{"id":183723,"date":"2020-03-04T10:50:07","date_gmt":"2020-03-04T13:50:07","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=183723"},"modified":"2020-07-27T13:21:25","modified_gmt":"2020-07-27T16:21:25","slug":"as-mulheres-na-caminhada-do-povo-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/as-mulheres-na-caminhada-do-povo-de-deus\/","title":{"rendered":"As mulheres na caminhada do Povo de Deus"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_187012\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-187012\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-187012 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/maria_2707.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/maria_2707.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/maria_2707-450x241.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/maria_2707-768x411.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/maria_2707-150x80.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-187012\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <em>\u00a0Imagem ilustrativa (Botticelli)<\/em><\/p><\/div>\n<p><strong>Frei Carlos Josaphat, OP<\/strong><\/p>\n<p>As mulheres aparecem menos, entre autores e mestres espirituais. No entanto, s\u00e3o as mais numerosas e ass\u00edduas na escola vivida da ora\u00e7\u00e3o. Esse contraste entre o ser e o aparecer bem pode servir de fio condutor para a nossa reflex\u00e3o sobre as Santas Doutoras.<\/p>\n<p>Nada de mais oportuno e mesmo urgente para a espiritualidade, hoje, do que falar das mulheres, da sua presen\u00e7a, ativa e orientadora, na caminhada do Povo de Deus. Cumpre come\u00e7ar reparando o grande erro e a grande injusti\u00e7a. N\u00e3o se trata tanto de reivindica\u00e7\u00e3o em benef\u00edcio de nossas irm\u00e3s lesadas. \u00a0Antes de mais nada, \u00a0\u00e9 uma quest\u00e3o de restabelecer a verdade. A Igreja n\u00e3o tem apenas &#8220;Pais&#8221; e &#8220;Doutores&#8221;. Em sua bondade e sabedoria, desde o come\u00e7o e atrav\u00e9s dos tempos, Deus n\u00e3o cessou de suscitar &#8220;M\u00e3es&#8221; e &#8220;Doutoras&#8221; da Igreja. Elas v\u00eam sempre contribuindo, de maneira discreta, por\u00e9m efetiva, para a transmiss\u00e3o da vida e do conhecimento da f\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 deveras importante ir \u00e0s fontes da discrimina\u00e7\u00e3o. Tanto mais que ela \u00e9 tamb\u00e9m moeda corrente nos v\u00e1rios campos da cultura, das ci\u00eancias, das artes, da filosofia e da teologia.<\/p>\n<p>Se a gente pergunta: onde est\u00e3o e o que fazem as mulheres na hist\u00f3ria passada e na vida atual da Igreja, as primeiras respostas, \u00f3bvias e espont\u00e2neas, n\u00e3o deixam de surpreender. Uma coisa d\u00e1 logo na vista. A mulher, por ela mesma, levanta problema e constitui dificuldade. Um simples exemplo. Consulte-se um te\u00f3logo do gabarito de Santo Tom\u00e1s de Aquino (1225-1274) sobre a diferen\u00e7a sexual, sobre o significado divino e humano do casal. Esse nosso irm\u00e3o, genial e carism\u00e1tico, entre todos, colocar\u00e1 a quest\u00e3o e dar\u00e1 a resposta em outros termos, que para ele sintetizam a tradi\u00e7\u00e3o ou manifestam a evid\u00eancia:<\/p>\n<p><em>&#8211; Por que a mulher existe? Qual o sentido da mulher, ao lado do homem nas origens e no desenrolar do plano de Deus? (l)<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 curioso? Que o homem exista, que seja um ator, mais ou menos qualificado, da hist\u00f3ria do mundo e da salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 um dado. N\u00e3o se discute. Por\u00e9m, a mulher \u00e9 a diferen\u00e7a, que ai est\u00e1 a pedir explica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o momento de analisarmos o conte\u00fado e a qualidade da explica\u00e7\u00e3o, dada por te\u00f3logos e doutores. Hoje, pelo menos a teologia que conta, que vai seguindo a caminhada do Povo de Deus, toma logo outro ponto de partida. Recoloca a quest\u00e3o: falar de diferen\u00e7a sexual \u00e9 estudar a condi\u00e7\u00e3o de dois parceiros, que partem juntos e jogam juntos o mesmo jogo do amor e da felicidade.<\/p>\n<p>Grandes progressos v\u00eam sendo realizados. No entanto, n\u00e3o podemos perder de vista esta exig\u00eancia primordial. Visamos uma reflex\u00e3o objetiva sobre a presen\u00e7a e a atua\u00e7\u00e3o da mulher na hist\u00f3ria, sobretudo na Hist\u00f3ria da Igreja e da Espiritualidade? Havemos, ent\u00e3o, de come\u00e7ar a assumir uma atitude cr\u00edtica diante do modo parcial, ostensiva ou sutilmente masculino, de viver e escrever essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso remontar ao paradigma masculino de fazer e de contar a hist\u00f3ria (2).<\/p>\n<p>Um paradigma, para n\u00f3s, \u00e9 uma certa forma de escolher e dispor dados e valores, dando prioridade ao que se considera mais importante e mais significativo para chegar \u00e0 compreens\u00e3o de uma realidade. Em nosso caso, a realidade, para cuja explica\u00e7\u00e3o buscamos um paradigma, vem a ser o papel ou o significado atribu\u00eddo \u00e0 mulher na hist\u00f3ria e na atualidade da Igreja.<\/p>\n<p><strong>A B\u00edblia \u00e0s voltas com o paradigma masculino<\/strong><\/p>\n<p>Quando Deus criou o mundo, Ele tinha as m\u00e3os livres. Fazia surgir as coisas, plantas, animais e seres humanos quais realiza\u00e7\u00f5es concretas do seu lindo sonho de sabedoria, de beleza e amor. Ousemos dizer que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mesma, quando o Senhor resolve nos dar a B\u00edblia, h\u00e1 cerca de quatro mil anos. Sua condi\u00e7\u00e3o de autor ou de inspirador dos autores j\u00e1 se acha grandemente comprometida e limitada. Pois, a pedagogia divina aceita a humanidade tal qual ela \u00e9, e tal qual ela se fez ou se vai fazendo. A hist\u00f3ria vai ser contada e a mensagem vai ser transmitida, tendo em conta, entre outras limita\u00e7\u00f5es, a domina\u00e7\u00e3o universal do paradigma masculino.<\/p>\n<p>Esse paradigma envolve e impregna o jeito de representar e compreender a Deus, a religi\u00e3o, a sociedade, o amor, o casal, a fam\u00edlia e tudo o mais. A Revela\u00e7\u00e3o divina e as Escrituras, que no-la transmitem, ter\u00e3o de negociar com o machismo reinante. H\u00e3o de insuflar novos princ\u00edpios e energias renovadoras, capazes de levar ao paciente triunfo sobre esse paradigma matreiro. A primeira explica\u00e7\u00e3o nos \u00e9 dada pela pr\u00f3pria B\u00edblia. Esse deslize se insinuou feito uma serpente. Introduziu um pecado fundamental que semeou a confus\u00e3o e emba\u00e7ou a beleza divina do casal humano. L\u00e1 veio a domina\u00e7\u00e3o do homem (var\u00e3o) sobre a mulher, situa\u00e7\u00e3o injusta e deselegante, que ela acabou aceitando, ao menos como mal inevit\u00e1vel. &#8220;Ruim com ele, pior sem ele!&#8221;, como diz o amargo ditado popular.<\/p>\n<p>Por isso, uma exegese, feita de rigor e de fineza, chegar\u00e1 a resumir a hist\u00f3ria e a pedagogia b\u00edblicas em termos de casamento e de alian\u00e7a. Deus se empenha em restabelecer o casal humano em uma alian\u00e7a de amor. Ao mesmo tempo, assume o papel de esposo, firmando com a humanidade uma alian\u00e7a perfeita. Dessa alian\u00e7a divina o matrim\u00f4nio amoroso \u00e9 a imagem e o sacramento. Estar\u00e1 presente, qual for\u00e7a transformadora, no cora\u00e7\u00e3o do Povo de Deus, em marcha atrav\u00e9s da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Todas as queridas M\u00e3es e Mestras da Igreja, de que nos vamos ocupar, fizeram desse plano carinhoso de Deus o centro e a raz\u00e3o de ser de suas vidas. Cada uma delas, personificando e simbolizando a Igreja, assume com muito amor e responsabilidade a qualidade de Esposa de Cristo.<\/p>\n<p><strong>O sopro renovador do Evangelho<\/strong><\/p>\n<p>O Evangelho vem efetivar e acelerar o projeto de Deus. E a\u00ed o paradigma masculino va\u00ed aparecer em toda a sua for\u00e7a e toda a sua ast\u00facia. Tenta entravar ou pelo menos retardar a marcha libertadora da Verdade divina.<\/p>\n<p>Jesus surge como Mestre em Israel. As mulheres s\u00e3o as primeiras na escuta e na fidelidade. Jamais tra\u00edram, ofenderam ou abandonaram o Mestre.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, conv\u00e9m insistir sobre esta simples evid\u00eancia,\u00a0<em>elas s\u00e3o disc\u00edpulas<\/em>. Elas &#8220;seguem a Jesus&#8221;. S\u00e3o as mais prontas a crer. Com um realismo gracioso, como se fosse a tarefa delas, as mulheres se empenham em prover do necess\u00e1rio a comunidade itinerante do Mestre. Pois, este n\u00e3o mais trabalha de carpinteiro. E retira os Ap\u00f3stolos das suas profiss\u00f5es lucrativas. Uma equipe feminina se constitui, ent\u00e3o, para financiar e sustentar discretamente a prega\u00e7\u00e3o do Reino (cf. Lc 8,1-3).<\/p>\n<p>Quando os homens falham ou hesitam, as mulheres s\u00e3o escolhidas e enviadas como mensageiras da Boa-Nova, da Ressurrei\u00e7\u00e3o. S\u00e3o, assim, colhidas de surpresa. Pois, no momento da maior crise, se veem investidas da delicada prerrogativa de serem as &#8220;ap\u00f3stolas dos Ap\u00f3stolos&#8221; (cf. Mt 28,10; Mc 16,7; Lc 24,9; Jo 20,17-18). No entanto, n\u00e3o s\u00e3o oficialmente destacadas para integrarem o grupo dos Doze. N\u00e3o ser\u00e3o tidas como &#8220;Ap\u00f3stolas&#8221; pregadoras da f\u00e9 e fundadoras de Igrejas. O mundo religioso e profano de ent\u00e3o n\u00e3o as teria aceito.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m situar esse ensino em seu contexto hist\u00f3rico, que lhe d\u00e1 o primeiro sentido. Jesus se reconhece e proclama enviado, primeiro para salvar seu povo judeu. Guarda o simbolismo das doze tribos e dos doze patriarcas, ao &#8220;edificar a sua Igreja&#8221; e ao escolher seus Doze Ap\u00f3stolos. Acomoda-se, de fato, ao modelo hist\u00f3rico e tradicional em Israel. Esse modelo estava bem enraizado no paradigma masculino, no que diz respeito \u00e0 autoridade e ao ensino da religi\u00e3o, bem como \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o da sociedade. Levando \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o &#8220;a Lei e os Profetas&#8221;, o Evangelho n\u00e3o podia realizar, de imediato, a implos\u00e3o do juda\u00edsmo vigente. A for\u00e7a inovadora do Reino haveria de trabalhar, qual fermento ativo e paciente, levedando a mentalidade, os costumes e as institui\u00e7\u00f5es da velha humanidade.<\/p>\n<p>Nesse primeiro momento, a grandeza da mulher \u00e9 real\u00e7ada na novidade primordial do Evangelho. Ele p\u00f5e em relevo sua voca\u00e7\u00e3o e sua fidelidade \u00e0 escuta, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, \u00e0 difus\u00e3o discreta e eficaz da Palavra salvadora (3).<\/p>\n<p>A\u00a0<em>figura de Maria<\/em>\u00a0\u00e9 ao mesmo tempo singular e exemplar dessa voca\u00e7\u00e3o contemplativa e escondidamente apost\u00f3lica da mulher (cf. Lc 1,46-55; 2,19; 2,51; At 1,14).<\/p>\n<p>A M\u00e3e de Jesus e da Igreja tem sido venerada e exaltada, \u00e0 porfia, e com raz\u00e3o, pela piedade, pelos mestres da teologia e da espiritualidade.<\/p>\n<p>O Papa Jo\u00e3o Paulo II coloca seu pontificado sob a especial prote\u00e7\u00e3o de Maria: &#8220;<em>Totus tuus<\/em>&#8220;, &#8220;Todo teu&#8221;, \u00e9 a divisa do seu bras\u00e3o. S\u00e3o conhecidos os seus ensinamentos atrav\u00e9s de enc\u00edclicas e documentos especiais. E quase todos os grandes pronunciamentos seus terminam por uma invoca\u00e7\u00e3o a Maria. No entanto, essa piedade e esse ensinamento maravilhosos nem sempre se empenham em discernir, no Mist\u00e9rio de Maria, esta dupla dimens\u00e3o da Encarna\u00e7\u00e3o salvadora:<\/p>\n<p>&#8211; a sua divina voca\u00e7\u00e3o de colaboradora privilegiada do Amor divino, no servi\u00e7o e na humildade;<\/p>\n<p>&#8211; e as condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio culturais de submiss\u00e3o da mulher, que a exclu\u00edam de toda fun\u00e7\u00e3o de governo, na sociedade civil e religiosa daqueles tempos.<\/p>\n<p><strong>A mulher, gestos e s\u00edmbolos de amor<\/strong><\/p>\n<p>As duas irm\u00e3s, amigas de Jesus,\u00a0<em>Marta e Maria<\/em>, se projetam qual modelo, contrastado, por\u00e9m complementar, da verdadeira acolhida da Palavra e da Pessoa do Mestre. Ap\u00f3s a Par\u00e1bola do Bom Samaritano e o ensino da Ora\u00e7\u00e3o do Senhor, o Evangelho de Lucas nos descreve, em leves pinceladas, o lar acolhedor e as duas irm\u00e3s devotadas, Marta e Maria (Lc 10,38-42).<\/p>\n<p>Marta que se afadiga no servi\u00e7o, Maria \u00e0 escuta tranquila da Palavra, s\u00e3o as duas faces do mesmo rosto evang\u00e9lico ou o duplo ritmo amoroso do cora\u00e7\u00e3o da mulher. Confirmadas pelo testemunho do Evangelho de Jo\u00e3o (cf. Jo 11-12), assim aparecem as duas irm\u00e3s, atrav\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o patr\u00edstica e da hist\u00f3ria da espiritualidade. Simbolizam as duas atitudes b\u00e1sicas do dom de si, pelo servi\u00e7o e pela contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Evangelho de Jo\u00e3o se destaca e se desdobra, em proje\u00e7\u00e3o lenta, esse filme de amor, que \u00e9 a hist\u00f3ria da Mulher\u00a0<em>Samaritana<\/em>. Seus olhos se abrem diante desse Judeu t\u00e3o diferente, que n\u00e3o a exclui e at\u00e9 suprime toda a discrimina\u00e7\u00e3o. Sente que a vida dela se desvenda e um novo projeto de amor se anuncia. Reconhece o Messias, se torna a ap\u00f3stola, a evangelista do seu povo (cf. Jo 4,1-42).<\/p>\n<p>Nas narrativas das\u00a0<em>duas un\u00e7\u00f5es<\/em>, os gestos de\u00a0<em>duas mulheres<\/em>\u00a0s\u00e3o postos lindamente em relevo. A\u00ed igualmente se acentuam, talvez com maior for\u00e7a, os tra\u00e7os caracter\u00edsticos da voca\u00e7\u00e3o e da realiza\u00e7\u00e3o da mulher. Ela se converte de todo o cora\u00e7\u00e3o, fascinada pela beleza de Deus, resplandecendo no homem Jesus. Antes de apresentar a equipe de mulheres salvas por Jesus e que se colocam a seu servi\u00e7o (cf. Lc 8,1-3), Lucas desdobra carinhosamente a cena da pecadora, audaciosa no seu amor pur\u00edssimo e escandaloso (cf. Lc 7,36-50). Na casa do fariseu Sim\u00e3o, estarrecido, a mulher marginalizada n\u00e3o apenas se intromete no banquete. Ela se p\u00f5e a lavar os p\u00e9s de Jesus com suas l\u00e1grimas, a ungi-los com o seu perfume e a enxug\u00e1-los com os seus cabelos. \u00c0 socapa, passou a ocupar o primeiro plano naquele epis\u00f3dio. E na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Bet\u00e2nia, nas v\u00e9speras da Paix\u00e3o, antecipando-se &#8220;com o b\u00e1lsamo, para a sepultura&#8221;, Maria unge agora os p\u00e9s que marcham para a cruz. Ela inunda a casa e o mundo todo com o mais precioso dos perfumes (cf. Mt 26,6-13; Me 14,3-9; Jo 12,1-11). Os homens n\u00e3o podem deixar de protestar. Racionais e calculistas, condenam, em nome da economia, o desperd\u00edcio de t\u00e3o valiosa mercadoria, certamente importada.<\/p>\n<p>Esses epis\u00f3dios evang\u00e9licos s\u00e3o carregados de simbolismo. Fisgadas, transfiguradas pelo Amor, que revela toda a sua for\u00e7a e beleza nesse \u00fanico Homem perfeito, que a\u00ed est\u00e1, as mulheres se rendem totalmente. A Ele elas se consagram com o seu jeito feminino de ser e de se dar. Com toda a defer\u00eancia e imenso carinho, ajoelhadas aos p\u00e9s d&#8217;Ele, envolvem o Bem-amado com os cabelos, com o perfume, o beijo e as l\u00e1grimas. Elas realizam, na plenitude do Evangelho, a sublimidade amorosa do\u00a0<em>C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos.<\/em>\u00a0Elas abrem os caminhos que ser\u00e3o seguidos por Santa Teresa e Santa Catarina, e ser\u00e3o cantados pelos poemas ext\u00e1ticos de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p><strong>A novidade evang\u00e9lica e a velha mentalidade<\/strong><\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o, portanto, valorizadas e real\u00e7adas na novidade do Evangelho.<\/p>\n<p>Logo de in\u00edcio, a comunidade eclesial se mostra maravilhosa e exemplar em sua solidariedade fraterna. No entanto, ela vai procurando os modelos de sua organiza\u00e7\u00e3o, dentro dos limites do que era historicamente poss\u00edvel. N\u00e3o v\u00ea como desgarrar-se da velha tradi\u00e7\u00e3o. Esta se acomoda grandemente \u00e0 mentalidade judaica, grega e romana da \u00e9poca. A mulher n\u00e3o instrui, menos ainda preside a assembleia.<\/p>\n<p>Assim, j\u00e1 na \u00e9poca apost\u00f3lica, se inicia o paradoxo da hist\u00f3ria da cristandade: as que mais e melhor contemplam, menos falam e menos escrevem sobre a contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o profunda do Evangelho, neste ponto, pode condensar-se nestas duas proposi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; De maneira original e criativa, Jesus elevou ao m\u00e1ximo a voca\u00e7\u00e3o e o minist\u00e9rio da mulher, abrindo caminho para que a nova Eva realize plenamente a igualdade e a diferen\u00e7a complementar na Nova Alian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; O triunfo sobre a mentalidade de discrimina\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia primordial da mensagem de Jesus. Mas ela s\u00f3 se vai realizando muito lentamente. No entanto, \u00e9 esse triunfo que permitir\u00e1 a concretiza\u00e7\u00e3o do modelo evang\u00e9lico da voca\u00e7\u00e3o feminina, de perfeita igualdade na santidade e no minist\u00e9rio. O que acarretar\u00e1 uma grande riqueza de dons e uma maior efic\u00e1cia apost\u00f3lica para a Igreja.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Conversando com os Pais e M\u00e3es da Igreja&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Tal \u00e9 o titulo simp\u00e1tico de uma pequena cole\u00e7\u00e3o de estudos de Patrologia (4). Quer salvar do olvido total as poucas mulheres que s\u00e3o apenas mencionadas, quando se narra a hist\u00f3ria dos acontecimentos, das institui\u00e7\u00f5es e doutrinas que formaram a comunidade nos primeiros s\u00e9culos do cristianismo.<\/p>\n<p>Pois, o paradoxo (ou o esc\u00e2ndalo) da idade apost\u00f3lica continua e se agrava na era patristica. Ao lado da multid\u00e3o dos &#8220;Padres&#8221; ou &#8220;Pais&#8221;, umas poucas &#8220;M\u00e3es da Igreja&#8221; sobrevivem na literatura. \u00c9 verdade que sempre se reconhece, assim muito de rasp\u00e3o, que a transmiss\u00e3o da f\u00e9, bem como a vida de ora\u00e7\u00e3o, tenham sido asseguradas de fato por maravilhosas mestras escondidas. Por\u00e9m, os ensinamentos delas ficaram ocultos ou foram sistematicamente ocultados, pelos contempor\u00e2neos e pelas gera\u00e7\u00f5es ulteriores.<\/p>\n<p>Alguns exemplos, entre os mais simples e conhecidos, podem ilustrar essa curiosa conjun\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o importante e do car\u00e1ter pouco vis\u00edvel das &#8220;M\u00e3es da Igreja&#8221;.<\/p>\n<p>Assim, S\u00e3o Bas\u00edlio, seu irm\u00e3o, S\u00e3o Greg\u00f3rio de Nissa, o amigo de ambos, S\u00e3o Greg\u00f3rio de Nazianzo emergem como figuras eminentes, em seu tempo (s\u00e9culos IV e V) e atrav\u00e9s de toda a hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica. Por\u00e9m, pouco se fala de Santa Macrina, a antiga, av\u00f3 de Bas\u00edlio e de Greg\u00f3r\u00edo de Nissa. Ora, foi ela quem formou toda a fam\u00edlia na f\u00e9 e na piedade. Ou ainda, apenas se menciona Santa Macrina, a jovem, neta da precedente, a qual exerceu uma influ\u00eancia decisiva sobre os irm\u00e3os que s\u00e3o venerados como not\u00e1veis &#8220;Padres da Igreja&#8221;. No entanto, s\u00f3 conhecemos as duas grandes &#8220;M\u00e3es&#8221; da Igreja, as duas santas Macrinas, atrav\u00e9s dos escritos de Bas\u00edlio e de Greg\u00f3rio de Nissa. Este \u00faltimo, ainda bem, sentiu-se no dever de escrever uma biografia da irm\u00e3 (5).<\/p>\n<p>Algo de semelhante se pode dizer de Santa Mel\u00e2nia, igualmente neta de uma hom\u00f4nima, uma grande espiritual e uma mulher de a\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de fundadora, que prefigura um pouco a voca\u00e7\u00e3o itinerante de Santa Teresa (6). Como n\u00e3o mencionar Santa S\u00edlvia (morreu em torno de 592), a m\u00e3e e educadora de S. Greg\u00f3rio Magno, Papa de 590 a 604? O filho refulge como um dos luminares da Igreja, enquanto a m\u00e3e permanece na penumbra.<\/p>\n<p>Santa M\u00f4nica entrar\u00e1 na hist\u00f3ria, gra\u00e7as a seu filho Santo Agostinho, que a enaltece, sobretudo no Livro IX das &#8220;Confiss\u00f5es&#8221;. E por que n\u00e3o lembrar aquela, de quem Agostinho nem mesmo nos deixou o nome, mas a quem ele amou verdadeiramente e que o amou de maneira extraordin\u00e1ria? Ele se viu for\u00e7ado a deixar a bem-amada, que lhe dera um filho. Ela prometeu ent\u00e3o a Cristo n\u00e3o mais se ligar a outro homem. Agostinho declara que n\u00e3o conseguiu imit\u00e1-la logo. E guardou, por muito tempo, uma imensa ferida. Era a saudade daquela que foi o seu primeiro e, talvez, \u00fanico amor. N\u00e3o se trata de uma reles concubina. \u00c9 a mulher que soube amar o \u00fanico homem de sua vida. N\u00e3o \u00e9 tocante esse seu<\/p>\n<p>voto a Cristo de jamais pertencer a um outro, depois de ter amado Agostinho e de ter sido por ele relegada (7)?<\/p>\n<p>E que grandes crist\u00e3s, maravilhosas espirituais, vemos em torno de S. Jer\u00f4nimo (347-420): as duas vi\u00favas, Marcela e Paula, bem como a filha desta \u00faltima, a virgem Eust\u00f3quia. Elas ajudam esse grande homem, dif\u00edcil e impetuoso, a encontrar o seu equil\u00edbrio espiritual e afetivo, a trabalhar na exegese das Escrituras, a fundar os conventos em Bel\u00e9m. Ele ocupa o primeiro plano na hist\u00f3ria. Elas s\u00e3o lembradas apenas por causa do &#8220;Doutor das Escrituras&#8221;. Nossas refer\u00eancias s\u00e3o precisamente as &#8220;Cartas&#8221; dele. Digamos de passagem: estas foram lidas por Santa Teresa e exerceram grande influ\u00eancia sobre a sua juventude (8).<\/p>\n<p>Em resumo, as &#8220;M\u00e3es da Igreja&#8221; transmitiram a f\u00e9 e a doutrina, foram o sustent\u00e1culo dos grandes &#8220;Pais da Igreja&#8221;. Mas quase n\u00e3o lograram escrever. Ou pouco nos foi transmitido do que produziram. Uma dessas peregrinas, que visitavam as comunidades, confiou ao papiro suas impress\u00f5es sobre a liturgia e a vida da Igreja de Jerusal\u00e9m. Seu texto se salvou do olvido geral. Uns a chamam de Et\u00e9ria, outros de Eg\u00e9ria ou at\u00e9 mesmo de S\u00edlvia. N\u00e3o se guarda direito nem mesmo o nome dessa rar\u00edssima escritora da \u00e9poca patr\u00edstica (9).<\/p>\n<p><strong>&#8220;A mulher no tempo das catedrais e das cruzadas&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>A mesma lei da fidelidade constante e fecunda, por\u00e9m escondida ou desconhecida, perdura e cresce na Idade M\u00e9dia. Alguns exemplos romperam a barreira e testemunham a perman\u00eancia desse valioso magist\u00e9rio feminino. A presen\u00e7a da mulher na cultura e at\u00e9 na pol\u00edtica \u00e9 um dado hist\u00f3rico geralmente ignorado ou at\u00e9 mesmo ocultado. \u00c9 o que mostram os livros de Regina Pernoud, evocados no t\u00edtulo desse par\u00e1grafo (10).<\/p>\n<p>Ela mostra Santa Clotilde convertendo Cl\u00f3vis, orientando os destinos da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Revel-nos a primeira educadora e o primeiro manual de educa\u00e7\u00e1o, escrito por Dhuoda, uns sete s\u00e9culos antes de Rabelais e Montaigne, e mais de um mil\u00eanio antes de Rousseau. Como o pr\u00f3prio nome de Dhuoda, o seu &#8220;manual&#8221; permanece desconhecido. D\u00e1 provas, no entanto, de muita originalidade, de um bom conhecimento da psicologia infantil. \u00c9 uma m\u00e3e que escreve para o filho. Trata o menino com carinho e com certa defer\u00eancia. Prop\u00f5e ao discernimento e \u00e0 op\u00e7\u00e3o dele os caminhos do bem e da virtude. Com lucidez e fineza, muito feminina, quer educar, inculcando a beleza do verdadeiro amor.<\/p>\n<p>No crep\u00fasculo da Idade M\u00e9dia, quando emergem as estruturas e ambi\u00e7\u00f3es dos Estados modernos, a historiadora estabelece um paralelismo sugestivo. Aproxima Catarina de Sena (1347-1380) e Joana d&#8217;Arc (1412-1431), separadas por pouco mais de meio s\u00e9culo de dist\u00e2ncia. Sem sair da sua &#8220;cela interior&#8221;, as duas grandes guias carism\u00e1ticas indicam rumos certos aos chefes e \u00e0s sociedades, desnorteados pelas ambi\u00e7\u00f5es e pela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas essas, e outras mulheres, que contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o cultural e espiritual do Ocidente, pouco aparecem na grande hist\u00f3ria, tecida nos moldes masculinos. Nestes, predominam as proezas machistas, as guerras, as conquistas, os neg\u00f3cios (11).<\/p>\n<p><strong>As M\u00e3es e Fundadoras atrav\u00e9s dos s\u00e9culos<\/strong><\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, persiste o &#8220;patriarcalismo&#8221;, mesmo nas fam\u00edlias religiosas femininas. A\u00ed se perpetua o culto aos fundadores, enquanto as fundadoras v\u00e3o ficando na penumbra. E n\u00e3o s\u00e3o elas que animam e d\u00e3o a verdadeira<\/p>\n<p>originalidade \u00e0s comunidades?<\/p>\n<p>Reparem esses santos &#8220;casais&#8221;, em que as aur\u00e9olas dos &#8220;Pais&#8221; eclipsam os rostos das &#8220;M\u00e3es&#8221;. Vejam S\u00e3o Domingos. Valoriza imensamente as mulheres. Mostra-se muito amigo e atencioso. Mas quem conhece a Fundadora das primeiras Monjas Dominicanas que, ali\u00e1s, precederam a funda\u00e7\u00e3o da Ordem dos Frades Pregadores? Pode-se contabilizar uma ligeira vantagem para Santa Clara, que n\u00e3o ficou de todo ofuscada pela gl\u00f3ria do humilde S\u00e3o Francisco de Assis. Mais perto de n\u00f3s, qual a Fundadora das Irm\u00e3s Auxiliadoras, cujo Pai \u00e9 S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco? Este deu a seus filhos o nome de Salesianos, em honra de S\u00e3o Francisco de Sales. \u00c9 um lindo gesto de humildade que, no entanto, fica sempre no g\u00eanero masculino.<\/p>\n<p>Bem se compreendem as queixas que Santa Teresa dirige a Jesus sobre a condi\u00e7\u00e3o da mulher na Igreja. S\u00e3o significativas do drama vivido de uma mulher, toda possu\u00edda de Deus e plenamente inserida no seu tempo e na compreens\u00e3o do seu povo. Apoiando-se em S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara e na sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, ela manifesta sua convic\u00e7\u00e3o de que o &#8220;Senhor dispensa suas merc\u00eas mais \u00e0s mulheres do que aos homens&#8221; (Vida, 40, 8). Alude \u00e0 incapacidade das mulheres para falar e \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o paulina nesse sentido. Da\u00ed conclui que elas h\u00e3o de se esmerar por se afirmar pelas obras (<em>Caminho<\/em>, 15,6). Uma ponta de ironia transparece, quando compara o antifeminismo vigente e os dons que Deus prodigaliza a &#8220;mulherzinhas fracas e ignorantes&#8221;. Est\u00e1 a par da vigil\u00e2ncia da Santa Inquisi\u00e7\u00e3o, que suspeita de suas vis\u00f5es e doutrinas. Professa plena fidelidade \u00e3 Igreja e total confian\u00e7a no seu Mestre divino. Por\u00e9m, discretamente, denuncia as injusti\u00e7as que oprimem a mulher.<\/p>\n<p>Destaquemos outro exemplo:\u00a0<em>Santa Lu\u00edsa de Marillac<\/em>, &#8220;M\u00e3e e Mestra&#8221; das Filhas da Caridade, as quais figuram na hist\u00f3ria como &#8220;fundadas por S\u00e3o Vicente de Paulo&#8221;. Ningu\u00e9m quer negar a import\u00e2ncia extraordin\u00e1ria de S\u00e3o Vicente, na vida da Igreja e da espiritualidade. Ele ajudou poderosamente Lu\u00edsa de Marillac a se libertar de suas incertezas e ang\u00fastias interiores. Ali\u00e1s, essas hesita\u00e7\u00f5es s\u00e3o atribu\u00edveis, em grande parte, aos sentimentos excessivos de depend\u00eancia feminina, inspirados pelo clima cultural e espiritual, que a asfixiava. O Santo diretor vem lev\u00e1-la a se realizar em sua autonomia espiritual, encontrando a sua miss\u00e3o de fundadora, de m\u00e3e e mestra das Irm\u00e3s de Caridade.<\/p>\n<p>Estas t\u00eam de fato pai e m\u00e3e. Ele se faz presente, de vez em quando, marcando suas filhas com sua palavra e seu exemplo prodigioso. Por\u00e9m a m\u00e3e, Santa Lu\u00edsa, forma, dia e noite, as filhas e as comunidades. Ela inspira e redige as formas de vida comum. E se mostra uma verdadeira doutora em espiritualidade e at\u00e9 mesmo na teologia. Vive e ensina a ora\u00e7\u00e3o, como fruto da caridade e fonte da a\u00e7\u00e3o, do dom de si aos pobres e aos enfermos. Quando S\u00e3o Vicente fala, uma Irm\u00e3 sempre anota o que ele diz. As palavras de Santa Lu\u00edsa amoldam a vida de suas filhas. Mas n\u00e3o passam \u00e0 posteridade. Ela era a primeira a achar natural essa discrimina\u00e7\u00e3o, em favor do &#8220;Padre Vicente&#8221;.<\/p>\n<p>E assim, por conta da humildade, se perdem as palavras de sabedoria, que saem da boca da mulher.<\/p>\n<p><strong>Uma constela\u00e7\u00e3o no c\u00e9u feminino<\/strong><\/p>\n<p>Nossa reflex\u00e3o vai se concentrar sobre algumas dessas Santas Doutoras. Destacamos uma constela\u00e7\u00e3o apenas, nesse imenso firmamento da espiritualidade feminina.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil escolher. Perdoem-nos todas as que v\u00e3o ficar relegadas. Procuraremos aprender a rezar e a lutar em companhia e na escola de Santa Catarina de Sena, de Santa Teresa d&#8217;\u00c1vila, de Santa Teresinha, Santa Edith Stein e da Bem-aventurada Isabel da Trindade.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o admire os encantos e a irradia\u00e7\u00e3o dessas grandes mulheres. Teresa \u00e9 a grande m\u00e3e e mestra do Carmelo. Que riqueza de doutrina e de experi\u00eancia! Teresinha parece oferecer-nos um seguro e gracioso atalho, para avan\u00e7armos rumo \u00e0 &#8220;Montanha do Amor&#8221;. Isabel da Trindade \u00e9 muito atual para a nossa caminhada rumo a este novo mil\u00eanio. Pois nos conduz ao centro da contempla\u00e7\u00e3o, ao mist\u00e9rio da Comunh\u00e3o Trinit\u00e1ria. Edite Stein trilhou as veredas da Filosofia. D\u00e1-nos o exemplo da contempla\u00e7\u00e3o no seio da modernidade. Na &#8220;Ci\u00eancia da Cruz&#8221;, procura conciliar audaciosamente a m\u00edstica de Jo\u00e3o da Cruz, a filosofia de Tom\u00e1s de Aquino e a fenomenologia de Edmundo Husserl.<\/p>\n<p>Com o seu &#8220;Di\u00e1logo&#8221;, Catarina de Sena \u00e9 uma fonte universal nos jardins da Igreja. \u00c9 citada e venerada por todas as outras Santas Doutoras dos tempos modernos.<\/p>\n<p>Sua doutrina e seu exemplo inspiraram, muito particularmente, a Santa Teresa em seus come\u00e7os. Em momentos e em formas diferentes, ambas abrem diante de n\u00f3s todo o universo da contempla\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o. Ensinam-nos o amor ao Cristo na sua Paix\u00e3o e na sua Gl\u00f3ria, e a total consagra\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, reconhecida em seu mist\u00e9rio e em sua precariedade.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Santas Doutoras e Reformadoras<\/strong><\/p>\n<p>Raz\u00f5es mais pr\u00e1ticas confirmam a nossa escolha dessa constela\u00e7\u00e3o de mestras espirituais. Duas j\u00e1 foram declaradas Doutoras pela Igreja: Catarina de Sena e Teresa d&#8217;\u00c1vila bem merecem essa distin\u00e7\u00e3o pioneira, que \u00e9 o come\u00e7o da repara\u00e7\u00e3o de uma longa e triste injusti\u00e7a hist\u00f3rica. Santa Teresinha a consagrou, logo ap\u00f3s a sua morte, como a mais segura e graciosa Doutora espiritual. Isabel da Trindade e Edite Stein, seguidoras e irm\u00e3s espirituais de Teresinha, deixaram-nos escritos densos e claros e uma doutrina de grande atualidade e profundeza.<\/p>\n<p>Dispomos assim de um conjunto doutrinal coerente e acess\u00edvel, bem como de uma constela\u00e7\u00e3o de doutoras, muito unidas e muito originais em suas vidas e em seus ensinos.<\/p>\n<p>Finalmente, o crit\u00e9rio mais decisivo ainda. Selecionamos aquelas que melhor conhecemos e que parecem exercer alguma fascina\u00e7\u00e3o sobre quem as conhece.<\/p>\n<p><strong>Singela homenagem \u00e0s esquecidas ou ocultadas<\/strong><\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina e em nosso pa\u00eds, verificamos a mesma lei da presen\u00e7a escondida ou ocultada das Santas Doutoras, \u00e0 semelhan\u00e7a do que se passou nas comunidades apost\u00f3licas e patr\u00edsticas. O imagin\u00e1rio piedoso e art\u00edstico dos tempos coloniais parece sugestivo. Deixou em nossas velhas igrejas uma imagem muito simb\u00f3lica: Santa Ana, sentada, com a B\u00edblia aberta sobre os joelhos, ensinando \u00e0 sua filhinha, Maria, os caminhos de Deus e da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 a condensa\u00e7\u00e3o do grande processo hist\u00f3rico de transmiss\u00e3o da f\u00e9, da catequese e da espiritualidade do nosso povo. As &#8220;M\u00e3es e Mestras da Igreja&#8221; l\u00e1 estavam, qual for\u00e7a tranquila do amor, suprindo as falhas e aus\u00eancias das estruturas eclesi\u00e1sticas prec\u00e1rias, embora sempre mais vistosas.<\/p>\n<p>S\u00edmbolo da espiritualidade feminina, de amor contemplativo e de servi\u00e7o dos pobres \u00e9 a leiga (dominicana) Santa Rosa de Lima (1586-1617).<\/p>\n<p>Bem que gostar\u00edamos de desdobrar a ladainha, evocando algumas mestras de espiritualidade em nossos dias. \u00c9 mais f\u00e1cil lembrar aquelas que escreveram: uma Simone Weil (1909-1943), pensadora, profundamente religiosa e comprometida com os graves problemas humanos de nosso tempo. Ou Gertrude von Lefort (1876-1971). Convertida em 1926, difundiu na Alemanha e pelo mundo a mensagem da gra\u00e7a, da contempla\u00e7\u00e3o e da miss\u00e3o espiritual da mulher no mundo moderno. E um estilo mais popular, Madalena Delbr\u00eal (1904-1964). Est\u00e1 a\u00ed uma espiritual militante, empenhada na vida de ora\u00e7\u00e3o e no apostolado em meio oper\u00e1rio, ao lado do Padre Loew. S\u00e3o pioneiras na prepara\u00e7\u00e3o do Vaticano II, o conceito libertador, grandemente emperrado, infelizmente, pelo ego\u00edsmo clerical e masculino.<\/p>\n<p><strong>Paradigma feminino<\/strong><\/p>\n<p>Em clima de discri\u00e7\u00e3o e de luta, v\u00ea-se, assim, emergir, atrav\u00e9s da hist\u00f3ria, um\u00a0<em>paradigma feminino<\/em>\u00a0de santidade, de contempla\u00e7\u00e3o e de dom de si no servi\u00e7o e no apostolado.<\/p>\n<p>Ele tem algo de essencial e permanente, que jorra da pr\u00f3pria Palavra e se nutre da gra\u00e7a do Esp\u00edrito. \u00c9 o primado da f\u00e9 vivida no segredo, no dia a dia, no encontro com Deus, fonte e objeto constante de amor. Ele \u00e9 reconhecido no rosto do pr\u00f3ximo e na intimidade de uma ora\u00e7\u00e3o, que cola com as miudezas da exist\u00eancia cotidiana.<\/p>\n<p>Esse paradigma continua comprometido por falhas e imposi\u00e7\u00f5es, vindas do car\u00e1ter demasiado masculino da sociedade e da Igreja. Lembrar as &#8220;Santas Doutoras&#8221; \u00e9 exaltar esse paradigma feminino de santidade e contempla\u00e7\u00e3o, no que ele tem de evang\u00e9lico. E \u00e9 tamb\u00e9m ter a coragem de proclamar qu\u00e3o necess\u00e1ria e urgente \u00e9 a verdadeira liberta\u00e7\u00e3o da mulher, em rela\u00e7\u00e3o a todo machismo social, cultural e espiritual.<\/p>\n<p>Hoje, a emancipa\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o da mulher t\u00eam tudo a ganhar indo ao encontro das &#8220;Santas Doutoras&#8221;. A felicidade passa por essa corrente de fidelidade radical ao Evangelho inspirando aud\u00e1cia cr\u00edtica e inovadora diante das rotinas da cristandade. E por que n\u00e3o dizer? Temos que contar com a for\u00e7a tranquila da mulher, para nos opormos \u00e0 sedutora globaliza\u00e7\u00e3o consumista e concentracion\u00e1ria, devastadora da terra, exploradora e opressora dos pobres.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado na Revista Grande Sinal, revista de espiritualidade da Prov\u00edncia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o do Brasil, editada pela Ed. Vozes<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u00a0<strong>\u00a0Frei Carlos Josaphat\u00a0<\/strong>\u00a0nasceu no dia 4 de novembro de 1921, em um Vilarejo chamado Patos, Patos do Abaet\u00e9. Ingressou no Semin\u00e1rio Menor de Diamantina (MG) aos 12 anos. Depois foi para Petr\u00f3polis fazer os estudos de Filosofia e Teologia, at\u00e9 sua ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal em 08.12.1945. \u00c9 doutor em Teologia, professor em\u00e9rito da Universidade de Friburgo, na Su\u00ed\u00e7a, onde por 27 anos ensinou uma \u00e9tica de inspira\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica no prolongamento de Tom\u00e1s de Aquino. Na sua vida universit\u00e1ria, em seus escritos, em diversos encontros e m\u00faltiplas confer\u00eancias a preocupa\u00e7\u00e3o de Frei Carlos se concentra nos problemas sociais, nos desafios \u00e9ticos, da civiliza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica especialmente as rela\u00e7\u00f5es da \u00e9tica e do cristianismo com os desafios da modernidade e da p\u00f3s-modernidade. \u00c9 o que se v\u00ea pela an\u00e1lise de suas principais obras publicadas no Brasil e no Exterior. Aos 96 anos, est\u00e1 em plena atividade.<\/p>\n<hr \/>\n<blockquote><p>(1) Tal \u00e9, em subst\u00e2ncia, o conte\u00fado da &#8220;Quest\u00e3o 92&#8221;, da 1\u00aa Parte da Suma Teol\u00f3gica de Santo Tom\u00e1s. Em tennos equivalentes, ela \u00e9 colocada pelos mestres e doutores medievais, que prolongavam a problem\u00e1tica de Santo Agostinho, em seu Coment\u00e1rio literal do G\u00eanesis.<\/p>\n<p>(2) Assumimos e prolongamos a no\u00e7\u00e3o de paradigma de Tom\u00e1s Samuel KUHN, em: &#8220;The Structure of Scientific Revolutions&#8221;, Chicago, University of Chicago Press, 1962. Ed. MORIN aplica e alarga essa teoria em diferentes estudos. Referimo-nos especialmente a &#8220;Le paradigme perdu: la nature humaine&#8221; (1975); &#8220;La m\u00e9thode. La nature de la nature&#8221; t. 1 (1977); t. 2: &#8220;La vie de la vie&#8221; (1980), todos da Ed. du Seuil, Paris. Essas e outras obras de Ed. MORIN se encontram em tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, na Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca Universit\u00e1ria. Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica, Mem Martins, Portugal.<\/p>\n<p>(3) O Ap\u00f3stolo Paulo proclamar\u00e1 o grande princ\u00edpio fundador, renovador e unificador: &#8220;Batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher. Todos v\u00f3s sois um em Cristo Jesus&#8221; (Gl 3,27-28).<\/p>\n<p>(4) Veja-se o I Volume desta cole\u00e7\u00e3o, com o mesmo t\u00edtulo, do Padre Marcelo Rezende Guimar\u00e3es. Ed. Vozes. Petr\u00f3polis 1994.<\/p>\n<p>(5). Ver S. GREG\u00d3RIO DE NISSA, &#8220;Vida de Santa Macrina&#8221;, na cole\u00e7\u00e3o &#8220;Sources chr\u00e9tiennes&#8221;, n\u00ba 170. Ed. du Cerf, Paris.<\/p>\n<p>(6) Consulte-se, na mesma cole\u00e7\u00e3o, citada na nota precedente, n\u00ba 90: &#8220;Vida de Santa Mel\u00e2nia&#8221;.<\/p>\n<p>(7) Ler, nas &#8220;Confiss\u00f5es&#8221; de SANTO AGOSTINHO, Livro VI, n\u00ba 25, a hist\u00f3ria, apenas delineada, daquela que mostrou ao jovem Agostinho um amor total, prefigurando a atitude de Helo\u00edsa diante de Abelardo. Em portugu\u00eas, pode-se recorrer \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de Maria Luiza Jardim Amarante, Ed. Paulinas, 5\u00aa ed., 1984, p. 154.<\/p>\n<p>(8) Cf. TERESA DE JESUS, &#8220;Vida&#8221;, cap. 3. n\u00ba 7; &#8220;Obras Completas&#8221;, Ed. Loyola 1995. p. 36.<\/p>\n<p>(9) O texto e a apresenta\u00e7\u00e3o de sua &#8220;Peregrina\u00e7\u00e3o&#8221; se encontram na cole\u00e7\u00e3o patr\u00edstica citada na nota 2, n\u00ba 21.<\/p>\n<p>(10) REGINA PERNOUD, &#8220;La femme au temps des cath\u00e9drales&#8221; (1980) e &#8220;La femme au temps des croisades&#8221; (1990), ambos pela Ed. Stock, Paris. Conhecemos a tradu\u00e7\u00e3o do segundo livro: &#8220;A mulher no tempo das cruzadas&#8221;, Papirus Editora, Campinas, SP, 1993.<\/p>\n<p>(11) N\u00e3o se estranhe o emprego insistente que fazemos do termo &#8220;machismo&#8221;. Ele j\u00e1 vem consagrado pelo uso do Papa Jo\u00e3o Paulo II, desde a Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica &#8220;Familiaris consortio&#8221;, de 22\/11\/81, n\u00ba 25.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Carlos Josaphat, OP<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":187014,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[268],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>As mulheres na caminhada do Povo de Deus - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/as-mulheres-na-caminhada-do-povo-de-deus\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"As mulheres na caminhada do Povo de Deus - 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