{"id":16401,"date":"2008-04-19T08:49:49","date_gmt":"2008-04-19T11:49:49","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=16401"},"modified":"2020-05-26T08:27:00","modified_gmt":"2020-05-26T11:27:00","slug":"como-se-sente-um-bispo-aposentado-emerito-morando-junto-aos-hansenianos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/como-se-sente-um-bispo-aposentado-emerito-morando-junto-aos-hansenianos\/","title":{"rendered":"Como se sente um bispo aposentado (Em\u00e9rito) morando junto aos hansenianos?"},"content":{"rendered":"<div id=\"conteudo\">\n<p><em><a href=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/2084_190412.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft  wp-image-16403\" title=\"2084_190412\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/2084_190412.jpg\" alt=\"\" width=\"564\" height=\"884\" \/><\/a>Depoimento de <strong>D. Pasc\u00e1sio Rettler, OFM<\/strong> &#8211; publicado na Revista Grande Sinal, vol.49, 1995, pp. 677-684.<\/em><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Sou Frade franciscano por op\u00e7\u00e3o e Bispo por imposi\u00e7\u00e3o&#8221;. Estas palavras j\u00e1 s\u00e3o suficientes para dar uma resposta \u00e0 pergunta que do Redator da Revista &#8220;Grande Sinal&#8221;, Frei Nilo Agostini dirigiu a mim. Mesmo assim disponho-me a falar um pouco de meu trabalho e de minha experi\u00eancia junto aos hansenianos.<\/p>\n<p>De antem\u00e3o devo dizer que nada h\u00e1 de especial ou extraordin\u00e1rio no servi\u00e7o aos irm\u00e3os hansenianos. \u00c9 simplesmente conseq\u00fc\u00eancia natural, depois de 22 anos de servi\u00e7o, como bispo franciscano, aos irm\u00e3os lavradores e mais pobres do Maranh\u00e3o. Sou considerado bispo aposentado e &#8220;em\u00e9rito&#8221;. Gosto, por\u00e9m, ao assinar cartas ou relat\u00f3rios de fazer entender que sou &#8220;bispo sem m\u00e9rito&#8221;, pois o m\u00e9rito \u00e9 todo e somente Dele.<\/p>\n<p>\u00c9 conhecido de todos que S\u00e3o Francisco, no in\u00edcio de sua caminhada, se converteu, principalmente, no momento de seu encontro com o irm\u00e3o leproso (hanseniano). Espero que at\u00e9 o fim de minha caminhada terrestre possa alcan\u00e7ar tamb\u00e9m minha convers\u00e3o&#8230;<br \/>\n<strong>Motivo de minha decis\u00e3o de servir aos hansenianos<\/strong><\/p>\n<p>Ao completar 75 anos, todo bispo deve pedir ao Santo Padre a ren\u00fancia \u00e0 administra\u00e7\u00e3o e cuidado de sua diocese. Meio ano antes de chegar aos 75, fiz meu pedido, por meio do Sr. N\u00fancio Apost\u00f3lico. Disse-me, na ocasi\u00e3o que n\u00e3o devia ter pressa e que era conveniente esperar mais um tempo. Alertou-me tamb\u00e9m que tal espera \u00e9, muitas vezes, longa. Insisti, por\u00e9m, dizendo que j\u00e1 havia providenciado um trabalho pastoral &#8220;novo&#8221;. A isso o N\u00fancio se comoveu e se prontificou a ajudar, junto ao Santo Padre para que rapidamente eu recebesse a autoriza\u00e7\u00e3o da ren\u00fancia. A resposta veio no dia em que completei 75 anos (26 de janeiro de 1990).<\/p>\n<p>E porque me adiantei em providenciar um &#8220;lugarzinho&#8221; para os dias de minha &#8220;aposentadoria&#8221;? Em julho de 1989 falecera o Confrade Frei Al\u00edpio Both, que por mais de 30 anos, ele mesmo portador da hansen\u00edase, servira como capel\u00e3o no meio dos hansenianos, no Hospital de Pirapiting\u00fc\u00ed, SP. S\u00f3 fiquei sabendo da morte do confrade quando, numa ocasi\u00e3o, conversei por telefone com o Ministro Provincial, Frei Estev\u00e3o Ottenbreit. A ele fiz a pergunta imediatamente: &#8220;Quem vai substituir a Frei Al\u00edpio?&#8221; Respondeu-me ele: &#8220;No momento, n\u00e3o temos nenhum Frade que possa substituir o confrade falecido&#8221;. No mesmo instante pedi-lhe que segurasse o lugar para mim.<\/p>\n<p>Este pedido abalou-me, posteriormente, um pouco, pois comecei a pensar no que pedira. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o era conveniente dar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Quando, tempos depois, fui a S\u00e3o Paulo conversar com o Ministro Provincial, interrompeu-nos Frei Pedro Pinheiro, que desejava mostrar um grande e belo quadro que pintara: S\u00e3o Francisco e o Leproso. Conclu\u00ed, logo que Deus estava querendo mesmo me &#8220;empurrar&#8221; para o meio dos leprosos (hansenianos).<\/p>\n<p>No dia seguinte, viajei para Jundia\u00ed para falar com Dom Roberto Pinarelli, bispo diocesano a cuja diocese pertence a \u00e1rea do hospital de Pirapiting\u00fci. O Sr. bispo estava numa reuni\u00e3o com o Clero de sua Diocese. Logo me atendeu, por\u00e9m, e quis saber do motivo da visita. Ao torn\u00e1-lo informado do meu desejo de ser capel\u00e3o no hospital, disse-me que era justamente este o assunto em pauta na reuni\u00e3o. E lamentava que estava tendo dificuldades em encontrar um sacerdote que se dispusesse a prestar este servi\u00e7o. Com alegria, pois, me aceitou como capel\u00e3o.<\/p>\n<p>Tr\u00eas acontecimentos me faziam ver que a minha primeira decis\u00e3o deveria ser confirmada: a conversa com o Ministro Provincial, o quadro art\u00edstico de S\u00e3o Francisco com o leproso e o encontro com Dom Roberto. Era o &#8220;empurr\u00e3o&#8221; do Esp\u00edrito Santo para que um bispo aposentado pudesse servir aos irm\u00e3os e irm\u00e3os hansenianos.<\/p>\n<p>Ao me despedir dos irm\u00e3os e colaboradores de Bacabal, MA, meu sempre eficiente Vig\u00e1rio Geral, Frei Heriberto Rembecki, Ofm, me deu, com &#8220;ar malandrinho&#8221; um consolo: se pegasse a lepra, esta se iria manifestar somente ap\u00f3s 10 anos, quando j\u00e1 estaria morto. Alguns, realmente, me diziam que era horr\u00edvel cuidar dos hansenianos e me incentivavam a desistir do prop\u00f3sito&#8230;<\/p>\n<p>Parti de Bacabal com saudade dos colaboradores e da Diocese. Comecei, por\u00e9m, com alegria, em fevereiro de 1990, meu novo trabalho pastoral no Hospital &#8220;Dr. Francisco Ribeiro Arantes&#8221;, como \u00e9 conhecido em Pirapiting\u00fci, Munic\u00edpio de Itu e Diocese de Jundia\u00ed, SP.<\/p>\n<p>No dia 18 de fevereiro de 1990, celebrei minha primeira missa na Vila dos hansenianos, recebendo a &#8220;posse&#8221; pelo bispo Dom Roberto. Muitos doentes participaram da missa. Fiquei, naturalmente, um pouco chocado, ao celebrar, com tantos doentes a Eucaristia. E mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o o modo como esses doentes fracos e pobres, com alegria, recebiam seu capel\u00e3o. Senti que estavam felizes, sobretudo, por terem de novo um sacerdote no meio deles para oferecer-lhes os Sacramentos e celebrar a Eucaristia, sua fonte principal de consolo e for\u00e7a. Ao mesmo tempo, senti-me muito envergonhado: nos rostos deles, muitos desfigurados, marcados pela dor, havia uma alegria que se irradiava pela longa salva de palmas ao lhes ser apresentado. Raras vezes senti, durante minha vida sacerdotal, tamanha alegria interior, como esta &#8220;Primeira Eucaristia&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favidas de que at\u00e9 agora fui mais enriquecido pelos irm\u00e3os doentes do que eu pude dar a eles. Sei tamb\u00e9m que os anos de bispo no meio dos irm\u00e3os de Bacabal, que muito me marcaram, prepararam-me para poder assumir minha nova tarefa pastoral no meio de irm\u00e3os t\u00e3o sofredores e, sem d\u00favida, por causa da doen\u00e7a, marginalizados e exclu\u00eddos.<\/p>\n<p><strong>Problemas e dificuldades para uma pessoa de sa\u00fade morar no meio dos hansenianos<\/strong><\/p>\n<p>Desde minha primeira visita ao hospital, havia decidido morar no meio dos doentes. A casa que servira de moradia para o falecido Frei Al\u00edpio estava ocupada por um doente. N\u00e3o havia mais, portanto, uma resid\u00eancia pr\u00f3pria para o capel\u00e3o. Como &#8220;Westfaliano&#8221; (dizem que s\u00e3o teimosos) n\u00e3o desanimei e morei por 5 meses na sacristia da capela. Faltava, contudo, a licen\u00e7a para morar no hospital. H\u00e1 uma lei que pro\u00edbe isto. Falei com o administrador do hospital, Dr. D\u00e9cio, e com a Diretora, Dra. Edil\u00e9ia, tentando conseguir a licen\u00e7a.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Supervisor da Sa\u00fade, de Sorocaba, Dr. Ganini, me prometera que se interessaria junto ao Secret\u00e1rio de Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo. Uma vez que a tramita\u00e7\u00e3o demorava, decidi ir pessoalmente a S\u00e3o Paulo para conversar com Dr. Pinotti. Frei Const\u00e2ncio Nogara, tamb\u00e9m j\u00e1 havia falado com ele sobre o assunto. Feliz coincid\u00eancia: o recepcionista da Secretaria era natural de Pedreiras, diocese de Bacabal. Por interm\u00e9dio dele, consegui logo, uma audi\u00eancia com o Secret\u00e1rio. Outra coincid\u00eancia: na mesma oportunidade, Dr. Ganini chegava. E a resposta veio clara: &#8220;Existe a lei, mas a caridade passa por cima. O Senhor pode morar dentro do hospital&#8221;. Mas, morar onde ?<\/p>\n<p>Na sacristia ainda havia lugar para uma cama e resolvi morar l\u00e1 at\u00e9 que pudesse ficar pronta uma casa que podia ser constru\u00edda perto da Igreja. Rapidamente ficou pronta: 3 c\u00f4modos, cozinha, sala-de-estar, escrit\u00f3rio e quarto, com biblioteca. \u00c0 casa dei o nome de &#8220;Bet\u00e2nia&#8221;, como lembran\u00e7a da Vila Bet\u00e2nia que os pistoleiros de Bacabal queimaram, em sinal de protesto contra nossa pastoral em favor dos lavradores. Espero que esta Nova Bet\u00e2nia seja uma casa em que os hansenianos possam ser atendidos e animados em sua caminhada de sofrimento e possam encontrar, ao mesmo tempo o consolo que Jesus levou \u00e0 casa de L\u00e1zaro e suas irm\u00e3s Marta e Maria. Gra\u00e7as a Deus, sinto-me muito bem nesta casa que tamb\u00e9m serve para a reuni\u00e3o de grupos e ensaio de cantos para um coral dos doentes.<\/p>\n<p><strong>O trabalho pastoral no meio dos irm\u00e3os hansenianos<\/strong><\/p>\n<p>Nas pequenas casas, nos pavilh\u00f5es e enfermarias que comp\u00f5em o hospital moram 870 doentes. Mais de 100 doentes moram na Psiquiatria. Toda manh\u00e3, pelas 08h00, viajo num pequeno Fiat, pelas ruas da Vila, visitando os doentes, procurando conversar com eles sobre seus problemas e necessidades. O supermercado \u00e9 o lugar em que encontro sempre um grupo de doentes. Ali paro por uma meia hora. \u00c9 um lugar estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>As enfermeiras sempre me avisam quando um doente deseja ou precisa receber os Santos Sacramentos. Geralmente, alguns Ministros da Eucaristia de Itu, levam a Eucaristia aos doentes e me ajudam, aos domingos, nas celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas.<\/p>\n<p>Cada domingo, celebro \u00e0s 08h00 na Igreja do hospital que foi toda renovada. Encontrava-se em estado deplor\u00e1vel. \u00c0s 10h00 celebro na Capela de S\u00e3o Francisco, igualmente, dentro da \u00e1rea do hospital. Esta capela foi constru\u00edda com a ajuda de parentes e amigos da Alemanha. Serve, especialmente, aos doentes que, por causa de seus p\u00e9s deformados, n\u00e3o podem caminhar at\u00e9 a Igreja. Nela se pode entrar, facilmente, com cadeiras de rodas. \u00c9 louv\u00e1vel a boa participa\u00e7\u00e3o dos doentes nas duas celebra\u00e7\u00f5es. E, em muitos domingos, participam da missa Grupos de Solidariedade que querem se unir aos doentes para a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia. Em muitos domingos, celebro uma terceira missa numa das par\u00f3quias de Itu. Durante a semana, celebro \u00e0s 18 horas, em casa, com um grupo de doentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma vez por m\u00eas dou assist\u00eancia religiosa a um grupo de Cursilhistas de Itu. Prego diversos retiros para Fraternidades da OFS e retiros mensais, no pr\u00f3prio hospital. Nesses retiros mensais, fa\u00e7o uma reflex\u00e3o sobre o hanseniano no tempo de Cristo, de S\u00e3o Francisco e nos dias de hoje. Depois, os participantes visitam os doentes. Ao voltar, fazemos uma reflex\u00e3o sobre seus encontros com os enfermos. Termino sempre com a Santa Missa. Por tr\u00eas anos fui assistente espiritual da Fraternidade da OFS, em Sorocaba, na Par\u00f3quia Santa Rita. Muitas vezes, ainda, sou solicitado para prega\u00e7\u00f5es nas festas de padroeiro das par\u00f3quias de Itu e cidades vizinhas.<\/p>\n<p>Nas festas lit\u00fargicas, aproveito sempre para animar os doentes. Comovente \u00e9 a Semana Santa, com o Lava-p\u00e9s dos doentes, a Prociss\u00e3o de Nosso Senhor Morto, a M\u00e3e das Dores, etc. Tamb\u00e9m na festa do Corpo de Deus n\u00e3o falta a prociss\u00e3o, da qual os doentes participam, mesmo que isto custe muito sacrif\u00edcio. No Natal, constru\u00edmos um grande pres\u00e9pio que abrange todo o presbit\u00e9rio da capela. Por causa do grande n\u00famero de moradores no bairro em volta do hospital, cerca de trinta mil, sem assist\u00eancia de um padre, muitos participam da vida eclesial do hospital e ali v\u00e3o para batizar seus filhos ou celebrar o matrim\u00f4nio. Outras tantas vezes, pedem visita a seus doentes. Nos tr\u00eas primeiros anos celebrei a missa dominical na Vila Martins, vila dos &#8220;egressos&#8221;! que s\u00e3o os doentes tratados em casa. Quando tenho que me ausentar, nos fins de semana, substituem-me os frades do Convento S\u00e3o Francisco, em S\u00e3o Paulo, principalmente Frei At\u00edlio Abati.<\/p>\n<p><strong>Assist\u00eancia social aos hansenianos<\/strong><\/p>\n<p>Somente palavras bonitas e piedosas n\u00e3o resolvem os problemas dos doentes. De maneiras muito diferentes fui descobrindo como ajudar os doentes por meio de medicamentos, material de curativo, etc. Com a ajuda de parentes e amigos da Alemanha e do Brasil, conseguir arranjar medicamentos especiais para a hansen\u00edase pela Medeor e grupos de solidariedade.<\/p>\n<p>Quando veio a primeira remessa de medicamentos da Alemanha, via a\u00e9rea, houve muitas dificuldades na alf\u00e2ndega, apesar de toda a documenta\u00e7\u00e3o estar em ordem. Eu dizia apenas aos funcion\u00e1rios do aeroporto que Deus iria ajudar aos doentes e daria um jeito. Quando cheguei, na manh\u00e3 seguinte, ao aeroporto para buscar os medicamentos, os respons\u00e1veis me disseram: &#8220;Frei, leve logo tudo para o hospital porque ontem \u00e0 noite morreu um dos nossos funcion\u00e1rios. N\u00e3o queremos morrer aqui&#8221;. Certamente, tinham considerado minhas palavras do dia anterior como uma &#8220;amea\u00e7a&#8221; e a morte como um castigo de Deus. Repeti-lhes que n\u00e3o desejava mal a ningu\u00e9m, mas que tamb\u00e9m eles n\u00e3o prejudicassem aos doentes&#8230;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tive que iniciar uma reforma nas enfermarias do hospital. Estavam em p\u00e9ssimo estado. Gra\u00e7as a Deus, a administra\u00e7\u00e3o do hospital se incumbiu, em seguida, da reforma das outras enfermarias. Nestas enfermarias est\u00e3o acomodados mais de 100 doentes em estado grave. Parentes e amigos da Obra Kolping, de minha cidade natal, colaboraram na constru\u00e7\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o de uma UTI, muito necess\u00e1ria para um atendimento melhor aos doentes. Para muitos doentes atingidos nos p\u00e9s pela hansen\u00edase, consegui uma Kombi que os levava, todos os dias, para a Fisioterapia. Outro grande problema para muitos doentes era a falta de cadeira de rodas e de pr\u00f3teses. Consegui 40 cadeiras de rodas e muitas pr\u00f3teses.<\/p>\n<p>Certamente, n\u00e3o adianta dizer que tudo isso \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o do Estado. O que \u00e9 certo \u00e9 que pouco se faz pela sa\u00fade, particularmente quando se trata da sa\u00fade dos pobres.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m consegui a instala\u00e7\u00e3o de uma Escola de Alfabetiza\u00e7\u00e3o. Anualmente trinta doentes aprendem a ler e escrever. Desta maneira se ocupam melhor. Cuido at\u00e9 de providenciar livros e revistas. Tamb\u00e9m me encarrego de possibilitar uma terapia ocupacional, favorecendo a aprendizagem de diversas profiss\u00f5es. O que sempre me surpreende \u00e9 a resposta dos doentes \u00e0 pergunta: Como vai? Vou bem, respondem. Ensinam a gente a n\u00e3o se queixar de nada.<\/p>\n<p>Destas considera\u00e7\u00f5es pode-se perceber que a hansen\u00edase, mais do que um problema m\u00e9dico, \u00e9 tamb\u00e9m um problema social que, em geral, acomete as popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tem acesso \u00e0 boa condi\u00e7\u00e3o de vida. \u00c9 uma mol\u00e9stia como outra qualquer, cujo cont\u00e1gio \u00e9 muito dif\u00edcil. O que \u00e9 preciso: combater os preconceitos injustos e infames que, lamentavelmente, ainda pesam sobre o Mal de Hansen.<\/p>\n<p>O doente de Hansen n\u00e3o precisa de compaix\u00e3o, mas muito de solidariedade e compreens\u00e3o. Quando cheguei aqui no hospital, logo me confidenciaram: &#8220;se quiser ganhar a confian\u00e7a dos hansenianos, n\u00e3o deve ter medo deles&#8221;. Minha conviv\u00eancia e experi\u00eancia me provam esta afirma\u00e7\u00e3o&#8230; O hanseniano pode tamb\u00e9m cuidar dos seus filhos, tratar a sua doen\u00e7a, regularmente. Era costume tirar a crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida e levar logo a um &#8220;Prevent\u00f3rio&#8221; (hospital especial, ou melhor, creche para estas crian\u00e7as). Hoje, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o existe mais este preconceito e j\u00e1 batizei a primeira crian\u00e7a nascida aqui no hospital. A pessoa doente ainda precisa muito do apoio de sua fam\u00edlia, da compreens\u00e3o das pessoas que a cercam. Mais do que pela doen\u00e7a, muitos doentes sofrem pelo abandono da fam\u00edlia. &#8220;A fam\u00edlia n\u00e3o me visita mais&#8221;, dizem. Sentem-se, ent\u00e3o, realmente exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m minha miss\u00e3o de capel\u00e3o reativar o amor dos familiares com seus entes queridos doentes: pai, m\u00e3e, irm\u00e3os ou filhos&#8230; Para mim, pessoalmente, esta conviv\u00eancia de quase seis anos com os hansenianos \u00e9 uma aventura a mais, como frade e capel\u00e3o. Vejo que tudo se torna motivo para melhor louvar o Senhor. O que posso fazer \u00e9 decorrente da miss\u00e3o que um dia assumi.<\/p>\n<p><strong>Dia-a-dia de um bispo aposentado no meio dos irm\u00e3os hansenianos<\/strong><\/p>\n<p>Pelas 6 horas da manh\u00e3 preparo meu caf\u00e9, fa\u00e7o a ora\u00e7\u00e3o da manh\u00e3, vejo o notici\u00e1rio, visito os doentes e cuido da correspond\u00eancia. Almo\u00e7o sempre na cozinha de um doente. \u00c0s 18 horas celebro a Eucaristia em casa, com a participa\u00e7\u00e3o de um grupo de doentes. Pelas 20 horas visito a um doente, em sua casa. Ali, costumam se reunir, normalmente, alguns doentes para debater os seus problemas e os do hospital, at\u00e9 \u00e0s 21 horas. \u00c0 noite tenho ainda um bom tempo para leitura e estudo.<\/p>\n<p>Mensalmente participo da reuni\u00e3o do Clero da Diocese e quando poss\u00edvel, da reuni\u00e3o dos confrades do Regional de S\u00e3o Paulo. A cada quinze dias, passo um dia no Convento S\u00e3o Francisco, em S\u00e3o Paulo, para n\u00e3o perder o contato com os irm\u00e3os da Ordem Franciscana. Anualmente, participo da Assembl\u00e9ia da CNBB, em Itaici. N\u00e3o considero que alguns bispos me chamem &#8220;fraternalmente&#8221;, como a todos os bispos aposentados de &#8220;bispo exclu\u00eddo&#8221;. De fato, n\u00e3o tenho direito a voto. Como bispo aposentado, com mais de 80 anos de idade, posso ainda votar como brasileiro. Isto me basta.<\/p>\n<p>Finalizando estas considera\u00e7\u00f5es, posso apenas dizer como bispo aposentado que me sinto muito feliz e realizado. Pe\u00e7o a Deus e aos irm\u00e3os que rezem por mim, para poder servir aos irm\u00e3os hansenianos at\u00e9 o fim da minha vida.<\/p>\n<p>Cada vez que fa\u00e7o a encomenda\u00e7\u00e3o de um irm\u00e3o hanseniano falecido, sinto uma &#8220;santa inveja&#8221;. Vendo o corpo do falecido, todo deformado no rosto, nas m\u00e3os, nas pernas, \u00e0s vezes, amputadas, lembro-me da alma que esteve no corpo deste irm\u00e3o, desta irm\u00e3. Com quanto merecimento n\u00e3o estar\u00e1 tal irm\u00e3o ou irm\u00e3 participando agora da gl\u00f3ria do c\u00e9u, junto com Deus, nosso Senhor e Pai. O enterro de um hanseniano se parece muito a uma prociss\u00e3o de triunfo. Muito j\u00e1 pude aprender destes irm\u00e3os doentes vivos e falecidos.<\/p>\n<p>Pirapiting\u00fci, 28 de agosto de 1995, festa de Santo Agostinho.<br \/>\n<strong>Frei Pasc\u00e1sio Rettler, Ofm<br \/>\nCapel\u00e3o<\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de D. 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