{"id":183733,"date":"2020-03-06T07:46:26","date_gmt":"2020-03-06T10:46:26","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=183733"},"modified":"2020-07-27T13:02:12","modified_gmt":"2020-07-27T16:02:12","slug":"a-amargura-na-vida-do-padre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-amargura-na-vida-do-padre\/","title":{"rendered":"A amargura na vida do padre"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_187008\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-187008\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-187008 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/artigo_2707_6.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"471\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/artigo_2707_6.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/artigo_2707_6-450x252.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/artigo_2707_6-768x431.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/artigo_2707_6-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-187008\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <em>Imagem ilustrativa (fonte: Acervo Prov\u00edncia da Imaculada)<\/em><\/p><\/div>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><strong>Discurso preparado pelo Santo Padre para a Liturgia Penitencial do Clero Romano, lido pelo Cardeal Angelo de Donatis, Vig\u00e1rio geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><em>A amargura na vida do padre<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Uma reflex\u00e3o ad intra<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o desejo tanto refletir sobre as tribula\u00e7\u00f5es que derivam da miss\u00e3o do presb\u00edtero: s\u00e3o coisas muito conhecidas e j\u00e1 amplamente diagnosticadas. Desejo falar com voc\u00eas, nesta ocasi\u00e3o, de um inimigo sutil e que encontra muitos modos para se camuflar e se esconder e, como um parasita, rouba-nos a alegria da voca\u00e7\u00e3o \u00e0 qual um dia fomos chamados. Quero falar a voc\u00eas a respeito daquela amargura em torno ao relacionamento com a f\u00e9, com o bispo e com os irm\u00e3os. Sabemos que podem existir outras ra\u00edzes e situa\u00e7\u00f5es, mas estas sintetizam tantos encontros que tive com alguns de voc\u00eas.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o notar logo duas coisas: a primeira, que estas linhas s\u00e3o fruto da escuta de alguns seminaristas e padres de diversas dioceses italianas e n\u00e3o devem se referir a alguma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. A segunda: que a maior parte de padres que conhe\u00e7o s\u00e3o felizes em suas vidas e consideram estas amarguras como parte normal do viver, sem dramas. Preferi assim recordar aquele que ou\u00e7o mais do que exprimir a minha opini\u00e3o sobre o tema.<\/p>\n<p>Olhar nos olhos as nossas amarguras e confrontar-se com elas nos permite entrar em contato com a nossa humanidade, com a nossa bendita humanidade. E assim nos recordarmos que como sacerdotes n\u00e3o fomos chamados a sermos onipotentes, mas homens pecadores perdoados e enviados. Como disse Santo Irineu de Lion: \u201cAquilo que n\u00e3o \u00e9 assumido n\u00e3o \u00e9 remido\u201d. Deixemos que tamb\u00e9m estas amarguras nos indiquem o caminho em dire\u00e7\u00e3o a uma maior adora\u00e7\u00e3o ao Pai e nos ajudem a experimentar de novo a for\u00e7a de sua un\u00e7\u00e3o misericordiosa (cf. Lc 15,11-32). Para dizermos com o salmista: \u201cMudastes o meu lamento em dan\u00e7a; tiraste-me as vestes de saco e me revestistes de alegria, para que meu cora\u00e7\u00e3o cante a v\u00f3s sem se calar\u201d (Sl 30, 12-13)<\/p>\n<p><em>Primeira causa de amargura: problemas com a f\u00e9<\/em><\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s esper\u00e1vamos que ele fosse &#8230;\u201d, confidenciam um ao outro os disc\u00edpulos de Ema\u00fas (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a024,21).\u00a0 Uma esperan\u00e7a decepcionada estava na raiz da amargura deles. Faz-se necess\u00e1rio, no entanto, refletir: o Senhor que nos decepcionou ou fomos n\u00f3s que trocamos a esperan\u00e7a por nossas expectativas? A esperan\u00e7a crist\u00e3 na realidade n\u00e3o decepciona e n\u00e3o falha. Ter esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 se convencer de que as coisas v\u00e3o melhorar, mas de que tudo aquilo que acontece tem um sentido \u00e0 luz da P\u00e1scoa. Mas, para termos a esperan\u00e7a crist\u00e3, \u00e9 necess\u00e1rio \u2013 como ensinava Santo Agostinho a Proba \u2013 \u00a0viver uma vida de substanciosa ora\u00e7\u00e3o. \u00c9 ali que se aprende a distinguir entre expectativa e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim, o relacionamento com Deus \u2013 mais do que as decep\u00e7\u00f5es pastorais \u2013 pode ser causa profunda de amargura. \u00c0s vezes chega a parecer que Ele n\u00e3o respeita as expectativas de uma vida plena e abundante que t\u00ednhamos no dia da ordena\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes uma adolesc\u00eancia jamais conclu\u00edda n\u00e3o nos ajuda a passarmos dos sonhos \u00e0 esperan\u00e7a. Talvez, como padres, sejamos por demais \u201ccertinhos\u201d em nosso relacionamento com Deus e n\u00e3o ousamos protestar em nossa ora\u00e7\u00e3o, como faz o salmista com muita frequ\u00eancia \u2013 n\u00e3o s\u00f3 por n\u00f3s mesmos, mas tamb\u00e9m pela nossa gente; pois o pastor carrega tamb\u00e9m as amarguras de sua gente; mas tamb\u00e9m os salmos foram \u201ccensurados\u201d e dificilmente assumimos uma espiritualidade do protesto. Assim ca\u00edmos no cinismo: descontentes e um pouco frustrados. O protesto verdadeiro \u2013 de adulto \u2013 n\u00e3o \u00e9 contra Deus, mas diante d\u2019Ele, porque nasce precisamente da confian\u00e7a n\u2019Ele: o orante recorda ao Pai quem Ele \u00e9 e o que \u00e9 digno do seu Nome. N\u00f3s devemos santificar o seu Nome, mas \u00e0s vezes cabe aos disc\u00edpulos despertar o Senhor e dizer a Ele: \u201cN\u00e3o te importas que estejamos perdidos?\u201d (Mc4, 35-41). Assim o Senhor deseja envolver-nos diretamente no seu reino. N\u00e3o como espectadores, mas participando ativamente.<\/p>\n<p>Que diferen\u00e7a h\u00e1 entre expectativa e esperan\u00e7a? A expectativa nasce quando passamos a vida procurando salv\u00e1-la: lutamos procurando seguran\u00e7as, recompensas, avan\u00e7os&#8230; Quando recebemos aquilo que desejamos, quase chegamos a sentir que jamais morreremos, que ser\u00e1 sempre assim! Porque o ponto de refer\u00eancia somos n\u00f3s. A esperan\u00e7a, no entanto, \u00e9 algo que nasce no cora\u00e7\u00e3o quando se decide n\u00e3o defender-se mais. Quando reconhe\u00e7o os meus limites e que nem tudo come\u00e7a e termina comigo, ent\u00e3o reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia de ter f\u00e9. J\u00e1 o teatino Lorenzo Scupoli, em seu <em>Combate Espiritual<\/em> , ensinava: a chave de tudo est\u00e1 num movimento duplo e simult\u00e2neo: desconfiar de si e confiar em Deus. Tenho esperan\u00e7a n\u00e3o quando n\u00e3o h\u00e1 mais nada a fazer, mas quando deixo de dar-me a fazer somente por mim. A esperan\u00e7a se rege sobre uma alian\u00e7a: Deus me falou e me prometeu no dia da ordena\u00e7\u00e3o que minha vida seria plena, com a plenitude e o sabor das Bem-Aventuran\u00e7as; certamente atribulada \u2013 como aquela de todos os homens \u2013, mas bela. A minha vida \u00e9 saborosa se eu fizer a P\u00e1scoa, n\u00e3o se as coisas caminham como eu digo.<\/p>\n<p>E aqui se compreende uma outra coisa: n\u00e3o basta escutarmos somente a nossa hist\u00f3ria para compreender estes processos. \u00c9 preciso escutarmos a nossa hist\u00f3ria e a nossa vida \u00e0 luz da Palavra de Deus. Os disc\u00edpulos de Ema\u00fas superaram a decep\u00e7\u00e3o quando o Resuscitado abriu suas mentes \u00e0 intelig\u00eancia das Escrituras. Ent\u00e3o: as coisas v\u00e3o melhorar n\u00e3o s\u00f3 porque nos tornaremos superiores em miss\u00f5es ou estrat\u00e9gias, mas porque seremos consolados pela Palavra. Confessava o Profeta Jeremias: \u201cA tua Palavra foi a alegria e a exulta\u00e7\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o\u201d (15,16).<\/p>\n<p>A amargura \u2013 que n\u00e3o \u00e9 uma culpa \u2013 passa a ser acolhida. Pode ser uma grande ocasi\u00e3o. Talvez seja tamb\u00e9m salutar, porque faz soar o sino do alarme interior: \u201cAten\u00e7\u00e3o, voc\u00ea trocou a alian\u00e7a pelas seguran\u00e7as, est\u00e1 se tornando \u2018tolo e insensato de cora\u00e7\u00e3o\u2019\u201d. H\u00e1 uma tristeza que nos pode conduzir a Deus. Acolhamo-la, n\u00e3o fiquemos com raiva de n\u00f3s mesmos. Pode ser a hora certa. Tamb\u00e9m S\u00e3o Francisco de Assis a experimentou, como recorda em seu <em>Testamento (FF, 110). <\/em>A amargura se transformar\u00e1 em grande do\u00e7ura, e as do\u00e7uras f\u00e1ceis e mundanas se transformar\u00e3o em amarguras.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>Segunda causa de amargura: problemas com o bispo<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o quero cair na ret\u00f3rica ou procurar o bode expiat\u00f3rio, nem mesmo defender-me ou defender aqueles do meu \u00e2mbito. O lugar comum que encontra nos superiores as culpas de tudo n\u00e3o vale mais. Nos dias de hoje parece se respirar uma atmosfera geral (n\u00e3o s\u00f3 entre n\u00f3s) de uma mediocridade difusa que n\u00e3o nos permite apoiar-nos em ju\u00edzos f\u00e1ceis. No entanto, permanece o fato de que muita amargura na vida do padre ocorre pela omiss\u00e3o dos pastores.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s fazemos experi\u00eancia de nossos limites e car\u00eancias. Afrontamos situa\u00e7\u00f5es em que nos damos conta que n\u00e3o somos adequadamente preparados&#8230; Mas quando subimos para servi\u00e7os e minist\u00e9rios com maios visibilidade, as car\u00eancias se tornam mais evidentes e barulhentas; e \u00e9 tamb\u00e9m consequ\u00eancia l\u00f3gica que neste relacionamento haja muito em jogo, para o bem e para o mal. Quais omiss\u00f5es? N\u00e3o se alude aqui \u00e0s diverg\u00eancias muitas vezes inevit\u00e1veis em torno de problemas administrativos e pastorais. Isto \u00e9 toler\u00e1vel e faz parte da vida sobre esta terra. At\u00e9 que Cristo n\u00e3o seja tudo em todos, todos buscaremos nos impor sobre todos. \u00c9 o Ad\u00e3o deca\u00eddo que est\u00e1 em n\u00f3s a nos pregar estas pe\u00e7as.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema que amargura n\u00e3o s\u00e3o as diverg\u00eancias (e talvez nem mesmo os erros; tamb\u00e9m um bispo tem o direito de errar como todas as criaturas!), mas sim duas raz\u00f5es muito s\u00e9rias e desestabilizadoras para os padres.<\/p>\n<p>Antes de tudo uma mar\u00e9 autorit\u00e1ria <em>soft<\/em>: n\u00e3o se aceitam aqueles entre n\u00f3s que pensam diferente. Por uma palavra dita, a pessoa passa a ser inserida na categoria daqueles que remam contra; por uma diferen\u00e7a, passa a ser contada entre os descontentes. A <em>parresia <\/em>\u00e9 sepultada pelo frenesi de se impor projetos. O culto das iniciativas vai substituindo o essencial: uma s\u00f3 f\u00e9, um s\u00f3 batismo, um s\u00f3 Deus Pai de todos. A ades\u00e3o \u00e0s iniciativas corre o risco de se transformar no \u201cmetro\u201d da comunh\u00e3o. Mas tal ades\u00e3o n\u00e3o coincide sempre com a unanimidade das opini\u00f5es. Nem se pode pretender que a comunh\u00e3o seja exclusivamente unidirecional: os padres devem estar em comunh\u00e3o com o bispo&#8230; e os bispos em comunh\u00e3o com os padres: n\u00e3o \u00e9 um problema de democracia, mas de paternidade.<\/p>\n<p>S\u00e3o Bento em sua Regra \u2013 estamos no c\u00e9lebre cap\u00edtulo III \u2013 recomenda que o abade, quando deve afrontar uma quest\u00e3o importante, consulte a comunidade inteira, inclusive os mais jovens. Em seguida, reitera que a decis\u00e3o \u00faltima cabe somente ao abade, que tudo deve dispor com <em>prud\u00eancia e equidade<\/em>. Para Bento n\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o a autoridade, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o abade que responde diante de Deus pela condu\u00e7\u00e3o do mosteiro; por\u00e9m se diz que ao decidir ele deve ser \u201cprudente e justo\u201d. A primeira palavra conhecemos bem: prud\u00eancia e discernimento fazem parte do vocabul\u00e1rio comum.<\/p>\n<p>Menos habitual \u00e9 a \u201cequidade\u201d: equidade quer dizer levar em conta a opini\u00e3o de todos e salvaguardar a representatividade do rebanho, sem fazer prefer\u00eancias. A grande tenta\u00e7\u00e3o dos pastores \u00e9 circudarem-se dos \u201cseus\u201d, dos \u201cpr\u00f3ximos\u201d; e assim, infelizmente, a real compet\u00eancia \u00e9 suplantada por uma certa lealdade presumida, sem haver distin\u00e7\u00e3o entre aqueles que desejam agradar e quem aconselha de maneira desinteressada. Isto causa muito sofrimento ao rebanho, que geralmente aceita sem externar nada.<\/p>\n<p><em>Terceira causa de amargura: os problemas entre n\u00f3s<\/em><\/p>\n<p>O padre nestes \u00faltimos anos tem sentido os golpes dos esc\u00e2ndalos financeiros e sexuais. A suspeita tornou os relacionamentos drasticamente mais frios e formais; j\u00e1 n\u00e3o se desfrutam dos dons dos outros, pelo contr\u00e1rio, parece que seja uma miss\u00e3o destruir, minimizar e lan\u00e7ar suspeitas. Diante dos esc\u00e2ndalos, o maligno nos tenta, empurrando-nos para uma vis\u00e3o \u201cdonatista\u201d da Igreja: dentro, os impec\u00e1veis, fora, os que erram. Temos falsas concep\u00e7\u00f5es da Igreja militante, numa esp\u00e9cie de puritanismo eclesiol\u00f3gico. A Esposa de Cristo \u00e9 e continua sendo o campo onde crescem at\u00e9 a <em>parusia<\/em> gr\u00e3o e ciz\u00e2nia. Quem n\u00e3o tomou para si esta vis\u00e3o evang\u00e9lica da realidade se exp\u00f5e a amarguras indiz\u00edveis e desnecess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Assim, os pecados p\u00fablicos e publicizados do clero tornaram todos mais cautelosos e menos dispostos a criar la\u00e7os significativos, especialmente para compartilhar a f\u00e9. Multiplicam-se os compromissos comuns \u2013 forma\u00e7\u00e3o permanente e outros \u2013 mas se participa com um cora\u00e7\u00e3o menos disposto. H\u00e1 mais \u201ccomunidade\u201d, mas menos comunh\u00e3o! A pergunta que nos fazemos quando encontramos um novo irm\u00e3o emerge silenciosamente: \u201cQuem eu tenho verdadeiramente diante de mim? Posso confiar nele?\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata da solid\u00e3o: ela n\u00e3o \u00e9 um problema, mas um aspecto do mist\u00e9rio da comunh\u00e3o. A solid\u00e3o crist\u00e3 \u2013 aquela de quem entra em seu quarto e reza ao Pai em segredo \u2013 \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, a verdadeira fonte da acolhida amorosa do outro. O verdadeiro problema est\u00e1 em n\u00e3o se encontrar mais o tempo para estar a s\u00f3s. Sem solid\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 amor gratuito e os outros se tornam um substituto para os vazios. Neste sentido, como padres devemos sempre reaprender a estar a s\u00f3s \u201cevangelicamente\u201d, como Jesus \u00e0 noite com o Pai.<\/p>\n<p>Aqui o drama \u00e9 o isolamento, que \u00e9 outra coisa diferente da solid\u00e3o. Um isolamento n\u00e3o s\u00f3 e n\u00e3o tanto exterior \u2013 estamos sempre no meio das pessoas -, \u2013quanto inerente \u00e0 alma do padre.\u00a0 Come\u00e7o pelo isolamento mais profundo para depois toca-lo na forma mais vis\u00edvel.<\/p>\n<p><em>Isolados da Gra\u00e7a: <\/em>banhados pelo secularismo, n\u00e3o cremos nem sentimos mais que somos circundados por amigos celestes \u2013 o \u201cgrande n\u00famero de testemunhas\u201d\u00a0 (Cf. Hb 12,1) \u2013; parece-nos experimentar que a nossa hist\u00f3ria, as afli\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tocam ningu\u00e9m. O mundo da gra\u00e7a pouco a pouco se torna para n\u00f3s estranho, os santos nos parecem somente os \u201camigos imagin\u00e1rios\u201d das crian\u00e7as. O Esp\u00edrito que habita o cora\u00e7\u00e3o \u2013 substancialmente e n\u00e3o em figura \u2013 \u00e9 algo que talvez n\u00e3o tenhamos jamais experimentado por dissipa\u00e7\u00e3o ou neglig\u00eancia. Conhecemos, mas n\u00e3o tocamos. O distanciamento da for\u00e7a da gra\u00e7a produz racionalismos ou sentimentalismo. Jamais uma carne remida.<\/p>\n<p><em>Isolados da hist\u00f3ria<\/em>: tudo parece consumar-se no aqui e no agora, sem esperan\u00e7a nos bens prometidos e na recompensa futura. Tudo se abre e se fecha conosco. A minha morte n\u00e3o \u00e9 a passagem de uma testemunha, mas uma interrup\u00e7\u00e3o injusta. Quanto mais nos sentimos especiais, poderosos, ricos de dons, mas se fecha o nosso cora\u00e7\u00e3o ao sentido de continuidade da hist\u00f3ria do Povo de Deus ao qual pertencemos. A nossa consci\u00eancia individualizada nos faz acreditar que nada havia antes ou depois de n\u00f3s.\u00a0 \u00c9 por isso que temos tanta dificuldade para cuidar e dar continuidade \u00e0quilo que o nosso predecessor come\u00e7ou de bom: muitas vezes chegamos na par\u00f3quia e nos sentimos do dever de encar\u00e1-la como uma <em>t\u00e1bula rasa<\/em>, para deixarmos nossa marca e fazer a diferen\u00e7a. N\u00e3o somos capazes de dar continuidade ao bem que n\u00e3o tenhamos dado \u00e0 luz. Iniciamos do zero porque n\u00e3o sentimos o gosto de pertencer a um caminho comunit\u00e1rio de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Isolados dos outros: \u00a0<\/em>O isolamento da gra\u00e7a e da hist\u00f3ria \u00e9 uma das causas da incapacidade entre n\u00f3s de instaurarmos rela\u00e7\u00f5es significativas de confian\u00e7a e de partilha evang\u00e9lica. Se estou isolado, os meus problemas parecem \u00fanicos e insol\u00faveis: ningu\u00e9m pode me compreender. Este \u00e9 um dos pensamentos preferidos do pai da mentira. Recordamos as palavras de Bernanos: \u201cS\u00f3 depois de muito tempo se reconhece, e a tristeza que o anuncia, que precede, como \u00e9 doce! O mais substancioso entre os elixires do dem\u00f4nio, a sua ambrosia<a name=\"_ftnref3\"><\/a>\u201d. <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/it\/speeches\/2020\/february\/documents\/papa-francesco_20200227_clero-roma.html#_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0Pensamento que pouco a pouco ganha corpo e nos fecha em n\u00f3s mesmos, nos distancia dos outros e nos coloca em posi\u00e7\u00e3o de superioridade. Porque ningu\u00e9m estaria \u00e0 altura das exig\u00eancias. Pensamento que \u00e0 for\u00e7a de se repetir acaba por aninhar-se em n\u00f3s. \u201cQuem esconde as pr\u00f3prias culpas n\u00e3o ter\u00e1 sucesso, quem as confessa e as abandona encontrar\u00e1 miseric\u00f3rdia\u201d (Pr 28,13).<\/p>\n<p>O dem\u00f4nio n\u00e3o quer que voc\u00ea fale, que voc\u00ea diga, que voc\u00ea partilhe. Ent\u00e3o procure um bom diretor espiritual, um anci\u00e3o experiente que possa lhe acompanhar. Nunca se isole, nunca! O sentimento profundo da comunh\u00e3o se alcan\u00e7a somente quando, pessoalmente, tomo consci\u00eancia do \u201cn\u00f3s\u201d que sou, fui e serei. Caso contr\u00e1rio, os outros problemas v\u00eam em cascata: do isolamento, de uma comunidade sem comunh\u00e3o, nasce a competi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o certamente a coopera\u00e7\u00e3o; entra-se em rela\u00e7\u00e3o para comparar-se ou para apoiar-se.<\/p>\n<p>Recordamos o povo de Israel quando, caminhando no deserto por tr\u00eas dias, chegou a Mara, mas n\u00e3o p\u00f4de beber a \u00e1gua porque era amarga. Diante do protesto do povo, Mois\u00e9s invocou o Senhor e a \u00e1gua se tornou doce (Cf. Ex 15,22-25). O santo Povo fiel de Deus nos conhece melhor do que qualquer outro. S\u00e3o muito respeitosos e sabem acompanhar e cuidar de seus pastores. Conhecem as nossas amarguras e tamb\u00e9m rezam ao Senhor por n\u00f3s. Acrescentemos \u00e0s ora\u00e7\u00f5es dele as nossas, e pe\u00e7amos ao Senhor que nos d\u00ea a capacidade de reconhecer aquilo que est\u00e1 nos amargurando e assim deixar-nos transformar e sermos pessoas reconciliadas que reconciliam, pacificadas que pacificam, plenas de esperan\u00e7a que infundem esperan\u00e7a. O povo de Deus espera de n\u00f3s os mestres espirituais capazes de indicar os po\u00e7os de \u00e1gua doce no meio do deserto.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><a name=\"_ftn1\"><\/a><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/it\/speeches\/2020\/february\/documents\/papa-francesco_20200227_clero-roma.html#_ftnref1\">[1]<\/a> Um segundo motivo de amargura prov\u00e9m de uma perda no minist\u00e9rio dos pastores: sufocados pelos problemas administrativos ou de emerg\u00eancias pessoais, corremos o risco de negligenciar o <em>munus <\/em>docendi. O bispo \u00e9 o mestre da f\u00e9 , da ortodoxia e da \u201cortopatia\u201d, do reto crer e do reto sentir no Esp\u00edrito Santo. Na ordena\u00e7\u00e3o episcopal, a epiclese \u00e9 rezada com o Evangeli\u00e1rio aberto sobre a cabe\u00e7a do candidato e a imposi\u00e7\u00e3o da mitra reafirma exteriormente o m\u00fanus de transmitir n\u00e3o as cren\u00e7as pessoais, mas a sabedoria evang\u00e9lica. Quem \u00e9 o catequista daquele disc\u00edpulo permanente que \u00e9 o padre? O bispo, naturalmente! Mas quem se recorda disso? Poder-se-ia objetar que os padres n\u00e3o querem geralmente serem instru\u00eddos pelos bispos. Mas este \u2013 ainda que fosse \u2013 n\u00e3o \u00e9 um bom motivo para se renunciar ao m\u00fanus. O santo Povo de deus tem o direito de ter padres que os ensinem a crer; e os di\u00e1conos e presb\u00edteros t\u00eam o direito de ter um bispo, por sua vez, que os ensine a crer e esperar no \u00fanico Mestre, Caminho, Verdade e Vida, que inflame sua f\u00e9. Como sacerdote, n\u00e3o quero que o bispo me agrade, mas que me ajude a acreditar. Desejo poder fundar nele a minha esperan\u00e7a teologal. \u00c0s vezes nos restringimos a seguir s\u00f3 os irm\u00e3os em crise (e isto \u00e9 um bem), mas tamb\u00e9m os \u201casnos com boa sa\u00fade\u201d t\u00eam necessidade de uma escuta mais atenta, serena e fora das emerg\u00eancias. Eis aqui uma segunda omiss\u00e3o que pode provocar amargura: a ren\u00fancia ao <em>munus docendi <\/em>na lida com os padres (e n\u00e3o s\u00f3). Pastores autorit\u00e1rios que perderam a autoridade de ensinar?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><a name=\"_ftn2\"><\/a><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/it\/speeches\/2020\/february\/documents\/papa-francesco_20200227_clero-roma.html#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Trata-se de uma solid\u00e3o pela metade \u2013 digamos sinceramente -, porque \u00e9 a solid\u00e3o do pastor que \u00e9 carregada de nomes, rostos, situa\u00e7\u00f5es, do pastor que chega \u00e0 noite cansado a falar com o seu Senhor sobre todas estas pessoas. A solid\u00e3o do pastor \u00e9 habitada dos risos e choros das pessoas e da comunidade. \u00c9 uma solid\u00e3o com rostos a ser oferecida ao Senhor.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><a name=\"_ftn3\"><\/a><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/it\/speeches\/2020\/february\/documents\/papa-francesco_20200227_clero-roma.html#_ftnref3\">[3]<\/a><em>\u00a0Diario di un curato di campagna<\/em>, Milano 2017, 103.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discurso preparado pelo Santo Padre para a Liturgia Penitencial do Clero Romano.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":187010,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[65],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A amargura na vida do padre - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-amargura-na-vida-do-padre\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A amargura na vida do padre - 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