Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Terceiro Domingo da Páscoa

Terceiro domingo da Páscoa

Um dando força para o outro, e Cristo, para todos

 

Frei Gustavo Medella

Saudades… Da missa, da comunhão, do canto, dos trabalhos pastorais, de passar na igreja para uma oração pessoal e silenciosa, de confessar-se, de encontrar rostos conhecidos e familiares, do abraço da paz, das crianças correndo e brincando, do cafezinho com pastel na cantina, ou com biscoitinho ao fundo da igreja, até dos avisos paroquiais. Eis um mosaico de experiências extremamente simples mas que, quando faltam, mostram-se essenciais e importantes.

A caminhada da Igreja em tempos de pandemia assemelha-se sobremaneira à caminhada dos Discípulos de Emaús. Uma experiência eclesial vivida a partir de casa, com o convívio mais restrito daqueles que dividem o mesmo teto. Um percurso no qual nem sempre é fácil se perceber a presença viva e próxima do Ressuscitado que caminha junto, afinal o cenário não deixa de ser nebuloso, incerto e assustador.

Notar a presença de Cristo vivo que caminha na Igreja doméstica é tarefa que exige uma postura de fé corajosa e aberta ao amadurecimento. Não adianta incorrer na pressa de retornar a uma “normalidade” que certamente não voltará tão cedo. A hora é de paciência, perseverança, oração e muita solidariedade. Cada um é convidado a descobrir em Cristo um amigo íntimo, parceiro de todas as horas, força nos momentos de luta e dificuldade. É imprescindível que permaneçamos caminhando juntos, dando força um para o outro, e Cristo junto, dando ânimo e coragem para todos.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: At 2,14.22-33

No dia de Pentecostes, 14Pedro de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou à multidão: 22“Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus, junto de vós, pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou, por meio dele, entre vós. Tudo isto vós bem o sabeis. 23Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. 24Mas Deus ressuscitou a Jesus, libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o dominasse. 25Pois Davi dele diz: ‘Eu via sempre o Senhor diante de mim, pois está à minha direita para eu não vacilar. 26Alegrou-se por isso meu coração e exultou minha língua e até minha carne repousará na esperança. 27Porque não deixarás minha alma na região dos mortos nem permitirás que teu Santo experimente corrupção. 28Deste-me a conhecer os caminhos da vida, e a tua presença me encherá de alegria’.
29Irmãos, seja-me permitido dizer com franqueza que o patriarca Davi morreu e foi sepultado e seu sepulcro está entre nós até hoje. 30Mas, sendo profeta, sabia que Deus lhe jurara solenemente que um de seus descendentes ocuparia o trono.
31É, portanto, a ressurreição de Cristo que previu e anunciou com as palavras: ‘Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção’. 32Com efeito, Deus ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos nós somos testemunhas. 33E agora, exaltado pela direita de Deus, Jesus recebeu o Espírito Santo que fora prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo”.


Salmo Responsorial: Sl 15

— Vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto de vós felicidade sem limites!

— Vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto de vós felicidade sem limites!

— Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!/ Digo ao Senhor: “Somente vós sois meu Senhor:/ nenhum bem eu posso achar fora de vós!”/ Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,/ meu destino está seguro em vossas mãos!

— Eu bendigo o Senhor, que me aconselha,/ e até de noite me adverte o coração./ Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,/ pois se o tenho a meu lado não vacilo.

— Eis por que meu coração está em festa,/ minha alma rejubila de alegria,/ e até meu corpo no repouso está tranquilo;/ pois não haveis de me deixar entregue à morte,/ nem vosso amigo conhecer a corrupção.

— Vós me ensinais vosso caminho para a vida;/ junto a vós, felicidade sem limites,/ delícia eterna e alegria ao vosso lado!


Segunda Leitura: 1Pd 1,17-21

Caríssimos: 17Se invocais como Pai aquele que sem discriminação julga a cada um de acordo com as suas obras, vivei então respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo.
18Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, 19mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito. 20Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós. 21Por ele é que alcançastes a fé em Deus. Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus.


Evangelho: Lc 24,13-35

13Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. 14Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. 15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. 16Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. 17Então Jesus perguntou: “O que ides conversando pelo caminho?” Eles pararam, com o rosto triste, 18e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: “Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias?”

19Ele perguntou: “O que foi?” Os discípulos responderam: “O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. 20Nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao túmulo 23e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém o viu”.

25Então Jesus lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! 26Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?”

27E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele. 28Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. 29Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” Jesus entrou para ficar com eles. 30Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. 31Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. 32Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” 33Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros. 34E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” 35Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

3º Domingo depois da Páscoa, ano A

 Oração: “Ó Deus, que o vosso pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com plena confiança o dia da ressurreição”.

  1. Primeira leitura: At 2,14.22-33

Não era possível que a morte o dominasse.

No dia de Pentecostes os judeus comemoravam em Jerusalém a doação da Lei de Moisés. Na mesma ocasião estavam reunidos em Jerusalém, também, os apóstolos com dezenas de discípulos e discípulas, no monte Sião. A comunidade estava reunida em oração, com portas e janelas fechadas, por medo dos judeus. De repente, houve um forte ruído do céu, acompanhado de um vento impetuoso e línguas de fogo, enchendo toda a casa onde os discípulos estavam reunidos. Era a manifestação do Espírito Santo prometida por Jesus, antes de sua ascensão ao céu (Lc 24,48). Muitos judeus peregrinos acorreram ao lugar para ver o que estava acontecendo. Em meio a uma imensa alegria, abrem-se as portas e janelas e os discípulos saem da casa. Pedro, então, toma a palavra para explicar ao povo o sentido de tudo o que estava acontecendo. Em seu discurso, Pedro dirige-se aos ouvintes judeus (v. 22-24) e anuncia o “querigma”, isto é, a proclamação da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que visa levar os ouvintes à conversão e à fé em Jesus. Os acontecimentos do “querigma” pascal são pura iniciativa de Deus, nome repetido quatro vezes. A ação divina por meio de Jesus é pública: “tudo isso vós mesmos o sabeis”, porque as coisas aconteceram “entre vós”. Mas, a ressurreição de Jesus é presenciada e vivida apenas pelas testemunhas qualificadas (v. 32), os apóstolos e as 120 pessoas reunidas no cenáculo com eles. Pedro cita o salmo 15, argumentando que Davi fala profeticamente da ressurreição de Jesus, “que vós o matastes, pregando-o numa cruz” (v. 25-33). Deus Pai ressuscitou Jesus dentre os mortos (cf. Lc 9,21-22.43-45; 18,31-34) e o exaltou à sua direita na glória do céu. O Pai concedeu a Jesus o Espírito Santo que havia prometido, e Jesus o derramou sobre as testemunhas de sua ressurreição. Os ouvintes estavam presenciando a ação do Espírito Santo derramado sobre as testemunhas.

Salmo responsorial: Sl 15 (16)

        Vós me ensinais vosso caminho para a vida;

            junto de vós felicidade sem limites!

  1. Segunda leitura: 1Pd 1,17-21

Fostes resgatados pelo precioso sangue de Cristo,

Cordeiro sem mancha!

Desde antes da criação do mundo Deus nos amou e no fim dos tempos enviou seu próprio Filho para nos salvar. Não foi com ouro ou prata que Cristo nos resgatou do pecado e da morte, mas com seu próprio sangue, entregando sua vida como máxima prova de amor. Mas Deus o ressuscitou dos mortos – diz Pedro – e por isso alcançamos a fé em Deus. Pela fé estamos firmemente ancorados em Deus, porque nossa fé e esperança estão guardadas no coração de nosso Deus. É o que cantamos no Salmo responsorial: “Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio”.

Aclamação ao Evangelho

Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura;

Fazei o nosso coração arder, quando falardes.

  1. Evangelho: Lc 24,13-35

Reconheceram-no ao partir o pão.

Lucas coloca três narrativas relacionadas com a ressurreição de Jesus, todas, no primeiro dia da semana, dia especial em que os cristãos celebravam a ressurreição do Senhor (cf. At 20,7). Na primeira, conta como as mulheres, discípulas de Jesus que o acompanhavam desde a Galileia (Lc 8,1-3), e estavam presentes junto à cruz (23,55), dirigem-se ao túmulo levando perfumes, mas não encontram o corpo de Jesus. Dois anjos lhes explicam que o túmulo está vazio porque Jesus ressuscitou, como havia dito. Elas levam a notícia aos discípulos. Mas eles não acreditam na explicação dada pelos anjos. Pedro, no entanto, vai conferir o túmulo vazio e fica apenas admirado. Segue, então, a narrativa sobre os discípulos de Emaús, que hoje escutamos. Após a manifestação do Ressuscitado os dois discípulos voltam imediatamente a Jerusalém para contar sua experiência aos apóstolos, e eles lhes dizem: “O Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão”. Segue, então, na noite do mesmo dia semana a aparição de Jesus a todos os que estavam reunidos. – As experiências de Jesus ressuscitado acontecem quando as pessoas estão reunidas e falam dele; recordam e contam o que Ele fez e falou. Os anjos recordam que Jesus ressuscitou conforme havia dito na Galileia. Jesus leva a boa notícia de sua ressurreição aos discípulos tristes e desanimados, recorda as Escrituras e se manifesta a eles ao partir do pão. Partir o pão lembra a multiplicação/divisão dos pães. O coração dos discípulos começa a arder enquanto escutam o Mestre no caminho (mesa da palavra), mas o reconhecem quando parte o pão, gesto típico de Jesus (mesa da eucaristia).

Tudo aponta para a liturgia eucarística que estamos celebrando. A celebração da Eucaristia na comunidade reunida no Domingo, o Dia do Senhor, é o lugar privilegiado para a experiência da presença viva do Cristo Ressuscitado, que nos alimenta com sua palavra e com seu corpo e sangue.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Quando a morte é fonte de vida

Frei Clarêncio Neotti

Os dois discípulos tinham escutado das mulheres que Jesus ressuscitara (vv. 22-23), mas não foram ao túmulo vazio. Preferiram voltar para seu trabalho. A ideia que faziam de Jesus de Nazaré era insuficiente, incompleta. Tinham-no por profeta e esperavam que ele levantasse o povo contra os romanos invasores e “fosse o libertador de Israel” (v. 21).

Compreende-se, então, facilmente a decepção. Um general morto jamais fará guerra nem contará vitórias. Eles não tinham sabido ler os sinais: nem o que os profetas predisseram nem o sentido dos milagres de Jesus. Não haviam alcançado a dimensão divina de Jesus de Nazaré. Apenas haviam percebido a sua grandeza humana, a sua capacidade de liderança, o seu senso de justiça, o seu “poder profético em ação e palavras” (v. 19).

Se Jesus tinha todas essas qualidades, tinha uma outra que eles não alcançavam: tinha poder divino, tinha “o poder de dar a vida e retomá-la quando quisesse” (Jo 10,18). Era homem, filho de carne humana, mas era o Filho de Deus. Não basta simpatizar com a causa de Jesus. É preciso nunca perdermos de vista a dimensão divina de Jesus, para não ficarmos decepcionados diante de seu túmulo vazio e não vermos que está vazio, porque ele ressuscitou. A força guerreira e política termina na morte. A força divina e redentora transforma a própria morte em fonte de vida.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Emaús, a “avenida” que andamos percorrendo

Frei Almir Guimarães

Não estava ardendo o nosso coração  quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as  Escrituras?  (Lc 24,32) 

            A Igreja não comemora a Ressurreição do Senhor apenas no domingo de Páscoa.  Durante todo o tempo pascal vamos aprofundando nosso conhecimento do  Ressuscitado e de sua ação em nosso meio.  Neste domingo, diante de nós,  dois personagens, conhecidos como  os discípulos de Emaús.  Um deles chamava-se Cléofas.  Do outro nem o nome sabemos. Na caminhada que empreendem encontram um peregrino misterioso que haveria de os cativar.  Naquele momento  chegava de tristeza.  Nada de dar as costas  a Jerusalém.

“A fé em Cristo ressuscitado  não nasce em nós de maneira automática e segura. Ela vai despertando em nosso coração de maneira frágil e humilde. No começo é quase só um desejo. Geralmente cresce rodeada de dúvidas e questionamentos (…). Crer no Ressuscitado não é questão de um dia. É um processo que pode durar anos. O importante é nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Reservar-lhe  muito mais lugar em cada um de nós e em nossas comunidades cristãs”  (Pagola, Lucas, p. 366).

Passados  os dias da paixão e o  sepultamento de Jesus os discípulos entraram numa nuvem escura.  Penetram na noite da dúvida.  Teria sido tudo um sonho? Teriam se enganado com aquele que lhes havia falado com tanta veemência da vida?  Agora estava morto.  Com ele os discípulos sepultaram esperanças e sonhos. Cléofas e seu companheiro deram as costas a Jerusalém, cabisbaixos, caminhando na direção de Emaús. Emaús passou a ser um nome  mágico sinônimo  de comunhão, intimidade, beleza e contemplação.  Muitas casas de retiro e de revigoramento espiritual são designadas de Emáus.

Os dois caminhavam  com tristeza.  Esse Jesus que havia suscitado tanto entusiasmo, alento, esperança morrera no alto da cruz. Quantas punhaladas do coração?  Era melhor fugir.

Um peregrino misterioso, porém,  se associa ao caminhar do dois.  Fala-lhes das Escrituras com paixão e convicção. Procura lembrar aos dois passagens que falavam do Messias, palavras de confiança e de esperança.  Promessas feitas aos pais da fé, de modo especial a Abraão… Lembra-lhes, afinal de  contas, sua falta de fé. Aos poucos, o coração dos dois começa a arder. Um fogo, um ardor, uma ponta de esperança.

O que valeu para eles, vale para nós. Se em nossa  caminhada nos reunimos  para recordar Jesus, escutar sua mensagem, conhecer sua ação profética, meditar sua entrega,  sua crucifixão, se percebemos que as palavras de Jesus nos comovem  então nosso coração começa a arder.  Em nosso grupo, ele caminha conosco.  Ontem como hoje, trata-se de conviver com as Escrituras. Ele como que salta das páginas. Será fundamental  não alimentar  cegueira e surdez.

O peregrino ameaça ir adiante.  Os discípulos pedem que entre na pousada de Emaús.  “A cena é simples e afetuosa. Uns viajantes, cansados de seu longo caminhar,  sentam-se como amigos  para compartilhar a mesma experiência. É então que Jesus repete exatamente os quatro  gestos  que, de acordo com a tradição,  havia feito na ceia de despedida: Tomou o pão, pronunciou a bênção, o partiu e  deu a eles.  Nos discípulos desperta a fé: Seus olhos se abriram e o reconheceram.  Descobrem a Jesus como alguém que alimenta suas vidas, os sustenta no cansaço e os fortalece no caminho” (Pagola,  Grupos de Jesus, p. 308).

Felizes, transformados, sem sinais de cansaço, quase correndo os dois voltam a Jerusalém  na pressa de anunciar aos outros a boa nova:  Jesus os havia nutrido com seu pão e eles o reconheceram de modo especial, na fração do pão.

Concluindo:

“Não basta celebrar missas nem ler trechos bíblicos de qualquer maneira.  O relato de Emaús fala de duas experiências básicas. Os discípulos não leem um texto, ouvem a voz inconfundível de Jesus, que faz arder seu coração. Não celebram uma liturgia, sentam-se como amigos  à mesma mesa e descobrem juntos que é o próprio Jesus que os alimenta.  Para que continuar a fazer as coisas de uma maneira que não transforma?  Não precisamos antes de mais nada, de um contato mais real com  Jesus?  De uma nova simplicidade? De uma fé diferente?  Não precisamos  aprender a viver com mais verdade e a partir de uma dimensão nova?  Se Jesus desaparece de nosso coração, todo o resto é inútil”  (Pagola, Lucas, p.361-362).

Emaús é um pedaço de nossa aventura humana e cristã.  Quando deixamos que a Palavra nos perpasse e quando alimentamo-nos com o Pão da vida  temos a certeza da presença entre nós  daquele que deixou vazio o sepulcro da morte.  Fazemos nossa a memória da  Igreja que conservou nela, no âmbito da fé,  a Ressurreição do  Senhor. 


Para reflexão 

A presença do  Ressuscitado  é invisível e silenciosa.  Torna-se visível no rosto de um desconhecido,  de um peregrino que se torna companheiro improvisado de caminho, e fala através das palavras da Escritura.  A Bíblia e o outro homem,  a Palavra de Deus contida nas Escrituras e o rosto do outro, sobretudo do estranho e do pobre, são lugares por excelência  em que a presença do  Ressuscitado pode encontrar-nos, recordando-nos o  mandamento evangélico: ama  Deus e o teu próximo.

Luciano Manicardi


Oração

 Fica, Senhor, porque já está ficando tarde,
o caminho é longo e o cansaço é grande.
Fica para dizer-nos tuas palavras vivas,
que aquietam a mente e inflamam a alma.
Mantém inquietos nossos corações lerdos,
dissipa nossas dúvidas e temores.
Olha-nos com teus olhos de luz e vida,
devolve-nos a  ilusão perdida.
Fica e limpa-nos  o rosto e as entranhas;
queima esta tristeza, dá-nos esperança.
Fica e renova valores e sonhos:
dá-nos de novo tua alegria e tua paz.
Fica, Senhor, porque já está ficando tarde,
o caminho é longo e o cansaço grande  (F. Ulibarri).


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Contato pessoal com Jesus

José Antonio Pagola

A caminho de Emaús, dois discípulos caminham com ar triste. Não têm meta nem objetivo. Sua esperança apagou-se. Jesus desapareceu de suas vidas. Falam e discutem sobre Ele, mas, quando Jesus se aproxima deles cheio de vida, seus olhos “não são capazes de reconhecê-lo”. Jesus os havia imaginado de outra maneira ao enviá-los dois a dois: cheios de vida, transmitindo paz em cada casa, aliviando o sofrimento, curando a vida e anunciando a todos que Deus está próximo e se preocupa conosco.

Aparentemente, estes discípulos têm o necessário para manter viva a fé, mas algo morreu dentro deles. Conhecem as Escrituras sagradas: mas isso não lhes serve de nada. Ouviram o Evangelho na Galileia: mas tudo lhes parece agora uma ilusão do passado. Chegou até eles o anúncio de que Jesus está vivo: mas isso é coisa de mulheres, quem pode acreditar em algo semelhante? Estes discípulos têm tudo e não têm nada. Falta-lhes a única coisa que pode fazer “arder” seu coração: o contato pessoal com Jesus vivo.

Não será este o nosso problema? Por que tanta mediocridade e desencanto entre nós? Por que tanta indiferença e rotina? Prega-se sempre de novo a doutrina cristã, escrevem-se excelentes encíclicas e cartas pastorais, publicam-se estudos eruditos sobre Jesus. Não faltam palavras e celebrações. Talvez nos falte uma experiência mais viva de alguém que não pode ser substituído por nada nem por ninguém: Jesus Cristo, o Vivente. Não basta celebrar missas nem ler textos bíblicos de qualquer maneira.

O relato de Emaús fala de duas experiências básicas. Os discípulos não leem um texto, ouvem a voz inconfundível de Jesus, que faz arder seu coração. Não celebram uma liturgia, sentam-se como amigos à mesma mesa e descobrem juntos que é o próprio Jesus quem os alimenta.

Para que continuar fazendo coisas de uma maneira que não nos transforma? Não precisamos, antes de mais nada, de um contato mais real com Jesus? De uma nova simplicidade? De uma fé diferente? Não precisamos aprender a viver tudo com mais verdade e a partir de uma dimensão nova? Se Jesus desaparece de nosso coração, todo o resto é inútil.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

A memória de Cristo na Palavra e na Eucaristia

Johan Konings

A saudade é a gostosa presença do ausente. Quando alguém da família ou uma pessoa querida está longe, a gente procura se lembrar dessa pessoa. É o que aconteceu com os discípulos de Emaús (evangelho de hoje). Jesus tinha sumido… mas, sem que o reconhecessem, estava caminhando com eles. Explicava-lhes as Escrituras. Mostrava-lhes as passagens do Antigo Testamento que falavam dele. Pois existe no Antigo Testamento um veio escondido que, à luz daquilo que Jesus fez, nos faz compreender que Jesus é o Messias: os textos que falam do Servo Sofredor, que salva o povo por seu sofrimento (Is 52-53); ou do Messias humilde e rejeitado (Zc 9-12); ou do povo dos pobres de Javé (Sf 2-3) etc.

Jesus ressuscitado abriu, para os discípulos de Emaús esse veio.Textos que eles já tinham ouvido, mas nunca relacionado com aquilo que Jesus andou fazendo… e sofrendo. Isso é uma lição para nós. Devemos ler a Sagrada Escritura através da visão de Jesus morto e ressuscitado, dentro da comunidade daqueles que nele creem. É o que fazem os apóstolos na sua primeira pregação, quando anunciam ao povo reunido em Jerusalém a ressurreição de Cristo, explicando os textos que, no AT falam dele (1ª leitura). Para a compreensão cristã da Bíblia é preciso “ler a Bíblia na Igreja, reunidos em torno de Cristo ressuscitado”.

O que aconteceu em Emaús, quando Jesus lhes abriu as Escrituras, é parecido com a primeira parte de nossa celebração dominical, a liturgia da palavra. E muito mais parecido ainda com a segunda parte: Jesus abençoa e parte o pão, e nisso os discípulos o reconhecem presente. Desde então a Igreja repete este gesto da fração do pão e acredita que nele Cristo mesmo se torna presente. É o rito eucarístico de nossa missa.

Emaús nos ensina duas maneiras fundamentais para ter Cristo presente em sua ausência: ler as escrituras à luz de sua memória e celebrar a fração do pão, o gesto pelo qual ele realiza sua presença real, na comunhão de sua vida, morte e ressurreição. É a presença do Cristo pascal, glorioso – já não ligado a tempo e espaço, mas acessível a todos os que o buscam na fé e se reúnem em seu nome.


PE. JOHAN KONINGSnasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella