{"id":178907,"date":"2019-04-12T07:51:10","date_gmt":"2019-04-12T10:51:10","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=178907"},"modified":"2020-07-31T14:31:29","modified_gmt":"2020-07-31T17:31:29","slug":"o-diagnostico-de-bento-xvi-sobre-a-crise-da-igreja-e-dos-abusos-sexuais-do-clero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/o-diagnostico-de-bento-xvi-sobre-a-crise-da-igreja-e-dos-abusos-sexuais-do-clero\/","title":{"rendered":"O Diagn\u00f3stico de Bento XVI sobre a crise da Igreja e dos abusos sexuais do clero"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_187350\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-187350\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-187350 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_23.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"560\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_23.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_23-450x300.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_23-768x512.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_23-150x100.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-187350\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<em> \u00a0Imagem ilustrativa: (fonte L&#8217;Osservatore_Romano)<\/em><\/p><\/div>\n<p><em><strong>Roma<\/strong> &#8211; O Papa Em\u00e9rito\u00a0Bento XVI\u00a0escreveu recentemente um texto intitulado &#8220;A\u00a0Igreja e os abusos sexuais&#8221;, no qual oferece suas reflex\u00f5es sobre a atual situa\u00e7\u00e3o eclesial e apresenta suas propostas para enfrentar esta grave crise.\u00a0O texto (escrito em alem\u00e3o) \u00e9 dividido em tr\u00eas partes. No primeiro apresenta o contexto hist\u00f3rico a partir dos anos 1960, no segundo se refere aos efeitos na\u00a0vida\u00a0dos sacerdotes e no terceiro se prop\u00f5e uma resposta adequada da Igreja.<\/em><\/p>\n<p><em>Originalmente, o mesmo seria publicado na\u00a0Semana Santa pelo Klerusblatt, um jornal mensal para o clero de algumas dioceses b\u00e1varas da Alemanha; no entanto, terminou sendo divulgado na quarta-feira, 10 de abril, pelo jornal New York Post.\u00a0ACI\u00a0Digital oferece uma tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas do documento na \u00edntegra, que \u00e9, nas palavras do pr\u00f3prio Bento XVI, sua contribui\u00e7\u00e3o para &#8220;ajudar a Igreja nesta hora t\u00e3o dif\u00edcil &#8220;.<\/em><\/p>\n<p><em>A seguir, o texto completo do\u00a0Papa Bento XVI:<\/em><\/p>\n<h3><strong>A Igreja e o Esc\u00e2ndalo do abuso sexual<\/strong><\/h3>\n<p>De 21 a 24 de fevereiro, a convite do Papa Francisco, os presidentes das confer\u00eancias episcopais de todo o mundo se reuniram no Vaticano para discutir a crise da F\u00e9 e da Igreja, uma crise palp\u00e1vel em todo o mundo ap\u00f3s as estarrecedoras revela\u00e7\u00f5es dos abusos perpetrado por cl\u00e9rigos contra menores. A extens\u00e3o e a gravidade dos incidentes relatados t\u00eam afligido profundamente tanto sacerdotes quanto leigos, e levou a n\u00e3o poucas pessoas a questionarem a pr\u00f3pria f\u00e9 da Igreja. Era necess\u00e1rio enviar uma mensagem forte e procurar um novo come\u00e7o, com tal de tornar a Igreja novamente verdadeiramente cred\u00edvel como uma luz entre os povos e como uma for\u00e7a ativa contra os poderes da destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 que eu mesmo me encontrava servindo em uma posi\u00e7\u00e3o de responsabilidade como pastor da Igreja no momento da eclos\u00e3o p\u00fablica da crise e durante seu desenvolvimento, eu tive que me perguntar \u2013 ainda que como em\u00e9rito j\u00e1 n\u00e3o seja mais diretamente respons\u00e1vel por essa situa\u00e7\u00e3o &#8211; o que eu podia fazer para contribuir com um novo come\u00e7o em retrospecto. Assim, durante o per\u00edodo que vai do an\u00fancio at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da reuni\u00e3o dos Presidentes das Confer\u00eancias Episcopais, compilei algumas anota\u00e7\u00f5es com as quais creio poder oferecer uma ou duas observa\u00e7\u00f5es e ajudar a Igreja nessa hora t\u00e3o dif\u00edcil. Tendo entrado em contato com o Secret\u00e1rio de Estado, Cardeal [Pietro] Parolin e o Santo Padre [Papa Francisco], pareceu-me apropriado publicar o texto resultante deste esfor\u00e7o no &#8220;Klerusblatt&#8221; (NdT: um jornal mensal para o clero de algumas dioceses da Baviera).<\/p>\n<p>Meu trabalho est\u00e1 dividido em tr\u00eas partes. Na primeira, pretendo apresentar brevemente o contexto societ\u00e1rio mais amplo da quest\u00e3o, sem o qual o problema n\u00e3o pode ser entendido. Eu tento mostrar que na d\u00e9cada de 60 ocorreu um evento excepcional, em uma escala sem precedentes na hist\u00f3ria. Pode-se dizer que, nos 20 anos decorridos entre 1960 e 1980, os padr\u00f5es vinculantes relativos \u00e0 sexualidade at\u00e9 ent\u00e3o entraram em colapso por completo, gerando uma aus\u00eancia de normativa que j\u00e1 foi objeto de tentativas laboriosas de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Na segunda parte, pretendo destacar os efeitos dessa situa\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o dos sacerdotes e na vida dos sacerdotes.<\/p>\n<p>Finalmente, na terceira parte, gostaria de desenvolver algumas perspectivas para uma resposta adequada por parte da Igreja.<\/p>\n<h3><strong>I.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>(1<\/strong>) O assunto come\u00e7a com a introdu\u00e7\u00e3o, prescrita e apoiada pelo Estado, de crian\u00e7as e jovens no tema da natureza da sexualidade. Na Alemanha, a ent\u00e3o ministra da Sa\u00fade, [K\u00e4te] Strobel, mandou fazer um filme mostrando tudo o que antes n\u00e3o podia ser exibido publicamente, incluindo rela\u00e7\u00f5es sexuais, e que passou a ser exibido com o prop\u00f3sito de educar os jovens. O que inicialmente se destinava apenas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual destes, por conseguinte, foi amplamente aceito como uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel para o resto da sociedade.<\/p>\n<p>Efeitos semelhantes foram alcan\u00e7ados pelo &#8220;<em>Sexkoffer<\/em>&#8221; publicado pelo governo austr\u00edaco [NdT: Uma esp\u00e9cie de \u00b4kit\u00b4 repleto de material destinado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual usado nas escolas austr\u00edacas no final da d\u00e9cada de 1980]. Filmes sexuais e pornogr\u00e1ficos tornaram-se uma ocorr\u00eancia comum, a ponto de serem exibidos nos cinemas [Bahnhofskinos]. Ainda me lembro de ter visto, andando pela cidade de Regensburg um dia, verdadeiras multid\u00f5es de pessoas se alinhando em frente a uma grande sala de\u00a0cinema, algo que anteriormente s\u00f3 hav\u00edamos visto nos tempos da guerra, quando alguma aloca\u00e7\u00e3o especial era esperada. Lembro-me tamb\u00e9m de ter chegado \u00e0 cidade na Sexta-feira Santa, no ano de 1970, e de ver todos os outdoors preenchidos por um grande cartaz de duas pessoas completamente nuas num abra\u00e7o apertado.<\/p>\n<p>Entre as liberdades pelas quais a Revolu\u00e7\u00e3o de 1968 lutou estava a total liberdade sexual, uma que n\u00e3o mais possu\u00eda normas. A vontade de usar a viol\u00eancia, que caracterizou esses anos, est\u00e1 fortemente relacionada a esse colapso mental. Na verdade, os filmes sexuais n\u00e3o eram mais permitidos nos avi\u00f5es porque poderiam gerar viol\u00eancia na pequena comunidade de passageiros. E dado que os excessos no vestu\u00e1rio tamb\u00e9m provocavam agress\u00e3o, os diretores das escolas fizeram v\u00e1rias tentativas de introduzir uma vestimenta escolar que facilitasse um clima de aprendizado.<\/p>\n<p>Parte da fisionomia da Revolu\u00e7\u00e3o de 1968 foi que a pedofilia tamb\u00e9m foi diagnosticada como um comportamento aceit\u00e1vel e apropriado.<\/p>\n<p>Para os jovens da Igreja, mas n\u00e3o apenas para eles, este foi um momento muito dif\u00edcil em muitos aspectos. Sempre me perguntei como os jovens nessa situa\u00e7\u00e3o poderiam se aproximar do sacerd\u00f3cio e aceit\u00e1-lo com todas as suas ramifica\u00e7\u00f5es. O extenso colapso das gera\u00e7\u00f5es seguintes de sacerdotes naqueles anos e o grande n\u00famero de seculariza\u00e7\u00f5es foram uma consequ\u00eancia de todos esses desenvolvimentos.<\/p>\n<p><strong>(2)<\/strong>\u00a0Ao mesmo tempo, independentemente destes desenvolvimentos, a teologia moral cat\u00f3lica sofreu um colapso que deixou a Igreja desamparada diante dessas mudan\u00e7as na sociedade. Vou tentar delinear brevemente a trajet\u00f3ria que esse desenvolvimento percorreu.<\/p>\n<p>At\u00e9 o Conc\u00edlio Vaticano II, a teologia moral cat\u00f3lica era em grande parte baseada na lei natural, enquanto as Sagradas Escrituras eram citadas apenas para obter contexto ou justifica\u00e7\u00e3o. Na luta do Conc\u00edlio por uma nova compreens\u00e3o do Apocalipse, a op\u00e7\u00e3o pela lei natural foi amplamente abandonada, e uma teologia moral baseada inteiramente na B\u00edblia foi exigida.<\/p>\n<p>Ainda me lembro como a faculdade jesu\u00edta em Frankfurt treinou o jovem e inteligente Padre (Sch\u00fcller) com o prop\u00f3sito de desenvolver uma moralidade baseada inteiramente nas Escrituras. A bela disserta\u00e7\u00e3o do Padre (Bruno) Sch\u00fcller mostra um primeiro passo para a constru\u00e7\u00e3o de uma moralidade baseada nas Escrituras. O sacerdote foi ent\u00e3o enviado para os Estados Unidos e voltou, percebendo que somente com a B\u00edblia a moralidade n\u00e3o poderia ser expressa sistematicamente. Ent\u00e3o ele tentou uma teologia moral mais pragm\u00e1tica, sem poder dar uma resposta \u00e0 crise da moralidade.<\/p>\n<p>Consequentemente, nada poderia ser considerado um bem absoluto, assim como, por outro lado, coisa alguma poderia ser considerada fundamentalmente ruim; (Poderia haver) apenas ju\u00edzos de valor relativos. N\u00e3o havia mais o bom em seu sentido mais absoluto, apenas o aquilo que era relativamente melhor ou contingente para o momento e as circunst\u00e2ncias espec\u00edficas.<\/p>\n<p>A crise da justifica\u00e7\u00e3o e da forma de expor a moral cat\u00f3lica alcan\u00e7ou propor\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas no final dos anos 80 e 90. Em 5 de janeiro de 1989, foi publicada a &#8220;Declara\u00e7\u00e3o de Col\u00f4nia&#8221;, assinada por 15 catedr\u00e1ticos cat\u00f3licos de teologia. O documento se concentrou em v\u00e1rios pontos da crise da rela\u00e7\u00e3o entre o magist\u00e9rio dos\u00a0bispos\u00a0e a tarefa da teologia. (As rea\u00e7\u00f5es a) este texto, que em princ\u00edpio n\u00e3o passaram do usual n\u00edvel de protestos, cresceu rapidamente e se tornou um grito contra o magist\u00e9rio da Igreja e reuniu, clara e visivelmente, o potencial de um protesto global contra os esperados textos doutrinais de Jo\u00e3o Paulo II. (cf. (cf. D. Mieth, K\u00f6lner Erkl\u00e4rung, LThK, VI3, p. 196) (N.dT: O LTHK \u00e9 o Lexikon f\u00fcr Theologie und Kirche, o Lexicon de Teologia e a Igreja, cujos editores inclu\u00edam o te\u00f3logo Karl Rahner y o hoje Cardeal alem\u00e3o Walter Kasper).<\/p>\n<p>O Papa Jo\u00e3o Paulo II, que conhecia muito bem e acompanhava de perto a situa\u00e7\u00e3o em que a teologia moral se encontrava, encomendou o trabalho de uma enc\u00edclica para tornar as coisas claras novamente. E foi publicada sob o t\u00edtulo de\u00a0<em>Veritatis Splendor<\/em>\u00a0no dia 6 de agosto de 1993 e logo gerou rea\u00e7\u00f5es veementes de v\u00e1rios te\u00f3logos morais. Antes disso, o\u00a0Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica (publicado em 1992) j\u00e1 havia apresentado, de maneira persuasiva e sistem\u00e1tica, a moralidade proclamada pela Igreja.<\/p>\n<p>Nunca vou esquecer a forma como o ent\u00e3o l\u00edder te\u00f3logo moral alem\u00e3o, Franz B\u00f6ckle, tendo retornado para sua Su\u00ed\u00e7a\u00a0natal ap\u00f3s a aposentadoria, anunciou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Veritatis Splendor que se a enc\u00edclica determinasse que existem a\u00e7\u00f5es que sempre e em todas as circunst\u00e2ncias deveriam ser classificados como m\u00e1s, ele iria rebat\u00ea-la com todos os recursos \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi Deus, o Misericordioso, que evitou que este prop\u00f3sito fosse executado, pois B\u00f6ckle morreu em 8 de julho de 1991. A enc\u00edclica foi publicada em 06 de agosto de 1993 e efetivamente inclu\u00eda a determina\u00e7\u00e3o de que certas a\u00e7\u00f5es jamais podem ser consideradas boas.<\/p>\n<p>O Papa estava plenamente consciente da import\u00e2ncia dessa decis\u00e3o e, nessa parte do texto, consultou novamente os melhores especialistas que n\u00e3o participaram da edi\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica. Ele sabia que n\u00e3o deveria deixar d\u00favidas sobre o fato de que a moralidade que busca o equil\u00edbrio de bens deve ter sempre um limite final. Alguns bens simplesmente n\u00e3o est\u00e3o sujeitos a concess\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 valores que jamais devem ser abandonados por um valor mais alto e at\u00e9 mesmo superar a preserva\u00e7\u00e3o da vida f\u00edsica. H\u00e1 mart\u00edrio. Deus \u00e9 mais. Ele vale mais que a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia f\u00edsica. Uma vida comprada pela nega\u00e7\u00e3o de Deus, uma vida baseada em uma mentira, ao final, n\u00e3o \u00e9 vida.<\/p>\n<p>O mart\u00edrio \u00e9 a categoria b\u00e1sica da exist\u00eancia crist\u00e3. O fato de que o mesmo j\u00e1 n\u00e3o seja moralmente necess\u00e1rio, como afirma a teoria defendida por B\u00f6ckle e muitos outros, demonstra que a pr\u00f3pria ess\u00eancia do cristianismo est\u00e1 em jogo aqui.<\/p>\n<p>Na teologia moral, no entanto, outra quest\u00e3o tornou-se urgente: a hip\u00f3tese de que o Magist\u00e9rio da Igreja deveria ter compet\u00eancia final (&#8220;infalibilidade&#8221;) apenas nas quest\u00f5es relativas \u00e0 f\u00e9 e j\u00e1 n\u00e3o nas que se referem \u00e0 moralidade, havia ganhado ampla aceita\u00e7\u00e3o. Dizia-se que estas quest\u00f5es n\u00e3o deveriam cair no \u00e2mbito de decis\u00f5es infal\u00edveis do magist\u00e9rio da Igreja. Provavelmente h\u00e1 algo de verdade nesta hip\u00f3tese e que merece mais discuss\u00e3o, mas h\u00e1 um conjunto m\u00ednimo de quest\u00f5es morais que est\u00e3o intimamente relacionadas com o princ\u00edpio fundamental da f\u00e9, o qual deve ser defendido, para que a f\u00e9 n\u00e3o venha a ser reduzida a uma teoria e que j\u00e1 n\u00e3o seja reconhecida em seu clamor pela vida concreta.<\/p>\n<p>Tudo isso nos permite ver o qu\u00e3o fundamentalmente a autoridade da Igreja \u00e9 questionada quando se trata de quest\u00f5es de moralidade. Aqueles que negam \u00e0 Igreja uma compet\u00eancia no ensinamento definitivo nesta \u00e1rea, for\u00e7am-na a permanecer em sil\u00eancio exatamente ali, onde se encontra em jogo a fronteira entre a verdade e a mentira.<\/p>\n<p>Independentemente deste assunto, em muitos c\u00edrculos da teologia moral foi apresentada a tese de que a Igreja n\u00e3o tem e n\u00e3o pode ter sua pr\u00f3pria moralidade. O argumento era que todas as hip\u00f3teses morais teriam seu paralelo em outras religi\u00f5es e, portanto, n\u00e3o haveria uma natureza crist\u00e3. Mas a quest\u00e3o da natureza da moralidade b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 respondida pelo fato de que para cada frase singular em algum lugar da Escritura, podemos encontrar um paralelo em outras religi\u00f5es. Na verdade, trata-se do conjunto da moralidade b\u00edblica, que, como tal, \u00e9 novo e distinto de suas partes individuais.<\/p>\n<p>A doutrina moral das Sagradas Escrituras tem a sua forma \u00fanica de ser predicada em \u00faltima inst\u00e2ncia na sua concre\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem de Deus, na f\u00e9 em um Deus que se manifestou a Si mesmo em Jesus Cristo e viveu como ser humano. O Dec\u00e1logo \u00e9 uma aplica\u00e7\u00e3o para a vida humana da f\u00e9 b\u00edblica em Deus. A imagem de Deus e da moralidade se pertence uma a outra e \u00e9 por isso que resulta na mudan\u00e7a particular da atitude crist\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o ao mundo e \u00e0 vida humana. Al\u00e9m disso, o cristianismo tem sido descrito desde o in\u00edcio com o termo\u00a0<em>Hodo\u0161<\/em>\u00a0(caminho, em grego, usado no Novo Testamento para discutir um caminho de progresso).<\/p>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 uma travessia e uma forma de vida. Na Igreja antiga, o catecumenato foi criado como um habitat no qual os aspectos distintos e frescos daquele modo de viver a vida crist\u00e3 eram ao mesmo tempo praticados e protegidos, contra uma cultura cada vez mais desmoralizada. Acredito que mesmo hoje, algo como estas comunidades de catecumenato sejam necess\u00e1rias para que a vida crist\u00e3 possa se afirmar da maneira que lhe \u00e9 pr\u00f3pria.<\/p>\n<h3><strong>II.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>As rea\u00e7\u00f5es eclesiais iniciais<\/strong><\/p>\n<p><strong>(1)<\/strong>\u00a0O processo h\u00e1 muito preparado e em andamento para a dissolu\u00e7\u00e3o do conceito crist\u00e3o de moralidade foi marcado, como tentei demonstrar, pelo radicalismo sem precedentes dos anos 1960. Essa dissolu\u00e7\u00e3o da autoridade moral do ensino da Igreja devia ter um efeito sobre os diferentes membros da Igreja. No contexto da reuni\u00e3o dos presidentes das confer\u00eancias episcopais em todo o mundo com o Papa Francisco, a quest\u00e3o da vida sacerdotal, assim como a dos semin\u00e1rios, \u00e9 de particular interesse. Uma vez que est\u00e1 relacionado ao problema o tema da prepara\u00e7\u00e3o para o minist\u00e9rio sacerdotal nos semin\u00e1rios, e, existe de fato uma ampla decomposi\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0 anterior forma de prepara\u00e7\u00e3o dos candidatos.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios semin\u00e1rios foram estabelecidos grupos homossexuais que agiram mais ou menos abertamente, o que mudou significativamente o clima que se vivia ali. Em um semin\u00e1rio no sul da Alemanha, os candidatos ao sacerd\u00f3cio e ao minist\u00e9rio leigo de agentes de pastoral (<em>Pastoralreferent<\/em>) viviam juntos. Nas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, os seminaristas e os especialistas em pastoral estavam juntos. Os casados \u200b\u200b\u00e0s vezes estavam com suas esposas e filhos; e \u00e0s vezes com suas namoradas. O clima neste semin\u00e1rio n\u00e3o oferecia o apoio necess\u00e1rio para a prepara\u00e7\u00e3o adequada para a voca\u00e7\u00e3o sacerdotal. A Santa S\u00e9 sabia desses problemas sem ser informada com precis\u00e3o. Como primeiro passo, foi acordada uma visita apost\u00f3lica para os semin\u00e1rios nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Como os crit\u00e9rios para a sele\u00e7\u00e3o e nomea\u00e7\u00e3o dos bispos tamb\u00e9m mudaram depois do Conc\u00edlio Vaticano II, a rela\u00e7\u00e3o dos bispos com seus semin\u00e1rios tamb\u00e9m tornou-se muito diferente. Acima de tudo, a &#8220;conciliaridade&#8221; foi estabelecida como um crit\u00e9rio para a nomea\u00e7\u00e3o de novos bispos, o que poderia ser entendido de v\u00e1rias maneiras.<\/p>\n<p>De fato, em muitos lugares entendeu-se que as atitudes conciliares se relacionavam a uma postura cr\u00edtica ou negativa \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o que existia at\u00e9 ent\u00e3o, e que precisava ser substitu\u00edda por uma rela\u00e7\u00e3o nova e radicalmente aberta com o mundo. Um bispo, que j\u00e1 havia sido reitor de um semin\u00e1rio, fez os seminaristas assistirem a filmes pornogr\u00e1ficos com a inten\u00e7\u00e3o de torn\u00e1-los resistentes a condutas contr\u00e1rias \u00e0 f\u00e9.<\/p>\n<p>Havia &#8211; e n\u00e3o apenas nos Estados Unidos da Am\u00e9rica &#8211; bispos que individualmente rejeitavam totalmente a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e buscavam uma nova e moderna &#8220;catolicidade&#8221; em suas dioceses. Pode valer a pena mencionar que em muitos semin\u00e1rios, os estudantes que os viram lendo meus livros eram considerados inadequados para o sacerd\u00f3cio. Meus livros estavam escondidos, como se fossem literatura ruim, e eram lidos apenas debaixo da escrivaninha.<\/p>\n<p>A visita apost\u00f3lica afinal n\u00e3o trouxe novas pistas, aparentemente porque v\u00e1rios poderes juntaram for\u00e7as para maquiar a verdadeira situa\u00e7\u00e3o. Uma segunda visita foi ordenada e permitiu novos dados, mas no final tampouco obteve resultado algum. No entanto, desde a d\u00e9cada de 1970, a situa\u00e7\u00e3o nos semin\u00e1rios geralmente melhorou. E, no entanto, apenas casos isolados de um novo fortalecimento das voca\u00e7\u00f5es sacerdotais surgiram, posto que a situa\u00e7\u00e3o em geral havia tomado outro rumo.<\/p>\n<p><strong>(2)<\/strong>\u00a0A quest\u00e3o da pedofilia, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, n\u00e3o era cr\u00edtica at\u00e9 a segunda metade da d\u00e9cada de 1980. Entretanto, ele se tornou um assunto p\u00fablico nos Estados Unidos, tanto assim que os bispos foram a Roma para procurar ajuda e que o direito can\u00f4nico, conforme escrito no novo C\u00f3digo (1983), n\u00e3o parecia suficiente para tomar as medidas necess\u00e1rias. Na primeira visita, Roma e os canonistas romanos tinham dificuldades com estas preocupa\u00e7\u00f5es porque, em sua opini\u00e3o, a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria do minist\u00e9rio sacerdotal deveria ser suficiente para gerar purifica\u00e7\u00e3o e esclarecimento. Isto n\u00e3o podia ser aceito pelos bispos americanos, porque assim os sacerdotes permaneciam a servi\u00e7o do bispo e, portanto, seguiam diretamente associados a ele. Lentamente, foi tomando forma uma renova\u00e7\u00e3o e um aprofundamento na lei criminal do novo C\u00f3digo, constru\u00edda deliberadamente e com ligeireza.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso e no entanto, havia um problema fundamental na percep\u00e7\u00e3o do direito penal. Apenas o chamado \u201cgarantismo\u201d (uma esp\u00e9cie de protecionismo processual ao r\u00e9u) era considerado uma postura &#8220;conciliar&#8221;. Isso significa que os direitos do acusado devem ser garantidos, acima de tudo, at\u00e9 o ponto em que qualquer tipo de condena\u00e7\u00e3o fosse impossibilitada. Como um contrapeso para as op\u00e7\u00f5es de defesa dispon\u00edveis para os te\u00f3logos acusados \u200b\u200be muitas vezes inadequadas, o direito de defesa dos mesmos usando o \u201cgarantismo\u201d estendeu-se a tal ponto que era quase imposs\u00edvel uma condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Permitam-me um breve excurso neste momento. \u00c0 luz da escalada da conduta ped\u00f3fila, uma palavra de Jesus novamente nos interpela: &#8221; Se algu\u00e9m fizer trope\u00e7ar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que fosse lan\u00e7ado no mar com uma grande pedra amarrada no pesco\u00e7o&#8221; (Mc 9,42).<\/p>\n<p>A palavra pequenino, na l\u00edngua de Jesus, significava aqueles crentes comuns que podem ver sua f\u00e9 confundida pela arrog\u00e2ncia intelectual daqueles que acreditam ser inteligentes. Ent\u00e3o, aqui Jesus protege o dep\u00f3sito da f\u00e9 com uma amea\u00e7a ou puni\u00e7\u00e3o enf\u00e1tica para aqueles que prejudicam estas pessoas.<\/p>\n<p>O uso moderno da frase n\u00e3o est\u00e1 em si mesmo errado, mas n\u00e3o deve obscurecer o significado original. Fica claro, contra qualquer garantismo, que n\u00e3o apenas o direito do acusado \u00e9 importante e requer uma garantia. Grandes bens como a f\u00e9 s\u00e3o igualmente importantes.<\/p>\n<p>Assim, uma lei can\u00f4nica equilibrada, que corresponda \u00e0 totalidade da mensagem de Jesus, n\u00e3o apenas deve fornecer uma garantia para o acusado, para quem o respeito \u00e9 um bem l\u00edcito, mas tamb\u00e9m deve proteger a f\u00e9 que tamb\u00e9m \u00e9 um importante e l\u00edcito bem. Uma lei can\u00f4nica adequadamente formada deve ent\u00e3o conter uma dupla garantia: a prote\u00e7\u00e3o legal do acusado e a prote\u00e7\u00e3o legal da propriedade que est\u00e1 em jogo. Se hoje esta concep\u00e7\u00e3o intrinsecamente clara \u00e9 apresentada, ela geralmente cai em ouvidos surdos quando se trata da quest\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o da f\u00e9 como um bem legal. Na consci\u00eancia geral da lei, a f\u00e9 n\u00e3o parece mais ter o grau de um bem que requer prote\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o alarmante que os pastores da Igreja devem considerar e levar a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Agora eu gostaria de acrescentar, \u00e0s breves notas sobre a situa\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o sacerdotal na \u00e9poca da crise, algumas observa\u00e7\u00f5es sobre o desenvolvimento do direito can\u00f4nico nesta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, a Congrega\u00e7\u00e3o para o Clero \u00e9 respons\u00e1vel por lidar com crimes cometidos por padres, mas dado que o \u201cgarantismo\u201d dominava amplamente a situa\u00e7\u00e3o daquela \u00e9poca, eu concordei com o Papa Jo\u00e3o Paulo II que era apropriado designar essas ofensas \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, sob o t\u00edtulo de &#8220;Delicta maiora contra fidem&#8221; (NdT: Delitos graves contra a f\u00e9).<\/p>\n<p>Isso possibilitou a imposi\u00e7\u00e3o da pena m\u00e1xima, ou seja, a expuls\u00e3o do estado clerical, que n\u00e3o poderia ter sido imposta sob outras disposi\u00e7\u00f5es legais. Este n\u00e3o foi um truque para impor a pena m\u00e1xima, mas uma consequ\u00eancia da import\u00e2ncia da do bem que \u00e9 a f\u00e9 para a Igreja. De fato, \u00e9 importante notar que uma tamanha m\u00e1 conduta deste tipo por parte de um cl\u00e9rigo, acaba, em \u00faltima inst\u00e2ncia, prejudicando a f\u00e9.<\/p>\n<p>Onde a f\u00e9 n\u00e3o determina mais as a\u00e7\u00f5es do homem tais ofensas se tornam poss\u00edveis.<\/p>\n<p>A severidade da pena, no entanto, tamb\u00e9m pressup\u00f5e uma prova clara da ofensa: este aspecto da garantia continua em vigor.<\/p>\n<p>Em outras palavras, para impor a pena m\u00e1xima legalmente, \u00e9 necess\u00e1rio um processo criminal genu\u00edno, mas ambas as dioceses e a Santa S\u00e9 est\u00e3o sobrecarregadas por esta exig\u00eancia. Portanto, formulamos um n\u00edvel m\u00ednimo de procedimentos criminais e deixamos aberta a possibilidade de que a pr\u00f3pria Santa S\u00e9 assuma o julgamento quando a diocese ou a administra\u00e7\u00e3o metropolitana n\u00e3o possam faz\u00ea-lo. Em cada caso, o julgamento deve ser revisado pela Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 para garantir os direitos do acusado. Finalmente, na quarta feria (N.dT. a assembleia ou reuni\u00e3o geral dos membros desta Congrega\u00e7\u00e3o da C\u00faria em que s\u00e3o discutidos os diversos casos em andamento), estabelecemos uma inst\u00e2ncia de recurso para oferecer a possibilidade de o acusado apelar.<\/p>\n<p>J\u00e1 que tudo isso ultrapassou as capacidades concretas da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 e n\u00e3o havia outra alternativa mais que enfrentar os longos atrasos, devido \u00e0 natureza peculiar do assunto, o Papa Francisco decidiu ent\u00e3o realizar mais reformas.<\/p>\n<h3><strong>III.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>(1)<\/strong>\u00a0O que deve ser feito? Talvez dev\u00eassemos criar outra Igreja para que as coisas funcionem? Bem, essa experi\u00eancia j\u00e1 foi feita e j\u00e1 falhou. Somente a obedi\u00eancia e o amor a nosso Senhor Jesus Cristo pode nos mostrar o caminho, ent\u00e3o primeiramente devemos tentar entender de novo e de dentro (de n\u00f3s mesmos) o que o Senhor quer e quis de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, gostaria de sugerir o seguinte: se realmente queremos resumir muito brevemente o conte\u00fado da f\u00e9, tal como est\u00e1 na B\u00edblia, ter\u00edamos que faz\u00ea-lo dizendo que o Senhor come\u00e7ou uma narrativa de amor com as pessoas e quer abra\u00e7ar toda a cria\u00e7\u00e3o nesta narrativa. A maneira de lutar contra o mal que nos amea\u00e7a e amea\u00e7a o mundo todo, s\u00f3 pode residir no nosso ingresso neste amor em \u00faltima inst\u00e2ncia. Esta \u00e9 a verdadeira for\u00e7a contra o mal, j\u00e1 que o poder do mal surge da nossa recusa em amar a Deus. Quem se entrega ao amor de Deus \u00e9 redimido. Nossa realidade de n\u00e3o-redimidos \u00e9 consequ\u00eancia de nossa incapacidade de amar a Deus. Aprender a amar a Deus \u00e9, portanto, o caminho da reden\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Vamos tentar desenvolver um pouco mais este conte\u00fado essencial da revela\u00e7\u00e3o de Deus. Podemos assim dizer que o primeiro dom fundamental que a f\u00e9 nos oferece \u00e9 a certeza de que Deus existe. Um mundo sem Deus s\u00f3 pode ser um mundo sem significado. Caso contr\u00e1rio, de onde tudo viria? Em todo caso, n\u00e3o haveria um prop\u00f3sito espiritual. De alguma forma, simplesmente est\u00e1 l\u00e1 e n\u00e3o tem prop\u00f3sito ou significado algum. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 padr\u00f5es de bem ou mal, e somente o que \u00e9 mais forte do que qualquer outra coisa que se possa afirmar e ent\u00e3o o poder se torna o \u00fanico princ\u00edpio. A verdade n\u00e3o conta, simplesmente n\u00e3o existe. Somente se as coisas tiverem uma raz\u00e3o espiritual, elas t\u00eam uma inten\u00e7\u00e3o e s\u00e3o concebidas. Somente se existe um Deus Criador que \u00e9 bom e que quer o bem, a vida do homem pode ent\u00e3o fazer sentido.<\/p>\n<p>Existir um Deus que seja o criador e a medida de todas as coisas \u00e9 primeiro e acima de tudo uma necessidade, mas um Deus que n\u00e3o se expressa em nada aquilo que \u00e9, que n\u00e3o se d\u00e1 a conhecer, permaneceria como uma presun\u00e7\u00e3o e, em consequ\u00eancia, n\u00e3o poderia determinar a forma [ Gestalt] do nosso viver. Para que Deus seja realmente Deus nesta cria\u00e7\u00e3o deliberada, temos que olhar para Ele para que ele se expresse de alguma forma. Ele fez de muitas maneiras, mas decisivamente na voca\u00e7\u00e3o de Abra\u00e3o e deu \u00e0s pessoas que procuravam a Deus a orienta\u00e7\u00e3o que nos leva al\u00e9m de toda expectativa: o pr\u00f3prio Deus se torna criatura, falando como um homem conosco, seres humanos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a frase &#8220;Deus \u00e9&#8221;, torna-se ao final uma mensagem verdadeiramente alegre, precisamente porque Ele \u00e9 mais do que intelecto porque cria &#8211; e \u00e9 &#8211; o amor para que mais uma vez as pessoas tenham consci\u00eancia de que esta \u00e9 a primeira e mais fundamental tarefa confiada a n\u00f3s pelo Senhor.<\/p>\n<p>Uma sociedade sem Deus &#8211; uma sociedade que n\u00e3o o conhece e o trata como inexistente &#8211; \u00e9 uma sociedade que perde sua medida. Em nossos dias, a frase da morte de Deus foi acunhada. Quando Deus morre em uma sociedade, nos \u00e9 dito, torna-se livre. Na realidade, a morte de Deus em uma sociedade tamb\u00e9m significa o fim da liberdade porque o que morre \u00e9 o prop\u00f3sito que prov\u00ea orienta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que desaparece a b\u00fassola que nos indica a dire\u00e7\u00e3o certa e que nos ensina a distinguir o bem do mal. A sociedade ocidental \u00e9 uma sociedade na qual Deus est\u00e1 ausente na esfera p\u00fablica e n\u00e3o tem nada para oferecer a ela. E essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a sociedade perde cada vez mais sua no\u00e7\u00e3o de humanidade. Em pontos individuais, de repente parece que o que \u00e9 ruim e destr\u00f3i o homem se tornou uma quest\u00e3o de rotina.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso da pedofilia. Admitiu-se h\u00e1 pouco tempo como algo leg\u00edtimo, mas se espalhou mais e mais. E agora percebemos com surpresa que as coisas que est\u00e3o acontecendo com nossas crian\u00e7as e jovens amea\u00e7am destru\u00ed-las. O fato de que isso tamb\u00e9m pode ser estendido na Igreja e entre os sacerdotes \u00e9 algo que deve nos interpelar de maneira particular.<\/p>\n<p>Por que a pedofilia atingiu tais propor\u00e7\u00f5es? No final, a raz\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de Deus. N\u00f3s crist\u00e3os e sacerdotes tamb\u00e9m preferimos n\u00e3o falar de Deus porque esse discurso n\u00e3o parece ser pr\u00e1tico. Ap\u00f3s a convuls\u00e3o da Segunda Guerra Mundial, n\u00f3s na Alemanha ainda t\u00ednhamos expressamente em nossa Constitui\u00e7\u00e3o que est\u00e1vamos sob a responsabilidade de Deus como um princ\u00edpio orientador. Meio s\u00e9culo depois, j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel incluir a responsabilidade para com Deus como um princ\u00edpio orientador na Constitui\u00e7\u00e3o Europeia. Deus \u00e9 visto como a preocupa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria de um pequeno grupo e n\u00e3o pode mais ser um princ\u00edpio orientador para a comunidade como um todo. Esta decis\u00e3o \u00e9 refletida na situa\u00e7\u00e3o no Ocidente, onde Deus se tornou um assunto particular, destinado a uma pequena minoria.<\/p>\n<p>Uma tarefa primordial, que deve resultar das convuls\u00f5es morais de nosso tempo, \u00e9 que novamente comecemos a viver para Deus e sob Ele. Acima de tudo, temos que aprender mais uma vez a reconhecer Deus como a base de nossa vida. Em vez de deix\u00e1-lo de lado como se fosse uma frase ineficaz. Jamais esquecerei o aviso do grande te\u00f3logo Hans Urs von Balthasar que uma vez me escreveu em um de seus cart\u00f5es postais. &#8220;N\u00e3o pressuponha o Deus trino: Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo, apresente-o!&#8221;<\/p>\n<p>De fato, na teologia, Deus \u00e9 sempre tomado como uma quest\u00e3o de rotina, mas na vida concreta n\u00e3o a pessoa n\u00e3o se relaciona com Ele. O tema de Deus parece t\u00e3o irreal, t\u00e3o alheio \u00e0s coisas que nos preocupam e entretanto, tudo se torna diferente quando n\u00f3s n\u00e3o pressupomos mas apresentamos Deus aos demais. N\u00e3o deixando para tr\u00e1s como uma moldura, mas reconhecendo-o como o centro de nossos pensamentos, palavras e a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>(2)<\/strong>\u00a0Deus se tornou homem para n\u00f3s. O homem como sua criatura est\u00e1 t\u00e3o perto de seu cora\u00e7\u00e3o que se uniu a si mesmo e, assim, entrou na hist\u00f3ria humana de maneira muito pr\u00e1tica. Ele fala conosco, vive conosco, sofre conosco e assumiu a morte por n\u00f3s. Falamos sobre isso em detalhes em teologia, com palavras e pensamentos aprendidos, mas \u00e9 precisamente assim que corremos o risco de nos tornarmos professores da f\u00e9, em vez de sermos renovados e transformados em mestres pela f\u00e9.<\/p>\n<p>Considere isso com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o central, a celebra\u00e7\u00e3o da Santa\u00a0Eucaristia. Nossa forma de lidar com a Eucaristia s\u00f3 pode gerar preocupa\u00e7\u00e3o. O Conc\u00edlio Vaticano II concentrou-se justamente em devolver este sacramento da presen\u00e7a do corpo e do sangue de Cristo, da presen\u00e7a da sua pessoa, da sua paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, ao centro da vida crist\u00e3 e \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia da Igreja. Em parte, isso realmente aconteceu e devemos ser gratos ao Senhor por isso.<\/p>\n<p>E ainda assim uma atitude muito diferente prevalece. O que predomina n\u00e3o \u00e9 uma nova rever\u00eancia pela presen\u00e7a da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, mas uma maneira de lidar com Ele que destr\u00f3i a grandeza do Mist\u00e9rio. A queda na participa\u00e7\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas dominicais mostra qu\u00e3o pouco os crist\u00e3os de hoje sabem apreciar a grandeza do dom que consiste em sua verdadeira Presen\u00e7a. A Eucaristia tornou-se um mero gesto cerimonial quando se toma por par\u00e2metro que as boas maneiras exigem que que esta seja oferecida em celebra\u00e7\u00f5es familiares ou \u00e0s vezes em casamentos e funerais a todos os convidados, simplesmente por motivos familiares.<\/p>\n<p>A maneira pela qual as pessoas simplesmente recebem o Sant\u00edssimo Sacramento na comunh\u00e3o como algo rotineiro mostra que muitos o veem como um gesto puramente cerimonial. Portanto, quando voc\u00ea pensa sobre a a\u00e7\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1ria em primeiro lugar, \u00e9 bastante \u00f3bvio que n\u00e3o precisamos de outra Igreja com um design pr\u00f3prio. Em vez disso, precisa-se, em primeiro lugar, alcan\u00e7ar a renova\u00e7\u00e3o da f\u00e9 na realidade de que Jesus Cristo realmente nos \u00e9 dado no Sant\u00edssimo Sacramento.<\/p>\n<p>Em conversas com v\u00edtimas de pedofilia, fiquei muito consciente desse primeiro e fundamental requisito.<\/p>\n<p>Uma jovem que tinha sido ac\u00f3lita me disse que o capel\u00e3o, seu superior no culto do altar, sempre a introduzia ao abuso sexual com estas palavras: &#8220;Este \u00e9 o meu corpo que ser\u00e1 entregue por ti&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que esta mulher n\u00e3o pode mais ouvir as palavras da consagra\u00e7\u00e3o sem experimentar novamente a terr\u00edvel ang\u00fastia do abuso. Sim, temos que implorar ao Senhor urgentemente pelo seu perd\u00e3o, mas antes de tudo temos que jurar por Ele e pedir a Ele que nos ensine novamente a entender a grandeza de Seu sofrimento e Seu sacrif\u00edcio. E n\u00f3s temos que fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger o dom da Santa Eucaristia do abuso.<\/p>\n<p><strong>(3)<\/strong>\u00a0E finalmente, est\u00e1 o Mist\u00e9rio da Igreja. A frase com que Romano Guardini, h\u00e1 quase 100 anos, expressou a esperan\u00e7a alegre dele, e de tantos outros, permanece inesquec\u00edvel: &#8220;Um evento de import\u00e2ncia incalcul\u00e1vel come\u00e7ou, a Igreja est\u00e1 despertando nas almas (do povo) &#8221;<\/p>\n<p>Ele quis dizer que a igreja n\u00e3o foi experimentada ou vista simplesmente como um sistema externo que entrou em nossas vidas, como uma esp\u00e9cie de autoridade, mas tinha come\u00e7ado a ser percebido como presente nos cora\u00e7\u00f5es das pessoas, n\u00e3o como algo meramente externo, mas que nos moveu internamente. Quase 50 anos depois, a repensar esse processo e ver o que vem acontecendo, estou tentado a reverter a frase: &#8220;A Igreja est\u00e1 morrendo nas almas (das pessoas).&#8221;<\/p>\n<p>De fato, hoje a Igreja \u00e9 amplamente vista apenas como um tipo de aparato pol\u00edtico. Fala-se dela quase que exclusivamente em categorias pol\u00edticas e isso se aplica at\u00e9 mesmo a bispos que formulam a sua concep\u00e7\u00e3o da Igreja do amanh\u00e3 quase exclusivamente em termos pol\u00edticos. A crise, causada por muitos casos de abuso de cl\u00e9rigos, nos faz olhar para a Igreja como algo quase inaceit\u00e1vel que n\u00f3s temos que tomar em nossas m\u00e3os e redesenhar. Mas uma Igreja que se autoconstr\u00f3i n\u00e3o pode constituir esperan\u00e7a alguma.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Jesus comparou a Igreja a uma rede de pesca na qual o pr\u00f3prio Deus separa os bons peixes dos maus. H\u00e1 tamb\u00e9m uma par\u00e1bola da Igreja como um campo onde o trigo cresce que o pr\u00f3prio Deus semeou com a erva daninha que &#8220;um inimigo&#8221; secretamente lan\u00e7ou. Na verdade, a erva daninha no campo de Deus, a Igreja, \u00e9 agora demasiado vis\u00edvel e os maus peixes na rede tamb\u00e9m mostram sua for\u00e7a. No entanto, o campo ainda \u00e9 o campo de Deus e a rede \u00e9 a rede de Deus. E em todos os tempos n\u00e3o houve apenas m\u00e1 erva daninha ou peixes ruins, mas tamb\u00e9m as colheitas de Deus e a boa pesca. Proclamar ambos com \u00eanfase e da mesma forma n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 uma falsa apolog\u00e9tica, mas um servi\u00e7o necess\u00e1rio \u00e0 Verdade.<\/p>\n<p>Neste contexto, \u00e9 necess\u00e1rio se referir a um texto importante no Apocalipse de Jo\u00e3o. O diabo \u00e9 identificado como o acusador que acusa nossos irm\u00e3os diante de Deus dia e noite. (Apocalipse 12:10). O Apocalipse, em seguida, leva um pensamento que est\u00e1 no centro da narrativa no livro de J\u00f3 (J\u00f3 1 e 2, 10; 42: 7-16). Ali se diz que o diabo procurou mostrar que a retid\u00e3o de vida de J\u00f3 perante Deus era meramente externa. E \u00e9 exatamente isso que o Apocalipse tem a dizer: o diabo quer provar que n\u00e3o h\u00e1 pessoas corretas, que sua corre\u00e7\u00e3o s\u00f3 se mostra externamente. Se algu\u00e9m pudesse se aproximar, a apar\u00eancia da justi\u00e7a cairia rapidamente.<\/p>\n<p>A narrativa come\u00e7a com uma disputa entre Deus e o diabo, na qual Deus se referiu a J\u00f3 como um homem verdadeiramente justo. Agora ele ser\u00e1 usado como um exemplo para provar quem est\u00e1 certo. O diabo pede que todas as suas posses sejam removidas para ver que nada resta de sua piedade. Deus permite que ele fa\u00e7a isso, depois do qual J\u00f3 age positivamente. Ent\u00e3o o dem\u00f4nio pressiona e diz: &#8220;Pele por pele! Sim, tudo que o homem tem dar\u00e1 por sua vida. Agora, por\u00e9m, estende a tua m\u00e3o e toca o seu osso e a sua carne, e ver\u00e1s se n\u00e3o te amaldi\u00e7oa na tua face &#8220;(J\u00f3 2,4f).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Deus d\u00e1 ao dem\u00f4nio um segundo round. Ele tamb\u00e9m toca a pele de J\u00f3 e s\u00f3 lhe \u00e9 negado mat\u00e1-lo. Para os crist\u00e3os, \u00e9 claro que este trabalho, que se coloca diante de Deus como um exemplo para toda a humanidade, \u00e9 Jesus Cristo. No Apocalipse, o drama da humanidade nos \u00e9 apresentado em toda a sua amplitude.<\/p>\n<p>O Deus Criador \u00e9 confrontado com o diabo que fala a toda a humanidade e a toda a cria\u00e7\u00e3o. Ele fala n\u00e3o s\u00f3 a Deus, mas acima de tudo ao povo: Veja o que este Deus fez. Supostamente uma boa cria\u00e7\u00e3o. Na realidade, Ele \u00e9 cheio de mis\u00e9ria e desprazer. O des\u00e2nimo da cria\u00e7\u00e3o \u00e9, na realidade, o desprezo de Deus. Ele quer provar que o pr\u00f3prio Deus n\u00e3o \u00e9 bom e afastar-nos dEle.<\/p>\n<p>A oportunidade da que o Apocalipse nos est\u00e1 falando aqui \u00e9 \u00f3bvia. Hoje, a acusa\u00e7\u00e3o contra Deus \u00e9, acima de tudo, desprezo de Sua Igreja como algo maligno em sua totalidade e, portanto, nos desencoraja dela. A id\u00e9ia de uma Igreja melhor, feita por n\u00f3s mesmos, \u00e9 na verdade uma proposta do diabo, com a qual ele quer nos afastar do Deus vivo usando uma l\u00f3gica enganosa em que podemos facilmente cair. N\u00e3o, ainda hoje a Igreja n\u00e3o \u00e9 feita apenas de peixes ruins e ervas daninhas. A Igreja de Deus tamb\u00e9m existe hoje e hoje \u00e9 o mesmo instrumento pelo qual Deus nos salva.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante opor com toda a verdade as mentiras e meias-verdades do diabo: sim, h\u00e1 pecado e mal na Igreja, mas ainda hoje h\u00e1 a Santa Igreja, que \u00e9 indestrut\u00edvel. Tamb\u00e9m hoje h\u00e1 muitas pessoas que humildemente acreditam, sofrem e amam, em quem o verdadeiro Deus, o Deus amoroso, se mostra a n\u00f3s. Deus tamb\u00e9m tem Suas testemunhas (&#8220;m\u00e1rtires&#8221;) no mundo hoje. N\u00f3s apenas precisamos estar atentos para conseguir v\u00ea-los e ouvi-los.<\/p>\n<p>A palavra m\u00e1rtir \u00e9 tirada da lei processual. No julgamento contra o diabo, Jesus Cristo \u00e9 o primeiro e verdadeiro testemunho de Deus, o primeiro m\u00e1rtir, que desde ent\u00e3o tem sido seguido por in\u00fameros outros.<\/p>\n<p>Hoje, a Igreja \u00e9 mais do que nunca uma Igreja dos m\u00e1rtires e, portanto, um testemunho do Deus vivo. Se olharmos em volta e escutarmos com um cora\u00e7\u00e3o atento, hoje poderemos encontrar testemunhas por toda parte, especialmente entre as pessoas comuns, mas tamb\u00e9m nas altas fileiras da Igreja, que defendem a Deus com suas vidas e seus sofrimentos. \u00c9 uma in\u00e9rcia do cora\u00e7\u00e3o que nos leva a n\u00e3o querer reconhec\u00ea-los. Uma das grandes e essenciais tarefas de nossa evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9, na medida do poss\u00edvel, estabelecer habitats de f\u00e9 e, acima de tudo, encontr\u00e1-los e reconhec\u00ea-los.<\/p>\n<p>Eu moro em uma casa, em uma pequena comunidade de pessoas que descobrem repetidamente esses testemunhos do Deus vivo na vida cotidiana, e que alegremente me dizem isso. Ver e encontrar a Igreja viva \u00e9 uma tarefa maravilhosa que nos fortalece e que, uma e outra vez, nos faz felizes na nossa f\u00e9.<\/p>\n<p>Ao final de minhas reflex\u00f5es, gostaria de agradecer ao Papa Francisco por tudo que ele faz para nos mostrar-nos sempre a luz de Deus que, mesmo nos dias de hoje, n\u00e3o desapareceu.<\/p>\n<p><strong>Obrigado Santo Padre!<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Bento XVI<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documento<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":187350,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[196],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O Diagn\u00f3stico de Bento XVI sobre a crise da Igreja e dos abusos sexuais do clero - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/o-diagnostico-de-bento-xvi-sobre-a-crise-da-igreja-e-dos-abusos-sexuais-do-clero\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Diagn\u00f3stico de Bento XVI sobre a crise da Igreja e dos abusos sexuais do clero - 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