Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Epifania do Senhor

Epifania do Senhor

Vai buscar quem mora longe

Frei Gustavo Medella

“Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu”. O verso da canção de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho ilustra de forma artística um elemento fundamental da Festa da Epifania: o abraço acolhedor de Deus que se estende a todos, aos de longe e aos de perto, aos de casa e aos de fora. Os magos moravam longe mas, guiados pela estrela, vieram em busca de seus sonhos porque se deixaram buscar pelo mistério de Deus Menino.

A atmosfera da Epifania é verdadeira estrela guia para a missão evangelizadora da Igreja que, por conta do contexto de seu surgimento, desde a manjedoura, passando pela cruz e pelo sepulcro vazio, deve ser missionária, itinerante e dialogal. Aproximar-se de quem mora longe, especialmente nas periferias da dor e do sofrimento, é missão fundamental, é razão de ser da Igreja sem a qual ela corre o risco de perder a força do Espírito que a conduz.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Isaías 60,1-6

1Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. 2Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. 3Os povos caminham à tua luz, e os reis, ao clarão de tua aurora. 4Levanta os olhos ao redor e vê, todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. 5Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; 6será uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor.


Salmo Responsorial: 71(72)

As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!

1. Dai ao rei vossos poderes, Senhor Deus, / vossa justiça ao descendente da realeza! / Com justiça ele governe o vosso povo, / com equidade ele julgue os vossos pobres. – R.

2. Nos seus dias, a justiça florirá / e grande paz, até que a lua perca o brilho! / De mar a mar estenderá o seu domínio, / e desde o rio até os confins de toda a terra! – R.

3. Os reis de Társis e das ilhas hão de vir / e oferecer-lhe seus presentes e seus dons; / e também os reis de Seba e de Sabá / hão de trazer-lhe oferendas e tributos. / Os reis de toda a terra hão de adorá-lo, / e todas as nações hão de servi-lo. – R.

4. Libertará o indigente que suplica / e o pobre ao qual ninguém quer ajudar. / Terá pena do indigente e do infeliz, / e a vida dos humildes salvará. – R.


Segunda Leitura: Efésios 3,2-3.5-6

2Irmãos, se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito 3e como, por revelação, tive conhecimento do mistério. 5Esse mistério, Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho.


Jesus, perigo ou salvação?

Evangelho: Mt 2, 1-12

* 1 Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, 2 e perguntaram: «Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para prestar-lhe homenagem.»

3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém. 4 Herodes reuniu todos os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei, e lhes perguntou onde o Messias deveria nascer. 5 Eles responderam: «Em Belém, na Judéia, porque assim está escrito por meio do profeta: 6 ‘E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades de Judá, porque de você sairá um Chefe, que vai apascentar Israel, meu povo.’ « 7 Então Herodes chamou secretamente os magos, e investigou junto a eles sobre o tempo exato em que a estrela havia aparecido. 8 Depois, mandou-os a Belém, dizendo: «Vão, e procurem obter informações exatas sobre o menino. E me avisem quando o encontrarem, para que também eu vá prestar-lhe homenagem.»

9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que parou sobre o lugar onde estava o menino. 10 Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de alegria.

11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e lhe prestaram homenagem. Depois, abriram seus cofres, e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra. 12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, partiram para a região deles, seguindo por outro caminho.

* 2,1-12: Jesus é o Rei Salvador prometido pelas Escrituras. Sua vinda, porém, desperta reações diferentes. Aqueles que conhecem as Escrituras, em vez de se alegrarem com a realização das promessas, ficam alarmados, vendo em Jesus uma séria ameaça para o seu próprio modo de viver. Outros, apenas guiados por um sinal, procuram Jesus e o acolhem como Rei Salvador. Não basta saber quem é o Messias; é preciso seguir os sinais da história que nos encaminham para reconhecê-lo e aceitá-lo. A cena mostra o destino de Jesus: rejeitado e morto pelas autoridades do seu próprio povo, é aceito pelos pagãos.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Epifania do Senhor

 Oração: “Ó Deus, que hoje revelastes o vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela, concedei aos vossos servos e servas que já vos conhecem pela fé, contemplar-vos um dia face a face no céu”.

  1. Primeira leitura: Is 60,1-6

Apareceu sobre ti a glória do Senhor.

Em 597 a.C., Nabucodonosor conquistou Jerusalém e levou a elite governante de Judá, inclusive o sacerdote Ezequiel. Em uma de suas visões na Babilônia o profeta vê a glória do Senhor abandonando o templo de Jerusalém, que seria logo destruído (587 a.C.), e dirigindo-se à planície onde os exilados estavam morando. Deus dispensava o Templo, mas queria estar com o seu povo no exílio. Ezequiel também promete que um dia os exilados seriam levados de volta a Jerusalém e haveriam de reconstruir o Templo e a glória do Senhor voltaria com todo seu esplendor ao novo santuário. No texto da primeira leitura, um discípulo do profeta Isaías retoma as promessas de seu mestre Isaías (Is 9,1-6), convoca os exilados a voltarem a Jerusalém para reconstruir suas casas e o Templo. Com maestria, usa de uma linguagem poética envolvente. Vê a luz da glória do Senhor brilhando sobre Jerusalém, as luzes das lamparinas acesas, sinais de vida nas casas novamente habitadas. Jerusalém brilhante como um facho luminoso, atrai não só seus filhos e filhas dispersos pelos diversos países, mas também os povos pagãos, ainda envoltos na escuridão. Se no passado Jerusalém foi saqueada pelos dominadores. Agora são camelos e dromedários que trazem gente de todos os povos, com suas riquezas e incenso, para proclamar a glória do Senhor. Mateus vê a realização desta profecia quando Jesus inicia a pregação do Reino de Deus, na “Galileia dos pagãos” (4,13-17). Guiados pela estrela, os magos levam seus presentes a Belém para adorar o menino Jesus (Evangelho).

  1. Segunda leitura: Ef 3,2-3a. 5-6

  Agora foi-nos revelado

que os pagãos são co-herdeiros das promessas.

Paulo escreve à comunidade de Éfeso, onde a maioria dos cristãos era de origem pagã. Com alegria recorda a graça que Deus lhe concedeu de ter realizado o plano divino de trazê-los à fé cristã. O Evangelho que Paulo prega faz parte do plano de Deus a respeito dos efésios; é um mistério escondido no passado no coração de Deus e agora revelado: Não só os judeus são destinatários da salvação trazida por Jesus Cristo, mas também todos os pagãos. Pelo seu Espírito Deus revelou este mistério: Pela fé, a salvação trazida por Cristo une a todos numa só família, tanto judeus como pagãos, (1ª leitura e Evangelho).

  1. Evangelho: Mt 2,1-12

Viemos do Oriente adorar o Rei.

Os magos vêm do Oriente até Jerusalém porque viram um sinal especial no céu. Segundo uma profecia do profeta chamado Balaão, no futuro haveria de aparecer uma estrela no céu sobre Israel. Seria o sinal de que nasceu um rei em Judá, o Salvador de seu povo (Nm 24,17). Os magos conheciam a profecia de Balaão, um profeta pagão. Quando viram a estrela no céu, acreditaram ser o sinal que indicava o nascimento do rei salvador, esperado pelos judeus. É no Oriente que nasce o “astro Rei”, o Sol. Os magos, porém, seguem uma insignificante estrela, que os guia em direção ao Ocidente. Ao chegar a Jerusalém, a estrela some. Dirigem-se então ao palácio do rei e perguntam pelo rei dos judeus que acabara de nascer. Herodes fica alarmado, com medo de perder o trono, e toda Jerusalém treme porque conhece a crueldade do rei. Herodes consulta os entendidos nas Escrituras antes de responder aos magos. Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei respondem, citando o profeta Miqueias, que o rei esperado deveria nascer em Belém. Os doutores sabem ler interpretar as Escrituras, mas não acreditam. Herodes finge interesse em conhecer o menino, mas com a intenção de eliminar um possível concorrente ao trono. Só os magos, pagãos, acreditam na profecia bíblica de Balaão e nas palavras do profeta Miqueias. A fé dos magos, iluminada pelas Escrituras, faz reaparecer a estrela que os guia até a casa onde “viram o menino com Maria, sua mãe”. Prostraram-se em adoração diante do menino e ofereceram-lhe como presentes ouro, incenso e mirra; ouro, porque o menino é rei; incenso, porque é Deus, e mirra porque é homem, haveria de morrer por nós na cruz e seria embalsamado com mirra e aloés (Jo 19,39).

Enquanto os magos, guiados pela sua fé nas Escrituras dos judeus, com alegria vão ao encontro do Salvador, os chefes religiosos dos judeus o ignoram e Herodes vê no menino-rei uma ameaça para seu trono e procura eliminá-lo. Em Belém a alegria, em Jerusalém a tristeza e o temor.

Mateus escreve para uma comunidade mista, composta de judeus e de pagãos convertidos. Alegra-se com os pagãos porque acolhem o Evangelho com alegria, mas sente um profundo pesar pelos seus irmãos judeus, que o rejeitam. Mais tarde, admirado com a fé do oficial romano, Jesus dirá: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó” (Mt 8,11).

Qual é a estrela que nos guia ao encontro de Cristo Jesus? Há dois modos de nos aproximarmos de Deus: Pelos sinais da natureza e pelos Livros Sagrados. Santo Agostinho fala de dois livros escritos por Deus: um é a criação e outro, a Bíblia Sagrada. A estrela de Belém é o próprio Cristo Jesus. Ele “é a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todas as pessoas” (Jo 1,9). Deixemo-nos iluminar e guiar pela Verdadeira Luz.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

O universo inteiro aos pés de Jesus

Frei Clarêncio Neotti

Houve cientistas que saíram à procura da estrela que orientou os magos. Fizeram cálculos para mostrar o aparecimento no céu, de determinado cometa nessa época. Não há necessidade. Assim como os magos simbolizam a humanidade toda, a estrela simboliza o firmamento que desce das alturas para reverenciar seu Criador, agora na gruta de Belém. Trata-se de linguagem poética, facilmente compreensível. Afinal, Jesus não veio apenas salvar o homem, mas redimir a natureza inteira, incluídos os animais e os astros. Além do mais, esse texto foi escrito por Mateus, que procura mostrar a realização das profecias. E há uma no livro dos Números (24,17) que diz assim: “Eis que vejo, mas não agora, percebo-o, mas não de perto: de Jacó desponta uma estrela, de Israel se ergue um cetro”.

A ideia de os animais (representados pelo boi [vaca] e pelo burro), os astros (a estrela caminhante), as pedras (a gruta), as plantas (o feno) e, sobretudo, os homens de todas as raças e de todas as classes sociais (os pastores são os pobres e marginalizados; os reis magos, a classe alta) se achegarem ao Menino para adorá-Lo é um quadro lindo e necessário: o universo, criado por amor; inclina-se humilde e reverente diante do Criador que, por amor, fez-se criatura semelhante a todas as criaturas, sem deixar sua condição divina. Santo Agostinho viu nos pastores os homens de perto e nos magos viu os homens de longe: o perto e o longe se encontram hoje aos pés de Jesus, porque, a partir de agora, não existem distâncias possíveis para separar Deus e a humanidade, o Criador e as criaturas. E muito menos razão de separação entre os homens. “Todos são membros de um mesmo corpo, coparticipantes em Cristo Jesus” (Ef 3,6), como lemos na segunda leitura. É o mesmo São Paulo a nos lembrar (Ef l,lO) que esse Menino, deitado na manjedoura, “é a cabeça de todas as criaturas, tanto as que estão no céu quanto as que estão na terra”, por isso descem as estrelas, movimentam-se as criaturas racionais e irracionais e se encontram na gruta de Belém, para reconhecer o Senhor. A primeira leitura (Is 60,1-6) parece até a crônica desse encontro, em que as trevas e a luz se abraçam para desenhar a aurora da missão salvadora de Jesus e tudo e todos “proclamam as obras do Senhor”.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Dos que anseiam encontrar a Casa de Deus

Uma criança envolta em panos

 

Frei Almir Guimarães

Com frequência nossa vida transcorre na crosta da existência. Trabalhos, contatos, problemas, encontros, ocupações diversas nos levam para cá e para lá; e nossa vida vai passando, enchendo cada instante com algo que precisamos fazer, dizer, ver ou planejar. Corremos assim o risco de perder nossa identidade, de transformarmo-nos numa coisa a mais entre outras e de viver em que direção caminhar. Existe uma luz capaz de orientar nossa existência? Existe uma respostas aos nossos anseios e aspirações mais profundas? A partir da fé cristã esta, essa resposta existe. Essa luz já brilha na criança de Belém
José Antonio Pagola

♦ Diversos personagens que fazem parte do presépio do Menino Jesus. Apenas Mateus faz alusão à visita de Magos vindo do Oriente. Antes tinham acorrido ao presépio pastores curiosos e simples. Agora três ilustres cavalheiros. Peregrinos de Deus. Gente de outros cantos da terra e do mundo. Símbolos de todos os buscadores de Deus. Chegam, parlamentam, conversam com uns e outros a respeito do nascimento do Menino. Trazem presentes. Gente de coração generoso e reto. Falam de um estrela que havia aparecido no céu de suas vidas e no firmamento de seu país. Obstinadamente venceram obstáculos. O amor de Deus, assim, se manifesta a todas as nações da terra. É nossa história, o relato da nossa aventura humana que aí é retratado.

♦ Buscadores de Deus! Que bom se esta aventura fosse verdadeira para nós em nossos tempos, que não cessamos nossa busca. Muitos de nós nascemos no seio de famílias cristãs e fomos sendo envolvidos por ritos e símbolos. Passamos a viver uma “religião” com rezas e sacramentos. Alguns tivemos a chance de viver numa família esclarecida e num ambiente em que o Evangelho era levado em conta. Outros foram separando vida da fé e fé da vida. Foram perdendo o fogo da busca de Deus, o fogo do Evangelho. Deus não pode ser um acessório, um “à coté”, ao lado daquilo que chamamos de vida. O que conta não é a vida?

♦ Há aqueles que, interpelados pelo maravilhoso, pelo inesperado ou pelo trágico da vida sentiram brilhar uma estrela, o frágil cintilar de uma estrela: o nascimento de um filho, uma turbulência familiar, a ameaça de um fracasso no casamento, uma derrocada financeira, o inferno das drogas, a visita de uma pessoa que mais parecia um anjo caído do céu.

♦ Há os que reencontram ou reencontraram a fé frequentando as páginas dos evangelhos e tentando descobrir o Deus de Jesus Cristo nas parábolas, nos ditos do Mestre, na esperança que se se podia perceber em sua fala. São pessoas que, aos poucos, vão dando suas a Levi e Zaqueu e hospedam o Senhor em sua intimidade. Umas vão se identificando com o filho pródigo e sentem o abraço do Pai das misericórdias. Trazem para ao presépio o tesouro de suas vidas.

♦ Muitos descobrem a Deus na dedicação aos outros. Sentem-se felizes quando podem ser para e sendo para… compreendem que Deus é ser para… Lembram-se das lições do catecismo onde haviam aprendido que quando damos um copo de água fria ao menor dos nossos irmão é a Jesus que o ofertamos.

♦ Deus vem no visitar e chega na simplicidade de um nascimento e termina seus dias no alto de uma cruz, completamente injustiçado, privado até de suas vestes. Um Deus que não mora nas alturas, mas chega perto de cada um de nós. O Menino deitado nas palhas, no despojamento total, carente de nossa atenção, é a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo. Veio para todos o orbe. Fora dele não há claridade. Através dos tempos fomos vendo a procissão de peregrinos iluminados pela luz da estrela da fé. Os Magos representam os homens e as mulheres que carregam questionamentos e interrogações, que não estão satisfeitos com a vida pela metade, que buscam um sentido mais pleno para os dias que vivem.


Textos para reflexão

Os magos, da cidade real, onde julgavam dever encontrar o rei, dirigem-se à pequena cidade de Belém. Entram no estábulo e encontram um recém-nascido envolto em panos. Não se aborrecem com o estábulo, não se chocam com os panos, nem se escandalizam com o menino amamentado: prostram-se, veneram-no como rei, adoram-no como Deus. Quem os conduziu, também os instruiu, e quem os avisou exteriormente pela estrela, também os alertou no segredo do coração. Assim esta manifestação do Senhor tornou glorioso este dia e a piedosa veneração dos magos o fez venerável.

Dos sermões de São Bernardo, abade

♦Hoje os magos que procuravam o Senhor resplandecente nas estrelas, o encontram num berço. Hoje, os magos veem claramente envolvido em panos aquele que há muito tempo buscavam de modo o obscuro nos astros. Hoje os magos contemplam maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e incluído no corpo pequenino de uma criança, aquele que o universo não pode conter. Vendo-o proclamam sua fé e não discutem oferecendo-lhe místicos presentes, incenso a Deus, ouro ao rei e mirra ao que havia de morrer.
São Pedro Crisólogo


Oração

Estás perto,
estás sempre,
estás esperando
e eu não me detenho.
Respeitas minha liberdade,
caminhas junto a mim,
sustentas minha vida
e eu não te tomo conhecimento.
Tu me ajudas a conhecer-me,
me faz como a um filho,
me chamas a ser eu mesmo
e eu não te presto atenção.
Tu me amas com ternura,
queres o melhor para mim,
me ofereces tudo o que é teu
e eu não te agradeço.
F.Ulíbarri


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Nossa incapacidade para adorar

José Antonio Pagola

O ser humano atual ficou em grande parte atrofiado para descobrir a Deus. Não que ele seja ateu. É que ele se tornou “incapaz de Deus”. Quando um homem ou uma mulher só busca o amor sob formas decadentes, quando sua vida é movida exclusivamente por interesses egoístas de lucro e ganho, algo seca em seu coração.

Muitos vivem hoje um modo de vida que os oprime e empobrece. Envelhecidos prematuramente, endurecidos por dentro, sem capacidade de abrir-se a Deus por nenhum resquício de sua existência, caminham pela vida sem a companhia interior de ninguém.

O teólogo Alfred Delp, executado pelos nazistas, via neste “endurecimento interior” o maior perigo para o ser humano moderno: “Assim o homem deixa de alçar até as estrelas as mãos de seu ser. A incapacidade do ser humano atual de adorar, de amar e de venerar tem sua causa em sua excessiva ambição e no endurecimento de sua existência”.

Esta incapacidade de adorar a Deus apoderou-se também de muitos crentes que só buscam um “Deus útil”. Só lhes interessa um Deus que sirva para seus projetos individualistas. Assim Deus se converte em um “artigo de consumo” do qual se dispõe segundo nossas conveniências e interesses. Mas Deus não é isso. Deus é Amor infinito, encarnado em nossa própria vida. E, diante desse Deus, só nos cabe a adoração, o júbilo, a ação de graças.

Quando se esquece isto, o cristianismo corre o perigo de converter-se num esforço gigantesco de humanização, e a Igreja numa instituição sempre tensa, sempre oprimida, sempre com a sensação de não conseguir o êxito moral pelo qual luta e se esforça.

Mas a fé cristã é, antes de tudo, descobrir a bondade de Deus, experiência agradecida de que só Ele salva: o gesto dos magos diante do Menino de Belém expressa a atitude primordial de todo crente diante de Deus feito homem. Deus existe. Está aí, no fundo de nossa vida. Somos acolhidos por Ele. Não estamos perdidos no meio do universo. Podemos viver com confiança. Diante de um Deus, do qual só sabemos que Ele é Amor, não cabe senão a alegria, a adoração e a ação de graças. Por isso, “quando um cristão pensa que já nem sequer é capaz de orar, deveria pelo menos ter alegria” (Ladislao Boros).


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Adorar Deus no Menino Jesus

Pe. Johan Konings

Quando celebramos, no dia 6 de janeiro ou no domingo seguinte, a festa dos Reis Magos, as ocupações do turismo impedem muitos de contemplar o sentido desta festa. Mesmo assim, vale a pena dedicar-lhe nossa atenção, pois não é uma festa meramente folclórica.

O nome oficial da festa dos Reis Magos, “Epifania”, significa manifestação ou revelação. Contemplamos o paradoxo da grandeza divina e da fragilidade da criança no menino Jesus. Pensamos nos milhões de crianças abandonadas nas ruas de nossas cidades, destinadas à droga, à prostituição. Outras milhões mortais pela fome, doença, guerra,
aborto. Órgãos extraídos, fetos usados para produzir células que devem rejuvenecer velhos ricaços… Qual é o valor de uma criança?

Os “magos” – astrólogos vindos do Oriente – seguiram o caminho da estrela para adorar um menino do qual não sabiam nome nem paradeiro (evangelho). Como os reis anunciados pelo “terceiro Isaías” (1ª leitura), trazem de longe suas riquezas, para apresenta-las ao menino Jesus. Essa narração quer nos ensinar que Jesus é aquele que merece adoração universal, o Messias. E acena também à missão da Igreja, de anunciar a salvação universal (2ª leitura).

A estrela conduziu os magos a uma criança pobre, que não tinha nada de sensacional. Mas o rei Herodes, cioso de seu poder, pensou que Jesus fosse poderoso e, portanto, perigoso. Esse rei, que tinha mandado matar seus próprios filhos e sua mulher Mariamne, mandou, para que Jesus não lhe escapasse, matar todos os meninos de Belém.

Deus se manifesta ao mundo numa criança, e nós somos capazes de mata-la, em vez de reconhecer nela a luz de Deus. Por que Deus se manifestou numa criança? Esquisitice, para nos enganar? Nada disso. Salvação significa ser libertado dos poderes tirânicos que nos escravizam, para realizar a liberdade que nos permite amar. Pois para amar é preciso ser livre, agir de graça, não por obrigação nem por cálculo. Por isso, a salvação que vem de Deus não se apresenta como poder opressor, como o de Herodes. Apresenta-se como antipoder, como uma criança aparentemente sem valor.

Aqui, no início do evangelho de Mateus, a salvação universal manifesta-se numa criança; no fim dos ensinamentos de Jesus, o critério do juízo final será a caridade gratuita realizado ao pequenino (Mt 25, 31-46). O pequenino de Belém é venerado como rei, e no fim do evangelho, esse “rei” (25,34) julgará o universo, identificando-o com os mais pequeninos: “O que fizestes a um desses mais pequenos, que são meus irmãos, a mim o fizestes” (25,40). Quanta lógica em tudo isso!

Deus não precisa de nos esmagar com seu poder para se manifestar. Nem precisa do palco de uma TV mundial para se dar a conhecer. Para ser universal, prefere o pequeno, pois só quem vai até os pequenos e os últimos é realmente universal. Falta-nos a capacidade de reconhecer no frágil, naquele que o mundo procura excluir, o absoluto de nossa vida – Deus. Eis a lição que os reis magos nos ensinam.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella