{"id":184258,"date":"2020-05-10T07:59:36","date_gmt":"2020-05-10T10:59:36","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=184258"},"modified":"2020-07-24T13:55:43","modified_gmt":"2020-07-24T16:55:43","slug":"pos-covid-19-que-visao-de-mundo-e-que-valores-desenvolver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/pos-covid-19-que-visao-de-mundo-e-que-valores-desenvolver\/","title":{"rendered":"P\u00f3s-Covid-19: que vis\u00e3o de mundo e que valores desenvolver?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_186403\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-186403\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-186403 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/artigo_0807.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/artigo_0807.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/artigo_0807-450x241.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/artigo_0807-768x411.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/artigo_0807-150x80.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-186403\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<em> \u00a0 Imagem ilustrativa (fonte: Acervo da Prov\u00edncia da Imaculada)<\/em><strong style=\"font-size: 16px;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/strong><\/p><\/div>\n<p><strong>Leonardo Boff*<\/strong><\/p>\n<p>Causa s\u00e9ria preocupa\u00e7\u00e3o o ataque sist\u00eamico que a natureza mediante um pequen\u00edssimo e invis\u00edvel v\u00edrus est\u00e1 movendo contra a humanidade, levando milhares \u00e0 morte. Entretanto, fundamental \u00e9 tamb\u00e9m a nossa rea\u00e7\u00e3o frente \u00e0 pandemia. Que li\u00e7\u00e3o ela nos passa? Que vis\u00e3o de mundo e que esp\u00e9cie de valores ela nos leva a desenvolver? Seguramente devemos aprender tudo o que dev\u00edamos ter aprendido e n\u00e3o aprendemos. Dev\u00edamos ter aprendido que somos parte dela e n\u00e3o os seus \u201csenhores e donos\u201d (<em>Descartes<\/em>). Vigora uma conex\u00e3o umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo p\u00f3 c\u00f3smico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><strong>A eros\u00e3o da imagem do \u201cpequeno deus na terra\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O mito dos modernos de que n\u00f3s somos \u201co pequeno deus\u201d na Terra e que podemos dispor dela ao nosso bel-prazer pois ela \u00e9 inerte e sem prop\u00f3sito foi desfeito. Um dos pais do m\u00e9todo cient\u00edfico moderno Francis Bacon dizia que devemos tratar a natureza como os esbirros da inquisi\u00e7\u00e3o tratam suas v\u00edtimas, torturando-as at\u00e9 que ela entreguem todos os seus segredo.<\/p>\n<p>Pela tecnoci\u00eancia levamos este m\u00e9todo at\u00e9 o extremo alcan\u00e7ando o cora\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e da vida. Isso se implementou com um furor inaudito ao ponto de termos destru\u00eddo a sustentabilidade da natureza e assim do planeta e da vida. Desta forma, rompemos o\u00a0<em>pacto natural<\/em>\u00a0que existe com a Terra viva: ela nos d\u00e1 tudo o que precisamos para viver e em contrapartida n\u00f3s dev\u00edamos cuid\u00e1-la, preservar seus bens e servi\u00e7os e dar-lhe descanso para repor tudo o que lhe tiramos para a nossa vida e progresso. Nada disso fizemos.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o termos observado o preceito b\u00edblico de \u201cguardar e cuidar do Jardim do \u00c9den (da Terra: Gn 2,15) e amea\u00e7ado as bases ecol\u00f3gicas que sustentam toda vida, ela nos contra-atacou com uma arma poderosa, o coronav\u00edrus 19. Para enfrent\u00e1-lo retornamos ao m\u00e9todo da Idade M\u00e9dia que superou suas pandemias mediante o isolamento social rigoroso. Para fazer o povo, amedrontado, sair \u00e0 rua, na prefeitura de Munique (<em>Marienpltatz<\/em>) se construiu um engenhoso rel\u00f3gio com dan\u00e7arinos e cucos para todos acorrerem para apreci\u00e1-lo o que \u00e9 feito at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>A pandemia que \u00e9 mais que uma crise mas uma exig\u00eancia de mudan\u00e7a de vis\u00e3o de mundo e de incorpora\u00e7\u00e3o de novos valores nos coloca esta quest\u00e3o: queremos verdadeiramente evitar que a natureza nos envie v\u00edrus ainda mais letais que at\u00e9 podem dizimar a esp\u00e9cie humana? Esta seria uma entre as dez que desaparecem definitivamente a cada dia. Queremos correr esse risco?<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A<\/strong><strong>\u00a0inconsci\u00eancia generalizada do fator ecol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 em 1962, a bi\u00f3loga e escritora norte-americana Rachel Carson, autora de \u201cPrimavera Silenciosa\u201d(<em>Silient Spring<\/em>) advertiu: &#8220;\u00c9 pouco prov\u00e1vel que as gera\u00e7\u00f5es futuras tolerem nossa falta de preocupa\u00e7\u00e3o prudente pela integridade do mundo natural que sustenta toda a vida\u2026 A quest\u00e3o consiste em saber se alguma civiliza\u00e7\u00e3o pode levar adiante uma guerra sem tr\u00e9guas contra a vida, sem se destruir a si mesma e sem perder o direito de ser chamada de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Parece uma profecia da situa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo em n\u00edvel planet\u00e1rio. Temos a impress\u00e3o de que a maioria da humanidade e mesmo os l\u00edderes pol\u00edticos n\u00e3o demonstram uma consci\u00eancia suficiente dos perigos que estamos correndo com o aquecimento global, com a demasiada proximidade de nossas cidades e, principalmente, do agroneg\u00f3cio massivo da natureza virgem e das florestas sendo desmatadas. Desta forma destru\u00edmos os <em>habitats<\/em> dos milh\u00f5es de v\u00edrus e bact\u00e9rias que acabam se transferindo para os seres humanos.<\/p>\n<p>\u00c9 imperioso que abandonemos o velho paradigma da vontade de poder e de domina\u00e7\u00e3o sobre tudo (o punho cerrado) na dire\u00e7\u00e3o de um paradigma do cuidado de tudo o que existe e vive (a m\u00e3o estendida) e da corresponsabilidade coletiva. Escreveu Eric Hobsbown na \u00faltima frase de seu livro\u00a0<em>A era dos extremos<\/em>\u00a0(1995):<\/p>\n<p>&#8220;<em>Uma coisa \u00e9 clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhec\u00edvel, n\u00e3o pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro mil\u00eanio nesta base, vamos fracassar. O pre\u00e7o do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudan\u00e7a da sociedade \u00e9 a escurid\u00e3o<\/em>\u201d (p.506).<\/p>\n<p>Isto significa que n\u00e3o podemos voltar simplesmente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o anterior ao coronav\u00edrus. Nem pensar numa volta ao passado pr\u00e9-iluminismo como quer o atual governo brasileiro e outros de extrema-direita.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O p\u00f3s-pandemia: o novo ou a radicaliza\u00e7\u00e3o do antes?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o poucos os analistas que prognosticam que o p\u00f3s-pandemia poder\u00e1 significar uma radicaliza\u00e7\u00e3o extrema da situa\u00e7\u00e3o anterior, uma volta ao sistema do capital e ao neoliberalismo, procurando dominar o mundo com o uso da vigil\u00e2ncia digital (<em>big data<\/em>) sobre cada pessoa do planeta, coisa ali\u00e1s que j\u00e1 est\u00e1 em curso na China e nos EUA. A\u00ed entrar\u00edamos na era das trevas, com o risco, aventado por Raquel Carson da nossa autodestrui\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a exig\u00eancia de uma radical convers\u00e3o ecol\u00f3gica, cuja centralidade dever\u00e1 ser ocupada pela Terra, pela vida e pela civiliza\u00e7\u00e3o humana: uma <em>biociviliza\u00e7\u00e3o<\/em>. Caso quisermos sobreviver.<\/p>\n<p>Sigmund Freud, respondendo a uma carta de Albert Einstein de 1932, que perguntava se era poss\u00edvel superar a viol\u00eancia e a guerra, deixava aberta a quest\u00e3o. Respondeu ponderando que n\u00e3o podia afirmar qual instinto iria prevalecer: se o instinto de morte (<em>th\u00e1natos)<\/em> ou se o instinto de vida (e<em>ros)<\/em>. Eles est\u00e3o sempre se tensionando sem termos a certeza de quem no final triunfar\u00e1. Termina resignado: &#8220;Esfaimados pensamos no moinho que t\u00e3o lentamente m\u00f3i que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma opini\u00e3o nada otimista de um dos maiores intelectuais norte-americanos e cr\u00edtico severo do sistema imperialista, Noham Chomsky. Diz ele: \u00abO coronav\u00edrus \u00e9 algo s\u00e9rio o suficiente, mas vale lembrar que h\u00e1 algo muito mais terr\u00edvel se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que j\u00e1 aconteceu na hist\u00f3ria da humanidade e Trump e seus lacaios est\u00e3o \u00e0 frente disso, na corrida para o abismo. H\u00e1 <em>duas amea\u00e7a<\/em>s imensas que estamos encarando. Uma \u00e9 a crescente amea\u00e7a de guerra nuclear, exacerbada pela tens\u00e3o dos regimes militares e a outra, \u00e9 claro, pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas n\u00e3o h\u00e1 muito tempo e o coronav\u00edrus \u00e9 terr\u00edvel e pode ter p\u00e9ssimas consequ\u00eancias, mas ser\u00e1 superado, enquanto as outras n\u00e3o ser\u00e3o. Se n\u00f3s n\u00e3o resolvermos isso, estaremos condenados\u201d.<\/p>\n<p>Chomsky tem asseverado que o presidente Trump \u00e9 suficientemente insano para deflagar uma guerra nuclear, sem se importar com o que pode acontecer para toda a humanidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante esta vis\u00e3o dram\u00e1tica do prestigiado linguista e pensador, nossa esperan\u00e7a \u00e9 que se a humanidade for posta sob grave risco de realmente se autodestruir, o instinto de vida ir\u00e1 prevalecer. Mas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de termos constru\u00eddo uma forma diferente de habitar a Casa Comum sobre outras bases que n\u00e3o sejam nem do passado nem do presente.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Reinventar a humanidade e remodelar a Terra<\/strong><\/p>\n<p>O coronav\u00edrus nos obrigar\u00e1 a nos reinventar como humanidade e remodelar de forma sustent\u00e1vel e includente a \u00fanica Casa Comum que temos. Se prevalecer o que dominava antes, ainda exacerbado ao extremo, a\u00ed sim poderemos nos preparar para o pior. Entretanto, cabe recordar que o sistema-vida passou por v\u00e1rias grandes dizima\u00e7\u00f5es (estamos dentro da sexta) mas sempre sobreviveu.<\/p>\n<p>Ela pareceria \u2013 me permito uma met\u00e1fora singular \u2013 uma \u201cpraga\u201d que ningu\u00e9m at\u00e9 hoje conseguiu exterminar. Porque \u00e9 uma \u201cpraga\u201d bendita, ligada ao mist\u00e9rio do cosmog\u00eanese e daquela Energia de Fundo, misteriosa e amorosa que preside a todos os processos c\u00f3smicos e tamb\u00e9m os nossos.<\/p>\n<p>De todos os modos, o coronav\u00edrus nos mostrou de que n\u00e3o somos \u201cpequenos deuses\u201d que pretendem poder tudo; somos fr\u00e1geis e limitados; que a acumula\u00e7\u00e3o de bens materiais n\u00e3o salva a vida; que a globaliza\u00e7\u00e3o financeira sozinha, nos moldes competitivos do capitalismo, impede de criar, como prop\u00f5em os chineses \u201c<em>uma comunidade de destino comum para toda a humanidade<\/em>\u201d; que temos que criar um centro global e plural para gestionar os problemas globais; que a coopera\u00e7\u00e3o e a solidariedade de todos com todos e n\u00e3o o individualismo, constituem os valores centrais de uma <em>geosociedade<\/em>; que se deve reconhecer e respeitar os limites do sistema-Terra que n\u00e3o tolera um projeto de crescimento ilimitado; que devemos cuidar da natureza, como cuidamos de n\u00f3s mesmos, pois somos parte dela e \u00e9 ela que nos fornece todos os bens e servi\u00e7os necess\u00e1rios para a vida; que devemos buscar uma economia circular que realiza os famosos tr\u00eas erres (R):\u00a0<em>reduzir, reutilizar e reciclar<\/em> tudo que entrou no processo produtivo; que a economia seja de subsist\u00eancia digna e universal e n\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o de alguns \u00e0 custa de todos os outros e da natureza; que este tipo de economia da subsist\u00eancia diminui as necessidades para dar lugar \u00e0 sobriedade e assim reduzir enormemente as desigualdades sociais; que a nova ordem econ\u00f4mica n\u00e3o se regeria pelo lucro mas por uma racionalidade econ\u00f4mica com sentido social e ecol\u00f3gico;que seria altamente racional e humanit\u00e1rio criar uma renda universal m\u00ednima; que a assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade \u00e9 um direito humano universal (One <em>World-One Health<\/em>); que n\u00e3o podemos dispensar, antes favorecer, a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica feitas com consci\u00eancia e destinadas a servir \u00e0 vida e n\u00e3o ao mercado; que \u00e9 importante garantir um Estado regulador do mercado, impulsionador do desenvolvimento necess\u00e1rio e apetrechado para atender demandas coletivas, seja sanit\u00e1rias seja de calamidades naturais; que devemos incentivar o capital humano-espiritual, sempre ilimitado, fundado no amor, na solidariedade, na busca da justa medida, na fraternidade, na compaix\u00e3o, no encantamento do mundo e na busca incans\u00e1vel da paz.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o algumas li\u00e7\u00f5es, entre outras, que o coronav\u00edrus nos permite tirar. Citando a\u00a0<strong>Carta da Terra<\/strong>, um dos documentos oficiais (Unesco) mais inspiradores para a transforma\u00e7\u00e3o do nosso modo de ser no planeta Terra, &#8220;s\u00e3o necess\u00e1rias mudan\u00e7as fundamentais nos nossos valores, institui\u00e7\u00f5es e modos de vida\u2026 Nossos desafios ambientais, econ\u00f4micos, pol\u00edticos, sociais e espirituais est\u00e3o interligados e, juntos, podemos forjar solu\u00e7\u00f5es includentes\u201d (<em>Pre\u00e2mbulo<\/em>\u00a0c).<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><strong>Que vis\u00e3o de mundo e que valores incorporar?<\/strong><\/p>\n<p>Saber e tomar conhecimento dos dados da realidade n\u00e3o \u00e9 ainda fazer. O que nos move a agir? Que vis\u00e3o de mundo e que valores devemos incorporar? Orienta-nos um importante texto da parte conclusiva da Carta da Terra, de cuja reda\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m participei.<\/p>\n<p><em>&#8220;Como nunca antes na hist\u00f3ria, o destino comum nos conclama a buscar um novo come\u00e7o. Isto requer uma mudan\u00e7a na mente e no cora\u00e7\u00e3o; demanda um novo sentido de interdepend\u00eancia global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imagina\u00e7\u00e3o a vis\u00e3o de um modo de vida sustent\u00e1vel aos n\u00edveis local, nacional, regional e global\u201d <\/em>(<em>O caminho adiante<\/em>).<\/p>\n<p>Observemos: n\u00e3o se trata de apenas melhorar o caminho andado. Esse nos levar\u00e1 \u00e0s crises c\u00edclicas que j\u00e1 conhecemos e eventualmente ao desastre. Mas se trata de \u201cbuscar um\u00a0<em>novo come\u00e7o<\/em>\u201d. Vale dizer, somos desafiados a remontar a \u201cTerra, nosso lar, que est\u00e1 viva com uma comunidade de vida \u00fanica\u201d(CT, Pre\u00e2mbulo a). Enganoso seria cobrir as feridas da Terra com band-aids, pensando assim cur\u00e1-la. Temos que revitaliz\u00e1-la e refaze-la para ser a Casa Comum.<\/p>\n<p>\u201cIsto requer uma\u00a0<em>mudan\u00e7a de mente<\/em>\u201d. A mudan\u00e7a de mente significa um novo olhar sobre a Terra assim como a nova cosmologia e biologia a apresentam. Ela \u00e9 um momento do processo evolucion\u00e1rio que j\u00e1 possui 13,7 bilh\u00f5es e anos e a Terra, 4,3 bilh\u00f5es de anos. Depois do\u00a0<em>big bang<\/em>, todos os elementos f\u00edsico-qu\u00edmicos se forjaram ao longo de uns tr\u00eas bilh\u00f5es de anos no cora\u00e7\u00e3o das grandes estrelas vermelhas. Ao explodirem, jogarem para todas as dire\u00e7\u00f5es estes elementos que formaram as gal\u00e1xia, as estrela como o Sol, os planetas e a Terra.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 viva com uma vida que irrompeu h\u00e1 3,8 bilh\u00f5es de anos, um super-organismo sist\u00eamico que se auto-organiza e continuamente se auto-cria. Num momento avan\u00e7ado de sua complexidade, cerca de 8-10 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, uma por\u00e7\u00e3o dela come\u00e7ou a sentir, pensar, amar e venerar. Surgiu o ser humano, homem e mulher. Ele \u00e9 Terra consciente e inteligente, por isso se chama\u00a0<em>homo<\/em>, feito de h\u00famus.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o muda a nossa concep\u00e7\u00e3o da Terra. A ONU, em 22 de abril de 2009, oficialmente a reconheceu como <em>M\u00e3e Terra<\/em>, pois tudo gera e nos d\u00e1. Por isso, a Carta da Terra afirma: &#8220;Respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade e cuidar da comunidade de vida com compreens\u00e3o, compaix\u00e3o e amor\u201d (CT 1 e 2). Terra como solo podemos comprar e vender, cavar e fazer tantas coisas. M\u00e3e, no entanto, n\u00f3s n\u00e3o compramos nem vendemos; n\u00f3s a amamos e veneramos. Tais atitudes devem ser transferidas para a Terra, nossa M\u00e3e. Essa \u00e9 a nova mente que importa incorporar.<\/p>\n<p>\u201cRequer uma\u00a0<em>mudan\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a dimens\u00e3o do sentimento profundo, da sensibilidade, do amor, da compaix\u00e3o e dos valores que orientam nossa vida. Especialmente no cora\u00e7\u00e3o reside o cuidado que \u00e9 uma forma amig\u00e1vel e afetuosa de se relacionar com a natureza e os seus seres. Temos a ver com a raz\u00e3o sens\u00edvel ou cordial, com o c\u00e9rebro l\u00edmbico, que emergiu h\u00e1 220 milh\u00f5es de anos quando irromperam na evolu\u00e7\u00e3o os mam\u00edferos. Todos eles, como o ser humano, t\u00eam sentimentos, amor e cuidado para com sua cria. Esse \u00e9 o\u00a0<em>pathos,<\/em>\u00a0a capacidade de afetar e ser afetado, a dimens\u00e3o mais profunda do ser humano.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o (o\u00a0<em>logos<\/em>), a mente da qual nos referimos anteriormente, surgiu h\u00e1 apenas 8-10 milh\u00f5es de anos com o c\u00e9rebro neocortical e na forma avan\u00e7ada como\u00a0<em>homo sapiens<\/em>\u00a0(o homem atual)\u00a0h\u00e1 cerca de cem mil anos. Ele, na modernidade, foi desenvolvido de forma exponencial, dominando nossas sociedades e criando a tecnoci\u00eancia, os grandes instrumentos de domina\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o da face da Terra, inclusive criando uma m\u00e1quina de morte com armas nucleares e outras que podem p\u00f4r fim \u00e0 vida humana e da natureza.<\/p>\n<p>O excesso da raz\u00e3o, o racionalismo, criou uma esp\u00e9cie de lobotomia: o ser humano tem dificuldade de sentir o outro e o seu sofrimento. Precisamos completar a intelig\u00eancia racional, necess\u00e1ria para dar conta das necessidades de sobreviv\u00eancia da nossa vida mas h\u00e1 que complet\u00e1-la com a intelig\u00eancia emocional e sens\u00edvel para sermos mais completos e assumirmos com paix\u00e3o a defesa da Terra e da vida.<\/p>\n<p>Valem-nos as palavras do Papa Francisco em sua enc\u00edclica de ecologia integral \u201cSobre o cuidado da Casa Comum\u201d: \u201c<em>Devemos alimentar uma paix\u00e3o pelo cuidado do mundo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma m\u00edstica que nos anima, sem uma mo\u00e7\u00e3o interior que impele, motiva, encoraja e d\u00e1 sentido \u00e0 a\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria\u201d (n.216) <\/em>E acrescenta<em>: &#8220;Implica ainda a consci\u00eancia amorosa de n\u00e3o estarmos separados das outras criaturas, mas de formarmos com os outros seres do universo uma espl\u00eandida comunh\u00e3o universal<\/em>\u201d (n.220).<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o que nos leva a ouvir simultaneamente o grito da Terra e o grito do pobres e nos leva a socorr\u00ea-los, mudando a forma como nos relacionamos com eles, como produzimos e como consumimos, com esse ideal formulado pelo primeiro ministro chin\u00eas XI Jinping: \u201cCriar uma sociedade moderadamente abastecida\u201d ou como n\u00f3s dizemos: uma sociedade com um consumo s\u00f3brio e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>Segue ainda o texto da Carta da Terra: \u201c<em>Requer-se um novo sentido de interdepend\u00eancia global<\/em>\u201d. A rela\u00e7\u00e3o de todos com todos e por isso a interdepend\u00eancia global representa uma constante cosmol\u00f3gica. Tudo no universo \u00e9 rela\u00e7\u00e3o. Nada e ningu\u00e9m est\u00e3o fora da rela\u00e7\u00e3o. O cosmos \u00e9 constitu\u00eddo pelo conjunto das redes de rela\u00e7\u00e3o mais do que do n\u00famero inumer\u00e1vel dos corpos celestes. \u00c9 tamb\u00e9m um axioma da f\u00edsica qu\u00e2ntica segundo o qual todos os seres s\u00e3o inter-retro-relacionados. N\u00f3s mesmos, seres humanos, somos um rizoma (bulbo com ra\u00edzes) de rela\u00e7\u00f5es voltado para todas as rela\u00e7\u00f5es. Isso implica entender que todos os problemas ecol\u00f3gicos, econ\u00f4micos, pol\u00edticos e espirituais t\u00eam a ver uns com os outros. Tocando num tocamos na rede toda das rela\u00e7\u00f5es. A a\u00e7\u00e3o que fizermos afeta toda a rede de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esta compreens\u00e3o hol\u00edstica supera a atomiza\u00e7\u00e3o dos saberes e fragmenta\u00e7\u00e3o das atividades humanas. S\u00f3 salvaremos a vida se nos alinharmos \u00e0 esta l\u00f3gica universal que \u00e9 l\u00f3gica da natureza com sua espl\u00eandida diversidade. Todos os seres se entre-ajudam, at\u00e9 os mais d\u00e9beis, pois tamb\u00e9m estes possuem um valor em si mesmo e comunicam alguma mensagem do universo.<\/p>\n<p>Segue o texto da Carta Terra: &#8220;Requer-se uma <em>responsabilidade universal<\/em>\u201d. Responsabilidade significa dar-se conta das consequ\u00eancias de nossas a\u00e7\u00f5es, se s\u00e3o ben\u00e9ficas ou mal\u00e9ficas para o conjunto dos seres. Hans Jonas escreveu um livro cl\u00e1ssico sobre o\u00a0<em>\u201cPrinc\u00edpio Responsabilidade<\/em>\u201d. Ele inclui o princ\u00edpio de preven\u00e7\u00e3o e o de precau\u00e7\u00e3o. Na preven\u00e7\u00e3o podemos calcular os efeitos quando interviermos na natureza. O princ\u00edpio\u00a0de precau\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos permite medir as consequ\u00eancia e por isso n\u00e3o devemos arriscar com certas a\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es porque podem produzir efeitos altamente danosos para a vida.<\/p>\n<p>A responsabilidade deve ser universal, de todos. N\u00e3o \u00e9 assim que um grupo ou uma empresa assumam sua responsabilidade socioecol\u00f3gica, protegem o ar e garante a pureza das \u00e1guas, enquanto outras n\u00e3o cuidam destes efeitos danosos e os consideram simplesmente como exterioridades (coisas que n\u00e3o entram na contabilidade dos neg\u00f3cios). Ou todos assumem uma atitude respons\u00e1vel, por isso universal, e assim praticamos comportamentos ecologicamente ben\u00e9ficos ou ent\u00e3o seguiremos acumulando problemas para a vida e o futuro de nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mais ainda diz a Carta da Terra: \u201cD<em>esenvolver e aplicar com inven\u00e7\u00e3o a vis\u00e3o<\/em>\u00a0(de um modo sustent\u00e1vel de vida). Nada de grande neste mundo sem fez sem a inven\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio que projeta novos mundos e novos modos de ser. \u00c9 aqui o lugar das utopias vi\u00e1veis. Toda utopia alarga o horizonte e nos torna inventivos. O pr\u00f3prio ser humano emerge como um ser ut\u00f3pico, pois \u00e9 um projeto infinito e um ser habitado pelo desejo, cuja natureza, segundo os antigos e Freud, \u00e9 ilimitado. A utopia nos leva de horizonte a horizonte, fazendo-nos sempre caminhar na feliz express\u00e3o de Eduardo Galeano.<\/p>\n<p>Para superar o modo costumeiro de habitar a Casa Comum, sem sequer t\u00ea-la descoberto (isso ocorreu somente a partir das viagens espaciais), explorando seus ecossistemas, descuidando das florestas, das \u00e1guas, do ar puro e da fertilidade dos solos e de rela\u00e7\u00f5es justas e fraternas nas sociedades, precisamos da inven\u00e7\u00e3o que nasce de uma utopia ou de um sonho. Toda utopia \u00e9, por natureza, irrealiz\u00e1vel. Mas existem as utopias vi\u00e1veis, aquelas que podemos juntos trazer para a realidade. Assim que precisamos sonhar com o planeta como \u201cA Terra da Boa Esperan\u00e7a\u201d(Ignace Sachs) antes de p\u00f4r as m\u00e3os no seu fazimento. Essa utopia \u00e9 realiz\u00e1vel pela humanidade, quando despertar de seu sono de um mundo de m\u00e3o a m\u00e3o e abri-se ao grande sonho poss\u00edvel de outro mundo poss\u00edvel e necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mais ainda afirma a Carta da Terra: &#8220;U<em>ma vis\u00e3o de um modo sustent\u00e1vel de vida.\u00a0<\/em>Estamos acostumados \u00e0 express\u00e3o que est\u00e1 em todos os documentos oficiais e na boca da ecologia dominante \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d. Todas as an\u00e1lises s\u00e9rias t\u00eam mostrado que o nosso modo de produzir, distribuir e consumir \u00e9 insustent\u00e1vel. Vale dizer n\u00e3o consegue manter o equil\u00edbrio entre o que tiramos da natureza e que lhe deixamos para sempre poder se reproduzir e co-evoluir. Nossa voracidade tornou o planeta insustent\u00e1vel, pois se os pa\u00edses ricos quisessem universalizar seu bem-estar \u00e0 toda a humanidade, precisar\u00edamos, pelo menos, de tr\u00eas Terras iguais a esta, o que \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O atual desenvolvimento que significa crescimento econ\u00f4mico medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) revela espantosas desigualdades a ponto de a grande ONG Oxfam no seu informe de 2019 nos revelar que 1% da humanidade possui a metade da riqueza do mundo e que 20% controla 95% desta riqueza (do 1%) enquanto os restantes 80% t\u00eam que contentar-se com apenas 5% da riqueza. Tais dados revelam a completa insustentabilidade do mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>A Carta da Terra n\u00e3o se rege pela economia mas pela vida. Dai o grande desafio consiste em criar\u00a0<em>um modo sustent\u00e1vel de vida<\/em>\u00a0e todos os \u00e2mbitos, pessoal, familiar, social, nacional e internacional. Para isso se imp\u00f5em a necessidade de \u201cum novo come\u00e7o\u201d e n\u00e3o apenas de melhorias, mantendo o sistema desigual.<\/p>\n<p>Por fim, este modo sustent\u00e1vel de vida deve realizar-se em<em>\u00a0n\u00edvel local, nacional, regional e global.\u00a0<\/em>Evidentemente se trata de um projeto global que dever\u00e1 se realizado com prazos, na medida em que cresce a consci\u00eancia ecol\u00f3gica e nos dermos conta de nossa responsabilidade pelo futuro comum Terra e humanidade. Hoje, o ponto mais avan\u00e7ado na busca da sustentabilidade se realiza em n\u00edvel local e regional. Fala-se, ent\u00e3o, do biorregionalismo como a forma realmente vi\u00e1vel de concretizar a sustentabilidade. Tomando-se a regi\u00e3o como refer\u00eancia, n\u00e3o segundo as divis\u00f5es arbitr\u00e1rias ainda persistentes, mas aquelas que a pr\u00f3pria natureza fez com os rios, as montanhas, as florestas e outras que configuram um ecossistema regional. Dentro deste quadro pode realizar-se uma aut\u00eantica sustentabilidade, incluindo os bens naturais, a cultura e tradi\u00e7\u00f5es locais, as personalidades que marcaram aquela hist\u00f3ria, com o favorecimento de pequenas empresas e uma agricultura org\u00e2nica, com a participa\u00e7\u00e3o maior poss\u00edvel, num esp\u00edrito democr\u00e1tico. Desta forma se propiciar\u00e1 um \u201cbem viver e conviver\u201d (o ideal ecol\u00f3gico andino) suficiente, decente e sustent\u00e1vel com a diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o formulada pela <strong>Carta da Terra<\/strong> \u00e9 grandiosa e fact\u00edvel. O que mais precisamos \u00e9 de\u00a0<em>boa-vontade<\/em>, a \u00fanica virtude que para Kant n\u00e3o possui nenhum defeito e limita\u00e7\u00e3o, pois se tiver, deixar\u00e1 de ser boa. Essa boa-vontade impulsionaria as comunidades e, no limite, a inteira humanidade a realmente realizar \u201cum novo come\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><strong>Virtudes para um outro mundo poss\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p>Esse modo sustent\u00e1vel de vida se traduz por pr\u00e1ticas virtuosas que tornam real o modo sustent\u00e1vel de viver. S\u00e3o muitas as virtudes para um outro mundo poss\u00edvel. Serei breve, pois sobre isso publiquei tr\u00eas volumes com esse mesmo t\u00edtulo \u201c<em>Virtudes para um outro mundo poss\u00edvel<\/em>\u201d (Vozes 2005-2006). Enumero 10 sem detalhar-lhes o conte\u00fado, o que nos levaria longe.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 o\u00a0<em>cuidado essencial.\u00a0<\/em>Chamo de essencial pois segundo uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que nos vem dos romanos, atravessou os s\u00e9culos e ganhou sua forma maior entre v\u00e1rios autores especialmente no n\u00facleo central de <em>Ser e Tempo<\/em> de Heidegger. Ai se v\u00ea o cuidado como da ess\u00eancia do ser humano. Ele \u00e9 a pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para o conjunto de fatores que permitem a emerg\u00eancia da vida. Sem o cuidado, a vida jamais irromperia e subsistiria. Alguns cosm\u00f3logos como Brian Swimme e Stephan Hawking viram no cuidado como a din\u00e2mica mesma do universo. Se as quatro energias fundamentais n\u00e3o tivessem o sutil cuidado de atuarem sinergeticamente, n\u00e3o ter\u00edamos o mundo que temos. Todo ser vivo depende do cuidado. Se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos o infinito cuidado de nossas m\u00e3es, n\u00e3o saber\u00edamos como deixar o ber\u00e7o e buscar o nosso alimento, dado que somos seres biologicamente carentes, sem nenhum \u00f3rg\u00e3o especializado. Precisamos do cuidado de outros. Tudo o que amamos tamb\u00e9m cuidamos, tudo o que cuidamos tamb\u00e9m amamos. Face \u00e0 natureza significa uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, n\u00e3o agressiva e respeitosa de seus limites.<\/p>\n<p>A segunda virtude \u00e9 o\u00a0<em>sentimento de perten\u00e7a<\/em>\u00a0\u00e0 natureza, \u00e0 Terra e ao universo. Somos partes de um grande Todo que nos desborda por todos os lados; somos a parte consciente e inteligente da natureza, somos aquela por\u00e7\u00e3o da Terra que sente, pensa, ama e venera. Esse sentimento de perten\u00e7a nos enche de respeito, de encantamento e de acolhimento.<\/p>\n<p>A terceira virtude \u00e9\u00a0<em>a solidariedade e a coopera\u00e7\u00e3o<\/em>. Somos seres sociais que n\u00e3o apenas vivem mas convivem com outros. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade e a coopera\u00e7\u00e3o de nossos ancestrais antropoides que ao buscar o alimento e traz\u00ea-lo para o consumo coletivo, lhes permitiu deixar para tr\u00e1s a animalidade e inaugurar o mundo humano. Hoje, no caso do caronav\u00edrus, o que nos est\u00e1 salvando \u00e9 a solidariedade e a coopera\u00e7\u00e3o de todos com todos. Esta solidariedade deve come\u00e7ar pelos \u00faltimos e invis\u00edveis sem o que, ela deixa de ser inclusiva de todos.<\/p>\n<p>A quarta virtude \u00e9 a\u00a0<em>responsabilidade coletiva<\/em>. J\u00e1 temos exposto o seu sentido acima. \u00c9 o momento da consci\u00eancia em que cada um e uma inteira sociedade se d\u00e3o conta dos efeitos bons ou ruins de suas decis\u00f5es e atos. Seria absolutamente irrespons\u00e1vel o desmatamento desenfreado da Amaz\u00f4nia pois desequilibraria o regime de chuvas de vastas regi\u00f5es e eliminaria a biodiversidade indispens\u00e1vel para o futuro da vida. Nem precisamos nos referir a uma guerra nuclear cuja letalidade eliminaria toda a vida especialmente a humana .<\/p>\n<p>A quinta virtude \u00e9 a\u00a0<em>hospitalidade como dever e como direito<\/em>. O primeiro a apresentar a hospitalidade como dever e como direito foi Immanuel Kant no seu famoso texto \u201cEm vista da paz perp\u00e9tua\u201d(1795). Entendia que a Terra \u00e9 de todos, pois, Deus n\u00e3o deu t\u00edtulo de propriedade de algum peda\u00e7o dela a ningu\u00e9m. Ela pertence a todos os habitantes que podem andar por todas as partes. Ao encontrarem algu\u00e9m o dever de todos \u00e9 oferecer a hospitalidade, como sinal de perten\u00e7a comum \u00e0 Terra e todos t\u00eam o direito de serem acolhidos, sem qualquer distin\u00e7\u00e3o. Para ele, junto com o respeito dos direitos humanos constituiriam as pilastras para uma rep\u00fablica mundial (<em>Weltrepublik<\/em>). Esse tema \u00e9 atual\u00edssimo dado o n\u00famero de refugiados e as muitas discrimina\u00e7\u00f5es por v\u00e1rios t\u00edtulos. Talvez seja uma das virtudes mais urgentes no processo de planetiza\u00e7\u00e3o embora uma das menos vividas.<\/p>\n<p>A sexta virtude \u00e9\u00a0<em>a conviv\u00eancia de todos com todos<\/em>. A conviv\u00eancia \u00e9 um dado prim\u00e1rio, pois todos viemos da conviv\u00eancia que nossos pais tiveram. N\u00f3s somos seres de rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 o mesmo que dizer, n\u00e3o vivemos simplesmente mas de forma diuturna convivemos. Participamos da vida dos outros, de suas alegrias e ang\u00fastias. Especialmente custa a muitos a conviver com os diferentes, seja de etnia, de religi\u00e3o, de partido pol\u00edtico. O importante \u00e9 estar aberto \u00e0 troca. O diferente sempre nos traz algo novo que nos enriquece ou desafia. O que jamais podemos fazer \u00e9 transformar a diferen\u00e7a numa desigualdade. Podemos ser humanos de muitas formas diferentes, na forma brasileira, italiana, japonesa, yanomami. Mas cada forma \u00e9 humana e possui a sua dignidade. Hoje, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o cibern\u00e9ticos, abrimos janelas para todos os povos e culturas. Saber conviver com essa diferen\u00e7a abre novos horizontes e entramos numa esp\u00e9cie de comunh\u00e3o com todos. Esta conviv\u00eancia implica tamb\u00e9m a natureza, conviver com com as paisagens, com as florestas, com os p\u00e1ssaros e animais. N\u00e3o apenas olhar para o c\u00e9u estrelado, mas entrar em comunh\u00e3o com as estrelas, pois delas viemos e formamos um grande Todo. Por fim, formamos uma comunidade de destino comum junto com a totalidade da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A s\u00e9tima virtude \u00e9\u00a0<em>o respeito incondicional<\/em>. Cada ser, por menos que seja, possui valor em si mesmo, independentemente do uso humano. Quem desenvolveu o tema em profundidade foi Albert Schweitzer, grande m\u00e9dico su\u00ed\u00e7o que foi ao Gab\u00e3o na \u00c1frica para atender a hanseniamos. Para ele, o respeito \u00e9 a base mais importante da \u00e9tica, pois comporta acolhida, solidariedade e amor. Devemos come\u00e7ar com o respeito a n\u00f3s mesmos, ao manter atitudes e modos dignos que suscitam o respeito dos outros. Importa respeitar todos os seres da cria\u00e7\u00e3o, pois valem por eles mesmos; existem ou vivem e merecem existir ou viver. Mais que tudo, vale o respeito diante de cada pessoa humana, pois \u00e9 portadora de dignidade, de sacralidade e de direitos inalien\u00e1veis, pouco importa sua proced\u00eancia. Respeito supremo devemos ao Sagrado e a Deus, o mist\u00e9rio \u00edntimo de todas as coisas. S\u00f3 diante dele podemos cair de joelhos e reverenciar, pois s\u00f3 a Ele cabe esta atitude.<\/p>\n<p>A oitava virtude \u00e9\u00a0<em>justi\u00e7a social e igualdade fundamental de todos.<\/em> A justi\u00e7a \u00e9 mais que dar a cada um o que \u00e9 seu; entre os humanos, a justi\u00e7a \u00e9 o amor o respeito m\u00ednimo que devemos devotar aos outros. A justi\u00e7a social \u00e9 garantir os m\u00ednimos a todas as pessoas, n\u00e3o criar privil\u00e9gios e respeitar seus direitos em p\u00e9 de igualdade, pois todos somos humanos e merecemos ser tratados humanamente. Desigualdade social significa injusti\u00e7a social e, teologicamente, uma ofensa ao Criador e a seus filhos e filhas. Talvez, ela seja a maior perversidade hoje existente que deixa milh\u00f5es na mis\u00e9ria e condenados a morrer antes do tempo. Neste tempo de coronav\u00edrus se mostrou a viol\u00eancia da desigualdade social e da injusti\u00e7a. Enquanto uns podem viver sua quarentena em casas ou apartamentos adequados, a grande maioria pobre \u00e9 exposta \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o e, n\u00e3o raro, \u00e0 morte.<\/p>\n<p>A nova virtude \u00e9\u00a0<em>a busca incans\u00e1vel da paz<\/em>. A paz \u00e9 um dos bens mais ansiados, pois vivemos, por causa do tipo de sociedade que constru\u00edmos, em permanente concorr\u00eancia, apelos ao consumo e \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o da produtividade. A paz n\u00e3o existe em si, pois, ela \u00e9 <em>consequ\u00eancia<\/em>\u00a0de valores que devem ser vividos anteriormente e que t\u00eam como resultado a paz. Uma das mais pertinentes compreens\u00f5es da paz nos vem da Carta da Terra, na qual se diz: \u201c<em>a paz \u00e9 a plenitude que resulta de rela\u00e7\u00f5es corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte<\/em>\u201d(n.16 f). Como se depreende, a paz \u00e9 consequ\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es adequadas e \u00e9 o fruto da justi\u00e7a social. Sem estas rela\u00e7\u00f5es e a justi\u00e7a s\u00f3 conheceremos tr\u00e9guas mas nunca uma paz permanente.<\/p>\n<p>A d\u00e9cima virtude \u00e9 o\u00a0<em>cultivo do sentido espiritual da vida.<\/em>\u00a0O ser humano possui uma\u00a0<em>exterioridade<\/em>\u00a0corporal com a qual nos relacionamos com o mundo e as pessoas; temos uma\u00a0<em>interioridade<\/em> ps\u00edquica onde se aninham, na estrutura de desejo, nossas paix\u00f5es, os grandes sonhos e nossos anjos e dem\u00f4nios que devemos controlar estes \u00faltimos e cultivar amorosamente os primeiros. S\u00f3 assim gozaremos de um equil\u00edbrio necess\u00e1rio para a vida.<\/p>\n<p>Mas possu\u00edmos tamb\u00e9m a\u00a0<em>profundidade<\/em>, aquela dimens\u00e3o onde habitam as grandes interroga\u00e7\u00f5es da vida: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que podemos esperar depois desta vida terrena? Qual \u00e9 a Energia Suprema que sustenta o firmamento e conserva nossa Casa Comum ao redor do Sol e a mant\u00e9m sempre viva para nos permitir viver? \u00c9 a dimens\u00e3o espiritual do ser humano feita de valores intang\u00edveis como o amor incondicional, a confian\u00e7a na vida, a coragem de enfrentar as agruras inevit\u00e1veis. Damo-nos conta de que o mundo est\u00e1 repleto de sentidos, que as coisas s\u00e3o mais que coisas, pois s\u00e3o mensagens e possuem um outro lado invis\u00edvel. Intu\u00edmos que h\u00e1 uma Presen\u00e7a misteriosa que perpassa todas as coisas. As tradi\u00e7\u00f5es religiosas e espirituais chamaram a esta Presen\u00e7a de mil nomes, sem contudo poder decifr\u00e1-la totalmente. \u00c9 o mist\u00e9rio do mundo que remete ao Mist\u00e9rio Abissal que faz ser tudo aquilo que \u00e9. Cultivar este espa\u00e7o nos humaniza, nos torna mais humildes e nos enra\u00edza numa realidade transcendente, adequada ao nosso desejo infinito.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conclus\u00e3o:\u00a0 s<\/strong><strong>er simplesmente humanos<\/strong><\/p>\n<p>A conclus\u00e3o que tiramos destas longas reflex\u00f5es a prop\u00f3sito do Covid-19 \u00e9: devemos ser simplesmente humanos, vulner\u00e1veis, humildes, ligados uns aos outros, parte da natureza e a por\u00e7\u00e3o consciente e espiritual da Terra com a miss\u00e3o de cuidar da heran\u00e7a sagrada que recebemos, a M\u00e3e Terra, para n\u00f3s e para as futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Inspiradoras s\u00e3o as \u00faltimas frases da <strong>Carta da Terra<\/strong>: &#8220;Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova rever\u00eancia face \u00e0 vida, pelo compromisso firme de alcan\u00e7ar a sustentabilidade mediante a intensifica\u00e7\u00e3o da luta pela justi\u00e7a e pela paz, na alegre celebra\u00e7\u00e3o da vida\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>*Leonardo Boff<\/strong> <em>\u00e9 eco-te\u00f3logo e escreveu\u00a0Virtudes para um outro mundo poss\u00edvel\u00a0(3 vol.) Vozes 2005-2006.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":186404,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[59],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>P\u00f3s-Covid-19: que vis\u00e3o de mundo e que valores desenvolver?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/pos-covid-19-que-visao-de-mundo-e-que-valores-desenvolver\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"P\u00f3s-Covid-19: que vis\u00e3o de mundo e que valores desenvolver?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 - 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