{"id":179015,"date":"2019-04-22T00:58:46","date_gmt":"2019-04-22T03:58:46","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=179015"},"modified":"2020-05-26T08:30:51","modified_gmt":"2020-05-26T11:30:51","slug":"a-coragem-da-nao-conformidade-por-causa-do-evangelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-coragem-da-nao-conformidade-por-causa-do-evangelho\/","title":{"rendered":"A coragem da n\u00e3o conformidade, por causa do Evangelho"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-179121 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/sultao_220419_1.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/sultao_220419_1.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/sultao_220419_1-450x161.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/sultao_220419_1-768x274.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/sultao_220419_1-150x54.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro Roberto da Costa, ofm<\/strong><\/p>\n<p>Em maio de 1218, mais de 30 mil soldados crist\u00e3os desembarcavam diante da \u201cchave do Egito\u201d, a cidade isl\u00e2mica de Damieta. Um dos objetivos era econ\u00f4mico: Damieta era um importante entreposto comercial, bem mais importante do que a arruinada Jerusal\u00e9m. Mas os cruzados queriam tamb\u00e9m atrair a aten\u00e7\u00e3o do Sult\u00e3o e enfraquecer as tropas isl\u00e2micas que se ocupavam com a S\u00edria, para poder retomar Jerusal\u00e9m. Afinal este era, ao menos oficialmente, o objetivo das Cruzadas. Os mu\u00e7ulmanos eram comandados pelo Sult\u00e3o Al-Malik Al-Kamil, sobrinho do legend\u00e1rio Saladino.<\/p>\n<p>Nesta exposi\u00e7\u00e3o vamos nos ocupar do contexto hist\u00f3rico, que marcou o encontro de Francisco com o sult\u00e3o. Na celebra\u00e7\u00e3o dos 800 anos deste c\u00e9lebre acontecimento, certamente seremos brindados com excelentes reflex\u00f5es de especialistas na v\u00e1rias \u00e1reas do saber, da espiritualidade, do franciscanismo, da eclesiologia, da miss\u00e3o. O conhecimento do contexto hist\u00f3rico, das ideologias e interesses em jogo, pode nos ajudar a entender o quanto o gesto de Francisco foi ousado, revolucion\u00e1rio at\u00e9, diante da mentalidade dominante de seu tempo.<\/p>\n<h3><strong>A conviv\u00eancia poss\u00edvel entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos<\/strong><\/h3>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os que viviam nos seus territ\u00f3rios era muito mais complexa do que podemos imaginar. Nos combates, tropas crist\u00e3s e mu\u00e7ulmanas n\u00e3o se diferenciavam pela ferocidade e viol\u00eancia, principalmente nas celebra\u00e7\u00f5es das vit\u00f3rias, em se tratando de destrui\u00e7\u00e3o, saques, estupros, assassinatos de prisioneiros, mas tamb\u00e9m de inocentes, crian\u00e7as, mulheres, idosos. Em tempos de tr\u00e9gua, no entanto, havia uma conviv\u00eancia poss\u00edvel. Aos crist\u00e3os era permitida a resid\u00eancia em terras mu\u00e7ulmanas, bem como aos judeus, desde que se respeitassem algumas regras: n\u00e3o fazer proselitismo, n\u00e3o expor s\u00edmbolos crist\u00e3os externos nos edif\u00edcios, pagar regularmente uma taxa. N\u00e3o era muito diferente do modo como os crist\u00e3os tratavam os mu\u00e7ulmanos que viviam em seus territ\u00f3rios. A visita aos lugares santos, mesmo em tempos de domina\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica, era permitida aos crist\u00e3os. Ao longo das oito cruzadas, interesses comerciais e econ\u00f4micos foram se sobrepondo ao \u00f3dio. Crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, nobres e plebeus encontraram meios poss\u00edveis de conviv\u00eancia pac\u00edfica. A imagem de crist\u00e3os sendo duramente perseguidos e torturados por terr\u00edveis infi\u00e9is, de um sult\u00e3o sanguin\u00e1rio, a \u201cbesta fera\u201d, o inimigo a ser destro\u00e7ado, respons\u00e1vel por todas as mazelas da humanidade, n\u00e3o corresponde totalmente \u00e0 realidade. Ao contr\u00e1rio, durante as Cruzadas encontramos hist\u00f3rias de m\u00fatuo respeito, colabora\u00e7\u00e3o e at\u00e9 entreajuda entre as partes advers\u00e1rias. No desenrolar-se do conflito, Tratados de Paz permitiam o com\u00e9rcio entre as partes em lit\u00edgio. Em 1215, quando no IV Conc\u00edlio do Latr\u00e3o se convocava mais uma Cruzada, tr\u00eas mil mercadores italianos se encontravam no Egito, negociando com os mu\u00e7ulmanos. O Sult\u00e3o Saladino (1174-1193) passou \u00e0 hist\u00f3ria como um dos mais respeitosos l\u00edderes isl\u00e2micos deste per\u00edodo <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Quando soube que o Rei Ricardo Cora\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o, seu advers\u00e1rio, havia sido ferido, ofereceu-lhe seu m\u00e9dico particular. Como o rei tamb\u00e9m perdera seu cavalo, Saladino enviou-lhe de presente dois cavalos \u00e1rabes, al\u00e9m de comida e frutas frescas. O pai de Al-kamil (1218-1238), o Sult\u00e3o Al-Adil (1200-1218), tamb\u00e9m manteve boas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Ricardo, que chegou a oferecer sua irm\u00e3 como esposa ao Sult\u00e3o. Quando tinha onze anos, o futuro Sult\u00e3o do Egito, Al-Kamil, foi cingido como cavaleiro, em Acre, por Ricardo, com um cinto e uma espada, como sinal de boa vontade e respeito nas negocia\u00e7\u00f5es de paz. Segundo os estudiosos, Al-Kamil era um homem culto, que admirava a cultura ocidental, tolerante para com os crist\u00e3os. Bernardo, o Tesoureiro, na sua Cr\u00f4nica das Cruzadas, relatando o encontro de Francisco com o Sult\u00e3o, afirma que Al-Kamil era um homem \u201cinclinado \u00e0 do\u00e7ura, e o escutou com bondade\u201d <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-179020 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-1200.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"520\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-1200.jpg 1200w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-1200-450x195.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-1200-768x333.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-1200-1024x444.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-1200-150x65.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<h3><strong>As fake news medievais sobre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos<\/strong><\/h3>\n<p>Para que a cruzada tivesse sucesso, para que as arrecada\u00e7\u00f5es fossem suficientes para bancar todos os custos, para que pessoas bem situadas na vida deixassem seu lar, sua fam\u00edlia e se arriscassem na guerra, era preciso haver uma forte motiva\u00e7\u00e3o. Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o com um recurso muito utilizado na atualidade para espalhar not\u00edcias falsas e criar opini\u00e3o, podemos dizer que, parte da propaganda para promover as cruzadas, eram verdadeiras fake news, em fun\u00e7\u00e3o de interesses e ideologias. A ignor\u00e2ncia e o medo do desconhecido sempre foram instrumentos de domina\u00e7\u00e3o e controle.<\/p>\n<p>Essa mentalidade de terror, de medo, e, consequentemente, de necessidade urgente de elimina\u00e7\u00e3o do mal, representado pelo isl\u00e3, foi sendo incrementada pelos te\u00f3logos medievais em defesa da \u201cGuerra Santa\u201d. Para S\u00e3o Bernardo de Claraval (1090-1153), grande propagandista das Cruzadas, que escreveu a Regra dos Templ\u00e1rios, a Cruzada era uma guerra contra a injusti\u00e7a feita a Deus e \u00e0 sua Igreja, pelos infi\u00e9is. O cruzado que matava em batalha n\u00e3o era culpado por seu pecado, pois estava combatendo a injusti\u00e7a sob o comando de Deus, atrav\u00e9s de seu Vig\u00e1rio na terra, o Papa.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m afirmava que a morte em batalha era um verdadeiro mart\u00edrio, melhor do que a vit\u00f3ria. Para Bernardo, quem matava um mu\u00e7ulmano na guerra, \u201cn\u00e3o matava um homem, mas o dem\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, \u201cn\u00e3o cometia um homic\u00eddio, mas um malec\u00eddio (non homicida, sed\u2026 malicida), e pode ser considerado um carrasco autorizado por Cristo contra o malvado: mata em plena consci\u00eancia, e morre tranquilo; morrendo, se salva; matando, o faz por Cristo\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Papa Inoc\u00eancio III, numa de suas cartas convocando as Cruzadas, a Quia Maior, comparava o Isl\u00e3 \u00e0 besta do Apocalipse: \u201cEsperamos ver chegar em breve o fim desta besta, cujo n\u00famero, segundo o Livro do Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o, corresponde a 666&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o desta imagem distorcida tinha um objetivo: as Cruzadas, surgidas para \u201clibertar Jerusal\u00e9m\u201d, aos poucos foram se revelando uma verdadeira empresa comercial, lucrativa para alguns poucos poderosos, e uma forma de expans\u00e3o de poder territorial e de status. O papa Inoc\u00eancio III, que convocara a IV e a V Cruzada, tinha como ideal para a Igreja a \u201cPlenitudo Potestatis\u201d, o m\u00e1ximo do poder. Ora, o isl\u00e3, bem como os v\u00e1rios movimentos her\u00e9ticos, contra os quais tamb\u00e9m foram organizadas Cruzadas, eram uma amea\u00e7a a este poder, principalmente na Terra Santa, onde o Senhor se encarnara e realizara a salva\u00e7\u00e3o. Imbu\u00eddos da urg\u00eancia desta \u201cGuerra Santa\u201d, a maioria dos soldados empenhava-se devotamente, e, em nome de Deus, arriscava sua vida pelo \u201cNegotium Crucis\u201d.<\/p>\n<p>Para a realiza\u00e7\u00e3o da V Cruzada, o papa Inoc\u00eancio III criou uma das mais bem preparadas campanhas de propaganda de que se tem not\u00edcia na hist\u00f3ria da Idade M\u00e9dia. Os melhores pregadores eram enviados a todos os cantos da Europa. Nas igrejas, nas feiras, nas vilas, nos torneios, nos castelos, os pregadores, bispos, monges, mendicantes (depois de 1230), eram engajados no an\u00fancio da Cruzada, em serm\u00f5es, prociss\u00f5es, missas. Menestr\u00e9is compunham m\u00fasicas e poemas, incitando os homens a demonstrar sua f\u00e9, coragem e virilidade para combater os infi\u00e9is <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. V\u00e1rios privil\u00e9gios eram oferecidos a quem se dispunha a \u201cabra\u00e7ar a cruz\u201d: a prote\u00e7\u00e3o de seus bens e propriedades, o perd\u00e3o de d\u00edvidas, principalmente se devidas a judeus, a possibilidade de se desligar de votos, juramentos e promessas j\u00e1 feitos, o perd\u00e3o dos pecados, a indulg\u00eancia plen\u00e1ria. Estes privil\u00e9gios eram estendidos a quem n\u00e3o podia ir \u00e0s Cruzadas, mas ajudava os cruzados. Muitos eram motivados por verdadeira e sincera devo\u00e7\u00e3o, outros se engajavam por aventura, por falta de perspectiva de vida, por causa da pobreza, na ilus\u00e3o de ganhos e riqueza.<\/p>\n<h3><strong>Francisco e o sult\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-179030\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-450.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-450-337x450.jpg 337w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo-450-150x200.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/>Francisco de Assis havia tentado ir ao Oriente duas vezes, sem sucesso, em 1212 e entre 1213 e 1215. No dia 24 de junho de 1219, junto com frei Iluminado, finalmente embarcou para o Egito. As tropas da Quinta Cruzada estavam j\u00e1 h\u00e1 um ano nas areias do Delta do Nilo, assediando Damieta. Francisco chegou provavelmente em agosto de 1219. As tropas estavam se preparando para um grande ataque. Alguns cronistas relatam os fatos presenciados e vividos por Francisco a partir deste momento. Tom\u00e1s de Celano descreve os preparativos e o envolvimento de Francisco <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Sabendo da batalha, Francisco disse a frei Iluminado que \u201co Senhor lhe havia revelado\u201d que os crist\u00e3os n\u00e3o iriam se sair bem. Disse tamb\u00e9m que temia dizer isso abertamente aos cruzados e ser considerado louco. Mas tamb\u00e9m sentia que n\u00e3o podia se calar, em nome da pr\u00f3pria consci\u00eancia. O que fazer? Frei Iluminado lhe aconselhou dizer o que pensava. Francisco tentou alertar os cruzados, mas n\u00e3o foi ouvido. O ataque aconteceu, e o resultado foi tr\u00e1gico: os sarracenos levaram a melhor, com muitos crist\u00e3os mortos ou aprisionados. Seguiu-se um tempo de negocia\u00e7\u00f5es. O sult\u00e3o enviou uma proposta de paz: os mu\u00e7ulmanos entregariam a cidade de Jerusal\u00e9m, que era o objetivo da Cruzada, com uma soma em dinheiro para sua reconstru\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de outros castelos nas vizinhan\u00e7as. Tamb\u00e9m entregariam a rel\u00edquia da verdadeira cruz, desaparecida desde a tomada de Jerusal\u00e9m por Saladino <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Em troca, os crist\u00e3os abandonariam o Egito. Embora alguns achassem a proposta tentadora, esta foi rejeitada, principalmente pela oposi\u00e7\u00e3o do Cardeal Pel\u00e1gio, legado papal e primeiro respons\u00e1vel pela Cruzada, pelos italianos, que viam em Damieta muito mais possibilidades de lucro do que em Jerusal\u00e9m, e a maior parte dos cl\u00e9rigos, os templ\u00e1rios e os hospitaleiros. Foi provavelmente neste per\u00edodo de negocia\u00e7\u00f5es que Francisco entrou no campo inimigo.<\/p>\n<p>V\u00e1rios autores e cronistas, da Ordem e de fora dela, se ocuparam do encontro entre Francisco e Al-Kamil. Cada um acrescenta um detalhe, traz uma nova informa\u00e7\u00e3o, que nos permite ter um quadro, se n\u00e3o exato, ao menos aproximado do que de fato aconteceu. Um dos textos mais confi\u00e1veis, segundo os especialistas, \u00e9 um texto da Cr\u00f4nica de Ernoul, um cronista que viveu a maior parte de sua vida no Oriente <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Segundo este relato, dois cl\u00e9rigos chegados ao campo de batalha pediram permiss\u00e3o ao Cardeal Pel\u00e1gio para atravessar a linha de combate e irem pregar ao Sult\u00e3o. Diante da negativa do Cardeal, estes insistiram tanto que o prelado acabou cedendo, dizendo que eles podiam ir, mas sem a sua licen\u00e7a. No acampamento mu\u00e7ulmano, levados diante do Sult\u00e3o, este perguntou se queriam se tornar mu\u00e7ulmanos ou se eram mensageiros. Responderam que jamais seriam mu\u00e7ulmanos, mas que iam como mensageiros de Deus, para levar a Deus a alma do Sult\u00e3o. \u201cE \u00e9 por isso que viemos a v\u00f3s. Se v\u00f3s quiserdes ouvir-nos e escutar-nos, n\u00f3s vos mostraremos com correta argumenta\u00e7\u00e3o \u2013 diante dos mais s\u00e1bios da vossa terra, se v\u00f3s os mandardes (chamar) &#8211; que vossa lei \u00e9 falsa\u201d. Acrescentaram que, se diante dos s\u00e1bios n\u00e3o pudessem mostrar que a lei do Sult\u00e3o era falsa, este poderia mandar-lhes cortar a cabe\u00e7a. Tendo chamado os s\u00e1bios, eles se recusaram a discutir com os dois, ordenando ao Sult\u00e3o que lhes cortasse a cabe\u00e7a <a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. O Sult\u00e3o se dirigiu aos dois, dizendo que, embora os s\u00e1bios ordenassem que ele deveria lhes cortar a cabe\u00e7a, ele n\u00e3o faria isso, \u201cporque vos daria m\u00e1 recompensa pelo fato de que v\u00f3s conscientemente vos aventurastes a morrer para entregar minha alma a Deus\u201d. Depois os convidou a morar com eles. Os dois disseram que desejavam voltar ao acampamento. Antes de se despedir, o Sult\u00e3o lhes ofereceu presentes, ouro, prata e grande quantidade de tecidos de seda. Os dois recusaram, dizendo que o que para eles era mais valioso era a alma do Sult\u00e3o com o Senhor, que n\u00e3o podiam ter. Pediram apenas algo para comer, e alimentados retornaram s\u00e3o e salvos ao acampamento.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Francisco em Damieta tamb\u00e9m foi testemunhada pelo bispo de Acre, Jacques de Vitry, personagem de destaque no cen\u00e1rio pol\u00edtico e eclesial de ent\u00e3o. Cr\u00edtico dos abusos da Igreja, empenhado na reforma, conhecia bem os movimentos religiosos de seu tempo. Era um grande entusiasta da Cruzada, da qual era tamb\u00e9m pregador. Participou de toda a V Cruzada, desde a chegada a Damieta at\u00e9 a partida. Como testemunha qualificada, escreveu, em 1220, sobre a presen\u00e7a de Francisco no acampamento, e sua ida ao Sult\u00e3o: \u201cquando veio ao nosso ex\u00e9rcito inflamado pelo zelo da f\u00e9, n\u00e3o teve medo de ir ao ex\u00e9rcito dos nossos inimigos; e como durante muitos dias tivesse pregado a Palavra do Senhor aos sarracenos e tivesse tido pouco proveito, ent\u00e3o o Sult\u00e3o, rei do Egito, pediu-lhe que em segredo que suplicasse ao Senhor por ele para que, por inspira\u00e7\u00e3o divina, aderisse \u00e0 Religi\u00e3o que mais agrada a Deus\u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Para Jacques de Vitry Francisco teve \u201cpouco proveito\u201d em sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Certamente, o bispo de Acre, movendo-se no esp\u00edrito de \u201cguerra santa\u201d, de submiss\u00e3o do inimigo a qualquer custo, n\u00e3o foi capaz de perceber, naquele momento, a grandeza e a originalidade do gesto de Francisco, e o alcance que tal gesto teria para a hist\u00f3ria. De qualquer modo, sua opini\u00e3o muda, quando cita novamente Francisco e seus frades, na sua \u201cHistoria Occidentalis\u201d, escrita entre 1223 e 1225 <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. O prelado afirma que Francisco, \u201chomem simples e iletrado\u201d, levado a \u201ctal excesso de ebriedade e fervor de esp\u00edrito&#8230; dirigiu-se intr\u00e9pido e munido com o escudo da f\u00e9\u201d ao encontro do Sult\u00e3o, que ele chama de \u201ccruel animal\u201d. Jacques afirma ainda que o Sult\u00e3o, \u201cpor alguns dias o ouviu muito atentamente pregar a si e aos seus a f\u00e9 em Cristo\u201d. Mas, temendo que alguns de seu ex\u00e9rcito passassem ao ex\u00e9rcito dos crist\u00e3os, \u201cconvertidos ao Senhor pela efic\u00e1cia da palavra dele\u201d, o mandou \u201ccom seguran\u00e7a e rever\u00eancia\u201d de volta ao acampamento cruzado, com o seguinte pedido: \u201cReza por mim, para que Deus se digne revelar-me a lei e a f\u00e9 que mais lhe agrada\u201d <a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Vitry conclui seu coment\u00e1rio sobre o evento afirmando: \u201cOs sarracenos ouvem de bom grado os mencionados frades menores todo o tempo que pregam sobre a f\u00e9 em Cristo e a doutrina evang\u00e9lica\u201d.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio \u00e9 narrado muito sucintamente por Celano na primeira biografia de Francisco <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Na Segunda, como j\u00e1 acenamos, ele nos fornece informa\u00e7\u00f5es preciosas, mas sem fazer nenhuma refer\u00eancia ao encontro com o Sult\u00e3o. Boaventura e outros autores, no geral se mant\u00eam na linha da hagiografia. Basta citar aqui o epis\u00f3dio em que relatam o ord\u00e1lio (a prova de fogo), ou a crueldade dos sarracenos quando recebem Francisco <a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Na verdade, na medida em que os fatos v\u00e3o se distanciando nos anos, os detalhes v\u00e3o se tornando cada vez mais ricos e sugestivos. Sem nos aprofundarmos na an\u00e1lise, podemos sucintamente dizer que Francisco foi recebido pelo Sult\u00e3o, ficou alguns dias com ele, e foi mandado de volta s\u00e3o e salvo. Sobre o que conversaram? N\u00e3o sabemos, mas certamente o Evangelho e a experi\u00eancia religiosa de ambos esteve no centro das conversa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tendo retornado do encontro, Francisco permaneceu at\u00e9 novembro de 1219 no acampamento, quando finalmente Damieta foi tomada. Francisco pode testemunhar, mais uma vez, toda a crueldade e viol\u00eancia da guerra. Segundo o cronista Er\u00e1clio, Francisco \u201cvendo que o mal e o pecado come\u00e7avam a crescer entre os crist\u00e3os, partiu muito amargurado\u201d <a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. Depois de passar um tempo na S\u00edria, tendo recebido not\u00edcias de que a Ordem estava em \u201cgrande confus\u00e3o\u201d, retornou \u00e0 It\u00e1lia.<\/p>\n<p>A viagem de Francisco ao Oriente marcou profundamente sua vida. Contra o senso comum, que considerava os mu\u00e7ulmanos infi\u00e9is demon\u00edacos, Francisco pouco ou nada podia fazer. Mas ele deixa transparecer, nos seus escritos e na organiza\u00e7\u00e3o da Ordem, alguns aspectos desta marcante experi\u00eancia <a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. Em janeiro de 1220, cinco frades eram martirizados no Marrocos, pelos sarracenos. Na Regra N\u00e3o Bulada, cuja elabora\u00e7\u00e3o chega a termo por volta de 1221, logo ap\u00f3s o retorno de Francisco do Oriente, no Cap\u00edtulo XVI, sobre \u201cOs que v\u00e3o para o meio dos Sarracenos e outros infi\u00e9is\u201d, Francisco determina que \u201cn\u00e3o litiguem nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus\u201d <a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. N\u00e3o litigar, nem porfiar: evitar discuss\u00f5es e brigas. Tais determina\u00e7\u00f5es devem ser lidas \u00e0 luz da experi\u00eancia de Francisco, que respeitosamente foi ao sult\u00e3o, e respeitosamente foi recebido por ele. Mas tamb\u00e9m se contrap\u00f5e ao relato do mart\u00edrio dos cinco frades, que foram mortos depois de insistirem em desrespeitar o islamismo e insultar o pr\u00f3prio Maom\u00e9, em terras mu\u00e7ulmanas e na presen\u00e7a do pr\u00f3prio Sult\u00e3o do Marrocos. Embora a atitude dos cinco frades estivesse em sintonia com o pensar da Igreja de ent\u00e3o, e com o modo de se compreender a rela\u00e7\u00e3o com o isl\u00e3, n\u00e3o era este o tipo de miss\u00e3o em que Francisco acreditava e propunha para seus frades.<\/p>\n<p>Em dois escritos, redigidos quase imediatamente ap\u00f3s sua volta do Egito (1220), Francisco faz um pedido que deixa clara a influ\u00eancia do costume isl\u00e2mico de chamar os fi\u00e9is \u00e0s cinco ora\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, pelo muezim: na Carta aos Governantes dos Povos: \u201cE presteis tanta honra ao Senhor no meio do povo a v\u00f3s confiado que, todas as tardes, seja anunciado por um pregoeiro ou por outro sinal, para que o povo renda louvores e gra\u00e7as ao Senhor Deus Onipotente\u201d <a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>; na Carta aos Cust\u00f3dios (Primeira Recens\u00e3o): \u201cE de tal modo anuncieis e pregueis a todas as pessoas sobre o louvor dele que, a toda hora e quando soarem os sinos, sempre sejam dados, por todo o povo, louvores e gra\u00e7as ao Deus onipotente por toda a terra\u201d <a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>.<\/p>\n<h3><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Diante da mentalidade dominante no mundo cruzado, e da situa\u00e7\u00e3o em que se encontravam os soldados em Damieta, o gesto de Francisco aparenta ser um gesto de loucura. Sem d\u00favida, ele e seu companheiro correram risco de vida. Os relatos mais veross\u00edmeis deixam claro que estiveram bem perto de ser decapitados. \u00c9 evidente que Francisco n\u00e3o foi a Damieta com o intuito de opor-se \u00e0 Cruzada. Seu objetivo era o mesmo dos cruzados. Como os cruzados, e como todo crist\u00e3o medieval, Francisco queria liberar os lugares santos da presen\u00e7a isl\u00e2mica. Mas sua estrat\u00e9gia era diferente. Como bem destacam os bi\u00f3grafos, o mart\u00edrio estava no horizonte de possibilidades de Francisco, mas n\u00e3o era a \u00fanica alternativa. Para Francisco, mais importante do que o mart\u00edrio, era o an\u00fancio do Evangelho e a promo\u00e7\u00e3o da paz. Francisco n\u00e3o acreditava na guerra. Da juventude certamente lhe ficaram impressas na alma as terr\u00edveis imagens da batalha em Per\u00fagia, onde acabara preso, e onde muitos de seus colegas foram mortos. Francisco era, sobretudo, o homem do Evangelho, da paz, do di\u00e1logo, da cortesia. Embora vivesse neste contexto de demoniza\u00e7\u00e3o do islamismo, e fosse fiel \u00e0 Igreja, Francisco \u00e9 capaz de pensar e agir diferente. E o faz mesmo correndo o risco de ser considerado louco e at\u00e9 herege. Mas o an\u00fancio do Evangelho e a possibilidade da paz valem o risco. Por isso, ele rompe as barreiras e vai ao encontro do Sult\u00e3o. O Sult\u00e3o, por sua vez, por tradi\u00e7\u00e3o familiar, era aberto ao di\u00e1logo, como j\u00e1 vimos. Francisco e o companheiro s\u00f3 n\u00e3o foram decapitados por que ele, em sua benevol\u00eancia, explicitamente se negou a seguir a lei isl\u00e2mica. Francisco se disp\u00f5e a conhec\u00ea-lo pessoalmente, e ao mesmo tempo d\u00e1-se a conhecer por ele. Ao decidir encontr\u00e1-lo em seu territ\u00f3rio, Francisco arrisca a vida, mas tamb\u00e9m utiliza-se de um artif\u00edcio infal\u00edvel: faz-se h\u00f3spede do Sult\u00e3o, colocando-se livremente em suas m\u00e3os, totalmente despojado de poder, como menor. E a hospitalidade \u00e9 sagrada para um mu\u00e7ulmano. Francisco foi ao encontro do Sult\u00e3o usando n\u00e3o as armas dos cruzados, mas a arma da palavra, da prega\u00e7\u00e3o e, principalmente, sua pr\u00f3pria pessoa. Ele n\u00e3o entendia \u00e1rabe, e o Sult\u00e3o provavelmente entendesse pouco de italiano ou latim. Mas as palavras s\u00e3o o que menos importa aqui. Entre estes dois, t\u00e3o diferentes culturalmente, d\u00e1-se um verdadeiro encontro, encontro de cora\u00e7\u00f5es e almas nobres, que gera conhecimento e afinidade. Quando se conhecem pessoalmente, as barreiras e preconceitos s\u00e3o quebrados, os temores, fruto da ignor\u00e2ncia, desaparecem. Deste breve encontro de poucos dias, baseado no respeito m\u00fatuo e na abertura ao di\u00e1logo, novas possibilidades de relacionamentos se abrem, novos horizontes se descortinam, e continuam a inspirar encontros e di\u00e1logos, oitocentos anos depois.<\/p>\n<hr \/>\n<h3><strong>Bibliografia<\/strong><\/h3>\n<h6>Fontes Franciscanas e Clarianas<em>, Tradu\u00e7\u00e3o de Celso M\u00e1rcio Teixeira, Vozes, Petr\u00f3polis 2004.<\/em><br \/>\nGobry, Ivan, O s\u00e9culo de Bernardo<em>. C\u00eeteaux e Clairvaux (secolo XII), Citt\u00e0 Nuova, Roma 1998.<\/em><br \/>\nLa Musica dei Crociati, Bettina Hoffmann<em>, Modo Antiquo, Italia, 2000.<\/em><br \/>\n<em>Oliveira, \u00canio Marcos de,<\/em> Francisco de Assis e o Isl\u00e3<em>: a vida segundo a forma do Santo Evangelho e a Minoridade como caminho para o di\u00e1logo inter-religioso, Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ci\u00eancias Humanas e Sociais, <\/em>Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o<em>, Juiz de Fora, 2014.<\/em><br \/>\n<em>Rosset, Paul, <\/em>Hist\u00f3ria das Cruzadas<em>, Zahar Editores, RJ 1980. <\/em><br \/>\n<em>Tyerman Christopher, <\/em>A Guerra de Deus<em>, Vol. II, Imago, RJ 2006.<\/em><br \/>\n<em>Vaiani, Cesare,<\/em> Storia e teologia dell\u2019esperienza spirituale di Francesco d\u2019Assisi, <em>Edizione Biblioteca Francescana, Milano 2015. <\/em><br \/>\n<em>Arquivos eletr\u00f4nicos<\/em><br \/>\n<em>https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Al-Kamil#cite_note-14. Acessado no dia 14 de mar\u00e7o de 2019. <\/em><br \/>\n<em>http:\/\/www.ofsliguria.it\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Cronache-e-altre-testimonianze-non-francescane-1.pdf. Acessado no dia 14 de mar\u00e7o de 2019.<\/em><br \/>\n<em>https:\/\/thejosias.com\/2015\/03\/17\/st-bernard-and-the-theology-of-crusade\/#_ftn46, acessado em 13 de mar\u00e7o de 2019.<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>01 Al-Adil (1200-1218), pai de Al-Kamil (1218-1238), Sult\u00e3o do Egito, era irm\u00e3o mais novo de Saladino.<\/em><br \/>\n02<em> &#8211; http:\/\/www.ofsliguria.it\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Cronache-e-altre-testimonianze-non-francescane-1.pdf. Acessado no dia 14 de mar\u00e7o de 2019. Na avalia\u00e7\u00e3o dos fatos hist\u00f3ricos todos os dados (e lados) precisam ser analisados nos seus pr\u00f3s e contras. E dentro de seu contexto. Ao lado deste poss\u00edvel comportamento ben\u00e9volo para com os crist\u00e3os, a guerra exigia do Sult\u00e3o que agisse com toda a ferocidade de um chefe militar. Basta dizer que, no auge do conflito, ele ofereceu uma moeda de ouro para quem lhe trouxesse uma cabe\u00e7a de crist\u00e3o. Diz-se que alguns trouxeram-lhe 50 cabe\u00e7as de uma vez.<\/em><br \/>\n03<em> &#8211; Gobry, Ivan, O s\u00e9culo de Bernardo. C\u00eeteaux e Clairvaux (secolo XII), Citt\u00e0 Nuova, Roma 1998, 313-317.<\/em><br \/>\n04<em> &#8211; https:\/\/thejosias.com\/2015\/03\/17\/st-bernard-and-the-theology-of-crusade\/#_ftn46, acessado em 13 de mar\u00e7o de 2019.<\/em><br \/>\n05<em> &#8211; Infelizmente alguns acontecimentos recentes nos mostram que esta vis\u00e3o sobre os mu\u00e7ulmanos ainda persiste em alguns ambientes no Ocidente. Por outro lado, a vis\u00e3o que os mu\u00e7ulmanos tinham dos Ocidentais tamb\u00e9m n\u00e3o era das mais lisonjeiras: um povo ex\u00f3tico e distante, economicamente atrasado, fan\u00e1ticos religiosos, dispostos a matar todos os que se opunham ao seu credo. <\/em><br \/>\n06<em> &#8211; Veja-se a exemplo a edi\u00e7\u00e3o de dois cd\u2019s, com m\u00fasicas do tempo das Cruzadas: La Musica dei Crociati, Bettina Hoffmann, Modo Antiquo, Italia, 2000.<\/em><br \/>\n07<em> &#8211; Fontes Franciscanas e Clarianas, Segunda Vida de Celano, IV, 30, p. 320-321, Tradu\u00e7\u00e3o de Celso M\u00e1rcio Teixeira, Vozes, Petr\u00f3polis 2004. Chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de que Celano n\u00e3o faz nenhuma refer\u00eancia ao encontro com o Sult\u00e3o.<\/em><br \/>\n08<em> &#8211; Na verdade, o Sult\u00e3o n\u00e3o ofereceu tudo de uma vez. A proposta de paz foi sendo aprimorada ao longo das negocia\u00e7\u00f5es, mas sempre recusada pelos crist\u00e3os.<\/em><br \/>\n09<em> &#8211; Fontes Franciscanas e Clarianas, Cr\u00f4nica de Ernoul, p. 1428-1431. O cronista n\u00e3o d\u00e1 nome aos frades, e os identifica como \u201ccl\u00e9rigos\u201d.<\/em><br \/>\n10<em> &#8211; Ter as cabe\u00e7as cortadas era o destino de todos os prisioneiros, crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos. Os templ\u00e1rios se divertiam, lan\u00e7ando as catapultas cheias de cabe\u00e7as de mu\u00e7ulmanos atrav\u00e9s das muralhas de Damieta. Os mu\u00e7ulmanos faziam o mesmo com os crist\u00e3os. Este n\u00edvel de viol\u00eancia que marcava a rela\u00e7\u00e3o entre as partes em conflito mostra que o momento n\u00e3o era prop\u00edcio a conversas sobre convers\u00e3o!<\/em><br \/>\n11<em> &#8211; Fontes Franciscanas e Clarianas, Carta escrita de Damieta, em fevereiro ou mar\u00e7o de 1220, p. 1423. Em 1216 Jacques de Vitry j\u00e1 havia escrito uma carta onde citava os frades menores. <\/em><br \/>\n12<em> &#8211; Idem, 1423-1427.<\/em><br \/>\n13<em> &#8211; Alguns estudiosos sugerem que Francisco teria sido confundido com uma esp\u00e9cie de \u201csufi\u201d, t\u00edpico m\u00edstico isl\u00e2mico, que se dedica \u00e0 recita\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica do cor\u00e3o. Al-Kamil apoiou a difus\u00e3o de centros sufis durante seu sultanato. No Egito e na S\u00edria, os mu\u00e7ulmanos conheciam a tradi\u00e7\u00e3o religiosa dos monges e eremitas.<\/em><br \/>\n14 <em>&#8211; Fontes Franciscanas e Clarianas, Primeira Vida, XX, 57, 238-239.<\/em><br \/>\n15 <em>&#8211; No tempo em que ocorreram os fatos, a pr\u00e1tica do ord\u00e1lio era considerada heresia.<\/em><br \/>\n16<em> &#8211; http:\/\/www.ofsliguria.it\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Cronache-e-altre-testimonianze-non-francescane-1.pdf. Acessado no dia 14 de mar\u00e7o de 2019.<\/em><br \/>\n17<em> &#8211; Citaremos apenas alguns aspectos onde aparecem a influ\u00eancia do isl\u00e3 sobre Francisco. Sobre isto, veja-se a Tese de Doutorado: Francisco de Assis e o Isl\u00e3: a vida segundo a forma do Santo Evangelho e a Minoridade como caminho para o di\u00e1logo inter-religioso, \u00canio Marcos de Oliveira, Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ci\u00eancias Humanas e Sociais, Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o, Juiz de Fora, 2014.<\/em><br \/>\n18 <em>&#8211; Fontes Franciscanas e Clarianas, Regra n\u00e3o Bulada, 176.<\/em><br \/>\n19<em> &#8211; Idem, Carta aos Governantes dos Povos, p. 126.<\/em><br \/>\n20<em> &#8211; Ibidem, Carta aos Cust\u00f3dios (Primeira Recens\u00e3o), p. 110.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Sandro Roberto da Costa<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":184696,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[202],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - 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