{"id":184095,"date":"2020-04-20T13:01:53","date_gmt":"2020-04-20T16:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=184095"},"modified":"2020-07-27T10:58:03","modified_gmt":"2020-07-27T13:58:03","slug":"cuidar-do-proprio-corpo-e-dos-corpos-dos-outros-em-tempo-do-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/cuidar-do-proprio-corpo-e-dos-corpos-dos-outros-em-tempo-do-coronavirus\/","title":{"rendered":"Cuidar do pr\u00f3prio corpo e dos corpos dos outros em tempo do coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_186258\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-186258\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-186258 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/xaxim.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/xaxim.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/xaxim-450x241.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/xaxim-768x411.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/xaxim-150x80.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-186258\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<em> \u00a0 \u00a0Imagem ilustrativa (fonte: Acervo Prov\u00edncia da Imaculada)<\/em><\/p><\/div>\n<p>Nesses tempos dram\u00e1ticos sob o ataque do coronav\u00edrus sobre nossas vidas, sobre nossos corpos, nada mais oportuno que fazer uma reflex\u00e3o mais aprofundada sobre o que \u00e9 o nosso corpo e como devemos, <em>agora<\/em> mais do <em>antes<\/em>, cuidar dele e dos corpos dos outros.<\/p>\n<p>Para isso, importa, enriquecermos nossa compreens\u00e3o de corpo, porque aquela herdada dos gregos e ainda vigente na cultura dominante, entende o corpo como uma parte do ser humano ao lado da outra que \u00e9 a alma. Compreende-se comumente o ser humano como um <em>composto de corpo e alma<\/em>. Ao morrer, o corpo \u00e9 devolvido \u00e0 Terra enquanto a alma \u00e9 transladada para a eternidade, feliz ou infeliz conforme a qualidade de vida que tenha vivido. Tentemos enriquecer nossa compreens\u00e3o de corpo \u00e0 luz da nova antropologia.<\/p>\n<p><strong>A unidade complexa corpo-esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n<p>Tanto a antropologia b\u00edblica quanto a antropologia contempor\u00e2nea (e h\u00e1 muita afinidade entre elas) nos apresentam uma concep\u00e7\u00e3o de corpo mais complexa e hol\u00edstica. Segundo ela, o corpo n\u00e3o \u00e9 algo que temos mas algo\u00a0<em>que somos<\/em>. Falamos ent\u00e3o de homem-corpo, todo inteiro mergulhado no mundo e relacionado em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O ser humano apresenta-se primeiramente como corpo. Corpo vivo e n\u00e3o um cad\u00e1ver, uma realidade bio-psico-energ\u00e9tico-cultural, dotada de um sistema perceptivo, cognitivo, afetivo, valorativo, informacional e espiritual.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 feito dos materiais c\u00f3smicos que se formaram desde o in\u00edcio do processo da cosmog\u00eanese h\u00e1 13,7 bilh\u00f5es de anos, da biog\u00eanese, h\u00e1 3,8 bilh\u00f5es de anos e da antropog\u00eanese h\u00e1 7-8 milh\u00f5es de anos, portador de 400 trilh\u00f5es de c\u00e9lulas, continuamente renovadas por um sistema gen\u00e9tico que se formou ao largo de 3,8 bilh\u00f5es de anos (\u00e9 a idade da vida), habitado por um quatrilh\u00e3o de micr\u00f3bios (<em>Collins, A linguagem da vida, p.200<\/em>), munido de tr\u00eas n\u00edveis do \u00fanico c\u00e9rebro com 50 a 100 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios. O mais ancestral \u00e9 o <em>reptiliano<\/em>, surgido h\u00e1 250 milh\u00f5es de anos, responde por nossas rea\u00e7\u00f5es instintivas, como o abrir e fechar os olhos, as batidas do cora\u00e7\u00e3o e outras, ao redor do qual se formou o c\u00e9rebro\u00a0<em>l\u00edmbico,<\/em>\u00a0h\u00e1 125 milh\u00f5es de anos, que explica nossa afetividade, o amor e cuidado e, por fim, completado pelo c\u00e9rebro\u00a0<em>neo-cortical<\/em>\u00a0que irrompeu h\u00e1 cerca de 5-8 milh\u00f5es de anos, com o qual organizamos conceptualmente o mundo e nos abrimos \u00e0 totalidade do real.<\/p>\n<p>A corporalidade \u00e9 uma dimens\u00e3o da sujeito humano concreto. Isto quer dizer: na realidade, nunca encontramos um esp\u00edrito puro mas sempre em todo o lugar um esp\u00edrito encarnado. Pertence ao esp\u00edrito sua corporalidade e com isso sua permanente rela\u00e7\u00e3o com todas as coisas. Como homem-corpo emergimos qual n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es universais, a partir de nosso <strong>estar-no-mundo-com-os-outros.<\/strong><\/p>\n<p>Este <strong>estar-no-mundo-com-os-outros<\/strong> n\u00e3o \u00e9 uma dimens\u00e3o geogr\u00e1fica, nem acidental mas essencial. Quer dizer, em cada momento e em sua totalidade o ser humano \u00e9 corporal e simultaneamente em sua totalidade \u00e9 espiritual. Somos um corpo espiritualizado como somos tamb\u00e9m um esp\u00edrito corporizado. Esta unidade complexa do ser humano n\u00e3o pode ser nunca olvidada.<\/p>\n<p>Desta forma, os atos espirituais mais sublimes ou os voos mais altos da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica ou da m\u00edstica vem marcados pela corporalidade. Como os mais comezinhos atos corporais como comer, lavar-se, dirigir um carro, vem penetrados de esp\u00edrito. O corpo \u00e9 o esp\u00edrito se realizando dentro da mat\u00e9ria. E o esp\u00edrito \u00e9 a transfigura\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Neste sentido, podemos dizer que o esp\u00edrito \u00e9 vis\u00edvel. Quando olhamos, por exemplo, um rosto n\u00e3o vemos apenas os olhos, a boca, o nariz e o jogo dos m\u00fasculos. Surpreendemos tamb\u00e9m alegria ou ang\u00fastia, resigna\u00e7\u00e3o ou confian\u00e7a, brilho ou abatimento. O que se v\u00ea, pois, \u00e9 um corpo vivificado e penetrado de esp\u00edrito. De forma semelhante, o esp\u00edrito n\u00e3o se esconde atr\u00e1s do corpo. Na express\u00e3o facial, no olhar, no falar, no modo de estar presente e mesmo no sil\u00eancio se revela toda a profundidade do esp\u00edrito.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As for\u00e7as de autoafirma\u00e7\u00e3o e de integra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Por outro lado, importa entender que, biologicamente, somos seres carentes. N\u00e3o somos dotados de nenhum \u00f3rg\u00e3o especializado que nos garantisse a sobreviv\u00eancia ou nos defendesse dos riscos, como ocorre com os animais. Um patinho nasce e j\u00e1 sai nadando. O ser humano, n\u00e3o, ele precisa aprender. Alguns bi\u00f3logos chegam a dizer que somos \u201cum animal doente\u201d um \u201cfaux pas\u201d, uma \u201cpassagem\u201d (\u00dcbergang) para outra coisa mais alta ou complexa, por isso nunca somos fixados, somos inteiros mas ainda n\u00e3o completos, sempre por fazer.<\/p>\n<p>Tal verifica\u00e7\u00e3o tem como consequ\u00eancia que precisamos continuamente garantir a nossa exist\u00eancia, mediante o trabalho e a inteligente interven\u00e7\u00e3o na natureza. Deste esfor\u00e7o, nasce a cultura que organiza de forma mais est\u00e1vel as condi\u00e7\u00f5es infra-estruturais e tamb\u00e9m humano-espirituais para vivermos humanamente melhor e mais c\u00f4modos.<\/p>\n<p>Acresce ainda outro dado, presente tamb\u00e9m em todos os seres do universo, mas que no n\u00edvel humano ganha especial relev\u00e2ncia, especialmente com refer\u00eancia ao cuidado. Vigoram duas for\u00e7as em cada ser e em n\u00f3s. A primeira \u00e9\u00a0<em>a for\u00e7a da auto-afirma\u00e7\u00e3o,\u00a0<\/em>a segunda a\u00a0<em>for\u00e7a da integra\u00e7\u00e3o<\/em>. Elas atuam sempre juntas num equil\u00edbrio dif\u00edcil e sempre din\u00e2mico.<\/p>\n<p>Pela\u00a0<em>for\u00e7a da auto-afirma\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>cada ser, no caso, o ser humano,\u00a0 se centra em si mesmo e seu instinto \u00e9 conservar-se, defendendo-se contra todo tipo de amea\u00e7a contra sua integridade e sua vida. Defende-se ao ser amea\u00e7ado de morte. Ningu\u00e9m aceita simplesmente morrer. Luta para continuar a viver, a desenvolver-se e a se expandir. Essa for\u00e7a explica a persist\u00eancia e a subsist\u00eancia de cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Precisamos neste ponto superar totalmente o darwinismo social segundo o qual somente os mais bem dotados triunfam e permanecem. Essa \u00e9 uma meia verdade que est\u00e1 na contram\u00e3o do processo evolucion\u00e1rio. A lei b\u00e1sica da universo \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de todos com todos e a coopera\u00e7\u00e3o entre todos para que possam existir e continuar a evoluir. Este processo n\u00e3o privilegia s\u00f3 os mais bem dotados. Se assim fora, os dinossauros estariam ainda entre n\u00f3s. O sentido da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 permitir que todos os seres, tamb\u00e9m os mais vulner\u00e1veis, expressem dimens\u00f5es da realidade e virtualidades latentes dentro do universo em evolu\u00e7\u00e3o. Repetimos: esse \u00e9 o valor da interdepend\u00eancia de todos com todos e da solidariedade c\u00f3smica. Todos se<em> entre-ajudam<\/em> para coexistir e co-evoluir. Os fracos tamb\u00e9m merecem viver e tem algo a nos dizer. Observem que num pequeno buraco do asfalto nasce uma plantinha. \u00c9 um milagre da vida e nos d\u00e1 uma mensagem da for\u00e7a da vida.<\/p>\n<p>Pela\u00a0<em>for\u00e7a da integra\u00e7\u00e3o,<\/em> o indiv\u00edduo se descobre\u00a0 integrado numa rede de rela\u00e7\u00f5es, sem as quais, sozinho como indiv\u00edduo n\u00e3o viveria nem sobreviveria. Todos os seres s\u00e3o interconectados e vivem uns pelos outros, com os outros e para os outros. O indiv\u00edduo se integra, pois, naturalmente, num todo maior, na fam\u00edlia, na comunidade e na sociedade. Mesmo que o indiv\u00edduo morra, o todo garante que a esp\u00e9cie continue, permitindo que outros representantes venham nos suceder.<\/p>\n<p>Sabedoria humana \u00e9 reconhecer que chega certo momento na vida no qual a pessoa deve se despedir, agradecida, para deixar o lugar, at\u00e9 fisicamente, a outros que vir\u00e3o.<\/p>\n<p>O universo, os reinos, as esp\u00e9cies e tamb\u00e9m os seres humanos se equilibram entre estas duas for\u00e7as, a da auto-afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e a da integra\u00e7\u00e3o num todo maior. Mas esse processo n\u00e3o \u00e9 linear e sereno. Ele \u00e9 tenso e din\u00e2mico. O equil\u00edbrio das for\u00e7as nunca \u00e9 um dado, mas um feito a ser alcan\u00e7ado a todo o momento.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que entra o cuidado. Se n\u00e3o cuidarmos pode prevalecer ou a auto-afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e0 custa de uma insuficiente integra\u00e7\u00e3o no todo e ent\u00e3o predomina o eu, o individualismo, o autoritarismo e a viol\u00eancia ou pode prevalecer a integra\u00e7\u00e3o, o n\u00f3s a pre\u00e7o do enfraquecimento e at\u00e9 anula\u00e7\u00e3o do eu, do indiv\u00edduo e ent\u00e3o ganha a partida o coletivismo e o achatamento das individualidades. O cuidado aqui se traduz na justa medida e na autoconten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o privilegiar nenhuma destas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Efetivamente, na hist\u00f3ria social humana, surgiram sistemas que ora privilegiam o\u00a0<strong>eu<\/strong>, o indiv\u00edduo, seu desempenho e a propriedade privada como \u00e9 o caso do sistema capitalista ou ora prevalece o\u00a0<strong>n\u00f3s<\/strong>, o coletivo e a propriedade social como \u00e9 o caso do socialismo real. A exacerba\u00e7\u00e3o de uma destas for\u00e7as em detrimento da outra leva a desequil\u00edbrios, a devasta\u00e7\u00f5es e a trag\u00e9dias. O cuidado desaparece para dar lugar \u00e0 vontade de poder e at\u00e9 da brutalidade.<\/p>\n<p>Para equilibrar estas duas for\u00e7as se projetou a\u00a0<strong>democracia<\/strong>\u00a0que procura incluir e articular e eu com o n\u00f3s, onde cada indiv\u00edduo pode participar e com outros criar o n\u00f3s social. Dessa conviv\u00eancia do eu com o n\u00f3s nem sempre f\u00e1cil, nasce a busca do bem comum. Democracia \u00e9 participa\u00e7\u00e3o de todos, na fam\u00edlia, na comunidade, nas organiza\u00e7\u00f5es e na forma de organizar o Estado. \u00c9 um valor universal a ser sempre vivido e alimentado.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o desafio que se dirige ao ser humano? \u00c9 o cuidado de buscar o equil\u00edbrio constru\u00eddo conscientemente e fazer desta busca um um prop\u00f3sito e <em>uma atitude de base<\/em>. Portador de consci\u00eancia e de liberdade, o ser humano possui esta miss\u00e3o que o distingue dos demais seres. S\u00f3 ele pode ser um ser \u00e9tico, um ser que cuida se responsabiliza por si (eu) e pelo destino dos outros (n\u00f3s). Ele pode ser hostil \u00e0 vida, oprimir e devastar. Pode ser tamb\u00e9m o anjo bom, guardador e protetor de todo o criado. Depende de seu empenho em cuidar ou deixar que for\u00e7as obscuras e incontrol\u00e1veis assumam o curso da vida.<\/p>\n<p>Por causa da liberdade, ele n\u00e3o est\u00e1 submetido \u00e0 fatalidade do dinamismo das coisas. Ele pode intervir e salvar o mais fraco, impedir que uma esp\u00e9cie desapare\u00e7a ou criar condi\u00e7\u00f5es que diminuam o sofrimento, como \u00e9 o caso no momento atual.<\/p>\n<p>No lugar da lei do mais bem dotado e forte,\u00a0 prop\u00f5e-se a lei do cuidado do menos dotado e mais fraco. S\u00f3 o ser humano pode fazer isso. Por isso ele foi constitu\u00eddo como guardi\u00e3o dos seres, o jardineiro que cuida e guarda o Jardim do \u00c9den (Terra). Ele emerge como o cuidador das criaturas que mais precisam de condi\u00e7\u00f5es de vida e de inser\u00e7\u00e3o no todo. Desta forma assegura um futuro para o maior n\u00famero de pessoas e de representantes de outras esp\u00e9cies. Esse \u00e9 o desafio para o nosso pa\u00eds e para toda a Terra assolada pelo Covid-19.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os desafios do cuidado pelo pr\u00f3prio corpo<\/strong><\/p>\n<p>Depois desta longa introdu\u00e7\u00e3o surge a pergunta: como cuidar de nosso pr\u00f3prio corpo? Esse ponto \u00e9 fundamental neste momento em que devemos acolher o isolamento social para nos proteger do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, imp\u00f5e-se um esfor\u00e7o de manter nossa integridade e unidade complexa. Devemos assumir nosso enraizamento no mundo, com suas rela\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia, de trabalho, de profiss\u00e3o e de empenho pela sobreviv\u00eancia. E faz\u00ea-lo com inteireza, sabendo que somos a parte consciente e inteligente do todo, capaz de valorizar cada iniciativa, desde aquela que diz respeito \u00e0 higiene do corpo, at\u00e9 o trabalho mais sofisticado da intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesse momento \u00e9 dever proteger-se com a m\u00e1scara quando sa\u00edmos de casa e lavar continuamente as m\u00e3os com sab\u00e3o ou com \u00e1lcool-gel. O homem-corpo \u00e9 essa unidade complexa e exige todos estes cuidados, especialmente nesse momento dram\u00e1tico de nossa vida.<\/p>\n<p>Faz-se mister de opor-se conscientemente aos dualismos que a cultura persiste em manter, por um lado o \u201ccorpo\u201d, desvinculado do esp\u00edrito e por outro do \u201cesp\u00edrito\u201d desmaterializado de seu corpo. O <em>marketing<\/em> explora esta dualidade, apresentando o corpo n\u00e3o como a totalidade do humano, mas sua parcializa\u00e7\u00e3o, seus rostos, seus seios, seus m\u00fasculos, suas m\u00e3os, seus p\u00e9s, enfim, suas partes.<\/p>\n<p>Principais v\u00edtimas desta retalia\u00e7\u00e3o s\u00e3o as mulheres, embora n\u00e3o sejam as \u00fanicas, pois a vis\u00e3o machista se refugiou no mundo medi\u00e1tico da propaganda usando partes da mulher: o rosto, seus olhos, seus seios, seu sexo e outras partes, continuando perversamente a fazer da mulher um \u201cobjeto de cama e mesa\u201d. Devemos nos opor a esta deforma\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Importa tamb\u00e9m recusar o mero \u201cculto do corpo\u201d pelo sem n\u00famero de academias e outras formas de trabalho sobre a dimens\u00e3o f\u00edsica como se o homem-corpo fosse uma m\u00e1quina destitu\u00edda de esp\u00edrito, buscando performances musculares que n\u00e3o conhecem limites. Com isso n\u00e3o queremos desmerecer os benef\u00edcios que representam as academias. Afirmando positivamente isso, cabe enfatizar a alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada e sadia, as vantagens ineg\u00e1veis dos exerc\u00edcios de gin\u00e1stica, as massagens que revigoram o corpo e fazem fluir as energias vitais, particularmente, as gin\u00e1sticas orientais, entre elas a capacidade de o yoga de fortalecer a harmonia corpo-mente.<\/p>\n<p>O vestu\u00e1rio merece uma considera\u00e7\u00e3o especial. Ele n\u00e3o possui apenas uma fun\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria ao nos proteger das intemp\u00e9ries e de encobrir o que na nossa cultura (diferente da dos ind\u00edgenas) s\u00e3o as partes sexuais. Ele pertence ao cuidado do corpo, pois o vestu\u00e1rio representa uma linguagem, uma forma de revelar-se no cen\u00e1rio da vida. \u00c9 importante cuidar que o vestu\u00e1rio seja express\u00e3o de um modo de ser e mostre o perfil humano e est\u00e9tico da pessoa.<\/p>\n<p>Constitui uma demonstra\u00e7\u00e3o de anemia de esp\u00edrito as belezas constru\u00eddas por mil meios para ser aquilo que a vida n\u00e3o quis que as pessoas fossem. H\u00e1 uma beleza pr\u00f3pria de cada idade, um charme que nasce do trabalho que a vida e o esp\u00edrito fizeram na express\u00e3o \u201ccorporal\u201d do ser humano. N\u00e3o h\u00e1 <em>photoshop<\/em> que substituam a beleza rude de um rosto de um trabalhador, talhado pela dureza da vida, pelos tra\u00e7os faciais moldados pelo sofrimento e pela luta. Elas ganham uma express\u00e3o de grande for\u00e7a e energia. Falam da vida real e n\u00e3o artificial e constru\u00edda. As fotos trabalhadas dos \u00edcones da beleza convencional s\u00e3o todos parecidos, e mal disfar\u00e7am a artificialidade da figura constru\u00edda pelo marketing.<\/p>\n<p>Todos estes artificialismos de nossa cultura mais ligada ao mercado que \u00e0s necessidades reais da vida, levam a n\u00e3o cultivar o cuidado pr\u00f3prio de cada fase da vida, com sua beleza e irradia\u00e7\u00e3o singular mas tamb\u00e9m com as marcas de uma vida vivida que deixou estampada no rosto e no corpo as lutas, os sofrimentos, as supera\u00e7\u00f5es. Tais marcas s\u00e3o condecora\u00e7\u00f5es e criam uma beleza inigual\u00e1vel e uma irradia\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, ao inv\u00e9s de engessar-se num tipo de perfil de um passado j\u00e1 vivido.<\/p>\n<p>Positivamente cuidamos do corpo regressando para onde, por s\u00e9culos. nos hav\u00edamos exilado: para a natureza e para uma rela\u00e7\u00e3o benigna para com o todo da Terra. Isso significa estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>biofilia,\u00a0<\/em>\u00a0de amor e de sensibiliza\u00e7\u00e3o para com os animais, as flores, rosas e plantas, os climas, as \u00e1guas, com as paisagens, com a Terra. Quando a Terra vem mostrada a partir do espa\u00e7o exterior com essas belas imagens do globo terrestre transmitidas pelos grandes telesc\u00f3pios ou pelas naves espaciais irrompe em n\u00f3s um sentido de rever\u00eancia, de respeito e de amor pela nossa Casa Comum, a nossa Grande M\u00e3e de cujo \u00fatero todos viemos. Sentimo-nos humildes quando contemplamos a Terra como um p\u00e1lido ponto azul, a \u00faltima foto dela tirada antes de deixar o sistema solar e penetrar no infinito do espa\u00e7o sideral.<\/p>\n<p>Talvez o desafio maior para o homem-corpo consiste em lograr um equil\u00edbrio entre a autoafirma\u00e7\u00e3o, sem cair na arrog\u00e2ncia e no rebaixamento dos outros, e entre a integra\u00e7\u00e3o no todo maior, da fam\u00edlia, da comunidade, do grupo de trabalho e da sociedade, sem deixar-se massificar e cair no adesismo acr\u00edtico.<\/p>\n<p>A busca deste equil\u00edbrio n\u00e3o se resolve uma vez por todas, mas deve ser assumido diuturnamente, pois, ele nos \u00e9 cobrado a cada momento. E cada situa\u00e7\u00e3o, por mais estranha que possa parecer, \u00e9 suficientemente boa para encontrarmos o balan\u00e7o adequado entre as duas for\u00e7as que nos podem dilacerar ou nos podem unificar e dar leveza \u00e0 nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O cuidado em nossa inser\u00e7\u00e3o no estar-no-mundo-com-outros envolve nossa dieta: o que comemos e bebemos. Fazer do comer mais que um processo de nutri\u00e7\u00e3o mas um rito de comunh\u00e3o com os frutos da generosidade da Terra. Assim cada refei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o da vida. Saber escolher os produtos, os produzidos organicamente ou os menos quimicalizados. Aqui entra o cuidado como amorosidade para consigo mesmo que se traduz numa vida saud\u00e1vel e como precau\u00e7\u00e3o contra eventuais enfermidades que nos podem advir pelo ar contaminado, pelas \u00e1guas maltratadas, pela geral intoxica\u00e7\u00e3o do ambiente.<\/p>\n<p>O homem-corpo deve deixar transparecer essa harmonia interior e exterior, como membro da grande comunidade terrenal e bi\u00f3tica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O cuidado pelo corpo dos outros, dos pobres, da Terra<\/strong><\/p>\n<p>A maioria dos corpos humanos s\u00e3o enfermos, emagrecidos e deformados por demasiadas car\u00eancias. H\u00e1 uma humanidade-corpo faminta, sedenta, desesperada no esp\u00edrito pelo excesso de trabalho explorado e pela humilha\u00e7\u00e3o de serem tratados como carv\u00e3o a ser consumido no processo produtivo, na express\u00e3o do antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro.<\/p>\n<p>Cuidado para com os corpos dos empobrecidos e condenados da Terra \u00e9 n\u00e3o neg\u00e1-los e desprez\u00e1-los como ocorre na nossa tradi\u00e7\u00e3o escravagista. Mas consider\u00e1-los como co-iguais com os mesma dignidade e direitos. Socialmente \u00e9 lutar por pol\u00edticas p\u00fablicas, como foram feitas pelos projetos sociais da \u201cFome Zero\u201d, \u201cLuz para Todos\u201d, \u201cMinha Casa, minha Vida\u201d com a agricultura ecol\u00f3gica e familiar e outros, como as cozinhas comunit\u00e1rias, como as UPAS e outras iniciativas que organizam a solidariedade social para que todos possam ver realizado seu direito \u00e0 comensalidade, a poder comer o suficiente e decente de cada dia.<\/p>\n<p>Permito-me dar um exemplo: No nosso Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petr\u00f3polis, desenvolvemos um projeto \u201cP\u00e3o e Beleza\u201d, dando \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de rua uma boa refei\u00e7\u00e3o di\u00e1ria (cerca de 300 pessoas: o momento do P\u00e3o) e em seguida o momento da Beleza que \u00e9 a conquista de sua dignidade, a come\u00e7ar pelo nome (pois a maioria tem apelidos), fazendo c\u00edrculos de discuss\u00e3o sobre seus pr\u00f3prios problemas, acompanh\u00e1-los quando doentes \u00e0 assist\u00eancia m\u00e9dica ou psicol\u00f3gica e ver como reintegr\u00e1-los na sociedade com algum trabalho. A perspectiva continua sendo cuidar do ser humano integral, corpo-espirito, atrav\u00e9s do P\u00e3o necess\u00e1rio e do Esp\u00edrito cultivado.<\/p>\n<p>Importante em termos de uma pedagogia libertadora \u00e9 contribuir para que as pr\u00f3prios carentes, como sujeitos, se organizem e com sua press\u00e3o garantam as bases que sustentam a vida. Mas n\u00e3o apenas saciar a fome de P\u00e3o, sempre necess\u00e1ria e saci\u00e1vel, mas tamb\u00e9m sua fome de Beleza, insaci\u00e1vel, de reconhecimento, de respeito, de comunh\u00e3o, de Transcend\u00eancia, sempre aberta a um desenvolvimento ilimitado.<\/p>\n<p>Cuidar do corpo social \u00e9 uma miss\u00e3o pol\u00edtica que exige uma cr\u00edtica severa contra um sistema de rela\u00e7\u00f5es que trata as pessoas como coisas e lhes negam o acesso aos\u00a0<em>commons<\/em>\u00a0aos bens comuns que\u00a0 todos os seres humanos t\u00eam direito, como o alimento, a \u00e1gua, um peda\u00e7o de ch\u00e3o, o tratamento do esgoto e do lixo, a sa\u00fade, a moradia, a cultura e a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Na verdade, aqui se imporia uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria. Mas n\u00e3o basta quer\u00ea-la. Precisam-se das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-sociais que a viabilizem e a tornem vitoriosa. \u00c9 a utopia m\u00ednima a ser realizada at\u00e9 por um m\u00ednimo senso \u00e9tico.<\/p>\n<p>Hoje mais que em outras \u00e9pocas, urge cuidar do corpo da M\u00e3e Terra, marcado por chagas que n\u00e3o se fecham. H\u00e1 devasta\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis no reino animal, vegetal nos solos subsolos e nos mares. J\u00e1 externei a opini\u00e3o de que possivelmente o coronav\u00edrus seja uma rea\u00e7\u00e3o da M\u00e3e Terra, um\u00a0 contra-ataque \u00e0 sistem\u00e1tica viol\u00eancia que continuamente sofre.<\/p>\n<p>Ou cuidamos do corpo da M\u00e3e Terra ou corremos o risco de n\u00e3o haver mais lugar para n\u00f3s ou ela n\u00e3o nos querer mais sobre seu solo. Cuidar do corpo da Terra \u00e9 cuidar dos dejetos, da limpeza geral das ruas, pra\u00e7as, das \u00e1guas do ar, dos transportes, interessar-se por tudo o que diz respeito sobre seu estado do planeta, acompanhando pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o como est\u00e1 sendo tratado, agredido ou curado.<\/p>\n<p>Por fim, seja-nos permitido recordar a mensagem crist\u00e3 que, pela encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, santificou a mat\u00e9ria e tamb\u00e9m a eternizou. A ressurrei\u00e7\u00e3o do homem das dores, chagado e crucificado vem confirmar que o fim dos caminhos de Deus n\u00e3o \u00e9 um \u201cesp\u00edrito\u201d sem a mat\u00e9ria, mas o homem-corpo transfigurado, que realizou todas as potencialidades nele escondidas e elevado ao mais alto grau de sua evolu\u00e7\u00e3o humana e divina.<\/p>\n<p>\u00c9 o supremo cuidado que Deus mostrou para com o homem-corpo, ressuscitando-o como homem novo, \u201co nov\u00edssimo Ad\u00e3o\u201d como o chama S\u00e3o Paulo e, enfim, assumindo-o para dentro de sua pr\u00f3pria realidade infinita e eterna.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong> <em>\u00e9 ecote\u00f3logo e escreveu &#8220;O destino do homem e do mundo&#8221;, Vozes,muitas edi\u00e7\u00f5es 2012.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":186259,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[59],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - 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