortava a todos: \u00abHonrai agora o alt\u00edssimo poeta\u00bb (<i>Inf.<\/i>\u00a0IV, 80).<\/p>\n<p>De\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt.html\">S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II<\/a>, que repetidamente citou nos seus discursos as obras do insigne Poeta, quero lembrar apenas a interven\u00e7\u00e3o de 30 de maio de 1985 na inaugura\u00e7\u00e3o da Exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Dante no Vaticano<\/i>. Como Paulo VI, tamb\u00e9m ele destacou a sua genialidade art\u00edstica: a obra de Dante \u00e9 interpretada como \u00abuma realidade visualizada, que fala da vida do al\u00e9m-t\u00famulo e do mist\u00e9rio de Deus com a for\u00e7a pr\u00f3pria do pensamento teol\u00f3gico, transfigurado pelo esplendor da arte e da poesia, simultaneamente conjuntas\u00bb. Depois o Pont\u00edfice deteve-se a examinar um termo chave da obra de Dante: \u00ab\u201ctransumanar\u201d, ultrapassar o humano. Foi este o esfor\u00e7o supremo de Dante: fazer que o peso do humano n\u00e3o destru\u00edsse o divino que existe em n\u00f3s, nem a grandeza do divino anulasse o valor do humano. Por esta raz\u00e3o, o Poeta leu justamente a pr\u00f3pria vicissitude pessoal e a da inteira humanidade em chave teol\u00f3gica\u00bb.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt.html\">Bento XVI<\/a>\u00a0falou frequentemente do itiner\u00e1rio de Dante, tirando das suas obras t\u00f3picos de reflex\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o. Por exemplo, ao apresentar a sua primeira Enc\u00edclica \u2013 a\u00a0<i><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est.html\">Deus caritas est<\/a><\/i>\u00a0\u2013, partiu precisamente da vis\u00e3o de Deus que tinha Dante e na qual \u00abluz e amor s\u00e3o uma coisa s\u00f3\u00bb, para propor novamente uma sua reflex\u00e3o sobre a novidade da obra de Dante: \u00abO olhar de Dante vislumbra uma coisa totalmente nova (\u2026). A Luz eterna apresenta-se em tr\u00eas c\u00edrculos aos quais se dirige com estes versos densos que conhecemos: \u201cLuz eterna que s\u00f3 tens sede em ti, \/ e a ti entendes, e por ti intelecta \/ e entendente, te amas, ris assi!\u201d (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXIII, 124-126). Na realidade, ainda mais impressionante que esta revela\u00e7\u00e3o de Deus como c\u00edrculo trinit\u00e1rio de conhecimento e amor \u00e9 a perce\u00e7\u00e3o dum rosto humano \u2013 o rosto de Jesus Cristo \u2013 que aparece a Dante no c\u00edrculo central da Luz. (\u2026) Este Deus tem um rosto humano e \u2013 podemos acrescentar \u2013 um cora\u00e7\u00e3o humano\u00bb.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0O Papa destacou a originalidade da vis\u00e3o de Dante na qual se comunica poeticamente a novidade da experi\u00eancia crist\u00e3, decorrente do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o: \u00abA novidade dum amor que impeliu Deus a assumir um rosto humano; mais, a assumir carne e sangue, o ser humano inteiro\u00bb.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Por minha vez, na primeira Enc\u00edclica,<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0fiz refer\u00eancia a Dante para expressar a luz da f\u00e9, citando um verso do\u00a0<i>Para\u00edso<\/i>\u00a0onde ela \u00e9 descrita como \u00aba cintila \/ que se dilata em chama ent\u00e3o vivaz, \/ e qual astro no c\u00e9u, em mim rutila\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXIV, 145-147). Pelos 750 anos do nascimento do Poeta, quis honrar a sua mem\u00f3ria com uma mensagem, almejando que \u00aba figura de Alighieri e a sua obra sejam novamente compreendidas e valorizadas\u00bb; e propunha que se lesse a\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>\u00a0como \u00abum grande itiner\u00e1rio, ali\u00e1s como uma verdadeira peregrina\u00e7\u00e3o, tanto pessoal e interior, como comunit\u00e1ria, eclesial, social e hist\u00f3rica\u00bb; com efeito, \u00abela representa o paradigma de cada viagem aut\u00eantica para a qual a humanidade est\u00e1 chamada a abandonar a terra que Dante define \u201ca jeira que nos torna t\u00e3o ferozes\u201d (<i>Par.<\/i>\u00a0XXII, 151), para chegar a uma nova condi\u00e7\u00e3o, marcada pela harmonia, a paz, a felicidade\u00bb.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0Por isso, apresentei a figura do insigne Poeta aos nossos contempor\u00e2neos, propondo-o como \u00abprofeta de esperan\u00e7a, anunciador da possibilidade de resgate, da liberta\u00e7\u00e3o, da mudan\u00e7a profunda de cada homem e mulher, de toda a humanidade\u00bb.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Por fim, no dia 10 de outubro de 2020, ao receber a Delega\u00e7\u00e3o da Arquidiocese de Ravena-Cervia por ocasi\u00e3o da abertura do Ano de Dante e anunciar este documento, sublinhei como a obra de Dante pode ainda hoje enriquecer a mente e o cora\u00e7\u00e3o de muitos, sobretudo jovens, que, abeirando-se da sua poesia \u00abnuma forma acess\u00edvel a eles, constatam, por um lado, inevitavelmente toda a dist\u00e2ncia do autor e do seu mundo; mas, por outro, captam uma resson\u00e2ncia surpreendente\u00bb.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p><i>2. A vida de Dante Alighieri, paradigma da condi\u00e7\u00e3o humana<\/i><\/p>\n<p>Com esta Carta Apost\u00f3lica, desejo tamb\u00e9m eu abeirar-me da vida e obra do ilustre Poeta, para captar precisamente esta resson\u00e2ncia, manifestando tanto a atualidade como a sua perenidade, e recolher aquelas advert\u00eancias e reflex\u00f5es que ainda hoje s\u00e3o essenciais n\u00e3o apenas para os crentes mas para toda a humanidade. Com efeito, a obra de Dante \u00e9 parte integrante da nossa cultura, remete-nos para as ra\u00edzes crist\u00e3s da Europa e do Ocidente, representa o patrim\u00f3nio de ideais e valores que tamb\u00e9m hoje a Igreja e a sociedade civil prop\u00f5em como base da conviv\u00eancia humana, na qual podemos e devemos reconhecer-nos todos irm\u00e3os. Sem me embrenhar na complexa hist\u00f3ria pessoal, pol\u00edtica e judici\u00e1ria de Alighieri, gostaria de lembrar apenas alguns momentos e factos da sua exist\u00eancia, pelos quais ele aparece extraordinariamente pr\u00f3ximo de muitos dos nossos contempor\u00e2neos e que s\u00e3o essenciais para compreender a sua obra.<\/p>\n<p>\u00c0 cidade de Floren\u00e7a, onde nasceu em 1265 e se casou com Gema Donati gerando quatro filhos, esteve primeiramente ligado por um forte sentimento de perten\u00e7a, o qual, por causa de dissens\u00f5es pol\u00edticas, com o tempo se transformou em aberto contraste. Contudo nunca morreu nele o desejo de l\u00e1 regressar, n\u00e3o s\u00f3 pelo afeto que continuou em todo o caso a nutrir pela sua cidade, mas sobretudo para ser coroado poeta l\u00e1 onde recebera o Batismo e a f\u00e9 (cf.\u00a0<i>Par.<\/i>\u00a0XXV, 1-9). No cabe\u00e7alho de algumas das suas\u00a0<i>Cartas<\/i>\u00a0(III, V, VI e VII), Dante define-se como \u00ab<i>florentinus et exul inmeritus<\/i>\u00a0\u2013 florentino imerecido no ex\u00edlio\u00bb, enquanto na carta XIII, dirigida a Cangrande della Scala, especifica \u00ab<i>florentinus natione non moribus<\/i>\u00a0\u2013 florentino de nascimento, n\u00e3o de costumes\u00bb. Guelfo da fa\u00e7\u00e3o branca, v\u00ea-se envolvido no conflito entre Guelfos e Gibelinos, entre Guelfos brancos e negros, e depois de ter ocupado cargos p\u00fablicos cada vez mais importantes at\u00e9 se tornar Prior, em 1302, devido \u00e0s vicissitudes pol\u00edticas adversas, \u00e9 exilado por dois anos, banido dos cargos p\u00fablicos e condenado ao pagamento duma multa. Dante rejeita a senten\u00e7a, em sua opini\u00e3o injusta, e o julgamento contra ele torna-se ainda mais severo: ex\u00edlio perp\u00e9tuo, confisca\u00e7\u00e3o dos bens e pena de morte em caso de regresso \u00e0 terra natal. Assim come\u00e7a a dolorosa hist\u00f3ria de Dante, que tenta em v\u00e3o poder regressar \u00e0 sua amada Floren\u00e7a, pela qual lutara com paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Torna-se assim o exilado, o \u00abperegrino pensativo\u00bb, ca\u00eddo numa condi\u00e7\u00e3o de \u00abpenosa pobreza\u00bb (<i>Conv\u00edvio<\/i>, I, III, 5) que o impele a procurar ref\u00fagio e prote\u00e7\u00e3o junto de alguns suseranos locais, entre os quais os Scaligeri de Verona e os Malaspina na Lunigiana. Nas palavras de Cacciaguida, antepassado do Poeta, intuem-se a amargura e o desconforto desta nova condi\u00e7\u00e3o: \u00abDeixar\u00e1s toda a cousa que \u00e9 dileta \/ mais caramente; e este \u00e9 dardo tal \/ que o arco do ex\u00edlio antes projeta. \/ Tu provar\u00e1s assim sabor a sal \/ do alheio p\u00e3o e como \u00e9 duro mal \/ se des\u00e7a escada alheia ou j\u00e1 se escale\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XVII, 55-60).<\/p>\n<p>Depois, n\u00e3o aceitando as condi\u00e7\u00f5es humilhantes da amnistia que lhe teria permitido o regresso a Floren\u00e7a, em 1315 foi de novo condenado \u00e0 morte, desta vez, juntamente com os seus filhos adolescentes. A \u00faltima etapa do seu ex\u00edlio foi Ravena, onde foi acolhido por Guido Novello da Polenta, e l\u00e1 faleceu \u2013 regressava duma miss\u00e3o a Veneza \u2013 aos 56 anos, na noite de 13 para 14 de setembro de 1321. A sua sepultura num sarc\u00f3fago em S\u00e3o Pedro Maior, por tr\u00e1s do muro externo do antigo claustro franciscano, foi posteriormente transferida para a adjacente Capela do s\u00e9culo XVIII, onde em 1865, depois de atribuladas vicissitudes, foram colocados os seus restos mortais. O lugar \u00e9 ainda hoje meta de in\u00fameros visitantes e admiradores do insigne Poeta, pai da l\u00edngua e literatura italianas.<\/p>\n<p>No ex\u00edlio, o amor \u00e0 sua cidade, tra\u00eddo pelos \u00abcelerados florentinos\u00bb (<i>Epist.<\/i>\u00a0VI, 1), transformou-se em triste saudade. A profunda desilus\u00e3o pela queda dos seus ideais pol\u00edticos e civis, juntamente com a penosa peregrina\u00e7\u00e3o duma cidade para outra \u00e0 procura de ref\u00fagio e apoio n\u00e3o s\u00e3o alheias \u00e0 sua obra liter\u00e1ria e po\u00e9tica; pelo contr\u00e1rio, constituem a sua raiz essencial e a motiva\u00e7\u00e3o de fundo. Quando Dante descreve os peregrinos que se p\u00f5em a caminho para visitar os lugares sagrados, de certo modo descreve a sua condi\u00e7\u00e3o existencial e manifesta os seus sentimentos mais \u00edntimos: \u00abOh peregrinos que partis pensativos&#8230;\u00bb {<i>Vita Nova<\/i>, 29 [XL (XLI), 9], v. 1}. O motivo reaparece mais vezes, por exemplo nestes versos do\u00a0<i>Purgat\u00f3rio<\/i>: \u00abComo romeiros pensativos lan\u00e7am, \/ cruzando pela via gente ignota, \/ apenas um olhar e n\u00e3o descansam\u00bb (XXIII, 16-18). A pungente melancolia de Dante peregrino e exilado adivinha-se tamb\u00e9m nos famosos versos do canto VIII do\u00a0<i>Purgat\u00f3rio<\/i>: \u00abEra hora em que a saudade aos navegantes \/ regressa e os enternece j\u00e1 de cor \/ o adeus a amigos doces dito antes\u00bb (VIII, 1-3).<\/p>\n<p>Dante, refletindo profundamente sobre a sua situa\u00e7\u00e3o pessoal de ex\u00edlio, incerteza radical, fragilidade, mobilidade cont\u00ednua, transforma-a, sublimando-a, num paradigma da condi\u00e7\u00e3o humana, que se apresenta como um caminho \u2013 mais interior que exterior \u2013 sem paragem alguma enquanto n\u00e3o atingir a meta. Deparamo-nos, assim, com dois temas fundamentais de toda a obra de Dante: o ponto de partida de todo o itiner\u00e1rio existencial, o desejo, presente no \u00e2nimo humano, e o ponto de chegada, a felicidade, dada pela vis\u00e3o do Amor que \u00e9 Deus.<\/p>\n<p>O insigne Poeta, embora atravessando vicissitudes dram\u00e1ticas, tristes e angustiantes, nunca se resigna, n\u00e3o sucumbe, nem aceita suprimir a \u00e2nsia de plenitude e felicidade que est\u00e1 no seu cora\u00e7\u00e3o, e muito menos se resigna a ceder \u00e0 injusti\u00e7a, \u00e0 hipocrisia, \u00e0 arrog\u00e2ncia do poder, ao ego\u00edsmo que faz do nosso mundo \u00aba jeira que nos torna t\u00e3o ferozes\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXII, 151).<\/p>\n<p><i>3. A miss\u00e3o do Poeta, profeta de esperan\u00e7a<\/i><\/p>\n<p>Deste modo, relendo a sua vida sobretudo \u00e0 luz da f\u00e9, Dante descobre tamb\u00e9m a voca\u00e7\u00e3o e a miss\u00e3o que lhe foram confiadas, de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta de esperan\u00e7a. Na Carta a Cangrande della Scala, com extraordin\u00e1ria nitidez, deixa claro o objetivo da sua obra, que se concretiza e explicita, j\u00e1 n\u00e3o atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou militares, mas gra\u00e7as \u00e0 poesia, \u00e0 arte da palavra que, dirigida a todos, tudo pode mudar: \u00ab\u00c9 preciso dizer brevemente que a finalidade do todo e da parte \u00e9 tirar os viventes nesta exist\u00eancia dum estado de mis\u00e9ria e conduzi-los a um estado de felicidade\u00bb [XIII, 39 (15)]. Tal finalidade desencadeia um caminho de liberta\u00e7\u00e3o de todas as formas de mis\u00e9ria e degrada\u00e7\u00e3o humanas (a \u00abselva escura\u00bb) e simultaneamente aponta para a meta derradeira: a felicidade, entendida quer como plenitude de vida na hist\u00f3ria quer como bem-aventuran\u00e7a eterna em Deus.<\/p>\n<p>Desta dupla finalidade, deste audacioso programa de vida, Dante \u00e9 mensageiro, profeta e testemunha, confirmado na sua miss\u00e3o por Beatriz: \u00abPor isso, em prol do mundo que mal vive, \/ ao carro p\u00f5e os olhos e o que v\u00eas \/ l\u00e1 regressado, a tua escrita o arquive\u00bb (<i>Purg.<\/i>\u00a0XXXII, 103-105). Tamb\u00e9m o seu antepassado Cacciaguida o exorta a n\u00e3o desfalecer na sua miss\u00e3o. Ao Poeta, que recorda brevemente o seu caminho nos tr\u00eas reinos do Al\u00e9m e assinala a dificuldade de comunicar as verdades que doem e incomodam, o ilustre antepassado responde: \u00ab\u2026 A consci\u00eancia fusca \/ ou j\u00e1 da pr\u00f3pria ou de alheia vergonha \/ bem sentir\u00e1 tua palavra brusca. \/ E tu por\u00e9m, sem que a mentir se ponha, \/ toda tua vis\u00e3o faz manifesta; \/ e deixa que se cocem onde h\u00e3o ronha\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XVII, 124-129). Um id\u00eantico incitamento a viver com coragem a sua miss\u00e3o prof\u00e9tica \u00e9 dirigido a Dante, no\u00a0<i>Para\u00edso<\/i>, por S\u00e3o Pedro, quando o Ap\u00f3stolo, depois duma tremenda invetiva contra Bonif\u00e1cio VIII, se dirige ao Poeta desta forma: \u00abE tu, filho, que voltar\u00e1s aonde o \/ mortal peso h\u00e1 de p\u00f4r-te, abre a boca, \/ e n\u00e3o escondas o que eu n\u00e3o escondo\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXVII, 64-66).<\/p>\n<p>Assim, na miss\u00e3o prof\u00e9tica de Dante, inserem-se tamb\u00e9m a den\u00fancia e a cr\u00edtica contra os crentes, tanto Pont\u00edfices como simples fi\u00e9is, que atrai\u00e7oam a ades\u00e3o a Cristo e transformam a Igreja num instrumento em prol dos pr\u00f3prios interesses, esquecendo o esp\u00edrito das Bem-aventuran\u00e7as e a caridade para com os pequenos e os pobres e idolatrando o poder e a riqueza: \u00abQue quanto a Igreja guarda, \u00e9 atributo \/ todo da gente que por Deus demande; \/ n\u00e3o de parentes nem de outro mais bruto\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXII, 82-84). Mas, atrav\u00e9s das palavras de S\u00e3o Pedro Dami\u00e3o, S\u00e3o Bento e S\u00e3o Pedro, o Poeta, ao mesmo tempo que denuncia a corrup\u00e7\u00e3o dalguns setores da Igreja, faz-se porta-voz de uma renova\u00e7\u00e3o profunda e invoca a Provid\u00eancia para que a favore\u00e7a e torne poss\u00edvel: \u00abMas a alta provid\u00eancia, que a Cipi\u00e3o \/ foi a romana gl\u00f3ria nas m\u00e3os pondo, \/ cedo vir\u00e1, em minha conce\u00e7\u00e3o\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXVII, 61-63).<\/p>\n<p>E assim Dante exilado, peregrino, fr\u00e1gil, mas agora forte pela profunda e \u00edntima experi\u00eancia que o transformou, renascido gra\u00e7as \u00e0 vis\u00e3o que, das profundezas dos infernos, da mais degradada condi\u00e7\u00e3o humana, o elevou \u00e0 pr\u00f3pria vis\u00e3o de Deus, ascende a mensageiro duma nova exist\u00eancia, a profeta duma nova humanidade que anseia pela paz e a felicidade.<\/p>\n<p><i>4. Dante cantor do desejo humano<\/i><\/p>\n<p>Dante \u00e9 capaz de ler o cora\u00e7\u00e3o humano em profundidade; e em todos, mesmo nas figuras mais abjetas e molestas, consegue vislumbrar uma cintila de desejo de alcan\u00e7ar alguma felicidade, uma plenitude de vida. Det\u00e9m-se a escutar as almas que encontra, dialoga com elas, interpela-as para se adentrar e participar nos seus tormentos ou na sua beatitude. Assim, partindo da sua condi\u00e7\u00e3o pessoal, o Poeta faz-se int\u00e9rprete do desejo que todo o ser humano tem de continuar o caminho enquanto n\u00e3o chegar ao destino final, n\u00e3o encontrar a verdade, a resposta aos porqu\u00eas da exist\u00eancia, enquanto o cora\u00e7\u00e3o \u2013 como j\u00e1 afirmava Santo Agostinho<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>\u00a0\u2013 n\u00e3o encontrar repouso e paz em Deus.<\/p>\n<p>No\u00a0<i>Conv\u00edvio<\/i>, analisa precisamente o dinamismo do desejo. \u00abO desejo supremo de todas as coisas, conferido de in\u00edcio pela natureza, \u00e9 retornar ao seu princ\u00edpio. E como Deus \u00e9 princ\u00edpio das nossas almas, (&#8230;) a alma deseja intensamente retornar a Ele. E como um peregrino, que segue um caminho nunca antes percorrido por ele \u2013 quando avista de longe uma casa espera que seja a hospedaria, acabando depois por verificar que n\u00e3o o \u00e9, ent\u00e3o deposita a sua esperan\u00e7a noutra e assim, de casa em casa, at\u00e9 encontrar finalmente a hospedaria \u2013, a nossa alma, ansiosa por ter entrado no novo e nunca percorrido caminho desta vida, dirige o olhar para a meta do seu bem supremo, acreditando encontr\u00e1-lo em tudo o que v\u00ea e lhe parece ter em si algum bem\u00bb (IV, XII, 14-15).<\/p>\n<p>O itiner\u00e1rio de Dante, ilustrado sobretudo na\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>, \u00e9 verdadeiramente o caminho do desejo, da necessidade profunda e interior de mudar a sua pr\u00f3pria vida para poder alcan\u00e7ar a felicidade e, assim, mostrar a estrada a quem se encontra, como ele, numa \u00abselva escura\u00bb e perdeu \u00aba direita via\u00bb. Al\u00e9m disso, \u00e9 significativo que, desde a primeira etapa deste percurso, o seu guia \u2013 o grande poeta latino Virg\u00edlio \u2013 lhe indique a meta aonde deve chegar, incitando-o a n\u00e3o ceder ao medo nem ao cansa\u00e7o: \u00abMas porque volves ao ansioso enleio? \/ Porque n\u00e3o vais ao deleitoso monte \/ que \u00e9 raz\u00e3o da alegria e dela cheio?\u00bb (<i>Inf.<\/i>\u00a0I, 76-78).<\/p>\n<p><i>5. Poeta da miseric\u00f3rdia de Deus e da liberdade humana<\/i><\/p>\n<p>Trata-se de um caminho que n\u00e3o \u00e9 ilus\u00f3rio nem ut\u00f3pico, mas realista e poss\u00edvel, onde todos podem entrar, porque a miseric\u00f3rdia de Deus oferece sempre a possibilidade de mudar, converter-se, encontrar-se a si mesmo e encontrar a via para a felicidade. A prop\u00f3sito, s\u00e3o significativos alguns epis\u00f3dios e personagens da\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>, que mostram como tal via n\u00e3o esteja vedada a ningu\u00e9m na terra; exemplo disso \u00e9 o imperador Trajano, pag\u00e3o mas colocado no Para\u00edso. Dante justifica esta presen\u00e7a assim: \u00ab<i>Regnum coelorum<\/i>\u00a0a viol\u00eancia h\u00e1 de \/ sofrer de quente amor, viva esperan\u00e7a, \/ que vence assim a divinal vontade; \/ n\u00e3o de homem que homem a vencer se lan\u00e7a, \/ mas vence-a, pois quer ela ser vencida, \/ para vencer ent\u00e3o benigna e mansa\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XX, 94-99). O gesto de caridade de Trajano para com uma \u00abvi\u00fava\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XX, 45) ou a \u00ablagrimeta\u00bb de arrependimento derramada \u00e0 hora da morte pelo Buonconte de Montefeltro (<i>Purg.<\/i>\u00a0V, 107) n\u00e3o s\u00f3 mostram a infinita miseric\u00f3rdia de Deus, mas confirmam tamb\u00e9m que o ser humano pode sempre, com a sua liberdade, escolher qual caminho seguir e qual sorte merecer.<\/p>\n<p>Sob esta luz, \u00e9 significativo o rei Manfredo, colocado por Dante no Purgat\u00f3rio e que assim recorda o seu fim e a senten\u00e7a divina: \u00abDepois que se rompeu minha pessoa \/ de feridas mortais, eu me rendi, \/ chorando, a quem de bom grado perdoa. \/ Eu horr\u00edveis pecados cometi; \/ mas bondade infinita tanto abra\u00e7a \/ que quem se a ela volta aceitar vi\u00bb (<i>Purg.<\/i>\u00a0III, 118-123). Parece quase vislumbrar-se a figura do pai da par\u00e1bola evang\u00e9lica, com os bra\u00e7os abertos pronto a acolher o filho pr\u00f3digo que volta para ele (cf.\u00a0<i>Lc<\/i>\u00a015, 11-32).<\/p>\n<p>Dante faz-se paladino da dignidade de todo o ser humano e da liberdade como condi\u00e7\u00e3o fundamental tanto das op\u00e7\u00f5es de vida como da pr\u00f3pria f\u00e9. O destino eterno do homem \u2013 sugere Dante ao narrar-nos as hist\u00f3rias de tantas personagens, ilustres ou pouco conhecidas \u2013 depende das suas escolhas, da sua liberdade: os pr\u00f3prios gestos di\u00e1rios, aparentemente insignificantes, t\u00eam um alcance que se estende para al\u00e9m do tempo, s\u00e3o projetados na dimens\u00e3o eterna. O maior dom de Deus ao homem, para que possa alcan\u00e7ar a meta \u00faltima, \u00e9 precisamente a liberdade, como afirma Beatriz: \u00abO maior dom que Deus em tal largueza \/ j\u00e1 fez criando e \u00e0 sua bondade \/ mais conformado e esse que mais preza, \/ foi ter-se de vontade liberdade\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0V, 19-22). N\u00e3o s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es ret\u00f3ricas e vagas, visto que brotam da exist\u00eancia de quem conhece o pre\u00e7o da liberdade: \u00abLiberdade ele busca, que \u00e9 t\u00e3o cara, \/ e sabe-o quem por ela a vida enjeita\u00bb (<i>Purg.<\/i>\u00a0I, 71-72).<\/p>\n<p>Mas a liberdade \u2013 lembra-nos Alighieri \u2013 n\u00e3o \u00e9 fim em si mesma; \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para subir continuamente. E o percurso nos tr\u00eas reinos ilustra-nos plasticamente esta subida at\u00e9 tocar o C\u00e9u, alcan\u00e7ar a plena felicidade. O \u00abalto desejo\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXII, 61), suscitado pela liberdade, n\u00e3o pode extinguir-se sen\u00e3o em presen\u00e7a da meta, na vis\u00e3o \u00faltima e na bem-aventuran\u00e7a: \u00abE eu que ao termo da \u00e2nsia toda vi \/ me aproximava, tal como devia, \/ o fim de tal ardor em mi senti\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXIII, 46-48). Depois o desejo faz-se tamb\u00e9m ora\u00e7\u00e3o, s\u00faplica, intercess\u00e3o, canto que acompanha e assinala o itiner\u00e1rio de Dante, tal como a ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica cadencia as horas e os momentos da jornada. A par\u00e1frase do\u00a0<i>Pai Nosso<\/i>, que o Poeta prop\u00f5e (cf.\u00a0<i>Purg.<\/i>\u00a0XI, 1-21), entrela\u00e7a o texto do Evangelho com a experi\u00eancia pessoal, com as suas dificuldades e sofrimentos: \u00abVenha a n\u00f3s do teu reino assim tamanho \/ a paz, que s\u00f3 por n\u00f3s n\u00e3o vamos ter (\u2026). D\u00e1-nos hoje a man\u00e1 quotidiana, \/ sem a qual por este \u00e1spero deserto, \/ atr\u00e1s vai quem avante mais se afana\u00bb (7-8.13-15). A liberdade de quem acredita em Deus como Pai misericordioso n\u00e3o pode sen\u00e3o confiar-se a Ele na ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sendo por isso minimamente lesada, mas antes refor\u00e7ada.<\/p>\n<p><i>6. A imagem do homem na vis\u00e3o de Deus<\/i><\/p>\n<p>No itiner\u00e1rio da\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>, como j\u00e1 sublinhava o Papa Bento XVI, o caminho da liberdade e do desejo n\u00e3o traz consigo \u2013 como porventura se poderia imaginar \u2013 uma redu\u00e7\u00e3o do humano na sua realidade concreta, n\u00e3o aliena a pessoa de si mesma, n\u00e3o anula nem negligencia o que constituiu a sua exist\u00eancia hist\u00f3rica. Com efeito, mesmo no\u00a0<i>Para\u00edso<\/i>, Dante representa os bem-aventurados \u2013 as \u00abalvas\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXX, 129) \u2013 no seu aspeto corp\u00f3reo, evoca os seus afetos e emo\u00e7\u00f5es, os seus olhares e gestos, em resumo, mostra-nos a humanidade na sua perfei\u00e7\u00e3o completa de alma e corpo, prefigurando a ressurrei\u00e7\u00e3o da carne. S\u00e3o Bernardo, que acompanha Dante no \u00faltimo trecho do caminho, mostra ao Poeta as crian\u00e7as presentes na rosa dos bem-aventurados e convida-o a observ\u00e1-las e ouvi-las: \u00abDos rostos podes v\u00ea-lo se os perscrutas \/ e tamb\u00e9m pelas vozes pueris, \/ se j\u00e1 os bem contemplas e os escutas\u00bb (<i>Par.\u00a0<\/i>XXXII, 46-48). Resulta comovente ver como esta manifesta\u00e7\u00e3o dos bem-aventurados na sua luminosa humanidade integral \u00e9 motivada n\u00e3o s\u00f3 por sentimentos de afeto pelos seus entes queridos, mas sobretudo pelo desejo expl\u00edcito de voltar a ver os seus corpos, as fei\u00e7\u00f5es terrenas: \u00abSeus corpos desejando antes da morte; \/ talvez n\u00e3o s\u00f3 por si, mas pela m\u00e3e, \/ pelo pai, pelos mais que cada amava, \/ antes de eterna chama ser tamb\u00e9m\u00bb (<i>Par.\u00a0<\/i>XIV, 63-66).<\/p>\n<p>E, finalmente, no centro da vis\u00e3o \u00faltima, no encontro com o Mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade, Dante vislumbra precisamente um Rosto humano, o de Cristo, da Palavra eterna feita carne no seio de Maria: \u00abE na profunda e clara subsist\u00eancia \/ do alto lume tr\u00eas c\u00edrculos vi vir \/ de tr\u00eas cores e de uma contin\u00eancia (&#8230;). Nessa circula\u00e7\u00e3o, que assim concepta \/ parecia em ti lume refletido, \/ dos olhos meus um pouco circunspecta, \/ dentro de si, do pr\u00f3prio colorido, \/ me apareceu pintada nossa ef\u00edgie\u00bb (<i>Par.\u00a0<\/i>XXXIII 115-117.127-131). S\u00f3 na vis\u00e3o de Deus se aplaca o desejo do homem, e termina todo o seu fatigoso caminho: \u00abEnt\u00e3o a mente me era percutida \/ por um fulgor em que seu querer veio. \/ Foi a alta fantasia aqui colhida\u00bb (<i>Par.\u00a0<\/i>XXXIII, 140-142).<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, que hoje celebramos, \u00e9 o verdadeiro centro inspirador e o n\u00facleo essencial de todo o poema. Nele realiza-se o que os Padres da Igreja chamavam \u00abdiviniza\u00e7\u00e3o\u00bb,\u00a0<i>admirabile commercium<\/i>\u00a0\u2013 o prodigioso interc\u00e2mbio, pelo qual, ao mesmo tempo que Deus entra na nossa hist\u00f3ria fazendo-Se carne, o ser humano, com a sua carne, pode entrar na realidade divina, simbolizada pela rosa dos bem-aventurados. A humanidade, na sua realidade concreta, com os gestos e as palavras di\u00e1rias, com a sua intelig\u00eancia e afetos, com o corpo e as emo\u00e7\u00f5es, \u00e9 assumida em Deus, no Qual encontra a verdadeira felicidade e a realiza\u00e7\u00e3o plena e \u00faltima, meta de todo o seu caminho. Dante havia desejado e previsto esta meta no in\u00edcio do\u00a0<i>Para\u00edso<\/i>: \u00abMais o desejo aceso ent\u00e3o surgiu \/ de ver aquela ess\u00eancia em que se v\u00ea \/ como nossa natura e Deus se uniu. \/ L\u00e1 se ver\u00e1 o que se tem por f\u00e9, \/ n\u00e3o demonstrado, mas por si \u00e9 noto \/ qual verdade primeira que o homem cr\u00ea\u00bb (<i>Par.\u00a0<\/i>II, 40-45).<\/p>\n<p><i>7. As tr\u00eas mulheres da Divina Com\u00e9dia: Maria, Beatriz, Luzia<\/i><\/p>\n<p>Cantando o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, fonte de salva\u00e7\u00e3o e alegria para toda a humanidade, Dante n\u00e3o pode deixar de cantar os louvores de Maria, a Virgem M\u00e3e que, com o seu \u00absim\u00bb, com a sua aceita\u00e7\u00e3o plena e total do projeto de Deus, torna poss\u00edvel que o Verbo Se fa\u00e7a carne. Na obra de Dante, encontramos um tratado estupendo de mariologia: com acentua\u00e7\u00f5es l\u00edricas sublimes, particularmente na ora\u00e7\u00e3o pronunciada por S\u00e3o Bernardo, sintetiza toda a reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre Maria e a sua participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio de Deus: \u00abVirgem e m\u00e3e, que \u00e9s filha de teu filho, \/ humilde e alta mais que criatura, \/ de eterno querer termo fixo e brilho, \/ aquela \u00e9s que a humanal natura \/ tanto nobilitaste, que o fator \/ n\u00e3o desdenhou fazer de si feitura\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXIII, 1-6). O oximoro inicial e a sucess\u00e3o de termos antit\u00e9ticos destacam a originalidade da figura de Maria, a sua beleza singular.<\/p>\n<p>S\u00e3o Bernardo, mostrando os bem-aventurados colocados na rosa m\u00edstica, convida Dante a contemplar Maria, que deu as fei\u00e7\u00f5es humanas ao Verbo Encarnado: \u00abContempla agora a face tal que a Cristo \/ mais se assemelha, pois sua clareza \/ s\u00f3 te pode dispor a veres Cristo\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXII, 85-87). O mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 de novo evocado pela presen\u00e7a do Arcanjo Gabriel. Dante pergunta a S\u00e3o Bernardo: \u00abQuem \u00e9 esse anjo em t\u00e3o festivo jogo \/ que na nossa rainha o olhar atina, \/ e t\u00e3o enamorado \u00e9 quase fogo?\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXII, 103-105). E o Santo responde: \u00abEle \u00e9 esse que levou a palma \/ l\u00e1 a Maria quando o Filho de Deus \/ quis carregar com toda a nossa xalma\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXII, 112-114). A refer\u00eancia a Maria \u00e9 constante em toda a\u00a0<i>Divina Com\u00e9dia<\/i>. Ao longo do percurso no Purgat\u00f3rio, \u00e9 o modelo das virtudes que se op\u00f5em aos v\u00edcios; \u00e9 a estrela da manh\u00e3 que ajuda a sair da selva escura para se encaminhar rumo ao monte de Deus; \u00e9 a presen\u00e7a constante, atrav\u00e9s da sua invoca\u00e7\u00e3o (\u00abNome da bela flor que sempre rogo, \/ manh\u00e3 e tarde, \u2026\u00bb:\u00a0<i>Par.<\/i>\u00a0XXIII, 88-89), que prepara para o encontro com Cristo e com o mist\u00e9rio da Deus.<\/p>\n<p>Dante, que nunca est\u00e1 sozinho no seu caminho, mas se deixa guiar primeiro por Virg\u00edlio, s\u00edmbolo da raz\u00e3o humana, e depois por Beatriz e S\u00e3o Bernardo, agora, gra\u00e7as \u00e0 intercess\u00e3o de Maria, pode chegar \u00e0 p\u00e1tria e gozar a alegria plena desejada em cada momento da exist\u00eancia: \u00ab\u2026 e ainda me distila \/ ao cora\u00e7\u00e3o dul\u00e7or que lhe come\u00e7a\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXIII, 62-63). N\u00e3o nos salvamos sozinhos (parece repetir-nos o Poeta, consciente da sua insufici\u00eancia): \u00abPor mim pr\u00f3prio n\u00e3o venho\u00bb (<i>Inf.<\/i>\u00a0X, 61); \u00e9 necess\u00e1rio que o caminho seja empreendido em companhia de quem nos possa apoiar e guiar com sabedoria e prud\u00eancia.<\/p>\n<p>Neste contexto, resulta significativa a presen\u00e7a feminina. No in\u00edcio do fatigoso itiner\u00e1rio, Virg\u00edlio \u2013 o primeiro guia \u2013 conforta e encoraja Dante a prosseguir, porque tr\u00eas mulheres intercedem por ele e o h\u00e3o de guiar: Maria, a M\u00e3e de Deus, figura da caridade; Beatriz, s\u00edmbolo de esperan\u00e7a; Santa Luzia, imagem da f\u00e9. Com palavras comoventes, assim se apresenta Beatriz: \u00abEu sou Beatriz, ora a fazer-te andar; \/ do lugar venho a que voltar pretendo, \/ e amor me move, que me faz falar\u00bb (<i>Inf.<\/i>\u00a0II, 70-72), afirmando que a \u00fanica fonte que nos pode dar a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 o amor, o amor divino que transfigura o amor humano. Depois Beatriz remete para a intercess\u00e3o doutra mulher, a Virgem Maria: \u00abUma gentil senhora no c\u00e9u plange \/ o impedimento a que enviar-te entendo, \/ e o mais duro ju\u00edzo assim confrange\u00bb (<i>Inf.<\/i>\u00a0II, 94-96). Depois interv\u00e9m Luzia, que se dirige a Beatriz: \u00abBeatriz, divina loa verdadeira, \/ pois n\u00e3o socorrer\u00e1s quem te amou tanto, \/ que abandonou por ti vulgar fileira?\u00bb (<i>Inf.<\/i>\u00a0II, 103-105). Dante reconhece que somente quem \u00e9 movido pelo amor pode verdadeiramente apoiar-nos no caminho e levar-nos \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, ao renovamento da vida e, consequentemente, \u00e0 felicidade.<\/p>\n<p><i>8. Francisco, esposo da senhora Pobreza<\/i><\/p>\n<p>Na c\u00e2ndida rosa dos bem-aventurados, em cujo centro brilha a figura de Maria, Dante coloca tamb\u00e9m numerosos santos, cuja vida e miss\u00e3o esbo\u00e7a, para os propor como figuras que, na realidade concreta da sua exist\u00eancia e mesmo atrav\u00e9s de numerosas prova\u00e7\u00f5es, alcan\u00e7aram a finalidade da sua vida e da sua voca\u00e7\u00e3o. Mencionarei brevemente apenas a figura de S\u00e3o Francisco de Assis, ilustrada no canto XI do\u00a0<i>Para\u00edso<\/i>, onde se fala dos esp\u00edritos sapientes.<\/p>\n<p>Existe uma profunda sintonia entre S\u00e3o Francisco e Dante: o primeiro, juntamente com os seus companheiros, saiu do convento e foi para o meio do povo, pelas estradas de aldeias e cidades, pregando ao povo, parando nas casas; o segundo fez a escolha, ent\u00e3o incompreens\u00edvel, de usar no grande poema do Al\u00e9m a linguagem de todos e povoando a sua narra\u00e7\u00e3o com personagens conhecidos e menos conhecidos, mas completamente iguais em dignidade aos poderosos da terra. Outro tra\u00e7o une os dois personagens: a abertura \u00e0 beleza e ao valor do mundo das criaturas, espelho e \u00abvest\u00edgio\u00bb do seu Criador. Como n\u00e3o reconhecer nestes versos da par\u00e1frase de Dante ao\u00a0<i>Pai-Nosso<\/i>\u00a0\u2013 \u00absejas louvado em nome e em valor \/ por toda a criatura\u2026\u00bb (<i>Purg.<\/i>\u00a0XI, 4-5) \u2013 uma refer\u00eancia ao\u00a0<i>C\u00e2ntico das Criaturas<\/i>\u00a0de S\u00e3o Francisco?<\/p>\n<p>No canto XI do\u00a0<i>Para\u00edso<\/i>, essa conson\u00e2ncia aparece com um novo aspeto, que os torna ainda mais semelhantes. A santidade e a sabedoria de Francisco sobressaem precisamente porque Dante, olhando do c\u00e9u a nossa terra, vislumbra a tacanhez de quem confia nos bens terrenos: \u00ab\u00d3 cuidar insensato dos mortais, \/ por quantos defetivos silogismos \/ fazem que asas ao fundo a dar tu vais!\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XI, 1-3). Toda a hist\u00f3ria ou, melhor, a \u00abvida admir\u00e1vel\u00bb do santo assenta sobre a sua rela\u00e7\u00e3o privilegiada com a senhora Pobreza: \u00abMas por que eu n\u00e3o pare\u00e7a assaz escuso, \/ Francisco e a Pobreza por amantes \/ entendas ora em meu falar difuso\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XI, 73-75). No canto de S\u00e3o Francisco, recordam-se os momentos salientes da sua vida, as suas prova\u00e7\u00f5es e por fim o acontecimento no qual a sua configura\u00e7\u00e3o a Cristo, pobre e crucificado, encontra a sua extrema, divina confirma\u00e7\u00e3o na marca dos estigmas: \u00abPorque de mais azeda j\u00e1 observa \/ a gente \u00e0 f\u00e9, por n\u00e3o ficar em v\u00e3o, \/ ao fruto regressou da \u00edtala erva, \/ e entre Arno e Tibre em cru penedo ent\u00e3o \/ foi ter de Cristo o \u00faltimo sigilo, \/ que dois anos seus membros levar\u00e3o\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XI, 103-108).<\/p>\n<p><i>9. Acolher o testemunho de Dante Alighieri<\/i><\/p>\n<p>No final deste olhar sint\u00e9tico \u00e0 obra de Dante Alighieri, uma mina quase infinita de conhecimentos, experi\u00eancias, considera\u00e7\u00f5es em todos os campos da pesquisa humana, imp\u00f5e-se uma reflex\u00e3o. A riqueza de figuras, narra\u00e7\u00f5es, s\u00edmbolos, imagens sugestivas e atraentes que Dante nos prop\u00f5e suscita certamente admira\u00e7\u00e3o, maravilha, gratid\u00e3o. Nele podemos quase entrever um precursor da nossa cultura multimedi\u00e1tica, na qual palavras e imagens, s\u00edmbolos e sons, poesia e dan\u00e7a se fundem numa \u00fanica mensagem. Assim se compreende por que o seu poema tenha inspirado a cria\u00e7\u00e3o de in\u00fameras obras de arte de todo o g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Mas a obra do insigne Poeta suscita tamb\u00e9m alguns desafios para os nossos dias. Que poder\u00e1 ela comunicar-nos, no nosso tempo? Ter\u00e1 ainda algo a dizer-nos, a oferecer-nos? Ter\u00e1 a sua mensagem alguma fun\u00e7\u00e3o a desempenhar tamb\u00e9m para n\u00f3s na atualidade? Poder\u00e1 ainda interpelar-nos?<\/p>\n<p>Hoje Dante \u2013 tentemos fazer-nos int\u00e9rpretes da sua voz \u2013 n\u00e3o nos pede para ser simplesmente lido, comentado, estudado, analisado. Pede-nos sobretudo para ser escutado, ser de certo modo imitado, fazer-nos seus companheiros de viagem, porque quer-nos mostrar tamb\u00e9m hoje qual \u00e9 o itiner\u00e1rio para a felicidade, a direita via para viver plenamente a nossa humanidade, superando as selvas escuras onde perdemos a orienta\u00e7\u00e3o e a dignidade. A viagem de Dante e a sua vis\u00e3o da vida al\u00e9m da morte n\u00e3o s\u00e3o simplesmente objeto duma narra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o constituem apenas um acontecimento pessoal, embora excecional.<\/p>\n<p>Se Dante conta tudo isto (e f\u00e1-lo de maneira admir\u00e1vel), usando a linguagem vulgar do povo, a l\u00edngua que todos podiam compreender, elevando-a a l\u00edngua universal, \u00e9 porque tem uma mensagem importante a transmitir-nos, uma palavra que quer tocar o nosso cora\u00e7\u00e3o e a nossa mente, destinada a transformar-nos e mudar-nos j\u00e1 agora, nesta vida. \u00c9 uma mensagem que pode e deve tornar-nos plenamente conscientes daquilo que somos e daquilo que vivemos dia ap\u00f3s dia na tens\u00e3o interior e cont\u00ednua para a felicidade, para a plenitude da exist\u00eancia, para a p\u00e1tria \u00faltima onde estaremos em plena comunh\u00e3o com Deus, Amor infinito e eterno. Embora Dante seja um homem do seu tempo e possua sensibilidade diferente da nossa em alguns assuntos, todavia o seu humanismo \u00e9 ainda v\u00e1lido e atual e pode certamente constituir um ponto de refer\u00eancia para aquilo que queremos construir no nosso tempo.<\/p>\n<p>Por isso, aproveitando esta ocasi\u00e3o prop\u00edcia do centen\u00e1rio, \u00e9 importante que a obra de Dante seja dada a conhecer ainda melhor e de maneira mais adequada, isto \u00e9, seja tornada acess\u00edvel e atraente n\u00e3o s\u00f3 para alunos e estudiosos, mas tamb\u00e9m para todos aqueles que, ansiosos por dar resposta \u00e0s quest\u00f5es interiores, desejosos de realizar em plenitude a sua exist\u00eancia, querem viver o seu itiner\u00e1rio de vida e de f\u00e9 de forma consciente, acolhendo e vivendo com gratid\u00e3o o dom e o compromisso da liberdade.<\/p>\n<p>Congratulo-me naturalmente com os professores que s\u00e3o capazes de comunicar com paix\u00e3o a mensagem de Dante, introduzir no tesouro cultural, religioso e moral contido nas suas obras. Mas este patrim\u00f3nio pede para ser tornado acess\u00edvel fora das aulas das escolas e universidades.<\/p>\n<p>Exorto as comunidades crist\u00e3s, sobretudo as estabelecidas nas cidades que conservam as mem\u00f3rias de Dante, as institui\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas, as associa\u00e7\u00f5es e os movimentos culturais a promoverem iniciativas visando o conhecimento e a difus\u00e3o da mensagem de Dante na sua plenitude.<\/p>\n<p>De maneira particular encorajo os artistas a dar voz, rosto e cora\u00e7\u00e3o, a dar forma, cor e som \u00e0 poesia de Dante, ao longo da via da beleza que ele percorreu magistralmente; e assim comunicar as verdades mais profundas e, com as linguagens pr\u00f3prias da arte, difundir mensagens de paz, liberdade, fraternidade.<\/p>\n<p>Neste momento hist\u00f3rico particular, marcado por muitas sombras, por situa\u00e7\u00f5es que degradam a humanidade, por falta de confian\u00e7a e de perspetivas para o futuro, a figura de Dante, profeta de esperan\u00e7a e testemunha do desejo humano de felicidade, pode ainda dar-nos palavras e exemplos que estimulam o nosso caminho. Pode ajudar-nos a avan\u00e7ar, com serenidade e coragem, na peregrina\u00e7\u00e3o da vida e da f\u00e9 que todos somos chamados a realizar at\u00e9 o nosso cora\u00e7\u00e3o encontrar a verdadeira paz e a verdadeira alegria, at\u00e9 chegarmos \u00e0 meta \u00faltima de toda a humanidade, \u00abo amor que move o sol e as mais estrelas\u00bb (<i>Par.<\/i>\u00a0XXXIII, 145).<\/p>\n<p><i>Vaticano, na solenidade da Anuncia\u00e7\u00e3o do Senhor, 25 de mar\u00e7o do ano de 2021, nono do meu pontificad<\/i>o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><b>Francisco<\/b><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref*\" name=\"_ftn*\">[*]<\/a>\u00a0Usou-se a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa da obra bilingue de VASCO GRA\u00c7A MOURA,\u00a0<i>A Divina Com\u00e9dia de Dante Alighieri<\/i>, Bertrand Editora \u2013 Venda Nova,\u00a0<sup>5<\/sup>2000.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Carta enc.\u00a0<i>In praeclara summorum<\/i>\u00a0(30 de abril de 1921):\u00a0<i>AAS<\/i>\u00a013 (1921), 209-217<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Cf.\u00a0<i>ibidem<\/i>:\u00a0<i>o. c.<\/i>\u00a0210<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0Epistola\u00a0<i>Nobis, ad Catholicam<\/i>\u00a0(28 de outubro de 1914):\u00a0<i>AAS<\/i>\u00a06 (1914), 540.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0<i>Discurso ao Sacro Col\u00e9gio e \u00e0 Prelatura Romana<\/i>\u00a0(23 de dezembro de 1965):\u00a0<i>AAS<\/i>\u00a058 (1966), 80<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0Cf.\u00a0<i>AAS<\/i>\u00a058 (1966), 22-37.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0<i><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/speeches\/2006\/january\/documents\/hf_ben-xvi_spe_20060123_cor-unum.html\">Discurso aos participantes no Encontro promovido pelo Pontif\u00edcio Conselho \u00abCor Unum\u00bb<\/a><\/i>\u00a0(23 de janeiro de 2006):\u00a0<i>Insegnamenti<\/i>\u00a02006, II\/1, 92-93.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0<i><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/speeches\/2006\/january\/documents\/hf_ben-xvi_spe_20060123_cor-unum.html\">Ibidem<\/a><\/i>:\u00a0<i>o. c.<\/i>, 93.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0Cf. Carta enc.\u00a0<i><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei.html\">Lumen fidei<\/a><\/i>\u00a0(29 de junho de 2013), 4:\u00a0<i>AAS<\/i>\u00a0105 (2013), 557.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0<i><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/pont-messages\/2015\/documents\/papa-francesco_20150504_messaggio-dante-alighieri.html\">Mensagem ao Presidente do Pontif\u00edcio Conselho para a Cultura<\/a><\/i>\u00a0(4 de maio de 2015):\u00a0<i>AAS<\/i>\u00a0107 (2015), 551-552.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0<i><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/pont-messages\/2015\/documents\/papa-francesco_20150504_messaggio-dante-alighieri.html\">Ibidem<\/a><\/i>:\u00a0<i>o. c.<\/i>, 552.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0<i>L\u2019Osservatore Romano<\/i>\u00a0(10 de outubro de 2020), 7.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20210325_centenario-dante.html#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0Cf.\u00a0<i>Confiss\u00f5es<\/i>, I, 1, 1:\u00a0<i>PL<\/i>\u00a032, 661.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content parsys\"><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\">\u00a9 Copyright &#8211; 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