{"id":185759,"date":"2011-11-06T15:18:23","date_gmt":"2011-11-06T17:18:23","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=185759"},"modified":"2020-06-16T15:20:40","modified_gmt":"2020-06-16T18:20:40","slug":"a-viagem-dos-frades-alemaes-para-restaurar-a-provincia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-viagem-dos-frades-alemaes-para-restaurar-a-provincia\/","title":{"rendered":"A viagem dos frades alem\u00e3es para restaurar a Prov\u00edncia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-185760 \" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/restauradores_061111.jpg\" alt=\"\" width=\"917\" height=\"662\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/restauradores_061111.jpg 830w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/restauradores_061111-450x325.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/restauradores_061111-768x554.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/restauradores_061111-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 917px) 100vw, 917px\" \/><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Prov\u00edncia Franciscana da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o do Brasil praticamente se confunde com a hist\u00f3ria do Brasil. Desde a bula de cria\u00e7\u00e3o do Papa Clemente X, em 15 de julho de 1675, j\u00e1 se v\u00e3o 332 anos. Uma hist\u00f3ria escrita com muito trabalho e dedica\u00e7\u00e3o, apesar dos momentos de dificuldades, que n\u00e3o foram poucos.<\/p>\n<p>Uma das p\u00e1ginas de destaque desta hist\u00f3ria foi, sem d\u00favida, a Restaura\u00e7\u00e3o, iniciada no ano de 1891, depois de um per\u00edodo de persegui\u00e7\u00e3o e crise, que deixou a Prov\u00edncia reduzida a apenas um frade, Frei Jo\u00e3o do Amor Divino Costa, residente no Convento de Santo Ant\u00f4nio, no Rio de Janeiro. O refor\u00e7o veio da Alemanha, da Prov\u00edncia da Santa Cruz da Sax\u00f4nia. De l\u00e1, quatro frades jovens, impulsionados pelo esp\u00edrito mission\u00e1rio-franciscano, partiram para uma \u201cterra desconhecida\u201d.<\/p>\n<p>Eram eles: Frei Amando Bahlman, 29 anos de vida e um ano e meio de padre, doutor em Teologia; Frei Xisto Meiwes, com dois anos incompletos de padre e 38 anos de idade; Frei Humberto Themans, irm\u00e3o com 13 anos de profiss\u00e3o e 30 anos de vida; e Frei Maur\u00edcio Schmalor, com 18 anos.<\/p>\n<p>S\u00e3o estes personagens que a partir de agora v\u00e3o acompanh\u00e1-lo por uma viagem. Junto com eles, voc\u00ea tamb\u00e9m vai embarcar no navio \u201cGraf Bismark\u201d rumo ao Brasil.<\/p>\n<p>Para comemorar o anivers\u00e1rio da Prov\u00edncia, o Site Franciscanos preparou este especial com cita\u00e7\u00f5es do texto de Frei Humberto Themans, narrando os passos do grupo desde o embarque na Alemanha at\u00e9 a chegada ao pequeno povoado de Teres\u00f3polis (SC), onde se deu in\u00edcio a Restaura\u00e7\u00e3o. Boa Viagem!<\/p>\n<p><i>S\u00edntese de Frei Gustavo Medella<\/i><\/p>\n<p><b>A miss\u00e3o no Brasil e o convite<\/b><\/p>\n<p>J\u00e1 no come\u00e7o dos anos 80 (1880) falava-se, na Prov\u00edncia da Santa Cruz da Sax\u00f4nia, da aceita\u00e7\u00e3o de uma miss\u00e3o no Brasil ou, mais explicitamente, da renova\u00e7\u00e3o da quase extinta Prov\u00edncia de Santo Ant\u00f4nio na Bahia. Por\u00e9m, somente no ano de 1889 foi quanto eu sabia, confiado este assunto \u00e0 Sax\u00f4nia. Padre Greg\u00f3rio Janknecht era na ocasi\u00e3o Provincial. O quanto eu me recordo, foi no m\u00eas de agosto ou setembro do mesmo ano que o mesmo, voltando de uma viagem a Roma, trouxe a not\u00edcia da aceita\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o no Brasil. Ainda no dia de sua volta, ele me disse que tencionava mandar-me \u00e0 miss\u00e3o no Brasil. J\u00e1 que eu fora por v\u00e1rios anos seu camareiro, ele conhecia o meu desejo de ir para miss\u00e3o: como ele v\u00e1rias vezes me disse, esperava dessa miss\u00e3o tudo de bem.<\/p>\n<p><b>Brasil, Uruguai ou Paraguai?<\/b><\/p>\n<p>Que at\u00e9 a nossa partida as coisas n\u00e3o estavam bem definidas, percebi de uma manifesta\u00e7\u00e3o do Padre Provincial que dias antes da partida me disse: a miss\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul ser\u00e1 em todo caso aceita. Se coces n\u00e3o puderem ficar no Brasil, partam para o Uruguai ou Paraguai.<\/p>\n<p><b>Santa Catarina, por qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p>Como n\u00e3o era prudente ficarmos no calor do Norte, na Bahia, decidiu-se primeiramente viajar para o Sul, de clima moderado, em Santa Catarina, para nos aclimatarmos.<\/p>\n<p><b>Aproxima-se a partida<\/b><\/p>\n<p>Aos 23 de maio de 1891, num s\u00e1bado \u00e0s v\u00e9speras de Nossa Senhora do Perp\u00e9tuo Socorro partimos sem alarde de Warendorf para Bremen. L\u00e1 ficamos por um dia no Hospital S\u00e3o Jos\u00e9. No dia 25 ao meio-dia fomos ao porto, para entrar no navio que devia partir no dia seguinte. \u201cGraf Bismark\u201d era o nome do navio que nos devia levar para o novo mundo, \u00e0 nossa futura p\u00e1tria.<\/p>\n<p><b>A companhia dos \u201cmonges\u201d e as instala\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>A alguns n\u00e3o parecia agrad\u00e1vel ter como companheiros de viagem, monges. Logo nos foram indicados os camarotes. Eram pequenos c\u00f4modos com duas camas, uma sobreposta. Al\u00e9m disso, havia uma pia com lavat\u00f3rios e dois tamboretes de assento est\u00e1vel. Depois de termos levado nossa bagagem para os camarotes, voltamos ao conv\u00e9s para ver a partida e dar o \u00faltimo adeus \u00e0 p\u00e1tria que talvez deixar\u00edamos para todo sempre.<\/p>\n<p><b>Despedida<\/b><\/p>\n<p>Aos poucos nos aproximamos do oceano e logo est\u00e1vamos fora da barra. O rebocador foi afastado, e um rec\u00edproco sinal de adeus com apitos foi dado e o nosso navio movimentou a todo vapor as suas h\u00e9lices para seguir sozinho em frente. Nossos olhares est\u00e3o ainda voltados para a terra firme, aos poucos ela se distancia. Um sentimento estranho aperta o peito quando se v\u00ea que os la\u00e7os externos que nos unem a todos amigos, aos poucos se perdem no infinito. Adeus, P\u00e1tria amada. Adeus, querido Pai e irm\u00e3os queridos, adeus. Ser\u00e1 que ainda nos veremos? S\u00e9rios e pensativos permanecemos por algum tempo o conv\u00e9s. A decis\u00e3o foi tomada.<\/p>\n<p><b>As primeiras l\u00e1grimas e a primeira refei\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Totalmente dominado pela vis\u00e3o da majestosa grandeza do criador que aqui se apresenta em seu esplendor, as l\u00e1grimas n\u00e3o podem ser contidas. Ainda absortos em pensamentos e lembran\u00e7as, ouvimos o sinal para o restaurante. \u00c9 a primeira refei\u00e7\u00e3o a bordo (&#8230;) Mas n\u00e3o \u00e9 uma refei\u00e7\u00e3o franciscana com sopa e um prato. O card\u00e1pio apresenta uma multid\u00e3o de raros pratos e para n\u00f3s desconhecidos.<\/p>\n<p><b>Revolu\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago<\/b><\/p>\n<p>Agora continuava a viagem oceano adentro. Ele estava agitado. Em breve come\u00e7aria o sofrimento do Pe. Amando e do Frei Maur\u00edcio. N\u00e3o muito tempo se passou quando os dois, calados e sem participa\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m e alheio a tudo, sentaram-se numa cadeira no conv\u00e9s. Provavelmente pressentiam o que aconteceu, pois o irriquieto est\u00f4mago anunciava algo estranho. Num momento, de repente, estavam na balaustrada debru\u00e7ados. Com uma express\u00e3o desesperadora, pagavam tributo ao mar que o deus do mar deles exigia. Tinham o terr\u00edvel enj\u00f4o. E o pior para os doentes \u00e9 que n\u00e3o encontravam compaix\u00e3o daqueles que tinham sido poupados pela doen\u00e7a, riam dos pobres coitados. N\u00e3o seria cruel da nossa parte que em sua mis\u00e9ria fossem por n\u00f3s ridicularizados? Em v\u00e3o procuravam ser senhores de si, procuravam controlar a revolu\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago.<\/p>\n<p><b>A miss\u00e3o no Brasil e o convite<\/b><\/p>\n<p>J\u00e1 no come\u00e7o dos anos 80 (1880) falava-se, na Prov\u00edncia da Santa Cruz da Sax\u00f4nia, da aceita\u00e7\u00e3o de uma miss\u00e3o no Brasil ou, mais explicitamente, da renova\u00e7\u00e3o da quase extinta Prov\u00edncia de Santo Ant\u00f4nio na Bahia. Por\u00e9m, somente no ano de 1889 foi quanto eu sabia, confiado este assunto \u00e0 Sax\u00f4nia. Padre Greg\u00f3rio Janknecht era na ocasi\u00e3o Provincial. O quanto eu me recordo, foi no m\u00eas de agosto ou setembro do mesmo ano que o mesmo, voltando de uma viagem a Roma, trouxe a not\u00edcia da aceita\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o no Brasil. Ainda no dia de sua volta, ele me disse que tencionava mandar-me \u00e0 miss\u00e3o no Brasil. J\u00e1 que eu fora por v\u00e1rios anos seu camareiro, ele conhecia o meu desejo de ir para miss\u00e3o: como ele v\u00e1rias vezes me disse, esperava dessa miss\u00e3o tudo de bem.<\/p>\n<p><b>Brasil, Uruguai ou Paraguai?<\/b><\/p>\n<p>Que at\u00e9 a nossa partida as coisas n\u00e3o estavam bem definidas, percebi de uma manifesta\u00e7\u00e3o do Padre Provincial que dias antes da partida me disse: a miss\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul ser\u00e1 em todo caso aceita. Se coces n\u00e3o puderem ficar no Brasil, partam para o Uruguai ou Paraguai.<\/p>\n<p><b>Santa Catarina, por qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p>Como n\u00e3o era prudente ficarmos no calor do Norte, na Bahia, decidiu-se primeiramente viajar para o Sul, de clima moderado, em Santa Catarina, para nos aclimatarmos.<\/p>\n<p><b>Aproxima-se a partida<\/b><\/p>\n<p>Aos 23 de maio de 1891, num s\u00e1bado \u00e0s v\u00e9speras de Nossa Senhora do Perp\u00e9tuo Socorro partimos sem alarde de Warendorf para Bremen. L\u00e1 ficamos por um dia no Hospital S\u00e3o Jos\u00e9. No dia 25 ao meio-dia fomos ao porto, para entrar no navio que devia partir no dia seguinte. \u201cGraf Bismark\u201d era o nome do navio que nos devia levar para o novo mundo, \u00e0 nossa futura p\u00e1tria.<\/p>\n<p><b>A companhia dos \u201cmonges\u201d e as instala\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>A alguns n\u00e3o parecia agrad\u00e1vel ter como companheiros de viagem, monges. Logo nos foram indicados os camarotes. Eram pequenos c\u00f4modos com duas camas, uma sobreposta. Al\u00e9m disso, havia uma pia com lavat\u00f3rios e dois tamboretes de assento est\u00e1vel. Depois de termos levado nossa bagagem para os camarotes, voltamos ao conv\u00e9s para ver a partida e dar o \u00faltimo adeus \u00e0 p\u00e1tria que talvez deixar\u00edamos para todo sempre.<\/p>\n<p><b>Despedida<\/b><\/p>\n<p>Aos poucos nos aproximamos do oceano e logo est\u00e1vamos fora da barra. O rebocador foi afastado, e um rec\u00edproco sinal de adeus com apitos foi dado e o nosso navio movimentou a todo vapor as suas h\u00e9lices para seguir sozinho em frente. Nossos olhares est\u00e3o ainda voltados para a terra firme, aos poucos ela se distancia. Um sentimento estranho aperta o peito quando se v\u00ea que os la\u00e7os externos que nos unem a todos amigos, aos poucos se perdem no infinito. Adeus, P\u00e1tria amada. Adeus, querido Pai e irm\u00e3os queridos, adeus. Ser\u00e1 que ainda nos veremos? S\u00e9rios e pensativos permanecemos por algum tempo o conv\u00e9s. A decis\u00e3o foi tomada.<\/p>\n<p><b>As primeiras l\u00e1grimas e a primeira refei\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Totalmente dominado pela vis\u00e3o da majestosa grandeza do criador que aqui se apresenta em seu esplendor, as l\u00e1grimas n\u00e3o podem ser contidas. Ainda absortos em pensamentos e lembran\u00e7as, ouvimos o sinal para o restaurante. \u00c9 a primeira refei\u00e7\u00e3o a bordo (&#8230;) Mas n\u00e3o \u00e9 uma refei\u00e7\u00e3o franciscana com sopa e um prato. O card\u00e1pio apresenta uma multid\u00e3o de raros pratos e para n\u00f3s desconhecidos.<\/p>\n<p><b>Revolu\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago<\/b><\/p>\n<p>Agora continuava a viagem oceano adentro. Ele estava agitado. Em breve come\u00e7aria o sofrimento do Pe. Amando e do Frei Maur\u00edcio. N\u00e3o muito tempo se passou quando os dois, calados e sem participa\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m e alheio a tudo, sentaram-se numa cadeira no conv\u00e9s. Provavelmente pressentiam o que aconteceu, pois o irriquieto est\u00f4mago anunciava algo estranho. Num momento, de repente, estavam na balaustrada debru\u00e7ados. Com uma express\u00e3o desesperadora, pagavam tributo ao mar que o deus do mar deles exigia. Tinham o terr\u00edvel enj\u00f4o. E o pior para os doentes \u00e9 que n\u00e3o encontravam compaix\u00e3o daqueles que tinham sido poupados pela doen\u00e7a, riam dos pobres coitados. N\u00e3o seria cruel da nossa parte que em sua mis\u00e9ria fossem por n\u00f3s ridicularizados? Em v\u00e3o procuravam ser senhores de si, procuravam controlar a revolu\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago.<\/p>\n<p><b>No mar se aprende a rezar<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 uma verdade que no mar se aprende a rezar. Todos est\u00e3o quietos e calados e lembram-se, neste perigo, do bom Deus. A gente se sente de tal modo nas m\u00e3os do onipotente e justo Deus como em nenhuma outra situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Decep\u00e7\u00e3o em Lisboa e os remadores trapaceiros<\/b><\/p>\n<p>Mal chegamos ao porto sem termos sido agredidos. A admira\u00e7\u00e3o das belezas de Lisboa, que eu havia sonhado no navio, desapareceu com estes acontecimentos. A apar\u00eancia aqui tamb\u00e9m nos logrou. Como \u00faltima decep\u00e7\u00e3o experimentamos na nossa volta ao navio dois acontecimentos. Primeiramente, o barco da ag\u00eancia havia partido de maneira que fomos obrigados a tomar um novo barco para nos levar ao navio. Foi fixado o pre\u00e7o para a viagem. Mas quando os dois remadores tinham remado um bom trecho, os dois sujeitos se recusaram a continuar a remar se n\u00e3o quis\u00e9ssemos pagar mais do que o combinado. O que fazer? Est\u00e1vamos totalmente nas m\u00e3os destes bandidos. Havia pressa em chegar ao navio, pois o tempo de partida se aproximava. Depois de um certo pechinchar aumentamos um pouco o pagamento combinado. N\u00e3o tiv\u00e9ssemos tido a alegria de termos sido recebidos na audi\u00eancia com o cardeal ter\u00edamos nos arrependido da visita \u00e0 capital de Portugal. Mas nunca mais desci em Lisboa.<\/p>\n<p><b>A cerveja do oficial<\/b><\/p>\n<p>Os outros oficiais eram senhores af\u00e1veis. Da mesma forma os quatro maquinistas. Eles nos procuravam cada dia\u00a0 para uma conversa, o que para n\u00f3s era agrad\u00e1vel e interessante porque n\u00f3s, desta forma, muita coisa ficamos sabendo da estrutura e da situa\u00e7\u00e3o da navega\u00e7\u00e3o. De maneira especial af\u00e1vel, mostrou-se para conosco religiosos, o terceiro oficial, um bom su\u00ed\u00e7o. \u00c0s vezes ele levava a n\u00f3s tr\u00eas Pe. Xisto, Frei Maur\u00edcio e a mim ao seu camarote e oferecia algumas garrafas de cerveja. Ele julgava que a nossa abstin\u00eancia era muito rigorosa, sobretudo nesse calor tropical. (N\u00f3s n\u00e3o beb\u00edamos nem \u00e0 mesa nem em outras ocasi\u00f5es, nem vinho, nem cerveja).<\/p>\n<p><b>Em terras brasileiras \u2013 Bahia<\/b><\/p>\n<p>Amanh\u00e3 cedinho estaremos na Bahia. Este foi o pensamento com o qual fomos dormir, aos 19 de junho. Na manh\u00e3 seguinte apresentou-se uma alegre surpresa. Est\u00e1vamos j\u00e1 na entrada do porto da Bahia. Os padres rezaram a missa mais cedo do que de costume. Depois da missa subimos para o conv\u00e9s. Os padres rezaram a missa mais cedo do que de costume. Depois da missa subimos para o conv\u00e9s, pra dali desfrutar a bela entrada na nossa nova p\u00e1tria. O vento agrad\u00e1vel da manh\u00e3 n\u00e3o deixava passar o calor sufocante que mais tarde ter\u00edamos que suportar. Olhos e cora\u00e7\u00f5es abriram-se ao espet\u00e1culo colorido que se apresentava diante de n\u00f3s. Palmeiras esguias e touceiras de bananeiras que estavam \u00e0s margens balan\u00e7avam \u00e0 brisa da manh\u00e3 como se quisessem nos saudar com o abra\u00e7o de boas vindas.<\/p>\n<p><b>Rio de Janeiro<\/b><\/p>\n<p>No dia 23 de junho aportamos no Rio de Janeiro. Foi na tarde das antev\u00e9speras da festa de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Devido \u00e0 hora avan\u00e7ada, descemos. Um Padre larazista alem\u00e3o, Pe. Hehn, de Col\u00f4nia, fora notificado da nossa chegada. Ele dera ao agente do navio o recado de nos levar ao Semin\u00e1rio dos Padres. A recep\u00e7\u00e3o por parte do Pe. Hehn foi muito cordial. O superior do semin\u00e1rio, como tamb\u00e9m os demais padres eram calados e reservados. J\u00e1 por dominarmos a l\u00edngua era evidente. Durante cinco dias solit\u00e1rios permanecemos no Semin\u00e1rio, pois n\u00e3o houve possibilidade de irmos para Santa Catarina. N\u00e3o fizemos passeios, pois n\u00e3o era aconselh\u00e1vel, diziam, devido \u00e0 atitude do povo na Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n<p><b>Em Santos, \u201csem len\u00e7o e sem documento\u201d<\/b><\/p>\n<p>A demora aqui fora estipulada em tr\u00eas dias, pelo que Pe. Amando resolveu ir a S\u00e3o Paulo. No entanto mal est\u00e1vamos no navio, chegou a ordem: ainda hoje devemos partir. Por que motivo, n\u00e3o ficamos sabendo. Est\u00e1vamos assim em uma situa\u00e7\u00e3o fatal. Pe. Amando levou tudo consigo, dinheiro, documentos, etc. Ele voltaria s\u00f3 depois de dois dias e n\u00f3s seguimos para Desterro, nossa meta. Primeiramente tocamos em Paranagu\u00e1. Embora aqui fic\u00e1ssemos um dia, n\u00e3o descemos, pois primeiramente n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro para alugar um barco, e al\u00e9m disso chovia constantemente, e era bem fresco.<\/p>\n<p><b>A chegada em Desterro<\/b><\/p>\n<p>A 4 de julho, de manh\u00e3 cedo, pelas 7-8 horas, nos aproximamos da Ilha do Desterro. N\u00e3o nos preocupamos com a contempla\u00e7\u00e3o da bela paisagem e a espl\u00eandida entrada, pois outros pesadelos nos atribulavam. N\u00e3o sem constrangimento pens\u00e1vamos em nossa descida. T\u00ednhamos chegado \u00e0 nossa meta final, ao fim de nossa viagem mar\u00edtima. Mas nossa alegria foi perturbada pelo pensamento de que n\u00e3o t\u00ednhamos em m\u00e3os nada para nos legitimar. Tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro.<\/p>\n<p><b>Onde est\u00e1 o vig\u00e1rio?<\/b><\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s, milh\u00f5es de quil\u00f4metros distantes da p\u00e1tria, em um outro mundo desconhecido de todos. Todavia s\u00f3 por momentos pensamos em nosso abandono. N\u00e3o pod\u00edamos perder-nos em pensamento. Nossa situa\u00e7\u00e3o exigia a\u00e7\u00e3o. (&#8230;) A uma certa dist\u00e2ncia, vi um senhor de idade passeando na praia. Ele estava vestido com um palet\u00f3 comprido, assim dito guarda-p\u00f3 e um bon\u00e9 cinza. Fui at\u00e9 ele e o cumprimentei. Ele me olhou com admira\u00e7\u00e3o e at\u00e9 com espanto. No navio j\u00e1 havia preparado algumas frases em portugu\u00eas para ao menos poder entender-me, pois previra que eu teria a tarefa de salvar-nos da dificuldade. (&#8230;) Mais uma vez repensando todo meu vocabul\u00e1rio, perguntei ao senhor: onde mora o Vig\u00e1rio desta Freguesia? (&#8230;) Fomos levados a uma casa distante uns 100 metros e depois de termo-nos assentado, retirou-se o senhor, mas voltou logo aparentando um outro. Para nosso espanto, vimos que ele mesmo era o Vig\u00e1rio do lugar. (&#8230;) Santo Ant\u00f4nio que t\u00ednhamos invocado em nossos apuros ajudou-nos.<\/p>\n<p><b>Reencontro com Padre Amando e viagem para Santa Catarina<\/b><\/p>\n<p>Respiramos aliviados, quando um navio vindo do Norte, portanto de Santos, foi anunciado. Pe. Amando veio no dia 9 de julho e com ele ao mesmo tempo o Pe. Topp do Sul. Foi ent\u00e3o combinado qual seria o nosso futuro, pois ainda n\u00e3o sab\u00edamos para onde se dirigia a nossa viagem. O Padre lazarista Hehn, no Rio, nos aconselhara irmos a Blumenau (&#8230;) Pe. Topp, entretanto, achou que Teres\u00f3polis seria o melhor lugar onde poder\u00edamos ficar. (&#8230;) De acordo com o conselho do Pe. Topp, resolveu Pe. Amando agir.<\/p>\n<p><b>At\u00e9 Teres\u00f3polis, a cavalo<\/b><\/p>\n<p>No dia 10 de julho, em uma sexta-feira de manh\u00e3, \u00e0s 6 horas, caminhamos 500 a 600 metros sobre um canal para terra firme. Um carro nos levou depois de uma viagem de uma hora para Palho\u00e7a, o centro de caravanas de colonos que levavam a sua mercadoria para a cidade. Um colono de Capivari providenciou para n\u00f3s cavalos e tornou-se nosso guia at\u00e9 Teres\u00f3polis. Recebemos os quatro animais, tr\u00eas cavalos e um burro. O \u00faltimo, Pe. Xisto escolheu para si. Se antes hav\u00edamos brincado sobre a viagem e nos alegrado de antem\u00e3o com a nossa viagem a cavalo, agora que dev\u00edamos iniciar a aventura a coisa se tornou s\u00e9ria. Sobretudo o Pe. Xisto expressava constantemente sua preocupa\u00e7\u00e3o. Crian\u00e7as, crian\u00e7as, o que acontecer\u00e1 com voc\u00eas? Nunca estiveram montados em um cavalo.<\/p>\n<p><b>Passagem por Santo Amaro e o vinho do vig\u00e1rio<\/b><\/p>\n<p>Depois de uma viagem de duas ou tr\u00eas horas, chegamos a Santo Amaro, um pequeno povoado entre Desterro e Teres\u00f3polis, cujos moradores, em sua grande maioria, eram brasileiros. O vig\u00e1rio que nos recebeu era um senhor af\u00e1vel que administrava esta par\u00f3quia por nove anos. Era um italiano nato de nome Arc\u00e2ngelo Ganarini. Refrescamo-nos com um bom copo de vinho feito pelo pr\u00f3prio vig\u00e1rio.<\/p>\n<p><b>Finalmente: Teres\u00f3polis, o in\u00edcio de uma outra hist\u00f3ria&#8230;<\/b><\/p>\n<p>Era pouco depois das 7 horas, dia 10 de julho de 1891, numa sexta-feira. Foi o dia em que nossa miss\u00e3o em Teres\u00f3polis, Estado de Santa Catarina, teve seu in\u00edcio. Em um escondido rinc\u00e3o do imenso Brasil est\u00e1 o ber\u00e7o da nossa miss\u00e3o, mas n\u00f3s esperamos que a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus paire num come\u00e7o modesto, inicialmente n\u00e3o sem sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p><span style=\"color: #888888;\">FONTE: THEMNS, Frei Humberto. Viagem ao Brasil e Come\u00e7o da Miss\u00e3o. Trad. Frei Ludovico Gomes Mour\u00e3o de Castro. Cole\u00e7\u00e3o Centen\u00e1rio. V.3.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da Prov\u00edncia Franciscana da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o do Brasil praticamente se confunde com a hist\u00f3ria do Brasil. 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