{"id":181871,"date":"2019-09-25T07:54:15","date_gmt":"2019-09-25T10:54:15","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=181871"},"modified":"2020-07-31T10:26:19","modified_gmt":"2020-07-31T13:26:19","slug":"sinodo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/sinodo-2\/","title":{"rendered":"Um S\u00ednodo que incomoda a poucos e confirma a muitos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_187285\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-187285\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-187285 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/artigo_3107.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/artigo_3107.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/artigo_3107-450x241.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/artigo_3107-768x411.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/artigo_3107-150x80.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-187285\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<em> \u00a0 \u00a0 \u00a0Imagem ilustrativa (fonte: Commons.wikimedia<\/em>)<\/p><\/div>\n<p>Uma an\u00e1lise teol\u00f3gica do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sinodoamazonico.va\/content\/sinodoamazonico\/pt\/documentos\/instrumentum-laboris-do-sinodo-amazonico.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Instrumentum laboris<\/a>, em prepara\u00e7\u00e3o ao<strong>\u00a0S\u00ednodo especial para a regi\u00e3o Pan-Amaz\u00f4nica<\/strong>.<\/p>\n<p>O artigo \u00e9 de Pe. Adelson Ara\u00fajo dos Santos SJ, nascido em Manaus, AM Doutor em Teologia Espiritual e Professor na Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana, Roma.<\/p>\n<h3>Eis o artigo.<\/h3>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do in\u00edcio de um dos eventos mais importantes da\u00a0<strong>Igreja Cat\u00f3lica<\/strong>\u00a0para este ano \u2013 O\u00a0S\u00ednodo especial sobre a Amaz\u00f4nia\u00a0\u2013 algumas poucas vozes t\u00eam levantado d\u00favidas sobre a catolicidade deste s\u00ednodo, uma vez que o seu instrumento de trabalho estaria repleto de erros teol\u00f3gicos e de heresias. E h\u00e1 tamb\u00e9m quem esteja acusando O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0de promover um evento pol\u00edtico para atingir determinados governos.<\/p>\n<p>Com o presente artigo, pretendemos demonstrar que, ao contr\u00e1rio, o\u00a0documento preparat\u00f3rio ao S\u00ednodo, traduz uma clara e l\u00edmpida express\u00e3o da f\u00e9 e da doutrina crist\u00e3, teologicamente fundamentadas na Sagrada Escritura e no magist\u00e9rio dos Papas, que perpassa todo o conte\u00fado desenvolvido pelos redatores pre-sinodais. Ao mesmo tempo, buscaremos mostrar que a convoca\u00e7\u00e3o deste s\u00ednodo n\u00e3o \u00e9 fruto de um gesto isolado do atual Papa, mas se harmoniza coerentemente com a posi\u00e7\u00e3o que a Igreja historicamente tem assumido em favor da Amaz\u00f4nia, dos seus povos origin\u00e1rios, da cria\u00e7\u00e3o e da vida em geral e do di\u00e1logo intercultural com as diferentes realidades onde a evangeliza\u00e7\u00e3o tem chegado, como passaremos a analisar.<\/p>\n<h3>A a\u00e7\u00e3o criadora de Deus e o papel do ser humano, segundo o Instrumentum laboris<\/h3>\n<p>Dizia o cardeal\u00a0<strong>Tom\u00e1s Spidl\u00edk<\/strong>[1] que os antigos gregos descobriram a Deus contemplando a beleza do cosmos, de modo que pelas criaturas se chegasse ao Criador delas, sem que com isso se afirme que as criaturas s\u00e3o Deus. Mas, como ensina a teologia da Cria\u00e7\u00e3o, uma vez que cada uma dessas criaturas existe pela bondade e pela beleza de quem as criou, elas expressam \u00e0 sua maneira algo do seu Autor. Assim que, o nosso planeta e todos os seus habitantes s\u00e3o express\u00e3o viva da obra criadora de Deus e do amor que o Criador tem por cada ser criado, sem que haja confus\u00e3o ou fus\u00e3o entre um e outro.<br \/>\nOra, n\u00e3o \u00e9 outra a interpreta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que o\u00a0<strong>Instrumentum laboris<\/strong>\u00a0faz quando afirma que \u201cao contemplar a formosura do territ\u00f3rio amaz\u00f4nico, descobrimos a obra mestra da cria\u00e7\u00e3o do Deus da Vida. Seus intermin\u00e1veis horizontes de beleza sem limites s\u00e3o um c\u00e2ntico, um hino ao Criador\u201d[2], para em seguida defender que a\u00a0<strong>Igreja na Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0seja uma \u201cIgreja com uma clara op\u00e7\u00e3o pelos (e com os) pobres, e pelo cuidado da cria\u00e7\u00e3o\u201d[3], levando inclusive a uma forma de \u201c<strong>convers\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong>\u201d, como chama o\u00a0<strong>Papa Francisco\u00a0<\/strong>[4], o que implica no \u201creconhecimento da cumplicidade pessoal e social nas estruturas de pecado, desmascarando as ideologias que justificam um estilo de vida que agride a cria\u00e7\u00e3o\u201d[5].<\/p>\n<p>Seria, portanto, total distor\u00e7\u00e3o dos fatos querer enxergar alguma forma de pante\u00edsmo nestas afirma\u00e7\u00f5es acima recordadas. Quem assim o fizesse estaria se colocando em frontal desobedi\u00eancia para com a s\u00e3 doutrina e o magist\u00e9rio da Igreja, dos quais o atual Vig\u00e1rio de Cristo \u00e9 ex\u00edmio continuador. De fato, durante o seu pontificado, tamb\u00e9m\u00a0<strong>Bento XVI<\/strong>\u00a0n\u00e3o deixou de alertar o mundo e a Igreja para a import\u00e2ncia do cuidado da cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por querer diviniz\u00e1-la, mas por saber que desse cuidado depende o pr\u00f3prio desenvolvimento e sobreviv\u00eancia da principal das criaturas, o ser humano. Com efeito, para o Papa te\u00f3logo alem\u00e3o, \u201ca terra \u00e9 um dom precioso do Criador, que delineou os ordenamentos intr\u00ednsecos, indicando-nos assim os sinais orientativos que devemos respeitar como administradores da sua cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 precisamente a partir desta consci\u00eancia, que a Igreja considera as quest\u00f5es ligadas ao meio ambiente e \u00e0 sua salvaguarda intimamente vinculadas ao tema do desenvolvimento humano integral\u201d. Assim, em total sintonia com o texto que seria posteriormente escrito em prepara\u00e7\u00e3o ao S\u00ednodo sobre a Amaz\u00f4nia, ensina o magist\u00e9rio de\u00a0<strong>Bento XVI<\/strong>\u00a0que \u201ca Igreja n\u00e3o apenas est\u00e1 comprometida em promover a defesa da terra, da \u00e1gua e do ar, oferecidas pelo Criador a todos, mas sobretudo compromete-se em proteger o homem contra a destrui\u00e7\u00e3o de si mesmo\u201d, para concluir que &#8220;quando a \u2018ecologia humana\u2019 \u00e9 respeitada dentro da sociedade, beneficia tamb\u00e9m a \u2018<strong>ecologia ambiental<\/strong>\u2019&#8221;[6].<\/p>\n<p>\u00c9 inequ\u00edvoca, portanto, a fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica do\u00a0<strong>Instrumentum laboris<\/strong>\u00a0quando se posiciona a favor da defesa da cria\u00e7\u00e3o, vendo nas criaturas a presen\u00e7a Daquele que as criou, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio ser humano, cujo cora\u00e7\u00e3o continua sendo o centro do cosmos e da hist\u00f3ria, uma vez que somente ele foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus (Gn 1, 26-27). De fato, o documento [7] recorre v\u00e1rias vezes \u00e0 Sagrada Escritura para sustentar que a cria\u00e7\u00e3o se apresenta como manifesta\u00e7\u00e3o da vida, sustento, possibilidade e limite (cf. Gn 1, 1-2.4a), dentro da qual o ser humano \u00e9 convidado a relacionar-se com as coisas criadas, do mesmo modo como Deus o faz, cultivando e guardando o jardim (cf. Gn 2, 4b-25). Esta rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade respons\u00e1vel entre o ser humano e a natureza, recorda o<strong>\u00a0Papa Francisco\u00a0<\/strong>[8], sup\u00f5e uma atitude de humildade por parte do homem e da mulher, ao tomarem consci\u00eancia de que n\u00e3o s\u00e3o donos absolutos da cria\u00e7\u00e3o, mas meros administradores (cf. Gn 3, 3). S\u00e3o palavras que, longe de serem her\u00e9ticas, nos remetem naturalmente ao ensinamento dos Padres da Igreja [9], para os quais a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto da vontade divina, sendo, portanto, uma for\u00e7a operativa, uma energia, cabendo ao ser humano colaborar com essa for\u00e7a, agindo sempre em synergia com o Criador.<\/p>\n<p>Voltando ao magist\u00e9rio do\u00a0<strong>Papa Bento XVI<\/strong>, o mesmo confirma tudo o que acima se disse, ao afirmar que \u201ca cria\u00e7\u00e3o, mat\u00e9ria estruturada de modo inteligente por Deus, est\u00e1 confiada \u00e0 responsabilidade do homem, que \u00e9 capaz de a interpretar e de voltar a model\u00e1- la ativamente, sem se considerar seu senhor absoluto. De fato, o homem \u00e9 chamado a exercer um governo respons\u00e1vel para conservar a cria\u00e7\u00e3o, faz\u00ea-la frutificar e cultiv\u00e1-la,\u00a0encontrando os recursos necess\u00e1rios para uma exist\u00eancia digna de todos\u201d[10]. Fiel ao Magist\u00e9rio da Igreja, o\u00a0<strong>Instrumentum laboris<\/strong>\u00a0retoma esse chamado \u00e0 responsabilidade do ser humano para com as criaturas divinas, quando ao explicar a no\u00e7\u00e3o de \u201cbem viver\u201d, chama a aten\u00e7\u00e3o para a centralidade do car\u00e1ter relacional-transcendente dos seres humanos e da cria\u00e7\u00e3o, a partir da sua pr\u00f3pria maneira de se organizar, que come\u00e7a pela fam\u00edlia e a comunidade, \u201cabrangendo uma utiliza\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel de todos os bens da cria\u00e7\u00e3o\u201d[11]. Isso em nada diminui ou extingue a personalidade individual e a liberdade humana, mas apenas ressalta que \u201ca vida \u00e9 um caminho comunit\u00e1rio onde as tarefas e as responsabilidades se dividem e se compartilham em fun\u00e7\u00e3o do bem comum. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a ideia de indiv\u00edduo separado da comunidade ou de seu territ\u00f3rio\u201d [12]. Enfim, encontrar a Deus na natureza \u00e9 perceber o mundo como cria\u00e7\u00e3o, onde o homem contempla os tra\u00e7os de Deus. A cria\u00e7\u00e3o se torna, assim, o lugar da sua busca de Deus e do seu encontro com Deus, que o conduz a seguir sua rota de peregrino, em atitude de respeito para com o Autor e toda a sua obra.<\/p>\n<p>Quanto ao fato de o\u00a0<strong>documento de trabalho do S\u00ednodo<\/strong>\u00a0acolher certas express\u00f5es da cosmovis\u00e3o e espiritualidade ind\u00edgena, que alguns poucos consideram apenas supersti\u00e7\u00f5es pag\u00e3s, mais uma vez n\u00e3o faltam fundamentos doutrin\u00e1rios e hist\u00f3ricos s\u00f3lidos para justificar tal inclus\u00e3o. Com efeito, quem tem um m\u00ednimo de conhecimento de hist\u00f3ria da Igreja sabe que foi conseguindo expressar-se, ao longo dos s\u00e9culos, em linguagens diversas, que o cristianismo teve for\u00e7a para fazer-se \u201ctudo a todos\u201d (1Co 9, 22). A\u00a0<strong>incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho<\/strong>\u00a0foi, assim, uma realidade desde o in\u00edcio da evangeliza\u00e7\u00e3o, enquanto \u201c\u00edntima transforma\u00e7\u00e3o dos aut\u00eanticos valores culturais por meio da sua integra\u00e7\u00e3o no cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas v\u00e1rias culturas\u201d[13]. Portanto, desde o seu nascimento o cristianismo tocou e se deixou tocar por outras culturas, colhendo dessas elementos e caracter\u00edsticas, como recorda o cardeal\u00a0<strong>Spidl\u00edk<\/strong>, ao ensinar que os antigos gregos contribu\u00edram para que o homem fosse visto como insepar\u00e1vel do universo e da sua ordem, enquanto os eslavos, por sua vez, \u201cconseguiram dar um significado crist\u00e3o \u00e0s velhas cren\u00e7as populares sobre a Terra \u00famida, m\u00e3e terna de seus filhos humanos, que devem ter por ela afeto e amor\u201d[14].<\/p>\n<p>Presente como fato hist\u00f3rico e n\u00e3o apenas conceitual desde as comunidades crist\u00e3s primitivas, a\u00a0<strong>incultura\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0se mostrou, assim, uma forma inteligente e experimentada de inser\u00e7\u00e3o da mensagem crist\u00e3 em diversas \u00e1reas do globo terrestre, entendida em sentido s\u00f3cio antropol\u00f3gico como processo de di\u00e1logo com o universo simb\u00f3lico dos diferentes povos com os quais o Evangelho entrou em contato [15]. Ora, se assim foi desde o in\u00edcio, sendo isso o que permitiu a expans\u00e3o e solidifica\u00e7\u00e3o do cristianismo nesses mais de dois mil anos de exist\u00eancia, qual o motivo de julgarmos e condenarmos os mission\u00e1rios que na Amaz\u00f4nia buscam conhecer, dialogar e integrar toda a riqueza e sabedoria milenar da religiosidade dos povos origin\u00e1rios que ali habitam h\u00e1 milhares de anos?<\/p>\n<p>De fato, citando a\u00a0<strong>Redemptoris Missio<\/strong>\u00a0(n. 52), S\u00e3o\u00a0<strong>Jo\u00e3o Paulo II<\/strong>, quando como Papa visitou o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, falando a lideran\u00e7as de 37 na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, afirmou explicitamente que essa \u00e9 a miss\u00e3o da Igreja e o ideal de todos os mission\u00e1rios: \u201cInserir a Igreja nas culturas dos povos, encarnar o Evangelho na vida e, ao mesmo tempo, introduzir a todos com as suas culturas, na pr\u00f3pria comunidade da Igreja, transmitindo-lhes sua verdade, assumindo, sem comprometer de modo nenhum a especificidade e a integridade da f\u00e9 crist\u00e3, o que de bom existe nessas culturas, e renovando-as a partir de dentro\u201d[16]. Impressiona a semelhan\u00e7a de abertura existente nas palavras do santo Papa Jo\u00e3o Paulo II e do atual sucessor de Pedro, para quem igualmente \u201ccada cultura e cada cosmovis\u00e3o que recebe o Evangelho enriquece a Igreja com a vis\u00e3o de uma nova faceta do rosto de Cristo\u201d. Por isso que, ao se encontrar com os\u00a0povos ind\u00edgenas da Pan-Amaz\u00f4nia em Puerto Maldonado, o\u00a0<strong>Papa Francisco\u00a0<\/strong>[17] reafirmou que \u201ca Igreja n\u00e3o \u00e9 alheia aos vossos problemas e \u00e0 vossa vida, n\u00e3o quer ser estranha ao vosso modo de viver e de vos organizardes. Precisamos que os povos ind\u00edgenas plasmem culturalmente as\u00a0<strong>Igrejas locais amaz\u00f4nicas<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Como vemos, diferentemente daqueles que tratam de forma preconceituosa a cultura ind\u00edgena, vendo-a apenas como mera \u201csupersti\u00e7\u00e3o pag\u00e3\u201d, tanto<strong>\u00a0Jo\u00e3o Paulo II<\/strong>\u00a0como\u00a0<strong>Francisco<\/strong>\u00a0s\u00e3o s\u00e1bios o suficiente para reconhecer a riqueza que o contato e o di\u00e1logo com outros povos e culturas n\u00e3o-crist\u00e3s, como s\u00e3o aquelas dos povos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o p\u00f5e em risco a nossa identidade, como pode at\u00e9 mesmo fortalec\u00ea-la, ao nos recordar valores e tesouros espirituais presentes, mas muitas vezes esquecidos, dentro da nossa pr\u00f3pria f\u00e9 e experi\u00eancia de Deus [18]. Portanto, se \u00e9 verdade tudo o que os Papas acima citados disseram, como de fato o \u00e9, agora dissonantes com a voz da Igreja s\u00e3o aqueles incapazes de acolher, dialogar e respeitar as cosmovis\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es religiosas dos povos ind\u00edgenas pan-amaz\u00f4nicos, como bem faz o\u00a0<strong>Instrumentum laboris<\/strong>.<\/p>\n<h3>A centralidade de Jesus Cristo na mensagem do Instrumentum laboris<\/h3>\n<p>Entre as vozes cr\u00edticas ao\u00a0<strong>documento de trabalho<\/strong>\u00a0preparado para o\u00a0<strong>S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia<\/strong>, se levanta tamb\u00e9m a acusa\u00e7\u00e3o de que a figura de Jesus Cristo haveria sido praticamente esquecida pelos autores dos temas que s\u00e3o a\u00ed abordados. Mais uma vez, uma simples leitura acurada e imparcial do texto \u00e9 suficiente para perceber que tal afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta em dados ver\u00eddicos. Com efeito, logo no in\u00edcio da reda\u00e7\u00e3o se v\u00ea que o desejo de se iniciar um processo de escuta e discernimento dos novos caminhos para a Igreja na Amaz\u00f4nia visa exatamente ajud\u00e1-la a discernir como essa \u201canunciar\u00e1 o Evangelho de Jesus Cristo durante os pr\u00f3ximos anos\u201d [19]. Em seguida, ao fazer referimento ao documento conclusivo da\u00a0<strong>assembleia dos bispos da Am\u00e9rica Latina<\/strong>, ocorrido em 2007 em\u00a0Aparecida\u00a0(DAp., 95), se recorda que o servi\u00e7o pastoral da Igreja deve ser voltado\u00a0tamb\u00e9m \u201c\u00e0 vida plena dos povos ind\u00edgenas [a qual] exige que anunciemos a Jesus Cristo e a Boa Nova do Reino de Deus, denunciemos as situa\u00e7\u00f5es de pecado, as estruturas de morte, a viol\u00eancia e as injusti\u00e7as internas e externas, e fomentemos o\u00a0<strong>di\u00e1logo intercultural<\/strong>,\u00a0<strong>inter-religioso<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>ecum\u00eanico<\/strong>\u201d. Mas, qual o crit\u00e9rio que devemos usar para saber o que anunciar e denunciar? O pr\u00f3prio\u00a0<strong>Instrumentum laboris<\/strong>\u00a0responde afirmando: \u201cProcuremos discernir este an\u00fancio e esta den\u00fancia \u00e0 luz de Jesus Cristo, o Vivente (cf. Ap 1, 18), plenitude da revela\u00e7\u00e3o (cf. DV, 2)\u201d [20]. Mais cristol\u00f3gico do que isso, imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>A centralidade de Jesus Cristo no documento se faz evidente igualmente quando aborda a import\u00e2ncia do di\u00e1logo que deve haver entre a f\u00e9 crist\u00e3 e outras cren\u00e7as, em um mundo multi\u00e9tnico, multicultural e multirreligioso como \u00e9 a Amaz\u00f4nia. Tamb\u00e9m aqui o referencial e modelo desta pr\u00e1xis dial\u00f3gica \u00e9 sempre a pessoa de Jesus, uma vez que Nosso Senhor \u201cfoi um homem de di\u00e1logo e de encontro&#8230; A partir de sua encarna\u00e7\u00e3o, o encontro com Jesus Cristo se realizou sempre no horizonte de um di\u00e1logo cordial, hist\u00f3rico e escatol\u00f3gico\u201d [21]. De fato, diferente das posturas farisaicas de ontem e de hoje, incapazes de se relacionar sem julgar e condenar os outros, o Filho de Deus encarnado continua sendo o modelo perfeito de abertura e acolhida do outro. Sobre isso, recordemos a bel\u00edssima descri\u00e7\u00e3o que faz de Jesus o grande exegeta e te\u00f3logo\u00a0Carlo Maria Martini, cardeal arcebispo de Mil\u00e3o:<\/p>\n<p><em>\u201cJesus fez vis\u00edvel o amor de Deus atrav\u00e9s da sua vida e de suas palavras&#8230; Jesus viveu de forma muito simples para estar perto de todos. Tamb\u00e9m escolheu a vida itinerante a fim de estar dispon\u00edvel para todos os homens e n\u00e3o levantar nenhum muro em torno a si mesmo. Jesus saiu ao encontro dos estrangeiros. E o mais importante: podia dar a outros seu amor. Seu amor tomava a ofensiva. Ele n\u00e3o somente se sentiu bem em sua casa, mas ia de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. Ia aos lugares onde havia conflitos, onde tinha que aplicar o seu amor para que pudesse haver paz entre pag\u00e3os e judeus, entre romanos e Israel. Ele se arriscou a entrar em conflitos e mostrou que o amor de Deus tem que modificar o mundo, modificar esses conflitos\u201d[22].<\/em><\/p>\n<p>Na contram\u00e3o dessa pr\u00e1xis de Jesus est\u00e3o as posturas defensivas e fechadas a qualquer di\u00e1logo, como se ele fosse incompat\u00edvel com a evangeliza\u00e7\u00e3o. Por isso, criticam a abertura que o<strong>\u00a0Papa Francisco<\/strong>\u00a0tem assumido, ao conclamar que sejamos uma Igreja em sa\u00edda. Para as\u00a0<strong>comunidades eclesiais e os povos da Amaz\u00f4nia<\/strong>, ao contr\u00e1rio, \u00e9 precisamente por meio do di\u00e1logo que se encurtar\u00e3o as dist\u00e2ncias e haver\u00e1 melhores dias para todos, como recorda o\u00a0<strong>Instrumentum laboris<\/strong>: \u201cO di\u00e1logo \u00e9 o m\u00e9todo que se deve aplicar sempre, para favorecer o bem viver de todos. As principais quest\u00f5es da humanidade que sobressaem na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0n\u00e3o encontrar\u00e3o solu\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da viol\u00eancia nem da imposi\u00e7\u00e3o, mas sim mediante o di\u00e1logo e a comunica\u00e7\u00e3o\u201d[23].<\/p>\n<p>Novamente, recorremos \u00e0s palavras do\u00a0<strong>Cardeal Martini<\/strong>\u00a0para reafirmar que respeitar, acolher e dialogar com culturas e religi\u00f5es diferentes, sejam aquelas do mundo grego do in\u00edcio do cristianismo ou as atuais do\u00a0<strong>mundo ind\u00edgena da Pan-Amaz\u00f4nia<\/strong>, em nada diminui a nossa identidade crist\u00e3, mas antes torna os crist\u00e3os mais parecidos com Aquele, de quem s\u00e3o chamados a serem disc\u00edpulos e seguidores:<\/p>\n<p><em>Se me sinto separado do outro e penso que ele \u00e9 mal e eu bom, que ele \u00e9 fraco e eu forte, ent\u00e3o n\u00e3o o amo. Se sei que todos estamos no mesmo saco, essa ideia desperta em mim um sentimento de compaix\u00e3o e de amor&#8230; Jesus cita a Sagrada Escritura, nosso Antigo Testamento, ao dizer: Temos que proteger os fracos, perdoar os culpados. Temos que aprender a resolver conflitos, a dissolver inimizades, a construir a paz&#8230; Todas as Igrejas, todas as religi\u00f5es t\u00eam como meta fazer o bem no mundo, fazer que o mundo se torne mais luminoso. E Jesus os ajudar\u00e1 a realizar melhor sua miss\u00e3o no mundo\u201d[24].<\/em><\/p>\n<p>Tudo o que acima refletimos nos leva a concluir que, indubitavelmente, \u201co\u00a0<strong>S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia<\/strong> \u00e9 um sinal dos tempos no qual o Esp\u00edrito Santo abre novos caminhos que discernimos atrav\u00e9s de um di\u00e1logo rec\u00edproco entre todo o povo de Deus\u201d, n\u00e3o havendo raz\u00e3o para temer pela sua realiza\u00e7\u00e3o, nem muito menos combat\u00ea-lo. Pois, como vimos, o documento preparat\u00f3rio deste encontro, por n\u00f3s aqui analisado, est\u00e1 pautado solidamente na doutrina emanada da Sagrada Escritura, da Tradi\u00e7\u00e3o e do Magist\u00e9rio da Igreja, especialmente dos nossos \u00faltimos Papas. A busca de novos caminhos de evangeliza\u00e7\u00e3o para as igrejas amaz\u00f4nicas e o fortalecimento de uma ecologia integral em nada nos afastam, portanto, da nossa identidade e miss\u00e3o, pois ambas visam tornar a nossa casa comum, que \u00e9 todo o planeta, em um mundo melhor, mais parecido com o projeto de Deus para a sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do in\u00edcio do\u00a0<strong>S\u00ednodo Especial sobre a Amaz\u00f4nia<\/strong>, unamo-nos em ora\u00e7\u00e3o para que ele \u201cseja uma express\u00e3o concreta da\u00a0sinodalidade\u00a0de uma\u00a0Igreja em sa\u00edda, para que a vida plena que Jesus veio trazer ao mundo (cf. Jo 10, 10) chegue a todos, especialmente aos pobres\u201d [25] e \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia, a quem devemos estimar e respeitar, como faz o\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0e como nos recordam as palavras de seus antecessores: \u201cO Papa queria dizer a todos os \u00edndios do Brasil o amor que Deus e a Igreja lhes dedicam. \u00c9 o mesmo amor com que Jesus Cristo, Filho de Deus e Fundador da Igreja, ama a todos os homens\u201d [26].<\/p>\n<p><strong>Fonte: Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU &#8211; http:\/\/www.ihu.unisinos.br<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h3>Notas:<\/h3>\n<p>[1] SPIDL\u00cdK, T. Ignacio de Loyola y la espiritualidad oriental, Mensajero \u2013 Sal Terrae, Bilbao\/Santander 2008, 23.<br \/>\n[2] Instrumentum Laboris, n. 22.<br \/>\n[3] Instrumentum Laboris, n. 109.<br \/>\n[4] Cf. PAPA FRANCISCO, Enc\u00edclica Laudato S\u00ed, n. 216-221.<br \/>\n[5] Instrumentum Laboris, n. 101.<br \/>\n[6] PAPA BENTO XVI, A Cria\u00e7\u00e3o como dom do Criador, Audi\u00eancia Geral, Quarta-feira, 26 de agosto de 2009.<br \/>\n[7] Cf. Instrumentum Laboris, n. 55.<br \/>\n[8] PAPA FRANCISCO, Enc\u00edclica Laudato S\u00ed, n. 67.<br \/>\n[9] Cf. SPIDL\u00cdK, T. Ignacio de Loyola \u2026, 29.<br \/>\n[10] PAPA BENTO XVI, A Cria\u00e7\u00e3o como dom do Criador&#8230;<br \/>\n[11] Instrumentum Laboris, n. 13.<br \/>\n[12 Instrumentum Laboris, n. 24.<br \/>\n[13] Enc\u00edclica Redemptoris missio, V, 52.<br \/>\n[14] T. SPIDL\u00cdK, I grandi mistici russi, Roma 1977, 345 ss.<br \/>\n[15] Cf. L. PADOVESE, Introduzione alla teologia patristica, Piemme, Casale Monferrato 1992, 175-177.<br \/>\n[16] S\u00c3O JO\u00c3O PAULO II, Discurso do Santo Padre no encontro com os representantes das comunidades ind\u00edgenas do Brasil, Cuiab\u00e1, 16 de outubro de 1991.<br \/>\n[17] PAPA FRANCISCO, Encontro com os povos da Amaz\u00f4nia. Discurso do Santo Padre, Puerto Maldonado<br \/>\n&#8211; Coliseu Madre de Dios, Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018.<br \/>\n[18] A respeito da contribui\u00e7\u00e3o da sabedoria espiritual dos povos ind\u00edgenas para espiritualidade crist\u00e3, leia- se: A. ARA\u00daJO DOS SANTOS, \u201cSpiritualit\u00e0 indigena dell\u2019amazzonia e cura della \u00abcasa comune\u00bb\u201d in Civilt\u00e0 Cattolica, Quaderno 4057, Anno 2019, Volume III, 13 \u2013 22.<br \/>\n[19] Instrumentum Laboris, n. 5.<br \/>\n[20] Instrumentum Laboris, n. 11.<br \/>\n[21] Instrumentum Laboris, n. 36-37.<br \/>\n[22] C. M. MARTINI \u2013 G. SPORSCHILL, Coloquios nocturnos en Jerusal\u00e9n, San Pablo, Madrid 2008, 39<br \/>\n[23] Instrumentum Laboris, n. 37.<br \/>\n[24] C. M. MARTINI \u2013 G. SPORSCHILL, Coloquios nocturnos\u2026, 40.43.<br \/>\n[25] Instrumentum Laboris, n. 147..<br \/>\n[26] S\u00c3O JO\u00c3O PAULO II, Discurso do Santo Padre&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Pe. 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