{"id":121091,"date":"2016-11-28T10:48:28","date_gmt":"2016-11-28T12:48:28","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=121091"},"modified":"2020-05-29T09:43:04","modified_gmt":"2020-05-29T12:43:04","slug":"olhar-e-discernir-confrontar-e-responder-questoes-urgentes-no-sinodo-dos-bispos-sobre-as-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/olhar-e-discernir-confrontar-e-responder-questoes-urgentes-no-sinodo-dos-bispos-sobre-as-familias\/","title":{"rendered":"Olhar e discernir, confrontar e responder: quest\u00f5es urgentes no S\u00ednodo dos Bispos sobre as Fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/sinodo_281116.png\" alt=\"sinodo_281116\" width=\"820\" height=\"242\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Sim, ao acesso \u00e0 Eucaristia pelos casais em segunda uni\u00e3o e\/ou separados\/divorciados que contra\u00edram um novo casamento: este \u00e9 um ponto pol\u00eamico e que vem acalorando o debate sinodal at\u00e9 aqui. De acordo com o Papa, dever\u00edamos ir mais al\u00e9m e n\u00e3o reduzir o S\u00ednodo a este ponto, que parece t\u00e3o \u00f3bvio, mas tendo em vista a recusa e o fechamento de muitas partes, a argumenta\u00e7\u00e3o se faz sempre necess\u00e1ria&#8221;, escreve <strong>Cesar Kuzma<\/strong>, te\u00f3logo leigo, casado e pai de dois filhos.<\/p>\n<p>Segundo ele, h\u00e1 uma &#8220;contradi\u00e7\u00e3o nos discursos que dizem que tais casais n\u00e3o est\u00e3o exclu\u00eddos da Igreja, mas ao mesmo tempo negam o acesso deles \u00e0 Eucaristia e a outros sacramentos. Esta ideia de exclus\u00e3o do sacramento e n\u00e3o-exclus\u00e3o da Igreja revela-se totalmente excludente e n\u00e3o abre espa\u00e7o para a miseric\u00f3rdia, que \u00e9 a grande tecla que bate Francisco e que tem sim car\u00e1ter evang\u00e9lico.<\/p>\n<p><em><strong>Cesar Kuzma \u00e9 doutor em Teologia e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Autor de livros e artigos em teologia, dentre eles: \u201cO Futuro de Deus na Miss\u00e3o da Esperan\u00e7a\u201d (Paulinas); \u201cLeigos e Leigas\u201d (Paulus); \u201cAge Deus no mundo?\u201d (PUC-Rio e Reflex\u00e3o).<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Eis o artigo.<\/strong><\/p>\n<p>Nas reflex\u00f5es que seguem n\u00f3s procuraremos enaltecer aspectos teol\u00f3gicos que favore\u00e7am a nossa inten\u00e7\u00e3o para que, na sequ\u00eancia, as mesmas reflex\u00f5es e inten\u00e7\u00f5es possam balizar as diversas quest\u00f5es levantadas e, com isso, oferecer \u00e0 Igreja, que se debru\u00e7a j\u00e1 no est\u00e1gio final de um S\u00ednodo sobre a Fam\u00edlia, uma resposta pastoral segura, diante de um confronto e entendimento que se fazem justos e necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Este S\u00ednodo, em particular, tem levantado quest\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m do que se compreende das fam\u00edlias e do sacramento do Matrim\u00f4nio, ou mesmo do sacramento da Eucaristia e da Reconcilia\u00e7\u00e3o, quando relacionados com o Matrim\u00f4nio, mas tem demonstrado a rea\u00e7\u00e3o de uma parte da Igreja que passa a se incomodar com uma postura nova trazida por Francisco, que felizmente encontra eco em muitos bispos, te\u00f3logos e, principalmente, no povo de Deus; o que provoca do outro lado uma rea\u00e7\u00e3o agressiva.<\/p>\n<p>Discursos variados e alguns desentendimentos entre os padres sinodais (e tamb\u00e9m extra S\u00ednodo), cartas e entrevistas ali e acol\u00e1 nos levam a perceber esse fen\u00f4meno. Poder\u00edamos aqui perguntar como Paulo: estaria Cristo dividido? (cf. 1Cor 1,13). Ou ser\u00e1 que n\u00f3s o estamos dividindo?&#8230; E com quais argumentos refor\u00e7amos os lados que se op\u00f5em, ser\u00e1 que estamos pautados no amor, ou simplesmente em tradi\u00e7\u00f5es e doutrinas? Seria o Evangelho algo ainda vivo, ou apenas uma heran\u00e7a que nos foi passada e que devemos proteger a qualquer custo?&#8230;<\/p>\n<p>Muros como esses, quando se levantam de ambos os lados, n\u00e3o deixam transparecer o Evangelho que pulsa sempre novo e que quer avan\u00e7ar para \u00e1guas mais profundas. A liberdade em dizer o que pensa, garantida por Francisco, traz em si uma novidade e um resgate de discursos abertos; mas tamb\u00e9m agu\u00e7a mais aqueles que se aprisionam em cargos e estruturas firmes, cuja profecia evang\u00e9lica parece incomodar. Resta-nos saber se o discurso final deste S\u00ednodo ser\u00e1 mesmo sobre as fam\u00edlias ou ser\u00e1 sobre posturas eclesiol\u00f3gicas que se queiram sustentar a qualquer custo e em qualquer tempo.<\/p>\n<p>Desta forma, tentando somar e fazer voltar o nosso olhar para a proposta do S\u00ednodo e encorajados pela perspectiva que Francisco nos abriu, pretendemos olhar e discernir, confrontar e responder algumas quest\u00f5es urgentes que tocam a todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>1. Olhar e discernir teologicamente<\/strong><br \/>\nFaremos as reflex\u00f5es seguintes em forma de teses (T), descrevendo-as de modo pr\u00e1tico e objetivo, alinhando-as na inten\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e pr\u00e1tica crist\u00e3s.<\/p>\n<p><strong>T1 \u2013<\/strong> O amor de Deus que nos toca por inteiro e que nos conduz \u00e0 plenitude: desde o in\u00edcio do seu Pontificado, o Papa Francisco tem nos convidado a refletir e conviver, melhor dizendo, a fazer crescer em n\u00f3s o sentimento e a percep\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia, apontada claramente como parte central do Evangelho (cf. Francisco, <em>Misericordiae Vultus)<\/em>. Deste modo, falamos aqui a respeito deste amor, afirmando que n\u00e3o se trata de qualquer amor, mas de um amor que em si mesmo j\u00e1 \u00e9 pleno e que \u00e9 a ess\u00eancia e a natureza do pr\u00f3prio Deus (cf. 1Jo 4,8), que nos ama, e, no amor, vem ao nosso encontro, como um ato in-clusivo e em gesto de extrema miseric\u00f3rdia conduz a n\u00f3s todos \u00e0 plenitude do seu amor. Ele nos amou por primeiro (cf. 1Jo 4,19) e nos ama at\u00e9 o fim (cf. Jo 13,1); e isso marca todas as consequ\u00eancias desta rela\u00e7\u00e3o \u2013 entre Deus e o ser humano \u2013 e esse amor n\u00e3o conhece limites.<\/p>\n<p>O sacramento do Matrim\u00f4nio, que toca \u00e0s fam\u00edlias em particular, e que \u00e9 um aspecto presente e acalorado nas discuss\u00f5es deste S\u00ednodo est\u00e1 fundamentado neste amor, neste gesto de amar. Deus, em Cristo, se doa por inteiro \u00e0 humanidade, caracterizada pela sua Igreja (cf. Ef 5,32); tem a sua<em> k\u00e9nosis<\/em> (cf. Fl 2,6) e vem ao encontro do ser humano, unindo-se a ele de modo insepar\u00e1vel, indissol\u00favel, visto que o amor de Deus \u00e9 eterno. Essa \u00e9 a uni\u00e3o resultante entre seres humanos que se amam e se entregam e que se confirma no sacramento do Matrim\u00f4nio, sendo sinal desta gra\u00e7a, com consequ\u00eancia a eles e a todos que cercam esta uni\u00e3o. Trata-se de uma entrega total, uma doa\u00e7\u00e3o por inteiro, capaz de fazer de duas vidas, uma s\u00f3 vida, uma s\u00f3 carne (cf. Mt 10,8); e eclesialmente: um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma (cf. At 4,32).<\/p>\n<p><strong>T2<\/strong> \u2013 Deus que se faz humano, em Cristo, assume as nossas dores e tristezas, alegrias e esperan\u00e7as, e, em fam\u00edlia, assume tamb\u00e9m a nossa vulnerabilidade: O Conc\u00edlio Vaticano II, pela<em> Gaudium et Spes,<\/em> j\u00e1 fez esta afirma\u00e7\u00e3o (<em>GS 1<\/em>), e diz ainda que nada que ocorre no mundo, nada que o mundo possa sentir fica sem encontrar eco no cora\u00e7\u00e3o de quem cr\u00ea. \u00c9 isso que nos faz humanos, pois por uma atitude de amor, colocamos em nossas vidas e em nossas responsabilidades a vida do outro, entregamos a ele o nosso gesto e acolhemos o seu medo (\u00e9 bem verdade) e a sua confian\u00e7a (que deve ser conquistada).<\/p>\n<p>N\u00f3s encontramos este gesto tamb\u00e9m na pr\u00e1tica de Jesus, pelo seu an\u00fancio do Reino, em gestos e palavras que edificam e criam uma nova realidade, uma boa nova, capaz de incluir a todos, sobretudo, os mais vulner\u00e1veis. Mas vai ainda al\u00e9m, j\u00e1 que queremos com isso chamar a aten\u00e7\u00e3o para as diversas situa\u00e7\u00f5es que reclamam \u00e0s nossas fam\u00edlias e que exigem de n\u00f3s \u2013 teol\u00f3gica e pastoralmente \u2013 uma atitude concreta. Acima falamos de Deus que por amor se fez humano e assumiu todo o nosso existir. Isso \u00e9 fato e verdade de f\u00e9. Com efeito, Jesus n\u00e3o se fez um humano qualquer, mas o fez em uma determinada realidade, marcada por fortes tra\u00e7os culturais e tamb\u00e9m por uma vida familiar [!].<\/p>\n<p>Pintar um quadro no qual a fam\u00edlia de Nazar\u00e9 e tudo o que a circulava era algo amplamente perfeito, fere de todas as maneiras a realidade em si mesma e nega algo particular da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o de Deus. Eis um ponto que gostar\u00edamos de chamar a aten\u00e7\u00e3o: Em Cristo, Deus assume os nossos limites, assume as nossas fraquezas e vive a nossa vulnerabilidade. A fam\u00edlia de Nazar\u00e9 em si mesma tamb\u00e9m passa por esta quest\u00e3o e em seu relato (cf. Mt 1,18-25), seguindo aqui um aporte can\u00f4nico dos Evangelhos da inf\u00e2ncia, sem entrar nas quest\u00f5es exeg\u00e9ticas atuais, \u00e9 poss\u00edvel perceber uma realidade hostil e insegura. Sabemos pouco a respeito de Jos\u00e9, o pai de Jesus, apenas nos \u00e9 dito que era um homem justo (cf. Mt 1,19). A situa\u00e7\u00e3o de Maria tamb\u00e9m nos \u00e9 oculta, a n\u00e3o ser pelo fato de que esta jovem, antes de contrair o casamento, observa-se gr\u00e1vida. Qual seria o destino para uma jovem nesta condi\u00e7\u00e3o? Por certo, nada acolhedor, o que colocava em risco a sua pr\u00f3pria vida e da crian\u00e7a em seu ventre.<\/p>\n<p>A\u00ed vem a beleza do relato, \u00e0s vezes, n\u00e3o percept\u00edvel e ignorada, pois somos tentados a ler de modo rom\u00e2ntico, projetando no casal Jos\u00e9 e Maria condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas nossas, que tampouco poderiam existir. O que acontece? Jos\u00e9, o carpinteiro da vila, tido no relato como homem justo, faz em Maria a sua justi\u00e7a e acolhe ela e seu filho em sua casa, e perante todos, Jos\u00e9 assume a paternidade de Jesus, dando a ele um nome e uma identidade (cf. Mt 1,25). Ser\u00e1 que n\u00f3s nos percebemos desta interroga\u00e7\u00e3o, por certo, mais pr\u00f3xima \u00e0s nossas fam\u00edlias \u2013 tamb\u00e9m vulner\u00e1veis?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no que toca ao filho, Jesus, que perante a sua comunidade e seus irm\u00e3os era tido como louco e foi preso e morto como um criminoso. Perguntamos: Ser\u00e1 que esta fam\u00edlia, hoje, teria acesso \u00e0s nossas comunidades, teria acesso aos sacramentos?&#8230; Ter\u00edamos, como Jos\u00e9, uma justi\u00e7a pautada no amor de Deus, na miseric\u00f3rdia, ou n\u00e3o? Acreditamos que uma nova percep\u00e7\u00e3o da imagem da sagrada fam\u00edlia de Nazar\u00e9 pode nos oferecer novas pistas de reflex\u00e3o (<em>cf. KUZMA, Cesar. O sentir da ternura: o S\u00ednodo sobre a fam\u00edlia e suas implica\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e pastorais. Perspectiva Teol\u00f3gica, Belo Horizonte, v. 47, n. 131, p. 13-36, jan\/abr. 2015.).<\/em><\/p>\n<p><strong>T3<\/strong> \u2013 Em Cristo, uma realidade que se transforma e que faz novas todas as coisas: O Evangelho narrado por Jo\u00e3o apresenta a prega\u00e7\u00e3o de Jesus em sinais. Gostar\u00edamos, para este momento, de resgatar duas imagens que nos s\u00e3o preciosas e que podem trazer frutos condizentes com a nossa proposta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">1) A primeira delas diz respeito ao primeiro sinal, a narrativa das Bodas de Can\u00e1 (cf. Jo 2,1-12), uma festa de casamento. N\u00e3o entramos no detalhe exeg\u00e9tico e hist\u00f3rico do relato, mas, a partir de uma leitura can\u00f4nica, queremos nos firmar em alguns pontos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">a) Jesus \u00e9 convidado para uma festa de casamento;<br \/>\nb) sua presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o, ele atua ali, a sua a\u00e7\u00e3o modifica e transforma;<br \/>\nc) Jesus traz vinho novo \u00e0 festa, traz alegria e plenitude; em Cristo tudo se consome e se realiza.<br \/>\nAcho que estes elementos traduzem, de certa forma, a inten\u00e7\u00e3o do relato. A presen\u00e7a de Jesus em meio \u00e0s pessoas, neste caso espec\u00edfico, em um casamento, gera transforma\u00e7\u00e3o, vida nova e alegria. Ele \u00e9 o vinho novo que anima os cora\u00e7\u00f5es e acalenta \u00e0 espera de um novo tempo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">2) A segunda imagem que trazemos \u00e9 a do di\u00e1logo de Jesus com a samaritana (cf. Jo 4,1-42), uma mulher, que na situa\u00e7\u00e3o de sua \u00e9poca, de acordo com o relato, tamb\u00e9m estava em vulnerabilidade, exclu\u00edda. Jesus se aproxima dela e lhe pede algo; sabe que todos temos um pouco a oferecer e a servir, n\u00e3o importa a condi\u00e7\u00e3o, temos algo que pode saciar a sede de quem est\u00e1 ao nosso lado, at\u00e9 mesmo pela nossa dor e sofrimento. Mas o destaque desta passagem \u00e9 que Jesus se apresenta como \u00e1gua viva, a \u00fanica capaz de saciar a nossa sede e de tornar pleno tudo o que existe. Por certo, necessitamos desta \u00e1gua viva!<\/p>\n<p><strong>2. Confrontar e responder pastoralmente<\/strong><br \/>\nO confronto e as respostas sucessivas, que ter\u00e3o por base as situa\u00e7\u00f5es apresentadas e as teses acima apontadas, aparecer\u00e3o aqui como <strong>respostas pastorais (RP).<\/strong><\/p>\n<p><strong>RP1<\/strong> \u2013 Sim, \u00e0 acolhida \u00e0s fam\u00edlias em suas diversas realidades estruturais: levando em considera\u00e7\u00e3o a proposta desta reflex\u00e3o, que se coloca a sentir com ternura, tendo em conta tamb\u00e9m a pr\u00e1tica de Jesus e o conte\u00fado do Evangelho que se faz conhecer no amor (miseric\u00f3rdia) e que nos acolhe em todas as circunst\u00e2ncias, sem julgamento, mas em gesto salv\u00edfico, afirmamos que a Igreja, como sacramento de salva\u00e7\u00e3o (e de reconcilia\u00e7\u00e3o), deve valer-se por esta pr\u00e1tica.<br \/>\nAs reflex\u00f5es acima e tudo o que se debateu no S\u00ednodo at\u00e9 agora deixaram evidente as diversas marcas que avan\u00e7am sobre nossas fam\u00edlias e suas novas concep\u00e7\u00f5es e\/ou configura\u00e7\u00f5es estruturais. N\u00e3o se pode excluir, pois tal postura n\u00e3o seria evang\u00e9lica e coerente. N\u00e3o se pode imaginar tamb\u00e9m que a realidade vivida em muitas fam\u00edlias de hoje j\u00e1 seja um estado pleno, da mesma forma que n\u00e3o se pode dizer que elas n\u00e3o atendem ao projeto de Deus. N\u00e3o! A(s) fam\u00edlia(s), como todas as pessoas que pertencem a elas ou n\u00e3o, mas que comp\u00f5em a Igreja, est\u00e3o em constante estado de peregrinos (<em>Lumen Gentium n. 48<\/em>), andam ainda em marcha, no caminho e rumo ao encontro definitivo, onde Cristo, somente ele, far\u00e1 novas todas as coisas (<em>cf. Ap 21,5<\/em>), onde somente ele trar\u00e1 a tudo e a todos a plenitude (<em>cf. 1Cor 15,28<\/em>).<\/p>\n<p>N\u00e3o nos cabe separar, nem mesmo excluir qualquer pessoa ou fam\u00edlia (seria anti-evang\u00e9lico). Podemos sim orientar o caminho dentro da \u00f3tica do Reino e dos passos de Jesus, mas jamais excluir qualquer pessoa do conv\u00edvio fraterno e da harmonia entre os irm\u00e3os, seja por sua situa\u00e7\u00e3o de crise, seja por casamentos rompidos ou novos, seja pela quest\u00e3o sexual e afetiva, sobretudo, aos casos que envolvem recasados, homoafetivos e as diversas fam\u00edlias em vulnerabilidade.<br \/>\nA Igreja \u00e9 m\u00e3e (cf. Francisco, <em>Evangelii Gaudium,<\/em> n. 46-47), e como m\u00e3e acolhe a todos; no acolher, ela educa; e no educar, transforma; sempre, por\u00e9m, no amor, um amor-miseric\u00f3rdia. Pede-se aqui, um exerc\u00edcio cont\u00ednuo para a inclus\u00e3o de fam\u00edlias em situa\u00e7\u00f5es de conflito e da ajuda que se faz necess\u00e1ria para a caminhada gradual da experi\u00eancia crist\u00e3, que deve ser buscada por cada um, mas, tamb\u00e9m, favorecida pela Igreja toda.<\/p>\n<p><strong>RP2<\/strong> \u2013 Sim, ao acesso \u00e0 Eucaristia pelos casais em segunda uni\u00e3o e\/ou separados\/divorciados que contra\u00edram um novo casamento: este \u00e9 um ponto pol\u00eamico e que vem acalorando o debate sinodal at\u00e9 aqui. De acordo com o Papa, dever\u00edamos ir mais al\u00e9m e n\u00e3o reduzir o S\u00ednodo a este ponto, que parece t\u00e3o \u00f3bvio, mas tendo em vista a recusa e o fechamento de muitas partes, a argumenta\u00e7\u00e3o se faz sempre necess\u00e1ria. A nossa opini\u00e3o a este respeito j\u00e1 ficou clara nas linhas anteriores e j\u00e1 nos expressamos abertamente sobre isso em outros escritos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m achamos que a mesma inten\u00e7\u00e3o tem fundamento garantido na pr\u00f3pria ess\u00eancia do sacramento da Eucaristia, cuja riqueza inesgot\u00e1vel ainda n\u00e3o nos permitiu ver a tal ponto. Uma vez que a Igreja afirma que a Eucaristia \u00e9 o que constitui a Igreja e que ela \u00e9 necess\u00e1ria para a edifica\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is e para a sua caminhada rumo a Cristo, neg\u00e1-la para aqueles e aquelas que, mesmo machucados e feridos, muitas vezes sem culpa, seguem, perseguem e persistem no seu amor a Cristo e a Igreja seria uma nega\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio conte\u00fado que sustenta este sacramento, que \u00e9 amor, que \u00e9 miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Na <em>Evangelii Gaudium<\/em> (n. 47), o Papa Francisco disse claramente que este sacramento n\u00e3o \u00e9 um pr\u00eamio para pessoas santas, mas rem\u00e9dio e alimento para todas as pessoas. E faz isso se baseando na rica tradi\u00e7\u00e3o eclesial, em especial em Santo Ambr\u00f3sio, que diz que se deve comungar sempre, e em S\u00e3o Cirilo de Alexandria, que diz que se o pecado nos torna indignos, como poderemos nos separar daquele que nos santifica para a eternidade? Em se tratando da Eucaristia, n\u00f3s n\u00e3o chegamos plenos a ela, mas ela nos plenifica; n\u00f3s n\u00e3o chegamos santos a ela, mas ela nos plenifica. \u00c9 necess\u00e1rio discernir o que o Esp\u00edrito nos sopra hoje! Sabemos que a\u00e7\u00f5es pastorais que aderiram a esta nova pr\u00e1xis, de modo consensual, equilibrado, gradual, maduro e respeitoso, lograram bom \u00eaxito e esta nova realidade tampouco causou esc\u00e2ndalo ou induziu ao erro outros fi\u00e9is. Ao contr\u00e1rio, aproximou a Igreja dessas realidades e ofereceu aos que estavam ca\u00eddos alimento e rem\u00e9dio para a vida concreta. N\u00e3o entraria aqui o pedido do Papa Francisco para que sejamos facilitadores da gra\u00e7a e n\u00e3o seus reguladores, ou mais enf\u00e1tico: podemos segurar o Esp\u00edrito?<\/p>\n<p>Vale trazer aqui o pensamento cl\u00e1ssico de Santo Ambr\u00f3sio, que diz que onde atua a gra\u00e7a, Cristo ali est\u00e1, onde se vale a severidade, apenas os seus ministros. Refazemos aqui a pergunta feita pelo Cardeal Walter Kasper em sess\u00e3o do S\u00ednodo de 2014 e que na ocasi\u00e3o foi apoiada pelo Papa Francisco: se uma pessoa nessas condi\u00e7\u00f5es, acompanhada e amparada pela sua comunidade, e que se mant\u00e9m fiel a Cristo, pode comungar espiritualmente (como se costuma dizer), por qual raz\u00e3o ela n\u00e3o poderia tamb\u00e9m comungar sacramentalmente, j\u00e1 que esta realidade vis\u00edvel e sens\u00edvel se faz favor\u00e1vel e aproxima o fiel do pr\u00f3prio Cristo, que por ele deu a sua vida e foi fiel at\u00e9 o fim?<\/p>\n<p>\u00c9 onde encontramos a contradi\u00e7\u00e3o dos discursos que dizem que tais casais n\u00e3o est\u00e3o exclu\u00eddos da Igreja, mas ao mesmo tempo negam o acesso deles \u00e0 Eucaristia e a outros sacramentos. Esta ideia de exclus\u00e3o do sacramento e n\u00e3o-exclus\u00e3o da Igreja revela-se totalmente excludente e n\u00e3o abre espa\u00e7o para a miseric\u00f3rdia, que \u00e9 a grande tecla que bate Francisco e que tem sim car\u00e1ter evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>Seria at\u00e9 vantajoso propor a estes que insistem em se manter contr\u00e1rios a esta abertura que passem a exercitar a n\u00e3o-comunh\u00e3o Eucar\u00edstica solid\u00e1ria, deixando de comungar o sacramento e se fazendo solid\u00e1rio (espiritualmente) aos que dele s\u00e3o impedidos, pois \u00e9 bem verdade, somos todos pecadores!&#8230;<\/p>\n<p>Valeria a pena pensar. N\u00e3o se trata de mudar a doutrina dos sacramentos, mas de compreend\u00ea-los na sua m\u00e1xima ess\u00eancia e, neste caso, mudar a disciplina de se celebrar e viv\u00ea-los. Enfim, na liberdade de reflex\u00e3o que Francisco nos concedeu, queremos aqui firmar como sim a nossa decis\u00e3o e reflex\u00e3o conclusiva a este respeito.<\/p>\n<p><strong>RP3<\/strong> \u2013 Sim, \u00e0 uma recep\u00e7\u00e3o madura e respons\u00e1vel dos novos m\u00e9todos de planejamento familiar e de reprodu\u00e7\u00e3o humana: este talvez seja um ponto ainda mais pol\u00eamico e que exige uma atitude de maior estudo e discernimento pastoral. N\u00e3o est\u00e1 sendo objeto de discuss\u00e3o no S\u00ednodo, mas tais reflex\u00f5es deveriam acalentar os debates teol\u00f3gicos e pastorais, pois se querem urgentes. Respeitamos as raz\u00f5es que levaram o Papa Paulo VI a assumir tais posturas na publica\u00e7\u00e3o da Enc\u00edclica, mas acreditamos que hoje (quase 50 anos depois e com todos os avan\u00e7os biom\u00e9dicos e da teologia moral) se faz necess\u00e1rio dar um passo al\u00e9m das resolu\u00e7\u00f5es da <em>Humanae Vitae<\/em>, pois trata-se de uma realidade comum a maioria das fam\u00edlias e casais. Vale lembrar aqui que Paulo VI n\u00e3o encerrou a quest\u00e3o!<\/p>\n<p>Fechar-se a este tema \u00e9 fechar-se na mesma indiferen\u00e7a que muitos casais e fam\u00edlias t\u00eam e vivem em rela\u00e7\u00e3o a este assunto. Dado concreto de muitos casais. N\u00e3o queremos fechar o debate, mas abri-lo e pedir, que com cora\u00e7\u00e3o de ternura, a Igreja acolha estas novas realidades e se coloque em di\u00e1logo, na consulta de especialistas e das pr\u00f3prias fam\u00edlias. Isso convida a uma nova compreens\u00e3o do ser humano e de suas rela\u00e7\u00f5es, bem como uma nova indaga\u00e7\u00e3o sobre a sexualidade humana. Muitos casais, hoje, vivem isso como um peso, ou na indiferen\u00e7a. \u00c9 como se tudo chegasse a um meio termo, o que n\u00e3o \u00e9 produtivo. O nosso sim aqui, \u00e9 para esta atitude madura e respons\u00e1vel que j\u00e1 se previu no Vaticano II, com a <em>Gaudium et Spes,<\/em> n. 51; j\u00e1 ali existe uma grande abertura que poderia ser revisitada.<\/p>\n<p><strong>3. N\u00e3o esquecer da ternura<\/strong><br \/>\nO breve artigo que aqui apresentamos quer oferecer \u00e0 Igreja, \u00e0 teologia e \u00e0s pastorais algumas perguntas a mais, pois entendemos que o tempo \u00e9 oportuno e decisivo, e talvez por esta raz\u00e3o tenha despertado tantos debates e opini\u00f5es divergentes. Ressaltamos tamb\u00e9m que existem muitos pensamentos comuns e que h\u00e1 um grande n\u00famero de bispos e te\u00f3logos que se somam a estas aberturas.<\/p>\n<p>O <strong>S\u00ednodo sobre as Fam\u00edlias<\/strong>, convocado pelo Papa Francisco, trouxe \u00e0 Igreja e \u00e0s fam\u00edlias a possibilidade de rever alguns posicionamentos e implica\u00e7\u00f5es internos e externos \u00e0s realidades, destacando os desafios que atingem as fam\u00edlias na atualidade, a fim de favorecer um melhor entendimento da sua voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o, que \u00e9 o grande objetivo. Diante dessas situa\u00e7\u00f5es, muitas delas, em torno a crises e dificuldades, gostar\u00edamos de propor um novo olhar a partir da ternura, um novo sentir, com base na proposta de Cristo, da sua sensibilidade e da sua pr\u00e1tica do Reino; por isso expressamos: n\u00e3o esquecer da ternura.<\/p>\n<p>Sabemos, de antem\u00e3o, que o atual contexto eclesial se tornou favor\u00e1vel a estas reflex\u00f5es, o que exige da Igreja e de todos n\u00f3s uma postura cr\u00edtica e sens\u00edvel a estas quest\u00f5es, a fim de destacar, de forma ousada e madura, a partir do S\u00ednodo e al\u00e9m dele, poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e pastorais.<\/p>\n<p>Durante a sua homilia, na missa de abertura da III Assembleia Geral Extraordin\u00e1ria do S\u00ednodo, em 2014, o Papa Francisco disse claramente que haveria liberdade no falar e no expressar de novas quest\u00f5es. Esta inten\u00e7\u00e3o se repete no S\u00ednodo de 2015. \u00c9 o momento que se pede tal postura, a fim de se fazer ouvir, discernir e, de modo criativo e seguro, buscar uma resposta pastoral coerente e condizente com a proposta do Evangelho, que se sustenta no amor.<\/p>\n<p>Quando a urg\u00eancia humana e pastoral nos obriga a um desprendimento, a um despojamento, a uma entrega total em favor do outro, em uma sa\u00edda baseada no amor e em busca do amor, tem-se a\u00ed algo caracter\u00edstico e fundamental para a f\u00e9 crist\u00e3. Esta f\u00e9 est\u00e1 alicer\u00e7ada na entrega total de Deus-criador \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o-criatura, com total afei\u00e7\u00e3o e ternura, num jeito pr\u00f3prio e \u00fanico, sendo para todos n\u00f3s a medida do verdadeiro amor, o qual devemos contemplar, sentir e seguir, entregando e repousando naquele que nos amou por primeiro e que nos ama at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Deus se doa por inteiro e o faz porque isso \u00e9 parte de seu ser \u2013 amor. A maneira como n\u00f3s nos relacionamos, o modo como n\u00f3s nos encontramos e formamos la\u00e7os, la\u00e7os estes que perpassam uma vida, a forma como isso se d\u00e1 baseia-se nesta mesma inten\u00e7\u00e3o \u2013 amor. Isso \u00e9 o que nos torna:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">1) disc\u00edpulos e crist\u00e3os, pois por essa raz\u00e3o o seguimos e antecipamos na f\u00e9 e na esperan\u00e7a este sentir da ternura, onde Deus-amor se faz presente; mas,<br \/>\n2) \u00e9 tamb\u00e9m o que torna plena a rela\u00e7\u00e3o entre duas pessoas que se amam e que se doam totalmente, pois s\u00f3 o amor verdadeiro, como dom maior, \u00e9 capaz de transcender todos os limites da nossa compreens\u00e3o e estabelecer um v\u00ednculo t\u00e3o forte (e ao mesmo tempo t\u00e3o sens\u00edvel); contudo,<br \/>\n3) o caminhar humano \u00e9 limitado e finito diante do amor de Deus que \u00e9 eterno. Este sentimento t\u00e3o forte, \u00e0s vezes (e n\u00e3o poucas) torna-se fr\u00e1gil e por mais que se queira n\u00e3o chega ao seu destino.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o que a Igreja, comunidade firmada no amor, e todos aqueles e aquelas que no amor se encontram, devem ter este gesto de ternura, fazendo sentir a a\u00e7\u00e3o de Deus, onde sempre h\u00e1 espa\u00e7o para a vida e onde a alegria sempre faz o novo ressurgir. Nunca \u00e9 tarde, sempre h\u00e1 tempo. N\u00f3s acreditamos que este \u00e9 o pano de fundo, a espinha dorsal que acalenta o <strong>S\u00ednodo sobre as Fam\u00edlias<\/strong>, que j\u00e1 partiu numa inten\u00e7\u00e3o, atento \u00e0s urg\u00eancias humanas e pastorais e buscou, para tanto, um olhar de amor em miseric\u00f3rdia, na acolhida e no afeto, no sentir da ternura. Se a f\u00e9 da Igreja se sustenta no amor de Deus para com todos, e se \u00e9 nesse amor que se vive, por certo, \u00e9 nele que sa\u00edmos e vamos ao encontro do outro, fazendo-se pr\u00f3ximo, para acolh\u00ea-lo e, se preciso for, para reergu\u00ea-lo no mesmo amor. N\u00e3o se trata de qualquer amor, mas daquele que se faz sentir na ternura do ser, na miseric\u00f3rdia, pois foi assim que Deus se fez conhecer e \u00e9 assim que se pode encontr\u00e1-lo, e \u00e9 assim que devemos fazer.<\/p>\n<p>No S\u00ednodo o Papa insiste para n\u00e3o esquecermos a miseric\u00f3rdia. E aqui, n\u00f3s nos somamos a ele pedindo para n\u00e3o se esquecer tamb\u00e9m da ternura, que \u00e9 o gesto que torna poss\u00edvel este amor misericordioso.<br \/>\nNa esperan\u00e7a, sempre!<\/p>\n<p><strong>Fonte: http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Cesar Kuzma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":184985,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Olhar e discernir, confrontar e responder: quest\u00f5es urgentes no S\u00ednodo dos Bispos sobre as Fam\u00edlias - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/olhar-e-discernir-confrontar-e-responder-questoes-urgentes-no-sinodo-dos-bispos-sobre-as-familias\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Olhar e discernir, confrontar e responder: quest\u00f5es urgentes no S\u00ednodo dos Bispos sobre as Fam\u00edlias - 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