Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Primeiro domingo do Advento

Primeiro domingo do Advento

Jesus se recusa a dar um “spoiler”

 

Frei Gustavo Medella

Em tempo de séries de sucesso levadas ao ar na TV, e mais na internet, ninguém gosta de receber um spoiler. Segundo a explicação do site significados.com.br, “Spoiler tem origem no verbo spoil, que significa estragar, é um termo de origem inglesa. Spoiler é quando alguma fonte de informação, como um site, ou um amigo, revela informações sobre o conteúdo de algum livro, ou filme, sem que a pessoa tenha visto”. Normalmente são informações estratégicas equivalentes à ação de se contar o fim do filme antes que a pessoa possa vê-lo. Sendo assim, faz perder a graça da experiência de quem deseja acompanhar a história em todo o seu desenrolar, com início, meio e fim.

No Evangelho deste 1º Domingo do Advento (Mt 24,37-44), Jesus nega-se a dar um spoiler àqueles que estavam curiosos para saber sobre quando seria a “vinda do Filho do Homem”. Diz o Mestre: “Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor” (Mt 24,42). Agindo desta maneira, Jesus não deseja se prevalecer sobre os seus por conta de uma informação privilegiada. Segundo Santo Efrém, diácono de doutor da Igreja, do Século IV, “Ele quis ocultar-nos isto para que permaneçamos vigilantes, e para que cada um de nós possa pensar que esse acontecimento sobrevirá sobre a sua vida”. Diante desta salutar incerteza, a única garantia quem nos oferece é a fé, pela qual, acreditamos que o fim desta história será bonito de se ver e de se viver.

Com este espírito de vigilância busquemos mais uma vez caminhar neste Advento que se inicia. Certos de que o Senhor, que mora no “ponto mais alto das montanhas” (Cf. Is 2,2), se dispõe a montar sua tenda entre nós. Afinal, “já é hora de despertar” (Rm 13,11b).


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Is 2,1-5

1Visão de Isaías, filho de Amós, sobre Judá e Jerusalém.

2Acontecerá, nos últimos tempos, que o monte da casa do Senhor estará firmemente estabelecido no ponto mais alto das montanhas e dominará as colinas. A ele acorrerão todas as nações, 3para lá irão numerosos povos e dirão: “Vamos subir ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine a cumprir seus preceitos”; porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a palavra do Senhor.

4Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices; não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate. 5Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor.


Responsório: Sl 121

— Que alegria, quando me disseram:/ “Vamos à casa do Senhor!”

— Que alegria, quando me disseram:/ “Vamos à casa do Senhor!”

— Que alegria, quando ouvi que me disseram:/ “Vamos à casa do Senhor!”/ E agora nossos pés já se detêm,/ Jerusalém, em tuas portas.

— Para lá sobem as tribos de Israel,/ as tribos do Senhor./ Para louvar, segundo a lei de Israel,/ o nome do Senhor./ A sede da justiça lá está/ e o trono de Davi.

— Rogai que viva em paz Jerusalém,/ e em segurança os que te amam!/ Que a paz habite dentro de teus muros,/ tranquilidade em teus palácios!

— Por amor a meus irmãos e meus amigos,/ peço: “A paz esteja em ti!”/ Pelo amor que tenho à casa do Senhor,/ eu te desejo todo bem!


Segunda Leitura: Rm 13,11-14a

Irmãos: 11Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé.

12A noite já vai adiantada, o dia vem chegando; despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz.

13Procedamos honestamente, como em pleno dia; nada de glutonerias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem de brigas e rivalidades. 14Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.


Fiquem vigiando

Evangelho: Mt 24,37-44

37 A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. 38 Porque, nos dias antes do dilúvio todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. 39 E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio, e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. 40 Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado, e o outro será deixado. 41 Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada, a outra será deixada. 42 Portanto, fiquem vigiando! Porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês. 43 Compreendam bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente ficaria vigiando, e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44 Por isso, também vocês estejam preparados. Porque o Filho do Homem virá na hora em que vocês menos esperarem.


* 32-51: Jesus agora responde à pergunta feita pelos discípulos (v. 3). Cf. nota em Mc 13,28-37. A parábola dos vv. 45-51 ressalta a missão dos responsáveis pela comunidade cristã. Enquanto esperam por Jesus, eles devem continuar fiéis no serviço à comunidade, sem cair na tentação de afrouxar a prática da justiça, diante da demora do Senhor.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

1º Domingo do Advento, Ano A

 Oração: Concedei-nos o ardente desejo de possuir o reino celeste, acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem.

  1. Primeira leitura: Is 2,1-5

O Senhor reúne todas as nações para a paz eterna do Reino.

Este pequeno oráculo teria sido pronunciado pelo profeta Isaías em momento de grave crise. Percebe-se a gravidade da crise política, social e religiosa já no primeiro capítulo. Jerusalém está cercada pelas tropas da Assíria (Is 1,2-9); Deus rejeita os sacrifícios do culto oficial, pois quem os oferece tem as “mãos cheias de sangue”, assassinatos, violência, injustiça e corrupção (v. 10-15). Isaías repreende e ameaça os chefes e juízes, exortando-os a deixar de fazer o mal e começar a fazer o bem. Mas, ao mesmo tempo, espera uma intervenção salvadora de Deus, para que Jerusalém, infiel e cheia de injustiça, receba um novo nome: “Serás chamada cidade da justiça, cidade fiel”. Nesse contexto de promessas de salvação foi acrescentada a visão de Isaías, que hoje ouvimos, aponta para um futuro cheio de esperança para Judá e Jerusalém, e para toda a humanidade. O texto é um “cântico de Sião”, no qual os judeus se convidam para a peregrinação anual a Jerusalém (cf. Sl 122). Aqui, porém, são os povos de todas as nações que fazem o convite para a peregrinação. A meta da peregrinação é “o monte da casa do Senhor”. Entre os povos do Médio Oriente fala-se em “montanha dos deuses”. A montanha é o lugar do encontro entre o Céu e a terra, um lugar privilegiado para o encontro com Deus. Os que participam da peregrinação desejam encontrar-se com Deus e esperam que Ele “mostre seus caminhos e ensine a cumprir seus preceitos”, porque para os judeus é “de Sião que provém a lei e de Jerusalém, a palavra do Senhor”. Os chefes e juízes de Jerusalém não julgavam com justiça os mais pobres e semeavam a violência na cidade. Mas, tendo o Deus de Israel como juiz, deixando que Ele mostre os seus caminhos ensine a cumprir seus preceitos, haverá paz messiânica entre as nações. Não haverá mais guerra, porque as espadas serão transformadas em arados e as lanças em foices. Os instrumentos de morte se transformarão em instrumentos que promovem a vida. Por fim, o profeta, unindo-se a todos os povos, convoca também a nós: “deixemo-nos guiar pela luz do Senhor”. – Para Isaías, Jerusalém e o templo são a morada de Deus. De lá o Senhor ensinará a todos os povos a seguir o seu caminho, cumprindo seus preceitos. A partir de Jerusalém também Jesus enviará os seus discípulos para anunciar o Evangelho a todos os povos (Lc 24,47; At 1,8; Mt 28,16-20).

 Salmo responsorial: Sl 121

Que alegria, quando me disseram: “Vamos à casa do Senhor”!

  1. Segunda leitura: Rm 13,11-14a

A salvação está mais perto de nós.

Paulo ainda não conhecia pessoalmente a comunidade cristã de Roma. Conheceu a comunidade apenas indiretamente, através do casal Áquila e Priscila, judeus convertidos vindos de Roma. Encontrou o casal em Corinto e como eram também fabricantes de tendas, trabalhava e se hospedava com eles (At 18,1-4). De tanto ouvir falar dos cristãos de Roma, Paulo desejava visitá-los para também ali anunciar o Evangelho (At 19,21-22). Escreve a Carta aos Romanos, a fim de preparar sua visita. No trecho que hoje ouvimos, percebe-se que, para Paulo, o anúncio do Evangelho e a vida cristã são dinâmicos, quando impulsionados pela expectativa do dia da vinda do Senhor. A frase inicial “Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertara salvação está mais perto”, convida a nos situarmos no tempo de Paulo e das comunidades cristãs. A pergunta pelo tempo é também a pergunta pelo hoje de nossas vidas. A esperança da próxima vinda do Senhor, coloca-nos no chão de nossas vidas. No tempo de Paulo, os judeu-cristãos eram perseguidos em Roma e expulsos por decreto do imperador Cláudio, como Áquila e Priscila. E quais são os problemas, as angústias e sofrimentos que afligem nossas vidas e sociedade? Para seu tempo, e para o nosso, Paulo dá algumas orientações: “É hora de despertar… porque a salvação está próxima”. É tempo de Advento, da esperança do Senhor que vem nos salvar. Despir tudo que significa noite ou trevas (pecado, ódio, violência) e vestir-se das armas da luz; isto é, “revestir-se do Senhor Jesus Cristo”. Não basta dizer que os políticos e a sociedade são corruptos, mas é preciso que todos nós mesmos “procedamos honestamente como em pleno dia”.

Aclamação ao Evangelho

Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade

e a vossa salvação no concedei!

  1. Evangelho: Mt 24,37-44

Ficai atentos e preparados!

O tema do Evangelho é a vinda do Filho do Homem e como preparar-se para recebê-lo. A vinda do Filho do Homem é certa, mas a hora é incerta. No versículo anterior ao texto hoje proclamado, o próprio Jesus diz: “Quanto ao dia e à hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho do Homem, mas somente o Pai”. As comparações ilustram como será essa vinda do Filho do Homem e nos convidam à vigilância: Por ocasião do dilúvio, Noé construiu a arca porque foi advertido por Deus. Todos os outros homens apesar dos avisos de Noé continuaram sua vida normal, cheia de violência e maldade. Noé salvou sua família e os animais recolhidos na arca enquanto as outras pessoas pereceram porque não se converteram. E Jesus explica: “Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem (v. 37-39). O exemplo dos lavradores (v. 40) e das donas de casa que trabalham juntas (v. 41), ou do dono da casa que deve estar atento para impedir que o ladrão lhe arrombe a casa (v. 43) ilustram a necessidade de aguardar vigilantes a vinda do Filho do Homem. No evangelho, Jesus fala quatro vezes da vinda do Filho do Homem. Como não sabemos quando o Senhor virá, fiquemos atento e vigilantes, bem preparados para recebê-lo com alegria. Que o Senhor nos encontre ocupados servindo com amor ao próximo.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

"Caminhar na luz do Senhor"

Frei Clarêncio Neotti

O tema da vigilância foi ressaltado por Jesus nos Evangelhos. Não se trata de uma atitude passiva ou de, simplesmente, ficar vendo os fatos acontecerem, como o espectador no cinema. É uma atitude envolvente, dinâmica, de compromisso. A parábola das dez jovens (Mt 25,1-13), que vem logo em seguida, insiste no mesmo tema e mostra onde está o ponto alto: estar presente, quando chega o esposo, e participar do cortejo. A vigilância tem a ver com o dia a dia da vida presente, com as incessantes lutas em prol do bem, e com o momento supremo de nossa passagem desta para a outra vida. A vigilância de hoje pode ser a minha garantia amanhã.

A vigilância tem a ver com a construção do Reino de Deus na terra. Tem a ver com os pecados que devem ser superados e as virtudes que devem ser vividas. Tem a ver com o hoje de Deus que está acontecendo. Tem a ver com a contínua comparação entre os critérios de Deus e os meus critérios, e a prevalência dos critérios divinos dentro da minha história humana.

A vigilância se prende à ideia de estar acordado, atento e pronto para agir, seja para construir uma obra de bem, seja para combater uma obra má. Tem a ver com o esforço pessoal em “caminhar na luz do Senhor”, como nos recorda o profeta Isaías na primeira leitura (ls 2,1-5), ou como lembra São Paulo na segunda leitura (Rm 13,11-14), com a nossa coragem de deixar as obras das trevas e praticar as obras de luz. A vigilância tem a ver com o “pôr em prática” (Mt 12,50; Lc 8,21; Mc 3,35) os ensinamentos de Jesus. A vigilância consiste em trazer para dentro da vida de cada momento as razões e as consequências do Natal de Jesus. Em dois momentos, no ano litúrgico, a Igreja chama especial atenção para o tema da vigilância: no Advento e na Quaresma. Porque, se o Advento prepara a primeira vinda de Jesus, a Quaresma prepara a Páscoa, dia em que ficou confirmada a segunda vinda de Jesus, para nos colher na morte, acolher-nos na sua misericórdia como juiz e nos introduzir na feliz eternidade, onde termina a vigilância, superam-se a fé e a esperança e se passa a viver unicamente do amor: Deus.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Atenção, muita atenção!

Entrando no tempo do desejo

Frei Almir Guimarães

 Vocês não estão ouvindo seus passos silenciosos? Ele está chegando, está chegando, está realmente chegando. A todo  momento, em qualquer tempo, a cada dia e cada noite.  Ele está chegando…
(Tagore)

 Vinde todos da casa de Jacó e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor.
(Isaías 2, 5)

♦ Quatro semanas, vinte e poucos dias nos separam da comemoração do nascimento de Jesus. Os fatos são conhecidos e a fé nos diz que o Deus altíssimo e belo resolveu armar sua tenda entre nós. Somos convidados a fazer brotar em nós o desejo de Deus. Importante que o Natal do Senhor penetre em nossa vida e na vida da Igreja. Não pode ser  uma comemoração rotineira e vazia de seu significado. Fundamental que nos abismemos diante de tão grande maravilha: o Altíssimo se faz presente na fragilidade humana.

♦ Elredo de Rielvaux, monge, afirma: “Determinou a Igreja com sabedoria que no tempo do Advento recitemos as palavras dos que antecederam a primeira vinda do Senhor e revivamos os seus desejos. E não celebramos o seu desejo só por um dia, mas por tempo mais prolongado, pois o objeto de nossos desejos, quando tarda, parece ao chegar, mais doce ao nosso amor”.

Desejo, anelo, esperança e expectativas perpassam a liturgia e devem acompanhar as batidas de nosso coração nessa quadra do ano. Não queremos viver um dezembro nas coisas que se repetem monótona e rotineiramente: compras, bolas coloridas, enfeites, presentes, almoço de Natal, panettone, missa do galo, roupa nova, ‘pisca-pisca chinês’, as mesmas coisas sempre as mesmas coisas. “Então é Natal!”

Alimentar o desejo de Deus. Tudo está feito e pressentimos que tudo precisa ser refeito. Falta plenitude em nossa vida pessoal, tudo está por acabar, há sempre este gosto de insatisfação, do inacabado. Somos convidados a vigiar.  Caminhar serenamente pela vida mas cuidado de ter atenção.  Atenção às visitas inesperadas do Senhor.

Viver despertos:

>> Significa seguir de verdade os passos de Jesus:  seguimento.

>> Não cair no ceticismo e na indiferença diante da marcha do mundo: não se entregar ao pessimismo.

>> Não deixar que nosso coração endureça:  delicadeza interior, sensibilidade.

>> Alimentar a esperança das pessoas desalentadas.

>> Atrever-nos a ser diferentes, sem afetação, crer na força do Evangelho vivido.

>>Não deixar que se apague o nosso desejo de buscar o bem para todos.

>> Viver com paixão a pequena aventura de cada dia.

>> Continuar a fazer pequenos gestos que aparentemente não servem para nada.

♦ Pagola tem palavras contundentes, mas que precisamos ouvir:  “Um dos riscos que ameaçam  nossa fé  é cair numa vida superficial,  mecânica,  rotineira…  Não é fácil escapar. Com o passar dos anos, os projetos, as metas, as ideias de muita gente acabam apagando-se. Não poucos acabam levantando-se cada dia “só para ir levando a vida”.  O apelo de Jesus à vigilância nos chama a despertar da indiferença, da passividade ou do descuido com que vivemos  frequentemente nossa fé. Para vive-la de maneira lúcida precisamos conhece-la mais profundamente, confrontá-la com outras atitudes possíveis perante a vida e procurar vive-las com todas as suas consequências. É muito fácil viver dormindo.  Basta fazer o que todos fazem: imitar, amoldar-nos, ajustar-nos ao que está na moda.  Basta viver buscando segurança externa ou interna.  Basta defender o nosso pequeno bem-estar enquanto a vida vai se apagando em nós” (cf. Pagola, Lucas, p.213-214).

♦ Não é possível que as expressões de nossa fé se resumam ao cumprimento de ritos e à observância de meia dúzia de prescrições. Será preciso dar um espaço dentro de nós para acolhimento do mistério da encarnação.  Precisamos um pouco ou muito de lentidão. José  Tolentino Mendonça fala da urgência da lentidão  que pode se traduzir em atenção  para as visitas do  Senhor: “Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informações que nunca  chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso. Na verdade, a velocidade em que vivemos, impede-nos de viver”. O Natal não pode passar como num galope ruidoso.  Afinal de contas, é a chegada no humano  daquele que os espaços não podem conter.


Texto seleto

Senhor, eis-nos à espera.

No fundo de nossas correrias, no coração desses dias agitados, que nos dividem literalmente ao meio, entre mil pequenas tarefas e mil pequenos pensamentos, há um silêncio que soletra o teu nome.

No fundo nós sabemos que só um Deus pode no salvar.

Pode até ser que no meio de tanto ruído, que te dispensamos.

Pode até ser que não tenhamos a força dos verdadeiros gestos do Natal.

Mas eis-nos à espera,

Acredita que, por vezes,  enquanto trocamos cartões, augúrios, presentes há um momento em que nossas mãos ficam vazias, fixas  no ar, como se rezassem.

É quando te pedimos que faças brilharem nós a estrela luminosa do teu Natal.


Para refletir

Vigiar as visitas do  Senhor com velas acesas:

Deixando que as mensagens dos acontecimentos alegres ou os apertos do coração possam  apontar para insinuações do  Senhor.

Sem nos desesperar com incômodos remorsos, servir-se deles para jogar-se no Senhor.

Saber que ele nos visita numa palavra ouvida ou lida que ressoa fortemente em nosso interior.

Na habitual convivência com a Palavra.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Como despertar?

José Antonio Pagola

Jesus o repetiu constantemente: “Estai sempre despertos”. Ele temia que o fogo inicial apagasse e seus seguidores dormissem. Esse é o nosso grande risco: instalar-nos comodamente em nossas crenças, “acostumar-nos” ao Evangelho e viver adormecidos na observância tranquila de uma religião apagada. Como despertar?

O primeiro a fazer é voltar a Jesus e sintonizar com a experiência primeira que tudo desencadeou. Não basta instalar-nos “corretamente” na tradição. Temos que enraizar nossa fé na pessoa de Jesus, voltar a nascer de seu espírito. Não há nada mais importante que isto na Igreja. Só Jesus pode conduzir-nos de novo ao essencial.

Além disso, precisamos reavivar a experiência de Deus. O essencial do Evangelho não se aprende de fora, mas cada um o descobre em seu interior como Boa Notícia de Deus. Devemos aprender e ensinar caminhos para encontrar-nos com Deus. De pouco adianta desenvolver temas didáticos de religião ou continuar discutindo sobre questões de “moral sexual” se não despertamos em nada o gosto por um Deus amigo, fonte de vida digna e feliz.

Mais ainda. A chave a partir da qual Jesus vivia a Deus e olhava a vida inteira não era o pecado, a moral ou a lei, mas o sofrimento das pessoas. Jesus não só amava os desgraçados, mas nada amava mais ou acima deles. Não estamos seguindo corretamente os passos de Jesus, se vivemos mais preocupados com a religião do que com o sofrimento das pessoas. Nada despertará a Igreja de sua rotina, imobilismo ou mediocridade, se não nos comove mais a fome, a humilhação e o sofrimento das pessoas.

Para Jesus, o importante é sempre a vida digna e feliz das pessoas. Por isso, se nosso “cristianismo” não serve para fazer viver e crescer, não serve para o essencial, por mais nomes piedosos e veneráveis com que o queiramos designar. Não temos que olhar os outros. Cada um de nós deve sacudir-se da indiferença, da rotina e da passividade que nos fazem viver adormecidos.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

A vinda de Cristo

Pe. Johan Konings

Estamos iniciando um novo ano litúrgico, o ano A (do ciclo trienal da liturgia dominical), no qual os evangelhos, via de regra, são tomados de Mateus. As quatro primeiras semanas do ano litúrgico chamam-se Advento, termo que significa ‘vinda’: a vinda de Cristo. Todavia, não se trata da lembrança apagada de um fato ocorrido há dois mil anos atrás. Avinda de Cristo tem atualidade ainda hoje.

A 1ª leitura recua longe para olhar melhor: descreve a visão “utópica” de Isaías, por volta de 700 a.C: todos os povos se unirão em tomo do templo de Jerusalém. As armas serão transformadas em instrumentos agrícolas. Haverá paz…

Setecentos anos depois, a primeira vinda de Cristo marcou o irreversível início da realização desse “projeto” de Deus. Sua nova vinda, no fim dos tempos, marcará o ponto final. O evangelho fixa nossa atenção nesta nova vinda. Não podemos viver dormindo. Devemos viver em estado desperto, à luz do dia de Cristo, para que ele sempre nos possa encontrar dispostos para a vinda de incansável caridade que ele nos ensinou (2ª leitura).

Jesus veio inaugurar o projeto definitivo de Deus para o mundo. Ele será também o juiz da História na sua vinda final. Esse projeto de Deus, que Jesus veio inaugurar e que ele julgará, é comunitário. É a constituição de um povo de Deus, formado por todas as nações, dispostos a praticar a justiça e a caridade fraterna. Para que isso se realize, deve acontecer uma transformação histórica. Nós devemos dar os necessários passos históricos, para que o plano de Deus chegue até nós: preparar, pela transformação de nossos corações e de nossa sociedade, a plenitude que vem de Deus. Nossa participação no projeto de Deus consiste em tornar nossa sociedade “digna” de uma nova vinda de Cristo. Nisto se inserem, além de nosso empenho pessoal, os passos da comunidade para maior solidariedade: mutirões, cooperativismo etc.

O Cristo vem também, cada dia, na vida de cada um. Que ele nos encontre comprometidos com a construção da História como ele a “sonhou” e com os critérios que ele usará para julgar: o amor aos mais pequenos dos irmãos, sustentado pela oração, na qual expomos nossa vida diante dele. Atentos às coisas do Senhor, teremos paz profunda e seremos capazes de dedicação total na alegria, no trabalho e na luta.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella