{"id":187237,"date":"2020-07-31T05:02:37","date_gmt":"2020-07-31T08:02:37","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=187237"},"modified":"2020-07-31T09:11:45","modified_gmt":"2020-07-31T12:11:45","slug":"a-gripe-espanhola-de-1918-relatos-de-um-frade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-gripe-espanhola-de-1918-relatos-de-um-frade\/","title":{"rendered":"A Gripe Espanhola de 1918: relatos de um frade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-187275 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo_sandro_1.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo_sandro_1.jpg 1280w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo_sandro_1-450x253.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo_sandro_1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo_sandro_1-768x432.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo_sandro_1-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0O caos no Rio de Janeiro na gripe espanhola (imagem: Biblioteca Nacional Digital)<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro Roberto da Costa<\/strong><\/p>\n<p>Nos primeiros meses deste ano de 2020, a eclos\u00e3o da pandemia de Covid-19 deixou o mundo inteiro perplexo e assustado. De repente, redescobrimos o quanto somos fr\u00e1geis, limitados, impotentes. A inseguran\u00e7a e o medo diante de um inimigo invis\u00edvel vieram nos recordar a certeza da finitude humana. A imposi\u00e7\u00e3o do isolamento social fez passar a segundo plano projetos inadi\u00e1veis, sonhos, desejos. Manter-nos vivos e saud\u00e1veis passou a ser a prioridade. A dor, o abandono e o sofrimento de tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s, direta ou indiretamente atingidos pela doen\u00e7a, despertaram em muitos o melhor do ser humano: a solidariedade, a compaix\u00e3o, a partilha, o respeito. Mas tamb\u00e9m trouxeram \u00e0 tona comportamentos e atitudes arraigados desde sempre no cora\u00e7\u00e3o humano, que se revelaram muito mais nocivos e nefastos do que qualquer v\u00edrus: prepot\u00eancia, falta de empatia e de sensibilidade, desrespeito diante das l\u00e1grimas e do sofrimento do pr\u00f3ximo, al\u00e9m da manipula\u00e7\u00e3o da vida e da morte como fonte de benef\u00edcios pol\u00edticos e financeiros.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco mais de 100 anos, em plena primeira Guerra Mundial, o mundo enfrentava uma situa\u00e7\u00e3o, em muitos aspectos semelhante \u00e0 que estamos vivendo hoje. Certamente, precisamos considerar as diferen\u00e7as em termos demogr\u00e1ficos (cerca de 29 milh\u00f5es de habitantes no Brasil em 1918), e em termos de tecnologia, conhecimentos cient\u00edficos e sanit\u00e1rios e de meios de comunica\u00e7\u00e3o. Mas, como sempre, quem mais sofreu foram as pessoas mais pobres. Para ajudar-nos a refletir sobre a realidade que estamos vivendo, partilhamos com os confrades dois breves textos, escritos por Frei Pedro Sinzig, sobre a pandemia que assolou o mundo entre 1918 e 1919, que se chamou (erroneamente) de \u201cGripe Espanhola\u201d. O relato encontra-se na \u201cCr\u00f4nica da Prov\u00edncia Franciscana do Sul do Brasil \u2013 4\u00aa. Cr\u00f4nica (1915-1921)\u201d, e foram traduzidos por Frei Lauro Both, a quem agradecemos.<\/p>\n<p>A Gripe Espanhola, s\u00edndrome respirat\u00f3ria tamb\u00e9m conhecida como \u201cinfluenza\u201d, atingiu o mundo inteiro, entre 1918 e 1919. As estat\u00edsticas nos ajudam a entender o tamanho da trag\u00e9dia. Para uma popula\u00e7\u00e3o mundial de cerca de 2 bilh\u00f5es de pessoas, 500 milh\u00f5es foram infectados. Os mortos chegaram a cerca de 50 milh\u00f5es. A despeito das afirma\u00e7\u00f5es das autoridades de que a doen\u00e7a nunca chegaria ao Brasil, em fins de setembro de 1918, o navio Demerara atracava nos principais portos do pa\u00eds, trazendo pessoas infectadas da Europa. Constatados os primeiros casos, as autoridades afirmavam que seria uma \u201cdoen\u00e7a passageira\u201d. Acabou saindo do controle e o caos se instaurou, principalmente nas capitais. O n\u00famero de v\u00edtimas fatais ficou em torno de 35-40 mil pessoas (enquanto escrevo este texto, o n\u00famero de mortos por Covid no Brasil aproxima-se rapidamente dos 80 mil, com quase 2 milh\u00f5es de casos confirmados). De alta letalidade e cont\u00e1gio, sem vacina nem antibi\u00f3ticos, a \u201cGripe\u201d causou muito sofrimento. N\u00e3o havia um \u201csistema de sa\u00fade\u201d, e nem um Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que acabou sendo criado ap\u00f3s a pandemia. Com as informa\u00e7\u00f5es desencontradas e a improvisa\u00e7\u00e3o, o p\u00e2nico tomou conta da popula\u00e7\u00e3o e o colapso foi total. Proibi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o, fal\u00eancia na assist\u00eancia sanit\u00e1ria, de sa\u00fade e higiene, desemprego, fome, colapso no sistema funer\u00e1rio, foram algumas das consequ\u00eancias. Tamb\u00e9m em 1918 foram os pobres os que mais sofreram. A ponto de a Gripe Espanhola passar a ser conhecida como \u201cdoen\u00e7a de pobre\u201d. O preconceito fazia com que os ricos, mesmo que morressem da doen\u00e7a, tivessem o \u00f3bito registrado como \u201cdoen\u00e7a respirat\u00f3ria\u201d. Isso ajudou a camuflar o real n\u00famero de mortos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo-2-840.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"450\" \/><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-187244 alignright\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo-450-370x450.jpg\" alt=\"\" width=\"341\" height=\"415\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo-450-370x450.jpg 370w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo-450-150x182.jpg 150w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/artigo-450.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/>Como terapia, surgiam receitas m\u00e1gicas (a Cloroquina da \u00e9poca), como estas, sugeridas pelo Jornal do Commercio, do Rio: \u201cgargarejo com solu\u00e7\u00e3o de \u00e1cido t\u00edmido ou suco de lim\u00e3o, \u00f3leo gomenolado ou vaselina mentolada, sal de quinino ou pastilhas, lavagem intestinal de malva com macela, emplastos de farinha de linha\u00e7a com mostarda, camomila, solu\u00e7\u00f5es homeop\u00e1ticas para dores, ch\u00e1 de sabugueiro com caroba e casca de lim\u00e3o galego, entre muitos outros\u201d (Cfr. http:\/\/ihp.org.br\/26072015\/lib_ihp\/docs\/ofsf19830814.htm). A indica\u00e7\u00e3o de uma mistura terap\u00eautica de cacha\u00e7a, lim\u00e3o e mel pode estar na origem da caipirinha.<\/p>\n<p>Como podemos constatar, apesar dos imensos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, da consci\u00eancia da dignidade e direitos humanos, entre outros, passados pouco mais de 100 anos, muita coisa ainda n\u00e3o avan\u00e7ou. Os dois relatos de Frei Pedro, al\u00e9m de nos informar sobre o passado, podem nos ajudar a refletir um pouco sobre nosso presente e futuro, sobre nosso lugar no mundo, diante de situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o dram\u00e1ticas. O que mudou desde ent\u00e3o? Onde erramos? Tornamo-nos mais humanos? Somos capazes de ser agentes de esperan\u00e7a? O que mudar\u00e1 em n\u00f3s, nas nossas rela\u00e7\u00f5es com as pessoas, com as coisas, com Deus, no p\u00f3s-pandemia? Certamente s\u00e3o quest\u00f5es muito pessoais, que atingem a todos, e que esperam de cada um, uma resposta. Seguem os dois textos de frei Pedro.<\/p>\n<h3><strong>A epidemia de gripe de 1918<br \/>\nno Rio de Janeiro<\/strong><\/h3>\n<p>\u201cNo come\u00e7o de outubro, apareceu a gripe espanhola com tal intensidade que a metade da popula\u00e7\u00e3o ficou doente e no espa\u00e7o de tempo de algumas semanas, 27.000 pessoas foram atingidas. No mais das vezes, a doen\u00e7a n\u00e3o era grave, por\u00e9m, voltando alguma fraqueza, o que pode ser uma pequena coisa, reca\u00edda e trazer a morte. Foi t\u00e3o longe que todo o tr\u00e1fego tem sido atingido. Farm\u00e1cias, padarias, a\u00e7ougues, etc., fechavam as portas uma depois da outra, n\u00e3o havendo os conhecidos cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o. Muit\u00edssimos apenas curados tiveram que se expor a grandes esfor\u00e7os e assumir o cuidado dos membros doentes da fam\u00edlia, tal que eles mesmos eram novamente v\u00edtimas e, desta vez, com a doen\u00e7a que traz a morte. Em alguns casos, toda a fam\u00edlia ficava sem o cuidado, sem que fosse concedido aos doentes aliviar os \u00faltimos momentos dos parentes mais pr\u00f3ximos. O n\u00famero de falecidos era t\u00e3o grande, que apesar das prescri\u00e7\u00f5es higi\u00eanicas, de que o sepultamento fosse feito em 24 horas, muitos corpos ficavam dois ou tr\u00eas, em alguns casos mesmo cinco dias permanecendo abandonados, empesteavam as casas e, \u00e0s vezes, moradores desesperados os abandonavam na rua. Caminh\u00f5es levavam corpos amontoados um sobre os outros para os cemit\u00e9rios, onde tudo parava e mesmo com ajuda dos agentes da penitenci\u00e1ria, n\u00e3o era poss\u00edvel deixar prontos o n\u00famero suficiente de covas . O maior n\u00famero de v\u00edtimas foi de 12 a 25 de outubro. O n\u00famero de bondes foi diminu\u00eddo sensivelmente e mesmo os poucos bondes andavam muitas vezes vazios, como uma cidade sem pessoas vivas. A central telef\u00f4nica n\u00e3o dispunha mais do pessoal necess\u00e1rio para manter o seu funcionamento em p\u00e9, justamente agora quando era duplamente necess\u00e1ria. Correio e tel\u00e9grafo, tudo sofria com a \u2018espanhola\u2019. De todos os lados, e n\u00e3o por \u00faltimo pelo clero, aconteceu o humanamente poss\u00edvel, em alguns casos o sobre humano, em trazer a ajuda e diminuir o sofrimento, o \u00faltimo rasgo de esperan\u00e7a neste tempo muito dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>A Gripe Espanhola em Petr\u00f3polis<\/strong><\/h3>\n<p>\u201cNo m\u00eas de outubro, toda a cidade do Rio de Janeiro ficou atacada pela denominada gripe espanhola, que, numa carta pastoral do Cardeal, foi denominada como \u2018peste\u2019. Tamb\u00e9m em Petr\u00f3polis, nestas semanas de sofrimento, houve muitas v\u00edtimas, uma estimativa de 900 mortes. Durante todo o dia, um caminh\u00e3o preto coberto trazia os corpos para o cemit\u00e9rio, onde, durante a noite, eram enterrados. Num dia se contou 60 enterros, sendo necess\u00e1ria a amplia\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel do cemit\u00e9rio. O servi\u00e7o p\u00fablico civil cuidou dos pobres, foram organizados v\u00e1rios postos sanit\u00e1rios, onde eram distribu\u00eddos alimentos e medicamentos. V\u00e1rias comiss\u00f5es procuraram os doentes e trouxeram ajuda enquanto era poss\u00edvel. Em v\u00e1rios lugares, foram entregues hospitais militares em a\u00e7\u00e3o, assim na grande casa dos padres lazaristas e do Centro Cat\u00f3lico. Em hospital de isolamento, as Irm\u00e3s de Santa Catarina se encarregaram do tratamento, em que v\u00e1rias delas ficaram doentes e uma delas faleceu. A Ordem Terceira organizou em nosso Convento um posto de atendimento, nossos padres estavam quase dia e noite fora, na ajuda aos doentes a dar os Sacramentos. Alguns frades pegaram a gripe, no entanto, nenhum deles faleceu\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Frei Sandro Roberto da Costa<\/strong><em> \u00e9 professor no Instituto Teol\u00f3gico Franciscano \u2013 Petr\u00f3polis, RJ, onde leciona as disciplinas Hist\u00f3ria da Igreja Antiga e Medieval. \u00c9 membro do Conselho Editorial da Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira e atua em cursos sobre hist\u00f3ria da Igreja e da Ordem Franciscana em geral, hist\u00f3ria dos franciscanos na Am\u00e9rica Latina e no Brasil. Presta assessoria e consultoria a institui\u00e7\u00f5es religiosas e de ensino. \u00c9 autor de in\u00fameros artigos na \u00e1rea de Hist\u00f3ria da Igreja, Hist\u00f3ria do Franciscanismo e da Ordem Franciscana, e Hist\u00f3ria da Vida Religiosa.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":187277,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[326,327],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A Gripe Espanhola de 1918: relatos de um frade - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-gripe-espanhola-de-1918-relatos-de-um-frade\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Gripe Espanhola de 1918: relatos de um frade - 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