{"id":178792,"date":"2019-04-03T08:40:34","date_gmt":"2019-04-03T11:40:34","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/?p=178792"},"modified":"2020-08-03T10:22:10","modified_gmt":"2020-08-03T13:22:10","slug":"golpe64","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/golpe64\/","title":{"rendered":"Comemorar 1964? Um golpe de classe usando as for\u00e7as armadas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_187383\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-187383\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-187383 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_0308_1.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_0308_1.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_0308_1-450x242.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_0308_1-768x412.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/artigo_0308_1-150x81.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><p id=\"caption-attachment-187383\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <em>\u00a0 \u00a0Imagem ilustrativa (fonte: Arquivo Nacional)<\/em><\/p><\/div>\n<p>Os 55 anos do golpe militar, pela viol\u00eancia que implicou, agora devidamente tirada a limpo pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, n\u00e3o pode deixar nenhum cidad\u00e3o consciente na indiferen\u00e7a. Importa assinalar claramente que o assalto ao poder foi um crime contra a Constitui\u00e7\u00e3o e uma usurpa\u00e7\u00e3o da soberania popular, fonte do direito num Estado democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>O primeiro Ato Institucional de 9\/4\/1964 alijou este princ\u00edpio da soberania popular ao declarar que \u201ca revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa como Poder Constituinte se legitima por si mesma\u201d. Nenhum poder se legitima por si mesmo; s\u00f3 o fazem ditadores que pisoteiam qualquer direito. O golpe militar configurou uma ocupa\u00e7\u00e3o violenta de todos os aparelhos de Estado para, a partir deles, montar uma ordem regida por atos institucionais, pela repress\u00e3o e pelo Estado de terror.<\/p>\n<p>Bastava a suspeita de algu\u00e9m ser subversivo para ser tratado como tal. Mesmo detidos e sequestrados por engano como inocentes camponeses, para logo serem seviciados e torturados. Muitos n\u00e3o resistiram e sua morte equivale a um assassinato. N\u00e3o devemos deixar passar ao largo, os esquecidos dos esquecidos que foram os 246 camponeses mortos ou desaparecidos entre 1964-1979. E agora est\u00e1 sendo descoberta a elimina\u00e7\u00e3o de muitos ind\u00edgenas, tidos como empecilho ao crescimento econ\u00f4mico. Sobre alguns deles foram lan\u00e7adas at\u00e9 bombas de napalm.<\/p>\n<p>O que os militares cometeram foi um crime lesa-p\u00e1tria. Alegam que se tratava de um estado de guerra, um lado querendo impor o comunismo e o outro defendendo a ordem democr\u00e1tica. Esta alega\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta. O comunismo nunca representou entre n\u00f3s uma amea\u00e7a real pois qualquer manifesta\u00e7\u00e3o neste sentido era brutalmente reprimida, n\u00e3o sem o apoio da CIA dos EUA.<\/p>\n<p>Na histeria coletiva do tempo da guerra fria, todos os que queriam reformas na perspectiva dos historicamente condenados e ofendidos \u2013 as grandes maiorias oper\u00e1rias e camponesas \u2013 eram logo taxados de comunistas e de marxistas, como ocorre atualmente no atual regime no qual as palavras \u201ccomunista\u201d e \u201ccultura marxista\u201d s\u00e3o usados como termos de acusa\u00e7\u00e3o e vitup\u00e9rio, como se estiv\u00e9ssemos ainda no tempo da guerra fria de 30 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Bispos como o insuspeito Dom Helder C\u00e2mara, sacerdotes trabalhando nas favelas, religiosas nos fund\u00f5es de nosso pa\u00eds, leigos e leigas, defensores dos ideais democr\u00e1ticos e dos direitos humanos, intelectuais not\u00e1veis foram submetidos a rigorosa vigil\u00e2ncia Contra eles n\u00e3o cabia apenas a vigil\u00e2ncia. Muitos sofreram a persegui\u00e7\u00e3o, a pris\u00e3o, o interrogat\u00f3rio aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores. Os alegados \u201csuic\u00eddios\u201d camuflavam apenas o puro e simples assassinato.<\/p>\n<p>Em nome do combate ao perigo comunista, se assumiu a pr\u00e1tica comunista-estalinista da brutaliza\u00e7\u00e3o dos detidos. Em alguns casos se incorporou o m\u00e9todo nazista de incinerar cad\u00e1veres como admitiu o ex-agente do Dops de S\u00e3o Paulo, Cl\u00e1udio Guerra.<\/p>\n<p>Causa espanto e constitui at\u00e9 um problema filos\u00f3fico a falta de remorsos que o coronel reformado Paulo Magalh\u00e3es h\u00e1 tempos, manifestou \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade de ter atuado na Casa da Morte de Petr\u00f3polis, de ter torturado, assassinado, mutilado cad\u00e1veres e ter ocultado o corpo do deputado Rubens Paiva.<\/p>\n<p>Rudof H\u00f6ss, comandante do campo de exterm\u00ednio nazista em Auschwitz que segundo seus pr<em>\u00f3prios c\u00e1lculos em sua autobiografia (Kommandant in Auschwitz<\/em>,1961) mandou para as c\u00e2maras de g\u00e1s cerca de um milh\u00e3o de judeus, tamb\u00e9m n\u00e3o mostrava nenhum arrependimento. Divertia-se atirando ao leu sobre os prisioneiros e chorava com uma crian\u00e7a ao chegar em casa ao saber que seu passarinho preferido havia morrido. \u00c9 o mist\u00e9rio da iniquidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_178794\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-178794\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-178794 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/ditadura_030419_3.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/ditadura_030419_3.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/ditadura_030419_3-450x253.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/ditadura_030419_3-768x432.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/ditadura_030419_3-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><p id=\"caption-attachment-178794\" class=\"wp-caption-text\"><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Museu da Ditadura Militar no Brasil<\/em><\/p><\/div>\n<p>O Estado ditatorial militar, por mais obras que tenha realizado ( \u201co milagre econ\u00f4mico\u201d foi apropriado apenas por 10% da popula\u00e7\u00e3o, pelos mais ricos, no quadro de um espantoso arrocho salarial), fez regredir pol\u00edtica e culturalmente o Brasil. Expulsou ou obrigou ao ex\u00edlio nossas mais brilhantes intelig\u00eancias e nossos artistas mais criativos. Afogou lideran\u00e7as pol\u00edticas e ensejou o surgimento de s\u00facubos que, oportunistas e destitu\u00eddos de \u00e9tica e de brasilidade, se venderam ao poder ditatorial em troca benesses que v\u00e3o de esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio a canais de televis\u00e3o e de outros benef\u00edcios sociais. E muitos deles est\u00e3o ai, politicamente ativos e ocupando at\u00e9 altos cargos da administra\u00e7\u00e3o do Estado \u201cdemocr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>Os que deram o golpe de Estado deveriam ser responsabilizados moralmente por esse crime coletivo contra o povo brasileiro, como v\u00e1rios juristas j\u00e1 o tem pedido. Os militares se imaginam que foram eles os principais protagonistas desta fa\u00e7anha nada gloriosa como ainda pensa o atual presidente Jair Bolsonaro. Na sua indig\u00eancia anal\u00edtica, mal suspeitam que foram, de fato, usados por for\u00e7as muito maiores que as deles. Disse-o acertadamente Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul, numa entrevista ao Boletim Carta Maior (30\/3\/2014):<strong>\u00a0\u201c<\/strong>O poder n\u00e3o foi apropriado diretamente pelos militares para eles pr\u00f3prios. Foi um projeto pol\u00edtico dos setores mais conservadores e reacion\u00e1rios (burguesia nacional e os latifundi\u00e1rios) que tiveram nas for\u00e7as armadas um apoio e um protagonismo muito grande\u201d.<\/p>\n<p>Ren\u00e9 Armand Dreifuss escreveu em 1980 sua tese de doutorado na Universidade de Glasgow com o t\u00edtulo:\u00a0<em>1964: A conquista do Estado, a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe\u00a0<\/em>(Vozes 1981). Trata-se de um livro com 814 p\u00e1ginas das quais 326 s\u00e3o c\u00f3pias de documentos originais. Por estes documentos fica demonstrado:\u00a0<em>o que houve no Brasil n\u00e3o foi um golpe militar, mas um golpe de classe<\/em>\u00a0<em>com uso da for\u00e7a militar.<\/em><\/p>\n<p>A partir dos anos 60 do s\u00e9culo passado, se formou o complexo IPES\/IBAD\/GLC. Explico: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (IBAD) e o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC). Compunham uma rede nacional que disseminava ideias golpistas, composta por grandes empres\u00e1rios multinacionais, nacionais, alguns generais, banqueiros, \u00f3rg\u00e3os de imprensa, jornalistas, intelectuais, a maioria listados no livro de Dreifuss. O que os unificava, diz o autor \u201ceram suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas multinacionais e associadas, o seu posicionamento anticomunista e a sua ambi\u00e7\u00e3o de readequar e reformular o Estado\u201d(p.163) para que fosse funcional a seus interesses corporativos. O inspirador deste grupo foi o maquiav\u00e9lico General Golbery de Couto e Silva que j\u00e1 em \u201cem 1962 preparava um trabalho estrat\u00e9gico sobre o assalto ao poder\u201d(p.186).<\/p>\n<p>A conspira\u00e7\u00e3o pois estava em marcha, h\u00e1 bastante tempo. Aproveitando-se da confus\u00e3o pol\u00edtica criada ao redor da ren\u00fancia do Presidente J\u00e2nio Quadros e da obstinada oposi\u00e7\u00e3o ao Presidente Jo\u00e3o Goulart, que propunha reformas de base e principalmente a reforma agr\u00e1ria, e por isso, tido como o portador do projeto comunista, este grupo viu a ocasi\u00e3o apropriada para realizar seu projeto. Chamou os militares para darem o golpe e tomarem de assalto o Estado. Foi, portanto, um\u00a0<em>golpe da classe dominante, nacional e multinacional, usando o poder militar.<\/em><\/p>\n<p>Conclui Dreifuss: \u201cO ocorrido em 31 de mar\u00e7o de 1964\u00a0<em>n\u00e3o foi um mero golpe milita<\/em>r;\u00a0<em>foi um movimento civil-militar<\/em>; o complexo IPES\/IBAD e oficiais da ESG (Escola Superior de Guerra) organizaram a tomada do poder do aparelho de Estado\u201d(p. 397).<\/p>\n<p>Especificamente afirma: \u201dA hist\u00f3ria do bloco de poder multinacional e associados come\u00e7ou a 1\u00ba de abril de 1964, quando os novos interesses realmente tornaram-se interesses do Estado, readequando o regime e o sistema pol\u00edtico e reformulando a economia a servi\u00e7o de seus objetivos\u201d(p.489). Todo o aparato de controle e repress\u00e3o era acionado em nome da Seguran\u00e7a Nacional que, na verdade, significava a Seguran\u00e7a do Capital.<\/p>\n<p>O grande golpe de miseric\u00f3rdia ao regime ditatorial foi a publica\u00e7\u00e3o, patrocinada pelo Cardeal de S\u00e3o Pulo, Dom Paulo Evaristo Arns, do livro\u00a0<em>Brasil Nunca mais<\/em>\u00a0(1984), utilizando materiais de 770 processos militares completos com um volume de mais de um milh\u00e3o de p\u00e1ginas. Ai, em fontes do pr\u00f3prio sistema. apareciam as barbaridades cometidas nos por\u00f5es da ditadura.<\/p>\n<p>Militares inteligentes e nacionalistas que os h\u00e1 hoje em dia, deveriam dar-se conta de como foram usados por aquelas elites olig\u00e1rquicas e antipopulares que n\u00e3o buscavam realizar os interesses gerais do Brasil mas sim, alimentar sua voracidade particular de acumula\u00e7\u00e3o, sob a prote\u00e7\u00e3o do regime autorit\u00e1rio dos militares.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade prestou um servi\u00e7o esclarecedor ao pa\u00eds ao trazer \u00e0 luz toda esta trama. Ela simplesmente est\u00e1 cumprindo sua miss\u00e3o de ser Comiss\u00e3o da Verdade. N\u00e3o apenas da verdade de fatos individualizados de viol\u00eancia aos direitos humanos, mas da verdade do <em>fato maior<\/em>\u00a0da domina\u00e7\u00e3o de uma classe poderosa, (anti)nacional, associada \u00e0 multinacional, para, sob a \u00e9gide do poder discricion\u00e1rio dos militares, tranquilamente, realizar seus objetivos corporativos e excludentes. Isso nos custou 21 anos de humilha\u00e7\u00e3o, de priva\u00e7\u00e3o da liberdade, perpetrou assassinatos e desaparecimentos e imp\u00f4s um oneroso padecimento coletivo. Esta classe atuou fortemente no impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e foi um esteio fundamental na vit\u00f3ria de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Por fim, cabe ouvir as palavras da advogada Rosa Cardoso, advogada e defensora da prisioneira pol\u00edtica Dilma Rousseff e hoje integrante da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade numa entrevista ao Boletim <em>Carta Maior<\/em> de 20\/02\/2014: &#8220;Primeiro quero dizer que at\u00e9 hoje as For\u00e7as Armadas devem um pedido de perd\u00e3o \u00e0 sociedade brasileira, com o que estariam assumindo uma posi\u00e7\u00e3o civilizada e democr\u00e1tica, que \u00e9, afinal de contas, o que se espera dos militares no s\u00e9culo 21. Lamentavelmente, at\u00e9 agora, n\u00e3o recebemos nenhum sinal, nenhuma mensagem, que nos indique que haja algum desejo, por parte dos militares, de pedir desculpas e de fazer uma autocr\u00edtica pol\u00edtica sobre seu comportamento\u201d.<\/p>\n<p>Esta d\u00edvida eles a t\u00eam para com todo o povo brasileiro. E dever\u00e3o um dia sald\u00e1-la. Assistimos, envergonhados, no dia 31 de mar\u00e7o de 2019, usando os servi\u00e7os oficiais do Estado, a exibi\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo, ordenado pelo atual Presidente Bolsonaro, exaltando o golpe de 1964. Antes havia baixado ordem que nos quart\u00e9is se celebrasse esse fato, tido pelos historiadores, como hediondo, o golpe de 1964.<\/p>\n<p>O dia primeiro de abril de 2019, 55 anos do golpe civil-militar, \u00e9 um dia de pranto e de luto pelas v\u00edtimas da repress\u00e3o mas tamb\u00e9m dia de \u00e2nimo porque a trucul\u00eancia n\u00e3o pode sufocar o sentimento de dignidade nem abater os ideais democr\u00e1ticos que se firmam mais e mais em nossa consci\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Infelizmente ascendeu \u00e0 Presid\u00eancia em 2019 o ex-capit\u00e3o Jair Bolsonaro. Ele desavergonhadamente exalta a mem\u00f3ria do terr\u00edvel torturador Ulstra, nos USA dedica tempo para visitar a CIA, ag\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o que tantos golpes orquestrou nos anos 60 e posteriores, na Am\u00e9rica Latina, no Chile, para espanto de toda sociedade chilena e do pr\u00f3prio presidente Pi\u00f1era sa\u00fada o ditador Pinochet e em Israel de Netanhiau apoia a repress\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o palestina. Esta figura atropela a Constitui\u00e7\u00e3o, usa as m\u00eddias digitais para difundir falsas not\u00edcias para alimentar \u00f3dio na sociedade, desrespeitando abertamente as leis. Como asseverou um magistrado do Rio de Janeiro Rubens R .R. Casara, vivemos num \u201cEstado p\u00f3s-democr\u00e1tico\u201d e num \u201cEstado sem lei\u201d (t\u00edtulos de dois livros seus, de 2018 e 2019).<\/p>\n<p>Estamos na imin\u00eancia de uma nova tomada do poder de Estado por for\u00e7as militares, dada a degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica oficial, inerte, inoperante e totalmente confusa. Talvez nem quereriam assumir um Estado falido, mas as circunst\u00e2ncias dram\u00e1ticas da desorganiza\u00e7\u00e3o social, da entrega de bens comuns sociais que fundam a soberania, a grupos estrangeiros, da viol\u00eancia disseminada em toda a sociedade, se sintam for\u00e7ados a isso.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe para onde estamos indo. Parece que estamos num voo cego e sem rumo. Mas a nossa cren\u00e7a \u00e9 que o Brasil \u00e9 maior que sua atual crise. Tiraremos duras li\u00e7\u00f5es dela mas sairemos mais maduros, democr\u00e1ticos e amantes desta por\u00e7\u00e3o ridente e maravilhosa do planeta Terra que \u00e9 o Brasil.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong> <em>\u00e9 te\u00f3logo, fil\u00f3sofo, escritor e presidente honor\u00e1rio do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petr\u00f3polis. Escreveu: Brasil: concluir a refunda\u00e7\u00e3o ou prolongar a depend\u00eancia, Vozes 2018.<\/em><\/p>\n<p><em>Dedico este texto ao meu colega de semin\u00e1rio Arno Preis, cheio de fome de justi\u00e7a e de liberdade, assassinado em Paraiso do Norte- GO no dia 15\/2\/1972.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":187385,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[59],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Comemorar 1964? 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