Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Que estrelas precisam vir ao chão?

Apresentação

33º Domingo do Tempo Comum

Que estrelas precisam vir ao chão?

 

Frei Gustavo Medella

“As estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas” (Mc 13,25). A cena apocalíptica descrita por Jesus no texto do Evangelho deste 33º Domingo do Tempo Comum relata fatos extraordinários que seriam um prenúncio da vinda do Filho do Homem. Nesta data em que a Igreja celebra o Dia Mundial dos Pobres, poderíamos associar as estrelas que devem cair do céu com as ilusões que precisamos superar para que, de fato, tenhamos um encontro transformador com o Filho do Homem que deseja estar conosco e agir em nós.

A estrela da idolatria – Não se trata propriamente de uma estrela solitária, mas de uma constelação de ídolos que precisamos abandonar para que tenhamos uma adesão mais madura a Cristo. Caem o apego ao dinheiro e aos bens e a sede de poder e prestígio para dar lugar a uma postura mais voltada para a sobriedade e a partilha.

A estrela do egoísmo – É outra constelação onde se destacam as estrelas do tipo “auto”, como a autossuficiência e autorreferencialidade. São estrelas tão luminosas e chamativas que tornam cego que as traz em seu horizonte e não consegue enxergar sequer a necessidade e os anseios daqueles que estão mais próximos. Precisam dar lugar à solidariedade, à sensibilidade e ao espírito de interajuda.

A estrela do preconceito – É típica do curto horizonte de quem tem preguiça de pensar com mais profundidade e prefere rotular as pessoas que o circulam, achando-se sempre, é claro, melhor do que todas elas. É a estrela das frases feitas, repetidas à exaustão e que revelam a alienação de quem as repete. Encontrar com Jesus é abrir-se à acolhida ao diferente e à disposição para o diálogo.

A estrela de um deus “à minha imagem e semelhança” – É quase parte integrante da constelação da idolatria. Nasce da tentação humana de “domesticar o Evangelho”, transformando a Palavra numa água com açúcar capaz de entorpecer as consciências. Tem de dá lugar à Profecia.

Estes são apenas alguns tipos de estrelas que precisam cair por terra para que tenhamos um encontro verdadeiro com o Filho do Homem, especialmente quando Ele se manifesta nos mais pobres de nosso tempo.

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura:

Daniel 12,1-3

Leitura da profecia de Daniel – 1“Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, defensor dos filhos de teu povo; e será um tempo de angústia, como nunca houve até então, desde que começaram a existir nações. Mas, nesse tempo, teu povo será salvo, todos os que se acharem inscritos no livro. 2Muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno. 3Mas os que tiverem sido sábios brilharão como o firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude brilharão como as estrelas, por toda a eternidade.” – Palavra do Senhor.


Salmo Responsorial: 15(16)

Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!

Ó Senhor, sois minha herança e minha taça, / meu destino está seguro em vossas mãos! / Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, / pois, se o tenho a meu lado, não vacilo. – R.

Eis por que meu coração está em festa, † minha alma rejubila de alegria / e até meu corpo no repouso está tranquilo; / pois não haveis de me deixar entregue à morte / nem vosso amigo conhecer a corrupção. – R.

Vós me ensinais vosso caminho para a vida; † junto a vós, felicidade sem limites, / delícia eterna e alegria ao vosso lado! – R.


Segunda Leitura:

Hebreus 10,11-14.18

Leitura da carta aos Hebreus – 11Todo sacerdote se apresenta diariamente para celebrar o culto, oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, incapazes de apagar os pecados. 12Cristo, ao contrário, depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados, sentou-se para sempre à direita de Deus. 13Não lhe resta mais senão esperar até que seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés. 14De fato, com esta única oferenda, levou à perfeição definitiva os que ele santifica. 18Ora, onde existe o perdão, já não se faz oferenda pelo pecado. – Palavra do Senhor.


A história e o fim dos tempos

Evangelho: Mc 13,24-32

 

* 24 «Nesses dias, depois da tribulação, o sol vai ficar escuro, a lua não brilhará mais, 25 as estrelas começarão a cair do céu, e os poderes do espaço ficarão abalados. 26 Então, eles verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens com grande poder e glória. 27 Ele enviará os anjos dos quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu, do extremo da terra ao extremo do céu.»

Fiquem vigiando -* 28 «Aprendam, portanto, a parábola da figueira: quando seus ramos ficam verdes, e as folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está perto. 29 Vocês também, quando virem acontecer essas coisas, fiquem sabendo que ele está perto, já está às portas. 30 Eu garanto a vocês: tudo isso vai acontecer antes que morra esta geração que agora vive. 31 O céu e a terra desaparecerão, mas as minhas palavras não desaparecerão.

32 Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém sabe nada, nem os anjos no céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem sabe.


* 24-27: A queda de Jerusalém manifesta e antecipa o julgamento com que Deus acompanha toda a história, e que se consumará no fim dos tempos. O Filho do Homem é Jesus que, pela sua morte e ressurreição, testemunhadas pelos discípulos, irá reunir todo o povo de Deus (cf. Dn 7,13-14).

* 28-37: Somente agora Jesus responde à pergunta dos discípulos (v. 4). Mas, em vez de dizer «quando» ou «como» acontecerá o fim, ele indica apenas como o discípulo deve se comportar na história. A tarefa do discípulo é testemunhar sem desanimar, continuando a ação de Jesus. A espera da plena manifestação de Jesus e do mundo novo por ele prometido impede, de um lado, que o discípulo se instale na situação presente; de outro, evita que o discípulo desanime, achando que o projeto de Jesus é difícil, distante e inviável.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Comentário de Frei Ludovico Garmus

33º Domingo do Tempo Comum, ano B

 

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Senhor nosso Deus, fazei que nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas”.

1. Primeira leitura: Dn 12,1-3

Nesse tempo teu povo será salvo.

A leitura que ouvimos foi tirada do último capítulo do texto hebraico do livro de Daniel. O livro foi escrito durante o domínio selêucida da Síria, no contexto da revolta dos Macabeus. Os judeus eram, então, oprimidos por pesados tributos do rei sírio Antíoco IV, proibidos de praticar sua religião e obrigados a práticas religiosas pagãs. Era um tempo eram de muito sofrimento. Entre os judeus havia os que procuravam ser fiéis à fé dos antepassados; outros, porém, colaboravam com os dominadores e traíam sua fé. O autor projeta o drama de seu tempo (domínio selêucida) para o tempo dos babilônios e persas. Ao descrever suas visões, o autor usa uma linguagem codificada, na qual os governantes são representados como animais ferozes. A intenção é animar a esperança dos fiéis perseguidos. No passado, o profeta Ezequiel animava a esperança dos exilados em Babilônia com a fé na ressurreição da nação (Ez 37,1-14). Em Daniel se afirma não só a salvação do povo judeu, mas também, a ressurreição individual dos justos e pecadores: “Muitos dos que dormem no pó da terra, despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno”. O caminho sábio para a salvação é a fiel observância da Lei de Deus. Sábios são os que ensinarem os caminhos da virtude (observância da Lei, porque “brilharão como estrelas por toda a eternidade”.

Salmo responsorial: Sl 15

Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio.

2. Segunda leitura: Hb 10,11-14.18

Com uma única oferenda,
levou à perfeição definitiva os que ele santifica.

O autor continua afirmando a superioridade do sacerdócio e do sacrifício único de Cristo sobre o sacerdócio e os sacrifícios do antigo Templo. Os sacrifícios da antiga Aliança eram oferecidos muitas vezes pelos sacerdotes, sem conseguir apagar os pecados do povo. Pelo sacrifício, oferecido uma única vez pelos nossos pecados, Cristo alcançou um lugar de honra “à direita do Pai”, isto é, como juiz: “donde virá a julgar os vivos e os mortos” (Credo). Pela sua morte e ressurreição garantiu, para todos os que o seguem, o perdão dos pecados e “levou à perfeição definitiva os que ele santifica”.

Aclamação ao Evangelho: Lc 21,36

É preciso vigiar e ficar de prontidão;
em que dia o Senhor há de vir, não sabeis não!

3. Evangelho: Mc 13,24-32

Ele reunirá os eleitos de Deus,
de uma extremidade à outra da terra.

O último ensinamento de Jesus, antes da paixão, trata da destruição de Jerusalém e seu Templo, e da segunda vinda do Senhor, no fim dos tempos. Mateus e Lucas têm uma descrição mais ampla destes eventos. Marcos fala que, ao sair do Templo, os discípulos chamaram a atenção de Jesus à majestosa construção do Templo. E Jesus lhes responde: “Estais vendo tudo isso? … Não ficará pedra sobre pedra; tudo será destruído”. Ao chegarem ao monte das Oliveiras, Pedro, Tiago, João e André lhe perguntam, em particular, quando isso haveria de acontecer e qual seria o sinal. Antes do texto hoje proclamado, Jesus fala dos sinais precederão o quando (Mc 13,5-13). Haverá guerras, terremotos e fome. Antes que chegue o fim, o Evangelho deve ser anunciado a todas as nações e os cristãos serão perseguidos. Quando o inimigo se instalar em Jerusalém, é hora de os cristãos – os eleitos – fugirem para os montes e não confiarem em falsos cristos e profetas (v. 14-23). Todos esses sinais estão relacionados à destruição de Jerusalém e à vida dos cristãos no Império Romano.

O texto que hoje ouvimos refere-se à segunda vinda do Senhor no fim dos tempos, como Juiz. Marcos escreveu seu evangelho, provavelmente, antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., nos inícios da Guerra Judaica. Sinais, como boatos de guerra, terremotos e fome, sempre existiram e existirão. Jesus, porém, não responde sobre quando acontecerá a segunda vinda do Filho do Homem: “Quanto a esse dia e à hora, ninguém sabe nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai”. Importa é estar atento aos sinais (exemplo da figueira) e vigiar. As obras humanas, impérios e potências mundiais, tendem a desaparecer: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (cf. Is 40,6-8; 1Pd 1,24-25). Em vez de nos apavorar diante da perspectiva de um fim imaginado como próximo, melhor seria vigiar, reavivar a fé na presença de Cristo no meio de nós e reforçar a confiança na Palavra de Deus: “Eis que estou convosco, todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Jesus, porteiro da eternidade

Frei Clarêncio Neotti

Jesus, portanto, é o porteiro da eternidade. Ele virá ao nosso encontro não mais na humildade de seu corpo humano, como os Apóstolos o conheceram, mas em sua majestade divina. Vir sobre as nuvens do céu (v. 26) é uma expressão que significa ter poder divino. Esse poder é reforçado pelo mando sobre os anjos e os homens (v. 27). Jesus várias vezes se chamou de “Filho do Homem” (Mt 9,6; 10,23; 12,8; 12,40; Me 10,45). A expressão vem do profeta Daniel (Dn 7,13), que fala de uma figura misteriosa conduzida sobre as nuvens do céu à presença de Deus para dele receber a realeza. Mas em outros contextos da Bíblia a expressão significa homem frágil.

As duas figuras ficam bem em Jesus. Ele é frágil como pessoa humana, será preso, condenado e morto. Mas essa fraqueza é um lado seu. Porque, ao mesmo tempo, é rei e senhor, tem força divina e, como juiz glorioso, decidirá a sorte dos bons e dos maus. Em outras palavras: quem veio à terra e assumiu, na humildade, a condição humana e abriu e indicou com clareza os caminhos da salvação, voltará, na majestade divina de rei, senhor e juiz, para instaurar o novo céu e a nova terra (2Pd 3,13).

Também nós somos um misto de fraqueza e grandeza. Temos a experiência de nossa fragilidade física e moral. Nossa fé é pequena e instável. Dificuldades nos cercam, mais difíceis de transpor que o Mar Vermelho, nos tempos de Moisés (Êx 14,15-31). Mas somos ao mesmo tempo tão grandes que o salmo diz que fomos feitos “um pouco inferiores a um ser divino” (Sl 8,6). Somos tão importantes que gozamos da condição de comensais do próprio Deus (Lc 22,30). É o drama humano, do qual ninguém escapa de ser ator. Nesse palco, entrou Jesus para nos garantir a possibilidade de um final feliz.

Quando as coisas tocam seu termo

Frei Almir Guimarães

Os que tiverem sido sábios brilharão como o firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos homens  os caminhos da virtude brilharão como estrelas por toda a eternidade.

Daniel  12, 3

Ficai sabendo que o Filho do Homem está próximo, às portas

Marcos 13, 29

Estamos para terminar mais um ano litúrgico da vida da Igreja.  No primeiro domingo de dezembro, proximamente,  começaremos a ser envolvidos pela melodia, pelas cores e pela atmosfera do advento. Os textos do Antigo e do Novo Testamento haverão de fazer germinar em nosso interior sentimentos de esperança. Deus vem. No presente domingo, no entanto, são proclamadas leituras que nos falam do fim dos tempos e  o advento de um mundo que desconhecemos e que se situa depois dos tempos.  Nossa liturgia convida a se faça um balanço da vida e as leituras apontam para o definitivo amanhã. O que andamos fazendo de nossas vidas?

Na vida há muitos  “finais”.  Há, por exemplo, o final da juventude e a entrada no tempo adulto. É preciso fazer bem as transições e  administrar os “finais”. O adulto de hoje  foi preparado no tempo da juventude com suas opções, escolhas, apoios e desapoios.  Não se fica adolescente e jovem o tempo todo. Há uma morte para um novo estado de vida.  Morre o tempo da juventude e vem um tempo novo. Um final…e um começo.

Há o tempo que passa na vida a dois, no casamento, na família. Uma suavidade dança no rosto de um casal envelhecido, mas ainda com brilho nos olhos e ternura no coração. Ao longo do tempo da vida os dois foram olhando os “sinais” e fazendo  com que amor amadurecesse e seu bem querer se tornasse forte como a morte.  Final de uma etapa e começo do tempo do amor sereno.  Um final e um novo começo.

Há o fim do tempo profissional e a chegada da aposentadoria.  Período delicado que pode nos fazer muito mal. Sensação de vazio. Uma espécie impressão de que tudo o que foi feito não teve valor. Quem  ficou atento aos fatos que iam se sucedendo não é pego de surpresa. Deixa um modo de ser e ganha outro jeito mais gratuito, mais livre, mais sereno.  Finais, sempre finais…

Chega ao fim o tempo que um filho ou uma filha tiveram que acompanhar um pai uma mãe, doente de cama, ou internado. Carinho, atenção, renúncias… O filho ou a filha ensinaram a muitos homens o caminho da virtude.  Vem o tempo de retomar a vida, depois de tanta dedicação e esquecimento de suas coisas… Final e recomeço…

Sim, certamente  as leituras deste domingo nos falam do sucesso ou do pouco êxito final da existência de cada um. Certo que no fim dos tempos estará a figura do  Filho do homem, próximo, às portas.  Ao longo de nossa vida ele sempre se fez presente.  Convivemos com ele.  Enxugamos o suor de sua fronte no rosto do mais abandonados.  Ouvimos sua Palavra ressoar no templo misterioso de nossa interioridade. Não há que ter preocupações aflitivas.  Os céus e a terra passarão, mas a palavra do Senhor não passará. Final, momento de angústia, segundo os escritos bíblicos. Mas também certeza da presença daquele que nos ama e por cada um de nós deu sua vida.

Daniel  afirma que brilharão como o firmamento os que tiverem ensinado a muitos homens  os  caminhos da virtude.

Olhar com atenção o outro, o ser humano, adivinhar suas carências mais profundas, não deixar que leis e decretos do governo ou da estupidez de uns e de outros destruam suas vidas e seu amanhã. Há os que cuidaram de ensinar o bem, as virtudes. Eles brilharão…

Os pais não farão de seus filhos discípulos da indecorosa sociedade do mercado e do consumo. Tirarão de suas entranhas o melhor que eles têm. Ensinarão o caminho da lealdade, do altruísmo, do desvencilhamento de si mesmos.  Os que ensinam as virtudes brilharão como  estrelas.

Os que se casam não vivem o fato como alguma privada demais, deles somente, somente lutando pelos seus interesses. Os que vivem numa família de verdade ultrapassam o tempo do romantismo narcisista e fazem de sua vida uma propaganda do amor conjugal.  Ensinam os caminhos da virtude ao mundo todo.

O texto de Marcos fala de uma grande tribulação no final dos tempos.  Pode-se dizer que, perto do momento da morte, quando se aguardar sua chegada e ela não vier inopinada e inesperadamente,  pode ser que tenhamos a impressão de que  “as forças serão abaladas”.  Para que ensinou as virtudes para os homens isso não acontece.  Quem está à portas é o Filho do homem. Nada a temer. Esperar apenas o amanhã com aquele que já  amamos em nossa vida mortal.  Ele está próximo, às portas…

Enfocar as grandes questões

José Antonio Pagola

O homem contemporâneo já não se intimida com os discursos apocalípticos sobre “o fim do mundo”. Tampouco se detém para escutar a mensagem esperançosa de Jesus, que, empregando essa mesma linguagem, anuncia, no entanto, o parto de um mundo novo. O que o preocupa é a “crise ecológica”.

Não se trata só de uma crise do ambiente natural do homem. É uma crise do próprio homem. Uma crise global da vida neste planeta. Crise mortal não só para o ser humano, mas também para os demais seres animados que a vêm padecendo há muito tempo.

Pouco a pouco começamos a dar-nos conta de que nos metemos num beco sem saída, pondo em crise todo o sistema da vida no mundo. Hoje, “progresso” não é uma palavra de esperança como o foi no século passado, porque se teme cada vez mais que o progresso acabe servindo não à vida, mas à morte.

A humanidade começa a ter o pressentimento de que não pode ser acertado um caminho que leva a uma crise global, que abrange desde a extinção das matas até à propagação das neuroses, desde a poluição das águas até ao “vazio existencial” de tantos habitantes das cidades massificadas.

Para deter o “desastre” é urgente mudar de rumo. Não basta substituir as tecnologias “sujas” por outras mais “limpas” ou a industrialização “selvagem” por outra mais “civilizada”. São necessárias mudanças profundas nos interesses que hoje governam o desenvolvimento e o progresso das tecnologias.

Aqui começa o drama do homem moderno. As sociedades não se mostram capazes de introduzir mudanças decisivas em seu sistema de valores e de sentido. Os interesses econômicos imediatos são mais fortes do que qualquer outro projeto. É melhor desdramatizar a crise, desqualificar os “quatro ecologistas exalados” e favorecer a indiferença.

Não chegou o momento de enfocar as grandes questões que nos permitam recuperar o “sentido global” da existência humana sobre a Terra e de aprender a viver uma relação mais pacífica entre os homens e com a criação inteira?

O que é o mundo? Um “bem sem dono”, que nós homens podemos explorar de maneira impiedosa e sem atenção alguma, ou a casa que o Criador nos dá de presente para torná-la cada dia mais habitável? O que é o cosmos? Um material bruto, que podemos manipular à vontade, ou a criação de um Deus que, mediante seu Espírito, vivifica tudo e conduz “os céus e a terra” para sua consumação definitiva?

O que é o homem? Um ser perdido no cosmos, lutando desesperadamente contra a natureza, mas destinado a extinguir-se sem remédio, ou um ser chamado por Deus a viver em paz com a criação, colaborando na orientação inteligente da vida para sua plenitude no Criador?

Minhas palavras não passarão

Pe. Johan Konings

Jesus vivia num tempo de apocaliptismo. Esperava-se uma intervenção de Deus, talvez por meio do Messias, para substituir este mundo ruim por “um mundo novo muito melhor”. Qualquer acontecimento um tanto fora do comum era interpretado como sinal de que “estava para acontecer” … É como quem está no ponto do ônibus: em qualquer veículo maior aparecendo na curva pensa reconhecer “seu ônibus” …

As pessoas dificilmente suportam a incerteza quanto ao futuro. O ser humano precisa de uma referência estável. Jesus no-la oferece. Depois de ter evocado as imagens que seus contemporâneos usam a respeito do fim do mundo, ele afirma: “Minha palavra não passará” (evangelho). Em meio a tudo que pode caducar, sua palavra está firme, como baliza e ponto de referência em nossa vida e em nossa história, enquanto as grandezas históricas esvaecem como a neblina diante do sol. Depois dos sonhos do progresso ilimitado, o mundo toma consciência de que talvez esteja cavando seu próprio túmulo. O progresso traz desmatamento, desertificação, poluição ambienta!. Nos países ricos faltam nascimentos, nos pobres, comida para os que nascem. Mas, em vez de reagir com responsabilidade, impondo-se os devidos limites, muitos respondem com irresponsabilidade. “Aproveitemos, pois amanhã tudo acaba”. Esse é o lado apocalíptico da sociedade de consumo. A sociedade assiste como que de camarote à própria destruição.

No meio disso, a palavra de Jesus é referência firme. É palavra de amor e fidelidade até o fim. Por causa disso, nunca passa. Supera o fim do mundo. É amor sem fim. Ainda que passem TV, intemet, programas espaciais … o amor fraterno nunca sai de moda. Ainda que não possa mais pagar a gasolina do meu carro particular, nunca serei dispensado de visitar meu irmão necessitado. Ainda que fechem todos os supermercados, nunca poderei fechar a mão para o pobre. O que Jesus ensinou e mostrou sempre terá sentido. É a aplicação mais segura que existe. Se aplico minha vida neste sentido, posso dormir tranqüilo. O que Jesus ensina não é roído pela inflação.

Costumamos imaginar o definitivo e o eterno como vida depois da morte, ressurreição futura (1a leitura). Mas, na realidade, nossa ressurreição já começou na medida em que nossa vida está unida à de Cristo, que ressuscitou. A vida que dura não é a das células do corpo, mas a da comunhão com Deus. A ressurreição de Jesus é a mostra segura dessa vida: quem segue Jesus, já está encaminhando para essa vida que não tem limite, por ser a vida de Deus mesmo. Jesus não perde a vaidade. Observando sua palavra e vivendo sua prática de vida já estamos vivendo a vida sem fim que se manifestou na ressurreição de Jesus.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella