{"id":119645,"date":"2016-10-31T16:19:34","date_gmt":"2016-10-31T18:19:34","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=119645"},"modified":"2020-06-23T09:46:50","modified_gmt":"2020-06-23T12:46:50","slug":"quando-um-rico-adere-a-jesus-os-cristaos-os-pobres-e-os-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/quando-um-rico-adere-a-jesus-os-cristaos-os-pobres-e-os-ricos\/","title":{"rendered":"Quando um rico adere a Jesus \u2013 os crist\u00e3os, os pobres e os ricos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/artigo_3110161.jpg\" alt=\"artigo_311016\" width=\"830\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/maurolopes\/2016\/10\/30\/quando-um-rico-adere-a-jesus-os-cristaos-os-pobres-e-os-ricos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Mauro Lopes (*)\u00a0<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Crist\u00e3os cat\u00f3licos aproximam-se do final de seu Ano Lit\u00fargico neste 31\u00b0 domingo do Tempo Comum \u2013logo mais vir\u00e1 o Advento, tempo de espera da celebra\u00e7\u00e3o do nascimento do Senhor. A Igreja nos prop\u00f5e hoje \u00e0 reflex\u00e3o a hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o de Jesus com um dos mais emblem\u00e1ticos personagens dos evangelhos: Zaqueu (Lc 19, 1-10)<\/p>\n<blockquote><p>E tendo entrado em Jeric\u00f3, ele atravessava a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos e muito rico. Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas n\u00e3o conseguia, por causa da multid\u00e3o, pois era muito baixo. Ent\u00e3o ele correu \u00e0 frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: \u201cZaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.\u201d Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria. Ao ver isso, todos come\u00e7aram a murmurar, dizendo: \u201cEle foi hospedar-se na casa de um pecador!\u201d Zaqueu ficou de p\u00e9, e disse ao Senhor: \u201cSenhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei algu\u00e9m, vou devolver quatro vezes mais.\u201d Jesus lhe disse: \u201cHoje a salva\u00e7\u00e3o entrou nesta casa, porque tamb\u00e9m este homem \u00e9 um filho de Abra\u00e3o. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Para entender o percurso de Zaqueu, a proposta de Jesus e meditar um pouco sobre a Igreja e o tema da pobreza e da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza, escrevi esta semana um pouco mais longamente e dividindo o assunto em quatros breves \u201ccap\u00edtulos\u201d.<\/p>\n<p><strong>1. A caminhada do empobrecimento; estar pobre com os pobres \u2013 servir a Deus<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja apresenta-nos o relato sobre a convers\u00e3o de Zaqueu neste 31\u00ba domingo num contexto de intensa reflex\u00e3o sobre os ensinamentos de Jesus a respeito da rela\u00e7\u00e3o das pessoas com o dinheiro: ren\u00fancia dos bens (23\u00ba domingo), fraternidade e partilha (24\u00ba), a escolha entre Deus e o dinheiro (25\u00ba), o rico e o pobre L\u00e1zaro (26\u00ba), a vi\u00fava e o juiz (29\u00ba), o fariseu e o cobrador de impostos (30\u00ba). Este era um tema central na sociedade judaica, como de resto em todas as sociedades (mais adiante discutirei isso), na vida das pessoas e na espiritualidade ao longo da hist\u00f3ria do juda\u00edsmo e do cristianismo. Toda e qualquer ideia de que esta rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria crucial, com um discurso sobre o car\u00e1ter \u201cespiritual\u201d da religi\u00e3o \u00e9 mistificadora. A insist\u00eancia de Jesus em sua prega\u00e7\u00e3o e da Igreja em nos apresentar o tema \u00e0 reflex\u00e3o-ora\u00e7\u00e3o de maneira recorrente patenteiam a relev\u00e2ncia do assunto -e, no t\u00f3pico 4 deste artigo restar\u00e3o evidente as raz\u00f5es de tantas retic\u00eancias ao redor da conversa aberta sobre dinheiro.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Zaqueu \u00e9 maravilhosa e plena de complexidades \u2013 ao mesmo tempo, direta.<\/p>\n<p>Ele era um cobrador de impostos, rico. Provavelmente tinha ouvido falar daquele profeta famoso no seu tempo e corre a v\u00ea-lo quando passa em sua cidade, Jeric\u00f3. Quando o olhar do cobrador de impostos e o do profeta cruzam-se, numa cena divertida \u2013Zaqueu trepado sobre uma \u00e1rvore\u2013, a empatia \u00e9 imediata. Jesus diz-lhe para fazer o que toda pessoa precisa na vida: descer. E convida-se para entrar no cora\u00e7\u00e3o do pequeno homem, que se converte, na presen\u00e7a do Manso e Humilde num gesto carregado de simbolismo: ergue-se sobre suas contradi\u00e7\u00f5es. O discurso de convers\u00e3o (mudan\u00e7a de rumo) e ades\u00e3o a Jesus n\u00e3o fala de \u201cpecados\u201d de fundo pretensamente moralista nem de \u201cencontros espirituais\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o: a convers\u00e3o, a ades\u00e3o a Jesus \u00e9 a decis\u00e3o de radical empobrecimento e seguimento.<\/p>\n<p>O empobrecimento de Zaqueu \u00e9 o centro da hist\u00f3ria e \u00e9 crucial. Setores conservadores da Igreja, seduzidos ao dinheiro (ser\u00e1 o tema da quarta parte deste texto) afirmam que Zaqueu n\u00e3o teria empobrecido, porque teria doado aos pobres \u201capenas\u201d metade de sua fortuna \u2013como se encontr\u00e1ssemos ricos \u00e0s pencas dispostos a abrir m\u00e3o de metade de seus bens e renda. Mas ele foi muito mais adiante: \u201ce se defraudei algu\u00e9m, vou devolver quatro vezes mais\u201d (v.8). Ele lan\u00e7a m\u00e3o de uma prescri\u00e7\u00e3o do livro do \u00caxodo: \u201cSe algu\u00e9m roubar um boi ou uma ovelha e o abater ou vender, restituir\u00e1 cinco bois por um boi e quatro ovelhas por uma ovelha.\u201d (Ex 21,37) Era uma pena dur\u00edssima a quem n\u00e3o apenas roubasse mas se desfizesse do bem roubado de tal forma a n\u00e3o poder restitu\u00ed-lo \u00e0 v\u00edtima: quem roubou, por exemplo, 100 reais, deveria devolver 400. Ora, o cobrador de impostos era tido como um ladr\u00e3o na sociedade judaica, especialmente entre os pobres. Arrancava-lhes o pouco que tinham para sustentar o sistema jur\u00eddico-pol\u00edtico de Israel e os invasores romanos. Portanto, toda atividade de Zaqueu era um roubo. Se ele devolveu quatro vezes mais o que roubou, e toda sua fortuna, como de resto, todas as fortunas, era fruto de roubo, a conclus\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria: ele tornou-se um pobre com os pobres. Jesus acolheu com entusiasmo o gesto raro de um rico: \u201cHoje a salva\u00e7\u00e3o entrou nesta casa, porque tamb\u00e9m este homem \u00e9 um filho de Abra\u00e3o. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.\u201d (v. 10).<\/p>\n<p>Uma compreens\u00e3o plena da hist\u00f3ria de convers\u00e3o de Zaqueu s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando colocada diante de outra hist\u00f3ria, que lhe antecede no cap\u00edtulo anterior de Lucas. \u00c9 o encontro de Jesus com outro rico. \u00c9 breve, vale a pena ret\u00ea-la. Lc 18,18-25:<\/p>\n<blockquote><p>Certo homem de posi\u00e7\u00e3o lhe perguntou: \u201cBom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?\u201d Jesus respondeu: \u201cPor que me chamas bom? Ningu\u00e9m \u00e9 bom, sen\u00e3o s\u00f3 Deus! Conheces os mandamentos: n\u00e3o cometer\u00e1s adult\u00e9rio; n\u00e3o matar\u00e1s; n\u00e3o furtar\u00e1s; n\u00e3o dir\u00e1s falso testemunho; honrar\u00e1s pai e m\u00e3e. Disse ele: \u201cTudo isso tenho guardado desde a minha mocidade.\u201d Ouvindo, Jesus falou-lhe: \u201cAinda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, d\u00e1-o aos pobres e ter\u00e1s um tesouro no c\u00e9u; depois, vem e segue-me.\u201d Ele, por\u00e9m, ouvindo isso, ficou cheio de tristeza, pois era muito rico. Vendo-o assim, disse Jesus: \u201cComo \u00e9 dif\u00edcil aos ricos entrar no Reino de Deus\u201d! \u00c9 mais f\u00e1cil passar o camelo pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 uma contra face exata \u00e0 de Zaqueu:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-119648\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/tabela.png\" alt=\"tabela\" width=\"592\" height=\"320\" \/><\/p>\n<p>A decis\u00e3o de Zaqueu salvou-o de sua desumaniza\u00e7\u00e3o, e ele, encontrado por Jesus, encontrou-se. A convers\u00e3o de Zaqueu \u00e9 de fato a celebra\u00e7\u00e3o de um encontro amoroso de um homem com Jesus, consigo pr\u00f3prio e com seus iguais \u2013os homens e mulheres todos. A hist\u00f3ria chega a ser espantosa para quem se acostumou \u00e0 l\u00f3gica da culpa: Jesus n\u00e3o o repreendeu, n\u00e3o exigiu um pedido de perd\u00e3o, n\u00e3o acusou. Apenas acolheu aquele que o procurava. Bastou para que Zaqueu adquirisse consci\u00eancia de seu pecado, pois este \u00e9 um passo que jamais poder\u00e1 ser imposto por outrem ou tomado com base no medo: ser\u00e1 verdadeiro apenas se for consci\u00eancia plena que, sem isentar de dor pelo sofrimento causado a outrem, move-se pelo desejo de uma vida renovada e plenificada. Os \u201cgestores da religi\u00e3o\u201d da \u00e9poca escandalizaram-se: Jesus fugiu ao esquema confiss\u00e3o-humilha\u00e7\u00e3o-puni\u00e7\u00e3o-perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos perdoados desde sempre, o que n\u00e3o significa que Deus concilie com nossos pecados, com a opress\u00e3o do pr\u00f3ximo, com as puls\u00f5es de morte, fortuna e domina\u00e7\u00e3o. Mas o Deus da vida quer isso mesmo, vida plena, e n\u00e3o homens e mulheres acovardados, ajoelhados diante de \u00eddolos ou de vida dupla.<\/p>\n<p>Outro paralelo que ajuda a entender o pequenino Zaqueu: a hist\u00f3ria do tamb\u00e9m pequenino, Francisco, em Assis, dez s\u00e9culos depois. O que fez Francisco, em 1206? Filho de um rico comerciante, ao converter-se abriu m\u00e3o de todos os seus bens e seguiu pobre com os pobres. S\u00e3o Francisco, o novo Zaqueu, denunciou, com seu gesto, a impossibilidade de humaniza\u00e7\u00e3o e seguimento a Jesus aos ricos. No s\u00e9culo 20, outros \u201cZaqueus\u201d s\u00e3o, por exemplo, Mahatma Gandhi, advogado de sucesso, rico, que de tudo abriu m\u00e3o para seguir com os pobres na \u00cdndia; Nelson Mandela, membro da nobreza Tembu, despojou-se de tudo, at\u00e9 a pris\u00e3o por 27 anos na Ilha Robben; e dom Oscar Romero, o sacerdote membro das elites de El Salvador, que se converte ao caminho pobre com os pobres logo depois da nomea\u00e7\u00e3o como arcebispo da capital San Salvador, at\u00e9 o assassinato pelos militares em 1980.<\/p>\n<p><strong>2. A den\u00fancia da pobreza e dos ricos<\/strong><\/p>\n<p>A B\u00edblia \u00e9 perpassada por duas grandes correntes teol\u00f3gicas. Uma conhecida como Teologia da Retribui\u00e7\u00e3o: prev\u00ea que se sou fiel a Deus, ele me recompensar\u00e1 com riqueza, descend\u00eancia, fama e longevidade. No livro dos Prov\u00e9rbios h\u00e1 m\u00e1ximas nesta linha: \u201cQuem confia em Deus prospera\u201d (Pr 28,25) ou \u201cNa casa do justo h\u00e1 abund\u00e2ncia\u201d (Pr 15,6). Por esta concep\u00e7\u00e3o, se sou fiel sou premiado; lido de tr\u00e1s para frente: se sou rico \u00e9 porque fui e sou fiel. Uma corruptela desta vis\u00e3o sustenta a Teologia da Prosperidade de muitas igrejas neopentecostais e de segmentos conservadores do catolicismo. A vida passa a ser perseguir a riqueza, pois ela seria \u201csinal\u201d de minha fidelidade e de uma suposta \u201cb\u00ean\u00e7\u00e3o\u201d de Deus sobre mim. Na sociedade de consumo, capitalista, uma vis\u00e3o similar d\u00e1 base \u00e0 \u201cmeritocracia\u201d.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o foi superada pelos profetas que, a partir do s\u00e9culo 8 antes de Cristo, reagiram \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida cada vez mais degradadas do povo, depois da instala\u00e7\u00e3o da monarquia, um s\u00e9culo antes. Am\u00f3s, Oseias, Isa\u00edas, Jeremias, Miqu\u00e9ias e Ezequiel s\u00e3o todos representantes desta verdadeira Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, na qual iria inserir-se Jesus e que identifica pobreza e riqueza como dimens\u00f5es das estruturas econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas e n\u00e3o a pretensos m\u00e9ritos pessoais \u2013a espiritualidade baseia-se numa vis\u00e3o realista e m\u00edstica das rela\u00e7\u00f5es das pessoas consigo pr\u00f3prias, com os outros e com Deus.[1]<\/p>\n<p>O que s\u00e3o pobreza e riqueza, quem s\u00e3o os pobres e os ricos para a B\u00edblia?<\/p>\n<p>O te\u00f3logo Gustavo Gutierrez, um dos pais da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, tem uma defini\u00e7\u00e3o breve e precisa sobre a pobreza na B\u00edblia: trata-se de \u201cum estado escandaloso atentat\u00f3rio da dignidade humana e, por conseguinte, contr\u00e1rio \u00e0 vontade de Deus.\u201d[2] Leonardo Boff, um dos principais te\u00f3logos contempor\u00e2neos, consultado com frequ\u00eancia pelo Papa e caluniado diariamente pelos cat\u00f3licos integristas, escreveu que a pobreza \u00e9 \u201ca car\u00eancia de meios para produzir e reproduzir a vida com um m\u00ednimo de dignidade humana e \u00e9 a chaga mais dolorosa e sangrenta da hist\u00f3ria da humanidade.\u201d[3]<\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos houve uma concep\u00e7\u00e3o segundo a qual pobreza e riqueza seriam dados inerentes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, que mundo teria sido \u201ccriado\u201d assim por Deus e que cumpriria aos ricos serem generosos e piedosos e aos pobres pacientes, \u00e0 espera da reden\u00e7\u00e3o. Esta interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 autorizada por uma leitura honesta da B\u00edblia, como se ver\u00e1 a seguir, e foi desconstru\u00edda pela evolu\u00e7\u00e3o do pensamento e das ci\u00eancias humanas ao longo da hist\u00f3ria \u2013o oque n\u00e3o impede que os neopentecostais, integristas cat\u00f3licos e a direita em geral esforcem-se por restaur\u00e1-la atualmente.<\/p>\n<p>Mas \u201ca pobreza n\u00e3o \u00e9 fatal, n\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia da natureza, nem \u00e9 vontade de Deus que haja ricos e pobres.\u201d[4] Na Confer\u00eancia Episcopal de Puebla (1979), os bispos da Am\u00e9rica Latina anotaram com clareza que a pobreza \u201c\u00e9 produzida por determinadas situa\u00e7\u00f5es e estruturas econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas\u201d (n\u00ba 30).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ler a B\u00edblia com um m\u00ednimo de fidelidade sem acolher o fato de que a den\u00fancia da pobreza e dos ricos como seus causadores ocupa um papel central no caminho de Deus com os homens a partir dos profetas e, a rigor, desde a \u201cdescida\u201d de Deus para libertar o povo de Israel do cativeiro. O relato da sar\u00e7a ardente no livro do \u00caxodo, no encontro de Mois\u00e9s com Deus \u00e9 eloquente:<\/p>\n<p>O Senhor disse: \u201cEu vi, eu vi a mis\u00e9ria do meu povo que est\u00e1 no Egito, e ouvi os seus gritos por causa de seus opressores. Sim, eu conhe\u00e7o seus sofrimentos. E desci para livr\u00e1-lo da m\u00e3o dos eg\u00edpcios e para faz\u00ea-lo subir do Egito para uma terra f\u00e9rtil e vasta, uma terra que mana leite e mel, l\u00e1 onde habitam os cananeus, os heteus, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Agora, eis que os clamores dos israelitas chegaram at\u00e9 mim, e vi a opress\u00e3o que lhes fazem os eg\u00edpcios.(Ex3,7-9)<\/p>\n<p>Os profetas, nos dois Testamentos, denunciam a situa\u00e7\u00e3o do povo e acusam com veem\u00eancia os ricos; o profeta b\u00edblico n\u00e3o \u00e9 aquele que faz previs\u00f5es sobre o futuro como um adivinho, mas o que, com coragem e destemor, fala a verdade \u2013e, em geral paga por isso, pois os ricos\/poderosos n\u00e3o os perdoam. O exemplo maior \u00e9 exatamente Jesus, o preso pol\u00edtico por excel\u00eancia da B\u00edblia.<\/p>\n<p>Por isso Oscar Romero afirmou numa homilia em 29 de julho de 1979, acerca de suas homilias prof\u00e9ticas: \u201cEstas homilias querem ser a voz deste povo. Querem ser a voz dos que n\u00e3o tem voz. Por isso, sem d\u00favida cai mal \u00e0queles que t\u00eam voz demais\u201d[5] (entende-se porque o processo de beatifica\u00e7\u00e3o de Romero ficou travado quase 20 anos pela hierarquia cat\u00f3lica. Agora, sob Francisco, o pr\u00f3prio Vaticano reconheceu que houve uma campanha de difama\u00e7\u00e3o contra o m\u00e1rtir dentro da c\u00fapula da Igreja).<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma quest\u00e3o chave. Aos pobres, no mundo dominado pelos ricos poderosos, \u00e9 negado tudo: at\u00e9 a palavra. H\u00e1 \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d, mas que a pobreza n\u00e3o diga sua palavra.[6]<\/p>\n<p>No livro de Isa\u00edas, aponta-se que a riqueza da elite judaica \u00e9 resultante do roubo dos mais pobres, fruto de uma situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a:<br \/>\n\u201cComo se prostituiu a cidade fiel, Si\u00e3o, cheia de retid\u00e3o? A justi\u00e7a habitava nela, e agora s\u00e3o os assassinos. Tua prata converteu-se em esc\u00f3ria, teu vinho misturou-se com \u00e1gua. Teus pr\u00edncipes s\u00e3o rebeldes, c\u00famplices de ladr\u00f5es. Todos eles amam os subornos e andam atr\u00e1s do proveito pr\u00f3prio; n\u00e3o fazem justi\u00e7a ao \u00f3rf\u00e3o e a causa da vi\u00fava n\u00e3o os atinge.\u201d (Is 1,21-23)<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quiser, ou\u00e7a um eco distante desta den\u00fancia na boca-m\u00fasica de um profeta contempor\u00e2neo, o brasileiro Cazuza, em O Tempo n\u00e3o Para.<br \/>\nAinda Isa\u00edas, mais adiante, acusando os ricos de esmagar os pobres:<\/p>\n<p>\u201cO Senhor se levanta para acusar, e se ergue para julgar seu povo. O Senhor entra em ju\u00edzo contra os anci\u00e3os e os magistrados de seu povo. Fostes v\u00f3s que devorastes a vinha, o esp\u00f3lio do pobre est\u00e1 em vossas casas. Por que raz\u00e3o calcais aos p\u00e9s o meu povo, e maltratais a face dos pobres?, declara o Senhor Deus dos ex\u00e9rcitos.\u201d (Is 3,13-15)<\/p>\n<p>A agressividade de Am\u00f3s e Miqueias na den\u00fancia da riqueza e da injusti\u00e7a contra os pobres ecoam at\u00e9 hoje:<\/p>\n<p>Ouvi isto, v\u00f3s que esmagais o indigente, e quereis eliminar o pobre da terra, v\u00f3s que dizeis: \u201cQuando passar\u00e1 a lua nova, para vendermos o nosso trigo, e o s\u00e1bado, para abrirmos os nossos celeiros, diminuindo a medida e aumentando o pre\u00e7o, e falseando a balan\u00e7a para defraudar? Para comprarmos o fraco com dinheiro e o pobres por um par de sand\u00e1lias e para vendermos at\u00e9 o refugo do trigo.\u201d O Senhor jurou pelo orgulho de Jac\u00f3: n\u00e3o esquecerei jamais nenhum de seus atos. (Am 8,4-7)<\/p>\n<p>Ai dos maquinadores de iniquidade, dos que tramam o mal nos seus leitos, e o executam logo ao amanhecer do dia, porque t\u00eam o poder na m\u00e3o! Cobi\u00e7am as terras e apoderam-se delas, cobi\u00e7am as casas e roubam-nas; oprimem o var\u00e3o e sua casa, o homem e sua heran\u00e7a. (Mq 2,1-2)<br \/>\nNo livro de J\u00f3, a associa\u00e7\u00e3o entre a pobreza-mis\u00e9ria e o sistema econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico e religioso in\u00edquo \u00e9 claro:<\/p>\n<p>Os maus mudam as divisas das terras, e roubam o rebanho e o pastor. Carregam o jumento do \u00f3rf\u00e3o e tomam em penhor o boi da vi\u00fava. Afastam os pobres do caminho, todos os miser\u00e1veis da regi\u00e3o precisam esconder-se. Como os asnos no deserto, saem para o trabalho, \u00e0 procura do que comer, \u00e0 procura do p\u00e3o para seus filhos. Ceifam a forragem num campo, vindimam a vinha do malvado. Passam a noite nus, sem roupa, sem cobertor contra o frio. S\u00e3o banhados pelas chuvas da montanha; sem abrigo, abra\u00e7am-se com as rochas. Arrancam o \u00f3rf\u00e3o do seio materno, tomam em penhor as crian\u00e7as do pobre. Andam nus, despidos, esfomeados, carregam feixes. Espremem o \u00f3leo nos celeiros, pisam os lagares, morrendo de sede. Sobe da cidade o estertor dos moribundos, a alma dos feridos grita. O assassino levanta-se quando cai o dia, para matar o pobre e o indigente; o ladr\u00e3o vagueia durante a noite. (J\u00f3 2,2-12.14).<\/p>\n<p>A pobreza, na tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica, n\u00e3o era vista meramente como uma quest\u00e3o econ\u00f4mica; era um tema teol\u00f3gico. Porque ela se contrapunha (e se contrap\u00f5e ainda hoje) ao projeto de Deus para seu povo, de paz, justi\u00e7a, amor e fartura. Era (e \u00e9) fonte de poder, viol\u00eancia e opress\u00e3o contra os mais fracos, a vi\u00fava (a mulher), o \u00f3rf\u00e3o (as crian\u00e7as), o estrangeiro (os refugiados), a prostituta (os que possuem caminhos de sexualidade fora do \u201cpadr\u00e3o\u201d heterossexual dominante), o doente, o pobre. Por isso, o grito prof\u00e9tico:<\/p>\n<p>Goteja, \u00f3 c\u00e9us, l\u00e1 do alto, derramem as nuvens a justi\u00e7a; abra-se a terra e produza a salva\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo fa\u00e7a germinar a justi\u00e7a! Eu, o Senhor, criei isto. (Is 45,8)<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o \u00e9 a que permeia os ensinamentos de Jesus, especialmente no terceiro evangelho, o de Lucas \u2013n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o Papa Francisco indicou este evangelho como centro da medita\u00e7\u00e3o dos cat\u00f3licos ao decretar o Ano Santo da Miseric\u00f3rdia (entre 8 de dezembro de 2015 e 20 de novembro de 2016).<\/p>\n<p>O profetismo foi assumido como centro da vida das comunidades crist\u00e3s depois da crucifix\u00e3o de Cristo e a den\u00fancia dos ricos prossegue com vigor em textos como os de Tiago e na primeira carta de S\u00e3o Paulo a Tim\u00f3teo:<\/p>\n<p>V\u00f3s, ricos, chorai e gemei por causa das desgra\u00e7as que sobre v\u00f3s vir\u00e3o. Vossas riquezas apodreceram e vossas roupas foram comidas pela tra\u00e7a. Vosso ouro e vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem dar\u00e1 testemunho contra v\u00f3s e devorar\u00e1 vossas carnes como fogo. Entesourastes nos \u00faltimos dias! Eis que o sal\u00e1rio, do qual privastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, clama, e seus gritos de ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos ex\u00e9rcitos. (Ti 5,1-4)<\/p>\n<p>Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do dem\u00f4nio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ru\u00edna e da perdi\u00e7\u00e3o. Porque a raiz de todos os males \u00e9 o amor ao dinheiro. Acossados pela cobi\u00e7a, alguns se desviaram da f\u00e9 e se enredaram em muitas afli\u00e7\u00f5es. (1Tm 6,9-10)<\/p>\n<p>Tal radicalidade foi herdada por alguns dos te\u00f3logos que, nos primeiros s\u00e9culos da constru\u00e7\u00e3o do cristianismo (entre os s\u00e9culos 2 e 8), foram identificados como centrais na formula\u00e7\u00e3o da Igreja e por isso chamados de Padres ou Pais da Igreja. Os recorrentes processos de ades\u00e3o da hierarquia aos ricos fez com que estes textos fossem deixados \u00e0 margem por s\u00e9culos, mas Francisco tem lan\u00e7ado novas luzes sobre eles.<\/p>\n<p>S\u00e3o Bas\u00edlio, de Ces\u00e1ria (329 \u2013379) escreveu tr\u00eas homilias contra os ricos e a acumula\u00e7\u00e3o de riquezas: Sobre os tempos de fome (Am\u00f3s 3,8), Sobre os ricos (Mt 19,16-26) e Sobre Lucas ou Sobre a Avareza (Lc 12,16-21). Tinha uma aguda percep\u00e7\u00e3o sobre o processo de desumaniza\u00e7\u00e3o provocado pelo dinheiro e sua busca desenfreada, com refinado conhecimento de seus mecanismos psicol\u00f3gicos:<\/p>\n<p>A bela cor do ouro te alegra extremamente, mas n\u00e3o pensas quantos e quais gemidos do indigente te acompanham. (\u2026) O que n\u00e3o fazes pelo ouro? Para ti o trigo se torna ouro, o vinho se solidifica em ouro, a l\u00e3 se transforma em ouro; todas as mercadorias, em suma, e todos os projetos te levam ao ouro. O ouro se reproduz por si mesmo, multiplicando-se com os lucros. E n\u00e3o est\u00e1s jamais saciado e tuas ambi\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam limites. (na Homilia Sobre Lucas ou Sobre a Avareza)<\/p>\n<p>Aos dez talentos que j\u00e1 possuis, procuras acrescentar outros dez; quando tens vinte, desejas ter outro tanto, e os teus sucessivos ganhos, longe de abrandarem o teu \u00edmpeto, antes inflamam a tua ambi\u00e7\u00e3o. (\u2026) Assim, a alma est\u00e1 devorada de cuidados, enquanto tentam encher-se ainda mais. Em vez de se alegrarem e agradecerem a Deus por terem mais que muitos outros, pelo contr\u00e1rio, irritam-se e sentem-se vexados porque uma ou talvez duas pessoas os ultrapassam. Quando as alcan\u00e7am, logo se esfor\u00e7am por igualar a fortuna doutra ainda mais rica que as primeiras e, quando o conseguiram, dirigem a sua f\u00faria para uma terceira.[7]<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo (347-407) antecipou em s\u00e9culos uma percep\u00e7\u00e3o sobre a origem das riquezas e seus protagonistas. Muito antes de iniciarem-se as primeiras formula\u00e7\u00f5es de fundo socialista e de Marx, ele ensinou que enquanto a riqueza \u00e9 constru\u00edda pelos trabalhadores, os ricos usurpam-nas e as transformam em suas propriedades:<\/p>\n<p>(\u2026) nunca consideramos ilustre aquele que tem magn\u00edficos pal\u00e1cios (\u2026); a gl\u00f3ria que nisso existe \u00e9 para os oper\u00e1rios que fizeram tais coisas materiais, e n\u00e3o para aqueles que as adquiriu; \u00e9, pelo contr\u00e1rio, prova de perversidade[8].<\/p>\n<p>A inspira\u00e7\u00e3o de Cris\u00f3stomo no profetismo b\u00edblico \u00e9 evidente, ao denunciar os ricos:<\/p>\n<p>Quando p\u00f5e um freio de ouro a um cavalo, (\u2026) ent\u00e3o roubas os \u00f3rf\u00e3os, despojas as vi\u00favas e tornas-te o comum inimigo de todos. (\u2026) Na verdade, para qualquer lado que [os ricos] voltem os olhos, veem brilhar o dinheiro e seu cora\u00e7\u00e3o doente engendra pensamentos de roubo.[9]<br \/>\nSanto Ambr\u00f3sio de Mil\u00e3o (337-397) captura com dureza a repugn\u00e2ncia do rico ao pobre e a ignom\u00ednia de gastarem fortunas com seus animais e objetos enquanto desprezam os que sofrem (outro tema recorrentes desde os profetas):<\/p>\n<p>At\u00e9 quando, \u00f3 rico, estendereis a vossa avidez mort\u00edfera? (\u2026) V\u00f3s n\u00e3o quereis s\u00f3 possuir o que vos \u00e9 \u00fatil, mas excluir os outros. (\u2026) Porque dizes ao pobre: n\u00e3o me toques? N\u00e3o \u00e9s como ele concebido e nascido de um seio materno, nascido pobre como ele? Porque te glorias da antiguidade de tua nobreza? (\u2026) Proclamais a nobreza dos vossos cavalos como a dos c\u00f4nsules (\u2026) vestis pedras e despojais homens (\u2026) um homem pede-te p\u00e3o e o teu cavalo mastiga ouro entre os dentes. [10]<\/p>\n<p>A pobreza e a concentra\u00e7\u00e3o de riqueza s\u00e3o dois processos umbilicalmente ligados na correta percep\u00e7\u00e3o b\u00edblica e dos Padres da Igreja. Ela desumaniza tanto os pobres como os ricos.<\/p>\n<p>Os pobres porque \u201ctraz toda sorte de car\u00eancias, desestrutura a vida emotiva, as rela\u00e7\u00f5es com os outros, impede continuamente a voca\u00e7\u00e3o essencial do ser humano a desenvolver-se e a expandir suas capacidades para al\u00e9m do instinto de sobreviv\u00eancia, leva-os \u00e0 inveja, ao \u00f3dio, \u00e0 viol\u00eancia contra os que os mant\u00eam na mis\u00e9ria e, muitas vezes, a desesperar de Deus e a levantar o punho contra o c\u00e9u\u201d.[11]<\/p>\n<p>Quanto aos ricos, como os identificaram Jesus, os profetas e os padres da Igreja s\u00e9culos atr\u00e1s, desumanizam-se porque trocam o universo da rela\u00e7\u00e3o com o outro pelo culto a uma coisa (o dinheiro), porque menosprezam os pobres, a ponto de considerar leg\u00edtima a escravid\u00e3o. As classes dominantes, sucessoras dos donos dos escravos em boa parte da humanidade, consideram os pobres desqualificados, desprez\u00edveis, \u201cevitam-lhes o contato f\u00edsico, passam ao largo, insens\u00edveis \u00e0s suas mis\u00e9rias\u201d.[12]<\/p>\n<p>Tempos atr\u00e1s, estive num encontro no qual estavam cerca de uma dezena de empres\u00e1rios e altos executivos, moradores da regi\u00e3o do Morumbi, em S\u00e3o Paulo, de alta concentra\u00e7\u00e3o de riqueza, enquanto favelas proliferam na mesma regi\u00e3o, a mais conhecida delas a de Parais\u00f3polis, com mais de 100 mil habitantes. Na conversa, estes homens jactavam-se, assim como algumas mulheres, de s\u00f3 passarem nas ruas pr\u00f3ximas \u00e0 favela em carros blindados: \u201cQuando nosso carro blindado n\u00e3o est\u00e1 em casa, a ordem \u00e9 que ningu\u00e9m saia\u201d, explicava um deles.<br \/>\nEssa desumaniza\u00e7\u00e3o tem origem no duplo aspecto da pobreza: como um absoluto (ela em si mesma cria obst\u00e1culos brutais \u00e0s pessoas em seu desenvolvimento) e, sobretudo, por seu car\u00e1ter relacional.<\/p>\n<p>O sentido relacional da pobreza, segundo Jon Sobrino \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do pobre vis-\u00e0-vis a o rico, bloqueia o olhar para o outro e constr\u00f3i-se sobre uma base de opress\u00e3o de uns poucos sobre a imensa maioria. A rela\u00e7\u00e3o pobreza\/riqueza e pobre\/rico denuncia a injusti\u00e7a do mundo \u2013e deveria ser causa de profunda indigna\u00e7\u00e3o de homens e mulheres, mas tornou-se \u201cnaturalizada\u201d, aceita como parte da ind\u00fastria do entretenimento.<br \/>\nDias atr\u00e1s se tornou p\u00fablico que um jogador de futebol brasileiro, Neymar J\u00fanior, acabara de firmar um novo contrato com o Barcelona, por cinco anos. Em cada ano, ele receber\u00e1 R$ 75 milh\u00f5es, soma que alcan\u00e7ar\u00e1 facilmente os R$ 100 milh\u00f5es anuais, considerando-se contratos de imagem e publicidade! Qual a rea\u00e7\u00e3o da sociedade? Nenhuma. \u00c9 \u201cnormal\u201d, ou ainda, objeto de admira\u00e7\u00e3o por seus \u201cm\u00e9ritos\u201d ou ent\u00e3o de \u201csaud\u00e1vel inveja\u201d, como se escreve aqui e ali.<\/p>\n<p>A renda de Neymar equivale \u00e0 de quase 10 mil pessoas que recebem sal\u00e1rio m\u00ednimo (R$ 880,00); seria suficiente para pagar o benef\u00edcio do Bolsa Fam\u00edlia a quase 100 mil pessoas (R$ 85 reais mensais por pessoa). Uma \u00fanica pessoa.<\/p>\n<p>Assim como ele, outras \u201cestrelas\u201d t\u00eam renda da ordem de dezenas de milh\u00f5es de reais. O apresentador Fausto Silva recebe em torno de R$ 80 milh\u00f5es anuais; e os donos da Rede Globo? Um recorte realista: a renda anual de dez desses super milion\u00e1rios brasileiros (jogadores de futebol, artistas, banqueiros e empres\u00e1rios) equivale \u00e0 de 80 mil pessoas que vivem de sal\u00e1rio m\u00ednimo ou ao benef\u00edcio da Bolsa Fam\u00edlia para algo como 800 mil pessoas.<\/p>\n<p>\u00c9 razo\u00e1vel? \u00c9 aceit\u00e1vel pela sociedade? H\u00e1 tanto \u201cm\u00e9rito\u201d assim dessas pessoas que autorize elas reterem para si renda equivalente \u00e0 de 80 mil pessoas ou em casos mais dram\u00e1ticos de 800 mil pessoas?<\/p>\n<p>Se ampliarmos o olhar para o planeta, o cen\u00e1rio \u00e9 igualmente desolador: 62 multimilion\u00e1rios det\u00eam riqueza equivalente \u00e0 metade da popula\u00e7\u00e3o do globo.<\/p>\n<p>Sim, os neoliberais, banqueiros, grandes empres\u00e1rios, rentistas, seus ide\u00f3logos e propagandistas, as igrejas neopentecostais e cat\u00f3licos reacion\u00e1rios afirmam que esta \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel, porque esses agrupamentos de pessoas acumularam tal riqueza por conta de suas qualidades: a meritocracia. Eles vendem para os pobres a ilus\u00e3o de que \u201cvoc\u00ea tamb\u00e9m pode chegar l\u00e1\u201d, com a mobiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas de propaganda maci\u00e7a (o Brasil \u00e9 um caso exemplar, com a Rede Globo na lideran\u00e7a desta opera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A l\u00f3gica \u00e9 implac\u00e1vel: aos ricos sobram m\u00e9ritos; aos pobres falta. Em verdade, o pensamento deste bloco de formid\u00e1vel poder e riqueza constela uma senten\u00e7a sobre os pobres que est\u00e1 assentada na mesma vis\u00e3o da teologia dos ricos de Israel: o pobre \u00e9 pobre porque \u00e9 um pecador. A palavra para pecadores tanto em hebraico ( hata\u00eems) como em grego (hamart\u00f4lo\u00ef) remete \u00e0 ideia de faltoso[13], aquele ou aquela que n\u00e3o segue a Lei, gente com a qual as pessoas \u201cde bem\u201d (ricos e aspirantes \u00e0 riqueza) n\u00e3o se mistura. S\u00e3o pecadores, enquanto os ricos seriam virtuosos.<br \/>\nOs pobres s\u00e3o, para os ricos, bucha de canh\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o um perigo. Podem contaminar com seus cheiros, irritar com suas risadas barulhentas, incomodar com suas conversas sobre alegrias e sofrimentos, amea\u00e7ar quando vislumbram seus direitos. Conv\u00e9m mant\u00ea-los \u00e0 dist\u00e2ncia. Jesus virou do avesso essa maneira de enxergar a vida: misturou-se, afirmou que s\u00e3o eles os sujeitos privilegiados da rela\u00e7\u00e3o e do amor de Deus, proclamou que o Reino de Deus a eles pertence se forem pobres tamb\u00e9m de cora\u00e7\u00e3o (Mt 5,3).<\/p>\n<p>H\u00e1 pobres porque h\u00e1 ricos. E eles est\u00e3o campos opostos quanto ao seu projeto para a humanidade, as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas e Mist\u00e9rio. \u201cNa realidade, a humanidade est\u00e1 dividida entre opressores e oprimidos\u201d, escreveu o te\u00f3logo Jos\u00e9 Comblin, um te\u00f3logo belga que se abrasileirou no amor pelo povo da terra, que o ex\u00edlio imposto pelos militares nos anos 70 n\u00e3o conseguiu sufocar \u2013morreu no interior da Bahia, em 2011.<br \/>\nEsta separa\u00e7\u00e3o que sangra o planeta e a humanidade se expressa num fen\u00f4meno definido como \u201cluta de classes\u201d, que foi claramente identificado pelos profetas e Padres da Igreja. A direita balan\u00e7a o espantalho do marxismo e do comunismo para impedir o debate, criando um ambiente de viol\u00eancia e condena\u00e7\u00e3o \u2013no qual os integristas crist\u00e3os t\u00eam tido um papel cada dia mais relevante no Brasil. Mas \u00e9 um fen\u00f4meno que a Igreja j\u00e1 identificou com serenidade; documento da comiss\u00e3o do mundo oper\u00e1rio do episcopado franc\u00eas, em 1968, explicitou: \u201cA luta de classes \u00e9 um fato que ningu\u00e9m pode negar. Se nos situamos no n\u00edvel dos respons\u00e1veis pela luta de classes, os primeiros respons\u00e1veis s\u00e3o aqueles que mant\u00eam voluntariamente a classe oper\u00e1ria em uma situa\u00e7\u00e3o injusta, que se op\u00f5em \u00e0 sua promo\u00e7\u00e3o coletiva e que combatem os esfor\u00e7os que ela faz para se libertar\u201d.[14]<\/p>\n<p>Um Papa que n\u00e3o pode ser acusado de simpatia pelos socialistas, Pio XI, escreveu \u2013sem usar o termo- sobre a luta de classes que conduz a economia mundial. Foi em sua enc\u00edclica, Quadragesimo anno, de 1931: \u201cNo nosso tempo, tornou-se claro que o imenso poder e riqueza estavam concentrados nas m\u00e3os de apenas alguns homens. Este poder torna-se particularmente irresist\u00edvel quando exercido por aqueles, controlando e comandando o dinheiro (\u2026) Eles t\u00eam poder supremo do sistema de produ\u00e7\u00e3o, de modo que ningu\u00e9m possa ousar a respirar contra a vontade deles.\u201d (106) Na mesma enc\u00edclica, tr\u00eas t\u00f3picos adiante, ele denunciou o sistema financeiro, numa antecipa\u00e7\u00e3o de 85 ao processo de financeiriza\u00e7\u00e3o do planeta que assistimos hoje: \u201c\u00e0 hegemonia econ\u00f4mica, ao internacionalismo banc\u00e1rio, ao imperialismo internacional do dinheiro, para o qual a p\u00e1tria \u00e9 onde se est\u00e1 bem\u201d (No. 109).<\/p>\n<p>Esta luta \u00e9 desde sempre movida pelos ricos para submeter e massacrar os pobres. Diante desta realidade inelut\u00e1vel, a Igreja, em que pesem suas profundas contradi\u00e7\u00f5es, buscou, \u00e0s vezes com seus l\u00edderes institucionais e, na maior parte do tempo, com seus profetas, manter-se de um lado: o dos pobres.<\/p>\n<p>\u00c9 este o esp\u00edrito do papado de Francisco. Por sua iniciativa, aconteceu por duas vezes (a terceira ocorre agora, no in\u00edcio de novembro de 2016), o Encontro Mundial dos Movimentos Populares. No segundo deles, na Bol\u00edvia, quando o Papa afirma os movimentos sociais e os pobres como os \u00fanicos protagonistas poss\u00edveis de mudan\u00e7a no ritmo da humanidade e do planeta: \u201cAtrevo-me a dizer que o futuro da humanidade est\u00e1, em grande medida, nas vossas m\u00e3os, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca di\u00e1ria dos \u201c3 T\u201d (trabalho, teto, terra), e tamb\u00e9m na vossa participa\u00e7\u00e3o como protagonistas nos grandes processos de mudan\u00e7a nacionais, regionais e mundiais. N\u00e3o se acanhem!\u201d<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o implica uma confronta\u00e7\u00e3o da Igreja com o sistema. Jesus trombou com o sistema do Templo na sociedade judaica (que concentrava o poder religioso, econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social \u00e0 \u00e9poca); agora, a Igreja liderada por Francisco enfrenta o capitalismo, que o Papa qualificou como \u201csistema insuport\u00e1vel\u201d no encontro na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Um dos l\u00edderes da fr\u00e1gil e bela primavera do Vaticano, o cardeal de Tegucigalpa, \u00d3scar Andr\u00e9s Rodriguez Maradiaga \u00e9 um dos principais interlocutores de Francisco. Ele est\u00e1 indicado para assumir o novo dicast\u00e9rio (algo como um minist\u00e9rio) de Justi\u00e7a e Caridade da Igreja, em processo de cria\u00e7\u00e3o. Em 10 de abril de 2015, no F\u00f3rum da Nova Economia, em Madri, Maradiaga foi taxativo: o capitalismo \u00e9 \u201cum sistema econ\u00f4mico que mata\u201d. Mais ainda: \u201co capitalismo liberal n\u00e3o cumpre as regras, sequer as suas\u201d. O capitalismo \u00e9 essencialmente anti-humano, na vis\u00e3o do cardeal: \u201cOs entes econ\u00f4micos mundiais manejam cifras e se despreocupam com a dignidade de cada ser humano, e se referem a este como um meio para se chegar a um fim; como um recurso renov\u00e1vel, n\u00e3o como pessoa.\u201d Para o cardeal, o capitalismo \u00e9 insuport\u00e1vel e n\u00e3o tem reforma poss\u00edvel: \u201cQuando critico o modelo atual, estou convencido que uma simples reforma n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d. H\u00e1 um novo projeto em gesta\u00e7\u00e3o na c\u00fapula da Igreja, de matiz anticapitalista, como Maradiaga apontou: \u201cEste discurso otimista e positivo, teoricamente puro, de uma economia de mercado neoliberal, \u00e9 como uma terra m\u00edtica, onde poderia nascer o \u2018Homo Economicus\u2019. Existe outro cen\u00e1rio, com um ambiente humanizado fundado sobre a \u00e9tica, que promova o desenvolvimento integral dos povos e das pessoas, baseado sobre o humanismo econ\u00f4mico, onde possa crescer um her\u00f3i vitorioso: o \u2018Homo Rec\u00edproca\u2019. \u00c9 um cen\u00e1rio ideal, mas \u00e9 uma meta alcan\u00e7\u00e1vel\u201d. Se quiser, leia a \u00edntegra da reportagem sobre o discurso aqui.<\/p>\n<p>A Igreja n\u00e3o tem um sistema econ\u00f4mico ou pol\u00edtico a oferecer ao mundo. Sua refer\u00eancia e a dos crist\u00e3os deve ser sempre o Reino de Deus, reino da justi\u00e7a, do amor, da compaix\u00e3o. Tudo o que, de alguma maneira, contribui para uma aproxima\u00e7\u00e3o com este reino deve ter apoio da Igreja \u2013mesmo com a consci\u00eancia de que sua realiza\u00e7\u00e3o integral na Terra \u00e9 uma utopia irrealiz\u00e1vel. Tudo o que se op\u00f5e \u00e0 ideia do Reino deve ser denunciado e sofrer cerrada oposi\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p>E, como escreveu o te\u00f3logo espanhol Jos\u00e9 Antonio Pagola, \u201c(\u2026) o imp\u00e9rio do capitalismo neoliberal \u00e9 hoje o poder que mais radicalmente se enfrenta com o Reino de Deus\u201d[15]<\/p>\n<p><strong>3. Compaix\u00e3o, partilha e um desenho renovado da sociedade<\/strong><\/p>\n<p>Compaix\u00e3o \u00e9 palavra composta a partir do latim, contra\u00e7\u00e3o de <em>passiones<\/em>, sofrimento, e <em>cum<\/em> (com). Significa \u201csofrer com\u201d. \u00c9 amor em movimento. A palavra hebraica para compaix\u00e3o\/miseric\u00f3rdia \u00e9 ra-hhamim, literalmente \u201d\u00fatero contra\u00eddo\u201d ou \u201centranhas contra\u00eddas\u201d<br \/>\n\u00c9 esta a a\u00e7\u00e3o de Deus na sua rela\u00e7\u00e3o com o homem: \u201cO que define Deus n\u00e3o \u00e9 o poder, mas suas entranhas maternais de Pai. A compaix\u00e3o \u00e9 o modo de ser de Deus, sua maneira de olhar o mundo\u201d.[16]<\/p>\n<p>Quando Jesus vem ao mundo, colocou-se homem entre homens e mulheres para estar com ele em seus sofrimentos e com eles sofrer, a partir de suas entranhas, a partir do \u00fatero de Deus.<\/p>\n<p>\u201cAo ver as multid\u00f5es, teve compaix\u00e3o delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor\u201d (Mt 9,36). A cena ret\u00e9m o significado exato de cumpassiones, ra-hhamin. Jesus sofreu com os pobres, sentiu suas dores e, com isso, suas entranhas, seu \u201c\u00fatero divino\u201d revolveram-se, num movimento de contra\u00e7\u00e3o (dor comum) e expans\u00e3o (amor-acolhimento).<\/p>\n<p>O amor de um Deus simultaneamente Pai e M\u00e3e que contorce seu \u00fatero (suas entranhas) com o sofrimento de seus filhos est\u00e1 presente num longo e tocante poema em Isa\u00edas no qual o autor enceta um di\u00e1logo com Iahweh, o Deus de Israel, e o questiona, clamando por seu amor derramado: \u201cOlha desde o c\u00e9u e v\u00ea, desde a tua morada santa e gloriosa. Onde est\u00e3o teu zelo e teu valor? O fr\u00eamito das tuas entranhas e a tua compaix\u00e3o para comigo se recolheram?\u201d (Is 63,15)<\/p>\n<p>A explicita\u00e7\u00e3o de um amor terno, de fundo claramente maternal, est\u00e1 presente com delicadeza noutro di\u00e1logo do profeta com Deus, em Jeremias \u2013mas agora quem toma a palavra \u00e9 Iahweh: \u201cSer\u00e1 Efraim para mim filho t\u00e3o querido, crian\u00e7a de tal forma preferida, que cada vez que falo nele quero ainda lembrar-me dele? \u00c9 por isso que minhas entranhas se comovem por ele, que por ele transborda minha ternura.\u201d (Jer 31,20)<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o propriamente feminina do uso da palavra ra-hhamim fica expl\u00edcita na famosa hist\u00f3ria da decis\u00e3o do rei Salom\u00e3o de cortar um beb\u00ea ao meio diante da disputa de duas mulheres por sua maternidade, depois que o filho de uma delas (n\u00e3o se sabe qual) amanhecera morto: \u201cEnt\u00e3o a mulher, de quem era o filho vivo, suplicou ao rei, pois suas entranhas se comoveram por causa do filho dizendo: \u2018\u00d3 meu senhor! Que lhe seja dado ent\u00e3o o menino vivo, que n\u00e3o o matem de modo nenhum\u2019\u201d (1Rs 3,26) Preferindo ficar sem o filho a v\u00ea-lo morto, a verdadeira m\u00e3e revelou-se, pois seu \u00fatero comoveu-se, revirou-se.<\/p>\n<p>\u00c9 este o desejo de Deus e pelo qual ele revira suas entranhas, seu \u00fatero, sofre com sua cria\u00e7\u00e3o. Que haja vida! Que a vida seja a vitoriosa na batalha com a morte. Que o pobre n\u00e3o seja mais estra\u00e7alhado pelo poder e o dinheiro do rico, que o injusti\u00e7ado n\u00e3o seja mais morto nas m\u00e3os da pol\u00edcia, torturado pelos capit\u00e3es do mato dos senhores dos escravos de todos os tempos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o sentido preciso da feliz express\u00e3o de Oscar Romero que Sobrino definiu como uma \u201cf\u00f3rmula breve\u201d do cristianismo; disse o cardeal assassinado em 1980: \u201ca gl\u00f3ria de Deus \u00e9 que o pobre viva\u201d. Esta \u00e9 a causa de seu constante processo de contra\u00e7\u00e3o-expans\u00e3o de seu \u00fatero, de seu amor mobilizado em miseric\u00f3rdia-compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Este \u201cser de Deus\u201d fez com que Jesus revirasse do avesso um princ\u00edpio do juda\u00edsmo tradicional:<\/p>\n<p>\u201cA partir de sua experi\u00eancia radical da compaix\u00e3o de Deus, Jesus introduziu na hist\u00f3ria um princ\u00edpio decisivo de a\u00e7\u00e3o: \u2018Sede compassivos como vosso Pais \u00e9 compassivo\u2019\u2019 [a tradu\u00e7\u00e3o mais corrente usa a palavra miseric\u00f3rdia em vez de compaix\u00e3o]. \u00c9 uma frase que muda radicalmente o preceito do juda\u00edsmo, assentado no princ\u00edpio da santidade: \u201cSede santos porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo\u201d. (Lv19,2)<\/p>\n<p>O princ\u00edpio da compaix\u00e3o como base do seguimento de Deus arrebenta completamente os conceitos de \u201csantidade\u201d assentados em bases moralizadoras e de seguimento de regras (a vers\u00e3o crist\u00e3 das Leis do juda\u00edsmo, n\u00edtidas na hist\u00f3ria da ora\u00e7\u00e3o do fariseu e do cobrador de impostos que meditamos no 30\u00ba domingo do Tempo Comum).<\/p>\n<p>Esta doutrina, conhecida tamb\u00e9m como \u201cdoutrina da reden\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 par da Teologia da Prosperidade, diferentemente da \u201cdoutrina da compaix\u00e3o\u201d, par da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Ela cuida de apontar o pecado do outro, de maneira insistente, como se a solu\u00e7\u00e3o do mundo, a salva\u00e7\u00e3o das pessoas e o caminho da f\u00e9 fosse um processo crescente de judicializa\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. J.B. Metz diagnosticou com precis\u00e3o: \u201ca doutrina crist\u00e3 da reden\u00e7\u00e3o dramatizou excessivamente a quest\u00e3o da culpa e relativizou a quest\u00e3o do sofrimento. (\u2026) De ser uma religi\u00e3o sens\u00edvel ao sofrimento, passou a ser uma religi\u00e3o sens\u00edvel ao pecado. O primeiro olhar deixou de dirigir-se para o sofrimento e centrou-se na culpa\u201d.[17]<br \/>\nJesus, ao contr\u00e1rio dos rigoristas, n\u00e3o olha para o pecado, mas para o sofrimento das pessoas. \u00c9 sobre esta \u201cautoridade dos que sofrem\u201d[18] que Jesus colocou toda a humanidade, que ele subordinou toda a hist\u00f3ria e as rela\u00e7\u00f5es[19] \u2013\u00e9 a ela que resistem os ricos, mas que se apresenta como \u00fanica possibilidade de salva\u00e7\u00e3o do planeta em acelerado processo de destrui\u00e7\u00e3o pelo capitalismo.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os precisam abandonar o grande \u201ce da\u00ed?\u201d: o sofrimento do pobre n\u00e3o nos toca, n\u00e3o nos cabe; a raiz da injusti\u00e7a n\u00e3o \u00e9 problema nosso, cumpre-nos rezar o ter\u00e7o, fazer quermesses, reformar os pr\u00e9dios das Igrejas e levar um quilo de alimento n\u00e3o perec\u00edvel numa missa por m\u00eas ou alguma a\u00e7\u00e3o \u201cde caridade\u201d. \u201cN\u00e3o sou respons\u00e1vel!\u201d \u2013\u00e9 o grito dos que se desincumbem e at\u00e9 dos ricos. \u00c9 o imp\u00e9rio do \u201csalve-se quem puder\u201d.<br \/>\nIsto n\u00e3o serve aos crist\u00e3os. \u00c9 preciso recuperar a compaix\u00e3o como princ\u00edpio de atua\u00e7\u00e3o, \u201clibertando-a de uma concep\u00e7\u00e3o sentimental e moralizante que a fez quase desaparecer da pr\u00e1xis pol\u00edtica. De ordin\u00e1rio, a compaix\u00e3o que reclama justi\u00e7a para erradicar as causas que geram sofrimento \u00e9 exatamente o que n\u00e3o \u00e9 permitido pelos centros do poder. Tudo funciona como se n\u00e3o houvesse dores nem prantos de nenhum tipo. A partir do poder, tudo se leva em contra, menos o sofrimento das v\u00edtimas. S\u00f3 se tolera compaix\u00e3o quando ela se reduz a \u2018obras de miseric\u00f3rdia\u2019 ou assist\u00eancia caritativa, n\u00e3o quando ela \u00e9 elevada a princ\u00edpio de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para erradicar o sofrimento\u201d.[20]<\/p>\n<p>A toler\u00e2ncia \u00e0 a\u00e7\u00e3o \u201ccaritativa\u201d da Igreja e depois tornada regra com as \u201cobras de benemer\u00eancia\u201d dos ricos e suas empresas (travestidas de \u201cresponsabilidade social\u201d, \u201csustentabilidade\u201d e outros nomes nos \u00faltimos anos) foi flagrada por dom H\u00e9lder C\u00e2mara, agora em processo de beatifica\u00e7\u00e3o, depois de perseguido pelo poder pol\u00edtico e eclesial no Brasil: \u201cQuando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles s\u00e3o pobres, chamam-me de comunista\u201d.<\/p>\n<p>Nas primeiras comunidades crist\u00e3s, a compaix\u00e3o e a miseric\u00f3rdia eram os fios condutores das rela\u00e7\u00f5es sociais entre seus integrantes, como um projeto de sociedade. O livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos, registro dessas primeiras comunidades, assim como Paulo, d\u00e3o indica\u00e7\u00f5es precisas sobre isso.<\/p>\n<p>Nos Atos, conhecemos comunidades de vida partilhada, inspiradas na perspectiva b\u00edblica, com refer\u00eancia evidente ao livro do Deuteron\u00f4mio: \u201c\u00c9 verdade que em teu meio n\u00e3o haver\u00e1 nenhum pobre\u201d (Dt 15,4). Em duas passagens paralelas descreve-se nos Atos esta vida comum, de car\u00e1ter socializante das comunidades crist\u00e3s originais:<\/p>\n<blockquote><p>Perseveravam eles na doutrina dos ap\u00f3stolos, na reuni\u00e3o em comum, na fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e nas ora\u00e7\u00f5es. De todos eles se apoderou o temor, pois pelos ap\u00f3stolos foram feitos tamb\u00e9m muitos prod\u00edgios e milagres em Jerusal\u00e9m e o temor estava em todos os cora\u00e7\u00f5es. Todos os fi\u00e9is viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. (At 2,42-45)<\/p>\n<p>A multid\u00e3o dos fi\u00e9is era um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma. Ningu\u00e9m dizia que eram suas as coisas que possu\u00eda, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os ap\u00f3stolos davam testemunho da ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a gra\u00e7a. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possu\u00edam terras e casas vendiam-nas, e traziam o pre\u00e7o do que tinham vendido e depositavam-no aos p\u00e9s dos ap\u00f3stolos. Repartia-se ent\u00e3o a cada um deles conforme a sua necessidade. (At 4,32-35)<\/p><\/blockquote>\n<p>Este desejo de comunh\u00e3o, presente nas primeiras comunidades crist\u00e3s, marcaria fundamente o pensamento de todos quantos encetaram projetos de <em>koinonia<\/em> (igualdade) entre os seres humanos.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente a correla\u00e7\u00e3o entre a frase repetida nos Atos, \u201cRepartia-se ent\u00e3o a cada um deles conforme a sua necessidade\u201d, com a de Marx, em seu Cr\u00edtica ao Programa de Gotha (1875): \u201cDe cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades\u201d \u2013uma orienta\u00e7\u00e3o para a utopia das sociedades comunistas.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo 19 foi pr\u00f3digo de formula\u00e7\u00f5es assemelhadas, na busca do ideal b\u00edblico.<\/p>\n<p>\u201cDe cada um conforme seus meios, a cada um conforme suas necessidades\u201d \u2013a express\u00e3o foi utilizada pela primeira vez por Louis Blanc no texto Organiza\u00e7\u00e3o do Trabalho (1839).<\/p>\n<p>\u00c9tienne Cabet, um te\u00f3rico do comunismo crist\u00e3o, usou a seguinte f\u00f3rmula, no livro Viagem \u00e0 Ic\u00e1ria (1840), um texto sobre uma cidade ut\u00f3pica: \u201cA cada um segundo suas necessidades. De cada um segundo suas for\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>E em 1880, no artigo Anarquia e Comunismo, o anarquista Carlo Cafiero escreveu: \u201cO comunismo ser\u00e1 o gozo de toda riqueza existente por todos os homens e segundo o princ\u00edpio: de cada um segundo suas faculdades, para cada um segundo suas necessidades, quer dizer: de cada um e para cada um de acordo com sua vontade.\u201d<\/p>\n<p>Mas foi um s\u00e9culo igualmente tr\u00e1gico na incompreens\u00e3o e hostilidade que marcou as rela\u00e7\u00f5es entre a Igreja e os socialistas, comunistas e anarquistas, num quadro que se agravou \u2013com pequenos intervalos- ao longo do s\u00e9culo 20, at\u00e9 que tempos de di\u00e1logo voltassem a se estabelecer depois do Vaticano II, da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e, agora, com o Papa Francisco \u2013sincronicamente \u00e0 ameniza\u00e7\u00e3o e, em muitos casos, ao arquivamento do radicalismo da milit\u00e2ncia ateia.<\/p>\n<p>Compaix\u00e3o em vez de rigorismo, partilha e vez de reten\u00e7\u00e3o \u2013a proposta de Jesus a toda a humanidade.<\/p>\n<p><strong>4. Servir o dinheiro: armadilhas e justificativas<\/strong><\/p>\n<p>Para esta se\u00e7\u00e3o do artigo, estou fiando-me sobretudo em Crer depois de Freud, do te\u00f3logo espanhol Carlos Dominguez Morano, em especial do cap\u00edtulo Ningu\u00e9m pode servir a dois senhores.<\/p>\n<p>Este \u00e9 n\u00e3o apenas um tema central na hist\u00f3ria de Zaqueu, mas ocupa o centro da vida humana, como percebeu Jesus ao colocar diante dos homens a op\u00e7\u00e3o: ou Deus ou o dinheiro. Algumas correntes de espiritualidade, entre elas a direita cat\u00f3lica, acusam os crist\u00e3os vinculados ao mais original projeto de Jesus de \u201cmaterialistas\u201d ou mesmo de marxistas-comunistas ou ent\u00e3o de \u201cobcecados pelo dinheiro\u201d -o que \u00e9 um recurso recorrente dos moralizadores, o de lan\u00e7ar sobre o outro os \u201cpecados\u201d nos quais incorrem quotidianamente. Com isso, pretendem construir um caminho de espiritualidade desvinculado da humanidade vivida-concreta, como se fosse poss\u00edvel varrer para debaixo do tapete a maior sujeira da hist\u00f3ria \u2013o que \u00e9 evidentemente imposs\u00edvel e leva a distor\u00e7\u00f5es e patologias sem fim.<\/p>\n<p>Morano aponta que, na verdade, o tema nunca \u00e9 \u201cs\u00f3 dinheiro\u201d. As rela\u00e7\u00f5es entre os homens\/mulheres com o dinheiro comportam dimens\u00f5es nem sempre l\u00f3gicas, que extrapolam o discurso racional, mais ou menos organizado \u2013\u00e9 sempre \u201calgo mais\u201d que dinheiro.[21]<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o das pessoas com o dinheiro, revelou-nos a psican\u00e1lise, \u201cest\u00e1 tamb\u00e9m implicada uma \u2018quest\u00e3o de amor\u2019; dito em termos mais freudianos, uma quest\u00e3o de ordem libidinal, inconsciente e com ra\u00edzes na inf\u00e2ncia. Isso nos permite compreender, entre outras coisas, porque, assim como ocorre com a sexualidade, o dinheiro provoca tantas rea\u00e7\u00f5es de dissimula\u00e7\u00e3o, falso pudor e hipocrisia.\u201d[22]<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o oculta que Freud trouxe \u00e0 tona \u2013e causou enorme mal-estar: a intimidade entre nossa rela\u00e7\u00e3o o dinheiro e a fase da libido anal, relacionando-o com os excrementos.<\/p>\n<p>O valor nodal do dinheiro para os adultos \u00e9, descobriu Freud, an\u00e1logo ao alt\u00edssimo valor que os excrementos possuem para as crian\u00e7as. Outro psicanalista, Sandor Ferenczi, do grupo de Freud, demonstrou \u201cos diversos passos pelos quais a crian\u00e7a vai efetuando a sublima\u00e7\u00e3o do conte\u00fado anal at\u00e9 alcan\u00e7ar sua transmuta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica em dinheiro. A mat\u00e9ria fecal vai passando por uma s\u00e9rie de substitui\u00e7\u00f5es, nas quais vai progressivamente distorcendo a o primitiva satisfa\u00e7\u00e3o auto er\u00f3tica relacionada com a defeca\u00e7\u00e3o: o barro, a areia, a pedra, o jogo com bolinhas de gude e bot\u00f5es todos objetos que proporcionam tanta satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a que facilitam a substitui\u00e7\u00e3o do f\u00e9tido, duro, mole pelo inodoro, seco duro.\u201d[23] O dinheiro ingressa nessa cadeia de sublima\u00e7\u00f5es por um caminho complexo at\u00e9 desvincular-se de toda a apar\u00eancia com sua \u201cfonte original\u201d e permitir o surgimento da m\u00e1xima de que \u201co dinheiro n\u00e3o fede\u201d (pecunia non olet).<\/p>\n<p>S\u00e3o abundantes e recorrentes as imagens e s\u00edmbolos que sempre desnudaram a rela\u00e7\u00e3o que os homens estabelecem entre as fezes e o ouro ou o dinheiro. Uma delas \u00e9 a figura do \u201ccagador de ducados\u201d que est\u00e1 representada nos portais de bancos alem\u00e3es. As express\u00f5es populares consagram esta associa\u00e7\u00e3o sem que, na quase totalidade das vezes nos demos conta disso. Quando uma pessoa tem muito dinheiro dizemos que est\u00e1 \u201cpodre de rica\u201d; se o dinheiro tem origem suspeita, falamos em \u201cdinheiro sujo\u201d e, ao contr\u00e1rio, se a pessoa est\u00e1 sem dinheiro, dizemos que est\u00e1 \u201climpa\u201d; ou que est\u00e1 \u201capertada\u201d.<\/p>\n<p>Esta rela\u00e7\u00e3o foi capturada por Bas\u00edlio de Cesareia em meados do s\u00e9culo 4, numa express\u00e3o que estava esquecida pelos crist\u00e3os desde o s\u00e9culo 12, quando S\u00e3o Francisco mencionou Bas\u00edlio e foi novamente posta \u00e1 luz pelo Papa Francisco em fevereiro de 2015 (sendo rapidamente deixada de lado): para o Padre da Igreja, dinheiro \u00e9 o coc\u00f4 do diabo. Se quiser, veja o v\u00eddeo (o Papa fala do assunto entre 1min50 e 2min30).<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise explorou as rela\u00e7\u00f5es entre as din\u00e2micas de possess\u00e3o, caracter\u00edsticas da fase anal, e de propriedade, absolutamente fundante da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n<p>Quando uma crian\u00e7a perde suas fezes \u2013para ela, algo de muito precioso, parte de seu corpo\u2013sente a dor de ter deixado escapar algo que lhe era t\u00e3o essencial que estava dentro de si, mas que n\u00e3o mais consegue p\u00f4-la de volta; isto \u00e9 a possess\u00e3o. A propriedade s\u00e3o coisas externas mas que deveriam me pertencer, \u201ccoisas que de fato est\u00e3o fora, mas simbolicamente est\u00e3o dentro\u201d. S\u00e3o objetos revestidos de \u201cqualidade do eu\u201d. Para muitas pessoas, o dinheiro reveste-se desta qualidade do eu. Isso origina processos intensos de defesa e proje\u00e7\u00e3o. Perder dinheiro para estas pessoas \u00e9 muito mais que perda de algo externo, exterior, \u201cmas sim de algo que foi previamente \u2018in-corporado\u2019\u201d, ou seja, algo que se tornou parte de mim. A posse e controle do dinheiro t\u00eam o mesmo papel que o controle da atividade defecat\u00f3ria para a crian\u00e7a diante do mundo exterior. Uma \u201crela\u00e7\u00e3o regressiva com o dinheiro ou com a propriedade de objetos\u201d fica impregnada pela dimens\u00e3o possessiva (retentiva) da fase anal.[24]<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 impactante: \u201co amor ao dinheiro, portanto, quando se imp\u00f5e para al\u00e9m de suas fun\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade, expressa uma dimens\u00e3o infantil da afetividade\u201d, o que implica uma domin\u00e2ncia do narcisismo, um desenvolvimento truncado da afetividade (da rela\u00e7\u00e3o com o outro, da capacidade de amar e\/ou odiar) e do autorrespeito e respeito pelo outro.[25] Esta infantiliza\u00e7\u00e3o narc\u00edsica dos ricos ou, dos \u201cnovos ricos\u201d, numa express\u00e3o recorrentes de Bas\u00edlio, \u00e9 facilmente verific\u00e1vel na conviv\u00eancia com eles e espalha-se em ondas pela ind\u00fastria do entretenimento.<\/p>\n<p>Ter e reter dinheiro \u00e9 uma tentativa continuada de encobrir as car\u00eancias internas e conquistar seguran\u00e7a. Lembro-me de uma conversa com um consultor de investimentos sobre um casal, cliente do banco em que trabalhava. Eles haviam feito uma s\u00e9rie de contas em planilhas (como se a vida pudesse ser contida em planilhas Excel) e conclu\u00eddo que quando tivessem R$ 20 milh\u00f5es em aplica\u00e7\u00f5es financeiras (exclu\u00eddos bens como casa e carros) poderiam finalmente \u201cdesestressar\u201d e olhar com tranquilidade para a vida. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o que os remetia a frequentes crises de inseguran\u00e7a, pois \u201ccomo afirma Erich Fromm em suas an\u00e1lises sobre o ter, \u2018 se sou o que tenho e o que tenho se perde, ent\u00e3o quem sou?\u2019\u201d[26] Ou, de maneira complementar: se sou o que tenho e nunca tenho o que considero suficiente, sempre haver\u00e1 uma \u201cinsufici\u00eancia de mim\u201d que precisa ser coberta e recoberta com exposi\u00e7\u00f5es de \u201cseguran\u00e7a\u201d (arrog\u00e2ncia), enquanto o fosso da inseguran\u00e7a aprofunda-se na medida em que a perda real do dinheiro est\u00e1 sempre presentificada pelo temor da possibilidade de ele acontecer no futuro. Uma vida em estado de guerra permanente.<\/p>\n<p>Esta \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o para a guerra\u201d estimulada pelo af\u00e3 de possuir que \u00e9 o mantra do capitalismo \u201cmobiliza a hostilidade como tend\u00eancia a despojar o outro, de modo a fazer com que o desejo de fraudar, explorar e frustrar os outros acabe se convertendo numa aut\u00eantica norma cultural.\u201d[27] Esta hostilidade torna-se a \u201cbase relacional\u201d que se reproduz em todas as rela\u00e7\u00f5es, mesmo as mais \u00edntimas: assim, por exemplo, o encontro com o outro ou a outra para a vida amorosa e o casamento converte-se numa s\u00e9rie de c\u00e1lculos e contratos e precau\u00e7\u00f5es para a possibilidade futura de separa\u00e7\u00e3o e rompimento.<\/p>\n<p>Esta breve exposi\u00e7\u00e3o explica a \u201cincompatibilidade radical entre a paix\u00e3o pelo dinheiro e o amor a Deus\u201d[28] proclamada por Jesus (Mt 6,24; Lc 16;13) e que os cat\u00f3licos rezaram no 25\u00ba domingo do Tempo Comum.<\/p>\n<p>Trata-se de uma incompatibilidade radical, apesar de todos os esfor\u00e7os dos rigoristas e integristas cat\u00f3licos, dos neopentecostais e outros crist\u00e3os para amenizar as palavras de Jesus e relativiz\u00e1-las. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel amar a Deus, isto \u00e9, amar a generosidade, a entrega, a solidariedade, a compaix\u00e3o e a miseric\u00f3rdia e ao mesmo tempo amar o dinheiro, isto \u00e9, amar o tomar tudo para si, a acumula\u00e7\u00e3o que \u00e9 a base de toda a injusti\u00e7a e de todo o desamor: fome, guerra, explora\u00e7\u00e3o, morte etc.\u201d[29]<\/p>\n<p>E, se para os crist\u00e3os, o amor n\u00e3o \u00e9 apenas um preceito, mas \u00e9 o conte\u00fado sobre o qual o cristianismo est\u00e1 edificado, se \u00e9 a \u201cpedra angular\u201d, o apego ao dinheiro, fonte de desamor, n\u00e3o se restringe a um problema \u00e9tico, mas \u00e9 um ataque direto \u00e0 f\u00e9. A fidelidade a Deus fica interditada para aquele que n\u00e3o realiza a escolha por Ele e, por caminhos expl\u00edcitos ou cheio de sombras e ilus\u00f5es e autoengano, opta pela adora\u00e7\u00e3o \u00e0 coisa: o dinheiro. Isso n\u00e3o quer dizer ignorar ou encobrir as ambiguidades e ambival\u00eancias num tema t\u00e3o crucial e que mobiliza zonas t\u00e3o vastas da forma\u00e7\u00e3o, psicologia e hist\u00f3ria emocional de cada pessoa; e nem deixar-se tomar por totalidades manique\u00edstas. A quest\u00e3o, para uma abordagem madura do tema, \u00e9 o esfor\u00e7o para tornar tais ambiguidades e ambival\u00eancias conscientes, reconhecidas e enfrentadas.[30]<br \/>\nPor isso, a hist\u00f3ria de Zaqueu \u00e9 t\u00e3o central para os crist\u00e3os. Sem a ren\u00fancia ao amor ao dinheiro, n\u00e3o haver\u00e1 caminho com Jesus \u2013\u00e9 o que demonstra com eloqu\u00eancia o homem rico que foi embora entristecido ao constatar que o seguimento com o Mestre apresentava-se com uma exig\u00eancia imposs\u00edvel de atender.<\/p>\n<p>Os evangelhos revelam \u2013e os cat\u00f3licos rezaram este tema intensamente nos \u00faltimos domingos- que o dinheiro \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o das mais poderosos para os seguidores de Jesus. Como ela aparece? Sob a capa de um discurso segundo o qual \u201co dinheiro n\u00e3o \u00e9 mal, o problema \u00e9 o uso que fazemos dele\u201d e outras justificativas; abre-se um enorme terreno de ilus\u00f5es (quando n\u00e3o de pequenos e grandes golpes) sobre a possibilidade de o dinheiro \u201cser um meio excepcional para a amplia\u00e7\u00e3o do Reino.\u201d Aos poucos, vamos nos enredando \u201cem din\u00e2micas afetivo-econ\u00f4micas sem que percebamos claramente para onde acabariam nos conduzindo.\u201d<\/p>\n<p>Nesta etapa do capitalismo neoliberal, a inseguran\u00e7a a que me referi pouco acima se tornou uma epidemia em larga escala e intensidade. Todos querem um \u201cporto seguro\u201d enquanto tudo parece derreter-se ao redor. \u201cO dinheiro, os bens, as posses apresentam-se como solo firme sob nossos p\u00e9s.\u201d Mas ele \u00e9 mais que isso, \u00e9 a carapa\u00e7a protetora e, ainda mais, \u201cum objeto interno, (\u2026) coisa com \u2018a qualidade de eu\u2019. A din\u00e2mica centr\u00edpeta, acumulativa, retentiva, pr\u00f3pria da analidade e da posse do dinheiro, possui toda a for\u00e7a do narcisismo e da autoafirma\u00e7\u00e3o infantil.\u201d<br \/>\nA primeira bem-aventuran\u00e7a (os pobres s\u00e3o os bem-aventurados) desfaz o engano, ao desvelar o p\u00e2nico da inseguran\u00e7a. O texto lucano afirma que n\u00e3o \u00e9 feliz (macarioi, na vers\u00e3o grega das bem-aventuran\u00e7as) ou, numa tradu\u00e7\u00e3o mais colada ao texto e seu esp\u00edrito, n\u00e3o caminha com Jesus (ashr\u00e9i, substrato hebraico que conota o sentido de marcha por uma estrada a caminho a caminho do encontro com o Divino[31]) o que se agarra ao dinheiro pensando que assim fortalece-se. \u00c9 feliz ou marcha com o Mestre o que escolhe ser pobre, \u201cporque dessa maneira experimenta e expressa que sua seguran\u00e7a est\u00e1 em Deus. (\u2026) \u00c9 uma aposta que se prop\u00f5e a todo seguidor de Jesus. E somente pela experi\u00eancia \u00e9 que se pode verifica-la\u201d[32].<\/p>\n<p>A escolha por uma vida em pobreza e com os pobres expressa assim a liberdade de colocar-se a servi\u00e7o do Reino. O enriquecimento, pelo contr\u00e1rio, acarreta o enorme risco de se ficar cego e surdo ao chamado de Jesus. Por isso \u00e9 t\u00e3o grande a dificuldade dos que possuem dinheiro de entrar no Reino, como explicitou Jesus no di\u00e1logo com o homem rico que n\u00e3o conseguiu abrir m\u00e3o de sua fortuna e que foi objeto do paralelo \u00e0 hist\u00f3ria de Zaqueu neste artigo (Lc 18, 18-25). As seguran\u00e7as do rico, \u201cseus objetos de amor, sua din\u00e2mica libidinal apontam numa dire\u00e7\u00e3o muito diferente. Seu amor est\u00e1 posto nessa reifica\u00e7\u00e3o de si mesmo que \u00e9 a riqueza. Dessa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil ouvir o chamado.\u201d[33]<br \/>\nIsto n\u00e3o quer dizer que todo pobre ou mesmo todo aquele que afirma a si pr\u00f3prio ter empobrecido para seguir Jesus esteja de fato dispon\u00edvel a isso. H\u00e1 pobres \u201ccom esp\u00edrito de rico\u201d e aqueles que se tornaram mesquinhos e ressentidos com seu processo de empobrecimento. \u201cO pobre que n\u00e3o possui a capacidade psicol\u00f3gica de ser rico n\u00e3o \u00e9 o pobre das bem-aventuran\u00e7as (\u2026). Ser\u00e1 antes de tudo um sujeito com um car\u00e1ter mais ou menos obsessivo que, diante de seus desejos recalcados de posse, desenvolveu como mecanismos de defesa e controle uma \u2018forma\u00e7\u00e3o reativa\u2019 contr\u00e1ria a esse desejo.\u201d[34]<\/p>\n<p>Apesar de uma abordagem de acento muito individual e mesmo intimista neste breve cap\u00edtulo, \u00e9 importante ter em mente que estes processos acontecem em sociedades determinadas com estruturas econ\u00f4micas, sociais e culturais determinadas, com uma Igreja determinada e, portanto, alcan\u00e7am dimens\u00f5es que, levando em conta as escolhas e hist\u00f3rias individuais, situam-nas num contexto geogr\u00e1fico-temporal preciso.<br \/>\nA escolha do caminho da pobreza para o crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma escolha de vida asc\u00e9tica, mas \u201cuma quest\u00e3o de coer\u00eancia com uma mensagem que proclama a igualdade radical entre os homens e, portanto, com a necessidade de transforma\u00e7\u00e3o das estruturas que semeiam a injusti\u00e7a.\u201d \u00c9 tema para a Igreja local no Brasil e toda a Igreja universal. \u201cO exerc\u00edcio da miseric\u00f3rdia deve situar a Igreja na pobreza e, assim, tamb\u00e9m contra a riqueza.\u201d[35]<\/p>\n<p>(\u2026) \u201cN\u00e3o e poss\u00edvel pregar o Deus vivo e uno e ao mesmo tempo \u2013como infelizmente acontece com nossa Igreja\u2013 manter claras coniv\u00eancias e cumplicidades com Mamon-dinheiro, que \u00e9, sem sombra de d\u00favida, o grande \u00eddolo que move os fios mais importantes de nossas sociedades e que, como todo \u00eddolo, provoca o fasc\u00ednio, a adora\u00e7\u00e3o e as identifica\u00e7\u00f5es mais perniciosas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel proclamar \u2013em nome dos evangelhos\u2013 uma \u2018doutrina social\u2019 exigente e, ao mesmo tempo, realizar pactos ocultos com um deus gerador da explora\u00e7\u00e3o e da morte\u201d[36]<\/p>\n<p>Este \u00e9 o conte\u00fado simb\u00f3lico profundamente questionador \u00e0 Igreja no Brasil que, na figura dos cardeais das duas maiores cidades do pa\u00eds, foram ao encontro do l\u00edder de um golpe de Estado contra os pobres e, ainda mais, no dia mesmo da vota\u00e7\u00e3o de uma medida constitucional que congela os gastos sociais (com os pobres) por 20 anos[37]. Um encontro e uma imagem que inevitavelmente provocam uma pergunta dos crist\u00e3os cat\u00f3licos e dos pobres do pa\u00eds: esta \u00e9 a Igreja pobre no seguimento de Jesus pobre com os pobres?<\/p>\n<p><strong>5. Uma nota sobre os diferentes tipos de pobreza<\/strong><\/p>\n<p>Creio que vale a pena encerrar este artigo com um esclarecimento sobre a quest\u00e3o da pobreza e dos pobres, o seguimento de Cristo e a Igreja , pois h\u00e1 alguns temas correlatos que podem causar alguma confus\u00e3o para os que n\u00e3o est\u00e3o acostumados\/acostumadas com os debates teol\u00f3gicos: como condenar a pobreza e ao mesmo tempo dizer que \u00e9 preciso ser pobre? A defesa dos pobres n\u00e3o implica em alguma medida numa idealiza\u00e7\u00e3o da pobreza? Parecem-me quest\u00f5es pertinentes e razo\u00e1veis, ainda mais no ambiente tumultuado e confuso em que vive a Igreja no pa\u00eds e no mundo hoje, apesar da lideran\u00e7a prof\u00e9tica de Francisco.<\/p>\n<p>Para os crist\u00e3os, a pobreza \u00e9 um tema teol\u00f3gico, ou seja, abordado a partir da rela\u00e7\u00e3o com Deus, consigo pr\u00f3prio, com os demais seres humanos e o planeta \u2013e, por isso, incorpora as dimens\u00f5es econ\u00f4mica, social, cultural, ambiental e outras.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo XIV das \u201cConclus\u00f5es da II Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-Americano\u201d, realizada em 1968 em Medell\u00edn, Col\u00f4mbia, tratou-se do o tema \u201cPobreza da Igreja\u201d. Nele, definiram-se tr\u00eas tipos diferentes de pobreza. A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 esclarecedora:<\/p>\n<p>\u201cDevemos distinguir:<\/p>\n<p>i. A pobreza como car\u00eancia dos bens deste mundo, necess\u00e1rios para uma vida humana digna \u00e9 um mal em si. Os profetas a denunciam como contr\u00e1ria \u00e0 vontade do Senhor e, muitas vezes, como fruto da injusti\u00e7a e do pecado dos homens.<\/p>\n<p>ii. A pobreza espiritual, que \u00e9 o tema dos pobres de Jav\u00e9 (cf. Sf 2,3; Magnificat). A pobreza espiritual \u00e9 a atitude de abertura para Deus, a disponibilidade de quem tudo espera do Senhor (cf. Ml 5). Embora valorize os bens deste mundo, n\u00e3o se apega a eles e reconhece o valor superior dos bens do Reino (cf. Am 2,6-7; 4,1; 5,7; Jer 5,28; Miq 6,12-13; Is 10,2 etc).<\/p>\n<p>iii. A pobreza como compromisso, assumida voluntariamente e por amor \u00e0 condi\u00e7\u00e3o dos necessitados deste mundo, para testemunhar o mal que ela representa e a liberdade espiritual frente aos bens do Reino. Continua, nisto, o exemplo de Cristo, que fez suas todas as consequ\u00eancias da condi\u00e7\u00e3o pecadora dos homens (cf. Fl 2) e que sendo \u00abrico se fez pobre\u00bb (2 Cor 8,9) para salvar-nos.<br \/>\nNeste contexto, uma Igreja pobre:<br \/>\n\u2013 Denuncia a car\u00eancia injusta dos bens deste mundo e o pecado que a engendra.<br \/>\n\u2013 Prega e vive a pobreza espiritual como atitude de inf\u00e2ncia espiritual e abertura para o Senhor.<br \/>\n\u2013 Compromete-se ela mesma com a pobreza material. A pobreza da Igreja \u00e9, com efeito, uma constante na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nA Igreja n\u00e3o idealiza a pobreza. O que se trata \u00e9 \u201cde assumi-la como \u00e9, como um mal, para protestar contra ela e esfor\u00e7ar-se por aboli-la. Como diz Paul Ricoeur, n\u00e3o se est\u00e1 realmente com os pobres sen\u00e3o lutando contra a pobreza. (\u2026) A pobreza crist\u00e3, express\u00e3o de amor, \u00e9 solid\u00e1ria com os pobres e um protesto contra a pobreza. Este \u00e9 o sentido concreto e atual que dever\u00e1 revestir o testemunho de pobreza vivida n\u00e3o por si mesma, mas como aut\u00eantica imita\u00e7\u00e3o de Cristo que assume a condi\u00e7\u00e3o pecadora do ser humano para libert\u00e1-lo do pecado e de todas as suas consequ\u00eancias .\u201d[38]<\/p>\n<p>O crist\u00e3o n\u00e3o ama a pobreza, o que seria na pr\u00e1tica igual\u00e1-lo aos ricos \u2013que amam a pobreza de todos que n\u00e3o sejam eles pr\u00f3prios. O crist\u00e3o ama as pessoas, ama o pobre, ama seu Mestre que o amou primeiro. Enquanto houve um \u00fanico pobre no mundo, o crist\u00e3o dever\u00e1 recusar-se a ser rico. Estar\u00e1 com ele, ao lado dele, em amor e partilha. Igualmente, o crist\u00e3o n\u00e3o ama a doen\u00e7a. Mas enquanto houver um doente, os crist\u00e3os ir\u00e3o visita-los nos hospitais, abrigos e nas ruas. Foi o que fez Francisco, em Assis: abra\u00e7ou e beijou os leprosos, e com eles foi morar.<\/p>\n<p>Jon Sobrino, um te\u00f3logo refinado e comprometido com os pobres e o Manso e Humilde, perseguido pela hierarquia do Vaticano[39] tem uma apresenta\u00e7\u00e3o que resume o \u201clugar teol\u00f3gico\u201d do pobre com beleza e precis\u00e3o: \u201cHistoricamente, neles \u2018irrompeu a realidade\u2019. Teologicamente, neles \u2018irrompeu Deus\u2019. Irrompeu, portanto, o mist\u00e9rio\u201d.[40]<\/p>\n<p>\u00c9 o desejo de tornar-se \u201clugar\u201d desta irrup\u00e7\u00e3o que fez Zaqueu tornar-se pobre, \u201cdescendo\u201d de sua riqueza para alegrar-se com a recupera\u00e7\u00e3o de sua humanidade e amizade com seus iguais.<\/p>\n<p><em>(*) Mauro\u00a0Lopes \u00e9 jornalista de forma\u00e7\u00e3o e se destacou durante a cobertura da Assembleia Constituinte (1987\/88) pelo jornal \u201cFolha de S. Paulo\u201d, onde trabalhou por sete anos como rep\u00f3rter especial, redator e secret\u00e1rio da Reda\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia. Ele tamb\u00e9m \u00e9 conhecido pelo seu trabalho de comentarista na TV Gazeta e na R\u00e1dio Eldorado. Ele \u00e9 Ministro da Palavra numa comunidade em Parais\u00f3polis (SP).<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] Ross\u00e9, G\u00e9rard, N\u00e3o mais pobres entre v\u00f3s, Editora Cidade Nova, S\u00e3o Paulo, 1995.<br \/>\n[2] Gutierrez, Gustavo, Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o \u2013 perspectivas, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, S\u00e3o Paulo, 2000, p. 350<br \/>\n[3] Boff, Leonardo, S\u00e3o Francisco de Assis \u2013 ternura e vigor, Editora Vozes, Petr\u00f3polis, 2002, p. 67<br \/>\n[4] Boff, op. cit., p. 68<br \/>\n[5] Sobrino, Jon, Fora dos pobres n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o, Paulinas, S\u00e3o Paulo, 2008, a cita\u00e7\u00e3o foi recolhida por Sobrino, p. 55<br \/>\n[6] A express\u00e3o \u00e9 de Jon Sobrino, o.cit. p. 54<br \/>\n[7] Cesareia, Bas\u00edlio de, Homilia contra os Ricos, in A Pobreza na Igreja, Livraria Duas Cidades, S\u00e3o Paulo, 1968, p. 15-16<br \/>\n[8] Cris\u00f3stomo, Jo\u00e3o, Sobre as palavras do profeta Davi, in A Pobreza na Igreja, Livraria Duas Cidades, S\u00e3o Paulo, 1968, p.19-30<br \/>\n[9] Idem, p. 32<br \/>\n[10] Ambr\u00f3sio, Aur\u00e9lio, De Nabuthae historia, in A Igreja e a op\u00e7\u00e3o pelos pobres, Gr\u00e1fica de Coimbra, Coimbra, 1988, p. 60<br \/>\n[11] Boff, op. cit., p. 69<br \/>\n[12] Idem, p. 69<br \/>\n[13] Chouraqui, Andr\u00e9, A B\u00edblia \u2013 Lucas, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1996, p. 109<br \/>\n[14] Gutierrez, op. cit., p. 337<br \/>\n[15] Pagola, Jos\u00e9 Antonio, Jesus e o dinheiro, Editora Vozes, Petr\u00f3polis, 2014, p. 41<br \/>\n[16] Pagola, op. cit., p. 44<br \/>\n[17] Metz, Johann Baptist, Memoria Passionis, Sal Terrae, Bilbao, 2007, p. 165-166<br \/>\n[18] Metz, op. cit., p. 164<br \/>\n[19] Pagola, op. cit., p. 50-51<br \/>\n[20] Pagola, idem, p. 47-48<br \/>\n[21] Morano, Carlos Dominguez, Crer depois de Freud, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, S\u00e3o Paulo, 2003, p.233<br \/>\n[22] Idem, p.234<br \/>\n[23] Idem, p.236<br \/>\n[24] Idem, p. 239<br \/>\n[25] Idem, p. 240<br \/>\n[26] Idem, p.240<br \/>\n[27] Idem, p. 243<br \/>\n[28] Idem, p. 245<br \/>\n[29] Idem, p. 246<br \/>\n[30] Idem, ver nota 34 p. 245<br \/>\n[31] Chouraqui, o.cit. p. 117<br \/>\n[32] Morano, op. cit, p. 246-247<br \/>\n[33] Idem, p. 248<br \/>\n[34] Idem, 250<br \/>\n[35] Idem, 252-253<br \/>\n[36] Idem, p. 253<br \/>\n[37] A visita a Michel Temer, em 10 de outubro de 2016, foi liderada pelos cardeais arcebispos do Rio, dom Orani Tempesta, e de S\u00e3o Paulo, dom Odilo Pedro Scherer<br \/>\n[38] Gutierrez, op. cit., p. 363<br \/>\n[39] Sobrino sofreu uma agressiva \u201cnotifica\u00e7\u00e3o\u201d pela Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, em 2006, no papado de Bento XVI. Leia o artigo sobre o assunto escrito \u00e0 \u00e9poca pelo te\u00f3logo brasileiro Faustino Teixeira clicando aqui.<br \/>\n[40] Sobrino, op. cit., p. 45<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Mauro Lopes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":185002,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[246],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Quando um rico adere a Jesus \u2013 os crist\u00e3os, os pobres e os ricos - Vida Crist\u00e3 - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/quando-um-rico-adere-a-jesus-os-cristaos-os-pobres-e-os-ricos\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Quando um rico adere a Jesus \u2013 os crist\u00e3os, os pobres e os ricos - 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