Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Reproduzir em nós qualidades de Deus.

05/06/2012

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1- Introdução.

Vimos na aula passada que ter certas qualidades em comum é essencial para pessoas se amarem. Trata-se de uma verdade iluminadora para nosso relacionamento em geral e, particularmente, para nosso relacionamento com Deus. Acontece que podem ocorrer vários problemas de compreensão.

Também podemos ter dificuldades na harmonização de qualidades em conjuntos, como se fosse um arranjo. Até a Fé, tão fundamental para a construção espiritual, sem Amor é declarada morta. Podemos ainda ter compreensão incorreta, ou parcial desta ou daquela virtude.

Como exemplos podemos lembrar novamente a parábola dos Trabalhadores da Vinha.

Muita gente tem dificuldade em harmonizar justiça e amor. Ora, não existe amor injusto. Mas justiça sem amor pode cair em acertos de contas. Aliás, sem o amor, todas as virtudes perdem seu sentido, pois não atingem seus objetivos.

Podemos ter dificuldade para partir de uma compreensão parcial e atingir um entendimento mais abrangente e superior do que seja amor, por exemplo. Quem fica no estágio dos sentimentos e emoções e não avança para explorar novos aspectos do amor, não consegue compreender a exigência de Jesus que devemos amar até o inimigo.

Afinal, São João afirma que Deus é amor. Se é impossível uma compreensão plena de Deus, o mesmo devemos afirmar do amor.

Assim, podemos concluir que participar da natureza divina, ou “fazer-se sua imagem e semelhança” é, em primeiro lugar, reproduzir em si o modo de amar do próprio Deus.

A natureza do nosso amor precisa ter sempre mais da natureza do amor de Deus.

Se compararmos ao ouro, o amor de Deus seria o amor atomicamente puro. O nosso amor é um pedaço de rocha com algum ouro. Os grandes santos, talvez, uma pepita. Nosso objetivo é reduzir cada vez mais tudo aquilo que não é ouro e aumentar deste a concentração.

2- O Bom Samaritano (Lc 10, 29-37).

Antes de ler a parábola vamos trazer à mente a situação vivida por Jesus imediatamente antes.

Jesus devia estar a pregar ao povo. Certa hora passa a palavra a um legista que deseja falar. O legista hoje seria um advogado, um juiz, um promotor. No tempo de Jesus era um escriba, versado em escrita e leitura, em geral, bom entendedor das Escrituras Sagradas.

2.1- Vamos ler Lucas 10, 25-28.

Algumas explicações fazem-se necessárias. Espero que o presente exercício sirva de modelo para toda a leitura em que explicações do texto e seu contexto possam ajudar a captar toda a riqueza da Palavra de Deus.

Vamos agora ler a parábola (10, 29-37).

Novas explicações fazem-se necessárias. Vamos por pontos.

Mostrar sua justiça à a explicação mais simples prevalece. O legista quer explicar a razão para a sua pergunta. Para a época era difícil alguém fazer tal pergunta. Todos sabiam que o “próximo” era todo membro de seu povo, excluídos todos os estrangeiros (“os gentios”).

Alguém perguntar quem é o próximo podia parecer uma pergunta boba e desnecessária. Sorte dele que Jesus, como ninguém, sabe conversar.

De Jerusalém a Jericó à O caminho era mais ou menos 25 km e passava pelo deserto da Judéia, infestado de ladrões. A descida era de uns mil metros.

O sacerdote e o levita à Poderíamos tecer mil conjecturas sobre as razões de ambos para não atender o ferido.

Creio que o papel dos dois foi escolhido por Jesus para valorizar ainda mais a ação do samaritano.

O samaritano à Lendo Lucas 9 51-56 temos uma ilustração do clima que reinava entre judeus e samaritanos. O sentimento dos judeus em relação aos seus vizinhos podia variar do desprezo ao ódio. Consideravam os samaritanos bastardos, excluídos do povo judeu e das promessas bíblicas.

Os samaritanos não reconheciam o templo de Jerusalém como o único e verdadeiro santuário de Javé. Havia entre ambos também grandes divergências sobre os textos sagrados.

A recíproca era também verdadeira. Os samaritanos não toleravam facilmente os judeus.

E isto tem de ser norma para a igreja.

Jesus escolhe o samaritano como protagonista da parábola para romper com as querelas religiosas.

O Amor de Seu Pai não se limita a grupos, nem se molda a ortodoxias.

Dentro de pouco tempo, o diácono Felipe vai fazer pregações na Samaria e converter muitos deles a Jesus Cristo.

Que estava de viagem à Isso valoriza a ação do samaritano, pois tal situação acarreta-lhe dificuldades a mais. Ninguém se põe em viagem sem destino e alguma previsão de chegada.

Levava consigo até uma provisão de azeite e vinho no próprio farnel, pois estava fora da Samaria e podia não ser fácil conseguir lugar para fazer uma refeição.

E lá se vai seu precioso vinho para lavar as feridas do semi-vivente.

2.2- Ver.

Tres personagens viram o homem na pior.
Um passou o mais longe possível. Outro, simplesmente, foi adiante. O samaritano percebeu. Seu coração bom ( = traço divino ), provavelmente seu hábito em ajudar, o moveram para perto da cena “ele o viu e tomou-se de compaixão” ( = outro traço divino ).

O Amor aqui está vestido de bondade e compaixão. Podemos repensar o que falávamos na aula passada sobre misericórdia …

Aqui a verdadeira estória começa. Quem não é covarde e arrisca entregar-se aos caprichos do Amor pode correr sérios perigos de ter seus planos e, às vezes, a própria vida colocados de pernas para o ar.

O samaritano entregou-se às exigências do Amor e aceitou as consequências: viagem interrompida, assumir papel de paramédico, transportar o ferido, passar o resto do dia e a noite com o doente como se fosse enfermeiro, pagar os gastos, incluindo os futuros em conta aberta. Seus planos pessoais estão transtornados.

Aqui pedimos licença a Timothy Radcliffe para reproduzir um exemplo citado por ele numa conferência pronunciada em julho deste ano.

“Durante a revolução na Nicarágua um dominicano norte-americano ajudou um grupo de jovens nicaraguenses a representar a parábola do Bom Samaritano durante a missa.

Representaram um jovem nicaraguense sendo espancado e abandonado meio morto na beira do caminho. Um frade dominicano passou por ali e continuou seu caminho sem fazer caso dele. Depois, passou também um catequista. A seguir, passou um dos inimigos (um ‘Contra’) com uniforme militar. Parou, pôs-lhe um terço ao pescoço, deu-lhe água e levou-o até a aldeia mais próxima.

Nesta altura, metade da assembléia reagiu começando a gritar e a protestar. Era inaceitável que um Contra pudesse agir dessa forma. ‘São pessoas horríveis e nada temos a ver com eles’. A missa foi suspensa no meio do caos. Depois, as pessoas começaram a discutir o significado da parábola.

Como tinham ficado chocadas, conseguiram compreendê-la mais profundamente.

Temos consciência de quanto esta parábola é chocante”?

“Cuida dele, e o que
gastares a mais em meu regresso te pagarei”. à Nosso samaritano já se envolveu até a alma na situação. Se já pode viajar, ainda quer ter a certeza de que o convalescente seja bem atendido até o fim. Está disposto a financiar gastos futuros, sem saber quanto.

Não se trata somente de apaziguar sua consciência, mas assumiu um compromisso em garantir a recuperação total do necessitado.

Quem ama não faz cálculos.

2.3- Jesus não se contenta com pouco.

Faz ainda uma pergunta ao legista: “qual dos tres, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes”?

Temos aqui uma aparente inversão da lógica. Já descobrimos que nosso próximo é qualquer ser humano necessitado que encontramos. Isso já é um grande passo para a frente.

Na verdade, a proximidade não é só resultado do necessitado que encontro. Eu preciso assumir o compromisso de fazer-me próximo dele. O próximo do necessitado sou eu. Isso exige uma mobilização e engajamento meus.

“Vai, e também tu, faze o mesmo”. à O legista acertara a resposta de quem fora o próximo do assaltado. Agora vem o nó cego: “vai e faze o mesmo”.

Sem fazer o mesmo, conhecimentos do cristianismo e de Jesus Cristo são perfeitamente inúteis.

Reflexão dos participantes …

3- Qualidades reservadas.

Deus nos convida a conhecê-lo, prontifica-se a caminhar conosco, concede-nos a graça de participar da natureza Dele, mas até onde?

Não podemos ter pretensões. Nunca o atingiremos plenamente. Afinal, suas qualidades são infinitas e as nossas são tão medíocres.

Há coisas que competem só a Deus.

Só Ele pode salvar.
Quando Jeremias fala “maldito o homem que confia no outro homem”, ele está falando da hipotética confiança de alguém que qualquer ser humano possa salvá-lo.

Só Deus pode santificar.

Só Deus nos pode purificar.

Só Ele pode levar-nos a superar nossos limites.

Mas Ele não fala dessas coisas. Abre, contudo, uma exceção: “não julgueis para serdes julgados; não condeneis, para não serdes condenados … pois, com a medida com que medirdes sereis medidos também” (Lc 6 36-38).

Podemos perceber duas razões para essa proibição.
Julgamentos entre nós podem gerar grandes males.
Além de condenações, podem justificar grandes fissuras no relacionamento fraterno. Pode inclusive destruir a própria fraternidade.

Por outro lado, Deus está a nos dizer que não temos condições para julgar.
Para julgar são requeridas condições que nós não temos, ao menos em grau suficiente: conhecimento total da natureza humana, imparcialidade total e a capacidade de balancear justiça com misericórdia.

Então, não julgue.
Não só por isso competir a Deus, mas por que você seria incapaz. Atenção, falamos aqui em julgamentos e avaliações morais e de valores que tem a ver com a Vida Eterna.

Frei Hipólito Martendal, OFM.

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