{"id":180351,"date":"2019-07-10T11:20:41","date_gmt":"2019-07-10T14:20:41","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=180351"},"modified":"2020-07-31T10:48:21","modified_gmt":"2020-07-31T13:48:21","slug":"a-revelacao-divina-que-chega-com-atraso-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-revelacao-divina-que-chega-com-atraso-parte-1\/","title":{"rendered":"A revela\u00e7\u00e3o divina que chega com atraso \u2013 Parte 1"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_181937\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-181937\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-181937 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/logo_sinodo_alto.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"463\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/logo_sinodo_alto.jpg 1200w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/logo_sinodo_alto-450x174.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/logo_sinodo_alto-768x296.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/logo_sinodo_alto-1024x395.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/logo_sinodo_alto-150x58.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><p id=\"caption-attachment-181937\" class=\"wp-caption-text\"><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Imagem do Logotipo do S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia<\/em><\/p><\/div>\n<h3>O S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia e as tradi\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias dos povos<\/h3>\n<p><strong>Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, para os povos amaz\u00f4nicos, \u00e9 boa not\u00edcia que o Papa Francisco tenha convocado um s\u00ednodo dos bispos cat\u00f3lico-romanos de todo o mundo para refletir sobre os apelos que a Amaz\u00f4nia faz \u00e0 Igreja Universal (compreendida como o conjunto de Igrejas crist\u00e3s do mundo inteiro). Como afirmou Dom Roque Paloschi, presidente do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio no Brasil (CIMI), \u201cO S\u00ednodo sobre a Amaz\u00f4nia praticamente come\u00e7ou em janeiro de 2018, em Puerto Maldonado (Peru), no encontro do papa com os povos amaz\u00f4nidas\u201d[1].<\/p>\n<p>De fato, o S\u00ednodo dos Bispos \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que retoma antigo costume das Igrejas e sinaliza a voca\u00e7\u00e3o que a Igreja tem de ser sinal e instrumento de unidade para a toda a humanidade. (O termo s\u00ednodo vem do grego e significa \u201ccaminhar juntos\u201d).<\/p>\n<p>Na Igreja Cat\u00f3lica, foi depois do Conc\u00edlio Vaticano II que o papa Paulo VI, em 1967, recriou a institui\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo, encontro que re\u00fane bispos de todo o mundo para, de tempos em tempos, refletir com o papa sobre assuntos que dizem respeito \u00e0 Igreja universal ou a problemas humanos e pastorais de determinada regi\u00e3o (c\u00e2non 342 do C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico). \u00c9 o caso desse S\u00ednodo especial para a Amaz\u00f4nia, convocado pelo papa para outubro de 2019, conforme o c\u00e2non 345 do mesmo c\u00f3digo. Esse s\u00ednodo tem como tema \u201cAmaz\u00f4nia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral\u201d.<\/p>\n<p>No dia 17 de junho deste ano, se tornou p\u00fablico o documento que servir\u00e1 de base para o di\u00e1logo e os trabalhos do S\u00ednodo (<em>Instrumentum laboris<\/em>). Elaborado na metodologia latino-americana, o documento tem tr\u00eas partes, correspondentes ao Ver, Discernir (julgar) e Agir. Na primeira, o documento retrata a realidade do territ\u00f3rio e dos seus povos a partir dos relatos e testemunhos das comunidades. Por isso, a proposta \u00e9 escutar a voz da Amaz\u00f4nia \u00e0 luz da f\u00e9. Na segunda, busca-se responder ao clamor da terra e dos povos por uma Ecologia Integral. Finalmente, na terceira parte, Igreja prof\u00e9tica na Amaz\u00f4nia, desafios e esperan\u00e7as, tentam-se discernir caminhos novos para a miss\u00e3o prof\u00e9tica das Igrejas na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u00c9 consolador saber que esse documento e os assuntos que ser\u00e3o tratados no S\u00ednodo foram formulados a partir de consulta que envolveu as comunidades amaz\u00f4nicas, grupos (cat\u00f3licos ou n\u00e3o) e acolheu posicionamentos de estudiosos\/as e pessoas que acompanham a realidade amaz\u00f4nica nos diversos pa\u00edses que cobrem a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Infelizmente, ainda h\u00e1 \u2013 e n\u00e3o s\u00e3o poucos \u2013 os bispos, padres e grupos cat\u00f3licos que n\u00e3o reconhecem a Ecologia Integral, a situa\u00e7\u00e3o social dos povos e a Pol\u00edtica como assuntos que dizem diretamente respeito \u00e0 miss\u00e3o da Igreja. Parecem esquecer ou ignorar que Jesus definiu a sua miss\u00e3o como sendo a de curar os doentes, libertar os prisioneiros e anunciar aos empobrecidos a boa not\u00edcia da liberta\u00e7\u00e3o. Para isso, ele foi enviado pelo Esp\u00edrito Divino que recebeu (Lucas 4, 16- 21). \u00c0 luz dessa compreens\u00e3o do evangelho do reino, convido voc\u00eas a aprofundarmos a novidade que esse S\u00ednodo pode representar para a Igreja e para o mundo e como podemos dele escutar uma palavra que nos renove e nos anime na miss\u00e3o.<\/p>\n<h3>1 \u2013 Para vinho novo, odres novos<\/h3>\n<p>H\u00e1 mais de 50 anos, o papa Jo\u00e3o XXIII e o Conc\u00edlio Vaticano II nos ensinaram a assumir \u201cos sinais dos tempos\u201d como elemento a partir do qual, aprendemos a discernir a palavra de Deus e o que ele pede de n\u00f3s. Na Am\u00e9rica Latina, olhar a realidade social e pol\u00edtica para discernir nela os desafios para a miss\u00e3o foi o pr\u00f3prio tema geral da 2\u00aa confer\u00eancia geral do episcopado cat\u00f3lico em Medell\u00edn (1968). A partir da\u00ed, se tornou a proposta teol\u00f3gica e espiritual das comunidades crist\u00e3s, inseridas no meio dos pobres. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o tem tomado formas diversas e novas, assumindo os caminhos pr\u00f3prios das teologias afro, ind\u00edgenas, feministas, gays e outras reflex\u00f5es aut\u00f4nomas que se situam na mesma linha libertadora. No entanto, para o magist\u00e9rio romano e os bispos reunidos em um s\u00ednodo em Roma, \u00e9 a primeira vez que, depois do Conc\u00edlio Vaticano II (1962- 1965) e, para a Am\u00e9rica Latina, depois de Medell\u00edn (1968), a realidade social e pol\u00edtica \u00e9 assumida realmente como \u201ccategoria teol\u00f3gica\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, podemos afirmar que essa escuta da realidade e o reconhecimento do lugar teol\u00f3gico das diversas tradi\u00e7\u00f5es espirituais dos povos origin\u00e1rios \u00e9 como revela\u00e7\u00e3o divina que chegou atrasada. Embora elas j\u00e1 sejam t\u00e3o antigas, s\u00f3 agora a hierarquia cat\u00f3lica est\u00e1 verdadeiramente reconhecendo que ali h\u00e1 uma revela\u00e7\u00e3o divina e est\u00e1 disposta a acolher.<\/p>\n<p>Na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Episcopalis Communio<\/em> (2018), o papa Francisco j\u00e1 havia insistido que \u201co S\u00ednodo deve ser instrumento privilegiado de escuta do povo de Deus\u201d (EC 6). O que certamente \u00e9 a maior novidade dessa prepara\u00e7\u00e3o para o S\u00ednodo tem sido realmente levar a s\u00e9rio essa postura at\u00e9 o \u00faltimo ponto. Embora sempre os s\u00ednodos sejam antecedidos de question\u00e1rios para os bispos e dioceses, nenhum s\u00ednodo anterior a esse cuidou tanto de escutar a voz da realidade atrav\u00e9s dos testemunhos das bases e dos\/as mission\u00e1rios e estudiosos que ali trabalham. Esse documento de trabalho preparat\u00f3rio fala em <em>Igreja como ouvinte<\/em> e destaca a import\u00e2ncia do <em>processo de escuta sinodal<\/em> que j\u00e1 deixou frutos na regi\u00e3o (articula\u00e7\u00e3o dos diversos pa\u00edses a servi\u00e7o da regi\u00e3o amaz\u00f4nica, aten\u00e7\u00e3o para os desastres ecol\u00f3gicos e para a a\u00e7\u00e3o nefasta das mineradoras e do desflorestamento) e o documento deixa claro que esse <em>processo sinodal<\/em> de escuta deve continuar mesmo depois do evento do S\u00ednodo em Roma (n. 3).<\/p>\n<p>Todos sabemos das rea\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias que o papa Francisco enfrenta no Vaticano. Sabemos que at\u00e9 mesmo o fato de dedicar uma sess\u00e3o do S\u00ednodo \u00e0 Amaz\u00f4nia est\u00e1 sendo contestado por alguns, inclusive cardeais[2]. Al\u00e9m disso, o S\u00ednodo \u00e9 \u00f3rg\u00e3o consultivo, sem nenhum poder deliberativo e \u00e9 coordenado por cardeais e bispos, dos quais a maioria nem conhece bem a regi\u00e3o. Por isso, para muitos irm\u00e3os e irm\u00e3s mission\u00e1rios e inseridos nas bases, esse <em>processo sinodal<\/em> de escuta que o S\u00ednodo j\u00e1 suscitou e agora foi oficializado no documento de trabalho garante que o S\u00ednodo v\u00e1 al\u00e9m de seus pr\u00f3prios limites e se torne como alguns chamaram, uma <em>amazoniza\u00e7\u00e3o<\/em> da Igreja ao se inserir na realidade do territ\u00f3rio e dos povos e uma alian\u00e7a da humanidade pela Vida.<\/p>\n<p>Nesse sentido, atrav\u00e9s do di\u00e1logo, esse processo sinodal j\u00e1 conseguiu formar na parte da Igreja que deseja a inser\u00e7\u00e3o um consenso b\u00e1sico que consiste no apoio \u00e0s comunidades ind\u00edgenas, ribeirinhas e diversos segmentos amaz\u00f4nicos. Denuncia claramente a a\u00e7\u00e3o nefasta das madeireiras, mineradoras e grandes empresas pesqueiras. E instaura uma miss\u00e3o eclesial baseada na escuta, no di\u00e1logo e no respeito \u00e0s culturas e espiritualidades dos diversos povos e comunidades. O documento de trabalho do S\u00ednodo chega a reconhecer a Amaz\u00f4nia como \u201crepleta de vida e sabedoria\u201d (n. 5).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cuidar da Casa Comum\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fPkGUdNX9Zo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3>2 \u2013 Por tr\u00e1s das palavras e nas entrelinhas<\/h3>\n<p>Todos sabemos que parte dos bispos e do clero mesmo na regi\u00e3o amaz\u00f4nica rejeita e se mant\u00e9m distante de todo esse processo como se o ignorasse. Mas, assim mesmo, em cidades e arquidioceses nas quais o arcebispo e parte do clero n\u00e3o participam de nada que diga respeito a esse S\u00ednodo e \u00e0 consulta, o processo est\u00e1 ocorrendo nas bases e tem sido fecundo.<\/p>\n<p>Evidentemente, a constru\u00e7\u00e3o do consenso e mais ainda da prepara\u00e7\u00e3o do Documento Final a ser entregue ao papa no final do S\u00ednodo exigem que \u201ccaminhemos juntos\u201d. Para isso, \u00e9 normal que se ceda um pouco aqui e ali para concentrar for\u00e7as nos pontos que parecem mais essenciais.<\/p>\n<p>Certamente uma vit\u00f3ria desse documento e do processo que ele expressa \u00e9 uma leitura mais sist\u00eamica da realidade e a den\u00fancia de um sistema que amea\u00e7a a vida na Amaz\u00f4nia. Tamb\u00e9m \u00e9 uma conquista ver em um documento emanado do Vaticano o reconhecimento claro de que at\u00e9 hoje a Amaz\u00f4nia enfrenta a invas\u00e3o de \u201cnovas pot\u00eancias colonizadoras\u201d (n. 7), a confiss\u00e3o de que \u201ca Igreja foi (ou tem sido) c\u00famplice dos colonizadores, sufocando a voz prof\u00e9tica do Evangelho\u201d (n. 38). Antes, papas como Jo\u00e3o Paulo II pediam perd\u00e3o pelos erros de \u201calguns filhos da Igreja\u201d, mas nunca reconheciam que a Igreja, em si mesma e como Igreja tinha pecado\u2026<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s desse documento h\u00e1 uma Missiologia diferente da que, embora reconhe\u00e7a a miss\u00e3o da Igreja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a e a paz, continua vendo o evangelho como \u201cdoutrina crist\u00e3\u201d, identifica Igreja e reino e sublinha a miss\u00e3o como prega\u00e7\u00e3o do evangelho aos descrentes. Nesse documento de trabalho, embora nem sempre a linguagem consiga ser totalmente clara, consegue-se expressar claramente que a miss\u00e3o s\u00f3 pode ser vivida <em>em di\u00e1logo com as sabedorias ancestrais dos povos amaz\u00f4nicos (n. 29) e deve ser um di\u00e1logo a servi\u00e7o da vida e do futuro do planeta<\/em> (n. 35). Portanto de modo algum \u00e9 di\u00e1logo como mera estrat\u00e9gia pedag\u00f3gica para assim fundamentar melhor a doutrina\u00e7\u00e3o ou a convers\u00e3o religiosa de fieis.<\/p>\n<p>\u00c9 outra concep\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o. Mesmo quando a linguagem parece visar a Igreja \u00e9 sempre supondo uma <em>Igreja em sa\u00edda<\/em> e cuja miss\u00e3o se v\u00ea como sendo a <em>Ecologia integral<\/em> e a defesa da vida no planeta.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m importante perceber que o documento valoriza as espiritualidades aut\u00f3ctones dos povos origin\u00e1rios e a religi\u00e3o popular das comunidades mesmo cat\u00f3licas da Amaz\u00f4nia, n\u00e3o apenas por quest\u00e3o de respeito aos direitos dos povos de terem sua cultura religiosa, n\u00e3o apenas por um di\u00e1logo t\u00e1tico e pedag\u00f3gico, mas porque espiritualmente reconhecemos que essas espiritualidades s\u00e3o <em>caminhos que procuram desvendar o mist\u00e9rio insond\u00e1vel de Deus<\/em> (n. 39), s\u00e3o express\u00f5es do Esp\u00edrito Divino presente e atuante nos povos (28) e assim como o territ\u00f3rio e a realidade social e pol\u00edtica, tamb\u00e9m as espiritualidades tradicionais dos povos s\u00e3o para n\u00f3s lugar teol\u00f3gico a partir do qual os povos podem se reerguer, recuperam sua sa\u00fade (n. 87) e podem ser elementos de transforma\u00e7\u00e3o da realidade e da miss\u00e3o (n. 93- 94). \u00c9 esse \u00faltimo elemento que queremos aqui aprofundar mais.<\/p>\n<h3>3 \u2013 <em>O que o Esp\u00edrito diz hoje \u00e0s Igrejas<\/em><\/h3>\n<p>Come\u00e7o por uma experi\u00eancia que vivi na \u00c1frica. Logo depois do F\u00f3rum Mundial de Teologia e Liberta\u00e7\u00e3o, em Nair\u00f3bi (janeiro de 2007), visitei uma comunidade africana tradicional. Ali conheci uma senhora, sacerdotisa de Tamobi, a deusa da \u00e1gua. Para provoc\u00e1-la, perguntei:<\/p>\n<p>\u2013 <em>Como tendo aqui uma sacerdotisa da deusa da \u00e1gua, essa regi\u00e3o \u00e9 t\u00e3o seca? A senhora n\u00e3o consegue que Tamobi fa\u00e7a chover?<\/em><\/p>\n<p>Ela me respondeu francamente:<\/p>\n<p>\u2013 <em>Eu sou sacerdotisa da \u00e1gua e n\u00e3o dona da \u00e1gua.<\/em><\/p>\n<p>Para mim, aquilo tinha sabor de li\u00e7\u00e3o a ser aprendida. Aquela senhora me ensinava a diferen\u00e7a entre espiritualidade e simples magia. Ela era sacerdotisa de Tamobi, n\u00e3o controladora ou propriet\u00e1ria do mist\u00e9rio divino (tend\u00eancia do clericalismo).<\/p>\n<p>Tinha sabido que ali perto, uma empresa tirava areia para levar \u00e0 cidade e destru\u00eda todo o leito do rio. Provoquei de novo:<\/p>\n<p>\u2013 <em>Como a sua espiritualidade poderia defender o rio que est\u00e1 amea\u00e7ado de secar?<\/em><\/p>\n<p>Ela me respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 <em>De fato, a empresa est\u00e1 com dificuldade de continuar o seu trabalho porque, atrav\u00e9s de mim, Tamobi avisou aos homens daqui que trabalhavam no transporte de areia do rio:<\/em><\/p>\n<p>\u2013 <em>Voc\u00eas est\u00e3o destruindo a cama em que me deito com a natureza. Se voc\u00eas destroem o meu leito conjugal, eu vou tirar a pot\u00eancia sexual de qualquer um de voc\u00eas que continuar esse trabalho de transporte de areia.<\/em><\/p>\n<p>Todos os empregados se<em> demitiram. A empresa diminuiu muito e teve de buscar oper\u00e1rios na cidade.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 claro que a realidade amaz\u00f4nica \u00e9 muito diferente da \u00c1frica. No entanto, uma grande energia de resist\u00eancia para as comunidades poderia ser fruto de um di\u00e1logo de inser\u00e7\u00e3o nas espiritualidades ind\u00edgenas. Al\u00e9m da colabora\u00e7\u00e3o com a justi\u00e7a e a Pol\u00edtica que \u00edndios e \u00edndias de diversas etnias t\u00eam vivido nos diversos campos do Direito, da Justi\u00e7a na Terra e na atividade pol\u00edtica, a valoriza\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias espiritualidades ind\u00edgenas \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o fundamental de filmes document\u00e1rios sobre a realidade dos \u00edndios Guarani Kaiow\u00e1 do Mato Grosso do Sul e \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o do extraordin\u00e1rio livro do Xam\u00e3 Yanomami Davi Copenawa (A queda do c\u00e9u) e do trabalho que, por todo o Brasil, \u00edndios como Kak\u00e1 Veras realiza para resgatar o sentido pr\u00f3prio das espiritualidades ind\u00edgenas na constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade[3].<\/p>\n<p>O documento de trabalho do S\u00ednodo prop\u00f5e que se <em>organize o ensino da Teologia ind\u00edgena pan-amaz\u00f4nica em todas as institui\u00e7\u00f5es educativas<\/em> (n. 98. 3). \u00c9 importante discernir com mais clareza o que significa \u201cteologia ind\u00edgena\u201d e espiritualidade ind\u00edgena. \u00c9 estranho que o documento fale disso no plural depois de reconhecer que s\u00e3o centenas de povos ind\u00edgenas diferentes e al\u00e9m dos \u00edndios, h\u00e1 tantas outras comunidades e grupos aut\u00f4nomos. Al\u00e9m da necessidade de sempre falar de teologias e espiritualidades ind\u00edgenas no plural, tamb\u00e9m \u00e9 bom distinguir as que s\u00e3o teologias e espiritualidades origin\u00e1rias (por exemplo, no livro \u201cA queda do c\u00e9u\u201d o Xam\u00e3 yanomami Davi Kopenawa descreve a sua f\u00e9 nos Xapiris e como a dan\u00e7a dos Xapiris na floresta \u00e9 importante para o equil\u00edbrio do ecossistema e a vida dos povos da floresta[4]. Os livros e palestras que o tapuia Kak\u00e1 Veras realiza por todo o Brasil expressam uma teologia e espiritualidade origin\u00e1ria do seu povo. \u00c9 diferente de uma teologia e espiritualidade tamb\u00e9m ind\u00edgena e muito v\u00e1lida mas j\u00e1 de comunidades e grupos que leem a f\u00e9 crist\u00e3 a partir de suas culturas pr\u00f3prias (seria uma teologia \u00edndia crist\u00e3). Isso est\u00e1 bem desenvolvido e j\u00e1 tivemos no continente latino-americano ao menos nove encontros continentais de Teologia \u00edndia (crist\u00e3)[5]. Mission\u00e1rios como Eleazar Lopez Hernandez no M\u00e9xico, Diego Irrazaval nos Andes e Paulo Suess no Brasil t\u00eam sempre buscado unir esses dois ramos diversos da Teologia \u00edndia e ajudar no di\u00e1logo com as outras teologias crist\u00e3s.<\/p>\n<p>As espiritualidades ind\u00edgenas e afrodescendentes podem ser uma for\u00e7a na luta. Em suas express\u00f5es originais, elas t\u00eam sido elementos de resist\u00eancia e t\u00eam ajudado as comunidades a retomarem a sua identidade cultural e sua dignidade pr\u00f3pria. Quando falamos de espiritualidades ind\u00edgenas ou afro crist\u00e3s, pensamos nas contribui\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias desses grupos para que a Igreja viva realmente a catolicidade e uma miss\u00e3o que seja geradora de vida.<\/p>\n<p>Atualmente, existe v\u00e1rias express\u00f5es de Xamanismo urbano, algumas mais aut\u00eanticas e ligadas a uma eco-teologia ecum\u00eanica e feminista. Outras mais de classe m\u00e9dia alta e de butique. Isso tem sido denunciado at\u00e9 na Bol\u00edvia, entre os Qu\u00e9tchua e os Aymara. No entanto, cada vez mais os povos ind\u00edgenas t\u00eam descoberto que ao recuperar as suas culturas originais, reencontram a for\u00e7a de suas tradi\u00e7\u00f5es espirituais.<\/p>\n<p>Ao falar em resist\u00eancia e reconstru\u00e7\u00e3o da dignidade coletiva de povos, podemos voltar ao livro \u201cA queda do c\u00e9u\u201d, do Xam\u00e3 Yanomami Davi Kopenawa, escrito junto com o antrop\u00f3logo ingl\u00eas Bruce Albert[6]. Nesse livro, vemos justamente tr\u00eas momentos na vida do narrador ind\u00edgena: a vis\u00e3o cultural de crian\u00e7a na cosmologia antiga. Depois, na juventude, certo afastamento dessa tradi\u00e7\u00e3o e entrada na cultura ocidental. Uma terceira etapa mais madura foi quando depois de ter conhecido bem a sociedade dominante e ter mesmo tido ocasi\u00e3o de ir a Europa e Estados Unidos, ele decidiu voltar a viver na aldeia e retomar a tradi\u00e7\u00e3o espiritual antiga agora a partir de um novo olhar e fazendo uma s\u00edntese nova.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m contou que um pai de santo do Candombl\u00e9 quis participar dos encontros e reuni\u00f5es da REPAM (Rede eclesial Pan-amaz\u00f4nica). E um bispo que coordenava a reuni\u00e3o onde se discutiu o desejo do pai de santo decidiu: <em>Quem quiser entrar na nossa, venha\u2026<\/em>. Essa abertura j\u00e1 \u00e9 boa e espiritual. No entanto \u00e9 ainda amb\u00edgua porque pode ser compreendida como <em>inclusiva<\/em> no sentido de que assume o outro se ele entrar na nossa\u2026 , isso \u00e9, no nosso modo de ser, de pensar e agir. Essa postura precisa ainda ser alargada espiritualmente. A espiritualidade da REPAM e desse novo modelo de miss\u00e3o que o S\u00ednodo pode suscitar deve ser buscar o que Deus nos revela atrav\u00e9s do pai de santo. N\u00e3o para deixarmos de ser crist\u00e3os, mas para sermos melhores crist\u00e3os como Jesus quis, ele que, como diz o evangelho desses domingos, mandou e for\u00e7ou os disc\u00edpulos a \u201cpassarem para o outro lado do lago\u201d, isso \u00e9, o lado dos pag\u00e3os, dos estrangeiros, dos que tinham outra religi\u00e3o e outra cultura. Essa \u00e9 a proposta do papa Francisco quando fala em uma \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d. A REPAM deve pertencer a essa Igreja em sa\u00edda e n\u00e3o compreender sua miss\u00e3o em uma perspectiva aberta e solid\u00e1ria, mas sempre em uma vis\u00e3o de Igreja neocristandade, triunfante, autossuficiente e autocentrada. Somente a partir do outro \u00e9 que podemos ouvir e obedecer ao que \u201co Esp\u00edrito diz, hoje, \u00e0s Igrejas\u201d (Ap 2, 5).<\/p>\n<p><strong>(O texto continua)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte: http:\/\/repam.org.br<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 40px;\">[1] \u2013 PALOSCHI, ROQUE, O S\u00ednodo da Amaz\u00f4nia: grito \u00e0 consci\u00eancia, mem\u00f3ria da miss\u00e3o, op\u00e7\u00e3o pela vida, in Vida Pastoral, maio-junho 2019, ano 60, n. 327, p. 17.<br \/>\n[2] \u2013 Her\u00e9tico y ap\u00f3stata. El cardenal Brandmuller excomulga al S\u00ednodo para la Amazonia, Revista IHU, 27\/ 06\/ 2019.<br \/>\n[3] \u2013 Ver KOPENAWA, Davi e ALBERT, BRUCE, A queda do c\u00e9u, , Palavras de um Xam\u00e3 Yanomami, S\u00e3o Paulo, Ed. Companhia das Letras, 2015.<br \/>\nVER\u00c1, Kak\u00e1, O Trov\u00e3o e o Vento, Um caminho de evolu\u00e7\u00e3o pelo Xamanismo Tupi-Guarani, S\u00e3o Paulo, Ed. Polar, 2016.<br \/>\n[4] \u2013 Cf. KOPENAWA, Davi e ALBERT, Bruce, A queda do c\u00e9u, Palavras de um Xam\u00e3 Yanomami, S\u00e3o Paulo, Ed. Companhia das Letras, 2015.<br \/>\n[5] \u2013 Ver HERNANDEZ, Eleazar Lopez, Teologia india: antologia, Michigan, Ed. Verbo Divino, 2000. Ver tamb\u00e9m: IRRAZAVAL, Diego, Un Cristianismo Andino, Quito, Ed. Abya Yala, 1999. Tamb\u00e9m do mesmo autor: Reimplanta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da f\u00e9 ind\u00edgena, in TOMITA, Luiza, VIGIL, Jos\u00e9 Maria e BARROS, Marcelo, (organizadores) Pelos muitos caminhos de Deus, Goi\u00e1s, Ed. Rede 2003, p. 87- 97.<br \/>\nVer ainda no Brasil: RUFINO, Marcos Pereira. O co\u0301digo da cultura: o CIMI no debate da inculturac\u0327a\u0303o. In: MONTERO, Paula (Org.). Deus na aldeia: missiona\u0301rios, i\u0301ndios e mediac\u0327a\u0303o cultural. Sa\u0303o Paulo: Globo, 2006. p. 235-75.<br \/>\n[6] \u2013 KOPENAWA, DAVI e ALBERT, A queda do c\u00e9u, Palavras de um Xam\u00e3 Yanomami, S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2015.<\/h6>\n<hr \/>\n<p><strong>Marcelo Barros<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 monge beneditino e escritor. Nascido em 1944, \u00e9 pernambucano do grande Recife e assessora o MST, outros movimentos populares e comunidades eclesiais de base. Por forma\u00e7\u00e3o \u00e9 biblista, e desde jovem se consagra \u00e0 espiritualidade ecum\u00eanica e ao di\u00e1logo entre as religi\u00f5es. \u00c9 membro da Associa\u00e7\u00e3o Ecum\u00eanica de Te\u00f3logos\/as do Terceiro Mundo (ASETT). Marcelo escreveu 37 livros.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Marcelo Barros<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":181936,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[228,191],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A revela\u00e7\u00e3o divina que chega com atraso \u2013 Parte 1 - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-revelacao-divina-que-chega-com-atraso-parte-1\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A revela\u00e7\u00e3o divina que chega com atraso \u2013 Parte 1 - 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