{"id":185854,"date":"2020-06-22T09:06:20","date_gmt":"2020-06-22T12:06:20","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=185854"},"modified":"2020-07-23T11:26:13","modified_gmt":"2020-07-23T14:26:13","slug":"a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/","title":{"rendered":"\u00a0A transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica para uma sociedade biocentrada &#8211; I"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_186890\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-186890\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-186890 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/artigo_2307_5.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/artigo_2307_5.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/artigo_2307_5-450x241.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/artigo_2307_5-768x411.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/artigo_2307_5-150x80.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-186890\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<em> Imagem ilustrativa (fonte: Pexels)<\/em><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n<p>O ataque do coronav\u00edrus contra toda a humanidade nos obrigou a nos concentrar no v\u00edrus, no hospital, no paciente, no poder da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica e na corrida desenfreada por uma vacina eficaz e no confinamento e distanciamento social. Tudo isso \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas para apreendermos o significado do coronav\u00edrus, precisamos enquadr\u00e1-lo em seu devido contexto e\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 n\u00e3o v\u00ea-lo isoladamente. Ele expressa a l\u00f3gica do capitalismo global que, h\u00e1 s\u00e9culos, conduz uma guerra sistem\u00e1tica contra a natureza e contra a Terra.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo neoliberal gravemente ferido<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo se caracteriza pela exacerbada explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, pela utiliza\u00e7\u00e3o dos saberes produzidos pela tecnoci\u00eancia, pela pilhagem dos bens e servi\u00e7os da natureza, pela coloniza\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o de todos os territ\u00f3rios acess\u00edveis. Por fim, pela mercantiliza\u00e7\u00e3o de todas as coisas. De uma <em>economia de mercado<\/em> passamos para uma <em>sociedade de mercado<\/em>.<\/p>\n<p>Nela, as coisas inalien\u00e1veis se transformaram em mercadoria. Karl Marx em sua <em>Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em> de 1874 bem escreveu: \u201cTudo o que para os homens \u00e9 consider\u00e1vel inalien\u00e1vel, coisas trocadas e dadas mas jamais vendidas\u2026. tudo se tornou venal, como a virtude, o amor, a opini\u00e3o, a ci\u00eancia e a consci\u00eancia\u2026 tudo se tornou venal e levado ao mercado\u201d. A isso ele denominou o \u201c<em>tempo da corrup\u00e7\u00e3o geral e da venalidade universa<\/em>l\u201d (Ed.Vozes 2019,p.54-55). \u00c9 o que estamos vivendo desde o fim da segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O capitalismo quebrou todos os la\u00e7os com natureza, a transformou num ba\u00fa de recursos, tidos ilusoriamente ilimitados, em fun\u00e7\u00e3o de um crescimento tamb\u00e9m tido ilusoriamente ilimitado. Ocorre que um planeta j\u00e1 velho e limitado n\u00e3o suporta um crescimento ilimitado.<\/p>\n<p>Politicamente, o neoliberalismo confere centralidade ao lucro, ao mercado, ao Estado m\u00ednimo, \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es de bens p\u00fablicos e uma exacerba\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e do individualismo, a ponto de Reagan e Thatcher dizerem que a sociedade n\u00e3o existe, apenas indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A Terra viva, Gaia, um superorganismo que articula todos fatores para continuar viva e produzir e reproduzir sempre todo tipo de vida, come\u00e7ou a reagir e contra-atacar: pelo aquecimento global, pela eros\u00e3o da biodiversidade, pela desertifica\u00e7\u00e3o crescente, pelos eventos extremos e pelo envio de suas armas letais que s\u00e3o os v\u00edrus e bact\u00e9rias (gripe su\u00edna, avi\u00e1ria, H1N1, zika, sikunguhnia, SARS, ebola e outros) e agora o SARS-CoV-2, invis\u00edvel e letal. Colocou a todos de joelhos, especialmente as pot\u00eancias militaristas cujas armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa (que poderiam destruir toda a vida, v\u00e1rias vezes) se mostraram totalmente sup\u00e9rfluas e rid\u00edculas. Agora passamos do capitalismo do <em>desastre<\/em> para o capitalismo do <em>caos, <\/em>como diz a cr\u00edtica do sistema capitalista Naomi Klein.<\/p>\n<p>Uma coisa ficou clara a prop\u00f3sito da Covid-19: caiu um meteoro rasante em cima do capitalismo neoliberal desmantelando seu ide\u00e1rio: o lucro, a acumula\u00e7\u00e3o privada, a concorr\u00eancia, o individualismo, o consumismo, o estado m\u00ednimo e a privatiza\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica e dos <em>commons<\/em>. Ele foi gravemente ferido. O fato \u00e9 que produziu demasiada iniquidade humana, social e ecol\u00f3gica, a ponto de p\u00f4r em risco o futuro do sistema-vida e do sistema-Terra.<\/p>\n<p>Ele, entretanto, colocou inequivocamente a disjuntiva: <em>vale mais o lucro ou a vida? O que vem antes: salvar a economia ou salvar vidas humanas?<\/em><\/p>\n<p>Pelo ide\u00e1rio do capitalismo, a disjuntiva seria salvar a economia em primeiro lugar e em seguida vidas humanas. Mas releva reconhecer que \u00e9 o que nos est\u00e1 salvando \u00e9 aquilo que inexiste nele: a solidariedade, a coopera\u00e7\u00e3o, a interdepend\u00eancia entre todos, a generosidade e o cuidado m\u00fatuo pela vida de uns e de outros.<\/p>\n<p><strong>Alternativas para o p\u00f3s-coronav\u00edrus<\/strong><\/p>\n<p>O grande desafio colocado a todos, a grande interroga\u00e7\u00e3o especialmente, aos donos dos grandes conglomerados multinacionais \u00e9: <em>Como continuar? Voltar ao que era antes? Recuperar o tempo e o lucros perdidos?<\/em><\/p>\n<p>Muitos dizem: voltar simplesmente ao que era antes, seria um suic\u00eddio. Pois a Terra poderia novamente contra-atacar com v\u00edrus mais violentos e mortais. Cientistas j\u00e1 advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso n\u00e3o tenhamos aprendido a li\u00e7\u00e3o de cuidar da natureza e de desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel para com a M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p>Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finan\u00e7as est\u00e3o numa furiosa articula\u00e7\u00e3o entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de press\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A <em>primeira<\/em> seria a volta ao sistema capitalista neoliberal extremamente radical. Seria 0,1% da humanidade, bilhard\u00e1rios, que utilizariam a intelig\u00eancia artificial com capacidade de controlar cada pessoa do planeta, desde sua vida \u00edntima, privada e p\u00fablica. Seria um <em>despotismo<\/em> de outra ordem, cibern\u00e9tico, sob a \u00e9gide do total controle\/domina\u00e7\u00e3o da vida das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o aprendeu nada com o coronav\u00edrus, nem incorporou o fator ecol\u00f3gico. Pela press\u00e3o geral, talvez assuma uma responsabilidade s\u00f3cio-<em>ecol\u00f3gica<\/em> para n\u00e3o perder lucros e fregueses. Mas seguramente haver\u00e1 grande resist\u00eancia e at\u00e9 rebeli\u00f5es provocadas pela fome e pelo desespero.<\/p>\n<p>A <em>segunda<\/em> alternativa seria o <em>capitalismo verde<\/em> que tirou as li\u00e7\u00f5es do coronav\u00edrus e incorporou o fator ecol\u00f3gico: reflorestar o devastado e conservar ao m\u00e1ximo a natureza. Mas n\u00e3o mudaria o modo de produ\u00e7\u00e3o e a busca do lucro. O capitalismo verde n\u00e3o discute a desigualdade social perversa e faria de tudo da natureza, ocasi\u00e3o de ganho. Exemplo: n\u00e3o apenas ganhar com o mel das abelhas, mas tamb\u00e9m sobre sua capacidade de polinizar outras flores. A rela\u00e7\u00e3o para com a natureza e a Terra continuaria utilitarista e n\u00e3o lhe reconheceria direitos,como declarou a ONU e seu valor intr\u00ednseco, independente do ser humano.<\/p>\n<p>A <em>terceira<\/em> seria o <em>comunism<\/em>o de terceira gera\u00e7\u00e3o que nada teria com as anteriores, colocando os bens e servi\u00e7os do planeta sob a administra\u00e7\u00e3o plural e global para redistribui-los equitativamene a todos. Poderia ser poss\u00edvel, mas sup\u00f5e uma nova consci\u00eancia ecol\u00f3gica, al\u00e9m de\u00a0 dar centralidade \u00e0 vida em todas as suas formas. Seria ainda antropoc\u00eantrico. \u00c9 pouco representado, pelos fil\u00f3sofox Zizek e Badiou al\u00e9m da carga negativa das experi\u00eancias anteriores e mal-sucedidas.<\/p>\n<p>A <em>quarta<\/em>, seria o <em>eco-socialismo<\/em> com maiores possibilidades. Sup\u00f5e um contrato social mundial com um centro plural de governan\u00e7a para resolver os problemas globais da humanidade. Os bens e servi\u00e7os naturais seriam equitativamente distribu\u00eddos a todos, num consumo decente e s\u00f3brio que incluiria tamb\u00e9m toda a comunidade de vida. Ela tamb\u00e9m precisa de meios de vida e de reprodu\u00e7\u00e3o como \u00e1gua, climas e nutrientes. Esta alternativa estaria dentro das possibilidades humanas, desde que superasse o sociocentrismo e incorporasse os dados da nova cosmologia e biologia, que consideram a Terra como momento do grande processo cosmog\u00eanico, biog\u00eanico e antropog\u00eanico.<\/p>\n<p>A <em>quinta<\/em> alternativa <em>seria o bem viver e conviver<\/em> ensaiada por s\u00e9culos pelos andinos. Ela \u00e9 profundamente ecol\u00f3gica, pois considera todos os seres como portadores de direitos. O eixo articulador \u00e9 a harmonia que come\u00e7a com a fam\u00edlia, com a comunidade, com a natureza, com o inteiro universo, com os ancestrais e com a Divindade. Esta alternativa possui alto grau de utopia. Talvez, quando a humanidade se descobrir como esp\u00e9cie, habitando numa \u00fanica Casa Comum, teria condi\u00e7\u00f5es de realizar o <strong>bem-viver<\/strong> e o <strong>bem-conviver<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong> desta parte: ficou evidente que o centro de tudo \u00e9 a vida, a sa\u00fade e os meios de vida e n\u00e3o o lucro e o desenvolvimento (in)sustent\u00e1vel. Vai se exigir mais Estado com mais seguran\u00e7a sanit\u00e1ria para todos, um Estado que satisfa\u00e7a as demandas coletivas e promova um desenvolvimento que obede\u00e7a os ritmos e os limites da natureza. N\u00e3o ser\u00e1 a austeridade que vai resolver os problemas sociais que t\u00eam beneficiados ao j\u00e1 ricos, e penalizado os mais pobres. A solu\u00e7\u00e3o se deriva da justi\u00e7a social e distributiva, onde todos participam do \u00f4nus e do b\u00f4nus da ordem social.<\/p>\n<p>Como o problema do coronav\u00edrus foi global, torna-se necess\u00e1rio um contrato social global para implementar solu\u00e7\u00f5es globais. Tal transforma\u00e7\u00e3o demandar\u00e1 uma <em>descoloniza\u00e7\u00e3o<\/em> de vis\u00f5es de mundo e de conceitos, como a voracidade pelo lucro e o consumismo, que foram inculcados pela cultura do capital. O p\u00f3s-coronav\u00edrus nos obrigar\u00e1 conferir centralidade \u00e0 natureza e \u00e0 Terra. Ou salvamos a natureza e a Terra ou engrossaremos o cortejo dos que rumam para o abismo.<\/p>\n<h3><strong>Como buscar uma transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, exigida pela a\u00e7\u00e3o mort\u00edfera da Covid-19? Por onde come\u00e7ar?<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o podemos subestimar o poder do \u201cg\u00eanio\u201d do capitalismo neoliberal: ele \u00e9 capaz de incorporar os dados novos, transform\u00e1-los em seu benef\u00edcio privado e para isso usar todos os meios modernos da robotiza\u00e7\u00e3o, da intelig\u00eancia artificial com seus bilh\u00f5es de algoritmos e eventualmente as guerras h\u00edbridas. Sem piedade podem conviver, indiferentes, aos milh\u00f5es e milh\u00f5es de esfaimados e lan\u00e7ados na mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Por outra parte, os que buscam uma transi\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica, dentro do qual eu mesmo me situo, devem propor outra forma de habitar a Casa Comum, com uma conviv\u00eancia respeitosa para com a natureza e um cuidado com todos os ecossistemas. Devem gerar na base social outro n\u00edvel de consci\u00eancia e novos sujeitos sociais, portadores desta alternativa. Para isso, cabe enfatizar, devemos passar por um processo de descoloniza\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es de mundo e de ideias inculcadas pela cultura do capital. Devemos ser antissistema e alternativos.<\/p>\n<h3><strong>Pressupostos para uma transi\u00e7\u00e3o bem-sucedida<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Primeiro pressuposto<\/strong>: a <em>vulnerabilidade<\/em> da condi\u00e7\u00e3o humana, exposta a ser atacada por enfermidades, bact\u00e9rias e v\u00edrus dos ecossistemas e a alimenta\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Fundamentalmente dois outros fatores est\u00e3o na origem da invas\u00e3o de micro-organismos letais: a excessiva <em>urbaniza\u00e7\u00e3o humana<\/em> que avan\u00e7ou sobre os espa\u00e7os da natureza, destruindo os <em>habitats<\/em> naturais dos v\u00edrus e bact\u00e9rias: saltaram para outros animais ou para o corpo humano. 83% da humanidade vive em cidades.<\/p>\n<p>O segundo fator \u00e9 a <em>desfloresta\u00e7\u00e3o<\/em> sistem\u00e1tica devida \u00e0 voracidade do capital que busca riqueza com a monocultura da soja, da cana, do girassol ou com a a minera\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas animais (gado), devastando florestas e desequilibrando o regime de umidade e de chuvas de vastas regi\u00f5es como \u00e9 o caso da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>Segundo pressuposto<\/strong>: a <em>interdepend\u00eancia<\/em> entre todos os seres, especialmente entre os seres humanos. Somos, por natureza, um n\u00f3 de rela\u00e7\u00e3o, voltado para todas as dire\u00e7\u00f5es. A bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que \u00e9 da ess\u00eancia espec\u00edfica do ser humano a coopera\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o de todos com todos. N\u00e3o existe o <em>gene ego\u00edsta<\/em>, formulado por Dawkins no fins dos anos 60 do s\u00e9culo passado sem nenhuma base emp\u00edrica. Todos os genes se interligam entre si e dentro das c\u00e9lulas. Todos os seres est\u00e3o inter-retro-relacionados e ningu\u00e9m est\u00e1 fora da rela\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, o individualismo, valor supremo da cultura do capital, \u00e9 anti-natural e n\u00e3o possui nenhuma base biol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Terceiro pressuposto: <\/strong>a <em>solidariedade<\/em> como op\u00e7\u00e3o consciente. A solidariedade est\u00e1 na base de nossa humanidade. Os bioantrop\u00f3logos nos revelaram que este dado \u00e9 essencial ao ser humano. Quando nossos ancestrais buscavam seus alimentos, n\u00e3o os comiam sozinhos. Levavam-nos ao grupo e serviam a todos come\u00e7ando com os mais novos, depois com os mais idosos e por fim a todos. Da\u00ed surgiu a comensalidade e o sentido de coopera\u00e7\u00e3o e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu o salto da animalidade para a humanidade. O que valeu ontem, vale tamb\u00e9m para hoje.<\/p>\n<p>A sociedade vive e subsiste porque seus cidad\u00e3os comparecem como seres cooperativos e solid\u00e1rios, superando conflito de interesses para ter uma conviv\u00eancia minimamente humana e pac\u00edfica e juntos construir o bem comum. Esta solidariedade n\u00e3o vigora apenas entre os humanos. \u00c9 uma constante cosmol\u00f3gica: todos os seres convivem, est\u00e3o envolvidos em redes de de rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade e de solidariedade de forma que todos se entre-ajudam para viver e co-evoluir. Tamb\u00e9m o mais fraco, com a colabora\u00e7\u00e3o dos outros, subsiste e tem o seu lugar no conjunto dos seres e co-evolui.<\/p>\n<p>O sistema do capital n\u00e3o conhece a solidariedade, apenas a competi\u00e7\u00e3o que produz tens\u00f5es, rivalidades e verdadeiras destrui\u00e7\u00f5es de outros concorrentes em fun\u00e7\u00e3o de uma maior acumula\u00e7\u00e3o e, se poss\u00edvel, estabelecer o monop\u00f3lio de um produto ou de uma f\u00f3rmula cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Hoje, o maior problema da humanidade n\u00e3o \u00e9 nem o econ\u00f4mico, nem o pol\u00edtico nem o cultural, nem o religioso, mas \u00e9 a falta de solidariedade para com outros seres humanos que est\u00e3o ao nosso lado. No capitalismo, ele \u00e9 visto como um eventual consumidor, n\u00e3o como uma pessoa humana com suas preocupa\u00e7\u00f5es, suas alegrias e padecimentos.<\/p>\n<p>Foi a solidariedade que nos est\u00e1 salvando face ao ataque do coronav\u00edrus, a come\u00e7ar pelos operadores da sa\u00fade que generosamente arriscam suas vidas para salvar vidas. Assistimos atitudes de solidariedade em toda a sociedade, mas especialmente nas periferias onde as pessoas n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de fazerem o isolamento social e n\u00e3o possuem reservas de alimenta\u00e7\u00e3o. Muitas fam\u00edlias que recebiam as cestas b\u00e1sicas, as repartiam entre outros mais necessitados.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia especial merece o MST (Movimento dos Sem Terra) que forneceu toneladas alimenta\u00e7\u00e3o org\u00e2nica para os mais vulner\u00e1veis. N\u00e3o d\u00e3o o que sobra, mas o que t\u00eam. Outras ONGs organizaram a\u00e7\u00f5es de solidariedade para atenderem aos mais carentes. Mesmo as grande empresas mostraram solidariedade, doando alguns milh\u00f5es que lhes sobraram para enfrentar a Covid-19.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta que a solidariedade seja um gesto pontual. Ela deve ser uma <em>atitude b\u00e1sica<\/em>, porque \u00e9\u00a0 um dado de nossa natureza. Temos que fazer uma op\u00e7\u00e3o consciente para sermos solid\u00e1rios a partir dos \u00faltimos e invis\u00edveis, para aqueles que n\u00e3o contam para o sistema imperante e s\u00e3o considerados prescind\u00edveis e zeros econ\u00f4micos. S\u00f3 assim ela deixa de ser eletiva e engloba a todos, pois todos somos co-iguais e nos unem\u00a0 la\u00e7os objetivos de fraternidade.<\/p>\n<p><strong>Quarto pressuposto<\/strong>: o <em>cuidado essencial<\/em> para com tudo o que vive e existe, especialmente entre os seres humanos. Pertence \u00e0 ess\u00eancia do humano, o cuidado sem o qual nenhum ser vivo subsistiria. N\u00f3s estamos vivos porque tivemos o infinito cuidado de nossas m\u00e3es. Deixados no ber\u00e7o, n\u00e3o saber\u00edamos como buscar nosso alimento e dentro de pouco tempo morrer\u00edamos.<\/p>\n<p>Ademais cuidado \u00e9 al\u00e9m disso uma constante cosmol\u00f3gica como o mostraram Stephan Hawking e Brian Swimme entre outros: as quatro for\u00e7as que sustentam o universo (a gravitacional, a eletromagn\u00e9tica, a nuclear franca e forte) agem sinergeticamente com extremo cuidado sem o qual n\u00e3o estar\u00edamos aqui refletindo sobre estas coisas.<\/p>\n<p>O cuidado representa uma rela\u00e7\u00e3o amiga da vida, protetora de todos os seres, pois os v\u00ea como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi a falta de cuidado para com a natureza, devastando-a, que os v\u00edrus perderam seu <em>habitat<\/em>, conservado em milhares de anos e passaram a outro animal ou ao ser humano para poder sobreviver devorando\u00a0 nossas c\u00e9lulas. O ecofeminismo trouxe uma expressiva contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da vida e da natureza com a \u00e9tica do cuidado, desenvolvida por elas, pois o cuidado \u00e9 de todos os humanos, mas ganha especial densidade nas mulheres.<\/p>\n<p><em><strong>CONTINUA AMANH\u00c3 COM &#8220;A transi\u00e7\u00e3o para a uma civiliza\u00e7\u00e3o biocentrada&#8221;.<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leonardo Boff <\/strong><em>\u00e9 ecote\u00f3logo, fil\u00f3sofo e escritor e escreveu: &#8220;Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres&#8221;, Vozes 1995\/2015; em espanhol por Trotta, Madrid 1996, Dabar, M\u00e9xico 1996.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":186891,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[59],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>\u00a0A transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica para uma sociedade biocentrada - I - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u00a0A transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica para uma sociedade biocentrada - I - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Artigo de Leonardo Boff\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Vida Crist\u00e3 - Franciscanos\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2020-06-22T12:06:20+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2020-07-23T14:26:13+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/artigo_2307_5d.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"800\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"600\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"moacir\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"moacir\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"14 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/#website\",\"url\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/\",\"name\":\"Vida Crist\u00e3 - Franciscanos\",\"description\":\"Prov\u00edncia Franciscana da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o do Brasil - Ordem dos Frades Menores\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/\",\"url\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/\",\"name\":\"\u00a0A transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica para uma sociedade biocentrada - I - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/#website\"},\"datePublished\":\"2020-06-22T12:06:20+00:00\",\"dateModified\":\"2020-07-23T14:26:13+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/#\/schema\/person\/1880bdd2c350b735648725ef7614736a\"},\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-transicao-ecologica-para-uma-sociedade-biocentrada-i\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"Home\",\"item\":\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"\u00a0A transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica para uma sociedade biocentrada &#8211; 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