Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

5º Domingo do Tempo Comum

5º Domingo do Tempo Comum

O sucesso de poucos é fracasso de todos

 

Frei Gustavo Medella

Seguir o caminho da justiça e deixar um rastro de glória. Este é o programa de vida proposto pelo Profeta Isaías na Primeira Leitura deste 5º Domingo do Tempo Comum. É um itinerário desafiante, mas realizador, segundo a promessa que o próprio Deus apresenta pela boca do Profeta (Cf. Is 58,9-10). Não se trata de um caminho abstrato, mas que se percorre na concretude do dia a dia, nas pequenas e grandes ações: repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos e vestir os nus. São orientações preciosas e, à medida que ganham corpo, tornam-se capazes de gerar vida, de promover a humanidade, de instaurar o Reino de Deus.

Representam metas das quais o cristão não pode abrir mão, sem as quais a Igreja se afasta de Cristo e perde a razão de existir e que não poderiam estar fora do horizonte das políticas de um governo que se elege com o slogan “Deus acima de todos”. Na compreensão cristã, o modo de Deus se colocar acima é inclinando-se para lavar os pés e curar as feridas do que estão nas posições mais inferiores. Qualquer opção que saia deste trilho torna-se falaciosa e inoperante de acordo com os critérios do Evangelho.

Nem sempre são opções fáceis, é verdade. Com frequência são até contraditórias diante dos ideais de sucesso apresentados por um modelo de sociedade que privilegia a competição, o acúmulo e o individualismo. De acordo com a Palavra de Deus, sucesso de verdade é vida plena e feliz para todos, sem exceção. Sucesso para poucos, na lógica do Reino, é fracasso para todos.

Compreender e colocar esta mensagem em prática certamente não tornará a pessoa rica ou poderosa, mas, conforme a garantia da própria Palavra de Deus, é meio seguro para o ser humano tornar-se eterno, não por seus méritos, mas pela graça de Deus, não pelo patrimônio que construiu, mas pelo bem que foi capaz de realizar, conforme atesta o refrão do Salmo 111: “Uma luz brilha nas trevas para o justo, permanece para sempre o bem que fez”.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Isaías 58,7-10

Assim diz o Senhor: 7“Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o e não desprezes a tua carne. 8Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. 9Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro e ele dirá: “Eis-me aqui”. Se destruíres teus instrumentos de opressão e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; 10se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia”.


Salmo Responsorial: 111(112)

Uma luz brilha nas trevas para o justo, / permanece para sempre o bem que fez.

1. Ele é correto, generoso e compassivo, / como luz brilha nas trevas para os justos. / Feliz o homem caridoso e prestativo, / que resolve seus negócios com justiça. – R.
2. Porque jamais vacilará o homem reto, / sua lembrança permanece eternamente! / Ele não teme receber notícias más: / confiando em Deus, seu coração está seguro. – R.
3. Seu coração está tranquilo e nada teme. / Ele reparte com os pobres os seus bens, / permanece para sempre o bem que fez / e crescerão a sua glória e seu poder. – R.


Segunda Leitura: 1 Coríntios 2,1-5

1Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. 2Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado. 3Aliás, eu estive junto de vós com fraqueza e receio, e muito tremor. 4Também a minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, 5para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens.


A força do testemunho
Evangelho: Mt 5, 13-16

* 13 «Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal perde o gosto, com que poderemos salgá-lo? Não serve para mais nada; serve só para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. 14 Vocês são a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. 15 Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, e sim para colocá-la no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. 16 Assim também: que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e louvem o Pai de vocês que está no céu.»

* 13-16: Os discípulos de Jesus devem estar conscientes de que se acham unidos com todos aqueles que anseiam por um mundo novo. Eles não podem se subtrair a essa missão, mas precisam dar testemunho através de suas obras. Não se comprometer com isso é deixar de ser discípulo do Reino. Através do testemunho visível dos discípulos é que os homens podem descobrir a presença e a ação do Deus invisível.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

5º Domingo do Tempo Comum, ano A2020

Oração: “Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sobre a vossa proteção”.

  1. Primeira leitura: Is 58,7-10

A tua luz brilhará como a aurora.

O texto hoje lido é de um discípulo do grande profeta Isaías, que atuou em Jerusalém pelo final do séc. VI a.C. Antes dele, em meados do mesmo século, outro discípulo de Isaías havia profetizado entre os exilados da Babilônia, animando-os com grandes promessas a voltarem para Jerusalém (Is 40–55). Uma significativa leva de judeus exilados voltaram à Cidade Santa em ruínas. Mas as promessas do profeta da Babilônia não se cumpriam, os conflitos com os que ocuparam as terras deixadas pelos deportados, provocavam reclamações e desânimo entre os retornados. O povo se perguntava por que as coisas andavam mal. Consideravam-se piedosos e fiéis a Deus e até jejuavam, mas não eram atendidos. É neste contexto que o autor da terceira parte do livro de Isaías (Is 56–66) entra em ação. Denuncia os pecados das elites de então. Oprimiam os trabalhadores e brigavam entre si enquanto jejuavam, como poderiam “chamar isso de jejum agradável ao Senhor” (58,1-6)? Não respeitavam o direito e a justiça nem atendiam a causa dos pobres; enquanto alguns enriqueciam outros caíam na miséria. E aponta a solução: o amor solidário com os pobres. Em vez de reclamar contra Deus lhes parecia distante deviam repartir o pão com os necessitados, acolher em casa os pobres e peregrinos e vestir os que estavam nus. Aproximar-se dos pobres e marginalizados é estar mais próximos de Deus e Ele atenderá nossas súplicas. Deus será mais glorificado quando abandonamos o autoritarismo e a discriminação, e controlamos “a língua maldosa”. Então, sim, nosso modo de viver terá o brilho da aurora e iluminará as trevas em que muitas pessoas se encontram (Evangelho).

Salmo responsorial: Sl 111

      Uma luz brilha nas trevas para o justo,

            permanece para sempre o bem que fez.

  1. Segunda leitura: 1Cor 2,1-5

Anunciei entre vós o mistério de Cristo crucificado.

O apóstolo Paulo chegou à cidade de Corinto durante a segunda viagem apostólica. Antes tinha passado por Atenas, onde sua pregação não teve sucesso. Ao contrário, ao falar sobre a ressurreição de Cristo aos atenienses Paulo foi ridicularizado pelos filósofos (At 17,16-34). Talvez por isso apresentou-se em Corinto “com temor e tremor”. Não se apoiou em discursos de sabedoria humana, como tinha feito em Atenas (cf. At 17,16-31), mas baseou sua mensagem na manifestação do Espirito e no poder de Deus (1Cor 2,1-5). O Evangelho de Paulo é o anúncio do mistério de Cristo crucificado.

No texto hoje lido, o Apóstolo retoma o tema tratado no 4º Domingo, isto é, Deus escolhe o que é fraco, humilde e desprezível. Depois da experiência malograda em Atenas, Paulo chega a Corinto não com o prestígio da sabedoria humana e, sim, para levar a mensagem de Cristo crucificado. Não foram argumentos da razão humana que converteram os coríntios a Cristo. Antes, foi o poder do Espírito Santo que os trouxe à fé cristã. “A fé se baseia no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens”. Paulo foi apenas um instrumento para que se manifestasse a ação do Espírito Santo na comunidade cristã.

Aclamação ao Evangelho

Pois eu sou a luz do mundo, quem nos diz é o Senhor;

            e vai ter a luz da vida, quem se faz meu seguidor.

  1. Evangelho: Mt 5,13-16

Vós sois a luz do mundo.

O evangelho de hoje é a continuação das bem-aventuranças (5º domingo). A última bem-aventurança dizia: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (de Deus). Se Jesus foi perseguido por anunciar e viver o Reino de Deus é normal que os cristãos que o vivem sejam também perseguidos. Se o mestre foi perseguido e caluniado não é de estranhar que os discípulos também o sejam (Mt 10,17-25). Perseguidos ou não, os discípulos são chamados a serem a luz do mundo e o sal da terra. Anunciar e viver o Reino de Deus neste mundo, envolto em trevas (Mt 4,12-17), resulta num inevitável confronto com as forças do mal (Mt 12,24).

O texto apresenta três pequenas parábolas desenvolvidas sobre três palavras: sal, luz e cidade. Sem sal a comida se torna insípida, e sal estragado se joga fora. Os cristãos podem ser poucos e escondidos, como o sal na massa, mas sem eles o mundo seria pior. Eles são também luz e a luz não pode ser escondida, senão perde a função de iluminar. Da mesma forma a cidade no alto de um monte sempre será visível para os passantes ou aos que se achegam a ela. Essa terceira comparação diz respeito à comunidade cristã. Ela deve dar testemunho da Luz, que o Cristo Senhor. Os primeiros cristãos pregavam o evangelho, louvavam a Deus e davam testemunho de Cristo; gozavam da simpatia do povo e crescia o número de conversões (At 2,42-47).

Hoje muitos cobram coerência entre o que pregamos sobre Jesus Cristo e como vivemos nossa fé. São as boas obras que dão credibilidade à fé que professamos. Vendo as vossas boas obras hão de glorificar “o vosso Pai que está nos céus”. O Papa Francisco quer dizer quando fala da Igreja em saída. Se a Igreja não sair de seu comodismo, se continuar escondendo os tesouros da fé, como poderá ser a luz do mundo? À medida em que nos abrirmos para os anseios e angústias de nosso tempo, nossa pregação ganhará maior credibilidade.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

O retrato bem-feito da pessoa feliz

Frei Clarêncio Neotti

Compreenderemos melhor esse Evangelho, se nos lembrarmos de que imediatamente antes vêm as Bem-aventuranças. Por meio de três imagens, Jesus mostra as consequências do bem-aventurado, que, exatamente por sê-lo, é perseguido e provado. Podemos dizer que as bem-aventuranças são a estrada a caminhar, ou o campo a cultivar. O ser sal, luz, sinal- as três imagens do Evangelho de hoje – é a consequência, quase diria que é a colheita, de quem plantou no campo das Bem-aventuranças.

As três imagens são ricas de sentido, sobrepõem-se, completam-se, exigem-se. Não são símbolos novos ou estranhos. O sal era usado no culto (Lv 2,13). O Levítico fala em ‘sal da aliança’, por isso se dizia ‘comer sal com alguém’ para dizer que se fez com ele um pacto. A criança, ao nascer, era lavada em sal, não por razões higiênicas, mas por razões religiosas (Ez 16,4), para simbolizar que o recém-nascido estava pronto para ser uma oferta ao Senhor. A luz perpassa a Sagrada Escritura como ‘vestimenta de Deus’ e era símbolo da presença do Senhor. Morar na cidade construída sobre a colina (Jerusalém) era o sonho de todos. Com as três imagens, Jesus pinta o retrato da pessoa “perfeita como o Pai do Céu” (Mt 5,48), da criatura realizada, perfeita tal como Cristo a descreve e a quer ao longo de todo o Evangelho, ou seja, o retrato completo do cidadão do Reino dos Céus.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

O sal precisa salgar e a luz iluminar, mas para valer

Frei Almir Guimarães

Sois capazes de rejuvenescer o mundo, sim ou não? O evangelho é sempre jovem. Vós é que estais velhos.
George Bernanos

♦ Evangelho, palavra mágica, boa nova da parte do Senhor, força e dinamismo que dá orientação para nossa vida. Neste ano de 2020 estamos lendo o relato do evangelista Mateus e, nesse momento, situamo-nos no Sermão da Montanha, carta magna de nossa vida cristã. Através dos capítulos 5-7 podemos forjar nossa identidade cristã. Trabalho lento e exigente que nos livra de viver uma fé sem fôlego e sem densidade. Não podemos nos acostumar com as coisas. Precisamos sempre permanecer despertos e atentos aos apelos do Senhor que nos chegam.

♦ “Se destruíres os teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio dia” ( Is 58.9-10). Esse dito de Isaías aponta para força, vigor, tenacidade de viver.

♦ Estamos, como já dissemos, sempre modelando nossa identidade cristã. Queremos, antes de mais nada, ser gente, gente que gosta das pessoas, gente que se faz presente na vida dos que vivem à nossa volta. Queremos ser bons para com eles. São nossos companheiros de caminhada. Queremos bem a eles e gostaríamos de contribuir para sua plena realização. Duas imagens do Sermão da Montanha chegam até nós hoje: os discípulos são sal da terra e luz do mundo.

♦ Sal, um nadinha, uma pitada de sal que dá gosto à comida. Sem sal comida alguma tem sabor. Sal tem a ver com intensidade de sabor, de coisas e de vidas cheias de gosto. Os cristãos precisam mostrar que gostam de viver, que saboreiam a vida e todas as suas manifestações. Gostam das pessoas, saboreiam o estar com os amigos, a convivência familiar. Gostam de sentir o sabor da mensagem de Cristo que nos leva ao perdão. Não são apáticos, rotineiros. Assim como apreciam um naco de pizza aos quatro queijos, conservam no canto dos lábios o sabor dos encontros e reencontros, da alegria de copo de água fresca, o delicioso degustar de um abraço de alguém que volta a nos olhar nos olhos.

♦ Temos que ter sal em nós mesmos. “O sabor não é um coisa que possuímos exteriormente; é, como em todas as experiências que requerem uma arte de ser, um coisa em que nos tornamos. A expectativa de Jesus é que ele possa inspirar vidas saborosas, distante do caldo insosso daquilo que até sendo, nunca foi, nunca chegou a ser. Jesus não semeia uma neutralidade: semeia, antes, o gosto e o risco de viver. Não podemos, por isso, condescender com as nossas deserções, fugas para longe do sabor (José Tolentino Mendonça).

♦ Os esposos transmitem uns aos outros o gosto da vida em comum, os sacerdotes, para além dos cuidados rituais, exalam o perfume de pessoas que estão de bem com a vida. Os que trabalhamos tentamos colocar gosto no que fazemos. Vós sois o sal da terra.

♦ Paralelamente se fala da luz, da claridade. Os cristãos são luz do mundo. Irradiam claridade. Apresentam-se com um jato luminoso de quem é invadido pela claridade de Jesus que é a luz do mundo. Faz parte de nossa identidade cristã esse iluminar o mundo. Sempre a partir da vida, de posturas existenciais e não de discursos enfeitados e que não depreendem claridade. Brilhando diante dos homens somos convite vivo a que as pessoas se deixem iluminar e saiam das trevas.

♦ Somos capazes de rejuvenescer o mundo? Ou ficamos velhos? O Evangelho é sempre jovem..


Textos tonificantes

 

♦ O ideal não é contar com homens e mulheres bem formados doutrinalmente, mas com testemunhas vivas do Evangelho, crentes em cuja vida se possa ver a força humanizadora e salvadora que se encerra no Evangelho, quando acolhido com convicção e de maneira responsável.

Nós cristãos confundimos muitas vezes a evangelização com o desejo que se aceite socialmente “nosso cristianismo”. As palavras de Jesus chamando-nos a ser “sal da terra” e “luz do mundo” nos obrigam a fazer-nos perguntas muito sérias como as que seguem: Será que nós cristãos somos uma boa notícia para alguém? O que se vive em nossas comunidades cristãs, o que se observa entre os crentes, é boa notícia para as pessoas de hoje?

Será que nós cristãos colocamos na atual sociedade algo que dê sabor à vida, algo que purifique, cure e liberte da decomposição espiritual e do egoísmo brutal e insolidário? Vivemos algo que possa iluminar as pessoas nestes tempos de incertezas, oferecendo uma esperança e um horizonte novo aos que buscam a salvação?
Pagola, Mateus, p. 74-75

• Hoje quando a Igreja deseja viver uma profunda renovação missionária, há uma forma de pregação que nos compete a todos como tarefa diária: é cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos. É a pregação informal que se pode realizar durante uma conversa e é também a que se realiza um missionário quando visita um lar. Ser discípulo significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e isso sucede espontaneamente em qualquer lugar da rua: na rua, na praça, no trabalho, num caminho.
Papa Francisco – A alegria do Evangelho, n. 127


Oração

Dia após dia, Senhor,
vou te pedir o que tu sabes:
ver-te mais claramente,
amar-te mais ternamente,
desfrutar-te mais alegremente,
esperar-te mais vivamente
e seguir-te mais fielmente.
(F.Ulíbarri)


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Dar sabor à vida

José Antonio Pagola

Uma das tarefas mais urgentes da Igreja de hoje e de sempre é conseguir que a fé chegue aos seres humanos como “boa notícia”.

Muitas vezes entendemos a evangelização como uma tarefa quase exclusivamente doutrinal. Evangelizar seria levar a doutrina de Jesus Cristo àqueles que ainda não a conhecem ou a conhecem de maneira insuficiente.

Neste caso nos preocupamos em assegurar o ensino religioso e a propagação da fé diante de outras ideologias e correntes de opinião. Buscamos homens e mulheres bem formados que conheçam perfeitamente a mensagem cristã e a transmitam de maneira correta. Tratamos de melhorar nossas técnicas e organização pastoral.

É claro que tudo isto é importante, pois a evangelização implica anunciar a mensagem de Jesus Cristo. Mas o essencial não é só isto. Evangelizar não significa somente anunciar verbalmente uma doutrina, mas tornar presente na vida das pessoas a força humanizadora, libertadora e salvadora que se encerra no acontecimento e na pessoa de Jesus Cristo.

Se assim entendermos a evangelização, o mais importante não será contar com meios poderosos e eficazes de propaganda religiosa, mas saber atuar com o modo libertador de Jesus.

O decisivo não é contar com homens e mulheres bem formados doutrinalmente, mas poder contar com testemunhas vivas do Evangelho, crentes em cuja vida se possa ver a força humanizadora e salvadora que se encerra no Evangelho, quando acolhido com convicção e de maneira responsável.

Nós cristãos confundimos muitas vezes a evangelização com o desejo de que se aceite socialmente “nosso cristianismo”. As palavras de Jesus chamando-nos a ser “sal da terra” e “luz do mundo” nos obrigam a fazer-nos perguntas muito sérias como as que seguem:

Será que nós cristãos somos uma “boa notícia” para alguém? O que se vive em nossas comunidades cristãs, o que se observa entre os crentes, é “boa notícia” para as pessoas de hoje?

Será que nós cristãos colocamos na atual sociedade algo que dê sabor à vida, algo que purifique, cure e liberte da decomposição espiritual e do egoísmo brutal e insolidário? Vivemos algo que possa iluminar as pessoas nestes tempos de incerteza, oferecendo uma esperança e um horizonte novo aos que buscam salvação?


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Ser sal e luz

Pe. Johan Konings

Ao ouvir o trecho do Sermão da Montanha do evangelho de hoje, alguém pode perguntar: “Que pretensão é essa de dizer que os seguidores de Jesus, gente simples e sem brilho, devem ser ‘sal e luz’ para o mundo?” Jesus quer dizer que esses simples galileus, agora reunidos na comunidade do Reino de Deus, dão sabor ao mundo insípido e devem deixar brilhar as suas boas obras, para que as pessoas deem graças a Deus. Pois Deus é reconhecido nas boas obras de seus filhos. Isso significa também que não devem fazer as boas obras por vaidade própria: uma “luz” boa não ofusca a vista com seu próprio foco, mas ilumina o mundo em torno de si. A 1ª leitura dá um exemplo de como deixar brilhar essa luz: saciar os famintos, acolher os indigentes, afastar a opressão de nosso meio …

A sociedade de hoje procura um brilho bem diferente daquele do evangelho: luxo e esbanjamento, diploma comprado e esperteza para enganar os outros … O sal e a luz do evangelho não são reservados aos que têm riqueza e poder. Encontram-se na vida do mais pobre. Este pode ser sal e luz até para os ricos e cultos: faz-lhes ver a vida em sua nudez e provoca no coração deles a opção fundamental. Diante do pobre, os abastados têm de optar a favor ou contra o Cristo pobre. A solidariedade dos pobres e com os pobres questiona os “valores” de uma sociedade individualista e competicionista, na qual cada um abocanha tudo quanto consegue. O povo dos pobres é, para todos, a luz que lhes faz ver a dimensão decisiva de sua vida. O brilho do mundo, ao contrário, leva ao tédio; em vez de sal e luz, escuridão e entorpecentes …

A 2ª leitura de hoje nos lembra que o Cristo, centro e inspiração de nossa vida, não combina com o falso brilho do mundo: “Nada a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”. Os cristãos devem colocar sua glória somente em Cristo. Paulo não prega coisas de sucesso, mas o Cristo crucificado, para que a fé não se baseie em sabedoria de homens, mas no poder de Deus, que ressuscitou Jesus.

Para sermos sal e luz, Cristo não ordena esforços sobre-humanos. Basta nossa adesão cordial e íntima a Jesus e a sua comunidade. “Sois o sal… sois a luz … “. Quem adere de verdade à comunidade do Reino que ele convoca, será sal e luz. Se somos verdadeiramente discípulos dele, comunicamos cor e sabor ao mundo. Por nossa bondade, simplicidade, justiça, autenticidade e também por nossos sacrifícios, se for o caso, tomamos o mundo luminoso e gostoso, de modo que os nossos semelhantes possam dar graças a Deus.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella