{"id":183994,"date":"2020-04-06T09:20:07","date_gmt":"2020-04-06T12:20:07","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=183994"},"modified":"2020-07-27T11:06:41","modified_gmt":"2020-07-27T14:06:41","slug":"como-cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/como-cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronavirus\/","title":{"rendered":"Como cuidar de si e dos outros em tempos de coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<div>\n<div style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/02_cuidado-840.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"630\" \/><p class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Imagem ilustrativa (fonte: Acervo Prov\u00edncia da Imaculada)<\/em><\/p><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"post-header\">\n<div><\/div>\n<div class=\"date\"><strong>Leonardo Boff<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"entry clear\">\n<p>Vivemos tempos dram\u00e1ticos sob o ataque do coronav\u00edrus, uma esp\u00e9cie de guerra contra um inimigo invis\u00edvel contra o qual todo o arsenal destrutivo de armas nucleares, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas constru\u00eddas pelas pot\u00eancias militaristas, s\u00e3o totalmente in\u00fateis e at\u00e9 rid\u00edculas. O Micro (v\u00edrus) est\u00e1 derrotando o Macro(n\u00f3s).<\/p>\n<p>Temos que nos cuidar pessoalmente e cuidar dos outros, para podermos nos salvar juntos. Aqui n\u00e3o valem os valores da cultura do capital, a competi\u00e7\u00e3o, mas a coopera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o lucro mas a vida, n\u00e3o a riqueza de uns poucos e a pobreza das grandes maiorias, n\u00e3o a devasta\u00e7\u00e3o da natureza mas o seu cuidado. Estamos dentro do mesmo barco e sentimos que somos seres que dependemos uns dos outros. Aqui somos todos iguais e com o mesmo destino feliz ou tr\u00e1gico.<\/p>\n<p><strong>\u00a0O que somos enquanto humanos?<\/strong><\/p>\n<p>Nesses momentos de isolamento social for\u00e7ado, temos a oportunidade de pensarmos sobre n\u00f3s mesmos e o que realmente somos. Sabemos quem somos? Qual \u00e9 o nosso lugar no conjunto dos seres? Para que existimos? Por que podemos ser acometidos pelo coronav\u00edrus e at\u00e9 morrer? Para onde vamos? Refletindo nestas perguntas inadi\u00e1veis cabe lembrar a pondera\u00e7\u00e3o de Blaise Pascal(+1662). Ningu\u00e9m melhor do que ele, matem\u00e1tico, fil\u00f3sofo e m\u00edstico, para expressar o ser complexo que somos:<\/p>\n<p>\u201c<em>Que \u00e9 o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o infinito para onde vai\u201d(Pens\u00e9es \u00a7 72)<\/em>. Nele se cruzam os quatro infinitos: o infinitamente pequeno, o infinitamente grande, o infinitamente complexo ( Teihard de Chardin) e o infinitamente profundo.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o sabemos bem quem somos. Ou melhor, desconfiamos de alguma coisa na medida em que vivemos e acumulamos experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Em um somos muitos. Al\u00e9m daquilo que somos, vigora em n\u00f3s aquilo que podemos ser: o inesgot\u00e1vel cabedal de virtualidades escondidas dentro de n\u00f3s. Nosso potencial \u00e9 aquilo que \u00e9 o mais verdadeiro em n\u00f3s. Dai a nossa dificuldade de construirmos uma representa\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria do que somos. Mas isso n\u00e3o nos dispensa de elaborarmos algumas chaves de leitura que, de alguma maneira, nos orientam na busca daquilo que queremos e poderemos ser.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta busca que o\u00a0<strong>cuidado de si mesmo<\/strong>\u00a0desempenha uma fun\u00e7\u00e3o decisiva. Especialmente nesse momento dram\u00e1tico,quando estamos expostos de um inimigo invis\u00edvel que nos pode matar ou atrav\u00e9s de n\u00f3s, levar a doen\u00e7a ou a morte aos outros. N\u00e3o se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o pr\u00f3prio eu o que leva, geralmente, a n\u00e3o conhecer-se a si mesmo mas identificar-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, alienada e alienante.<\/p>\n<p>Foi o fil\u00f3sofo Michel Foucault que com sua minuciosa investiga\u00e7\u00e3o \u201c<em>Hermen\u00eautica do sujeito<\/em>\u201d(1984,em portugu\u00eas 2004) que tentou resgatar a tradi\u00e7\u00e3o ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos s\u00e1bios do s\u00e9culo II\/III como S\u00eaneca, Marco Aur\u00e9lio, Epiteto e outros. O grande <em>motto<\/em> era o famoso <em>\u201cgh\u00f4ti seaut\u00f3n\u201d<\/em> \u201c<em>conhe\u00e7a-te a ti mesmo<\/em>\u201d. Esse conhecimento n\u00e3o era entendido de forma abstrata mas concreta como : reconhe\u00e7a-te naquilo que \u00e9s, procure aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tente realizar aquilo que de fato \u00e9s\u201d.<\/p>\n<p>Importa afirmar em primeiro lugar: o ser humano \u00e9 um sujeito e n\u00e3o uma coisa. N\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia, constitu\u00edda uma vez por todas (Foucault,\u00a0<em>Hermen\u00eautica do sujeito<\/em>, 2004), mas um n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es sempre ativo que mediante o jogo das rela\u00e7\u00f5es est\u00e1 continuamente se construindo a si mesmo. Nunca estamos prontos, mas sempre nos formando.<\/p>\n<p>Todos os seres do universo, consoante a nova cosmologia, s\u00e3o portadores de certa subjetividade porque sempre est\u00e3o se relacionando e trocando informa\u00e7\u00e3o. Por isso eles t\u00eam hist\u00f3ria e um certo n\u00edvel de conhecimento inscrito em seu DNA.. Esse \u00e9 um princ\u00edpio cosmol\u00f3gico universal. Mas o ser humano realiza uma modalidade pr\u00f3pria deste princ\u00edpio relacional que \u00e9 o fato de ser um sujeito consciente e reflexivo. Ele sabe que sabe e sabe que n\u00e3o sabe e, para sermos completos, n\u00e3o sabe que n\u00e3o sabe como dizia ironicamente Miguel de Unamuno.<\/p>\n<p>Este n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es se articula a partir de um centro ao redor do qual organiza os sentimentos, as id\u00e9ias, os sonhos e as proje\u00e7\u00f5es. Este centro \u00e9 um eu, \u00fanico e irrepet\u00edvel. Ele representa, na linguagem do fil\u00f3sofo mais sutil de todos os medievais, o franciscano Duns Scotus(+1203), a \u201c<em>ultima soiitudo entis<\/em>\u201d, a \u201c\u00faltima solid\u00e3o do ser\u201d.<\/p>\n<p>Esta solid\u00e3o significa que o eu \u00e9 insubstitu\u00edvel e irrenunci\u00e1vel. Mas lembremos: deve ser entendido no contexto do n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es dentro do processo global de interdepend\u00eancias, de sorte que a solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o desligamento dos outros. Ela significa a singularidade e a especificidade inconfund\u00edvel de cada um. Portanto, esta solid\u00e3o \u00e9 para a comunh\u00e3o, \u00e9 um estar s\u00f3 em sua identidade para poder estar com o outro diferente e poder ser um-para-o-outro e com-o-outro. O eu nunca est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n<p><strong>Cuidar de si: acolher-se jovialmente<\/strong><\/p>\n<p>O cuidado de si implica, em primeir\u00edssimo lugar, acolher-se assim como \u00e9 com as aptid\u00f5es e limites que sempre o acompanham. N\u00e3o com amargura como quem n\u00e3o consegue evitar ou modificar a sua situa\u00e7\u00e3o existencial. Mas com jovialidade. Acolher o pr\u00f3prio tamanho, o rosto, o ttipo de cabelos, de pernas, de p\u00e9s, de seios, em fim, acolher seu ser corporal.<\/p>\n<p>Quanto mais nos aceitamos assim como somos, menos cl\u00ednicas de cirurgias pl\u00e1sticas haveria. Com as caracter\u00edsticas f\u00edsicas que temos devemos elaborar nosso jeito de ser e nosso\u00a0<em>mese-en-sc\u00e8ne<\/em>\u00a0no mundo. Podemos questionar a constru\u00e7\u00e3o artificial de uma beleza montada que n\u00e3o est\u00e1 em conson\u00e2ncia com uma beleza interior. H\u00e1 o risco real de perder a irradia\u00e7\u00e3o e ganhar lugar uma apar\u00eancia, sem brilho.<\/p>\n<p>Mais importante \u00e9 acolher os dons, as habilidades, o poder, o quociente de intelig\u00eancia, a capacidade emocional, o tipo de vontade e determina\u00e7\u00e3o com que cada um vem dotado. E ao mesmo tempo, sem resigna\u00e7\u00e3o negativa, os limites do corpo, da intelig\u00eancia, das habilidades, da classe social e da hist\u00f3ria familiar e nacional na qual est\u00e1 inserido.<\/p>\n<p>Tais realidades configuram a condi\u00e7\u00e3o humana concreta e se apresentam como desafios a serem enfrentados com equil\u00edbrio e com determina\u00e7\u00e3o de explorar o mais que podemos as nossas potencialidades positivas. E saber carregar, sem amargor, as negativas.<\/p>\n<p>O cuidado de si exige saber combinar as\u00a0<em>aptid\u00f5es<\/em>\u00a0com as\u00a0<em>motiva\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/em>Explico-me: n\u00e3o basta termos aptid\u00e3o para a m\u00fasica se n\u00e3o sentimos motiva\u00e7\u00e3o nenhuma para desenvolver esta capacidade. Da mesma forma, n\u00e3o nos ajudam as motiva\u00e7\u00f5es para sermos m\u00fasico se n\u00e3o tivermos a aptid\u00e3o para isso seja de ouvido seja de dom\u00ednio do instrumento. N\u00e3o adianta querer pintar como um van Gogh se alcan\u00e7a apenas a ser um pintor de paisagens, de flores e de passarinhos que mal chegam a ser expostos na feira de domingo na pra\u00e7a. Desperdi\u00e7amos energias e colhemos frustra\u00e7\u00f5es. A mediocridade n\u00e3o engrandece a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Outro componente do cuidado para consigo mesmo \u00e9 saber e aprender a conviver com o paradoxo que atravessa nossa exist\u00eancia: temos impulsos\u00a0<em>para cima<\/em>, para a bondade, a solidariedade, a compaix\u00e3o e o amor. E simultaneamente pulsam em n\u00f3s chamados para baixo como\u00a0 o egoismo, a exclus\u00e3o, a antipatia e at\u00e9 o \u00f3dio. Na hist\u00f3ria recente de nosso pa\u00eds, tais dimens\u00f5es contradit\u00f3rias apareceram de forma at\u00e9 virulenta, envenenando a conviv\u00eancia social.<\/p>\n<p>Somos feitos com estas contradi\u00e7\u00f5es, dadas com a exist\u00eancia. Antropologicamente se diz que somos ao mesmo tempo\u00a0<em>sapiens e demens<\/em>, gente de intelig\u00eancia e lucidez e junto a isso gente de rudeza e viol\u00eancia. Somos a converg\u00eancia das oposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cuidar de si mesmo imp\u00f5e saber renunciar e ir contra certas tend\u00eancias em n\u00f3s e at\u00e9 p\u00f4r-se \u00e0 prova; importa elaborar um projeto de vida que confira centralidade a estas dimens\u00f5es positivas e manter sob controle (sem recalc\u00e1-las porque elas persistem e podem voltar sob a forma incontrol\u00e1vel) as dimens\u00f5es sombrias que tornam ag\u00f4nica a nossa exist\u00eancia, quer dizer, sempre em combate contra n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Cuidar de si mesmo \u00e9 amar-se, acolher-se, reconhecer nossa vulnerabilidade, saber perdoar-se e desenvolver a resili\u00eancia que \u00e9 a capacidade de dar a volta por cima e aprender dos erros e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Cuidar de si: preocupar-se com o modo de se<\/strong><u>r<\/u><\/p>\n<p>O fato de estarmos expostos a for\u00e7as contradit\u00f3rias que convivem tensamente em n\u00f3s, precisamos viver o cuidado como preocupa\u00e7\u00e3o com nosso pr\u00f3prio destino. A vida pode nos conduzir por caminhos que podem significar felicidade ou insucesso. Podemos ser tomados por ressentimentos e amarguras que nos incitam \u00e0 viol\u00eancia. Temos que aprender a nos autocontrolarmos. Especialmente nestes tempos de confinamento social. Ele pode ser ocasi\u00e3o de desenvolver iniciativas criativas, exercitar a fantasia imaginativa que nos afastem dos riscos e nos abram espa\u00e7o para uma vida de dec\u00eancia.<\/p>\n<p>Hoje vemos sob a cultura do capital que continuamente nos solicita a sermos consumidores de bens materiais, de entretenimentos e de outros estratagemas que visam mais tirar nosso dinheiro que atender nossos desejos mais profundos.Cuidar de si \u00e9 preocupar-se em n\u00e3o cair nesta armadilha. \u00c9 criar a marca de sua pisada no ch\u00e3o e n\u00e3o pisar na marca feita pelo outro.<\/p>\n<p>Cuidar de si como preocupa\u00e7\u00e3o acerca do sentido de sua vida significa: ser cr\u00edtico, colocar muita coisa sob suspeita para n\u00e3o permitir que seja reduzido a um n\u00famero, a um mero consumidor, a um membro de uma massa an\u00f4nima e a um eco da voz do outro.<\/p>\n<p>Cuidar de si \u00e9 preocupar-se com seu lugar no mundo, na fam\u00edlia, na comunidade, na sociedade, no mundo e no des\u00edgnio de Deus. Cuidar de si \u00e9 reconhecer, na culmin\u00e2ncia da hist\u00f3ria, que Deus lhe deu um nome que \u00e9 s\u00f3 seu, que o define e que somente Deus e voc\u00ea o conhecer\u00e1.<\/p>\n<p>Na sociedade que nos massifica, \u00e9 decisivo cada um poder dizer o seu eu, ter a sua pr\u00f3pria vis\u00e3o das coisas e n\u00e3o ser apenas um mero repetidor daquilo que \u00e9 comunicado pelas muitas m\u00eddias \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o..<\/p>\n<p>O cuidado implica cultivar e zelar pelos nossos sonhos. O valor de uma vida se mede pela grandeza de seus sonhos e pelo empenho de realiz\u00e1-los, contra ventos e tempestades. E nada resiste \u00e0 esperan\u00e7a incans\u00e1vel. A vida \u00e9 sempre generosa. Aos que insistem e persistem, ela acabar\u00e1 por dar-lhe a chance necess\u00e1ria para concretizar seu sonho maior.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o irrompe o sentimento de realiza\u00e7\u00e3o que \u00e9 mais que a felicidade, moment\u00e2nea e fugaz. A realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto de uma vida, de uma perseveran\u00e7a, de uma luta nunca abandonada de quem viveu a sabedoria pregada por Dom Quixote:\u201d<em>no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas<\/em>\u201d. O modo de ser que resulta deste cuidado para com a autorrealiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma exist\u00eancia de equil\u00edbrio que gera serenidade no ambiente e o sentimento nos outros de sentirem-se bem em companhia de sua pessoa. A vida irradia, pois \u00e9 nisso est\u00e1 seu sentido: n\u00e3o simplesmente se vive porque n\u00e3o se morre, mas se vive para irradiar e desfrutar da alegria de existir.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Cuidado como precau\u00e7\u00e3o sobre nossos atos e atitudes<\/strong><\/p>\n<p>O cuidado como preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, nos abre para a precau\u00e7\u00e3o especialmente nestes tempos de coronav\u00edrus. Precaver-nos de n\u00e3o nos exp\u00f4r ao risco de pegar o v\u00edrus avassalador nem ser transmissor dele aos outros. Aqui o cuidado \u00e9 tudo, particularmente face aos mais vulner\u00e1veis que s\u00e3o as pessoas com mais de 65 anos, nossos av\u00f3s e parentes idosos.<\/p>\n<p>Alarguemos a perspectiva. Numa perspectiva ecol\u00f3gica, h\u00e1 atitudes e atos de falta de cuidado que podem ser gravemente destruidores como a pr\u00e1tica de usar intensivamente defensivos agr\u00edcolas, desmatar vasta regi\u00e3o para dar lugar \u00e0 pecu\u00e1ria ao ao agroneg\u00f3cio, mesmo a derrubada da mata ciliar dos rios. As consequ\u00eancias n\u00e3o precisam ser imediatas, mas a curto e m\u00e9dio prazo podem ser desastrosas como a diminui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua dos rios, a contamina\u00e7\u00e3o do n\u00edvel fre\u00e1tico, a mudan\u00e7a do clima e dos regimes de chuvas e de estiagem.<\/p>\n<p>Aqui se imp\u00f5e cuidadosa precau\u00e7\u00e3o para que a sa\u00fade humana de toda uma coletividade n\u00e3o seja afetada, como est\u00e1 ocorrendo neste momento no mundo inteiro.<\/p>\n<p>Com a introdu\u00e7\u00e3o das novas tecnologias como a biotecnologia, a rob\u00f3tica, a intelig\u00eancia artificial e a nanotecnologia pelas quais se manipulam os elementos \u00faltimos da mat\u00e9ria e da vida, podem ocorrer danos irrevers\u00edveis ou produzir elementos t\u00f3xicos, novas bact\u00e9rias e s\u00e9ries de v\u00edrus como o atual, o coronav\u00edrus, que podem comprometer o futuro da vida (cf. T.Goldborn, <em>O futuro roubado<\/em>, LPM 1977).<\/p>\n<p>Como nunca antes na hist\u00f3ria, o futuro da vida e das condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas de nossa subsist\u00eancia est\u00e3o colocadas sob nossa responsabilidade. Esta responsabilidade n\u00e3o pode nem deve ser delegada a empresas com seus cientistas em seus laborat\u00f3rios que decidem acerca do futuro de todos sem a consulta da sociedade. Aqui vale a cidadania planet\u00e1ria. Cada cidad\u00e3o \u00e9 convocado a acompanhar e coletivamente decidir que caminhos novos e mais promissores nos \u00e9 concedido rasgar para a humanidade e para a restante comunidade de vida e n\u00e3o apenas para o mercado e para o lucro das empresas.<\/p>\n<p>Cuidado como precau\u00e7\u00e3o especial merecem tamb\u00e9m nossas rela\u00e7\u00f5es. Elas devem ser sempre abertas e construtoras de pontes. Tal prop\u00f3sito implica superar as estranhezas e os preconceitos . Aqui importa sermos vigilantes e travarmos uma luta forte contra n\u00f3s mesmos e os h\u00e1bitos culturas estabelecidos. Albert Einstein, sabedor das dificuldades inerentes a este esfor\u00e7o, ponderou, n\u00e3o sem raz\u00e3o, que \u201c<em>\u00e9 mais f\u00e1cil desintegrar um \u00e1tomo que remover um preconceito da cabe\u00e7a de uma pessoa<\/em>\u201d..<\/p>\n<p>Cada vez que encontramos algu\u00e9m, estamos diante de uma emerg\u00eancia nova, oferecida pelo universo ou por Deus, uma mensagem que somente esta pessoa pode pronunciar e que pode significar uma luz em nosso caminho.<\/p>\n<p>N\u00f3s passamos uma \u00fanica vez por este planeta. Se eu puder fazer algum bem ao outro, n\u00e3o devo posterg\u00e1-lo nem negligenci\u00e1-lo. Pois, dificilmente, o irei encontrar outra vez sobre o mesmo caminho. Isso vale como disposi\u00e7\u00e3o de fundo de nosso projeto de vida.<\/p>\n<p>Importante \u00e9 preocupar-nos com nossa linguagem. Somos os \u00fanicos seres de fala. Pela fala, como nos ensinaram Maturana e Wiigenstein, organizamos nossas experi\u00eancias, colocamos ordem nas coisas e criamos a arquitet\u00f4nica dos saberes. Bem cantam os membros das Comunidades Eclesiais de Base do Brasil:\u201d<em>Palavra n\u00e3o foi feita para dividir ningu\u00e9m\/Palavra \u00e9 a ponte onde o amor vai o vem\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Pela palavra construirmos ou destru\u00edmos, consolamos ou amarguramos, criamos sentidos de vida ou de morte. As palavras antes de definir um objeto ou dirigir-se a algu\u00e9m, nos definem a n\u00f3s mesmos. Falam sobre quem somos e revelam em que mundo habitamos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Cuidado com nossa rela\u00e7\u00e3o maior: a amizade e o amor<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um cuidado especial que devemos cultivar sobre duas realidades fundamentais em nossa vida: a amizade e o amor. \u00a0 Muito se tem escrito sobre elas. Aqui nos restringimos ao m\u00ednimo. A amizade \u00e9 aquela rela\u00e7\u00e3o que nasce de uma ignota afinidade, de uma simpatia de todo inexplic\u00e1vel, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas se cria uma como que comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confian\u00e7a e da lealdade. A amizade possui ra\u00edzes t\u00e3o profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se os amigos ou amigas, os tempos se anulam e se reatam os la\u00e7os e at\u00e9 a recorda\u00e7\u00e3o da \u00faltima conversa.<\/p>\n<p>Cuidar das amizades \u00e9 preocupar-se pela vida, pelas penas e alegrias do amigo ou amiga. \u00c9 oferecer-lhe um ombro quando a vulnerabilidade o visita e o desconsolo lhe rouba as estrelas-guias. \u00c9 no sofrimento e no fracasso existencial, profissional ou amoroso que se comprovam os verdadeiros amigos ou amigas. Eles s\u00e3o como uma torre fort\u00edssima que defende o castelo de nossas vidas peregrinas.<\/p>\n<p>Rela\u00e7\u00e3o mais profunda e a que mais realiza\u00e7\u00f5es de felicidade traz ou de mais dolorosas frustra\u00e7\u00f5es \u00e9 a experi\u00eancia do amor. Nada \u00e9 mais preciso e apreci\u00e1vel do que o amor. Ele vive do encontro entre duas pessoas que se trocaram olhares, sentiram uma misteriosa atra\u00e7\u00e3o m\u00fatua e que moveram os cora\u00e7\u00f5es. Resolveram fundir as vidas, unir os destinos, compartir as fragilidades e as benqueren\u00e7as da vida.<\/p>\n<p>Estes valores, por serem os mais preciosos, s\u00e3o os mais fr\u00e1geis, porque s\u00e3o os mais expostos \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es da humana exist\u00eancia. Cada qual \u00e9 portador de luz e de sombras, de hist\u00f3rias familiares e pessoais cujas ra\u00edzes alcan\u00e7am arqu\u00e9tipos ancestrais, marcados\u00a0 tamb\u00e9m pelas experi\u00eancias felizes ou dram\u00e1ticas que deixaram marcas na mem\u00f3ria gen\u00e9tica de cada um.<\/p>\n<p>O amor \u00e9 uma arte combinat\u00f3ria de todos estes fatores, feita com sutileza que demanda capacidade de compreens\u00e3o, de ren\u00fancia, de paci\u00eancia e de perd\u00e3o e, ao mesmo tempo, de desfrute comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro, experi\u00eancia que serviu de base para entendermos a natureza de Deus, pois Ele \u00e9 amor incondicional e essencial.<\/p>\n<p>Quanto mais algu\u00e9m \u00e9 capaz de uma entrega total, maior e mais forte \u00e9 o amor. Tal entrega sup\u00f5e extrema coragem, uma experi\u00eancia de morte pois n\u00e3o se ret\u00e9m nada e se mergulha totalmente no outro.<\/p>\n<p>O homem possui especial dificuldade para este gesto extremo, talvez pela heran\u00e7a de machismo, patriarcalismo e racionalismo de s\u00e9culos que carrega dentro de si e que lhe limitam a capacidade desta confian\u00e7a extrema.<\/p>\n<p>A mulher \u00e9 mais radical: vai at\u00e9 o extremos da entrega no amor, sem resto e sem reten\u00e7\u00e3o. Por isso seu amor \u00e9 mais pleno e realizador e, quando \u00e9 frustrado, a vida revela contornos de trag\u00e9dia e de um vazio abissal.<\/p>\n<p>O segredo maior para cuidar do amor reside nisso: singelamente\u00a0<em>cultivar a ternura m\u00fatua<\/em>. A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos simb\u00f3licos que revelam o carinho, de sinais pequenos, como recolher da praia uma concha e lev\u00e1-la \u00e0 pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela.<\/p>\n<p>Tais \u201cbanalidades\u201d t\u00eam um peso maior que a mais preciosa joia. Assim como uma estrela n\u00e3o brilha sem uma aura ao seu redor, da mesma forma, o amor n\u00e3o vive e sobrevive sem uma atmosfera de afeto, enternecimento e cuidado.<\/p>\n<p>O cuidado \u00e9 uma arte. Como pertence \u00e0 ess\u00eancia do humano, ele sempre est\u00e1 dispon\u00edvel. Tudo o que vive, precisa ser alimentado. Assim o cuidado se alimenta de ternura e de vigilante preocupa\u00e7\u00e3o pelo futuro de si pr\u00f3prio e especialmente do outro.<\/p>\n<p>Isso se alcan\u00e7a reservando-se, \u00e0s vezes, momentos de reflex\u00e3o sobre si mesmo, fazendo sil\u00eancio ao seu redor, concentra-se nalguma leitura que lhe alimenta o esp\u00edrito e n\u00e3o em \u00faltimo lugar, entregar-se \u00e0 medita\u00e7\u00e3o e \u00e0 abertura \u00c0quele maior que det\u00e9m o sentido de nossas vidas e conhece todos os nossos segredos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Conclus\u00e3o: o cuidado \u00e9 tudo<\/strong><\/p>\n<p>O cuidado \u00e9 tudo, pois sem ele, ningu\u00e9m de n\u00f3s existiria. Quem cuida ama, quem ama cuida. Cuidemos-nos uns aos outros, particularmente nestes momentos dram\u00e1ticos de nossas vidas, pois elas correm perigo e podem afetar o futuro da vida e da humanidade sobre esse pequeno planeta que \u00e9 a \u00fanica Casa Comum que temos.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong>\u00a0escreveu\u00a0<em>Saber cuidar: \u00e9tica do humano-compaix\u00e3o pela Terra<\/em>, Vozes muitas edi\u00e7\u00f5es 2018 e\u00a0<em>A for\u00e7a da ternura,<\/em>\u00a0Mar de Ideias, Rio 2016.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":186355,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[59],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Como cuidar de si e dos outros em tempos de coronav\u00edrus - Vida Crist\u00e3 - 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