{"id":183243,"date":"2020-01-21T07:13:19","date_gmt":"2020-01-21T10:13:19","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=183243"},"modified":"2020-07-27T13:56:24","modified_gmt":"2020-07-27T16:56:24","slug":"dois-papas-o-encontro-pessoal-derruba-muros-ideologicos-e-redescobre-o-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/dois-papas-o-encontro-pessoal-derruba-muros-ideologicos-e-redescobre-o-humano\/","title":{"rendered":"\u201cDois Papas\u201d: o encontro pessoal derruba muros ideol\u00f3gicos e redescobre o\u00a0humano"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-header\"><\/div>\n<div class=\"meta clear\">\n<div class=\"author\">\n<div id=\"attachment_183244\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-183244\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-183244 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/papas_2101.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/papas_2101.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/papas_2101-450x241.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/papas_2101-768x411.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/papas_2101-150x80.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-183244\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<em>Imagem capturada do filme &#8220;Dois Papas&#8221;<\/em><\/p><\/div>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"entry clear\">\n<p>Assim como o Brasil n\u00e3o \u00e9 para iniciantes, da mesma forma, o filme \u201cDois Papas\u201d n\u00e3o \u00e9 para iniciantes. Ele demanda conhecimentos de teologia e do debate existente j\u00e1 h\u00e1 mais de 50 anos sobre qual modelo de Igreja seria o mais adequado, considerando o destino comum Terra e Humanidade e as perversas desigualdades sociais em n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>O filme est\u00e1 sendo amplamente discutido. H\u00e1 raz\u00f5es pr\u00f3 outras contra e, v\u00e1rias delas, sup\u00f5em interesses escusos de seu produtor Fernando Meirelles, o que acho preconceituoso. Muitas cr\u00edticas feitas ao filme (a maioria o v\u00ea com \u00f3culos ideol\u00f3gicos sem limp\u00e1-los antes) e mostram o que em filosofia se chama de \u201c<em>ignoratio elenchi<\/em>\u201d(ignor\u00e2ncia do assunto), o que dificulta um julgamento s\u00e9rio e mais justo do filme em tela. N\u00e3o obstante ter j\u00e1 escrito sobre o filme, retomo o discurso para aprofundar algumas quest\u00f5es subjacentes ao Dois Papas e assim apreci\u00e1-lo melhor.<\/p>\n<p><strong>Um lugar privilegiado de observa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Devo, sem qualquer pretens\u00e3o, confessar que me encontro num lugar de observa\u00e7\u00e3o privilegiado pois pude conhecer a ambos os personagens, Joseph Razinger e Jorge Mario Bergoglio. Isso me permite ajuizar com outros crit\u00e9rios o filme Dois Papas.<\/p>\n<p>Com refer\u00eancia ao Papa Bento XVI pela amizade que t\u00ednhamos e pelo fato de que, como Cardeal, Presidente da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 (ex-Inquisi\u00e7\u00e3o) teve a ingrata miss\u00e3o\u00a0<em>instituciona<\/em>l de me interrogar num processo doutrin\u00e1rio, pelo qual passaram not\u00e1veis como Galileu Galilei, Giordano Bruno e outros, acerca de meu livro \u201c<em>Igreja: carisma e poder<\/em>\u201d. Ele agiu conforme o rito prescrito para o Grande Interrogador (outrora se dizia o Grande Inquisidor) com seriedade e compet\u00eancia exigidas. E eu como interrogado devia responder \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es feitas\u00a0<em>ao livro<\/em>\u00a0(n\u00e3o a mim como pessoa), da forma mais convincente poss\u00edvel. Cada um estava em sua posi\u00e7\u00e3o institucional mas isso n\u00e3o significava romper os la\u00e7os de m\u00fatuo apre\u00e7o e amizade. N\u00e3o rompemos. Tanto ele quanto eu soubemos distinguir as distintas esferas. Minha defesa, ap\u00f3s o interrogat\u00f3rio, pareceu aos 13 cardeais votantes, n\u00e3o o bastante convincente. Assim que recebi v\u00e1rias penalidades, a maior delas, o \u201csil\u00eancio obsequioso\u201d.<\/p>\n<p>Penso que Bento XVI, \u00e0 frente da Igreja, se comportou mais como um te\u00f3logo acad\u00eamico alem\u00e3o (escreveu v\u00e1rios livros enquanto Papa) do que um Guia de uma comunidade de mais de um bilh\u00e3o de fi\u00e9is. Essa miss\u00e3o era, a meu ver, alheia ao seu car\u00e1ter. Ele queria mesmo era ser te\u00f3logo e n\u00e3o um Chefe do Estado do Vaticano.<\/p>\n<p>Com refer\u00eancia ao Papa Francisco nos conhecemos como te\u00f3logos nos idos de 1972 num encontro organizado pela Confedera\u00e7\u00e3o Latino-americana de Religiosos (CLAR) no Colegio Maximo dos jesu\u00edtas em San Miguel, nos arredores de Buenos Aires. Ele guardou a foto do encontro e teve a gentileza, como Papa, de mandar-me tal foto e recordar-me que hav\u00edamos discutido sobre hermen\u00eautica moderna francesa, coisa que eu havia totalmente esquecido.<\/p>\n<p>Ao elaborar a enc\u00edclica ecol\u00f3gica\u00a0<em>Laudato Si&#8217;: sobre o cuidado da Cada Comum<\/em>\u00a0(2015) ofereci-lhe subs\u00eddios, prontamente aceitos, pois ele sabia que j\u00e1 h\u00e1 anos escrevia sobre o tema, alargando o horizonte da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. O eixo deste tipo de teologia \u00e9 \u201ca\u00a0<em>op\u00e7\u00e3o n\u00e3o excludente pelos pobres contra sua pobreza, em favor da justi\u00e7a social e de sua liberta\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0<\/em>Dentro dos v\u00e1rios tipos de pobres dever\u00edamos, pensava e penso eu, incluir o Grande Pobre, o mais explorado de todos, a Terra viva, sem cuja preserva\u00e7\u00e3o invalidaria qualquer outro projeto. Da\u00ed nasceu uma vigorosa\u00a0<em>eco-teologia da liberta\u00e7\u00e3o<\/em>. O Papa Francisco conscientizou-se desta centralidade e atendeu ao pedido de muitos te\u00f3logos que junto comigo lhe fazemos este apelo.<\/p>\n<p>Desconhecer esse n\u00facleo central da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, e tribut\u00e1-lo ao marxismo \u00e9 incorrer em \u201c<em>ignoratio elenchi\u201d<\/em>, e reproduzir a narrativa dos ditadores militares do Chile, da Argentina, do Brasil e de El Salvador. Isso \u00e9 repetido ainda hoje em dia nos grupos conservadores e at\u00e9 reacion\u00e1rios mesmo ocupando altos cargos do atual governo.<\/p>\n<p><strong>Bergoglio sem ser prof\u00e9tico, salvou a muitos perseguidos<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vou abordar o tema da rela\u00e7\u00e3o do Papa Francisco com a ditadura militar argentina. O pr\u00eamio Nobel da Paz, Adolfo P\u00e9rez Esquivel, tamb\u00e9m ele v\u00edtima de torturas, deu seu testemunho cabal aos mais duros cr\u00edticos, apresentando at\u00e9 a longa lista de salvos pela a\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o superior jesu\u00edta, padre Jorge Mario Bergoglio e depois Cardeal de Buenos Aires. No m\u00e1ximo que podemos conceder \u00e9 que n\u00e3o se mostrou uma figura prof\u00e9tica, como foram os bispos Novak, Angelleli, Esaine e outros. Mas nunca colaborou nem foi conivente com o sistema de opress\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o dos opositores do regime, dos mais cru\u00e9is da Am\u00e9rica Latina. Seu estilo era outro, agir no sil\u00eancio, mas corajosamente.<\/p>\n<p>Como Papa Francisco, recebi algumas cartas dele agradecendo os materiais que lhe havia enviado. E continuo lhe enviando outros atrav\u00e9s de um de seus secret\u00e1rios (n\u00e3o via C\u00faria, pois h\u00e1 o risco de nunca lhe ser entregue). Quase sempre responde. A \u00faltima me encheu de satisfa\u00e7\u00e3o, pois lhe havia escrito que no texto final do S\u00ednodo Panamaz\u00f4nico de 2019 se incorria no <em>Cristomonismo<\/em> (s\u00f3 Cristo) esquecendo, em grande parte, a figura do Esp\u00edrito Santo. Este, argumentava eu, chega sempre antes do mission\u00e1rio, pois encontra nos povos a evangelizar, o amor, a solidariedade, o perd\u00e3o e outros valores humanos que constituem o n\u00facleo da mensagem de Jesus. Agradeceu-me a observa\u00e7\u00e3o e disse que iria us\u00e1-la. Por minha surpresa, na fala aos Cardeais pelo Natal de 2019 afirma que algu\u00e9m lhe disse que o mission\u00e1rio \u00e9 aguardado pelo Esp\u00edrito Santo ao chegar ao pa\u00eds de miss\u00e3o, pois Ele j\u00e1 estava l\u00e1 presente pelo amor e pelos demais valores humanos.<\/p>\n<p>Fato curioso: um Papa n\u00e3o vive s\u00f3 pregando; precisa de certa distens\u00e3o, tomar chimarr\u00e3o pela manh\u00e3 (mate) e tamb\u00e9m cultivar o humor. Assim que acompanha e torce pelo seu time de futebol San Lorenzo e adora m\u00fasica popular argentina que considero excelente, especialmente Mercedes Sosa com a qual juntos trabalhamos na confec\u00e7\u00e3o da Carta da Terra. Eu mandei ao Papa, para distra\u00ed-lo um pouco, um texto de S\u00e3o Francisco no qual este aconselhava os frades que em suas hortas deixassem um cantinho para as ervas selvagens (daninhas) crescerem porque, elas, do seu modo, tamb\u00e9m louvam a Deus. O Papa Francisco colocou este t\u00f3pico de humor na enc\u00edclica no n\u00famero 12.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o magna subjacente ao filme<\/strong><\/p>\n<p>Qual \u00e9 a quest\u00e3o magna que subjaz ao filme Dois Papas? N\u00e3o entend\u00ea-la, significa n\u00e3o entender o filme em sua profundidade. Trata-se de apresentar dois modelos de Igreja: um bem retratado pelo Papa Bento XVI e e o outro pelo Cardeal Bergoglio. depois Papa Francisco. Al\u00e9m disso, tra\u00e7ar o perfil de duas formas diferentes de ser humano, de realizar cada um a sua humanidade.<\/p>\n<p>Cabe enfatizar que os di\u00e1logos n\u00e3o s\u00e3o meramente inventados. Quem conhece a teologia de ambos logo identifica o que escreveram ou publicamente disseram. Eles correspondem \u00e0 sua respectiva vis\u00e3o de Igreja. \u00c9 seu ponto de verdade.<\/p>\n<p><em>O modelo de Igreja de Bento XVI: Volta \u00e0 Grande Disciplina<\/em><\/p>\n<p>O modelo de Igreja de Bento XVI \u00e9 o da Igreja tradicional, cuja \u00e9poca \u00e1urea foi a Idade Media e que culminou com o Conc\u00edlio de Trento (1545-1563) e com o Conc\u00edlio Vaticano I (1869-1870). Esse modelo tem como eixo articulador o\u00a0<strong>poder sagrado<\/strong>\u00a0(<em>sacra potestas<\/em>), piramidal e desigualmente distribu\u00eddo (os leigos, em baixo n\u00e3o participam desse poder), em cuja cabe\u00e7a est\u00e1 o Papa, infal\u00edvel em quest\u00f5es de doutrina e moral, com um poder \u201c<em>ordin\u00e1rio, supremo, pleno, imediato e universal\u201d<\/em>(c\u00e2non 331). Se riscarmos a palavra Papa e pusermos Deus, cabe\u00a0<em>ad litteram.\u00a0<\/em>Pode um ser humano, sempre limitado, apresentar-se com um poder ilimitado, n\u00e3o sendo Deus?<\/p>\n<p>Esse modelo foi essencial na forma\u00e7\u00e3o da Europa, o que resulta em responsabilidade \u00e0s mais altas autoridades da Igreja de mant\u00ea-lo para preservar a identidade da Europa e a cultura europeia que se globalizou. Esse modelo criou os instrumentos de sua reprodu\u00e7\u00e3o, a teologia manual\u00edstica, o estilo apolog\u00e9tico, especialmente, o estatuto dos semin\u00e1rios que n\u00e3o existia antes. A\u00ed se formaram os candidatos ao sacerd\u00f3cio, numa perspectiva agressiva e defensiva contra as Igrejas sa\u00eddas da Reforma e contra os novos inimigos: os dois iluminismos. O primeiro iluminiamo, mais te\u00f3rico, com seu esp\u00edrito cr\u00edtico, contra todo o autoritarismo, do contrato social e da introdu\u00e7\u00e3o das liberdades civis e dos direitos do cidad\u00e3o. E o segundo iluminismo, mais pr\u00e1tico e transformador: o socialismo e o marxismo. Face \u00e0 essa realidade mudada, a rea\u00e7\u00e3o vinha sob o\u00a0<em>motto<\/em>: \u201c<em>Volta \u00e0 Grande Disciplina<\/em>\u201d. Vale dizer, tentar restaurar a s\u00edntese medieval sob a \u00e9gide do fator religioso e orientada moralmente pela Igreja.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo II viu que na Pol\u00f4nia (<em>semper fidelis)\u00a0<\/em>ocupada pelos marxistas ateus, a Igreja era a grande for\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o, de resist\u00eancia e de reafirma\u00e7\u00e3o da identidade polonesa, profundamente cat\u00f3lica. Ao ser eleito Papa, levou essa miss\u00e3o para toda a Igreja. Enquadrou todas as tend\u00eancias diferentes para ter uma Igreja unida contra dois fortes inimigos: o marxismo ateu que ele conheceu por experi\u00eancia pessoal e contra a modernidade que deslocou Deus do centro da sociedade e em seu lugar colocou a sacralidade da pessoa e de seus direitos. A modernidade e p\u00f3s-modernidade se apresenta como secular (n\u00e3o secularista), defensora das liberdades de consci\u00eancia, de religi\u00e3o, das culturas e dos direitos de todos.<\/p>\n<p>Inegavelmente carism\u00e1tico, a ponto de galvanizar multid\u00f5es, a vis\u00e3o de Igreja de Papa Jo\u00e3o Paulo II, entretanto, era muito conservadora. As inova\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965) que acertou o passo da Igreja com o mundo moderno, s\u00e3o relativizadas e reinterpretadas a partir do poder sagrado, concentrado nele, o Papa e na hierarquia eclesi\u00e1stica. Gerou uma mentalidade temerosa e at\u00e9 negativa face aos avan\u00e7os do mundo moderno, uma Igreja qual castelo, sitiado por inimigos que pretensamente a querem destruir.<\/p>\n<p>Seus seguidores (v\u00e1rios movimentos conservadores como Opus Dei, Cavaleiros de Cristo, Comunh\u00e3o e Liberta\u00e7\u00e3o entre outros) constituem a base eclesial e social que sustentaram seu projeto de Igreja. Encontrou no Cardeal Joseph Ratzinger (na Alemanha mostrava-se progressista), um te\u00f3logo que se converteu \u00e0 linha de Jo\u00e3o Paulo II\u00a0 e num fervoroso guardi\u00e3o da ortodoxia. Apesar de sua finura, mostrou posi\u00e7\u00f5es severas contra os cr\u00edticos desse modelo conservador de Igreja.<\/p>\n<p>Especialmente foi visada a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, interpretada como uma esp\u00e9cie de cavalo de Troia, mediante o qual o marxismo penetraria na Am\u00e9rica Latina. H\u00e1 que defender o povo, mantendo essa corrente teol\u00f3gica sob estrita vigil\u00e2ncia, argumentava-se no Vaticano, atingindo a muitos de seus seguidores, cardeais, bispos, te\u00f3logos, padres, religiosos e religiosas e at\u00e9 leigos. Esta estrat\u00e9gia foi mantida e at\u00e9 refor\u00e7ada quando se tornou Papa.<\/p>\n<p>No filme o Papa Bento XVI representa este tipo de Igreja que possui sua l\u00f3gica e coer\u00eancia, mas na contram\u00e3o do curso global do mundo. N\u00e3o tinha chance de prosperar pois a Igreja se mostrava antes uma cisterna de \u00e1guas mortas que uma fonte de \u00e1guas vivas. Decepcionava muitos fi\u00e9is a ponto de muitos abandonarem a Igreja. Quando o Papa Bento XVI se deu conta de que a atmosfera interna da Igreja em geral e do Vaticano em particular fora envenenada pelos crimes de pedofilia, falcatruas financeiras dentro do Banco Vaticano e mesmo de prostitui\u00e7\u00e3o de altos prelados da C\u00faria, sentiu suas for\u00e7as se esmorecerem. \u201cPrecisa-se mudar tudo isso\u201d, diz claramente no filme. Reafirmou que n\u00e3o merecia permanecer sentado na C\u00e1tedra de Pedro, sem a energia suficiente para as mudan\u00e7as necess\u00e1rias. Num gesto nobre e desprendido renunciou.<\/p>\n<p>Fecha-se com ele, o ciclo do cristianismo central, enfraquecido pelos esc\u00e2ndalos, para dar lugar a outro modelo de Igreja com outros prop\u00f3sitos e outra leitura do mundo.<\/p>\n<p><em>Papa Francisco: a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o chega ao centro da igreja<\/em><\/p>\n<p>Com o Papa Francisco come\u00e7a um novo estilo de exercer o pontificado e se projeta um modelo de Igreja muito diverso do tradicional. A Igreja na Am\u00e9rica Latina foi sempre uma<em>\u00a0Igreja-espelho<\/em>\u00a0daquela europeia. Lentamente, por\u00e9m foi se libertando at\u00e9 tornar-se uma I<em>greja-fonte<\/em>: com um estilo diferente de viver a f\u00e9, encarnado-se nas culturas locais, ind\u00edgenas, afro-descendentes e populares. Criou seu perfil de uma Igreja pobre e despojada com sua pr\u00f3pria teologia, sob o nome de Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Logicamente, subsiste ainda por\u00e7\u00f5es da Igreja-espelho, ligadas ao estilo tradicional de ser padre e de organizar as dioceses e as par\u00f3quia. Mas n\u00e3o \u00e9 por ela que o Cristianismo latino-americano atraiu a aten\u00e7\u00e3o do mundo, gra\u00e7as ao seu compromisso com os pobres, contra os regimes ditatoriais e contra as torturas sistem\u00e1ticas a presos pol\u00edticos e a presos comuns.<\/p>\n<p>O Conc\u00edlio Vaticano II tratou da Igreja dentro do mundo moderno, do mundo desenvolvido e se reconciliou com ele. Na Am\u00e9rica Latina os bispos nas v\u00e1rias assembleias continentais (Medell\u00edn, Puebla, Aparecida) deram-se conta de que esse mundo desenvolvido constitui a causa principal da opress\u00e3o das grandes maiorias da Am\u00e9rica Latina, ind\u00edgenas humilhados, massas abandonadas, classes oprimidas e mulheres submetidas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o na Am\u00e9rica Latina \u00e9 outra: qual o lugar da Igreja dentro do submundo, do mundo subdesenvolvido? Chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que sua miss\u00e3o \u00e9 de uma evangeliza\u00e7\u00e3o libertadora. Libertar o pobre que grita \u00e9 um gesto evang\u00e9lico e ao mesmo tempo pol\u00edtico. Libertar importa fazer do pobre o protagonista de sua pr\u00f3pia liberta\u00e7\u00e3o a partir do capital simb\u00f3lico de sua\u00a0 f\u00e9. Isso exige um processo de conscientiza\u00e7\u00e3o e de organiza\u00e7\u00e3o para o qual Paulo Freire que sempre se tendeu como um dos fundadores da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, ajudou enormemente a pastoral das\u00a0<span class=\"skimlinks-unlinked\">Igrejas.Desta<\/span>\u00a0forma surgia um crist\u00e3o consciente e simultaneamente um cidad\u00e3o cr\u00edtico e participante.<\/p>\n<p>A liberta\u00e7\u00e3o demanda um m\u00e9todo mediante o qual o oprimido extrojeta o opressor que carrega dentro de si, para ser livre e tentar um outro tipo de sociedade\u00a0 libertada, onde o amor e a conviv\u00eancia fraterna n\u00e3o sejam t\u00e3o dif\u00edceis. N\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00e3o pelos pobres e por sua liberta\u00e7\u00e3o sem primeiramente amar esses pobres, seu modo de ser, sua cultura e, finalmente, se associar, como aliados secund\u00e1rios, \u00e0s suas lutas. Essa op\u00e7\u00e3o custou a vida de muitos padres, religiosas, agentes leigos de pastoral e at\u00e9 de dois bispos, Angelleli da Argentin e Oscar Arnulfo Romeno de El Salvador, hoje santificado. \u00c9 uma Igreja que tem muitos m\u00e1rtires.<\/p>\n<p>O Papa Francisco foi educado quando era estudante de Teologia no Col\u00e9gio Maximo em San Miguelo nesse conjunto de vis\u00f5es. Incorporou-as. Como cardeal, renunciou ao pal\u00e1cio cardinal\u00edcio, ao carro oficial, aos privil\u00e9gios da fun\u00e7\u00e3o. Usava o \u00f4nibus e o metr\u00f4 e andava muito a p\u00e9 pelas \u201cvillas miseria\u201d de Buenos Aires. Vivia num pequeno apartamento e cozinhava sua pr\u00f3pria refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao chegar a Roma e eleito j\u00e1 Papa, introduziu esta revolu\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos nos vetustos edif\u00edcios luxuosos e renascentistas da cidade do Vaticano. Decidiu viver numa casa de h\u00f3spedes e toma a refei\u00e7\u00e3o, entrando na fila, como todos.<\/p>\n<p>Seu modelo de Igreja \u00e9 aquela, como ele mesmo o define: \u201cuma Igreja em permanentemente sa\u00edda\u201d de si mesma em dire\u00e7\u00e3o do mundo, dos pobres, dos refugiados e das periferias existenciais. Ela equivale a um hospital de campanha, aberta a atender a todos. Como ningu\u00e9m antes dos Papas anteriores, denuncia os produtores das desigualdades e injusti\u00e7as no mundo: os adoradores do dinheiro, os especuladores, os inimigos da vida e da M\u00e3e Terra que a devastam em fun\u00e7\u00e3o de sua acumula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o usa a palavra capitalismo mas todos entendem ao que se refere.<\/p>\n<p>Em sua mensagem enfatiza: Jesus n\u00e3o veio fundar uma nova religi\u00e3o, pois havia muitas no Imp\u00e9rio Romano. Veio criar o homem novo e a mulher nova. Veio nos\u00a0<em>ensinar a viv<\/em>er o amor incondicional, a miseric\u00f3rdia sem limites e a solidariedade a partir dos \u00faltimos. No lugar de dogmas e doutrinas que respeita, privilegia o encontro vivo com o Cristo, com as pessoas, especialmente com aquelas feitas invis\u00edveis. Escandaliza n\u00e3o poucos bispos ao pregar, at\u00e9 exigir, uma pastoral da ternura e n\u00e3o do medo das penas eternas. A miseric\u00f3rdia e seu\u00a0<em>tonus retus<\/em>\u00a0sempre de nova pregada que vem acolitada pela empatia e pela fome e sede de justi\u00e7a. Sente-se um homem entre outros homens.<\/p>\n<p>Suspeito que criar\u00e1 uma nova genealogia de papas, vindos do fim do mundo, onde vive a maioria dos cat\u00f3licos. S\u00f3 25% encontram-se na Europa, 52% nas Am\u00e9ricas e os restantes na \u00c1frica e na Oceania. Hoje por hoje, o cristianismo \u00e9 uma \u201creligi\u00e3o\u201d do outrora chamado \u201cTerceiro Mundo\u201d, que um dia, teve sua origem no Primeiro Mundo. Pelo \u201cTerceiro Mundo\u201d passa o futuro da Igreja Cat\u00f3lica at\u00e9 em termos num\u00e9ricos. \u00c9 aqui que o cristianismo mostra suas virtualidades latentes, na defesa dos pobres e no cuidado da Casa Comum. Um argumento a mais para postularmos um Papa que venha de onde a Igreja se incarna nas culturas locais e suscita esperan\u00e7a nos condenados e ofendidos, desesperados pela fome e pela mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Estes dois modelos de Igreja subjazem aos di\u00e1logos do filme Dois Papas. Eles se confrontam. Mas lentamente v\u00e3o se alinhando.<\/p>\n<p>Cada um dos Papas carrega um peso na consci\u00eancia: Bergoglio poderia\u00a0 ter encontrado outra forma, para al\u00e9m daquela institucional que tomou, de salvar os dois jesu\u00edtas trabalhando nas favelas e liber\u00e1-los do sequestro anunciado. Ambos sofreram pesadas torturas. Um deles, o padre Yorio, a quem conheci em Quilmes, nos arredores de Buenos Aires, n\u00e3o conseguia livrar-se do sentimento de que tinha sido abandonado pelo seu superior religioso. Mas procurava sinceramente entender os impasses pelos quais seu superior passou, mas que, com criatividade, poderia ter agido diferentemente. Esse era o peso que o Papa Francisco carregava em sua biografia.<\/p>\n<p>Ao Papa Ratzinger lhe pesou na consci\u00eancia o fato de ter enviado uma carta a todos os bispos, sob sigilo pontif\u00edcio, para que n\u00e3o entregassem os padres ped\u00f3filos \u00e0 justi\u00e7a civil para n\u00e3o macular o bom nome da institui\u00e7\u00e3o-Igreja. Deviam confessar seu pecado e ser transferidos para outro lugar. E as v\u00edtimas, as crian\u00e7as inocentes e as fam\u00edlias, como ficariam? Isso n\u00e3o foi suficientemente levado em conta pelo Papa Bento XVI.<\/p>\n<p>Momento alto do filme \u00e9 quando ambos revelam o peso que carregam. Abrem-se mutuamente e se d\u00e3o reciprocamente a absolvi\u00e7\u00e3o. Ambos se sentem aliviados e reconciliados consigo mesmos.<\/p>\n<p><strong>A ideologia divide, o di\u00e1logo aproxima.<\/strong><\/p>\n<p>Estimo que um dos prop\u00f3sitos principais do filme, foi revelar a real condi\u00e7\u00e3o humana de ambos os Papas: sua dimens\u00e3o de sombra e sua dimens\u00e3o de luz. Essa \u00e9 a real\u00a0<em>condition humaine<\/em>\u00a0de cada ser humano: somos sapientes e dementes sim-b\u00f3licos e dia-b\u00f3licos, gentis e rudes. E isso simultaneamente. Ai de n\u00f3s se recalcamos a dimens\u00e3o sombria. Ela voltar\u00e1 furiosa. Temos que integr\u00e1-la humildemente na medida em que damos primazia \u00e0 dimens\u00e3o de luz. Caso contr\u00e1rio, impedimos o desabrochar de nossa plena humanidade que inclui luz e sombra.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 momentos em que o horizonte desaparece: \u00e9 a \u201cnoche oscura y terrible\u201d da qual fala o m\u00edstico S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz n\u00e3o poupa sequer os papas. A sutileza do filme mostra tamb\u00e9m esta sua angustiante dimens\u00e3o. Eles n\u00e3o t\u00eam certezas totais. Est\u00e3o no caminho de busca de mais luz para poder caminhar.<\/p>\n<p>O filme revela, de forma maravilhosa, como passo a passo, vai surgindo a humanidade de um de outro. Aprenderam a escutar, a dialogar, e a procurar entender as diferen\u00e7as. Lentamente as discuss\u00f5es v\u00e3o desaparecendo, pois a ideologia separa e o encontro une. \u00c9 ent\u00e3o que irrompe a verdadeira humanidade em cada um deles. Um toca piano, o outro cantarola uma ca\u00e7\u00e3o dos Beatles. Por fim ambos n\u00e3o agem mais como Papas. S\u00e3o humanos, o homem Joseph Ratzinger e o homem Jorge Mario Bergoglio. Ensaiam uns passos de tango, poss\u00edvel a dois idosos. \u00c9 inimagin\u00e1vel um acad\u00eamico alem\u00e3o como o professor Ratzinger entregar-se \u00e0 liberdade do corpo e dar uns passos de dan\u00e7a argentina.<\/p>\n<p>O que une as pessoas n\u00e3o s\u00e3o acordos doutrin\u00e1rios. Estes ficam nos documentos mas n\u00e3o chegam ao cora\u00e7\u00e3o. O encontro das pessoas, cara a cara, olho a olho, cora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o transforma a realidade conflitiva, numa realidade, apesar das diferen\u00e7as, realmente reconcilia.<\/p>\n<p>Esta seja talvez a grande li\u00e7\u00e3o que derivamos do filme Dois Papas. Num mundo de \u00f3dio, de dilacera\u00e7\u00e3o das ideologias, o que nos levar\u00e1 para a dire\u00e7\u00e3o certa e para a supera\u00e7\u00e3o das fragilidades da humana exist\u00eancia \u00e9 e ser\u00e1 sempre o resgate de nossa inteira, complexa e amb\u00edgua humanidade, um ajudando ao outro a desentranhar o que est\u00e1 escondido nele e que, sozinho, talvez nunca ir\u00e1 poder liberar. Mas vale a filosofia africana do <strong>Ubuntu<\/strong>: \u201ceu sou eu somente atrav\u00e9s de voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p><strong>O cristianismo como religi\u00e3o e caminho de Jesus<\/strong><\/p>\n<p>Por fim,\u00a0 cabe uma reflex\u00e3o para aqueles que sentem dificuldades de viver a f\u00e9 crist\u00e3 nos dias de hoje. O cristianismo n\u00e3o nasceu como Igreja constitu\u00edda, mas como \u201co movimento de Jesus\u201d ou \u201co caminho de Jesus\u201d pois assim\u00a0 nos relatam as fontes origin\u00e1rias do Novo Testamento. Curiosamente nos Atos dos Ap\u00f3stolos se chama o cristianismo em grego de: \u201c<em>hairesis tou Christ<\/em>ou\u201d: a \u201cheresia de Cristo\u201d, vale dizer \u201co grupelho de Cristo\u201d. So mais tarde, em Antioquia, passou a ser chamado de cristianismo.<\/p>\n<p>Metaforicamente diria: o cristianismo \u00e9 semelhante a uma bicicleta. A\u00a0<em>roda da frente\u00a0<\/em>representa o Cristianismo como religi\u00e3o, com ritos, celebra\u00e7\u00f5es, missas, sacramentos e devo\u00e7\u00e3o a santos e santas. Nem todos hoje se identificam com este modo de expressar a f\u00e9; felizes os que o conseguem pois o contacto com o sagrado alimenta as dimens\u00f5es profundas e ignotas de nossa <em>psiqu\u00ea<\/em>\u00a0t\u00e3o bem estudas pela escola de C. G. Jung e disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Mas o cristianismo pode se expressar tamb\u00e9m pela\u00a0<em>roda de tr\u00e1s.<\/em>\u00a0\u00c9 o cristianismo como \u00e9tica, como modo de ser que se orienta pelo sonho e a proposta humanit\u00e1ria de Jesus: a centralidade do amor, a empatia face aos que sofrem, a fidelidade \u00e0 verdade, o desapego \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o obsessiva de bens materiais e a capacidade de perdoar. Esse caminho \u00e9 o mais origin\u00e1rio e significa uma proposta de vida, seguida por muitos mesmo sem se filiar a uma confiss\u00e3o crist\u00e3 ou seguir um caminho religioso. Vivem o sonho do Nazareno no meio da mundanidade do mundo. S\u00e3o crist\u00e3os, n\u00e3o pela pr\u00e1tica religiosa, mas pela pr\u00e1tica da \u00e9tica da transpar\u00eancia, do amor, da solidariedade a partir dos \u00faltimos e da alegria de viver neste belo e radiante planeta.<\/p>\n<p>Creio que o filme aponta mais nesta dire\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria: a escuta atenta do outro, a abertura ao di\u00e1logo e a disposi\u00e7\u00e3o de aceitar a cr\u00edtica e a vontade de mudar.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos mais humanizados e espiritualizados ap\u00f3s termos visto o filme &#8220;Dois Papas&#8221;. S\u00f3 por este efeito ben\u00e9fico, valeu a pena o esfor\u00e7o de seus produtores e atores de conceb\u00ea-lo e de produzi-lo. Bem que mereceria um Oscar, pela mensagem t\u00e3o atual e esperan\u00e7adora que irradia e n\u00e3o em \u00faltimo lugar pela beleza deslumbrante de suas imagens e pela m\u00fasica sempre adequada \u00e0s cenas. Vale ver o filme &#8220;Dois Papas&#8221; para deixar-se questionar por ele e enriquecer a maneira pr\u00f3pria de viver humanamente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong> <em>\u00e9 te\u00f3logo, fil\u00f3sofo e escreveu\u00a0Francisco de Assis e Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014,<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":184589,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[59],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>\u201cDois Papas\u201d: o encontro pessoal derruba muros ideol\u00f3gicos e redescobre o\u00a0humano - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/dois-papas-o-encontro-pessoal-derruba-muros-ideologicos-e-redescobre-o-humano\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u201cDois Papas\u201d: o encontro pessoal derruba muros ideol\u00f3gicos e redescobre o\u00a0humano - 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