{"id":16441,"date":"2008-04-20T09:59:52","date_gmt":"2008-04-20T12:59:52","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=16441"},"modified":"2020-05-22T12:51:09","modified_gmt":"2020-05-22T15:51:09","slug":"releitura-do-decreto-ad-gentes-apos-40-anos-do-vaticano-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/releitura-do-decreto-ad-gentes-apos-40-anos-do-vaticano-ii\/","title":{"rendered":"Releitura do decreto Ad Gentes ap\u00f3s 40 anos do Vaticano II"},"content":{"rendered":"<h3><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-180969\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2008\/04\/vaticano_1.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"473\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2008\/04\/vaticano_1.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2008\/04\/vaticano_1-450x253.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2008\/04\/vaticano_1-768x432.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2008\/04\/vaticano_1-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/h3>\n<div>\n<h3>Impulsos e Imperativos para a Vida Religiosa<\/h3>\n<p><strong>Por Paulo Suess<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;Gente, vamos ad gentes!<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Nestes 40 anos, o desdobramento do magist\u00e9rio universal da Igreja (Vaticano II, Enc\u00edclicas) foi processado e fertilizado atrav\u00e9s do magist\u00e9rio latino-americano que est\u00e1 presente n\u00e3o s\u00f3 nos documentos de Medell\u00edn (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992), da CLAR, da CNBB e da CRB, mas tamb\u00e9m nas pr\u00e1ticas pastorais e no ch\u00e3o martirial do povo pobre e de seus agentes pastorais que deram a vida pela causa do Reino.<\/p>\n<p><strong>1. Da origem<\/strong><\/p>\n<p>Deus \u00e9 amor que se revelou como Deus-Trindade. Esse amor trinit\u00e1rio transborda, como uma fonte, nas rela\u00e7\u00f5es entre o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo, e nas miss\u00f5es do Filho (encarna\u00e7\u00e3o) e do Esp\u00edrito Santo (doa\u00e7\u00e3o). Jesus, o Enviado do Pai, coloca os disc\u00edpulos na linhagem da &#8220;Miss\u00e3o de Deus&#8221;: &#8220;Como tu me enviaste ao mundo, tamb\u00e9m eu os enviei ao mundo&#8221; (Jo 17,18). Por causa desta origem a Igreja peregrina \u00e9 por sua natureza mission\u00e1ria (Ad gentes, 2).<\/p>\n<p><strong>2. Da meta<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja &#8211; Povo de Deus (Lumen gentium, 9-17) &#8211; povo messi\u00e2nico e prof\u00e9tico &#8211; nasceu da &#8220;Miss\u00e3o de Deus&#8221; que se dirige, em Jesus Cristo, historicamente, a toda a humanidade. Jesus enviou seus disc\u00edpulos para anunciar a boa not\u00edcia da assun\u00e7\u00e3o, da recapitula\u00e7\u00e3o e da reintegra\u00e7\u00e3o da humanidade e do mundo no projeto de Deus (Nova Alian\u00e7a). Na festa de Pentecostes, o conjunto dos disc\u00edpulos se torna explicitamente Igreja &#8211; Povo de Deus. Este povo vive o envio trinit\u00e1rio no seguimento de Jesus, anunciando o Reino como meta historicamente relevante e escatologicamente significativo, como a vida religiosa. O novo Povo de Deus convoca toda a humanidade para o encontro definitivo com Deus. \u00c9 um povo que tem como horizonte um mundo sem fronteiras. Procura, como seu Mestre de Nazar\u00e9, empurrar fronteiras religiosas e \u00e9tnicas, geogr\u00e1ficas e culturais. N\u00e3o terceiriza essa tarefa para o mercado. A Miss\u00e3o vem de Deus e volta para Deus.<\/p>\n<p><strong>3. Dos protagonistas<\/strong><\/p>\n<p>Em seus discursos axiais da Sinagoga de Nazar\u00e9 (Lc 4), das Bem-aventuran\u00e7as (Mt 5) e do \u00daltimo Ju\u00edzo (Mt 25), Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 muito claro. Os protagonistas e o n\u00facleo central de seu projeto, que \u00e9 o Reino, s\u00e3o as v\u00edtimas (os pobres, contritos, cativos, cegos, famintos, sedentos, oprimidos, odiados, peregrinos estranhos, maltrapilhos, enfermos). Mas estes n\u00e3o s\u00e3o apenas os protagonistas ou os destinat\u00e1rios do projeto mission\u00e1rio, s\u00e3o tamb\u00e9m os representantes de Deus no mundo. Como tais apontam para um outro mundo que \u00e9 necess\u00e1rio, poss\u00edvel e real. Um dos novos imperativos \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o da op\u00e7\u00e3o pelos pobres para uma op\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria com os pobres. Para os pobres reserve-se sempre o melhor: o melhor tempo, o melhor vestido, o melhor espa\u00e7o. O Povo de Deus que participa n\u00e3o s\u00f3 do sacerd\u00f3cio comum de todos os fieis (cf. LG 10), mas tamb\u00e9m da infalibilidade &#8220;no ato de f\u00e9&#8221; (LG 12), se constitui a partir dos pequenos, pobres e exclu\u00eddos. Na l\u00f3gica do Reino, os outros, os pobres e os que vivem na esfera sombria do mundo, s\u00e3o caminhos da verdade e porta para a Vida. Isso \u00e9 um indicativo para a importante tarefa da escolha e forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>4. Dos conflitos<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja &#8211; Povo de Deus que caminha at\u00e9 os confins do mundo e do tempo, vive a sua miss\u00e3o no meio de conflitos. Por conseguinte, essa miss\u00e3o \u00e9 sempre uma miss\u00e3o prof\u00e9tica, disposta a perder tudo. Na vida religiosa, os votos apontam para essa disponibilidade da perda total. Ao colaborar na constru\u00e7\u00e3o do projeto de Deus denuncia o antiprojeto. O antiprojeto \u00e9 o reino do p\u00e3o n\u00e3o partilhado, do poder que n\u00e3o se configura como servi\u00e7o, do privil\u00e9gio que favorece a acumula\u00e7\u00e3o e do prest\u00edgio que organiza eventos de ostenta\u00e7\u00e3o em vez de articular processos de transforma\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio da vida p\u00fablica de Jesus, este antiprojeto est\u00e1 presente nas tenta\u00e7\u00f5es (Lc 4,1). Reconhecemos, hoje, o antiprojeto no mundo formatado pelo sistema neoliberal, com a sua l\u00f3gica de custo-benef\u00edcio, de concentra\u00e7\u00e3o de renda (os latif\u00fandios) e de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>5. Da miss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A partir dos conflitos que envolvem os pobres e os outros, os exclu\u00eddos e os que sofrem, compreende-se a miss\u00e3o como milit\u00e2ncia por um mundo melhor e por transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e pessoais concretas. A miss\u00e3o \u00e9 integral (abrange a pessoa em sua totalidade: corpo, alma, esp\u00edrito, intelecto, corporal, emocional, racional espiritual), espec\u00edfica (junto a um determinado grupo social: campo, cidade, afro-americanos, ind\u00edgenas, pescadores, sem-teto, exclu\u00eddos, \u00c1frica ou \u00c1sia) e universal (articula\u00e7\u00e3o dos diferentes segmentos sociais na causa comum do Reino). A miss\u00e3o vai dos contextos concretos das Igrejas locais at\u00e9 os confins do mundo. A miss\u00e3o convoca para fundar comunidades, e essas comunidades se realizam pelo envio (exogamia). O Povo de Deus vive universalmente contextualizado.<\/p>\n<p><strong>6. Do an\u00fancio<\/strong><\/p>\n<p>O an\u00fancio mission\u00e1rio tem uma estrutura pascal e pentecostal. Isso significa, em sua dimens\u00e3o psicol\u00f3gica, ter coragem, ou melhor, n\u00e3o ter medo diante da finitude da vida. A luta n\u00e3o foi, nem ser\u00e1 em v\u00e3o! Em sua dimens\u00e3o teol\u00f3gica significa, anunciar a justi\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o nos diferentes contextos sociais e culturais. Atrav\u00e9s da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, Deus rasgou a senten\u00e7a da morte do Justo. O an\u00fancio mission\u00e1rio \u00e9 um an\u00fancio em defesa da vida em todas as suas dimens\u00f5es (desde a n\u00e3o-manipula\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es at\u00e9 as quest\u00f5es ecol\u00f3gicas). A operacionaliza\u00e7\u00e3o deste an\u00fancio acontece atrav\u00e9s de m\u00faltiplos sinais de justi\u00e7a e imagens de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>7. Da vis\u00e3o do mundo<\/strong><\/p>\n<p>Cultivamos o trigo, n\u00e3o o joio (cf. Mt 13,24-30). Sabemos, por\u00e9m, que o joio faz parte da realidade hist\u00f3rica. O mundo dos &#8220;puros&#8221; seria um mundo do terror e da intoler\u00e2ncia. A ambival\u00eancia da realidade hist\u00f3rica, das pessoas e do mundo e as estruturas de pecado que atravessam o mundo, n\u00e3o anulam a gra\u00e7a. Somos otimistas. O mundo \u00e9 essencialmente bom porque foi criado e redimido por Deus. Acreditamos na presen\u00e7a de Deus no outro e em n\u00f3s, mas temos consci\u00eancia da fragilidade de nossas obras. Sabemos que carregamos a gra\u00e7a de Deus em vasos de barro. Acreditamos na dimens\u00e3o escatol\u00f3gica do Reino, mas n\u00e3o adiamos nossos sonhos para o al\u00e9m. N\u00e3o abrimos m\u00e3o do fim almejado no aqui, agora e hoje. O fim pode estar presente nos passos do cotidiano. A ternura do amor que \u00e9 pra j\u00e1, e o olhar m\u00edstico nos fazem ver em redor de n\u00f3s e, ao mesmo tempo, ver longe. A\u00e7\u00e3o articulada com luta e contempla\u00e7\u00e3o pode transformar a mera agita\u00e7\u00e3o e o trabalho cotidiano \u00b4sem gra\u00e7a` em a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica.<\/p>\n<p><strong>8. Dos meios<\/strong><\/p>\n<p>Trabalhamos com o culturalmente dispon\u00edvel. Assumimos contextos e culturas onde experimentamos a &#8220;prepara\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica&#8221; do Verbo, desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo. A solidariedade mission\u00e1ria se realiza atrav\u00e9s da incultura\u00e7\u00e3o concreta nos contextos (cf. Gaudium et spes, 32). Meios sofisticados s\u00e3o um contra-testemunho para a miss\u00e3o. A efic\u00e1cia mission\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 nos instrumentos utilizados, mas na coer\u00eancia entre a mensagem do Reino e sua contextualiza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m atrav\u00e9s do nosso estilo de vida. Entre todos os meios, por\u00e9m, a partilha, simbolicamente celebrada na Eucaristia, \u00e9 o &#8220;instrumento&#8221; mais eficaz da miss\u00e3o porque permite ver e seguir Jesus. Ao repartir o p\u00e3o, os disc\u00edpulos de Ema\u00fas reconheceram Jesus ressuscitado. S\u00f3 o p\u00e3o repartido vai saciar a fome do povo.<\/p>\n<p><strong>9. Da identidade<\/strong><\/p>\n<p>A identidade mission\u00e1ria \u00e9 a identidade do caminho. Peregrinamos no mundo sem ser do mundo. A peregrina\u00e7\u00e3o nos faz irm\u00e3os e irm\u00e3s dos migrantes, dos sem-teto e sem-terra. Abrimos caminhos, n\u00e3o casas. Somos esperan\u00e7a de \u00e1gua no tempo de seca, esperan\u00e7a do p\u00e3o no tempo de fome, esperan\u00e7a de sentido, num mundo absurdo. Somos esperan\u00e7a pela nossa presen\u00e7a, pelo testemunho, pelo servi\u00e7o e pelo an\u00fancio do Reino. Somos cidad\u00e3os do Reino, n\u00e3o funcion\u00e1rios de institui\u00e7\u00f5es ou sistemas. Somos areia, n\u00e3o \u00f3leo nas m\u00e1quinas do antiprojeto. O caminhar na utopia do Reino constitui a forma mais radical da partilha.<\/p>\n<p><strong>10. Da gratuidade<\/strong><\/p>\n<p>O Evangelho da Gra\u00e7a se faz presente em todas as formas de doa\u00e7\u00e3o da vida: no di\u00e1logo paciente, na presen\u00e7a silenciosa, no testemunho, na contempla\u00e7\u00e3o e na a\u00e7\u00e3o, na caridade, na miseric\u00f3rdia e na justi\u00e7a. Tudo que sustenta a esperan\u00e7a num mundo em desespero \u00e9 um desdobramento da Boa Nova. A funda\u00e7\u00e3o da Igreja na festa de Pentecostes e a gratuidade da salva\u00e7\u00e3o ligam a\u00e7\u00e3o e an\u00fancio mission\u00e1rio de um modo especial ao Esp\u00edrito Santo. A Igreja da Nova Alian\u00e7a fala todas as l\u00ednguas e supera a dispers\u00e3o de Babel (cf. Ad gentes, 4). O Esp\u00edrito Santo \u00e9 o pai dos pobres e o protagonista da miss\u00e3o, mas ele tamb\u00e9m \u00e9 dom divino. As tr\u00eas formas do agir de Deus s\u00e3o, segundo Santo Agostinho, criar (a pessoa humana), gerar (Filho de Deus) e doar (Esp\u00edrito Santo). O Esp\u00edrito Santo \u00e9 Deus no gesto do Dom. Na gratuidade se concretiza a resist\u00eancia contra a l\u00f3gica hegem\u00f4nica de custo-benef\u00edcio (cf. Ef 2,8s). A gratuidade \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da n\u00e3o-viol\u00eancia e da paz. A gratuidade aponta para a possibilidade de um mundo para todos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo do Pe. 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