{"id":122246,"date":"2016-12-14T11:20:45","date_gmt":"2016-12-14T13:20:45","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=122246"},"modified":"2020-05-29T09:29:03","modified_gmt":"2020-05-29T12:29:03","slug":"a-misericordia-dos-dois-franciscos-de-assis-e-de-roma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-misericordia-dos-dois-franciscos-de-assis-e-de-roma\/","title":{"rendered":"A Miseric\u00f3rdia dos dois Franciscos: de Assis e de Roma"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/francisco_151216.jpg\" alt=\"francisco_151216\" width=\"830\" height=\"445\" \/><\/p>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 not\u00f3ria a presen\u00e7a da miseric\u00f3rdia na vida de S\u00e3o Francisco, para com os pobres, com os pecadores, com os confrades relapsos e para com os demais seres da cria\u00e7\u00e3o, seus irm\u00e3os e irm\u00e3s. Caso se deva imp\u00f4r alguma penit\u00eancia, diz na\u00a0Regra 7, 2,\u00a0que \u201cse fa\u00e7a com miseric\u00f3rdia\u201d. Na\u00a0Carta aos Fi\u00e9is 8, 43,\u00a0recomenda ao superior que \u00a0\u201cmanifeste e pratique tal miseric\u00f3rdia como gostaria que se lhe aplicasse a ele\u201d. Por fim, na\u00a0 Admoesta\u00e7\u00e3o 27,6\u00a0afirma com verdade: \u201cOnde h\u00e1 miseric\u00f3rdia a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 dureza de cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9\u00a0 hoje calam fundo na alma as palavras do Testamento: \u201cO Senhor mesmo me conduziu entre os hansenianos (leprosos) e eu tive\u00a0miseric\u00f3rdia\u00a0com eles\u201d. Quer dizer, colocou-se no lugar deles, conviveu com eles e participou de todas as discrimina\u00e7\u00f5es que na \u00e9poca os hansenianos sofriam.<\/p>\n<p>Para S\u00e3o Francisco \u00e9 por miseric\u00f3rdia que Cristo se fez pres\u00e9pio, se escondeu sob as simples esp\u00e9cies de p\u00e3o e de vinho e nos visita na roupagem dos pobres dos caminhos.<\/p>\n<p>A mesma centralidade da miseric\u00f3rdia encontramos no outro Francisco, aquele de Roma. Instituiu em 2015\/2016 o \u201cAno da Miseric\u00f3rdia\u201d e escreveu o belo op\u00fasculo \u201cO nome de Deus \u00e9 miseric\u00f3rdia\u201d.<\/p>\n<p>Disse enfaticamente:\u00a0\u201cO Deus de miseric\u00f3rdia, o Deus misericordioso, para mim, \u00e9 de fato a\u00a0carteira de identidade\u00a0do nosso Deus\u201d.<\/p>\n<p>Efetivamente, o Papa Francisco est\u00e1 na linha da Tradi\u00e7\u00e3o de Jesus, para quem Deus \u00e9 fundamentalmente amor, mas amor misericordioso que chega a amar \u201cos ingratos e maus\u201d (Lc 6,35). A miseric\u00f3rdia \u00e9 a nota distintiva do Deus de Jesus Cristo e de todo o cristianismo.<\/p>\n<p>Para Jesus, n\u00e3o basta ser bom e observar todas as leis como o irm\u00e3o do filho pr\u00f3digo que ficou em casa com seu pai. Precisamos ser misericordiosos.\u00a0O filho bom e fiel \u00e9 o \u00fanico a ser criticado porque n\u00e3o mostrou miseric\u00f3rdia para com o irm\u00e3o\u00a0 que se havia perdido no mundo mas que,\u00a0 arrependido, voltara \u00e0 casa paterna (Lc 15, 11-32).<\/p>\n<p>Santo Tom\u00e1s de Aquino, na Suma Teol\u00f3gica, coloca a miseric\u00f3rdia como a forma mais alta do amor. Afirma que \u201ca miseric\u00f3rdia \u00e9 a virtude maior. Pois, faz parte da miseric\u00f3rdia derramar-se sobre os outros e o que \u00e9 mais belo ainda \u2013 ajudar a fraqueza dos outros e isto \u00e9 uma coisa de quem se encontra mais elevado.\u00a0Por isso a miseric\u00f3rdia \u00e9 precisamente atribu\u00edda a Deus como sua caracter\u00edstica essencial; e diz-se que \u00e9 atrav\u00e9s dela que sua onipot\u00eancia se manifesta de forma melhor\u201d.<\/p>\n<p>E conclui com palavras semelhantes: \u201cEntre todas as virtudes que t\u00eam a ver com o pr\u00f3ximo \u00e9 a miseric\u00f3rdia, a mais elevada e a mais importante, porque tem tamb\u00e9m um status mais elevado; pois ajudar a fraqueza do outro \u00e9, em si, algo de mais elevado e melhor\u201d.<\/p>\n<p>O Papa Francisco reafirmou numa de suas homilias: \u201cA miseric\u00f3rdia \u00e9 a atitude divina que abra\u00e7a; \u00e9 o doar-se de Deus que acolhe, que se predisp\u00f5e a perdoar\u201d.<\/p>\n<p>Nietzsche que disse tantas irrever\u00eancias, afirmou em seu\u00a0Assim\u00a0 falou Zaratustra,\u00a0algo que merece ser refletido: \u201cTamb\u00e9m Deus tem o seu inferno: \u00e9 o seu amor pelos homens\u2026 Deus est\u00e1 morto, morreu por sua compaix\u00e3o para com os homens\u201d.<\/p>\n<p>A inv\u00e9s de prolongar uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica mais acurada, prefiro estender-me um pouco sobre os fundamentos antropol\u00f3gicos da miseric\u00f3rdia e a imagem de Deus que ela pressup\u00f5e.<\/p>\n<h3><strong>A religi\u00e3o do Deus-M\u00e3e: a miseric\u00f3rdia<\/strong><\/h3>\n<p>As imagens de Deus dominantes nas religi\u00f5es atuais nasceram, em sua grande maioria, no quadro da cultura patriarcal.\u00a0Nela, a imagem predominante de Deus \u00e9 aquele do Senhor do c\u00e9u e da Terra, que disp\u00f5e de todos os poderes, justiceiro e Pai severo. Sua caracter\u00edstica principal \u00e9 a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Anteriormente vigorava a cultura matriarcal, uma das fases da hist\u00f3ria humana, vigente por volta de vinte mil anos atr\u00e1s. A imagem de Deus era feminina, da Grande M\u00e3e, da M\u00e3e dos mil seios, geradora de toda vida. Produziu uma cultura mais em harmonia com a natureza e profundamente espiritual. A caracter\u00edstica do Deus-m\u00e3e era a miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>O nosso inconsciente, pessoal e coletivo, guarda na forma de arqu\u00e9tipos e de grandes sonhos, estas experi\u00eancias feitas sob as duas formas de organizar a experi\u00eancia religiosa, sob a figura do pai e sob a figura da m\u00e3e. Como Freud j\u00e1 observou, elas constituem as bases ps\u00edquicas a partir das quais projetamos as nossas imagens de Deus,\u00a0 seja como Deus-Pai seja como Deus-M\u00e3e.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, estas figuras est\u00e3o presentes em n\u00f3s sob a forma de arqu\u00e9tipos seminais que nos acompanham durante toda a vida. Elas sempre v\u00eam \u00e0 tona por uma ignota saudade, pelo imagin\u00e1rio, pelas grandes narrativas, pela arte, pela m\u00fasica e por s\u00edmbolos de toda ordem.<br \/>\nMas h\u00e1 outra imagem, presente na hist\u00f3ria das religi\u00f5es e tamb\u00e9m na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 que nos remete ao tema da compaix\u00e3o e da miseric\u00f3rdia.\u00a0 Era por onde S\u00e3o Francisco vivenciava a encarna\u00e7\u00e3o. Ela se manifesta pelo Deus que se faz crian\u00e7a, que n\u00e3o julga, mas que choraminga e convive. Um Deus que se enche de compaix\u00e3o e chora pela morte do amigo L\u00e1zaro; que \u201ccompadeceu-se de nossas fraquezas\u201d (Hb 4,15) e que \u201caniquilou-se a si mesmo, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servo em\u00a0solidariedade (compaix\u00e3o)\u00a0 conosco\u201d (Fl 2,7); que \u201csoube compadecer-se dos que est\u00e3o na ignor\u00e2ncia e no erro, porque ele tamb\u00e9m est\u00e1 cercado de fraqueza\u201d (Hb 5, 5,2) e que \u201cn\u00e3o obstante ser Filho de Deus teve que aprender a obedecer pelo sofrimento\u201d (Hb 5,8). Eis os sinais de sua compaix\u00e3o e miseric\u00f3rdia para conosco: a forma que o Filho tomou ao encarnar-se.<\/p>\n<p>William Bowling, m\u00edstico ingl\u00eas do s\u00e9culo XVII,\u00a0 concretizava ainda mais a miseric\u00f3rdia de Cristo, dizendo: \u201cCristo verteu seu sangue tanto pelas vacas e pelos cavalos quanto por n\u00f3s homens\u201d. \u00c9 a dimens\u00e3o transpessoal e c\u00f3smica da reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Papa Francisco numa audi\u00eancia de 28 de outubro de 2015 enfatizou tamb\u00e9m esta dimens\u00e3o c\u00f3smica da miseric\u00f3rdia: \u201cA miseric\u00f3rdia para a qual somos chamados abra\u00e7a toda a cria\u00e7\u00e3o que Deus nos confiou para sermos cuidadores e n\u00e3o exploradores, ou pior ainda, destruidores\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 um comovente\u00a0midrash\u00a0judaico (um relato) sobre o choro de Deus. Quando viu os cavaleiros eg\u00edpcios com seus cavalos serem tragados pelas ondas do Mar Vermelho depois da passagem a p\u00e9 enxuto de todo o povo de Israel, Deus olhou para tr\u00e1s\u00a0e n\u00e3o se conteve. Chorou.<\/p>\n<p>\u201cOs eg\u00edpcios n\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m\u00a0 meus filhos e filhas queridos e n\u00e3o apenas os descendentes\u00a0 de Abra\u00e3o e de Jac\u00f3\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 rica a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica que fala da miseric\u00f3rdia de Deus. Em hebraico\u00a0miseric\u00f3rdia\u00a0significa ter entranhas de m\u00e3e e sentir em profundidade, l\u00e1 dentro do cora\u00e7\u00e3o o sofrimento dos m\u00edseros (ter um cora\u00e7\u00e3o (cor) para com os m\u00edseros,\u00a0como o explicou o Papa Francisco certa feita).<\/p>\n<p>O Salmo 103, um dos que pessoalmente mais aprecio,\u00a0\u00e9 nisso exemplar\u00a0\u00a0ao afirmar que \u201cDeus tem compaix\u00e3o, \u00e9 clemente e rico em miseric\u00f3rdia; n\u00e3o est\u00e1 sempre nos acusando nem guarda rancor para sempre\u2026 porque como um pai, sente compaix\u00e3o pelos seus filhos e filhas porque conhece a nossa natureza e se lembra de que somos p\u00f3;\u00a0\u00a0sua miseric\u00f3rdia \u00e9 desde sempre e para sempre\u201d. Haver\u00e1 palavras mais consoladoras do que estas para os tempos maus sob os quais estamos vivendo?<\/p>\n<p>Somente um Papa, vindo do fim do mundo, ousou dizer o que muitos te\u00f3logos vinham pensando mas n\u00e3o podiam express\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Diante dos novos\u00a0 cardeais, surpreendentemente, lhes disse: \u201cN\u00e3o atemorizeis os fi\u00e9is com o inferno como sempre foi feito na hist\u00f3ria da Igreja.\u00a0Deus n\u00e3o conhece uma condena\u00e7\u00e3o eterna\u201d.<\/p>\n<p>Numa outra homilia, reafirmou: \u201cNenhum pecado humano, por mais grave que seja, pode prevalecer sobre a miseric\u00f3rdia ou limit\u00e1-la\u201d.<\/p>\n<h3><strong>A miseric\u00f3rdia da Sant\u00edssima M\u00e3e de Jesus<\/strong><\/h3>\n<p>Estas afirma\u00e7\u00f5es t\u00e3o contundentes do Papa me remetem a um ap\u00f3crifo tardio,\u00a0do s\u00e9culo IX, mas fundado numa tradi\u00e7\u00e3o antiga, muito popular na piedade russa, chamado\u00a0O apocalipse da M\u00e3e do Senhor.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido pela pesquisa, hoje em dia est\u00e1 em voga o interesse pelos ap\u00f3crifos, aqueles evangelhos n\u00e3o oficiais que t\u00eam mais a ver com a cultura popular que\u00a0 utiliza antes a fantasia do que a raz\u00e3o para real\u00e7ar o significado da mensagem de Jesus.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos menosprezar a\u00a0 fantasia porque ela traduz, \u00e0 sua maneira, a verdade e, por isso,\u00a0 t\u00eam\u00a0 seus direitos.<\/p>\n<p>O\u00a0 referido\u00a0 ap\u00f3crifo \u00e9 profundamente comovedor e mostra o triunfo da miseric\u00f3rdia divina sobre a justi\u00e7a. Ele comprova, uma vez mais, que para o Deus da miseric\u00f3rdia n\u00e3o existe uma condena\u00e7\u00e3o eterna. Ei-lo:<\/p>\n<p>\u201cA santa e glorios\u00edssima Senhora, m\u00e3e de Deus e m\u00e3e de Cristo, levantou-se e quis saber acerca das penas que sofrem os seres humanos, especialmente os condenados ao inferno.<\/p>\n<p>Perguntou ao arcanjo Miguel: \u201cQuantas penas existem l\u00e1 onde \u00e9 punido o g\u00eanero humano\u201d? Ele respondeu: \u201cAs penas n\u00e3o t\u00eam n\u00famero\u201d.<\/p>\n<p>Ele abriu o inferno pelo lado do ocidente. E a sant\u00edssima m\u00e3e de Cristo viu as muitas penas da humana gente e prantos de muito tormento. Do lugar da pena, os condenados gritaram em voz alta: \u201cH\u00e1 s\u00e9culos que n\u00e3o vemos a luz. Mas agora vemos a ti que destes a luz ao Senhor\u201d.<\/p>\n<p>Os anjos, por sua vez, clamaram: \u201cAlegra-te, Virgem, luz que nunca se apaga. Alegra-te tamb\u00e9m tu, arcanjo Miguel, justo intercessor das almas de todos\u201d.<\/p>\n<p>Os anjos tamb\u00e9m viram os condenados e choraram. A honorabil\u00edssima M\u00e3e do Senhor viu o lamento dos anjos por causa dos condenados. E ela tamb\u00e9m come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>Novamente os condenados gritaram: \u201cBendita \u00e9s tu porque vieste at\u00e9 n\u00f3s que estamos nas trevas por toda a eternidade\u201d.<\/p>\n<p>Disse a sant\u00edssima M\u00e3e ao arcanjo Miguel: \u201cDiga aos anjos para levar-me diante do Pai invis\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Vieram ent\u00e3o os querubins e os serafins e a levaram diante do Pai invis\u00edvel. E ela estendeu as m\u00e3os diante do trono terr\u00edvel e se inclinou profundamente (fez a proscr\u00ednese).<\/p>\n<p>Depois\u00a0 dirigiu os olhos na dire\u00e7\u00e3o de seu Filho, Senhor do c\u00e9u e da terra. Suplicou: \u201cTem piedade, \u00f3 Senhor, dos crist\u00e3os! Vi tormentos imposs\u00edveis de serem suportados.\u00a0Eu quero sofrer com eles\u201d.<\/p>\n<p>Cristo respondeu: \u201cComo poderia ter piedade deles quando eles n\u00e3o tiveram piedade de meus irm\u00e3os e irm\u00e3s menores, os pobres?\u201d<\/p>\n<p>Apesar disso, suplicou a honorabil\u00edssima Senhora: \u201cMesmo assim, ajuda-me, \u00f3 Senhor\u201d. E o Filho lhe respondeu:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 na terra ningu\u00e9m que me invoque e que n\u00e3o seja ouvido por mim. Mas estes n\u00e3o quiseram invocar meu nome\u201d.<\/p>\n<p>E a virgem Maria se voltou para os anjos e santos e para os justos do Reino do c\u00e9u e para todos os que t\u00eam a ousadia de pedir pelos condenados.<\/p>\n<p>E o arcanjo Miguel incitou a todos e ele mesmo se ajoelhou, seguido pelos anjos e por toda a corte dos santos e das santas, com grande caridade. E disse a esplendid\u00edssima M\u00e3e a seu Filho:<\/p>\n<p>\u201cFilho meu amant\u00edssimo, desce de teu trono e veja a ora\u00e7\u00e3o que fazemos pelos condenados\u201d. E o Filho do Pai, o Cristo Senhor, desceu de seu trono. Aproximou-se do lugar das penas eternas. Vendo-o gritaram os atormentados em alta voz:<\/p>\n<p>\u201cTem piedade de n\u00f3s, Filho de Deus\u201d. E o Senhor disse ent\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cEscutai todos. Por causa da piedade e da miseric\u00f3rdia de minha m\u00e3e e da ora\u00e7\u00e3o dos anjos e dos santos e santas, a partir de minha Ressurrei\u00e7\u00e3o no dia de P\u00e1scoa at\u00e9 o domingo de todos os santos, habitareis no para\u00edso\u201d.<\/p>\n<p>E\u00a0 todos os santos e santas glorificaram a Deus, ficando na expectativa da festa da Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. E quando ela chegou,\u00a0 todos os condenados entraram cantando no c\u00e9u. E diz-se que de l\u00e1 nunca mais sa\u00edram\u201d.<\/p>\n<p>Perguntei a um monge, te\u00f3logo ortodoxo russo o que significavam aquelas datas. Ficariam no c\u00e9u somente por um tempo? Ao que me respondeu: quem entrou n\u00e3o sai mais, pois seria invalidar a miseric\u00f3rdia da M\u00e3e do Senhor. Por isso n\u00e3o se deve tomar as festas referidas \u00a0no sentido temporal, mas no sentido espiritual: s\u00e3o as festas eternas no Reino da Trindade na qual todos os redimidos participam. Por isso \u00e9 justo que se diga: \u201cE de l\u00e1, do c\u00e9u, nunca mais sa\u00edram\u201d.<\/p>\n<p>Com corre\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica asseverou o Papa Francisco: \u201cCom a miseric\u00f3rdia e o perd\u00e3o, Deus vai al\u00e9m da justi\u00e7a, a inclui e a supera numa dimens\u00e3o superior na qual se experimenta o amor, que \u00e9 o fundamento de uma verdadeira justi\u00e7a\u201d.<br \/>\nA narrativa do ap\u00f3crifo russo revela a vit\u00f3ria da miseric\u00f3rdia (religi\u00e3o da m\u00e3e) sobre a justi\u00e7a (religi\u00e3o do pai).<\/p>\n<h3><strong>Deus-Pai-e-M\u00e3e n\u00e3o tem uma caixa de lixo<\/strong><\/h3>\n<p>Dito numa linguagem do cotidiano: Deus,\u00a0Pai e M\u00e3e de bondade e de infinita miseric\u00f3rdia n\u00e3o t\u00eam uma caixa de lixo eterna, para onde jogam os que neste mundo\u00a0 n\u00e3o deram certo. Seria uma derrota eterna para Eles que jamais poder\u00e3o ser vencidos pelas for\u00e7as do Maligno.<\/p>\n<p>A miseric\u00f3rdia que \u00e9 o amor dolorido que se compadece dos padecimentos humanos, superou a justi\u00e7a. No ju\u00edzo individual no qual se dar\u00e3o conta de sua justi\u00e7a, os pecadores, envergonhados, reconhecem o mal que fizeram. Sofrem terrivelmente (existencialmente n\u00e3o seria o purgat\u00f3rio?). Mas o sofrimento \u00e9 purificador. Por isso, este n\u00e3o tem a \u00faltima palavra. A \u00faltima p\u00e1gina do livro da vida \u00e9 escrita pelo amor e pela miseric\u00f3rdia.\u00a0\u00c9 da natureza divina, toda amor e compaix\u00e3o, perdoar e reconduzir a todos os seus filhos e filhas ao seu seio bem-aventurado.<\/p>\n<p>Foi para isso que foram pensados e queridos por Deus desde toda a eternidade. E Jesus \u00e9 o salvador universal, cujo poder de resgate das v\u00edtimas do mal n\u00e3o conhece limites. Seu gesto redentor \u00e9 verdadeiramente universal e sempre vitorioso. Nenhum mal resiste ao amor e \u00e0 miseric\u00f3rdia. Ele jamais poder\u00e1 triunfar.<\/p>\n<p>Pela justi\u00e7a, o mal \u00e9 reconhecido, faz sofrer de modo que este sofrimento funciona como uma cl\u00ednica purificadora de Deus. Purificados pelo sofrimento e muito mais pela intensidade incomensur\u00e1vel do amor divino, todos saem transfigurados. Por causa da miseric\u00f3rdia s\u00e3o perdoados. E assim Deus \u00e9 sempre e eternamente vitorioso contra todas as for\u00e7as do Negativo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O sentido \u00faltimo da encarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 outro que este: Deus vem, assume a nossa condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil e mortal e nos toma porque somos seus, leva-nos para a morada eterna que nos foi preparada antes do princ\u00edpio da cria\u00e7\u00e3o. E a\u00ed viveremos e festejaremos, festejaremos e nos alegraremos, nos alegraremos e conviveremos como irm\u00e3s e irm\u00e3os, junto com toda a comunidade de vida tamb\u00e9m ela transfigurada no Reino bem-aventurado da Trindade, do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Leonardo Boff<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":184978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A Miseric\u00f3rdia dos dois Franciscos: de Assis e de Roma - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-misericordia-dos-dois-franciscos-de-assis-e-de-roma\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Miseric\u00f3rdia dos dois Franciscos: de Assis e de Roma - 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