Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Quarto domingo da Quaresma

Quarto domingo da Quaresma

É a lama! É a lama!

 

Frei Gustavo Medella

Na música “Águas de Março”, ao descrever os efeitos das chuvas acentuadas que normalmente marcam o terceiro mês do ano, o compositor Tom Jobim faz uma exclamação: “É a lama! É a lama!”. Lama que Jesus produz com a própria saliva para restituir a visão ao cego de nascença, conforme narra o Evangelho deste 4º Domingo da Quaresma (Jo 9,1-41). Lama da Salvação! O Papa Francisco, desde o início de seu Pontificado, declarou que prefere uma Igreja ferida e enlameada por conta de sair ao encontro da humanidade nas durezas do caminho a uma Igreja adoentada, porque encerrada na ilusória pseudo-segurança da autorreferencialidade. A lama do caminho, a exemplo daquela produzida por Jesus, é fonte de cura para a cegueira do clericalismo, do mundanismo e de outros “ismos” que nos impedem, enquanto Igreja de Cristo, de manter-nos em sintonia de fidelidade com Aquele que nos enviou.

No contexto de uma pandemia, poderíamos nos perguntar: O que significa ser uma Igreja em saída quando a orientação maior é a permanência de cada um em sua casa, a menor circulação possível de pessoas e o isolamento social? Em primeiro lugar, renovar a certeza e a consciência de que a Igreja somos todos os batizados e batizadas em estado permanente de comunhão e missão. Sendo assim, o convite maior é aprendermos a ressignificar pela fé nossa adesão ao projeto de Deus. Cultivar a solidariedade e colocar-se a serviço daqueles que estão em situação de vulnerabilidade é expressão da Igreja em saída.

Alguns poucos exemplos bonitos desta prática têm aparecido em nossos noticiários e nas redes sociais: uma farmácia em Curitiba passou a oferecer gratuitamente uma porção de álcool gel às pessoas: bastava que trouxessem os frascos; num determinado prédio, moradores mais jovens deixaram bilhetes aos mais idosos, colocando-se à disposição para pequenos favores que envolvessem uma saída às ruas; na Itália, diversos cidadãos em quarentena se colocaram nas varandas e janelas a cantar e tocar instrumentos com objetivo de levar alento e alegria a tantos corações aflitos e solitários; o cultivo da oração em família, com leitura e partilha da Palavra de Deus e em sintonia com as comunidades, também é forma de manter viva a fé e transmitir esperança ao mundo.

No que diz respeito à ação pastoral organizada, também há diferentes meios de manter-se em saída, especialmente manifestando a proximidade e a comunhão do coração com aqueles que aguardam um telefonema, uma mensagem pelas redes sociais como sinal visível de que não estão sozinhos ou isolados, ainda que fisicamente o estejam. As celebrações privadas, transmitidas pelos meios de comunicação, também são ponto privilegiado de encontro com Deus em comunidade. Manter as igrejas de portas abertas e bem arejadas também se faz forma de acolhida e presença a fim de que aqueles que precisam sair às ruas encontrem um lugar para sua oração pessoal, especialmente diante de Cristo Eucarístico. Além da criatividade no cultivo das celebrações e na organização pastoral, a promoção da partilha e da solidariedade daqueles que têm mais condições econômicas, financeiras e estruturais com uma grande multidão em situação de extrema pobreza também deve estar no foco de nossas ações e preocupações enquanto Igreja em saída.

São apenas algumas rápidas ideias. Muitas outras o Senhor há de suscitar em nossos corações, ajudando-nos vencer as cegueiras interiores que o medo e o egoísmo podem instalar em nós, especialmente neste tempo de crise que estamos atravessando.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Naqueles dias, o Senhor disse a Samuel: 1bEnche o chifre de óleo e vem para que eu te envie à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei para mim entre os seus filhos. 6Assim que chegou, Samuel viu a Eliab e disse consigo “Certamente é este o ungido do Senhor!” 7Mas o Senhor disse-lhe: Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”.

10Jessé fez vir seus sete filhos à presença de Samuel, mas Samuel disse: “O Senhor não escolheu a nenhum deles”. 11E acrescentou: “Estão aqui todos os teus filhos?”

Jessé respondeu: Resta ainda o mais novo que está apascentando as ovelhas”. E Samuel ordenou a Jessé: “Manda buscá-lo, pois não nos sentaremos à mesa enquanto ele não chegar”. 12Jessé mandou buscá-lo. Era Davi, ruivo, de belos olhos e de formosa aparência. E o Senhor disse: “Levanta-te, unge-o: é este!”

13aSamuel tomou o chifre com óleo e ungiu a Davi na presença de seus irmãos. E a partir daquele dia o espírito do Senhor se apoderou de Davi.


Salmo Responsorial (Sl 22)

— O Senhor é o pastor que me conduz;/ não me falta coisa alguma.

— O Senhor é o pastor que me conduz;/ não me falta coisa alguma.

— O Senhor é o pastor que me conduz;/ não me falta coisa alguma./ Pelos prados e campinas verdejantes/ ele me leva a descansar./ Para as águas repousantes me encaminha,/ e restaura as minhas forças.

— Ele me guia no caminho mais seguro,/ pela honra do seu nome./ Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,/ nenhum mal eu temerei./ Estais comigo com bastão e com cajado,/ eles me dão a segurança!

— Preparais à minha frente uma mesa,/ bem à vista do inimigo;/ com óleo vós ungis minha cabeça,/ e o meu cálice transborda.

— Felicidade e todo bem hão de seguir-me,/ por toda a minha vida;/ e, na casa do Senhor, habitarei/ pelos tempos infinitos.


Segunda Leitura: Ef 5,8-14

Irmãos: 8Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. 9E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade. 10Discerni o que agrada ao Senhor. 11Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as. 12O que essa gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. 13Mas tudo que é condenável torna-se manifesto pela luz; e tudo o que é manifesto é luz. 14É por isso que se diz: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá”.


Jesus cura a cegueira dos homens
Evangelho: Jo 9,1-41

-* 1 Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. 2 Os discípulos perguntaram: «Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou seus pais?» 3 Jesus respondeu: «Não foi ele que pecou,nem seus pais, mas ele é cego para que nele se manifestem as obras de Deus. 4 Nós temos que realizar as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Está chegando a noite, e ninguém poderá trabalhar. 5 Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo.» 6 Dizendo isso, Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva e com o barro ungiu os olhos do cego. 7 E disse: «Vá se lavar na piscina de Siloé.» (Esta palavra quer dizer «O Enviado»). O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando.

8 Os vizinhos e os que costumavam ver o cego, pois ele era mendigo, perguntavam: «Não é ele que ficava sentado, pedindo esmola?» 9 Uns diziam: «É ele mesmo.» Outros, porém, diziam: «Não é ele não, mas parece com ele.» Ele, no entanto, dizia: «Sou eu mesmo.» 10 Então lhe perguntaram: «Como é que seus olhos se abriram?» 11 Ele respondeu: «O homem que se chama Jesus fez barro, ungiu meus olhos e me disse: ‘Vá se lavar em Siloé’. Eu fui, me lavei, e comecei a enxergar.» 12 Perguntaram-lhe: «Onde está esse homem?» Ele disse: «Não sei.»

Pior cego é aquele que não quer ver -* 13 Então levaram aos fariseus aquele que tinha sido cego. 14 Era sábado o dia em que Jesus fez o barro e abriu os olhos do cego. 15 Então os fariseus lhe perguntaram como é que tinha recuperado a vista. Ele disse: «Alguém colocou barro nos meus olhos, eu me lavei, e estou enxergando.» 16 Então os fariseus disseram: «Esse homem não pode vir de Deus; ele não guarda o sábado.» Outros diziam: «Mas como pode um pecador realizar esses sinais?» 17 E havia divisão entre eles. Perguntaram outra vez ao que tinha sido cego: «O que você diz do homem que abriu seus olhos?» Ele respondeu: «É um profeta.»

18 As autoridades dos judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista. Até que chamaram os pais dele 19 e perguntaram: «Este é o filho que vocês dizem ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?» 20 Os pais disseram: «Sabemos que é o nosso filho e que nasceu cego. 21 Como é que ele agora está enxergando, isso não sabemos. Também não sabemos quem foi que abriu os olhos dele. Perguntem a ele. É maior de idade e pode dar explicação.» 22 Os pais do cego disseram isso porque tinham medo das autoridades dos judeus, que haviam combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Messias. 23 Foi por isso que os pais disseram: «É maior de idade; perguntem a ele.»

24 Então as autoridades dos judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego e lhe disseram: «Confesse a verdade. Nós sabemos que esse homem é um pecador.» 25 Ele respondeu: «Se ele é pecador, isso eu não sei; só sei que eu era cego e agora estou enxergando.» 26 Eles insistiram: «Que é que ele fez? Como foi que abriu seus olhos?» 27 Ele respondeu: «Eu já lhes disse, e vocês não me escutaram. Por que vocês querem ouvir de novo? Será que também vocês querem se tornar discípulos dele?» 28 Então insultaram o cego curado e disseram: «Você é que é discípulo dele. Nós, porém, somos discípulos de Moisés. 29 Sabemos que Deus falou a Moisés, mas quanto a esse homem, nem sabemos de onde ele é.» 30 Ele respondeu: «Isso é de admirar! Vocês não sabem de onde ele é. No entanto, ele abriu meus olhos. 31 Sabemos que Deus não ouve os pecadores, mas ouve aquele que o respeita e faz a sua vontade. 32 Nunca se ouviu falar que alguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença. 33 Se esse homem não vem de Deus, não poderia fazer nada.» 34 Eles disseram: «Você nasceu inteirinho no pecado e quer nos ensinar?» E o expulsaram.

Jesus torna cegos os que pensam ver -* 35 Jesus, ouvindo dizer que tinham expulsado aquele que fora cego, foi à procura dele e perguntou-lhe: «Você acredita no Filho do Homem?» 36 Ele respondeu: «Quem é ele, Senhor, para que eu acredite nele?» 37 Jesus disse: «Você o está vendo; é aquele que está falando com você.» 38 O cego que tinha sido curado disse: «Eu acredito, Senhor.» E se ajoelhou diante de Jesus. 39 Então Jesus disse: «Eu vim a este mundo para um julgamento, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.» 40 Alguns fariseus que estavam perto dele ouviram isso e disseram: «Será que também somos cegos?» 41 Jesus respondeu: «Se vocês fossem cegos, não teriam nenhum pecado. Mas como vocês dizem: ‘Nós vemos’, o pecado de vocês permanece.»

* 9,1-12: O cego de nascença simboliza o povo que nunca tomou consciência de sua própria condição de oprimido, e por isso não chegou a ver a verdadeira condição humana, o objetivo para o qual Deus o criou. A missão de Jesus, e dos que acreditam nele, é mostrar essa possibilidade, a partir de uma prática concreta, mais do que com palavras.

* 13-34: A ação de Jesus abala as idéias religiosas dos representantes do poder. Estes, em primeiro lugar, procuram transformar o fato em fraude. Não o conseguindo, recorrem à sua própria autoridade, para definirem o que está ou não de acordo com a vontade de Deus. Apegados a suas idéias, negam o que é evidente e invertem as coisas, defendendo a todo o custo sua posição de privilégio e poder. Para eles, Deus prefere a observância da Lei ao bem do homem. Por fim, recorrem à violência, expulsando o homem da comunidade, marginalizando-o. Pretendendo possuir a luz, eles se tornam cegos e querem cegar os outros.

* 35-41: Curado por Jesus, o homem enfrenta a luta com os dirigentes de uma sociedade cega que o afasta. Como conseqüência, ele passa então para uma nova comunidade e começa seu novo culto. Por outro lado, os dirigentes não querem aceitar essa realidade e por isso permanecem intransigentes dentro da instituição opressora. Este é o julgamento de Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

4º Domingo da Quaresma, ano A

 Oração: “Ó Deus, que por vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé”.

  1. Primeira leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Davi é ungido rei de Israel.

Os relatos bíblicos falam de três unções de Davi como rei: é ungido pelos homens de Judá como rei da casa de Judá; é ungido pelas tribos como rei de Israel, em reconhecimento de suas qualidades de liderança político-militar. A terceira foi uma unção prévia, de caráter carismático, por iniciativa do profeta Samuel e por indicação divina. O critério desta última é a escolha por iniciativa exclusiva de Deus, pois “o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (v. 9). Outro critério é que Deus escolhe alguém que sabia cuidar de ovelhas para ser o pastor e cuidar de seu povo Israel. Depois de Davi ter sido ungido por Samuel, “o espírito do Senhor se apoderou de Davi”, para salvar Israel dos inimigos que ameaçavam, para julgá-lo como juiz e para trazer-lhe segurança e paz. – A unção de Davi nos remete para ao batismo de Jesus por João Batista, quando foi ungido pelo Espírito do Senhor a fim de exercer sua missão de Messias, Servo Sofredor. Lembra também a nossa unção batismal.

Salmo responsorial: Sl 22

O Senhor é o pastor que me conduz;

não me falta coisa alguma.

  1. Segunda leitura: Ef 5,8-14

Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá.

A carta aos Efésios, atribuída a Paulo quando estava na prisão, foi provavelmente escrita por um discípulo na década de 90. Respira a teologia de Paulo, mas também a do Evangelho de João. O símbolo “luz x trevas” estão bem presente em João: “A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam” (Jo 1,5). No diálogo com Nicodemos Jesus diz: “A luz veio ao mundo e as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). Mais adiante (8,12) Jesus se apresenta como a luz do mundo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. A 2ª leitura é um texto batismal, caracterizada pelos símbolos “luz” (5 vezes) e “trevas” (2 vezes). Quem é batizado e segue a sua fé produz os frutos da luz: bondade, justiça, verdade. A luz da fé leva o cristão a “discernir o que agrada ao Senhor” – a prática do bem – e afastar-se das “obras das trevas”

A leitura conclui-se com um hino batismal: “Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá”. Iluminado por Cristo pelo batismo, o cristão não pode ficar parado (Evangelho), mas se compromete a seguir a Jesus Cristo, luz do mundo. Como filho da luz (1Ts 5,5). Jesus expressa muito bem o que é ser iluminado por sua luz: “Vós sois a luz do mundo (…). Vossa luz deve brilhar diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,12-16). A maturidade da vida cristã se reflete nos frutos da luz: bondade, justiça, verdade.

Aclamação ao Evangelho

Louvor e honra a vós, Senhor Jesus.

 Pois, eu sou a luz do mundo, quem nos diz é o Senhor;

E vai ter a luz da Vida quem se faz meu seguidor!

  1. Evangelho: Jo 9,1.6-9.13-17.34-38

O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.

Lemos hoje apenas uma síntese do relato completo da cura do cego de nascença, que se compõe de seis cenas. Na síntese é omitida completamente a cena dos pais que são interpelados pelos fariseus e confirmam que o cego curado é o filho deles e que nasceu cego. Nos interrogatórios os fariseus (cegos) lutam contra as evidências. No texto mais longo, quatro vezes se afirma que se tratava de um cego de nascença; onze vezes é constatada a cura e três vezes se repete a frase descritiva da cura: “Fui, lavei-me e estou vendo”. O cego não só recobrou a vista, mas se lhe abriram os olhos da fé em Jesus, como Salvador e “Luz do mundo” (v. 5). Os olhos do cego vão se abrindo aos poucos para a fé. Primeiro ele diz: “aquele homem que se chama Jesus” (v. 11); depois, que Jesus é um profeta (v. 17); em seguida, que é o Cristo (v. 22), é um homem de Deus (v. 33), é o Filho do homem (v. 35) e, finalmente, que é o Senhor (v. 38). Enquanto o cego se abre cada vez mais à fé em Cristo, os fariseus se fecham sempre mais em sua cegueira. De juízes que se consideram (“Este homem não pode ser de Deus porque não observa o sábado”), acabam sendo julgados pelo cego, que é expulso da sinagoga. Jesus só aparece no início, quando cura o cego, e no fim, quando o cego é expulso da sinagoga. Então, Jesus conversa com ele, e o cego confessa sua fé e diz: “Eu creio, Senhor!” – e o adora. É admitido, portanto, à comunhão com Cristo. – A cura do cego tornou-se no decorrer do tempo uma parábola da iluminação batismal e da admissão na comunidade eclesial. A fé começa com o primeiro encontro com Jesus, cresce com o testemunho do cego e chega à plenitude com o novo encontro com Jesus.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Os cegos tornarão a ver

Frei Clarêncio Neotti

A cegueira era frequente na Palestina. Talvez por causa do clima. A cura era rara. Embora não sofressem a desgraça dos leprosos, também os cegos eram tidos como ‘pecadores’, por duas razões. Primeira, porque, se fossem pessoas boas,
Deus não os teria castigado com a cegueira; segunda, porque, como cegos, não tinham possibilidade de cumprir todos os mandamentos e, consequentemente, se não eram, tornavam-se pecadores. Essa mentalidade aparece clara ao longo do
Evangelho de hoje. Até nos sacrifícios era proibido oferecer um animal que fosse cego (Lv 22,22; Dt 15,21).

A cura da cegueira, naquele tempo praticamente impossível, só era esperada por meio de uma intervenção divina, um milagre. Por isso, dizia-se que, quando chegasse o Messias, ele haveria de restituir a vista aos cegos (Is 29,18 e 35,5). Jesus faz referência a essa esperança (Lc 4,18) e confirma sua messianidade pela cura da cegueira (Mt 11,5; Lc 7,22) e hoje até curando um cego de nascença. Os evangelistas anotaram vários milagres de cura de cegos feitos por Jesus, sempre como sinal da chegada do Messias (por exemplo: Mt 9,27-31; 12,22; 15,30; 20,29-34; 21,14).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Quaresma: Jesus vem abrir nossos olhos

Frei Almir Guimarães

♦ Vai avançado nosso retiro quaresmal. Ouvimos, neste domingo, o belo e dramático relato da cura do cego de nascença. Tema da luz e da claridade. Esse Jesus que se dirige para Jerusalém é luz. Vem para ser claridade na vida dos homens, Filho do Pai que é luz inacessível. A epístola aos efésios, por sua vez, afirma que nós cristãos, como filhos da luz, caminhamos de claridade em claridade. Na primeira leitura, entre os filhos de Jessé, Samuel resolve ungir Davi, aquele que não tinha condições de ser escolhido por sua frágil aparência. As aparências podem enganar. Deus vê de modo diferente do olhar dos homens. Deus tem um olhar diferente do olhar dos mortais.

♦ No famoso relato de João, o cego não procura Jesus, nem Jesus está a buscá-lo. As coisas acontecem ao sabor das andanças do Senhor. Em seus deslocamentos o Mestre encontra pessoas: pescadores, cobradores de impostos, gente de certa importância, pecadores, cegos, coxos, homens, mulheres. Estabelece com uns e outros diferentes tipos de relacionamentos. É sempre no coração da vida que Jesus aproxima-se das pessoas. Os guias do povo complicam a vida com suas leis frias e sem alma. Jesus vê um cego e quer ilumina-lo.

♦ Neste episódio, Jesus está presente o tempo todo, só intervém, no entanto, no começo e no fim. A figura central é o próprio cego. Ele é testemunha da luz e, no final, será um pessoa gratíssima a Jesus que lhe abriu os olhos do rosto e fez com que ele fosse inundado por uma claridade de existir. Será missionário da luz. Evoca-se aqui o drama da história humana: trata-se de aceitar ou rejeitar a luz.

♦ Os circunstantes viam na cegueira do homem um castigo pelo pecados. O homem sofre duplamente. Não enxerga e os outros enxergam-no como um pecador e coberto com a sina do pecado cometidos por seus pais. Os discípulos de Jesus participam dessa crença. O Mestre rejeita esta interpretação. Jesus elimina o aspecto degradante de seu mal, restitui-lhe a dignidade e faz despontar um horizonte de aurora. O cego começa a se sentir livre. Alguém se interessa por ele.

♦ Nós somos o cego. Precisamos ver as trilhas a caminhar, as providências que precisamos tomar para sair do nevoeiro, para enxergar o sentido destas pernas e destes braços, desta vista e deste ouvido. Não queremos apenas olhar o que nos convém e o que serve para satisfazer nosso pequeno eu. Queremos poder enxergar o que está por detrás do rosto fechado dos que vivem perto de nós, ver para além da graça do corpo e do redondo dos bíceps, o que está para além da fala de um doente, ver para além das aparências, porque as aparências enganam. Jesus se apresenta ao cego como Messias como aquele que veio para que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos. Veio para espancar as trevas do legalismo, da indiferença. No final de todos os caminhos o cego haverá de der: “Creio que tu és o Messias”. No momento atual quais são as cegueiras que nos afetam?

♦ “O gesto terapêutico aplicado por Jesus ao cego, quando fez uma pasta de lama e a aplicou sobre seus olhos recorda o gesto com que Deus criou Adão, moldando-o do pó da terra. A recriação nada tem de mágico ou espiritualista, mas tem um valor humaníssimo, e conduz aquele que era apenas objeto de palavras e juízo de outros a tornar-se sujeito, a assumir a sua própria vida, a tomar a palavra e a reivindicar a sua identidade: “Sou eu”. Aquele “sou eu” é essencial para poder chegar a proclamar em liberdade e com convicção: “Eu creio”. Tornarmo-nos crentes não nos exime de nos tornarmos pessoas. Antes o exige” (Luciano Manicardi).

♦ O ser humano todo inteiro é chamado à luz em corpo e alma como bem exprime Paul Claudel:
“Acabe eu por completo de ser obscuro
Libertai todo o sol que há em mim
toda capacidade da vossa luz.
Possa eu ver-vos não apenas com os olhos,
mas com todo meu corpo e todo meu ser
com toda minha materialidade resplandecente e sonora.

“Eu vim a este mundo para fazer um novo julgamento: para que os que não viam, passem a ver, e os que viam, se tornem cegos”.


Oração

Quando meu pecado me desanimar,
ajuda-me a crer que tu não deixas
nunca de semear no barro de minha mediocridade.
Quando o sofrimento me deixa sem forças,
ajuda-me a crer que tu estás semeando em mim
uma secreta fecundidade.
Quando a morte próxima me causar medo,
ajuda-me a crer que o grão que morre
é semente de uma espiga dourada.
Quando a desgraça dos oprimidos me entristecer,
ajuda-me a crer que nosso amor solidário
é semente de justiça e liberdade.

Inspirada em Michel Hubaut


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Jesus é para os excluídos

José Antonio Pagola

É “cego de nascença”. Não sabe o que é a luz. Nunca a conheceu. Nem ele nem seus pais têm culpa, mas ali está ele, sentado, pedindo esmola. Seu destino é viver em trevas.

Um dia, ao passar Jesus por ali, vê o cego. O evangelista diz que Jesus é a “Luz do mundo”. Talvez lembrando as palavras do antigo profeta Isaías, garantindo que um dia chegará a Israel alguém que “gritará aos cativos: ‘Saí’ e aos que estão nas trevas: ‘Vinde à luz'”. Jesus passa nos olhos do pobre cego a mistura de barro e saliva para infundir-lhe sua força vital. A cura não é automática. Também o cego deve colaborar. Ele faz o que Jesus lhe indica: vai lavar os olhos, limpar seu olhar e começa a ver.

Quando as pessoas lhe perguntam quem foi que o curou, ele não sabe como responder. Foi “um homem chamado Jesus”. Não sabe dizer mais nada. Também não sabe onde ele está. Só sabe que, graças a este homem, pode ver a vida com olhos novos. É isto que importa. Quando os fariseus e entendidos em religião o acossam com suas perguntas, o homem responde com toda simplicidade: “acho que ele é um profeta”. Não sabe muito bem quem é, mas alguém capaz de abrir os olhos só pode vir de Deus. Então os fariseus se enfurecem, o insultam e o “expulsam” de sua comunidade religiosa.

A reação de Jesus é comovente. “Quando ficou sabendo que o expulsaram, foi procurá-lo”. Assim é Jesus. Não devemos esquecer jamais que é Ele que vem ao encontro dos homens e mulheres que não são acolhidos pela religião. Jesus não abandona quem o busca e o ama, mesmo que tenha sido excluído de sua comunidade religiosa.

O diálogo é breve: “Crês no Filho do homem?” Ele está disposto a crer. Seu coração já é crente, mas ignora tudo: “Quem é Ele, Senhor, para que eu creia nele?” Jesus lhe diz que não está longe: “Tu o estás vendo: é aquele que fala contigo, é esse”. Segundo o evangelista, esta história aconteceu em Jerusalém por volta do ano trinta, e continua acontecendo hoje entre nós no século XXI.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

O batismo, unção e luz

Pe. Johan Konings

As leituras deste domingo são escolhidas com vista à preparação do batismo ou da renovação do compromisso batismal. Esclarecem o sentido dos ritos complementares que se seguem ao batismo propriamente, os assim chamados ritos pós-batismais: a unção, que significa a participação do fiel na missão de Cristo, profeta, sacerdote e rei; a veste branca, que significa a pureza da fé batismal; e a vela acesa, que significa Cristo como a luz que ilumina nossa vida.

Na 1ª leitura, Davi é ungido rei por Samuel. Jesus é o novo Davi, o Messias, “ungido” (com o Espírito) no batismo no rio Jordão. O próprio termo “Cristo ”significa “ungido” (em hebraico: “Messias”). Assim, na liturgia batismal, o recém-batizado é ungido em sinal de que ele é “Cristo com Cristo”, membro do povo messiânico.

No evangelho, Jesus “unge” os olhos do cego de nascença. (Para a catequese, o fato de ele ser cego de nascença faz pensar no pecado original: uma cegueira que acompanha a vida da gente). Depois de ter untado os olhos do cego, Jesus manda-o lavar-se (o “banho da regeneração”!) no “Siloé, que quer dizer Enviado” ( a piscina de Siloé é uma figura de Cristo). Então, ele recebe luz dos olhos. O batismo é aqui evocado como unção e iluminação.

O sentido profundo disso tudo é que o batizado deve ser uma testemunha da luz que recebeu. O cego de nascença nos dá o exemplo: ele testemunha o Cristo, com convicção e firmeza sempre crescentes. O batizado é um homem da luz (“filho da luz”, diz a Bíblia), alguém que enxerga com clareza, e que anda na luz. Pois a luz não é só para ser contemplada, mas para caminharmos nela, realizando as obras que ela nos permite enxergar e levar a termo. “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor… Desperta, tu que estás dormindo, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (2ª leitura).

Como é que se realiza este testemunho cristão no Brasil hoje? Quais são as grandes cegueiras que devem ser iluminadas? Vamos assumir o nosso testemunho, mesmo para aqueles que não querem ver.


PE. JOHAN KONINGSnasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella